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Balanço do Carnaval

 Terminou o carnaval deste ano de 2011 e vamos pensar um pouco no que fizemos. Se no passado mais distante o carnaval era uma brincadeira religiosa que louvava a vida, depois foi incorporada ao cristianismo como uma festa que antecede a Quaresma, desde final do século XX vem se tornando um dos mais importantes momentos da indústria do turismo, um espetáculo que apresenta a nossa cultura, a nossa criatividade ao mundo. A indústria do turismo cresce em nosso país, o que provoca um crescimento do turismo interno, nossa região está se tornando um lugar especial para os visitantes de outras partes do Brasil, e gente de muitas nações e países. Aqui eles encontram uma festa para seus olhos e ritmos para seus corpos e almas dançarem.

Vivemos uma época em que todos estão conectados, todos influenciam e são influenciados. O mundo se tornou uma aldeia na qual, pela televisão e pela internet, há a possibilidade de uma pessoa que, morando em qualquer de nossas cidades, converse com uma pessoa que mora na Europa, na América do Norte, na Ásia, África ou Oceania. Essa é uma das maneiras que nós temos de receber influência e de influenciar.  Nosso carnaval faz parte desse processo que chamamos de globalização. Essa é uma das razões que um pedaço do nosso carnaval se parece com o carnaval do Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia. Somos influenciados pelos interesses econômicos das empresas que querem lucrar com nossa alegria. Mas isso nós também fazemos, pois o carnaval é um bom negócio para os nossos vizinhos que montam barracas para vender comidas e bebidas para os que estão se divertindo. Os blocos que existem em nossas cidades são antigos, alguns têm cinqüenta anos e, nos primórdios o frevo e a marcha corrida marcavam o compasso dos foliões. Os tempos mudaram e as influências externas levaram a adoção de novos instrumentos e ritmos conhecidos como “música baiana”. Letras de fácil assimilação acompanhados por movimentos simples são facilmente aprendidos pelos seguidores. O crescimento desses blocos foi de tal monta que muitos julgavam estar próximo o fim do frevo e outras expressões da cultura local. Qual a o que?  Estamos a participar do início de um momento de refluxo, e assistimos um renovado interesse pelos Blocos Líricos, o crescimento das bandas e, por conta da defesa do patrimônio histórico, os ditos “trios” estão sendo substituídos por orquestras, como assisti nas ruas de Goiana. A preocupação dos maestros em formar novos músicos como escuto em Goiana, Condado, Nazaré da Mata, Aliança, Recife, Olinda e outras cidades, é uma demonstração da vitalidade da cultura local que atrai a cada ano mais turistas para o carnaval pernambucano.

Além de lugar de lazer, o Carnaval da Zona da Mata Norte tem se tornado uma fonte de estudos históricos, antropológicos, etno-musicólogos e outros ramos da ciência para teses que são defendidas na França, Escócia, Áustria, Inglaterra, Estados Unidos da América do Norte. Além, evidentemente, de estudos produzidos nas universidades da região, pois a cada dia aumenta o interesse nosso por nós mesmos, apesar de termos departamentos em nossas universidades que teimam em serem Pontos de Cultura Européia, fortalecendo mentalidades do século XIX.

Neste mundo globalizado é impossível – não é desejável – o isolamento, por essa razão é vital estimular a troca de experiências humanas pelo viés cultural para que ele não ocorra apenas dirigido e orientado pelo interesse econômico. Uma síntese da adaptação e manutenção das tradições é o Maracatu de Baque Solto e as Tribos de Caboclinhos da Zona da Mata Norte de Pernambuco, que vem selecionando e utilizando o que a Indústria da Comunicação que lhes impor. Maior dificuldade ele tem em enfrentar com sucesso a Comissão Organizadora do Carnaval do Recife, que impõe critérios de julgamento, de exclusão, a cada ano com novas exigências para o desfile e o recebimento de prêmios e verbas. E virão dizer que fizeram reunião com os líderes dos caboclos, mas se esquecerão de lembrar que esses criadores e criadoras da cultura estão emergindo dos estratos subalternos em que foram postos por senhores de terras e homens. A cultura brasileira está sendo formada pelos que foram excluídos no passado e, com alguma dissimulação, podem ser excluídos pelos herdeiros da opressão passada. Mas vamos ganhando essa parada porque os turistas e estudiosos que atravessam o Atlântico, se distanciam do Pólo Norte ou saem de suas cidades brasileiras para brincar nas ruas de Olinda, Recife, Nazaré da Mata, Goiana, Carpina, Timbaúba, Aliança, Vitória de Santo Antão querem mesmo é curtir aquilo que nós fazemos e criamos.

Severino Vicente da Silva

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