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DRAMA 3 -Vírus biológicos e vírus culturais

segunda-feira, março 30th, 2020

Vivemos tempo de doença que chega silenciosa e atenta contra a vida dos humanos. Essa é uma luta contínua, desde que os homens passara a produzir alimentos, escapando das normas naturais. Assim veio a cultura, como uso das ferramentas biológicas que a natureza ofereceu aos primata autodenominado de Sapiens. Que é o mesmo Economicus, o Faber, e tantos outros atributos que vem recebendo. Organizar-se em sociedade foi uma maneira o Sapiens encontrou para lidar com as demais habilidades que sua biologia permite. Viver em comunidade significa estabelecer alguma hierarquia baseada no respeito, que pode advir das armas que alguns colecionaram, como aconteceu mais frequentemente ao longo dos tempos. Mesmo assim, quando a parte que sofre o poder não está satisfeita, ela encontra uma maneira de afastar quem não respeita o acordo de usar o Vez por outra a natureza o chama para o diálogo.

Os que preservam o habito de ler os resultados das pesquisas e escritos daqueles que se dedicam a estudar o percurso da humanidade, encontram vários momentos em que a sociedade teve que parar diante de uma manifestação da natureza. As pestes que ocorrem durante ou após as guerras; as pestes que aparecem como resultado do comércio, pacífico ou não, entre os povos; a fome causada pela eliminação dos trabalhadores dos campos chamados para formar exércitos; etc. . Mas elas estão distantes no tempo, tão distantes que nem percebemos que estamos falando de pessoas e famílias que estão morrendo na chamada Peste Negra, ou nas pestes que assolaram os impérios (a maioria da humanidade hoje nem sabe que os impérios existiram, para muitos o Império é apenas um protagonista da Guerra nas Estrelas). E, desde que a sociedade organizada na Europa fez a ciência que demonstra a fluidez do espaço e do tempo, a confusão entre o hoje, o ontem e o amanhã se aprofunda, de forma que nada mais é levado a sério e, paradoxo, tudo é levado a sério. Tudo está perto e distante, tudo já aconteceu uma vez e nada aconteceu antes. Nunca antes houve tanta confusão, frase que demonstra que a pessoa tem refletido pouco sobre os acontecimentos da humanidade, por não saber, por não ser possível saber tudo ou por não desejar saber.

Leio e escuto que jamais houve o que está acontecendo no mundo por causa do covid-19. É verdade, porém, nos mundos de antigamente já ocorreram epidemias que mataram quase todo mundo, como o Dilúvio de Noé ou de Gilgamesh. Naquela tragédia um mundo desapareceu. A Peste Negra acabou com a economia de um mundo. A peste do século XVII acabou com uma Inglaterra. Para a maior parte dos ingleses a Inglaterra é o mundo. A mentalidade simples e pouco informada só vê o seu mundo imediato, seja nos morros da Nova Descoberta, na favela da Rocinha, em Paraisópolis, ou seja nos edifícios de Boa Viagem, na Gávea ou nos Jardins. Nesse tempo de Covid-19, começaram a lembrar as epidemias de Febre Amarela, da Gripe Espanhola, responsáveis por milhares de mortes. Existem outras mais recentes, como a Febre Asiática, no final dos anos cinquenta e da qual eu sobrevivi após 30 dias de sofrimento e angústias, minhas e de meus pais. Houve outras, como a da Pólio, nos anos 40 e nos setenta, sendo que esta, participei como organizador de filas em uma Escola Estadual, no começo da Estrada do Brejo. O Brasil parou com o objetivo de parar a Poliomielite. A Ditadura, em seu apogeu, dobrou-se à necessidade de dar vida à vida. E tivemos essas mais recentes. Em todas elas é a natureza reclamando da maneira de como Sapiens a trata e trata os seus semelhantes, gerando condições de vida que asseguram a proliferação de vírus e doenças, enquanto parte da humanidade esbanja o resultado do trabalho de milhares.

O Covid-19 pôs à mostra os vírus sociais que favorecem à morte. Mas nessas horas, em que a vida da sociedade é posta em risco pela natureza e pela ação de alguns idiotas que fazem parte do Sapiens, também emergem os grupos atentos a manter a vida da espécie, renovando seu contrato com a natureza. Entretanto, os vírus, biológicos ou culturais, estão sempre à espreita.

Crise Covid-19 ou do Ocidente?

sábado, março 28th, 2020

Notícias da Europa dão conta que a rainha Elizabeth II estaria com COVID19. Não há confirmação mas a bolsa de apostas apontam a vitória da Rainha. Pior para Charles, que poderá perder a oportunidade de ser rei. Mas brincadeira de lado, vi que apostadores na vitória da Rainha a chamam de ‘lagarto’, capaz de adaptar-se às mais difíceis situações. Coisas do humor britânico, tão necessário neste momento. Também leio que esta pandemia está a nos mostrar que a Europa perdeu a liderança civilizacional, ou a  completou.

Desde 1914 que Oswald Spengler chamava atenção ao Declínio do Ocidente, aos limites que estavam sendo alcançados. Mostrava que as civilizações têm seu ciclo. Arnold Toynbee fez grandes estudos sobre as civilizações, apontando, o que todos sabem, que nenhuma delas é eterna e, chega um momento em que ocorre a perda da criatividade, o momento no qual as novas gerações rejeitam o que receberam, ou não veem necessidade de continuar o que receberam. Morre a civilização. Outra lhe toma o lugar, recolhendo o que de bom existia, ou que lhes dava condições de ser a liderança da humanidade.

O mal estar europeu vinha sendo apontado desde meados do século XIX, na escrita dos poetas, nas linhas dos romancistas, nas tintas dos artistas plásticos que, em seus sonhos para a além do efêmero, apontavam ser um engano a adoração à técnicas que suavizavam o modo de viver de alguns, mas endureciam o coração de duas ou três gerações que impunham o seu modo de viver aos africanos, que vinham sofrendo séculos de desumanização, e aos asiáticos que buscaram manter suas tradições isoladas do contágio europeu desde o século XVII. Mas a fome do poder e o emagrecimento da alma tornaram os povos europeus fechados em si enquanto arrombavam as portas do globo. Para Garaudy, antigo secretário geral do Partido Comunista Francês, o Ocidente seria apenas um acidente ao longo da vida humana, um acidente ocorrido entre os século XIII e XVII, e que conheceu seu apogeu nos séculos XIX e XX. É o que vemos, que estamos assistindo: sua fragmentação, sua dissolução, anunciada desde o século XIX, como mencionamos.

Mas o que era o Ocidente, como ele se formou, quem e o que lhe deu as bases?  Creio que ele é um amálgama das experiências que se encontraram e  se confrontaram desde as primeiras experiências humanas até o século XVI. O fim do Renascimento, a vitória da Quaresma, a organização do pensamento científico levaram a Europa à busca dos ideais de perfeição e controle sobre o mundo religiosa, e solidificaram o Ocidente que se cristalizou na vitória tecnológica sobre a natureza. Após a solidificação dos novos princípios religiosos e assunção da predestinação, nada mais interessava. Semelhante ao que ocorrera com a civilização muçulmana, alguns séculos antes. Assumindo que estava predestinado a dominar o mundo e que as nações lhe seriam vassalas, o “novo Israel” se impôs com a religião profana, a religião da ciência, da superioridade sobre todos. Então, o Ocidente não mais aprendeu, como aprendera e se formara na antiguidade cristã e na Alta Idade Média, períodos nos quais não teve pejos de sincretizar os costumes, os deuses. Mas, a partir do período pós Reforma, a Europa não mais aprendeu, apenas expandiu seu modo de viver. A perda da ideia da aceitação do outro, a perda da criatividade é a perda da fé em si mesma. Não sem razão o segunda metade do século XX foi o tempo das crises, crises das quais nada se aprendeu. Mas alguns dos povos que foram dominados pelo Ocidente, aprenderam a ser ocidentais, adaptando-se e recriando o que recebiam. Eles herdarão o Ocidente.

No início dos anos setenta, em um estudo sobre a história, ocorrido em um dos conventos estabelecidos na Primeira Olinda, Eduardo Hoonaert e eu discutíamos sobre isso com cantadores repentistas. Era o tempo em que se discutia a Trilateral, discussão que ocorria fora dos labirintos dos departamentos de história, embora bordejassem as áreas de ciências políticas. Falava-se que haveria de surgir um mundo com três polos: América do Norte, Europa e Ásia. Coisas dos Rockfeller, que provocou o aparecimento de Jimmy Carter na política internacional. Era visto que os EUA (América do Norte) pensaria na questão da segurança; a Alemanha (Europa) cuidaria da questão alimentícia e o Japão (Ásia) ficaria responsável pela tecnologia. O mundo ainda era o da Guerra Fria. Assim a china não aprecia nos esquadros. Mas, em nossa conversa, que possuía uma base teológica, discutia-se que a humanidade esteve sempre olhando para o Oriente, por isso dizíamos ‘orientar-se’, mas desde o Renascimento tudo passou a ser ‘norteado’. Lembramos que até a segunda metade do século XIX, o mundo (ainda que não proclamasse abertamente) sempre olhava para a China, para onde foi levado grande parte do ouro das Minas Gerais, embora a maior parte das pessoas não saibam disso, julgam que tudo ficou na Inglaterra.

Naquela ocasião, Eduardo Hoornaert chamava atenção para o papel que a China iria desempenhar no século XXI. Estamos vendo agora. Não pela maldade da China, mas pela incapacidade do Ocidente enfrentar algo novo, como o Covid-19.

Vamos nos orientar?

História para meus filhos e netos: a urina de meu pai e a Covid19.

domingo, março 22nd, 2020

Severino Vicente da silva

Acordo na madrugada pensando na história que contei a Isaac, um pouco da história de meus pais, de Nova Descoberta e minha primeira palestra no ano de 1959, no dia da inauguração da Igreja matriz de Nossa Senhora de Lourdes. Foi uma história narcísica, pois contei de minha participação, como orador da Cruzada Eucarística , naquela festa da comunidade católica, com a presença do arcebispo Dom Antônio de Almeida Moraes Junior. Essa história veio acompanhada com a lembrança de minha mãe que, sem empregada doméstica cozinhava, lavava para toda a família, e administrava os filhos (Zefinha passava a roupa, Lia varria a casa, Doutor cuidava da venda de água na cacimba, etc.) e todos ía-mos  à missa, faziam os deveres de casa. Mamãe era presidente do Apostolado da Oração. Papai comerciava, o dia inteiro no balcão da venda, juntamente com um primo de mamãe, Manoel Lopes. Depois Manoel Lopes montou seu próprio comércio, na mesma rua, e mamãe assumia muitas vez a função de balconista, atividade que Doutor, Lia e eu assumimos várias vezes. A família girava em torno da venda que garantia a vida de todos: alimentação, escola, vestuário.

Ao acordar nesta madrugada pensei no que estava ocorrendo ao meu redor. Ontem passei por uma cirurgia para a retirada de uma pedra no rim, mas a tecnologia e a economia não permitiram, apesar de vasto conhecimento já alcançado pela medicina nessa área, mas ela está atrelada ao sistema econômico que a financia, e às políticas sociais que permitem que o conhecimento prático chegue ou não à população. E isso parece estar relacionado com alguns motivos que fizeram meu pai migrar da pequena propriedade Eixo Grande, à beira do rio Capibaribe na primeira parte da década de 1950.

Nas confusas lembranças que guardo daquele tempo, estão as tardes na calçada da casa, comendo pimentão ou chupando laranja do sítio. Passou-se um tempo em que papai viajara para o Recife e ficara mais que uma semana ou um mês. Se o tempo afeta a lembrança dos mais velhos, bem que alcança e pode ser entendimento diferente por uma criança, inclusive porque a lembrança primeira vai sendo modificada pelas conversas e lembranças de terceiros. Sei dizer que foi muito tempo e, nesse tempo mamãe cuidava da venda. Papai veio ao Recife para verificar o que ocorria, pois começava urinar sangue, no tempo em que a seca atingia o agreste de Pernambuco e na parte que se encontra com  a Mata Norte, como aprendi depois nos livros e aulas de história. Ouvi aquelas conversas, talvez, quando sentado na calçada, e escutava os homens falarem entre si, em voz baixa, que isso não era conversa de menino. Esse “urinar sangue” me acompanhou sempre e era como um problema tão grande que o Hospital Pedro II, onde papai ficou internado, não conseguira resolver. Depois soube que a doença foi superada, a urina voltou à sua cor normal. Em decorrência dessas viagens para tratamento da saúde, veio a ideia de mudar para o Recife. E parte do que possuía foi vendido  para a compra de terreno em Nova Descoberta, onde construiu casa de pau-a-pique e barro. A mesma casa onde morreu, nos meus braças, enquanto mamãe colocava uma vela em sua mão e Cristiano, seu neto, chamava pelo avô.

Nesta semana, eu urinei sangue, fui ao hospital que fica a três quilômetros de minha casa, fique internado por 24 horas, fui operado e voltei para casa sob medicamentos. Penso em como mudou o Brasil nesses sessenta anos em sua medicina e no trato com sua gente; mas mudanças não foram estruturais. É isso que nos alerta essa pandemia covid19, e não apenas no Brasil. Olhando para a América Latina vemos países que tomaram medidas rápidas , pois entenderam que a situação é trágica e que eles não conseguiriam estancar a perda de vidas humanas, embora que para isso percam alguma riqueza econômica. Outros países, como o Brasil, preferiu adotar o ‘jeito’ americano/Trump de ser, agindo de maneira negacionista e pondo em risco a nação. O mandatário americano rapidamente refluiu de sua loucura, o que não fez o governo brasileiro por incúria e falta de inteligência. E foi esta falta de inteligência que acometeu o país em sua período republicano: seguir políticas norte-americanas em todos os campos, sem considerar que, apesar da influência deles nas palavras da primeira constituição, a alma mais profunda do Brasil está nas culturas silvícolas, africanas e europeias, notadamente Portugal e França. De Portugal, dentre muitas coisas, herdamos esse apego à propriedade privada, mas apenas para os que a podem comprar e jamais, quando era possível, abrir possibilidade para os silvícolas e seus descendentes, os africanos e seus descendentes, excluindo do usufruto da cidadania mais de dois terços da população. O Brasil sempre é pensado como um país de 30%, mas é pensado como se esses 30% tivessem conseguido a cidadania como ela foi gestada nos Estados Unidos da América, como eles costumam dizer o ‘selfmade man’. Entretanto o sentimento de liberdade e busca de igualdade nas relações, nos Estados Unidos esteve baseado em um campo político ideológico de relações individuais responsáveis (com prêmio e castigo), mas com possibilidade de abertura para os membros de iniciativa. O Brasil, por outro lado, formou-se, desde a invasão europeia do século XVI, sob o manto da autoridade abusiva e das liberdades controladas por instâncias de poder externo, o que impediu a formação de uma sociedade livre porque impermeável à mudanças estruturais. Sempre, no Brasil, as mudanças foram realizadas para que as mudanças não fossem realizadas. Pois se as mudanças estruturais houvessem sido realizadas não haveria essa sociedade de 70% de excluídos, ou mais. Por isso meu pai morreu sem compreender porque não recebeu o atendimento médico; por similar razão decidiu, intuitivamente, que não poderia mais continuar a morar na periferia geográfica e cultural dominante. Veio para a periferia da cidade grande, onde também se mantinham as estruturas que o prendiam na parte mais inferior da sociedade desde o nascimento; meu pai não desejava para seus filhos, o cabo da enxada e o túnel social fechado que lhe tocara como neto de escravo e filho de índia mestiça. Mas as estruturas mentais que estão na alma do povo brasileiro, impostas por cerca de 30% dos que governam o Brasil desde 1549, e  continuam firmes nas ações dos descendentes dos desencontros dos fundadores da nação, de sorte que atende apenas o pequeno terço. Aos demais o Rosário.

E o Covid19 tem demonstrado isso muito bem. Neste momento há uma grande preocupação, um temor de que ele se espalhe e alcance o terço dominante, por isso é que se discute o vírus, mas não a estrutura, ou ausência de estrutura para os dois terços da população. O vírus tem atingido setores mais ricos e a classe média da sociedade industrial, de modo a fazer tremer o presidente dos Estados Unidos, a princípio agindo com comportamento blasé e arrogante, mas que se transformou quando Nova York, San Francisco pararam. Aqui também, o presidente Bolsonaro tem mudado, mais lentamente, o seu comportamento, pois o vírus pode alcançar as suas bases milicianas. E, agora vemos, depois de três semanas, que o noticiário começa a entender que não tem água nem sabão em quantidade nas periferias – favelas – das cidades, onde o ‘isolamento social’ é quase impossível com as casas em ajuntamento, sem serviço de esgoto e água, lugares onde os Estado não alcança, pois dominado pelas milícias. E não espanta a ninguém essa situação. Também não espanta que tem sido escondido o desastre populacional causado pela Dengue e, da microcefalia da qual já não se ouve. Da última vez que o governo central abordou o tema foi quase informando que não tem responsabilidade sobre casos novos. Digo Governo Central pois não parece ser federal, como demonstra a ação dos governadores do Nordeste ao descaso do governo federal em relação à Covid19, pois em relação à dengue e a criação de infraestrutura necessária para vencê-la, apenas demonstra que fazem parte das mesmas famílias que sugam o Brasil que é produtivo e trabalhador, como os pequenos proprietários e os ambulantes sem carteira de trabalho, tão desprezados como os mascates e tropeiros que formaram o Brasil.

Todas essas reflexões faço para não perder a consciência de que sou o índio desprezado, o negro evitado e o branco pobre enxerido que quer participar da história do Brasil, e por isso conta essas histórias para seus filhos e netos e a quem estiver disponível. Ela é parecida com 75% da população brasileira.

Escondidos na biblioteca 3

segunda-feira, fevereiro 17th, 2020

Escondidos na Biblioteca 3

Uma biblioteca sempre surpreende, nela encontramos amigos que nos fazem mais bem que encontramos nas ruas e festas. É um refúgio, uma festa muito particular. Conversamos silenciosamente e depois fazemos muito barulho a respeito do que vimos e ouvimos dos amigos. Recentemente alguns amigos apareceram em forma de imagem, fotografias tomadas ao acaso, algumas, e outras apresentando amigos fazendo pose, com risos dizendo que estão felizes e se deixam fotografar eternizando o sorriso. Após alguns anos pode ser que não lembremos mais o que fez surgir o sorriso, apenas supomos que queiram dizer: que bom que estamos juntos neste momento.

Quando passeie nos sertões colhi muitos sorrisos, é o que dizem as fotos, e também algumas expressões sérias, como a dos Penitentes que encontrei em Belém do São Francisco, esmolando para a preparação das festividades da Semana Santa. Um surpresa ver o Decurião com a cruz sendo seguido por homens e algumas mulheres, numa tarde de sol escaldante. Duas fotos, quase sem permissão, sem proibição. Gente do povo, gente negra que agradeça ao Bom Jesus dos Martírios a vida que levam, carregadas de esperanças e exploração. Mas seguem a vida em direção da eternidade que, como lembrava Dom Hélder, “começa aqui e agora”. Em Belém do São Francisco vi e quase dancei São Gonçalo, em agradecimento pela graça de ter recebido a aposentadoria. Os pobres sofrem tanto que, receber a aposentadoria que lhe é de direito,  só com a intervenção de São Gonçalo do Amarante. Com o primeiro recebimento vem a festa de agradecimento, congregando amigos da cidade, das cidades vizinhas, do outro lado do Rio São Francisco.

Estava escondida, em uma prateleira, fotos da Festa da Coroação do Rei do Congo, promovida pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de Floresta. A festa ocorre no final do ano, quando os reis, em cortejo, vão à Igreja, sentam-se em tronos posto na nave da Igreja da Irmandade para a Santa Missa. Igreja lotada e os reis assistindo a missa celebrada pelo bispo. Depois veio o desfile nas ruas da cidade, com a guarda de honra, e a grande festa com bolos e refrescos, na sede da Irmandade. Uma alegria só. A minha cresceu quando soube, anos depois, que um artigo que escrevi e foi publicado n’O Tamborete, um jornal dos estudantes de jornalismo da UFPE, uma experiência de incubadora digital, ainda no início dessa era que vivemos,  foi uma das bases que tornaram a Irmandade um Patrimônio Imaterial da Cultura Pernambucana, uma decisão tomada a partir da análise de historiadores e conselheiros da Cultura. Essa coroação dos Reis de Congo não virou carnaval. Ela é única e, rio quando lembro que famoso historiador paulista, que também vive em minha biblioteca, escreveu que não havia negros no sertão. Ainda bem que todos sabemos que todos os livros, inclusive os que formam a historiografia, são datados, exatamente por serem históricos. Hoje tem crescido a importância da Irmandade e outras associações representativa da história brasileira, feita pelos escravos e seus descendentes, firmam-se em um território dominado pelas tradições impostas apenas por um grupo étnico-social, que, quase sempre, tornam quase impossível a vida dos pobres a quem exploram. Ter participado do processo de renovação do entusiasmo da população negra de Floresta é um dos meus orgulhos como cidadão.

Lamentavelmente não encontrei fotos de minha participação da grande festa do padroeiro da cidade, Nosso Senhor dos Aflitos, no último dia do século XX, com uma pequena palestra na catedral, assistindo a entrada triunfal do andor de São Benedito ocupando lugar de honra, como tem sido feito desde final do século XVIII.

Escondidos na biblioteca 2

sábado, fevereiro 8th, 2020

Escondidos na biblioteca 2

Pois então as fotos que foram redescobertas pela queda dos livros, levaram-me a Belém do São Francisco; elas são registros de minhas atividades Centro de Ensino Superior do Vale do São Francisco, parte da Autarquia Belemita de Cultura, Desporto e Educação, quando auxiliei a reorganização do curso de História, como já havia feito em Arcoverde. Tive o prazer de conhecer uma cidade que sempre primou pela formação de seus cidadãos, embora carregando toda a bagagem do coronelismo, já bem moderno, pois Belém do São Francisco é a primeira cidade pernambucana projetada, tomando como modelo Belo Horizonte. Vivenciei as festividades do Centenário da Cidade, inclusive criando camisa comemorativa, aproveitando o fato de ter sido o paraninfo de uma turma que se formava no ano de 2003. Conheci de perto a devoção a são Gonçalo do Amarante, inclusive levando um aluno do curso de História da UFPE para estudar a tradição, mesmo sem ter ele recebido bolsa para tal tarefa. Essa devoção levou-me à casa de Seu Jerônimo, em Itacuruba, devoto e organizador da festa desse santo dos pobres e protetor das prostitutas, uma festa de fartura para honra do santo que só aceita esse tipo de pagamento. Festa de São Gonçalo, expulso do litoral no século XIX, mas que está presente nos sertões de Pernambuco, Alagoas e Bahia, é sempre uma festa onde se canta, dança e come. Também conheci os primeiros bonecos gigantes do carnaval pernambucano que chegou “das europas” navegando o Rio São Francisco, uma idealização do padre Norberto, faz agora Cem anos. Os bonecos chegaram no Recife em 1966 e aclimataram-se em Olinda.

Convidado para ajudar o curso de História que apresentava um baixo índice de matrícula, levei para o CESVASF quase todos os professores do Departamento de História para realização de palestras e cursos no finais de semana. Também tive a satisfação de iniciar vários recém formados e recém mestres a realizarem concurso público e tornaram-se professores permanentes naquela Autarquia Municipal. Alguns ainda estão radicados em Belém do São Francisco, outros terminaram por assumir em outras instituições universitárias que já existiam no Sertão, além da chegada da das universidades federal e estadual. Isso foi possível pela coragem dos professores Maria Auxiliadora Lustosa e Licínio Roriz que, foram os responsáveis pelo ressurgimento, também do curso de Geografia. Outro aspecto que considero positivo de minha passagem e de outros professores da UFPE que dedicaram alguns finais de semana aos jovens do Sertão, é que muitos estudantes e professores sentiram-se motivados a enfrentar a pós-graduação stricto sensu, melhorando o capital humano da região.

Ser professor no CESVASF, nos finais de semana durante cinco anos, foi gratificante, aguçou-me a sensibilidade para entender melhor os seres humanos, embora tenha deixado algumas marcas negativas decorrentes de meu temperamento que se recusa, às vezes, deixar de ser um jovem de vinte anos, ou seja, um anacronismo. Mas creio que a liberdade que foi-me dada para agir, permitiu-me exercer o magistério superior, ampliar meus conhecimentos enquanto apontava caminhos de pesquisas a professores que passaram a juventude vendo a graduação e a pós graduação apenas possíveis aos mais próximos do litoral. Acompanhei jovens Pipipan (quando a tribo estava renascendo), Tuxá, Pankararu; mulheres que passaram parte de sua juventude lavando roupa na margem do São Francisco, em suas pesquisas e escrita de seus Trabalhos de Conclusão de Curso e de monografias para sua especialização. Foi maravilhoso assistir a formação de professores de história, geografia, matemática e biologia nos difíceis tempos do início do século XXI, quando a região estava estigmatizada como ‘polígono da maconha’ e muitos evitavam a região. Mas esses jovens professores estão espalhados nas cidades dos sertões baianos e pernambucano, cuidando de formar novos cidadãos. A recuperação do CESVASF levou à criação do primeiro curso de Direito no Sertão e  

Aliás, recebi em minha vida poucas demonstrações em forma de títulos, orgulho-me de ser Cidadão Belemita.  

escondidos na biblioteca

quinta-feira, fevereiro 6th, 2020

U m barulho levou-me ao que chamo de biblioteca, aqui em casa, um quarto onde alguns livros estão postos em estantes, arrumados na melhor forma possível para deles me servir. Eles ficam lá, esperando que os abra, vez em quando, em busca de informações, de reflexões que outros desenvolveram com o objetivo de aperfeiçoarem-se e, ajudar quem viesse a se interessar, como é o meu caso. O barulho, descobri, depois, foi causado pela queda de uma prateleira que não resistiu ao peso de um volume da Divina Comédia e outros livros escritos sobre a história do Brasil, mais especificamente, de Pernambuco. Juntando os livros, descubro que meus gatos haviam tentado dormir sobre um baú de fotografias e as espalhado. Dedico-me às fotos, o olho que me resta quer divertir-se com as imagens e cores. Começo a organizar, melhor, limpá-las e descubro-me no encontro dos dois séculos de minha vida.

Os últimos anos do século XX levaram-me ao Sertão, mais especificamente à Belém do São Francisco, pois algumas pessoas que não me conheciam solicitaram-me a auxiliar na reorganização do curso de História do CEVASF. Meus finais de semana ficaram comprometidos, pois da sexta-feira, após o expediente da UFPE até o domingo passaram a ser ocupados com jovens do sertão do São Francisco, das duas margens, que frequentavam aquele centro universitário criado havia cerca de vinte anos. Depois soube que um dos colegas do Departamento de História havia participado da criação de um entidade que oferece curso superior no Sertão. Eu já havia estado na margem do São Francisco no final dos anos sessenta e início dos setenta, cuidando de animar a juventude católica, a chamada Pastoral da Juventude. Naqueles anos foi Petrolina, a diocese dirigida por Dom Antônio Campelo de Aragão que recebera meus serviços. Depois, já no início dos noventa, estive em Petrolina em curso de Especialização, promovida pela Fundação de Ensino de Pernambuco, que então se organizava para ser a Universidade de Pernambuco. Fui substituir um colega que deveria ir a São Paulo. Foram duas experiências diferentes, e delas tiro proveito até hoje, pois além de receptivas, as pessoas sempre me apontaram caminhos que eu desconhecia. Fui conhecendo o meu povo, fui me conhecendo, ampliando meus olhares para o interior do meu Estado, o que me diziam ser o Brasil profundo. Aprendi a ver os contrastes diversos. E o que fazia eu?

Uma vez o professor Eduardo Hoornaert disse-me que eu estava fazendo o trabalho de “vulgarização do conhecimento”, mas no sentido, disse-me ele, do que foi a Bibliothèque Bleue , a Biblioteca Azul, uma experiência de leituras populares que tornaram accessíveis o conhecimento aos grupos de menor prestígio e poder econômico, no Antigo Regime, mas também no início do tempo da modernidade industrial. As fotografias espelhadas e que pediam organização, mostraram-me nas cidades baianas e pernambucanas banhadas pelo rio São Francisco, mas não apenas elas, pois estive em Euclides da Cunha e em toda a região de Jeremoabo para conhecer de onde chegavam os alunos a quem eu iria servir. Fiquei tão envolvido por esse trabalho que perdi um ano do Nóis sofre mas Nós goza. E esqueci que devia participar de eventos nas capitais, eventos promovidos pelas instituições de pesquisa em história. O Sertão me engoliu por quase uma década. Depois, as fotos levaram-me para a experiência na Mata Norte do Estado de Pernambuco, pois fui convidado auxiliar o Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Nazaré da Mata, de quem fui servo até 2015. Dois mundos que me tomaram e que me alimentam até hoje.