Archive for the ‘Humanidade’ Category

O Escravo Francisco: qual a tradição: a do Medo ou a da Liberdade?

segunda-feira, novembro 14th, 2022

O ESCRAVO FRANCISCO: QUAL TRADIÇÃO: A DO MEDO OU A DA LIBERDADE

Prof. Severino Vicente da Silva

Então saímos de casa e olhamos o mundo que carregamos em nós. Quase sempre só vemos o que já conhecemos. Quando encontramos algo que nos é desconhecido, temos que parar e comparar com o que já conhecemos, e.  nesse exercício, podemos crescer em conhecimento, ou podemos não sair de onde estamos. Sempre temos a possibilidade de negar o que de novo nos vem.  Estranha essa situação. Nos últimos dias percebi que, ao sair para usufruir ou conhecer uma cidade histórica, dessas que são nomeadas Patrimônio Cultural, tenho firmado, após conversas aleatórias com seus moradores, percebi que eles não sabem do que estamos falando ou perguntamos. Estaria conversando com estrangeiros em sua própria terra?

Às vezes seria melhor que assim fosse, pois que podem estar cultivando algo que não deveria ser guardado na memória, exceto para que não viessem a ser repetidos. Bem, na história, aprendemos que nada se repete, não da mesma maneira.

Se somos o que fomos, o que somos é resultado do foi vivido no passado, ou seja, o passado nos acompanha de maneira quase definitiva. O Brasil foi sendo gestado com um pequeno número de pessoas a impor suas vontades, desejos e projetos sobre um número enorme de outras pessoas. O Brasil cresceu com a escravidão, terminada oficialmente em 1888. Foram cerca de trezentos e cinquenta aos de abuso, de destruição de pessoas enquanto se construía o Brasil. Relações de ódio, medo, simpatia, ojeriza, carinho, perdas, frustrações, guerras, mentiras, tudo isso e muito mais fez parte da formação do Brasil: devemos reconhecer que foi assim a nossa formação, como foi a dos povos e nações com as quais convivemos no cenário mundial. E tudo isso deve ser parte da memória explícita, não apenas da memória coletiva e reprimida que carregamos. É necessário saber o que fomos e como fomos para entender o que somos.

Falamos da escravidão que tudo criou no Brasil. Joaquim Nabuco ensinou que não há coisa neste país que não tenha o trabalho da mão cativa. O cativo indígena, de quem tudo lhe foi tirado, e o cativo africano a quem nada lhe foi dado. Houve, e há, outra parte que tudo tomou, tudo teve e tudo negou. No tempo presente: tudo tem, tudo tem, tudo nega. Tomou terras do indígena para si, e também lhe tomou a liberdade, os corpos saudáveis de suas mulheres, e lhe tomou e sua alma; tomou para si o trabalho do africano escravizado, tomou seus corpos, seus sonhos, sua alma. Com isso tudo fez surgir um povo moreno, mestiço, a quem tudo é negado, de quem lhe é tomado o resultado de seus trabalhos. Assim foi sendo construído um país que só “pode” ver o mundo com os olhos daqueles que sempre o dominara, que tudo tomou para si.

 Joaquim Nabuco, dizem, era um flâneur, um vadio errante, em suas passagens pela Europa. Olhava ao seu redor, gozava os benefícios que a sociedade inglesa lhe dava, e nada que fizera para o que estava usufruindo. Seria o Pedro, segundo imperador do Brasil outro Flâneur? Sem poder ir a Europa, tento ser flâneur no Brasil. Será isso possível? Joaquim Nabuco em suas andanças inglesas não conseguia ver que estava no interior das minas de carvão. O Imperador se encantava com a França e seus escritores, mas não parece haver a presença da comuna de Paris em suas memórias. Folheando livro de autor alagoano, vejo a hipótese que, influenciado por Victor Hugo, Pedro II começou a comutar a pena de morte definida para os escravos que matassem ou ferissem gravemente seus donos. Era uma lei de 1835, que jamais foi abolida. O senso político do Imperador esteve sempre em luta com a sua convicção na defesa da vida, contra a pena de morte, segundo memorialistas e historiadores. Em relação ao Brasil que se formava com o trabalho escravo, o Imperador se portava como um flâneur. Joaquim Nabuco parece ter abdicado da irresponsabilidade do a Andarilho e se tornou abolicionista. Aliás, ainda estudante defendeu um escravo que matara seu dono, evitando a forca, determinada pela lei de 1835. Como os que estudam história sabem, o Período Regencial (1831-1840) foi um tempo de muitas rebeliões, e a lei que estamos a nos referir foi criada como resposta do Parlamento, em sessão secreta, às rebeliões, especialmente as que envolviam os escravos em luta pela liberdade.

Artur Ramos é um dos brasileiros que dedicou parte de sua vida intelectual para compreender do que é feito o Brasil, atentando para a participação do negro na formação do Brasil. Artur Ramos nasceu na cidade de Pilar, Alagoas. A cidade cresceu com o cultivo da cana e da pesca do Bagre. Mas a cidade agora, como muitas cidades históricas, quer ser local de atração turística. Está a se formar um parque para turismo religioso e, no desejo de alguns, pode vir a ser um local para um teatro aberto, em torno de um fato histórico, pouco registrado nos livros didáticos, na memória das gerações. O Acontecimento envolve Pedro II, o imperador que dizia querer ser professor, mas que não parece ter tido interesse em formar um rede de escolas. Ainda bem, pois os escravos, maior parte da população, não teriam tempo para ir aprender sob a orientação de professores. Seria um desastre para os donos dos escravos. Alguns historiadores simpáticos ao imperador, e à sua cidade protegida por Nossa Senhora do Pilar, informam que um acontecimento na cidade marca o fim da pena de morte no Brasil, pois foi em Pilar que ocorreu último enforcamento de um escravo, a quem o imperador negou clemência. Estamos falando do “escravo Francisco”, levado à forca no dia 28 de abril de 1876. Ele matara seus donos, teve um processo que durou dois anos, mas o processo foi destruído. O equilíbrio político do Imperador evitou a comutação da pena de morte em prisão perpétua, como pedira o Escravo Francisco, pois entendeu que os proprietários locais poderiam revoltar-se contra o Império.

O certo é que o Escravo Francisco, após orar na Igreja do Rosário, a pedido seu, seguiu a pé ao local de sua execução, no Sítio Bonga, acompanhado por uma multidão, mais de mil pessoas em uma cidade que então possuía treze mil habitante. Veio gente de muitos lugares para ver o enforcamento do Escravo Francisco. Uma tradição historiográfica diz que Francisco, após se despedir jogou-se antes que o carrasco agisse. Não permitiu que definissem o momento de sua morte, escolheu ele o momento de sua liberdade. 

Anualmente, a cidade de Pilar refaz esta cerimônia, faz o teatro do enforcamento, a cada 28 de abril seguindo o roteiro que o Jornal de Alagoas fez na edição do domingo 30 de abril de 1878. Os que pretendem tornar turístico este evento, esperam que a cada ano venham mais pessoas para assistir, acompanhar o mesmo trajeto que Francisco fez até o local do seu enforcamento. Soube de pessoas que choravam, enquanto outras diziam que tinha mesmo que ser enforcado para servir de exemplo. Caso prospere essa ação, qual memória ficará: a do escravo que reagiu ao tratamento de coisificação a que era submetido, ou a necessidade de que o exemplo continue a ser dado, e os dominados sejam ensinados que não devem reagir à subordinação?  

   Deodoro da Fonseca, Alagoas, 14 de novembro de 2022

Nota:

  1. Informações foram encontradas em https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/04/04/jornal-de-alagoas-narrou-em-detalhes-ultima-pena-de-morte-executada-no-brasil
  2. SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Pilarenses ilustres. Maceió, 2010.

Drama 18 – Boa Morte e Pandemia

sábado, agosto 15th, 2020

Católicos, desde alguns séculos celebram a Ascenção de Maria, mãe de Jesus, a Nossa Senhora de inúmeros títulos, dependendo do devoto. Essa festa quase diz que Maria não morreu, mas isso lhe tiraria a humanidade. Assim. Em uma tradição brasileira, ligada ao povo negro que foi trazido da África, essa é a festa da Dormição de Nossa Senhora, conforme a tradição da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, em Cachoeira, BA. Neste dia, nesse momento, de grave pandemia que mata cerca de mil brasileiros por dia, mas que também leva à morte milhares de pessoas em quase todos os países do mundo, precisa-se de uma fé que acompanhe “na hora morte” e que essas pessoas tenham uma boa morte. Mas, quem de nós sabe o que é uma boa morte?

Talvez a boa morte seja decorrente de  se ter vivido bem a vida, esse percurso entre o nascimento e a morte, disse um poeta. Mas há os que entendem, como as mulheres que vivem o culto de Nossa Senhor da Boa Morte, que a morte não é o fim da vida. Que não se confunda o pequeno intervalo  que nos foi dado a conhecer, com sendo a vida. Nós, no tempo em que conhecemos pais, avós, irmãos, filhos, primos sobrinhos, vizinhos de rua, colegas de sala de aula, banqueiros ávidos por lucros, políticos angustiados pelo medo de perder o poder, sacerdotes das muitas religiões que duvidam de seus deuses enquanto pregam suas palavras, somos apenas um pequeno fulgor da Vida, que é eterna, tanto para o materialista quanto para o espiritualista.

Desde o século XVI que vem crescendo o tempo entre o nascimento e a morte. Os bens culturais ampliaram a longevidade dos indivíduos, o que tem feito aumentar o número de habitantes que vivem simultaneamente no planeta terra. Até parece que ela não suporta mais tanta gente. Entretanto isso é uma ilusão, como a que assistíamos no filmes americanos que contavam a conquista do Oeste; em alguns deles ouvíamos diálogos que carregavam uma frase mais ou menos assim: “Este território é pequeno demais para nós dois”. Assim, ingleses, suecos, dinamarquês, franceses e outros, mataram as tribos indígenas de lá, como os portugueses mataram as tribos de cá e os espanhóis as de acolá. Esse mesmo discurso ocorreu entre chineses e japoneses; japoneses e coreanos; Hunos, e godos, visigodos, ostrogodos, francos, com os romanos ou que já estivesse ocupando aquelas terras. Nem se pensava em boa morte, ou melhor, a boa morte era a do guerreiro que morria matando. Houve um tempo que era arriscar o bom morrer com o sangue dos outros, como a épica cena protagonizada por Peter O’tolle, em Lawrence da Arábia. Mas, tanta morte deve levado aos que mal viviam, bem que poderiam ter uma boa morte. Sim, a morte aparece para todos, mas as famílias mais pobres é que parece serem mais visitadas pela Noiva de Todos, especialmente com os sucessos das pesquisas, das ciências, da medicina, da higiene. Mas nem todos têm acesso a esses bens tão necessários à vida. E os mortos continuam a ser mais numerosos entre os pobres que, por seu turno, são os mais numerosos habitantes do planeta, dominado por aqueles que, quando morrem os pobres, apenas dizem: é a vida. Mas estes guardam dinheiro para ser gasto evitando a morte nos hospitais, pendurados em máquinas que respiram por eles.  

A Nossa Senhora da Boa Morte é, também aquela que ajuda no Bom Parte, Patrocina os Despachos e aparece como Auxiliadora e companheira dos Aflitos, daqueles que estão em Desterro, que está sempre a oferece um Perpétuo Socorro, nos momentos que as Dores atordoam . A Nossa Senhora da Boa Morte está a acompanhar, os que desejam a sua companhia, ao longo da vida.

15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Boa Morte, dia da Assunção de Nossa Senhora, dia da ordenação do padre Hélder Câmara, que teve uma Boa Morte, parte de sua boa vida dedicada aos aflitos carentes filhos da Mãe  de misericórdia.

Drama 17 – onde está a solidariedade?

segunda-feira, julho 27th, 2020

Antes que julho termine o Brasil contará noventa mil mortos pela Covid 19. É um número alarmante. São muitas as cidades brasileiras que não alcançam esse número de habitantes. Ainda morrem cerca de mil brasileiros diariamente, e tal montante não parece influir no comportamento dos brasileiros, nem na inteligência dos que governam o país. O que nos ocorre? Porque tal situação e comportamento crescem fecundamente em uma nação, em um povo a quem se atribui hospitalidade, alegria, cordialidade e tantas virtudes cantadas, por estrangeiros que nos visitam e por muitos de nós. Gonçalves Dias, vivendo na Europa, escreveu afirmando que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. As aves europeias gorjeiam diferente, sem a tropicalidade fulgurante, sem a verdura exuberante das florestas, como afirmava o escritor de Porque me ufano do meu país, o conde Afonso Celso. Mas, algo acontece que nos impede a vencer a pandemia Covid 19, já sob controle em muitas regiões do mundo, seja no Oriente edulcorado por alguns, seja no Ocidente europeu, destratado por outros. Mas, na América, o novo continente, não se encontrou o caminho para conviver com o vírus biológico do século XXI.

Sabe-se, hoje, que na Itália há regiões com índice zero de coronavírus 19. Na Úmbria, ali na Itália, hoje é zero de Covid 19. Seriedade, disposição para cumprir o fechamento das cidades, a circulação das pessoas, tudo isso levou a esse resultado. Devemos considerar alguns pontos para entendermos tal sucesso: lideranças políticas e morais dignas de merecerem a confiança do povo. Um prefeito que admite o erro e pede desculpas à população por ter colocado interesses econômicos além do valor da vida humana; a presença inspiradora de um líder religioso comprometido com a vida humana, entendo-a sagrada, pondo-se humildemente a serviço do seu povo, ajoelhando-se solitário e solidário com a humanidade, rogando forças para vencer a adversidade. E, principalmente, o espírito de solidariedade dos italianos, superando os desejos privados e egoístas por entender que civilização só é possível com a compreensão de que nada se constrói sozinho, que só agindo como uma unidade é que se encontra forças para vencer, até mesmo sem as drogas milagrosas e as vacinas, força tão terrível da natureza. A Itália e outras regiões do continente europeu venceram o desafio por agirem solidariamente, as nações e os cidadãos. Semelhante vimos acontecer no Oriente, cultivador de tradições que a todos unem, acima dos sofrimentos a que são submetidos ao longo dos séculos. Só se pode vencer o vírus físico se houver, além dos anticorpos naturais, os anticorpos sociais da solidariedade, da compreensão, do comprometimento, ainda que pequeno, com toda a sociedade.

E então, ao nos voltarmos para o continente americano, observamos uma sociedade voltada para o mito do self made man, prefigurado em personagens vividos, na tela, por John Wayne, aqueles que tudo resolvem por sua vontade, coragem pessoal. E seus armamentos aliados a uma religião civil fundamentalista, aliada à leituras fundamentalistas dos textos bíblicos, que produziu um cristianismo impermeável aos sentimentos humanitários, capaz de lutar contra o cristianismo que fundamentou a civilização Ocidental no que há de melhor e no que a diferencia. O fundamentalismo cristão, o tão louvado espírito do capitalismo, impedem a solidariedade, promovem o assassinato público dos cidadãos de cor, e tem como lema a ideia de que tem que estar acima de todos, como a loucura própria dos nazistas, seguidores do Minha Luta, e que mostrou o vírus da imoralidade, ou amoralidade, nos campos de concentração nazista. Na Rússia os números são altos, mas teme-se que o governo russo esconda dados. É a tradição mantida pelo novo Czar.

No Brasil, que é o tema inicial dessa nossa conversa, observamos que não tivemos liderança nacional, nem civil nem religiosa. Os religiosos quando se pronunciaram, herdeiros do Evangelical Belt norteamericano, foi no sentido de que “Deus salva os seus” e que basta a fé para evitar o Coronavírus. Hoje alguns de seus membros ocupam pastas ministeriais, no governo federal. Os líderes católicos preferiram, parece, lavar as mãos, tiveram medo de comprometer-se, agiram como agiam os bispos antes da CNBB. Isso permitiu que alguns padres estrelados e famosos fossem mendigar ajuda ao césar, e alguns outros saírem em defesa do uso de armas. Que diriam Dom Luciano Mendes, Dom Hélder Câmara, Dom Evaristo Arns? Só agora, após 80.000 mortes, vai sair um documento coletivo. Não houve uma voz das religiões conclamando à solidariedade, salvo exceções que não receberam apoio de seus grupos. Ficamos entregues à sanha de um líder que sonha com o povo (seus seguidores) armado para tornar mais fácil um golpe de estado, como disse em reunião ministerial de 22 de abril. Só nos resta esperar que o “espírito de 76” anime os norte-americanos a derrotar o que de pior sua cultura produziu, assim, quem sabe, derrotaremos, ou afastaremos da cena, o que de pior foi produzido no Brasil no século XX.

Quanto à trajetória da Europa na luta contra a Covid 19, é como dizia o poeta: As Aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.  

É possível o Corpus Christi no isolamento social?

quinta-feira, junho 11th, 2020

Drama 12

Desde 16 março estou em quarentena determinada pelo governo do Estado e pela ideia de que devo evitar a contaminação viral do Covid19. Aproveito o tempo para aprofundar o relacionamento com filhos e esposa, mas também com amigos, conhecidos e desconhecidos que, eventualmente acessam o www.biuvicente.com , e também par refazer algumas leituras, pesquisar textos que nos concedem através dessa maravilha que é a rede internacional de computadores. Com ela o isolamento deixa de ser social para ser apenas distanciamento físico. Neste isolamento temos a possibilidade de conversar com o mundo e sair do isolamento.

Creio que foi no final dos anos sessenta que o tema de redação de um dos vestibulares de uma universidade foi “Homem algum é uma ilha”, título do livro do monge Thomas Merton, tomado de empréstimo à obra de John Donne. Nesse livro, publicado pela primeira vez em 1955, o monge trapista trata de muitos assuntos sociais que eram vividos naquela época. Apontava ser impossível alguém viver sem tocado pelos dramas vividos pelos outros seres humanos, que a nenhum humano era dado o direito de escusar-se de participar da solução dos problemas que infligem a humanidade, pois não há uma solução apenas para o indivíduo, o indivíduo só terá solvido seu problema se todos os demais forem alcançados nessa solução. Sempre me encantou como um monge trapista, isolado em seu mosteiro, pode influenciar tanto uma ou mais gerações. Tive a felicidade de passar quinze dias do ano de 1972, na abadia Nossa Senhora de Getsemani, no Kentucky, Estados Unidos da América do Norte. inclusive conhecer a sua ermida, mais isolada no bosque. E foi naquele isolamento que Thomas Merton refletiu, escreveu e conversou com o mundo sobre os problemas sociais que, infelizmente, não conseguimos resolver. E isso em uma época anterior à esse acúmulo de meios que hoje temos para nos comunicar com o mundo, com as pessoas.

Então recebo de João Paulo Lucena, em meu isolamento, a pergunta se não escreveria algum texto sobre o Corpus Christi, uma festa que os católicos celebram desde o século XIII, a partir da região que hoje é Bélgica. Esta é uma festa da Eucaristia, uma celebração na qual os católicos refletem sobre a doação da vida. Não é apenas uma adoração estática, mas a verdadeira adoração é cuidar para que todos tenham o pão. A festa de Corpus Christi lembra que nenhum homem é uma ilha, pois o católico sabe que ele é convidado para ser um com todos, na grande eucaristia, que divide o pão e o vinho, divide as riqueza para que nada falte a nenhum dos seus semelhantes.

Interessante é que Thomas Merton decidiu ser católico após assistir uma missa na Igreja do Corpo de Cristo, próxima do campus da Universidade de Columbia, onde então era professor; na mesma igreja foi batizado e comungou pela primeira vez. Estava com 24 anos de idade, no ano de 1938. Em 1941 foi aceito para viver na Abadia de Getsemani, e em 1949 recebeu a ordem sacerdotal. Enquanto fazia suas tarefas na abadia, Merton usava as duas horas de repouso para escrever, escreveu mais de sessenta livros sobre direitos humanos, espiritualidade, armas nucleares, pacifista lutou contra a guerra do Vietnam, diálogos com a diversas religiões. Viveu até 10 de dezembro de 1968, na Tailândia, onde participava de uma ação com monges budistas.

Neste isolamento social, cabe ficar atento aos que provocam cisão entre os homens, cuidam de destruir o pouco de humanidade que temos construído, agir para que formemos um corpo saudável, uma sociedade que volta-se para a construção da igualdade, da justiça, da compaixão.

Escravidão e a dificuldade de assumir o isolamento social.

quinta-feira, abril 30th, 2020

Aquele que lutou a grande batalha contra o trabalho escravo no Brasil, Joaquim Nabuco, escreveu que a escravidão cria uma sociedade em que uma parte não trabalha, apenas manda, e outra parte que apenas obedece, mas que obedece sob chibata. Uma sociedade gestada com base na escravidão de seres humanos, um processo de desumanização, dificilmente será uma sociedade livre, capaz de gerir-se e respeitar-se. Os que se alimentam do trabalho dos outros, não valorizam o trabalho, nem aqueles que trabalham;  aqueles que trabalham e não conseguem usufruir daquilo que o seu trabalho produz, percebem-se como nada, como ninguém, e são levados a confundir migalhas de alimentos e liberdade com a plenitude dos bens a que têm direito. E, o que é terrível, os povos que foram gestados na escravidão confundem falsa dádivas como direito.

É por não perceber o outro como sujeito que os senhores de escravos, os originais ou seus descendentes, não conseguem valorizar a vida dos demais membros da sociedade, ou melhor, entendem que eles, apenas eles, é que fazem a sociedade. Daí o descaso da vida dos outros, daí o “ e daí?”.

Não valorizar a vida, é o mesmo que não valorizar a vida dos outros. Na medida que  se desconhece o valor do outro, da sua dor, dos seus sentimentos, cri-se o espaço para não perceber a sua existência e, se eles não existem, não há porque preocupar-se com eles, com o que lhes aconteça e, este comportamento está  condenado, dito como errado desde o início da tradição na qual o Brasil foi formado.

E o Senhor disse a Caim: ”onde está o teu irmão?” – Caim respondeu: “: Não sei. Sou porventura eu o guarda do meu irmão?” Gen4:9.  

Fora do Paraíso, todos são responsáveis por todos, mesmos os que receberam a glória do poder, uma vez que o poder só é grandioso e reconhecido à medida que for capaz de atender a necessidade de todos e não a vaidade dos que que o receberam. O não preocupar-se com o que ocorre aos demais, será cobrado. Cada gota de sangue será cobrado “e de ora em diante, serás maldito e expulsos da terra, eu abriu a boca para beber da tua mão o sangue de teu irmão” Gen 4:11s.

Ao destruir a vida do irmão para saciar a sua vaidade ferida, a pessoa  deseja negar a humanidade dele e afirmar a sua, mas como a humanidade é sempre coletiva, é impossível ser humano sozinho. Negar a vida do irmão é negar a sua própria humanidade. Reconhecer o erro, admitir que é responsável pelos acontecimentos que estão no entorno de sua existência, é a tentativa de recuperar a humanidade perdida.

Após a repercussão negativa do seu “e daí”, ou seja “o que tenho eu com a vida de meu irmão ?”, por sinceridade ou cálculo político, assistimos, agora, o presidente Bolsonaro dizer, timidamente, que talvez tenha sido portador do vírus que ele negava; mas, ao dizer que os governadores com sua política não conseguiram achatar a curva epidêmica, querendo-lhes imputar a culpa das mortes que ele perpetrou, Bolsonaro começa a admitir que cometeu erro. Certo que isso ocorre depois que o presidente Trump indicou que o “Brasil tomou o rumo diferente” e ameaçar suspender os voos doas companhias aéreas norte americanas para o Brasil, como que cumprindo o castigo de ser um pária na sociedade humana.

Drama 6 – O que aprendemos no distanciamento social

terça-feira, abril 14th, 2020

O que estamos aprendendo nesta experiência de distanciamento social, empurrados para dentro de nossas casas, forçados a nos olhar diretamente por um vírus? Uma experiência diversa daquela a que nos acostumamos e formos ensinados: sair de casa, todos os dias, e só voltarmos quando estivermos tão cansados de aprender para trabalhar, e trabalhar para ganhar dinheiro e ganhar dinheiro para comprar, o comprar o que nem sempre precisamos, mas precisamos comprar para que vejam que compramos e, se compramos é porque recebemos dinheiro pelo trabalho que fazemos a cada dia fora de casa.  Foi assim que aprendemos, por isso não contamos o trabalho de casa como trabalho, pois ele não é transformado fisicamente em dinheiro. Por isso o trabalho de lavar pratos, lavar a roupa, passar a roupa, guardar a roupa, preparar a comida, limpar a casa, não é visto como trabalho. Mas agora, que “não se está fazendo nada”, pode-se aprofundar a ideia tradicional de que trabalho é aquilo que se faz com um sentido, uma direção.

O trabalho gera a riqueza da vida: gera a limpeza que gera a saúde, gera a satisfação que gera o sorriso de agradecimento. Mas perdemos esse sentido do trabalho, em algum momento foi tirado este sentido. Talvez quando foi dito que ele é maldição. Tornou-se maldição porque perdeu o sentido da alegria criadora, regenerativa da vida. Interessante como vejo nas redes sociais que há muita gente trocando receitas para a produção de comida. Algumas pessoas estão descobrindo a alegria de preparar a comida para os familiares.   

Nesse período em que fomos chamados a ficar em casa, destoando do que nos foi ensinado, podemos aprender que trabalho não é o movimento mecânico do obreiro (operário) que opera a máquina sem, às vezes, percebê-la. Não precisa, tudo que ele faz é ajustar-se ao movimento da máquina, seja ela de escrita, de produção de tecido. Não é um movimento criativo e, se temos um cérebro que nos permite criar, ao realizar tarefas que apenas pedem a nossa capacidade mecânica, somos enfiados no mundo da infelicidade. Nos tornamos infelizes quando não exercemos o que nos difere dos demais animais, quando não exercemos a nossa capacidade de criar. Ao ficarmos em casa, nesse distanciamento social, podemos reaprender a contar histórias para nossos filhos, e nossos pais, e para aqueles que estão no mesmo espaço. E aprendemos a ouvir. Também aprendemos que o que fazemos e útil e valoroso, tem valor; embora não gere dinheiro gera riqueza, porque gerou uma possibilidade de alegria.

Muitos ainda não entenderam o sentido maior de ficar em casa, confinado, por algum tempo. Claro que é difícil para quem foi ensinado que tem que sair de casa para produzir riquezas que não irão experimentar, entender que ficar em casa neste momento, é um ato social e solidário, pois está salvando a vida de outras pessoas. Mas como entender que isso é bom se a pessoa foi ensinada que ele deve trabalhar para garantir o seu sustento e não o de toda a humanidade? Pois é, não lhe disseram que a vida é um ato cooperativo, que ninguém trabalha só para si, que o verdadeiro trabalho é para todos, não para alguns. Podemos aprender muita lições nesse pequeno período que fomos, tangido por um vírus, lançados de volta ao início. Temos a possibilidade de iniciar mais uma vez.

Mas, percebemos que há alguns que não nos querem em casa, nos querem na rotina dos gestos repetidos e repetitivos, querem que não descubramos. Redescubramos, a nossa criatividade, pois assim poderão continuar a nos tratar como máquinas. Não querem que saibamos que somos mortais. Sim, o vírus que nos ameaça nos diz que somos mortais. Se entendermos isso, poderemos os perguntar pelo sentido da vida para além do sal diário (sal(dia)ário) para os alimentos do corpo; querem que retornemos logo ao trabalho em suas fábricas e corporações para não notarmos que a vida tem como objetivo a felicidade, não a ação mecânica, não o divertimento, como nos dizem nas propagandas; a felicidade é conversar com as pessoas e não simplesmente  ver os monumentos. Ser feliz não é ficar três minutos olhando a Monalisa, ser feliz é criar a própria Gioconda.