Um pouco da família mais ampla

Em Pitimbu, praia do litoral sul da Paraíba, neste domingo de carnaval, comemoro 89 anos de vida de minha mãe e dela eu escuto histórias que a sua memória mãe guarda. Uma delas lembra que não fiquei muito tempo na amamentação, apenas três meses, e, depois disso recusei beber leite o que a obrigou a fazer-me comer papa ou mingau, como se alimenta a gansos, colocando pedaços ou quantidades de alimentos boca adentro e garganta abaixo. Assim sobrevivi, cresci forte. Sou um pouco disso tudo. Em seguida sua memória a leva a conversar sobre seu pai, meu avô Severino Cota. A lembrança é sobre a sua vida amorosa, algumas mulheres que meu avô tentava esconder da família, mas que elas terminavam por aparecer. Parece que sua infância e adolescência estavam permeadas dessas experiências. Outras lembranças são em torno de prédios, especialmente os templos católicos. Ela olha a Igreja do Senhor do Bonfim e a compara com a igreja de Angústia, um engenho onde ela costumava ir com a mãe e irmãs para rezar, assistir missas, rezar o Mês de Maio. As construções de cada época trazem a característica, a marca identitária do tempo criada pelos homens e mulheres. Além do mais, naqueles tempos da juventude de minha mãe, os principais prédios eram, efetivamente, os prédios religiosos católicos e com a marca típica da Reforma ou do Neo-clássico. Nos dias atuais são os templos da Assembléia de Deus que estão a marcar a paisagem da nova religiosidade cristã na Mata Norte. O catolicismo não é missionário, acomodou-se às normas da neo-cristandade.

À noite, na praça frontal à igreja, ocorreu uma dança da Aruenda. Pela rua marginal à praça alguns blocos passaram, com caminhões sonoros que fazem a marca das aglomerações de divertimento, mais conhecidos como “trio elétrico”. Quando aconteceu o desfile da Aruenda, por volta das dez da noite, os carros dos turistas e dos moradores recusavam a ceder passagem para um bloco que vai à rua apenas com percussão e o som das vozes dos desfilantes. Ninguém sabe mais o que é Aruenda, uma tradição que desapareceu (?) ou transmutou em novos folguedos, como os blocos, os maracatus. Assim disse Rogério, o professor que está revivendo a Aruenda de Pitimbu, silenciada a mais de trinta anos. Ao fim da noite tive uma conversa bastante produtiva que, sei bem, renderá algumas folhas de papel. Voltarei a conversar com esse professor da Rede de Ensino Estadual de Pernambuco, na cidade de Goiana.

O Mais comum nesse carnaval é baixo nível das melodias, das poesias que são cantadas nas ruas, gritadas a partir dos “trios”. Quanto mais alto o som mais entramos no subsolo dos desejos ocultados. Mas o carnaval é para isso, para viver com intensidade a padre baixa do corpo.
Viva Momo

About the Author

Nascido em Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernamabuco, cresci no Recife, onde fiz todos os meus estudos em escolas públicas. Sou formado em Teologia no Instituto de Teologia do Recife - ITER; licenciado em História pela UFPE, onde defendi dissertação sob o tema "A Primeira Guerra Mundial na Tribuna religiosa: o nascimento da neo-cristandade" e a tese doutoral "Entre o Tibre e o Capibaribe: os limites da igreja progressista na arquidiocese de Olinda e Recife". Publiquei Anotações para uma visão de Pernambuco no início do século XX, pela Editora Universitária UFPE. Sou pai de Ângelo, Valéria e Tâmisa,filhos de tereza; e avô de Rafael, Lucas, Tereza e Carolina . Agora sou pai de Isaac, filho de Manuela. Tenho pesquisado a cultura e a sociedade da Zona da Mata Norte de Pernambuco e dessas pesquisas publiquei Festa de Caboclo; Estrela de Ouro de Aliança, a saga de Uma Tradição; e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da Mata Norte.