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Educação, São Salvador do Mundo nas olimpíadas de Tókio

sexta-feira, agosto 6th, 2021

Educação, São Salvador do Mundo nas olimpíadas de Tókio

Prof. Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)

Todos os dias sou informado, em dos grupos que participo na rede internacional de comunicação, qual a festividade, qual a lembrança, qual a efeméride ou dedicação do dia. Essas dedicações diárias parecem que pretendem nos educar, nos ligar com o passado e nos preparar para o futuro. Vejo que hoje é feriado em Olinda em homenagem ao padroeiro São Salvador do Mundo; é, também o Dia do Profissional da Educação. Não é o dia do professor, ele apenas um dos muitos profissionais que se dedicam a educar uma geração, ligando-a àquelas que passaram e fizeram o mundo social que vivemos. Educadores são todos os seres humanos, pois todos somos convidados a auxiliar as novas gerações a aprimorar o senso crítico, as suas faculdades intelectuais, físicas e morais. Interessante é que acabamos de sair do pedagógico Mês de Santana, exemplo de educadora. Para os cristãos, foi ela que cuidou a educação de Maria, preparando-a para ser capaz de assumir as responsabilidades que a vida lhe traria. Assim Maria também fez com seu filho e os amigos de seus filhos.

O melhor ato pedagógico é o exemplo, a ação do educador, seu jeito de passar o conhecimento, de ser a ponte das gerações, a liga da humanidade. O comportamento dos mais velhos vale mais que as palavras que ele emite. Ideal é que as palavras estejam sintonizadas com os gestos, pois o ato de educar assim o exige. A ação de educar, é a educação. Quando a ação está distante da palavra, cria-se uma confusão nos mais novos.

Como admitir que alguém ame o povo brasileiro e achincalhe este povo e o deixe morrer, evitando tomar as medidas necessários para diminuir o sofrimento do quem morre e de quem sobrevive à maldade da omissão?

Faz muito tempo que os portugueses chegaram nas terras de Olinda e começaram a viver aqui segundo a educação que receberam e, nos limites de seu tempo e nas condições do tempo em que viviam, buscaram educar o lugar. Trouxeram as certezas que receberam dos seus antepassados e, aqui procuraram viver como foram educados. Evidentemente que, embora sejamos resultados dessa educação, entre aqueles tempos e nosso tempo, muitas mudanças ocorreram, novos conhecimentos foram adquiridos, e foram assimilados com o senso que haviam recebido. Uma das coisas que aprenderam foi o conhecimento das coisas sagradas, aprenderam que houve uma perda e que lhes foi enviado um Salvador para o mundo, e que este Salvador indicou que deviam levar esse conhecimento a todos os lugares da terra. Era isso que estavam fazendo, e o fizeram com os sentimentos das condições que lhe foram dadas nos tempos em que viveram. Esse mandamento, para eles, implicava entender que o outro não tem nada a ensinar sobre as relações com as coisas sagradas, embora tivessem muito a transmitir sobre os conhecimentos práticos para a sobrevivência na terra onde vieram se estabelecer. E aqueles homens e aquelas mulheres tinham tanta certeza disso que provocaram muitas dores e sofrimentos, e devem ter sofrido também. Mas o fizeram porque acreditavam que estavam salvando o mundo, enquanto destruíam outros mundos, tudo reduzindo ao seu mundo. É uma confusão semelhante às confusões a tantas outras ocorridas em outros grupos sociais, neste e em outros continentes e outras culturas e civilizações. Alguns nem sentiram a necessidade de dizer que faziam isso em nome de alguma divindade, mas fizeram mesmo assim. Os seres humanos se organizam dessa forma.

Passados alguns séculos e muitas experiências, hoje a ideia de Salvador do Mundo é outra, embora haja alguns que ainda pensam como Duarte Coelho Pereira e seus companheiros. Faz quinhentos anos era a negação da cultura do outro, hoje os que seguem a tradição do Salvador do Mundo não desejam ampliar as diferenças existentes entre os grupos, mas reconhece-las, aceita-las conviver com elas.

A tarefa dos educadores e profissionais da educação é auxiliar as novas gerações a entender e viver essa nova maneira de ser como o Salvador do Mundo. Mas isso implica que os educadores ajam de modo que suas palavras sejam acompanhadas pelos seus gestos. Quando o Comitê Olímpico se nega a acompanhar os japoneses em um minuto de silêncio em respeito aos que morreram quando da explosão da bomba atômica sobre a cidade de Hiroxima, um gesto de compromisso de evitar que o que ocorreu em 6 de agosto de 1945 volte a acontecer, está a negar o ideal olímpico de buscar a paz entre os povos, está a saudar apenas a competição, não o congraçamento dos povos representados pelos seus melhores atletas que, também deveriam desejar ser melhores cidadãos e melhores seres humanos.

Educar é uma ação cotidiana e ocorre a cada movimento dos seres humanos.  

Professores e Crianças

segunda-feira, outubro 14th, 2019

Metade de outubro passou e com ele o Dia das Crianças: aquelas que vivem em famílias razoavelmente equilibradas; aquelas que vivem em lares em crise; aquelas que estão sem famílias; aquelas que estão com dificuldade em chegar à escola por conta de confrontos entre policiais e bandidos, bandidos e bandidos; aquelas que são maltratadas por seus familiares; aquelas que foram mortas por balas sem direção específicas e que não se perderam pois encontraram um corpo onde se alojar; aquelas que são bolinadas por parentes. São muitas crianças que vivem em uma infinidades de condições precárias, em regiões sem saneamento básicos e em apartamentos ou condomínios sem saneamentos espirituais. Nem todas as crianças do Brasil têm a oportunidade de frequentar escolas, terem um professor para as introduzir no mundo maravilhoso das técnicas que facilitam o conhecimento do mundo: o mundo passado, guardado nas memórias e nos livros; o mundo presente experimentado no momento que dele e nele se aprende e apreende; o mundo futuro, este criado pela própria criança que vai se tornando parte do mundo que a envolve. Tudo isso pode ser a escola, onde a criança divide o protagonismo com o professor, este bruxo que sabe quase nada, mas como pensa e ensina a pensar, parece tudo saber. Mas só por algum tempo, o tempo que leva a criança a dominar as técnicas que o professor vai lhe entregando, transmitindo e criando.

Ser professor é sempre tratar com crianças, independente da idade cronológica. Claro que cada idade tem suas características específicas e, quanto mais velhas, adultas, mais auxiliam o professor a encontrar novos desafios. Um sociólogo que foi presidente e professor, uma vez disse que “quem não sabe fazer, ensina”, como ele próprio confirmou quando pretendeu, quando presidente, iniciar o ano letivo em uma sala de ensino básico: mostrou que ele não sabia dar aula, mas ensinava e explicava muito bem o sentido de uma aula. Um professor não precisa saber tudo, ensinar tudo. Na verdade o professor, o bom professor não ensina tudo, ele sempre deixa um espaço para que o aluno ensine a si próprio. Esse negócio de professor “dar todo o programa”, programar em janeiro a aula que será em maio, é uma invenção de quem está distante do complexo universo da sala de aula, do imenso campo de relações que envolvem professor e aluno. Exigir que as aulas programadas sejam dadas efetivamente como foram planejadas, é tratar serem humanos como máquinas. Tentaram isso de tal forma que as máquinas passaram a ser modelo para os homens e as mulheres. Ainda bem que que sempre existe a possibilidade do “caos”, a possibilidade do “erro”, pois são nesses pequenos espaços que a humanidade é construída.

As pessoas aprendem quando são “treinadas” ou ensinadas a pensar, sendo que esta é a principal função, o principal objetivo do professor, desde o tempo de Sócrates, que respondia perguntando; de Jesus , que respondia contando histórias. Recentemente, com a formação dos Estados Modernos e Contemporâneos deu-se o fenômeno de tornar o professor um repetidor de alguns dos milhares conhecimentos que a humanidade tem criado. Todos os Estados concentradores do poder exigem que o professor seja apenas um repetidor dos fatos que interessam, e os estudantes sejam aqueles que aceitam tudo o que lhes disserem. Foi assim na civilização chinesa baseada em Confúcio; assim foi na civilização baseada na repetição exata das Surras; nas sociedades europeias pós Reformas Religiosas com os catecismos de Lutero, com as listas de capítulos e versículos bíblicos fundamentais dos calvinismos; assim também é nos catecismo católico-romanos desde Trento; nos manuais dos marxismos totalitários e suas “leis científicas da história e a indefectível relação dos modos de produção”. Nessas sociedades ocorreram reformas cívicas, e aos professores tem sido negado a possibilidade de inovar, de pensar criativamente. No máximo se permite ao professor Re- novar, fazer de conta que se está a fazer algo de novo. Por isso sempre lhe oferecem cursos de “reciclagem”, de “atualização”, de “renovação de práticas”, etc., algo que vai Re- produzir. Casso ele escape daquilo que a instituição na qual ele exerce o metiê de ensinar, e ela perceber que ele está ensinando, inovando, criando, induzindo o aluno a pensar além dos livros de respostas, o professor será castigado de alguma forma por fazer aquilo que é a sua vocação, por se recusar agir como uma máquina repetidora de conhecimento. O castigo vem de diversas maneiras e, não poucas vezes, é aplicado por seus colegas, incomodados por terem entre eles alguém que não pensa nem age como eles agem e pensam; alguém que não faz como eles fazem, que não almeja o que eles almejam, que não forma novas máquinas de reproduzir o pensamento dominante, alguém que entende que ser livre é simplesmente ser livre.

Comecei conversando sobre crianças e cheguei aos impasses da prática da vocação do magistério, que é diferente da ação do pedagogo. Aliás esse tem sido um dos enganos da escola brasileira desde o fim da Ditadura terminada em 1985: transformar professores em pedagogos. Desde então professores passaram a ser visto como “profissionais do ensino”, aqueles que formam outros profissionais do ensino. Foram sendo transformados em clérigos, agentes do saber. não é sem razão o constante crescimento de carga horária para disciplinas de técnicas pedagógicas e a diminuição do tempo para reflexão que permite o aprendizado e não a simples memorização de técnicas. o técnico operário não pensa, opera profissionalmente, apesar do discurso amoroso. É impressionante como os pedagogos dizem instrumentar, e não instrumentalizar, seja o discente, o docente. é sempre um pensamento indecente e escravizante.

Sócrates era Professor, não profissional do ensino; Jesus era mestre, não profissional do ensino e do saber. Os fariseus eram profissionais do ensino, replicadores do que os sacerdotes definiam como digno de ser ensinado, razão pela qual eles nunca sabiam o que dizer das parábolas, das história que Jesus usava para abrir a possibilidade do saber. “Vinde a mim as criancinhas”, vinde a mim os que querem o futuro, não os que querem principalmente diplomas, (estudantes que chegam à universidade apenas pelo diploma não gostam de professores, gostam do que e de quem lhes permitirá alcançar o diploma). Sócrates foi professor de Alcebíades e o mestre Jesus também aceitou que conseguiram diplomas, desde que desejassem ser crianças novamente. Pois só as crianças aprendem o novo

Fracasso da educação é o fracasso da sociedade

sexta-feira, agosto 16th, 2019

Nossas orelhas queimam de tanto ouvir reclamações sobre a educação que nossos jovens recebem nas escolas que frequentam. Os resultados alcançados nos exames gerais, nacionais ou aplicados por entidades de abrangência internacional, apontam que os jovens, após 10 ou 12 anos de escolaridades, não conseguem escrever um texto, seja, não organizam as ideias que lhes chegam, apenas as aglutinam; não conseguem resolver problemas simples de aritmética ou geometria, faltando-lhes lógica e, se se lhes pedem que exprimam seus pensamentos, ficam acuados e, tímidos, não nos deixam saber o que lhes passa na mente. Ouvimos dizer que se “gasta” pouco nos anos escolares iniciais e se “gasta” muito nas universidades.

E, então começo a implicar com a expressão “gasto”. Em nossa sociedade esta palavra está relacionada com desperdício. E, pôr verba na atividade de educar a nova geração não pode ser considerado desperdício. Claro que pode haver má gerência e então desperdiçar algo do que foi posto como investimento. E nessa direção podemos encontrar muitos administradores utilizando as verbas de maneira imprópria, diminuindo os resultados esperados. Na verdade, há pouco investimento na educação, pois se tem dessa atividade, em nossa sociedade, uma visão muito tacanha. Os administradores públicos, herdeiros de uma sociedade escravocrata, parecem entender que devem comportar-se como seus antepassados ao oferecer cursos de língua portuguesa aos seus novos escravos. Há escolas municipais, na área rural, que nem mesmo possuem privada, obrigando alunos e professores atenderem aos ditames da natureza na própria natureza. Não havendo este equipamento, imagine o quesito Biblioteca, sala de leitura, espaço para teatro, área de recreação equipada. Neste tempos informatizados e conectados com o mundo, poucas são as salas de aulas universitárias nas quais professores possam utilizar os modernos equipamentos transmissores de informações a serem transformados em conhecimentos, para a formação dos estudantes postos à sua responsabilidade. Se, a alguns, parece que são altos os investimentos em educação universitária, é que eles não percebem que a formação de um cientista, professor, engenheiro, médico, matemático, físico, aquele que virá a ser um administrador de empresa, assistente social, sociólogo músico é um processo longo e caro. A única formação barata é a formação dos idiotas. E, observando o comportamento de muitos que hoje estão liderando o país, após terem passado anos nos diversos graus de ensino, até mesmo nas ditas rigorosas escolas militares, parece que o gasto tem sido enorme.

Das universidades têm saído muitos bons técnicos e poucos humanistas; muitos bons sociólogos e poucos humanistas; muitos bons advogados e poucos humanistas; bons políticos e poucos humanistas. Como a educação é uma atividade de resultados tardios, só agora é que podemos verificar, considerando a atuação de parte da elite, a que está no Congresso Nacional, nos Tribunais Maiores e Supremos, nos gabinetes dos palácios, podemos compreender melhor o quanto nós fracassamos, pois, de certa maneira, nós fizemos crescer parte dessas pessoas e de seus eleitores. (vai ver nós ajudamos, até mesmo com nosso voto, a eleição dos piores). Sim, a educação tem fracassado ao formar líderes que são incapazes de articular uma frase com lógica ou decência ( e isso não se aplica apenas aos atuais), pessoas sem sendo de justiça, moralidade, dignidade, sem respeito aos auditórios, aos seus concidadãos, sem vigor cívico. Sei que alguns deles confundem vigor cívico com baboseiras diante a bandeira ou bravatas do tipo “ a beleza de nossas praias, mulheres”, etc. Mas, considerando a idade média desses que fazem essa pequena representação da sociedade, devemos nos perguntar em que tempo eles e seus professores viveram e se formaram. Tal pergunta nos levará ao período ditatorial. Ainda que após vinte e cindo anos do final da ditadura, estamos sob seus efeitos. Afinal, o atual presidente conseguiu sua dragona durante o governo Geisel. E os generais que o assessoram foram seus comandantes ou colegas. E os mais jovens, e os civis, em quais colégios aprenderam esse desdém pelo povo, precisamos saber para entender essa loucura da terra plana e de que o frio de certos dias e noites prova que não há aquecimento global.

Mas devemos considerar, também, que essas pessoas, como a maior parte das pessoas, ficam pouco horas do dia na escola média, secundária ou superior), grande parte de sua educação ocorre noutros espaços educacionais, como as igrejas, os bares, ambientes de trabalho, campos de futebol, diante da televisão ou no maravilhoso mundo das redes sociais. Isso diminui um pouco a ideia de que os professores são os responsáveis pelo fracasso da escola. Muitos dos que assumem secretarias de educação seguem estão mais afinados com o pensamento político do seu chefe (dono) do que com o que se debate no âmbito da Pedagogia, do Ensino, da Pesquisa. Quero dizer: não são cientistas, e quando o são, agem de forma a seguir o que a propaganda ensinou nos anos setenta: “o importante é levar vantagem em tudo”.

A “o importante é tirar vantagem em tudo”, que ficou conhecida como a Lei de Gérson, juntou-se à outra: “viemos aqui para beber ou para conversar” são duas grandes tiradas “filosóficas” que tem formado, desde a ditadura, a cabeça das novas gerações. Agora, imagine essas genialidades, misturadas com a ideia do “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” governada por quem acredita-se Capitão Nascimento, o Mito da Tropa de Elite.

Quase um ensaio sobre a história da educação brasileira

domingo, maio 12th, 2019

Enquanto o feriado dedicado a homenagear a o Trabalhador, não o trabalho, passava conversávamos sobre o que ocorre neste final da segunda década do século XXI com o sistema de educação brasileiro, com a atuação dos atuais governantes, especialmente os que foram escolhidos para gerir os caminhos da educação: um deles fez a escolha de ser brasileiro, tendo nascido na Colômbia, mas que continua a falar espanhol, na pronúncia e na gramática; o outro, é desses estrangeiros que nascem no Brasil, eternos turistas de sua pátria, desconhecedores de seus compatriotas e resultante de uma educação que sempre negou o Brasil.

Nossa conversa era sobre o financiamento à educação. No Brasil, ao longo de nossa história, cuidar da educação jamais foi uma preocupação do Estado ou da sociedade. Sabemos que ainda temos muitos analfabetos no Brasil e, nossas estruturas sociais estão a produzir mais, nas modalidades de totalmente analfabetos e analfabetos funcionais, desses que se tornam capazes de assinar documentos mas que não o leem pois a leitura os cansa, são os alfabetizados com a função de assinar. Não carece muita imaginação para entender porque o Estado Português pouco se interessava por aumentar o nível cultural de sua colônia, entregue àqueles que se prontificavam em tudo obedecer a El Rei, desde que pudessem extrair e ficar com parte das riquezas produzidas deste lado do oceano Atlântico. Tampouco houve interesse do Estado brasileiro, o que se organizou, depois de 1822, foi utilizando os mesmos alicerces estabelecidos pelos portugueses; afinal, é loucura pensar que donos de escravos viessem a cuidar para que seus escravos tivessem acesso a livros, à palavras que indicassem caminhos como os seguidos pelos ingleses, desde o século XVII, e por outros povos no séculos seguintes. E aqui é bom lembrar que nações como Inglaterra, Alemanha, Estados Unidos, França, Japão, chegaram ao século XX com índices de analfabetismo inferiores a 20 ou 10% de sua população. Interessante é que, excetuando o Japão e a França, a alfabetização da sociedade não foi impulsionada pela ação do Estado, mas resultou, principalmente, de instituições eclesiásticas ou civis. Claro que ocorreu a criação de academias financiadas por algum estadista, como foi o caso do Cardeal Mazarino, e da atuação de príncipes, mas como política de Estado, apenas Frederico Guilherme tornou o estudo e o ensino obrigatório aos seus súditos. Foram sociedades formadas por, sim, gente rica que compreendeu que pouco adianta a sua cultura se ela não puder ser discutida e que tenha um alcance maior do que os espaços de suas salas de estar. As famílias nobres contratavam, elas mesmas os educadores de seus filhos. Nos países que aderiram às Reformas de Lutero, Calvino e outros reformadores, a necessidade de acompanhar as leituras bíblicas, nos lares e nas igrejas, motivou o desejo da leitura. Reconhecer o valor de quem estuda, escreve, pensa, divulga o pensamento é um dos fatores que fez surgir a sociedade democrática; e facilitar o acesso ao conhecimento, é outro caminho que parece ter sido empregado por aquelas sociedades. E assim fizeram e fazem ainda,é porque a sua riqueza e a riqueza de sua nação andam quase em paralelo. Para supor isso, basta verificar o quanto de bibliotecas e museus existem nas cidades de tais povos, e como elas são tratadas, e como os livros são parte do cotidiano. O Estado, naqueles países, só veio cuidar da educação como sua política, na segunda parte do século XIX, premidos pelos avanços do conhecimento e da Revolução Industrial.

A preocupação com a educação das massas é consequência da Revolução Industrial, pois a nova tecnologia exigia conhecimentos básicos de leitura dos operários. É só no final do século XIX e início do século XX que a educação das massas tronou-se uma preocupação dos países que se envolveram com o processo de industrialização, tornaram-se desenvolvidos, países centrais. No Brasil, em que pese os debates que geraram o otimismo da educação, e mesmo o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, ainda na primeira metade do século XX, e que, redigido por Fernando de Azevedo, foi assinado também por Anízio Teixeira, Loureço Filho, Afrânio Peixoto, Cecília Miereles, entre outros, as estruturas econômicas do Brasil não haviam mudado de forma a exigir um esforço na direção da educação das massas. E mesmo da juventude da elite, que então era enviada para estudar na Europa. Foi a crise de 1929 que obrigou industriais paulistas a criarem uma escola superior em São Paulo, A Faculdade de Filosofia e Ciências e Letras de São Paulo, germe inicial da Universidade de São Paulo.

O Estado brasileiro continuava contente com as escolas de Medicina e Engenharia criadas por Dom João, o Regente de Dona Maria, e com as escolas de Direito criadas por Dom Pedro I. Em termos de educação básica, tudo foi remetido, no Ato Adicional de 1840, para os municípios, sabidamente incapazes de realizar a tarefa, seja por falta de numerário seja por ausência de gente capacitada, além do desinteresse das Câmaras. E, se durante o império foram criadas algumas escolas públicas nas capitais das províncias, nos sertões, a educação só existia pelo interesse de alguns proprietários e padres que criavam escolas para transmitir o mínimo necessário para os filhos da elite e seus imediatos. Afinal, era um país escravocrata.

Durante a República Velha, até 1930, pouco se fez para a expansão do acesso dos jovens à Escola. Entretanto foi muito comum o Estado a criar escolas normais que objetivavam formar professoras de ensino básico. Mas foram as instituições religiosas – católicas e protestantes – as principais responsáveis pela formação da juventude da elite e de setores da classe média, ou melhor, dos filhos de funcionários do Estado, preparando-os para as funções mínimas a serem realizadas pela burocracia do Estado e pelo comércio. Já o Estado Novo preocupou-se mais com o controle dos operários, através da criação de sindicatos e de uma legislação trabalhista que lhe garantiu a submissão os operários e dos sindicatos; as escolas existentes ou que foram estabelecidas no período estavam voltadas para um pequeno grupo da população, e era dirigida para criar um sentimento patriótico nacional. Mas como era para atender a poucos, havia a possibilidade de cultivar a boa qualidade dessa escola. As mais pobres se viam à margem, atendidos por particulares que abriam escolas em suas casas. Ao apagar das luzes da ditadura do Estado Novo foi criado um sistema de educação visando atividades econômicas específicas – Sistema S de Educação: SESI, SENAC, SESC. Mas o ensino técnico profissionalizante, criado por lei ainda no início da segunda década do século XX, jamais foi levado muito a sério em uma sociedade formada, dirigida e planejada para bacharéis, filhos e netos de escravos, que tinham ojeriza ao trabalho manual. E para o trabalho diário de lavar roupa, ou cuidar do jardim, melhor que as pessoas a elas destinadas não gastassem tempo nas escolas.

A década de 1950 assistiu uma parte da sociedade entusiasmada pelo desenvolvimento social e econômico, manifestado no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, e assistiu a migração dos mais pobres e explorados para o sudeste, debateu exaustivamente uma Lei de Diretrizes e Bases para a educação brasileira, que só veio a ser aprovada no início da década de 1960, atrasando o estabelecimento de uma medida comum, um sistema educacional. Nessas duas décadas, 40 e 50, começaram a ser criadas as universidades federais, o que aconteceu formando ajuntamento de escolas superiores que funcionavam autonomamente, e agora passavam a girar em torno de uma Reitoria. Mas as universidades serviam a poucos, porque eram poucos os que frequentavam as poucas escolas existentes. Foi apenas depois de 1964 que começou a ocorrer a universalização do ensino básico, com a criação de um maior número de escolas públicas e, também de professores. Entretanto foram diminuídas as exigências para a contratação de professores, com a suspensão de concursos públicos, ao mesmo tempo em que o arrocho salarial foi depreciando o valor do trabalho, notadamente o de magistério. Relegado ao município, o Ensino Básico foi crescendo em quantidade e deficiência, por falta de professores e por conta das condições necessárias para o funcionamento das escolas, inclusive pela ausência de professores, bibliotecas e equipamentos básicos para o mister. A solução encontrada foi a decisão de tornar, após um curso de atualização e nivelamento de conhecimentos didático-pedagógicos, com duração de um ano, advogados, biólogos, padres, pastores, qualquer um com formação superior, prontos para o ensino. E isso foi forçando a ampliação do ensino superior pois, mesmo aos trancos, a universidade começava a ser horizonte de muitos jovens. Então, na década de 1970 deu-se uma tentativa de universalização do ensino superior, com o estabelecimento de autarquias municipais de educação, com a criação de cursos de formação de professores com o objetivo de atender as demandas locais. Mas, mais uma vez, não ocorreu a formação de profissionais para as áreas técnicas, para química, física, matemática. Embora pressionados pela expansão da industrialização, os entes públicos (federação, estados, municípios) continuaram na tradição de manter o espírito bacharelesco, não formando profissionais que pudessem ser aproveitados nas indústrias e que possibilitassem avanço nas pesquisas tecnológicas, garantindo, dessa forma, a dependência em relação àquelas nações que assumiram o protagonismo do mundo moderno. Como nos explicou Darcy Ribeiro, nos tornamos um povo condenado à Atualização Histórica, sempre fazendo esforços no sentido de acompanhar as inovações que vêm dos países centrais, econômica e tecnologicamente. Entretanto, aos trancos, as universidades federais esforçavam-se para cumprir sua tarefa, enquanto a sociedade continuava a não perceber que atendia apenas a um terço da população, o terço que contava e consumia, o terço que tinha relação direta com o domínio das riquezas produzidas, riquezas a serem consumidas preferencialmente por elas. As estruturas sociais e de pensamento continuavam sendo as mesmas dos tempos coloniais, embora fossem constantemente prometidas, e nunca cumpridas, reformas para ampliar o leque dos que usufruíam o bolo. Assim ocorreu com as decisões tomadas e escritas na Constituição promulgada em 1988, criadora de direitos múltiplos, mas sem haverem sido promovidas as reformas necessárias para a garantia do usufruto de tais direitos.

Durante a Ditadura Civil Militar, a expansão do ensino provocou o “funil cultural”, exposto pelo pequeno número de vagas oferecidas nas universidades, o que gerou o fenômeno dos que haviam alcançado a média necessária para o ingresso para vagas inexistentes: o excedente. O ministro da Educação à época, Jarbas Passarinho, então estabeleceu que não há vagas além daquelas ofertadas, portanto não haveria excedentes de candidatos. Entretanto a sociedade continuava a crescer e também o número de jovens interessados na conquista de um diploma. Em uma sociedade marcada pelo estigma da escravidão e da separação social, durante a ditadura do Estado Novo, o Código de Processo Penal estabeleceu que diplomado em curso superior tem o privilégios de uma prisão especial, de forma a não ser obrigado conviver com quem não possui diploma. São muitas as sociedades no território brasileiro: a dos bacharéis portadores de diploma e dos que terminam os estudos com a conclusão do ensino médio, são exemplo dessa nossa diversidade. Claro que esta não é a única nem a principal razão do crescente número de interessados em realizar um curso superior. Nas sociedades modernas a leitura é essencial para a sobrevivência social, e desde os últimos anos do segundo milênio, o estudo passou a ser parte inerente e permanente na vida do cidadão. Além disso, os estudos universitários são prospectores do futuro, não apenas a memorização do já conhecido. Não promover o ensino de graduação e pós graduação é destinar a sociedade ao passado. Isso foi entendido por alguns setores dos governos ditatoriais, mas não foi assimilado por grande parte da sociedade, especialmente aquela que tem sido beneficiária por manter os brasileiros distantes dos conhecimentos que a civilização tem produzido e continua a produzir. Sofre muito aqueles que sonhavam (ainda sonham, pois se não sonhassem este sonho não estaria sofrendo) com o Brasil continuando a crescer no campo da conhecimento, apesar das dificuldades impostas pelos oligarcas que nunca ficaram fora do poder de comando, sempre surfando sobre os sonhos de libertação dos que sabem que são originários da Silva e da Costa. Os que vieram da Costa tem mais facilidade em compreender a sua origem que veio se misturar no processo de mestiçagem e sincretismo religiosos; os da Silva, mais envolvidos pelas seduções e que tornaram o Brasil sua propriedade, julgam-se ser parte da grande sociedade, e esquecem que podem ser a Conceição cantada por Herivelto Martins na voz de Cauby Peixoto: “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu, pois hoje o seu nome mudou e estranhos caminhos pisou, só eu sei que tentado a subida desceu”.

Vivemos em tempo interessantes e estressantes. Os dois últimos presidentes da República gabam-se por terem criados cerca de duas dezenas de universidades, mas não informam se foram dadas as condições exigidas para que elas funcionassem com galhardia, ou se apenas foram criadas por ato voluntarioso, acreditando, com minha mãe “Deus proverá, um anjo cuidará disso”. Bem, o stress é que o seu sucessor parece ser o anjo da morte. Não cuida da vida, não cuida da educação, não cuida do futuro.

Educação sexual – nas escolas e nas famílias

sábado, janeiro 12th, 2019

Sempre está em debate se a escola deve auxiliar a educação sexual dos jovens. A Base Nacional Comum Curricular, de 2017 diz que sim, e devemos fazer isto. São muitos os motivos para tal. Um deles é que a maior parte dos pais pouco entende o que ocorre no seu corpo e pouco sabem como dizer a seus filhos o que ocorre no interior dos seus corpos, além de terem dificuldades em conversar sobre as questões que afligem os sentimentos das meninas, dos meninos, dos rapazes, das moças, nas diversas etapas da vida. É lamentável dizer, mas, nesse caso, a maioria dos brasileiros e brasileiras, crescem como batatas. A natureza cuida das batatas e a natureza social cuida dos meninos, das meninas, das moças e dos rapazes. Um dos problemas é que os professores, em sua maioria, também cresceram assim. Também os advogados, os padres, as freiras, os pastores, as delegadas, os delegados, os médicos, os enfermeiros, as atendentes dos postos de saúde, os motoristas de ônibus e todos de todas as profissões, inclusive os deputados, os juízes e senadores, escritores e produtores de novelas e filmes. E claro, os educadores. Creio que reconhecer tal situação é o caminho para começar a resolver tal questão.

Outro dia, li em uma rede social, uma jovem professora defendendo que a educação sexual deve chegar às escolas quando houver gente preparada para tal tarefa. Se for assim, vai demorar muito, pois a maioria das pessoas casam-se sem saber muito bem o que acontece depois do feliz intercâmbio amoroso. Temos que aprender fazer isso enquanto fazemos. Os professores são parte dessa grande massa que desconhece e pouco reflete sobre o assunto, não podemos ficar eternamente esperando Godot.

Uma das minhas primeiras experiência como professor, ocorrida ainda em 1970, foi em um colégio católico que ainda hoje atende parte da elite daquela cidade. Fui chamado a ser professor de Religião, após o fracasso de três padres (um deles era diretor) nessa tarefa, em turmas da quinta e sexta séries. Era a primeira vez que, naquele colégio, formava-se turmas mistas. Eram cinco meninas e vinte e cinco meninos. A recepção dos alunos não foi das melhores e, durante duas semanas fui vaiado ao tentar fazer a chamada. O diretor de disciplina reclamava, mas eu era a última esperança deles, parece. Finalmente, quando consegui terminar a chamada, perguntei o que desejavam estudar, o que eles desejariam aprender, eles gritaram uníssonos: SEXO. Logo pedi que eles escrevessem perguntas para serem respondidas, debatidas nas aulas. Assim fomos conversando sobre os assuntos que eles desejavam, as questões de suas vidas naquele momento. Não foi fácil. Na primeira reunião de pais e mestres, fui acusado de estar “ensinando safadeza” a filhos de advogados, professoras, médicos e outros assemelhados. Eles não tinham intimidade com os filhos para conversar sobre os temas que eram a angústia deles. Continuo achando que eles não sabiam do que se tratava. Foi difícil, mas terminamos o ano e vários problemas foram resolvidos por conta de nossas conversas. Aprendi que deveria estudar o assunto que era interesse dos meus alunos. Meus pais não haviam me dado orientação nesse afair, não sabiam; também as escolas que frequentei nada me ofereceram nessa parte de minha formação, pois esse era um tema proibido em todos os espaços sociais, exceto nos espaços escondidos e proibidos, onde os que nada sabiam iam falando e se auto-formando. Os professores temos que aprender ensinando e ensinar aprendendo. Não carece ter medo dessa conversa por questões religiosas, pois a religião é o cuidado da alma e do corpo, pois o ser humano é assim, corpo e alma, dizem os religiosos.

Há que se superar o século XIX, vitoriano, e o século XX no que ele manteve do século anterior. Uma vez um religioso contou-me a seguinte imagem: “a mulher é a fonte da vida, a água límpida e pura; o homem é o barro forte que constrói e mantém a firmeza; são belos até que se tocam, pois então surge a lama.” São pensamentos como esses que tornam desgraçada a existência de milhares de homens e mulheres, vindos de sociedades montadas pelo medo, o medo de viver, de achar bonito o encontro de homens e mulheres, o encontro dos sexos de maneira consciente e responsável.

Vez por outra encontro aqueles meus alunos, com os quais pude conversar sem medo sobre as suas vidas, e eles estão felizes e deles recebo carinho e respeito. Mas isso é apenas resultado de tê-los tratados como seres que precisavam de conhecimento, de compreensão, pois o conhecimento sem a compreensão gera monstros, como os descritos em tantas novelas do século XIX e vividos nas guerras do século XX que nos chegam ainda hoje, pois, como dizia um certo alemão “ainda estamos no alvorecer da humanidade”, ainda não nos conhecemos, não nos amamos, somos estranhos em nossos corpos. E é isso, lamentavelmente, que contemplamos nas religiões, – sacras ou civis – com padres, freiras, pastoras, pastores, babalorixás, yaralorixás, monges, xamãs, pais de santos e outros que utilizam a religião para escravizar, quando deviam auxiliar a trilhar na direção da felicidade.

Somos chamados a superar os medos, e apontar para os futuros pais como auxiliar seus filhos a viver com alegria a totalidade de suas vidas.