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Carnavais

O texto abaixo, com algumas modificações e adendos, foi escrito no limiar do carnaval de 2010. Minha esposa pediu a sua republicação. Assim o faço.

Estamos no inicio de fevereiro e nos aproximando do período de preparação para a maior festa popular, a festa que põe o mundo de cabeça para baixo, a festa que faz a gente viver os mais estranhos sonhos, os sonhos em que os homens e mulheres mais pobres saem para a rua com o orgulho de serem chefes de tribos, nações, príncipes, princesas. O Carnaval é a festa que os deixa imaginar e viver o mundo em que a gente se sente importante.

O Carnaval é uma criação de todos, dos pobres, principalmente, e dos ricos. O Carnaval é uma festa em que todos podem participar, porque ela acontece na rua e não precisa de muita coisa. Faz uns cento e cinqüenta anos que os bailes de carnaval aconteciam apenas nos clubes e os pobres que ali entravam era apenas para trabalhar. Mas aí, quando foi acabando a escravidão no Brasil, os homens e as mulheres livres, muitos deles ex-escravos, começaram a sair para brincar nas ruas como a imaginação permitia. Uma coisa que ajudou muito a invenção do Carnaval no Brasil foi o fato que as pessoas que tocavam nas bandas que acompanhavam as procissões eram pobres, antigos escravos ou filhos de escravos. Os músicos que tocavam acompanhando as procissões, também tocavam nas bandas militares e começaram a acompanhar as pessoas que formaram alguns blocos para sair nas ruas durante os dias de carnaval. E o interessante é que muitos dos primeiros blocos eram organizados de acordo com a profissão ou o ofício das pessoas. O Clube Vassourinhas, tanto no Recife quanto em Olinda era o clube das pessoas que varriam as ruas; havia o Clube dos Lenhadores, cujo nome indica a profissão, e assim muitos outros.

Havia desde algum tempo o desfile do Rei do Congo, patrocinado pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Mas essa Irmandade, como muitas outras foram perdendo a relevância em uma sociedade em mutação, especialmente após a crise que levou os bispos de Olinda e do Maranhão à prisão. O avanço da organização social laica diminui sua dependência das instâncias religiosas para impor a ordem social. E então os desfiles dos Reis de Congo adaptaram-se aos novos tempos despedindo-se dos rituais que os ligava ao sagrado cristão-católico. Passaram a sair como diversão, agora no carnaval que supera o entrudo. Formam-se os primeiros Maracatus de Baque Virado, sendo uma cortina diáfana, segundo alguns, da sua nova razão religiosa, o Xangô que se organiza nas zonas periféricas do Recife.

Na Região da Mata Norte, começou o aparecimento de grupos de índios, como a Tribo Cahetés, ainda em 1907. Por esse período, muitos homens dos sítios, sujavam a cara com carvão saiam vestidos de com as roupas de suas mulheres e viravam Catirinas e saiam de Jereré e ficaram conhecidos como Cambindas, talvez porque bebiam cachaça e tiravam o gosto da branquinha com essa piaba que a gente compra seca nas feiras de nossas cidades. Outros se vestiam de índios e viravam caboclos e, com suas lanças, faziam medo a muita gente. Assim foi nascendo o nosso carnaval, o Maracatu de Baque Solto.

O nosso carnaval deve ser preparado pelos nossos prefeitos e secretários cuidando para que todas as nossas tradições sejam respeitadas, e também as mais novas, muitas que chegam só para ficar algumas horas. .

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