Arquivos

Vigilantes do peso no carnaval

Tivemos algumas horas de apagão, ou ‘um longo período de interrupção de fornecimento de energia elétrica’, conforme definição do ministro das minas e energias, confirmando que uma tradição que vem se firmando na atuação daqueles que tomam assento naquele ministério. Não faz muito tempo que a atual presidente, quando era chefe da casa civil do governo anterior, negava que houvesse havido no país um apagão. A sua mudança para uma cadeira mais importante demonstra que um grande percentual dos brasileiros acreditou que havia sido uma alucinação coletiva aquilo que costumava chamar de blackout.

Isso é tão engraçado como escutar do governador de Pernambuco a pérola de achar que o Rei Momo não pode ser mais gordo, pois devemos ensinar as pessoas a serem saudáveis. (os magros tuberculosos devem ser muito saudáveis) E o mais interessante é que também assim pensa o prefeito do Recife. O Rei Momo no carnaval em Pernambuco será magro, como magra têm sido a participação e a paga aos artistas locais. Gordura mesmo só para os pagamentos aos artistas que são convidados para o carnaval em Pernambuco. Sim, pois graças a essa invenção de carnaval multicultural (adjetivos, adjetivos, adjetivos…) os artistas locais vivem reclamando do pouco que se lhe pagam e só depois do carnaval e, se formos acreditar no que dizem, creio que devemos, esse pagamento vem sempre com atraso. Ora, fosse o governador e prefeito dotado do sentimento do povo saberia que o Rei Momo é gordo e deve ser gordo porque o povo sempre teve mesa magra.  

No carnaval, o governador e o prefeito deveriam saber, uma das principais figuras é o Rei Momo, um gordo sempre contente, risonho, com um copo de bebida em uma mão e um pedaço de carne na outra. O carnaval é um feriado em que a graça é ser diferente do que se é no resto do ano, é um período em que o mundo fica de cabeça para baixo, ou seja, muito diferente, tão diferente que ninguém se preocupa em trabalhar, mas apenas em se divertir(www.biuvicente.com/historiaecanavial). Claro que o governador trabalha, bem como o prefeito também o faz, como se comprova pela limpeza das ruas do Recife e pela felicidade que o povo reflete nas filas dos hospitais, no aprendizado das crianças, no entusiasmo dos professores e no imenso percentual de popularidade e votos espelhados na última eleição. Mas, os secretários de cultura desses executivos públicos deveriam lembrar que existem aspectos simbólicos nas vidas das pessoas e das sociedades. Cultura não é apenas um meio para se ganhar emprego e dinheiro. Não, não é uma boa idéia levar para o carnaval os bons conceitos emitidos pelos nutricionistas.

Considerando que a maioria dos foliões fica feliz com pouco, os que podem comer muito nos camarotes oficiais, deviam ao menos deixar o povo se divertir e não definir  esse tipo de coisa, querer definir se o povo deve gostar de um Rei Gordo ou não. No passado já fizeram isso enfiando uma corte no Maracatu de Baque Solto (mas isso foi no tempo dos fascistas do Estado Novo, vão me dizer). Creio que os dos camarotes podem até continuar pagando para que dancemos sambas, boleros, valsas, merengues e, quem quiser que vá quebrar o pescoço olhando para os palcos onde os artistas cantam e rebolam, mas deixem o Rei Momo em paz, deixem as pessoas terem o seu Rei, gordo, de olhos pretos, cabelos morenos, pele escura e riso debochado, enquanto dançam o frevo de rua, como no tempo em que derrubaram os conselheiros e delegados do passado.

Essa é boa: uma reunião dos vigilantes do peso para escolher o rei momo dos momos que querem governar o carnaval.

Curta e compartilhe:

You must be logged in to post a comment.