Archive for the ‘Civilização’ Category

AS GUERRAS , AS RELIGIÕES E AS PERDAS

terça-feira, abril 19th, 2022

As guerras, as religiões e as perdas.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde fevereiro os meios de comunicação estão a nos fornecer informações e comentários sobre o conflito que, no final daquele mês, tornou explícito o conflito entre a Federação Russa e o Ucrânia. Buscam explicações próximas e distantes para o conflito. Então muitos souberam que Kiev é anterior à Moscou, mas desde então os tártaros e outros povos dominaram a região, e entre um massacre e outro das populações, foi sendo formado o Império Russo e, depois, a União das Repúblicas Soviéticas que, dissolvida antes do século XXI começar, deu origem à Federação Russa. Ao mesmo tempo, várias repúblicas que formavam a URSS, recuperaram, ou conseguiram a independência. Entretanto, a nostalgia da unidade na diversidade socialista que parecia existir no tempo ‘centralismo democrático’, filho que se rebelara contra o Pai Czar, permaneceu. E tem a contenda cultural permanente entre o Ocidente e o Oriente, militarizada na Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN e o finado Pacto de Varsóvia, enterrado com os tijolos do Muro de Berlim. Continuando Viva, a OTAN é um pesadelo permanente para Vladmir Putin, agente da KGB e atual centro do poder na Federação Russa. Putin teme que seus vizinhos, antigos membros da URSS no tempo em que ele era um agente secreto que assistiu a queda do Muro. Aproveitando a inapetência democrática dos que governavam a Rússia nos anos subsequente à dissolução da segunda potência mundial, Eis que Putin aparece como o restaurador da Rússia e, sem surpresa é aceito como líder permanente, aquiescendo às múltiplas modificações no corpo da Constituição da Federação Russa. Putin tem contrato até 2036. Bem tendo iniciado a invasão da Ucrânia, apelidada de Operação Especial, desapareceram dos noticiários: a permanente imigração de povos africanos e árabes para a Europa; o conflito entre palestinos e israelenses; a guerra no Yemen; o governo do Taliban no Afeganistão; e outros ‘pequenos’ conflitos como a ação dos Jihadistas em Moçambique, a crise humanitária da Venezuela, os assassinatos de mulheres no mundo inteiro, etc. 

Não tem sido fácil a vida dos líderes religiosos que se levantam contra guerras nos dias atuais. Atualmente os líderes do catolicismo romano têm assumido posturas claras contra a guerra, e isso está causando tanto reboliço quanto a simpatia de Pio XII pela Alemanha hitlerista. Um bispo da Igreja Ortodoxa Católica admoestou o papa Francisco dizendo que não se pode colocar na via sacra russos e ucranianos para rezar juntos. O Patriarca Kiril da Igreja Ortodoxa Russa tornou apoio claro seu apoio às ações de Putin e, como ele, põe a responsabilidade no Ocidente. O Conselho Mundial das Igrejas deverá decidir até o final do ano se a Igreja Ortodoxa Russa continuará a fazer parte desse Conselho. As relações históricas que as religiões mantiveram com os governantes tornou um vício essa aproximação, de tal forma que os líderes devem trabalhar muito para que os seguidores de sua fé entendam o que realmente significa paz. O nacionalismo religioso é um caminho largo e asfaltado para as guerras, hoje como foram no passado. Mas é preciso estarmos atentos, vigilantes para não seguirmos pela fácil estrada das guerras como solução, pois elas são criadoras de novos problemas. Um deles é o vício de sangue para aplacar o medo provocando terror.

Outro debate que desapareceu desde fevereiro é a questão da natureza. Cuidar do clima, dizem os senhores da guerra, só depois de destruirmos o inimigo. Eles são o inimigo, mas não precisam ser destruídos, vamos tentar educa-los, mesmo que eles continuem matando.

Só para lembrar os cristãos: seu conceito melhora muito quando cuidam dos pobres, das viúvas, dos órfãos, dos desamparados, dos perseguidos. Perdem sempre quando se envolvem com guerras, ainda que ganhem.         

Drama 17 – onde está a solidariedade?

segunda-feira, julho 27th, 2020

Antes que julho termine o Brasil contará noventa mil mortos pela Covid 19. É um número alarmante. São muitas as cidades brasileiras que não alcançam esse número de habitantes. Ainda morrem cerca de mil brasileiros diariamente, e tal montante não parece influir no comportamento dos brasileiros, nem na inteligência dos que governam o país. O que nos ocorre? Porque tal situação e comportamento crescem fecundamente em uma nação, em um povo a quem se atribui hospitalidade, alegria, cordialidade e tantas virtudes cantadas, por estrangeiros que nos visitam e por muitos de nós. Gonçalves Dias, vivendo na Europa, escreveu afirmando que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. As aves europeias gorjeiam diferente, sem a tropicalidade fulgurante, sem a verdura exuberante das florestas, como afirmava o escritor de Porque me ufano do meu país, o conde Afonso Celso. Mas, algo acontece que nos impede a vencer a pandemia Covid 19, já sob controle em muitas regiões do mundo, seja no Oriente edulcorado por alguns, seja no Ocidente europeu, destratado por outros. Mas, na América, o novo continente, não se encontrou o caminho para conviver com o vírus biológico do século XXI.

Sabe-se, hoje, que na Itália há regiões com índice zero de coronavírus 19. Na Úmbria, ali na Itália, hoje é zero de Covid 19. Seriedade, disposição para cumprir o fechamento das cidades, a circulação das pessoas, tudo isso levou a esse resultado. Devemos considerar alguns pontos para entendermos tal sucesso: lideranças políticas e morais dignas de merecerem a confiança do povo. Um prefeito que admite o erro e pede desculpas à população por ter colocado interesses econômicos além do valor da vida humana; a presença inspiradora de um líder religioso comprometido com a vida humana, entendo-a sagrada, pondo-se humildemente a serviço do seu povo, ajoelhando-se solitário e solidário com a humanidade, rogando forças para vencer a adversidade. E, principalmente, o espírito de solidariedade dos italianos, superando os desejos privados e egoístas por entender que civilização só é possível com a compreensão de que nada se constrói sozinho, que só agindo como uma unidade é que se encontra forças para vencer, até mesmo sem as drogas milagrosas e as vacinas, força tão terrível da natureza. A Itália e outras regiões do continente europeu venceram o desafio por agirem solidariamente, as nações e os cidadãos. Semelhante vimos acontecer no Oriente, cultivador de tradições que a todos unem, acima dos sofrimentos a que são submetidos ao longo dos séculos. Só se pode vencer o vírus físico se houver, além dos anticorpos naturais, os anticorpos sociais da solidariedade, da compreensão, do comprometimento, ainda que pequeno, com toda a sociedade.

E então, ao nos voltarmos para o continente americano, observamos uma sociedade voltada para o mito do self made man, prefigurado em personagens vividos, na tela, por John Wayne, aqueles que tudo resolvem por sua vontade, coragem pessoal. E seus armamentos aliados a uma religião civil fundamentalista, aliada à leituras fundamentalistas dos textos bíblicos, que produziu um cristianismo impermeável aos sentimentos humanitários, capaz de lutar contra o cristianismo que fundamentou a civilização Ocidental no que há de melhor e no que a diferencia. O fundamentalismo cristão, o tão louvado espírito do capitalismo, impedem a solidariedade, promovem o assassinato público dos cidadãos de cor, e tem como lema a ideia de que tem que estar acima de todos, como a loucura própria dos nazistas, seguidores do Minha Luta, e que mostrou o vírus da imoralidade, ou amoralidade, nos campos de concentração nazista. Na Rússia os números são altos, mas teme-se que o governo russo esconda dados. É a tradição mantida pelo novo Czar.

No Brasil, que é o tema inicial dessa nossa conversa, observamos que não tivemos liderança nacional, nem civil nem religiosa. Os religiosos quando se pronunciaram, herdeiros do Evangelical Belt norteamericano, foi no sentido de que “Deus salva os seus” e que basta a fé para evitar o Coronavírus. Hoje alguns de seus membros ocupam pastas ministeriais, no governo federal. Os líderes católicos preferiram, parece, lavar as mãos, tiveram medo de comprometer-se, agiram como agiam os bispos antes da CNBB. Isso permitiu que alguns padres estrelados e famosos fossem mendigar ajuda ao césar, e alguns outros saírem em defesa do uso de armas. Que diriam Dom Luciano Mendes, Dom Hélder Câmara, Dom Evaristo Arns? Só agora, após 80.000 mortes, vai sair um documento coletivo. Não houve uma voz das religiões conclamando à solidariedade, salvo exceções que não receberam apoio de seus grupos. Ficamos entregues à sanha de um líder que sonha com o povo (seus seguidores) armado para tornar mais fácil um golpe de estado, como disse em reunião ministerial de 22 de abril. Só nos resta esperar que o “espírito de 76” anime os norte-americanos a derrotar o que de pior sua cultura produziu, assim, quem sabe, derrotaremos, ou afastaremos da cena, o que de pior foi produzido no Brasil no século XX.

Quanto à trajetória da Europa na luta contra a Covid 19, é como dizia o poeta: As Aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.  

Dia do Índio? Dia do povo brasileiro?

domingo, abril 19th, 2020

Pois então estamos no 19 de abril, data que foi estabelecida como o Dia do Índio, para que não fosse esquecido o aniversário de Getúlio Vargas, sempre comemorado com festas durante a ditadura que muitos querem esquecer para manter limpo o nome de suas famílias; mas é também dito como o Dia do Exército, pois que o ligaram desde sempre à Batalha do Monte Guararapes, em Jaboatão, Pernambuco. A vitória que teve a participação de índios, negros, mestiços e alguns brancos contra os holandeses, é vista como sendo simbólico da formação de um Brasil múltiplo em tradições de povos e culturas, por isso a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes anuncia em placas nas entradas da cidade “aqui nasceu a pátria”.

E o dia começou com a leitura de três amigos da rede de amizade virtual. O primeiro deles fala do exército. Não é um artigo escrito, mas um depoimento da historiadora Marcília Gama sobre uma instituição, criada no tempo em que Getúlio Vargas, ainda não criara a ditadura, mas a preparava: o Departamento de Ordem Pública e Segurança – DOPS. O golpe do Estado Novo e a ditadura que se seguiu só foram possíveis com o apoio do exército. O DOPS, órgão do Estado, praticamente avançou sobre todo o século XX, marcado pela presença do ditador que veio dos Pampas. Deslindar os caminhos do DOPS em Pernambuco foi a grande tarefa que se impôs Marcília Gama, a quem entrevistei em meu programa (https://www.youtube.com/watch?v=PncnwzhtRc ) da Rádio Universitária AM, atualmente Rádio Paulo Freire. Quando a entrevistei, Marcília acabara de alcançar o Mestrado em história, e fazia suas pesquisas, auxiliando a desanuviar as sombras que escondiam as ações dos agentes do Estado, em guerra constante contra o povo, embora dissesse que era contra o comunismo. Devemos ter em mente que os ditadores nunca defendem o Estado, defendem o seu estado social, os seus interesses pessoais e, o DOPS e toda a rede na qual era partícipe, esconde e confunde. Muito feliz de começar o dia ouvindo Marcília Gama, nessa entrevista que ela concedeu a projeto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, trazendo novos olhares de historiadores sobre a ditadura de 1964-1985, tempo de domínio das Forças Armadas, Exército à frente.

A segunda leitura foi mais amena, um texto de Marcelo Cavalcanti anunciando que virá uma página com o título Atrevido com Estilo, com textos sobre o Recife dos anos sessenta, o que pode ser uma nostalgia ou depoimentos de quem viveu uma época em que, para alguns, o mundo era apenas o que era originário dos centros culturais, e ainda não se oferecia a oportunidade para o surgimento da cultura brasileira. Neste texto ele narra como foi vivido um São João entre casas de família abastada, uma passagem rápida pelo povo que dançava xote e termina em um banco de praça. Vai ser um percurso interessante, verificar se houve realmente esse engajamento com a cultura do povo brasileiro, que não sabia falar inglês e curtia os Beatles nas letras de Nazareno de Brito e outros. Os bens aquinhoados sempre estudaram inglês e cuidavam de debochar dos que ouviam Golden Boy e Renato e seus Blue Caps.

E terminando o começo da manhã, li o belo texto de Lula Eurico, o “burgomestre” do Arruado da Várzea, incrustado na Universidade Federal de Pernambuco, um resto do Caminho que ligava o Recife ao Engenho do Meio e o Engenho de São João, aquele que era de João Fernandes Vieira. Pois que Lula Eurico lembra, em sua crônica deste dia, que deve ter havido uma festa no engenho, nos dias seguintes à Vitória dos pernambucanos sobre os holandeses. Ele menciona que, embora os grandes beneficiários da vitória houvessem sido os proprietários, jamais deve ser esquecido que o sangue ali derramado saiu dos corpos de índios, negros, mulatos, que têm sua representação nas figuras de Felipe Camarão e Henrique Dias, André Vidal de Negreiros. Esses são muito esquecidos na historiografia e, nas aulas de história, são palavras que saem automaticamente e sem maiores comentários dos professores. É por isso são desconhecidos, que sabemos tão pouco sobre os que derramam o sangue na construção da vida do Brasil, e sabemos mais dos que saboreiam os resultados que os enriquecem. Quando não falamos sobre o povo, comum que faz a história com o seu sangue e suor, terminamos apenas por curtir as cervejas e vinhos e migalhas que caem da mesa dos construtores e mantenedores da história organizada pelos que fizeram os muitos DOPS desse país.

Drama 6 – O que aprendemos no distanciamento social

terça-feira, abril 14th, 2020

O que estamos aprendendo nesta experiência de distanciamento social, empurrados para dentro de nossas casas, forçados a nos olhar diretamente por um vírus? Uma experiência diversa daquela a que nos acostumamos e formos ensinados: sair de casa, todos os dias, e só voltarmos quando estivermos tão cansados de aprender para trabalhar, e trabalhar para ganhar dinheiro e ganhar dinheiro para comprar, o comprar o que nem sempre precisamos, mas precisamos comprar para que vejam que compramos e, se compramos é porque recebemos dinheiro pelo trabalho que fazemos a cada dia fora de casa.  Foi assim que aprendemos, por isso não contamos o trabalho de casa como trabalho, pois ele não é transformado fisicamente em dinheiro. Por isso o trabalho de lavar pratos, lavar a roupa, passar a roupa, guardar a roupa, preparar a comida, limpar a casa, não é visto como trabalho. Mas agora, que “não se está fazendo nada”, pode-se aprofundar a ideia tradicional de que trabalho é aquilo que se faz com um sentido, uma direção.

O trabalho gera a riqueza da vida: gera a limpeza que gera a saúde, gera a satisfação que gera o sorriso de agradecimento. Mas perdemos esse sentido do trabalho, em algum momento foi tirado este sentido. Talvez quando foi dito que ele é maldição. Tornou-se maldição porque perdeu o sentido da alegria criadora, regenerativa da vida. Interessante como vejo nas redes sociais que há muita gente trocando receitas para a produção de comida. Algumas pessoas estão descobrindo a alegria de preparar a comida para os familiares.   

Nesse período em que fomos chamados a ficar em casa, destoando do que nos foi ensinado, podemos aprender que trabalho não é o movimento mecânico do obreiro (operário) que opera a máquina sem, às vezes, percebê-la. Não precisa, tudo que ele faz é ajustar-se ao movimento da máquina, seja ela de escrita, de produção de tecido. Não é um movimento criativo e, se temos um cérebro que nos permite criar, ao realizar tarefas que apenas pedem a nossa capacidade mecânica, somos enfiados no mundo da infelicidade. Nos tornamos infelizes quando não exercemos o que nos difere dos demais animais, quando não exercemos a nossa capacidade de criar. Ao ficarmos em casa, nesse distanciamento social, podemos reaprender a contar histórias para nossos filhos, e nossos pais, e para aqueles que estão no mesmo espaço. E aprendemos a ouvir. Também aprendemos que o que fazemos e útil e valoroso, tem valor; embora não gere dinheiro gera riqueza, porque gerou uma possibilidade de alegria.

Muitos ainda não entenderam o sentido maior de ficar em casa, confinado, por algum tempo. Claro que é difícil para quem foi ensinado que tem que sair de casa para produzir riquezas que não irão experimentar, entender que ficar em casa neste momento, é um ato social e solidário, pois está salvando a vida de outras pessoas. Mas como entender que isso é bom se a pessoa foi ensinada que ele deve trabalhar para garantir o seu sustento e não o de toda a humanidade? Pois é, não lhe disseram que a vida é um ato cooperativo, que ninguém trabalha só para si, que o verdadeiro trabalho é para todos, não para alguns. Podemos aprender muita lições nesse pequeno período que fomos, tangido por um vírus, lançados de volta ao início. Temos a possibilidade de iniciar mais uma vez.

Mas, percebemos que há alguns que não nos querem em casa, nos querem na rotina dos gestos repetidos e repetitivos, querem que não descubramos. Redescubramos, a nossa criatividade, pois assim poderão continuar a nos tratar como máquinas. Não querem que saibamos que somos mortais. Sim, o vírus que nos ameaça nos diz que somos mortais. Se entendermos isso, poderemos os perguntar pelo sentido da vida para além do sal diário (sal(dia)ário) para os alimentos do corpo; querem que retornemos logo ao trabalho em suas fábricas e corporações para não notarmos que a vida tem como objetivo a felicidade, não a ação mecânica, não o divertimento, como nos dizem nas propagandas; a felicidade é conversar com as pessoas e não simplesmente  ver os monumentos. Ser feliz não é ficar três minutos olhando a Monalisa, ser feliz é criar a própria Gioconda.

Drama 5. Em torno do Mistério

sexta-feira, abril 10th, 2020

Os Sagrados Mistérios da Sexta feira Santa, é uma frase que escuto desde a minha infância, nas missas que assisti, foram poucas, e nas missas que participei, e foram muitas. Nunca gostei da expressão “assistir a missa”, nunca gostei de assistir algo, no sentido de ver que algo está acontecendo sem a minha participação. Nunca gostei de assistir aos sagrados mistérios da Semana Santa, como sempre recusei assistir a minha vida, esse mistério que começou faz sete décadas.

A Semana Santa começou a existir para mim quase no final da minha primeira década de vida, quando fiz a primeira comunhão, após ter sofrido grave acidente, no qual tive o fêmur direito quebrado. Ainda engessado, sofri a “gripe asiática” que dominou 1957. Esses dois acontecimentos marcam até hoje a minha memória. Tendo sobrevivido a febre, fui o único da família que a teve, fiz sozinho, na Capela Santa Terezinha, a primeira comunhão. Tem um retrato meu, de paletó e gravata brancas. Lembro que papai me levou a um alfaiate próximo ao cemitério de Casa Amarela. A minha primeira Eucaristia foi a minha inserção nos Mistérios da Semana Santa, o mistério da Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Anos depois, aprendi uma oração atribuída a Santo Tomás de Aquino, uma reflexão sobre o mistério, Ela começa assim: Meu Deus, te adoro dentro de mim. Não lembro o que vem mais, sei que está no missal dominical, mas o início da oração diz que Deus está dentro de mim, que sou templo, casa de Deus. Esse é um grande mistério.

Quando estudava teologia, em uma aula, ouvi do padre Diomar Lopes reflexões sobre por que pode ser exagerado o cuidado de não deixar qualquer partícula da hóstia – que pode ser chamada também de partícula, pois o corpo de Cristo está na Eucaristia e não se pode reduzir a Eucaristia em um pedaço de qualquer coisa, um objeto que significa, que carrega a eucaristia e, embora seja a eucaristia não é a Eucaristia. Este é o mistério.

A Eucaristia, vivida no mistério da grande Ceia, é algo além do pedaço de pão, do copo do vinho. O Mistério envolve o que vem antes da ceia, o ato de ter os pés lavados por aquele que é a Eucaristia. Envolve a ceia, o partir e repartir um pedaço de pão para que todos que recebem desse pão, e também bebem o copo de vinho, todos no mesmo copo. O pão e vinho tem que ser para todos. O Mistério envolve o que vem em seguida, a prisão, o sofrimento, o escárnio, o olhar zombeteiro, as lágrimas dos que podem estar a começar a entender. Não é entender o mistério, o mistério jamais será entendido. O mistério é vivido. Como entender que Deus está dentro de mim? Como entender o sofrimento que antecede a morte?

Dizemos que na Semana Santa é a semana para refletir sobre a paixão e morte de Jesus, como se apenas naquela semana ele estivesse em paixão, mas ele esteve em paixão todos os dias de sua vida, ele sempre foi apaixonado, a vida é a paixão e deve ser vivida com paixão e com compaixão. Existe a tradição que uma mulher, Verônica, que se aproximou e, em gesto de compaixão, enxugou o suor e sangue que corria no rosto daquele apaixonado. E os dois trocaram olhares de compaixão. Sem palavras, só gesto e olhar. Um mistério, essa mulher que surge e desaparece, e permanece. Quanto amor no gesto, no fazer, no agir. Verônica significa vitória, a que vence. Verônica vence a dúvida e assume o Mistério que o que ela está vendo é mais do que o que ela está vendo. É o Mistério. Como é mistério o que aquela outra mulher, Madalena, aceita que o corpo que ela busca não é o corpo que ela busca, é o mistério que ela vê quando vê o corpo que já não pode tocar. Assim como Maria aceitou o mistério de ser a mãe de Deus. Tudo isso é o Mistério que Semana Santa.

Neste ano uma nova doença está marcando o mundo, e uma historiadora já nos disse que ela marca o final do século XX. Em uma postagem anterior escrevi que estamos vivendo a transição para uma nova civilização. Leila Schwarcz e eu estamos querendo entender o que se passa neste tempo, que está mudando a maneira de ver o que nos rodeia, estamos tentando explicar o fato humano, o que possível, pois o que é humano não é mistério. O Mistério é aceitar o Mistério, aceitar e viver apaixonadamente a vida, na certeza de esta paixão pelo amor, pela entrega, pelo serviço, pela aceitação da vida.

Este ano os templos estarão vazios de pessoas celebrando o Mistério da vida, mas o Mistério é vivido como Santo Tomas de Aquino nos disse: Meu Deus, eu te adoro dentro de mim.

Drama 4 – criar ou bricolar

sexta-feira, abril 3rd, 2020

DRAMA 4 –

Leio nos jornais muitas informações sobre a situação que vive o globo: uma pandemia. A ação de um vírus que ataca, simultaneamente, pessoas que vivem em todos os continentes. Talvez seja essa a primeira vez que uma doença alastra-se de tal modo, embora possamos encontrar epidemias em vários momentos da história da humanidade em cada continente que afetaram grande parte da população e algumas culturas. Desde que veem sendo aumentadas as interações humanas, com o crescimento constante das trocas econômicas e culturais, especialmente a partir do século XV de nossa era, os homens e mulheres compartilham germes, vírus, amores, alimentos, costumes, crenças e a maioria não imagina como cada ‘novidade’ a modifica. Desde a Primeira Guerra do século XX que os vírus entraram em combate permanente e aberto com as culturas. Embora não devamos esquecer que a conquista da América pelos europeus deu-se com a ajuda de alguns vírus desconhecidos pelos silvícolas.  

Celebrando o centenário da Gripe Espanhola, como  ficou conhecido o flagelo que espalhou-se pelo continente com o auxílio dos exércitos, temos a Covid-19, que veio sem guerra, mas, talvez provocada por hábitos criados pela fome resultante de políticas de poder. A fome e a ânsia de aplaca-la produz muitas mortes. A natureza, vez por outra cobra os excessos. Como é tradição humana, sempre coloca-se a ‘culpa’ no outro, isso desde a grande primeira discussão que envolveu Adão, Eva, o Criador e a silente serpente. Essa história é parte de nossa civilização.

Sem buscar culpados, creio que deve-se admitir que as disputas sobre a participação da natureza em nossas miséria devem estar ligadas à reações da natureza e as intervenções humanas nela. A grande questão é como agimos para defendermo-nos, se coletiva ou se individualmente. Boccaccio nos mostra que, enquanto a cidade morria e sobrevivia à peste, um grupo de jovens, fora da cidade, esperava passar o tempo da ação péstica. Assistia-se a morte à distância. Na cidade, funcionários pregavam traves nas portas, trancando em casa os já doentes e os sãos das famílias, enquanto juntavam os corpos para lança-los em uma vala comum, independente do estado social. Foi assim também na peste que afetou Londres, no reinado de Carlos II.  Aos poucos a morte vai se tornando corriqueira e, por sua repetição, parece que auxilia a diminuir os sentimentos de dor, de perda, compaixão. Carlos II disse, aos seus cortesões, que depois dessa peste jamais seriam os mesmos. Escutamos frases semelhantes agora, ditas por pessoas que, embora não sejam reis, fazem o papel de governante e seus auxiliares. Se entre eles houver algum que tenha preocupação com o que as pessoas estão sentindo, sofrendo, logo ouvirão que nada pode evitar o caminho da morte e que se deve pensar no futuro. Depois que inventamos o futuro o presente ficou tão relativo, tão sem sentido, tão sem futuro.

No futuro, já sabemos, as potências dominantes serão outras. Estamos assistindo a afirmação do projeto da Trilateral. Talvez um dos ângulos do triângulo seja mais forte, entretanto eles se suportarão por muito tempo, talvez mais que a bipolaridade do século XX. Mas isso não pode ser apresentando como resultado da Covid-19, ela é apenas a exposição do se vinha construindo desde que os acontecimentos de 1968 fizeram emergir um geração narcisista que substituía a que vinha sendo gerada pela leitura da aventura e reflexão de Anne Frank. Essa aventura de persistência e luta pela vida quase impossível, exigia demais de quem preferia o prazer rápido, instantâneo, foi descartada talvez por ser burguesa. O sacrifício, o esforço físico, mental, espiritual tornou-se desnecessário, pois bastava uma seringa, uma pílula, um cigarro para que as vantagens do paraíso fossem abertas, arrombando as portas da percepção. Diante do desafio de integrar e conviver com o fim dos Impérios e a emergência das novas nações, preferiu-se dizer que “foi Eva que me convenceu de comer o fruto proibido”.   Os últimos anos do século XX não foram a busca pela felicidade ou perfeição, mas a busca do prazer, e o prazer individual, como é próprio para um burguês. O que Anne Frank escreveu reaparece agora, numa tentativa de recolher os fragmentos, os estilhaços da sociedade que ela desejava. Mas é tão difícil, melhor fazer bricolagem.