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Brasil nascendo com o carnaval

 

Fevereiro é marcado pelo carnaval. Pouco menor que os demais, é mês esperado com ansiedade por conta da permanente luta pela afirmação da liberdade de ganhar espaços sobre a sisuda do trabalho, característica do mundo criado pela sociedade europeia em sua afirmação sobre as  demais possibilidades de civilização.  As instituições religiosas e a dinâmica imposta pela necessidade da acumulação da riqueza obrigaram gerações a esquecerem das brincadeiras espalhadas durante o ano. As sisudas roupas negras dos quackers, dos puritanos e jesuítas tocaram até mesmo o marrom franciscano que recebeu a preocupação capuchinha pelo pecado. A sonoridade alegre de Palestrina foi sendo substituída pela alegria fugidia do barroco. Novas tecnologias trouxeram facilidades à vida diária e a morte foi ficando distante. Passamos ter mais tempo para produzir riquezas e, se conseguimos chegar à velhice poderíamos tudo isso degustar. Assim fizemos algumas mudanças em nossas vidas, nossas ruas ficaram mais amplas para os donos automóveis e para os ônibus lotados de trabalhadores que se multiplicaram, graças ao avanço da ciência que auxiliou a aumentar a produção de alimentos e inventar meios e vacinas com o objetivo de tanger a morte. Ganha-se tempo. Economiza-se  força muscular, anda-se menos, palácios tornaram-se casas, cortiços foram transferidos para favelas, os hospitais com seus batalhões de médicos, enfermeiras e psicólogos nos orientam a como nos manter vivos. Nas escolas, agora em maior número e diversificadas segundo a classe social, nos oferecem os instrumentos que nos ajudam a atravessar as ruas e entender um pouco do que acontece ao nosso redor. Mas ficou a nostalgia do carnaval.

Ao término do século XIX, no Brasil de cristianização católica superficial e modernização rala, o carnaval parece ter servido de caminho para que as camadas com menor acesso aos bens da modernidade ganhassem as ruas e reinventassem o Brasil, forçando que os participantes dos bailes que ocorriam em recinto fechados olhassem pela janela e observasse que os recentemente liberados do trabalho escravo, junto com os que, embora livres do trabalho forçado, não tinham permissão para inventar – em uma sociedade escravocrata não pode haver liberdade de nenhum tipo, ocorrem variações do mesmo – criaram um novo modo de divertir-se e , tomando as ruas, reinventaram o carnaval. Não como o de Veneza ou Amsterdan, Nova Orleans ou Quito. Foi sendo criado algo original, o carnaval brasileiro nascendo com o Brasil livre.    Nas cidade onde havia maior concentração de gente pobre tri-centenária (mestiços) e gente pobre de duas ou uma geração na terra (gente liberada pela Lei do Ventre Livre e pela Lei João Alfredo), lugares como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Luiz e outras metrópoles do período imperial, foram palco dessa criação. Inicialmente ocupando apenas os três dias permitidos pela seriedade do Concílio de Trento, foram, ao longo do século XX, ocupando outros tempos, abrindo novas veredas para as múltiplas possibilidade ofertadas pela nossa tradição. Hoje o carnaval compete e supera muitas indústrias criadas pela modernidade. O carnaval moderno é uma indústria produtora de riqueza argentária a partir da riqueza gozosa desse povo brasileiro sintetizador das dores e alegrias do parto da modernidade.

Viva o carnaval e sua luta contra a seriedade dos reformadores dos costumes que, agora são levados a debater e conviver com os costumes que foram criados  nessa luta. O carnaval não pode ser visto como um índice de felicidade, mas pode ser entendido como uma vitória no embate com o mundo magro da seriedade e sisudez dos pastores, padres, gerentes de fábricas, cabos de usinas, etc..  Assim nos fazemos e fazemos o Brasil.

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