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12 de Outubro: um feriado de desafios

segunda-feira, outubro 12th, 2020

O 12 de outubro é um feriado que pode ter muitas explicações e desentendimentos, pois nele confluem três tradições. Uma delas, a que parece mais simpática é que celebra a infância. Quando eu era infante aprendi e cantei canções que celebravam as “crianças do meu Brasil”, que lembravam ter jesus dito “vinde a mim as criancinhas”. Meus pais não tinham o hábito de nos dar presentes neste dia, como hoje eu faço, juntamente com meus filhos. Mas era um tempo que lembro com nostalgia e, claro não percebia o que chamamos hoje de Direitos da Infância e da adolescência. Embora eu saiba que o trabalho infantil afasta crianças da escola, impede que elas brinquem, em meados do século passado, entre nós brasileiros, o trabalho infantil era visto como meio educacional para o trabalho. Muito comum era a violência contra as crianças, também visto como atividade educativa, pois que se seguia, sem ter lido a Bíblia, a máxima de que o pai que ama não poupa o marmelo. Ainda hoje leio nas postagens do Facebook algumas lembranças, ao mesmo tempo em que se discute o papel da psicologia na formação das novas gerações: Apresentam-se cinturões, palmatórias, chinelos seguidos da pergunta: qual desses psicólogos lhe atendeu. Mas, um dos efeitos colaterais da luta contra a ditadura foi o estabelecimento, em nossa sociedade, do debate sobre os Direitos Universais da Pessoa Humana, logo seguido pelo debate sobre os direitos da criança, o que veio protege-la do violência familiar, do uso da trabalho infantil para a manutenção da família, etc. Vivemos hoje uma possibilidade de melhoria de alguns aspectos da vida humana se, verdadeiramente, cuidarmos das crianças. Mas aprendi, lendo os livros de história, ouvindo-a e refletindo sobre as ações humanas, que sempre quando precisamos de leis para nos dizer que devemos ser bons, é porque bons não somos. Ainda temos muitas crianças fora da escola, sem a possibilidade de aprender os códigos necessários para viver nesta sociedade com dignidade; ainda são muitas as crianças obrigadas a buscar o sustento para sua famílias, pois seus pais não conseguiram encontrar emprego que lhes garantisse a manutenção da família, ou foram desempregados, ficaram obsoletos para serem “úteis” à sociedade, e são tolerados. Vez por outra eliminados. Aliás, este ano, só no Rio de Janeiro, mais de 20 crianças foram baleadas este ano e 10 delas também o foram no Recife.  Mas o 12 de outubro é o dia da criança, vamos celebrá-las e protege-las.

Outra tradição refere-se à tradição cristã católica de nossa sociedade. Um acontecimento, ainda no período português de nossa história, um grupo de pescadores no Rio Paraíba, em Guaratinguetá, pescou, em duas etapas, o corpo de uma imagem e, em torno dela cresceu uma devoção popular em suas casas. Posteriormente a devoção foi encampada pelas autoridades eclesiásticas, com a construção de uma igreja, estabelecimento de paróquia e, crescente adesão das populações próximas à devoção à santinha que foi sendo enegrecida pelo contínuo usa das velas junto à lama fluvial que a envolvia. Milagres se contavam, e muitos os negros escravizados foram recebedores da atenção da Nossa Senhora, negra em uma colônia de brancos escravizadores. No século XX, o Cardeal Leme solicitou que o papa Pio XI proclamasse a Aparecida como padroeira do Brasil. Durante anos, essa festa católica foi dia santificado, mas deixou de ser feriado religioso. Em 1980 que o ditador presidente João Batista de Figueiredo decretou a data como feriado nacional. A Constituição de 1988 manteve o feriado nacional. Nossa Senhora da Conceição Aparecida do Brasil tem um visitado santuário por milhões de peregrinos: em 2018 contou-se mais de 15 milhões. O crescimento do número de cristãos não católicos tem provocado reações contra a devoção à Aparecida, com manifestações de intolerância, especialmente por religiosos de novas igrejas que têm surgido e crescido desde o final do século passado. A existência do vírus Covid 19, neste ano de 2020, parece ter diminuído as explosões dessa intolerância, ou elas não receberam a ressonância jornalística dos anos anteriores.   

A terceira tradição do dia 12 de outubro é a chegada do italiano, a serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Colombo no continente americano, o Novo Mundo, como se dizia então. O Paraíso, na descrição do próprio Colombo, diante da exuberância da natureza e da inocência dos seus habitantes. Na minha infância fui ensinado que Colombo descobrira a América. Essa verdade que aprendi sem discutir, pois a ouvi de professores e via como os livros falavam desse genovês que morreu pobre, em um convento, após abrir caminhos para que a recém nascida Espanha viesse a tornar-se a grande potência do século XVI e parte do século XVII. Cresci, li outros livros, como os escrito por Bartolomé de Las Casas, um dos primeiros espanhóis que vieram estabelecer-se na isla de Hispaniola. Ao ver como o paraíso tornava-se inferno por ordem de Colombo e seus seguidores, e também de seus inimigos, Bartolomeu se fez padre de verdade e passou a defender os nativos, descrevendo o que via. Em 1992, aprendi que no México já não se falava de ‘descobrimento da América”, mas de Invasão. Mas nem todos aprendemos nem tomamos novas atitudes a partir desse conhecimento. A releitura de documentos, com novos paradigmas, deu-nos uma nova visão da ação de Colombo, do que se seguiu  desde então. Muitos já lemos As Veias Abertas da América Latina, mas há muito que se compreender as ocorrências desses cinco séculos. Neste ano de 2020, após o assassinato público de um cidadão negro, nos Estados Unidos, a revolta contra o racismo sistemático alcançou, também Cristóvão Colombo que teve algumas das estátuas erguidas em sua homenagem derrubadas, posteriormente recolhidas. De certa forma, descobre-se que o genovês que provou a esfericidade da terra foi, também, patrono do racismo, da imposição de um modo europeu de ser no Novo Mundo.

Este ano de 2020 nos põe em uma encruzilhada e, em um encontro de caminhos sempre há que se tomar decisão sobre que caminho seguir. Neste caso, o 12 de outubro nos põe a debater sobre as crianças, que dizemos ser o futuro, mas precisamos entender o que o futuro delas nós é que criamos; o 12 de outubro nos põe a debater sobre a liberdade religiosa e a apropriação das devoções populares pelos sistemas religiosos estabelecidos, quase sempre em detrimento dos populares; o 12 de outubro nos põe diante da decisão de continuar a construir o Paraíso, ou destruí-lo, como fizeram Colombo, Cortez, Pizarro, Bufallo Bill, David Cockett, Tomé de Souza, Mem de Sá e assemelhados.

Álbuns de família e jornais da família

sexta-feira, outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.

Drama 2

sexta-feira, março 27th, 2020

Próprio da humanidade inventar meios para sua preservação, ensinar o que aprendeu no ato da invenção, modificar o aprendido, aperfeiçoar o recebido. É que tem ocorrido sempre, mas não somente. Alguns aprenderam mas não transmitiram o que aprenderam ou aperfeiçoaram, interromperam o processo, ou melhor, modificaram o processo humano: tornaram seu o que era comum.

Qual o nome que tenho? Quem o pôs em mim? Porque razão escolheu este nome para marcar-me entre todos os seres? Sim, o nome que carregamos é uma marca que permite sermos reconhecidos pelos demais, mas esta marca nos foi dada por alguém que possuía um objetivo ao nomear-me. Devem ter sido essas as considerações que fizeram meu filho Isaac interpelar sua mãe, marcada om o nome do avô, Manuel. É uma tradição romana. Aprendi, que as mulheres carregavam o nome de algum ancestral. Mas, porque pus o nome Isaac em meu caçula? Quantas tradições culturais, civilizacionais em um só parágrafo: romana, judia, africano-portuguesa.

Conto histórias para meu filho dormir, então quis contar a história do seu nome. Uma história que começa em Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, no tempo de Hamurabi. Abrão, homem de alguma posse, casado com Sara, teria tido um encontro com o seu deus pessoal que lhe ordenara abandonar a cidade, ir para o deserto com sua família. E então ele migra com a mulher, seus bois, cabras, escravos, alguns parentes. Abrão diz a Sara que seu deus lhe havia dito que teria uma grande descendência e que eles formariam um grande povo. O tempo passava e Sara não engravidava e já havia passado tempo de ela engravidar. Para agradar o marido, Sara permite que ele tenha um filho com uma de suas escravas e adota esse filho como seu. Sara não parece confiar na promessa do deus de Abrão, procura um jeito de cumprir a sua parte na promessa para a qual não fora consultada.

Uma tarde dois jovens estão de passagem e passam no acampamento de Abrão que os recebe e os trata bem. Na conversa os estranhos dizem que logo Sara engravidará e  Abrão terá o filho que lhe fora prometido. Sara escuta e ri , pois entende que seu tempo de maternidade já havia passado. Os visitantes reclama de sua pouca confiança ou fé no deus de Abrão. E seguem viagem. Algum tempo depois o corpo de Sara apresenta os sinais da gravidez. No tempo apropriado pare seu filho. Então Abrão fica muito alegre e diz que o menino que nasceu é a alegria de sua velhice, um prêmio, e o chama de Isaac. Foi pela alegria de ter um filho após os sessenta anos que eu, formado em parte da tradição judaica, resolvi chamar de Isaac o meu filho.

Poderia ter terminado neste ponto a história, mas o filho de Abrão, que então passara a ser conhecido como Abraão, tem uma vida maior que o seu nascimento. O nascimento é apenas um momento da vida que começara antes e terminará muito depois da experiência da vida. Assim continuei a história, não mais do nome, mas da vida de Isaac. O deus de Abraão cumprira a promessa, mas, diz a tradição, havia mais a ser realizado, mudado.

Quando saiu de Ur levando suas coisas, Abraão levava também seus sacrifíciocostumes e, entre eles, havia um hábito de oferecer aos deuses a primícias de tudo que o crente produzia. E Abraão entendeu que tinha a obrigação de oferecer Isaac em sacrifício ao seu deus, de quem disse que ouvira a cobrança. Assim ele chamou Isaac para um passeio e resolveu mata-lo para agradar seu deus. Durante a caminhada Isaac perturbava Abraão sobre qual o animal que seria sacrificado. Eu estava contando essa parte da história quando ouvi o soluço de meu filho, estupefato com a ideia de que Isaac seria morto para a alegria do deus de Abraão. E pouco adiantou ter adiantado a história, ter dito que no último instante o deus de Abraão não permitiu que fosse consumado o sacrifício/assassinato de Isaac, que apareceu um animal e que a história apenas mostrava de como os seres humanos estavam superando uma etapa do drama, deixando de matar seus primogênitos, e que Isaac. Pouco adiantou dizer que, além de ser a alegria da velhice de seu pai, Isaac era também o sinal da libertação, da superação de uma fase antiga e o começo de uma humanidade menos sangrenta e doloroso, embora ainda muitos sofrimentos estariam por vir. Lembrei que só vim a entender o que viveram Abraão e seu filho após estudar um pouco de antropologia, pois teologicamente eu apenas aceitava aquela visão de um pai com uma faca na direção do filho indefeso.

Contos de fada servem para explicar o mundo às crianças, são contados por adultos que raramente compreendem o seu significado. Assim também acontece no relacionamento dos homens com os seus deuses. A tradição judaica parece ter início com a superação dos sacrifícios humanos dos seus primogênitos, como se confirma com a história central da libertação no  Egito. A tradição cristã também exige um sacrifício do unigênito. As crianças sofrem muito no aprendizado dessas tradições que formam a cultura, a sensibilidade que carregam as fazem solidárias ao sofrimento de todas as crianças, de todos os humanos que construíram a humanidade.

Vez por outra, as sociedade estão governadas por adultos que não tiveram ou perderam a infância.   

Drama

quarta-feira, março 25th, 2020

Não tem sido fácil a construção da humanidade, ela busca alcançar o que é, parece, inalcançável. Recordo de um debate com um dos meus professores de Bíblia a respeito do que ocorria no Paraíso. A ‘queda’ de Adão e Eva é sempre um enigma. Um dos castigos recebidos por conta da desobediência é a morte, o outro é trabalho e o terceiro é a dor. Os escritores da Bíblia entendiam que os homens e mulheres não morriam antes da desobediência, assim como a necessidade de trabalhar para manter-se alimentado e vivo. Também a chegada da vida não significava a dor nem o risco da morte. Todo o drama ocorreu a partir do momento em que o desejo de conhecer o desconhecido foi maior que o temor do desconhecido. Mas isso tudo ocorreu antes que a história começasse, pois a história começa com o conhecimento de que a vida é o risco de seu desaparecimento em meio do trabalho e dor. A história parece ser a busca para chegar ao Paraíso, e ele pode ser alcançado indo em frente ou sonhando com o que se perdeu. O Paraíso é promessa ou saudade. É promessa da imortalidade ou saudade da imortalidade; promessa de um tempo sem dor ou saudade de um tempo indolor; promessa de fartura sem esforço ou saudade da fartura sem esforço. A história, ou seja a sequencia da vida humana tem sido essa busca de construir ou voltar ao tempo farto sem dor, sem morte.

Meu professor, posteriormente bispo anglicano, respondeu-me dizendo que eu deveria pensar mais sobre o assunto e que ele era/é muito interessante. Ao longo de minha vida encontrei e encontro vários códigos morais que indicam como devem agir os homens: devem ser bons, magnânimos, piedosos, calmos, atenciosos, honestos, francos, respeitadores,  contentes com o que possuem, não serem invejosos, serem como os  lírios dos campos e aves do céu. Esses códigos estão em todos os recantos da terra e são repetidos catequeticamente em todas as religiões e filosofias. Em Confúcio, Buda, Incas, Brâmanes, Abraão, Código Napoleônico.  São ensinados por aqueles que não as seguem, estão acima delas pois delas são guardiões, e por isso eles possuem o que não deve ser cobiçado. E castigam os que não conseguem vencer o desejo. Como eles conseguiram isso? Como eles conseguem isso, ainda hoje? Eles conseguiram o ócio com dignidade e sorriem dizendo duas verdades que parecem excludentes mas são explicativas e complementares: se não trabalhar não come, mas quem trabalha não tem tempo para pensar. Tempo para pensar.

Nossa sociedade tecnológica encontrou meios para que todos tenhamos tempo para pensar. Bem, não é a todos que é dado esse tempo, pois a maioria continua, como nos terraços da Mesopotâmia, vivendo da mão para a boca, trabalhando com o objetivo de ter um prato de sopa de cebola no final do dia. O caldo de carne jamais lhe chegará. Bem, há dias de festas e, neles, algo cairá da mesa. Os quadrupedes e rastejantes que chegarem primeiro alcançarão o osso e terão uma sopa diferente naquela noite.    

“sou um atleta”, “morrem os mais velhos”. As pirâmides precisam ser construídas; Salomão construiu o Templo; o Tja Mahal é mais bela prova de amor;  a Torre Eifel, a Capela Sistina o altar do Mosteiro de São Bento; o Louvre; o Arco do Triunfo. Tudo é arte beleza e sangue.

E Virgílio não entrou no Paraíso.

Amar é ver o que não se vê

segunda-feira, janeiro 27th, 2020

Muito interessante o mundo no qual vivemos: quase  não falamos com aqueles em que esbarramos nas ruas, mas estamos conversando com pessoas das quais nosso olhar nunca teve  notícia. Interessante, mais ainda, é que podemos gostar muito delas, nos comover com suas palavras, com os seus pensamentos e sentimentos. Podemos dizer que as amamos.

Essas contatações contrariam o que aprendi no final de minha infância, nas aulas de catecismo. Em torno de expressões tiradas do Livro Sagrado, Lúcia dizia que se eu não amo a meu vizinho que vejo, como posso dizer que amo a Deus, a quem não vejo? É evidente que os estudiosos bíblicos já lembraram qual o capítulo e o versículo de São João, em sua primeira carta; e os mais eruditos foram capazes de lembrar da carta de São Tiago, aquela que diz que sem obras não há amor e até mesmo o livro de Tobias, lá no Antigo Testamento ou Bíblia Judaica. Mas estes dois últimos livros nunca foram bem aceitos nas regiões onde o capitalismo obteve mais sucesso.

Essa é a conversa do final do primeiro mês de 2020, quase igual ao primeiro mês de 2019, exceto pelo entusiasmo que as promessas do novo presidente traziam, com o apoio de muitos leitores do Livro Sagrado, que se dizem cristãos mas estão arraigados no mais radical Velho Testamento, onde as promessas são muitas, mas o amor aparece pouco.

Lembro a ternura da imagem com a qual Javé se propõe a ser parecido como uma galinha que coloca todos os pintinhos sob as suas asas para protegê-los; ou ainda como o amante que está sempre disposto a aceitar a noiva que se prostituiu. Claro que os eruditos já estão prontos para verificar em quais livros estão tais imagens. Para os mais iniciantes que que eu, digo que são belas imagens poéticas, coisas de profetas, dos explicadores.

Desde o janeiro de 2019 estamos olhando e vivendo, na prática, a aplicação do “olho por olho”, da exigência do sacrifício dos pecadores para que os escolhidos e capazes sintam que seu deus os protegem, como demonstram a riqueza com a qual são premiados. Nada de ‘olhar os lírios dos campos ou os pássaros do céu’, mas cuidar de guardar as normas da lei, de guerrear constantemente contra Baal e seus seguidores, exterminar o mal, matando a todos sem a palavra perdão, exceto no que se refere a si mesmos. Ah! como os deuses se parecem e como os sacerdotes dos diversos deuses vestem-se tão parecidos.

O mês que termina nesta semana é a demonstração de que pouco importa o sofrimento dos jovens que são pobres; pouco importa o sofrimento dos velhos que são pobres; o que importa é que o templo seja construído, que o palácio real seja o esplendor do poder, que os sacerdotes estejam a serviço de Baal, embora pareçam clamar contra ele. Esses sacerdotes nunca compreendem o que o poeta/profeta Daniel quer ou quis dizer com o sonho do rei se alimentando da relva, como os animais brutos; jamais entenderam ou entenderão essa fábula da estátua de pés de barro.

Os sacerdotes jamais entenderam ou entenderão os poetas/profetas. Os matam, séculos depois os homenageiam.   

Janeiro está a terminar, mas para onde vai o atual presidente, é uma incógnita, pois ele gira sobre si mesmo; para onde vai o ex-presidente, é outra incógnita, pois ele gira sobre si mesmo; para onde vai o país, também é uma incógnita, pois seus poetas não tomaram distância do poder. Não compreenderam o mundo no qual estavam metidos e, talvez por isso, deixaram de sonhar, sucumbiram ao imediato, esqueceram que o profeta/poeta é sempre aquele que aponta uma explicação, não a realidade. Os profetas/poetas existem para que não morramos, nem sejamos tocados pelas chamas que destroem. Reis alimentam-se de impostos, profetas de amor, de sonhos, de desejos, de futuros. Para eles a vida

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

Em homenagem aos Setenta e cinco anos do fim dos Campo de Concentração dos nazistas

Sobre a bobagem da censura

quinta-feira, dezembro 12th, 2019

Achei bobagem um dos bispos auxiliares da Arquidiocese de Olinda e Recife suspender a assinatura da NETFLIX por causa da irreverência de um filme cômico. Maior bobagem é anunciar que o fez, pois induz os católicos a aceitarem a ideia de controle da arte, apoiando as bobagens que o o atual governo está a fazer na área da cultura. Além do que, lembro que, antes que o bispo tivesse nascido, os católicos já viram esse fracasso no tempo em que Anselmo Duarte fez o belíssimo Pagador de Promessa. Eu tinha dez anos e os padres recortavam os jornais para que não tivéssemos acesso ao que acontecia além dos muros do Seminário Menor da Várzea. João XXIII tentava abrir a janela que este bispo, décadas depois, que fechar. Nem quero lembrar o que ocorreu com o filme francês sobre Maria. O testemunho da fé pode até ser nestes termos, mas é melhor dialogar, não apenas com outros religiosos, mas com os não religiosos, como aponta documento do Concílio Vaticano II.
Antes que eu esqueça, ao cortar a sua assinatura (até parece a birra de bolsonaro com a FSP), o bispo se proíbe de ver OS DOIS PAPAS, que narra a transição do antigo presidente do Tribunal do Santo Ofício para o Pastor de Buenos Aires.