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Álbuns de família e jornais da família

sexta-feira, outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.

Drama 17 – onde está a solidariedade?

segunda-feira, julho 27th, 2020

Antes que julho termine o Brasil contará noventa mil mortos pela Covid 19. É um número alarmante. São muitas as cidades brasileiras que não alcançam esse número de habitantes. Ainda morrem cerca de mil brasileiros diariamente, e tal montante não parece influir no comportamento dos brasileiros, nem na inteligência dos que governam o país. O que nos ocorre? Porque tal situação e comportamento crescem fecundamente em uma nação, em um povo a quem se atribui hospitalidade, alegria, cordialidade e tantas virtudes cantadas, por estrangeiros que nos visitam e por muitos de nós. Gonçalves Dias, vivendo na Europa, escreveu afirmando que “as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. As aves europeias gorjeiam diferente, sem a tropicalidade fulgurante, sem a verdura exuberante das florestas, como afirmava o escritor de Porque me ufano do meu país, o conde Afonso Celso. Mas, algo acontece que nos impede a vencer a pandemia Covid 19, já sob controle em muitas regiões do mundo, seja no Oriente edulcorado por alguns, seja no Ocidente europeu, destratado por outros. Mas, na América, o novo continente, não se encontrou o caminho para conviver com o vírus biológico do século XXI.

Sabe-se, hoje, que na Itália há regiões com índice zero de coronavírus 19. Na Úmbria, ali na Itália, hoje é zero de Covid 19. Seriedade, disposição para cumprir o fechamento das cidades, a circulação das pessoas, tudo isso levou a esse resultado. Devemos considerar alguns pontos para entendermos tal sucesso: lideranças políticas e morais dignas de merecerem a confiança do povo. Um prefeito que admite o erro e pede desculpas à população por ter colocado interesses econômicos além do valor da vida humana; a presença inspiradora de um líder religioso comprometido com a vida humana, entendo-a sagrada, pondo-se humildemente a serviço do seu povo, ajoelhando-se solitário e solidário com a humanidade, rogando forças para vencer a adversidade. E, principalmente, o espírito de solidariedade dos italianos, superando os desejos privados e egoístas por entender que civilização só é possível com a compreensão de que nada se constrói sozinho, que só agindo como uma unidade é que se encontra forças para vencer, até mesmo sem as drogas milagrosas e as vacinas, força tão terrível da natureza. A Itália e outras regiões do continente europeu venceram o desafio por agirem solidariamente, as nações e os cidadãos. Semelhante vimos acontecer no Oriente, cultivador de tradições que a todos unem, acima dos sofrimentos a que são submetidos ao longo dos séculos. Só se pode vencer o vírus físico se houver, além dos anticorpos naturais, os anticorpos sociais da solidariedade, da compreensão, do comprometimento, ainda que pequeno, com toda a sociedade.

E então, ao nos voltarmos para o continente americano, observamos uma sociedade voltada para o mito do self made man, prefigurado em personagens vividos, na tela, por John Wayne, aqueles que tudo resolvem por sua vontade, coragem pessoal. E seus armamentos aliados a uma religião civil fundamentalista, aliada à leituras fundamentalistas dos textos bíblicos, que produziu um cristianismo impermeável aos sentimentos humanitários, capaz de lutar contra o cristianismo que fundamentou a civilização Ocidental no que há de melhor e no que a diferencia. O fundamentalismo cristão, o tão louvado espírito do capitalismo, impedem a solidariedade, promovem o assassinato público dos cidadãos de cor, e tem como lema a ideia de que tem que estar acima de todos, como a loucura própria dos nazistas, seguidores do Minha Luta, e que mostrou o vírus da imoralidade, ou amoralidade, nos campos de concentração nazista. Na Rússia os números são altos, mas teme-se que o governo russo esconda dados. É a tradição mantida pelo novo Czar.

No Brasil, que é o tema inicial dessa nossa conversa, observamos que não tivemos liderança nacional, nem civil nem religiosa. Os religiosos quando se pronunciaram, herdeiros do Evangelical Belt norteamericano, foi no sentido de que “Deus salva os seus” e que basta a fé para evitar o Coronavírus. Hoje alguns de seus membros ocupam pastas ministeriais, no governo federal. Os líderes católicos preferiram, parece, lavar as mãos, tiveram medo de comprometer-se, agiram como agiam os bispos antes da CNBB. Isso permitiu que alguns padres estrelados e famosos fossem mendigar ajuda ao césar, e alguns outros saírem em defesa do uso de armas. Que diriam Dom Luciano Mendes, Dom Hélder Câmara, Dom Evaristo Arns? Só agora, após 80.000 mortes, vai sair um documento coletivo. Não houve uma voz das religiões conclamando à solidariedade, salvo exceções que não receberam apoio de seus grupos. Ficamos entregues à sanha de um líder que sonha com o povo (seus seguidores) armado para tornar mais fácil um golpe de estado, como disse em reunião ministerial de 22 de abril. Só nos resta esperar que o “espírito de 76” anime os norte-americanos a derrotar o que de pior sua cultura produziu, assim, quem sabe, derrotaremos, ou afastaremos da cena, o que de pior foi produzido no Brasil no século XX.

Quanto à trajetória da Europa na luta contra a Covid 19, é como dizia o poeta: As Aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá.  

Drama 9 – setembro 22; maio 88; maio 20

quinta-feira, maio 14th, 2020

“Caprichoso ( ….) não punha calma no pendor de querer sempre triunfante o seu alvitre. Desamava Conselhos. Quer isso dizer que temperamentalmente possuía minguados recursos para a função de reinar sem governar (…) da categoria a que deveria pertencer. Daí não vir jamais a compreender ou aceitar a engenhosa combinação do poder popular com as instituições…”

O texto acima é de Octávio Tarquínio de Sousa, na sua obra Vida de D. Pedro I, é sobre o objeto de suas pesquisas. Esse é um retrato do nosso primeiro governante após o rompimento dos laços estabelecidos pelo Reino do Brasil Unido ao Reino de Portugal e Algarves,  consequência de séculos de domínio português sobre o Brasil. Tal rompimento foi por ele assumido em um rompante próprio de sua personalidade mercurial, entretanto vinha sendo banhado em sangue desde o final do século XVIII, e foi  urdido pela ciência de José Bonifácio que fez a confusão entre o interesse de alguns com o interesse da pátria. Tudo isso parece ser uma das marcas que trazemos em nossa política. O voluntarismo de governantes que põem a sua vontade acima dos objetivos da nação, destes se aproveitando em momentos de confluência, sem contudo perder a oportunidade de afastar aqueles que não formam com sua orientação, desejo ou juízo. Esses governantes que povoam o tempo de nossa história são mantidos por uma aristocracia de proprietários de terras, clérigos de diversas igrejas (inicialmente eram apenas os católicos romanos), mais recentemente juntaram-se os industriais e banqueiros, esses e alguns  promotores de algumas ações paternalistas, de modo a manter a população subjugada a um patrão-pai. Assim formou-se o Estado brasileiro, uma nação, hoje com 220 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 1/3 tem acesso aos bens culturais e civilizacionais, como está a nos provar a atual pandemia.

Em dois anos completar-se-á dois séculos do rompimento dos laços políticos e jurídicos que ligavam o Reino do Brasil ao Reino de Portugal e Algarves, mas quando este fato ocorreu, foi decidido que o novo Estado seria formado por duas grandes nações: a dos proprietários e seus acólitos bajuladores, mas só na medida em que sejam capazes de pensar como o chefe,  e manter distância dos interesses dos não proprietários.

Nas primeiras quatro décadas (1820-1850), a nação dos proprietários do novo Estado, viu-se em uma constante guerra contra a outra nação, até submetê-la, para então criar uma legislação garantidora do seu futuro, ainda que fosse obrigada a pôr fim à escravidão. Enquanto  isso não ocorria, buscou-se, entre os destituídos da Europa, o material humano para manter a submissão dos eternos insatisfeitos com a ordem que os prende à margem da nação, exceto em tempos eleitorais, de modo a confirmar a sua hegemonia. Mas o ato de votar, só veio a ser reconhecido como direito universal muito recentemente, pela Emenda nº 25  à Constituição de 1967, no ano de 1985. Contudo os governos que se seguiram falaram muito em “educação de qualidade”, e nenhum deles percebeu que deveriam preocupar-se com “educação de BOA qualidade”. E sem uma educação de BOA qualidade, mesmo que saiam da caverna, muitos para ela retornam, assim como os que saíram da escravidão do Egito, na primeira dificuldade, tiveram saudade da “sopa de cebola” que recebiam ao final de um dia extenuante de trabalho. Essa é uma das razões porque, após dois séculos do Brasil livre dos laços portugueses, estamos assistindo parte de nossa sociedade sonhando com o conforto das senzalas, das dádivas do tipo “peixe da semana santa”.

Neste dia que escrevo essas palavras, completa-se 132 anos do estabelecimento legal do fim da escravidão no Brasil, mas essa data não coincide com a decisão de unir as nações que formam o Estado Brasileiro, pois os libertos não viram a terra libertada. Os escravizadores da terra estão muito ativos, uma vez que, os que para o Brasil foram transplantados no final do século XIX, a eles se aliaram, tornaram-se eles, assumiram a sina de manter as nações separadas, parece que vieram para aprofundar as diferenças, e assumiram em realizar o passado crendo estar construindo o futuro.

Nos faltou uma educação de BOA qualidade para que os que saíram das matas, das senzalas. Sem essa educação estaremos sempre à ‘disposição’ dos voluntariosos que se apresentam como salvadores dos carneiros enquanto os encaminham para o matadouro.

Dia do Índio? Dia do povo brasileiro?

domingo, abril 19th, 2020

Pois então estamos no 19 de abril, data que foi estabelecida como o Dia do Índio, para que não fosse esquecido o aniversário de Getúlio Vargas, sempre comemorado com festas durante a ditadura que muitos querem esquecer para manter limpo o nome de suas famílias; mas é também dito como o Dia do Exército, pois que o ligaram desde sempre à Batalha do Monte Guararapes, em Jaboatão, Pernambuco. A vitória que teve a participação de índios, negros, mestiços e alguns brancos contra os holandeses, é vista como sendo simbólico da formação de um Brasil múltiplo em tradições de povos e culturas, por isso a prefeitura de Jaboatão dos Guararapes anuncia em placas nas entradas da cidade “aqui nasceu a pátria”.

E o dia começou com a leitura de três amigos da rede de amizade virtual. O primeiro deles fala do exército. Não é um artigo escrito, mas um depoimento da historiadora Marcília Gama sobre uma instituição, criada no tempo em que Getúlio Vargas, ainda não criara a ditadura, mas a preparava: o Departamento de Ordem Pública e Segurança – DOPS. O golpe do Estado Novo e a ditadura que se seguiu só foram possíveis com o apoio do exército. O DOPS, órgão do Estado, praticamente avançou sobre todo o século XX, marcado pela presença do ditador que veio dos Pampas. Deslindar os caminhos do DOPS em Pernambuco foi a grande tarefa que se impôs Marcília Gama, a quem entrevistei em meu programa (https://www.youtube.com/watch?v=PncnwzhtRc ) da Rádio Universitária AM, atualmente Rádio Paulo Freire. Quando a entrevistei, Marcília acabara de alcançar o Mestrado em história, e fazia suas pesquisas, auxiliando a desanuviar as sombras que escondiam as ações dos agentes do Estado, em guerra constante contra o povo, embora dissesse que era contra o comunismo. Devemos ter em mente que os ditadores nunca defendem o Estado, defendem o seu estado social, os seus interesses pessoais e, o DOPS e toda a rede na qual era partícipe, esconde e confunde. Muito feliz de começar o dia ouvindo Marcília Gama, nessa entrevista que ela concedeu a projeto da Universidade Federal Rural de Pernambuco, trazendo novos olhares de historiadores sobre a ditadura de 1964-1985, tempo de domínio das Forças Armadas, Exército à frente.

A segunda leitura foi mais amena, um texto de Marcelo Cavalcanti anunciando que virá uma página com o título Atrevido com Estilo, com textos sobre o Recife dos anos sessenta, o que pode ser uma nostalgia ou depoimentos de quem viveu uma época em que, para alguns, o mundo era apenas o que era originário dos centros culturais, e ainda não se oferecia a oportunidade para o surgimento da cultura brasileira. Neste texto ele narra como foi vivido um São João entre casas de família abastada, uma passagem rápida pelo povo que dançava xote e termina em um banco de praça. Vai ser um percurso interessante, verificar se houve realmente esse engajamento com a cultura do povo brasileiro, que não sabia falar inglês e curtia os Beatles nas letras de Nazareno de Brito e outros. Os bens aquinhoados sempre estudaram inglês e cuidavam de debochar dos que ouviam Golden Boy e Renato e seus Blue Caps.

E terminando o começo da manhã, li o belo texto de Lula Eurico, o “burgomestre” do Arruado da Várzea, incrustado na Universidade Federal de Pernambuco, um resto do Caminho que ligava o Recife ao Engenho do Meio e o Engenho de São João, aquele que era de João Fernandes Vieira. Pois que Lula Eurico lembra, em sua crônica deste dia, que deve ter havido uma festa no engenho, nos dias seguintes à Vitória dos pernambucanos sobre os holandeses. Ele menciona que, embora os grandes beneficiários da vitória houvessem sido os proprietários, jamais deve ser esquecido que o sangue ali derramado saiu dos corpos de índios, negros, mulatos, que têm sua representação nas figuras de Felipe Camarão e Henrique Dias, André Vidal de Negreiros. Esses são muito esquecidos na historiografia e, nas aulas de história, são palavras que saem automaticamente e sem maiores comentários dos professores. É por isso são desconhecidos, que sabemos tão pouco sobre os que derramam o sangue na construção da vida do Brasil, e sabemos mais dos que saboreiam os resultados que os enriquecem. Quando não falamos sobre o povo, comum que faz a história com o seu sangue e suor, terminamos apenas por curtir as cervejas e vinhos e migalhas que caem da mesa dos construtores e mantenedores da história organizada pelos que fizeram os muitos DOPS desse país.

História para meus filhos e netos: a urina de meu pai e a Covid19.

domingo, março 22nd, 2020

Severino Vicente da silva

Acordo na madrugada pensando na história que contei a Isaac, um pouco da história de meus pais, de Nova Descoberta e minha primeira palestra no ano de 1959, no dia da inauguração da Igreja matriz de Nossa Senhora de Lourdes. Foi uma história narcísica, pois contei de minha participação, como orador da Cruzada Eucarística , naquela festa da comunidade católica, com a presença do arcebispo Dom Antônio de Almeida Moraes Junior. Essa história veio acompanhada com a lembrança de minha mãe que, sem empregada doméstica cozinhava, lavava para toda a família, e administrava os filhos (Zefinha passava a roupa, Lia varria a casa, Doutor cuidava da venda de água na cacimba, etc.) e todos ía-mos  à missa, faziam os deveres de casa. Mamãe era presidente do Apostolado da Oração. Papai comerciava, o dia inteiro no balcão da venda, juntamente com um primo de mamãe, Manoel Lopes. Depois Manoel Lopes montou seu próprio comércio, na mesma rua, e mamãe assumia muitas vez a função de balconista, atividade que Doutor, Lia e eu assumimos várias vezes. A família girava em torno da venda que garantia a vida de todos: alimentação, escola, vestuário.

Ao acordar nesta madrugada pensei no que estava ocorrendo ao meu redor. Ontem passei por uma cirurgia para a retirada de uma pedra no rim, mas a tecnologia e a economia não permitiram, apesar de vasto conhecimento já alcançado pela medicina nessa área, mas ela está atrelada ao sistema econômico que a financia, e às políticas sociais que permitem que o conhecimento prático chegue ou não à população. E isso parece estar relacionado com alguns motivos que fizeram meu pai migrar da pequena propriedade Eixo Grande, à beira do rio Capibaribe na primeira parte da década de 1950.

Nas confusas lembranças que guardo daquele tempo, estão as tardes na calçada da casa, comendo pimentão ou chupando laranja do sítio. Passou-se um tempo em que papai viajara para o Recife e ficara mais que uma semana ou um mês. Se o tempo afeta a lembrança dos mais velhos, bem que alcança e pode ser entendimento diferente por uma criança, inclusive porque a lembrança primeira vai sendo modificada pelas conversas e lembranças de terceiros. Sei dizer que foi muito tempo e, nesse tempo mamãe cuidava da venda. Papai veio ao Recife para verificar o que ocorria, pois começava urinar sangue, no tempo em que a seca atingia o agreste de Pernambuco e na parte que se encontra com  a Mata Norte, como aprendi depois nos livros e aulas de história. Ouvi aquelas conversas, talvez, quando sentado na calçada, e escutava os homens falarem entre si, em voz baixa, que isso não era conversa de menino. Esse “urinar sangue” me acompanhou sempre e era como um problema tão grande que o Hospital Pedro II, onde papai ficou internado, não conseguira resolver. Depois soube que a doença foi superada, a urina voltou à sua cor normal. Em decorrência dessas viagens para tratamento da saúde, veio a ideia de mudar para o Recife. E parte do que possuía foi vendido  para a compra de terreno em Nova Descoberta, onde construiu casa de pau-a-pique e barro. A mesma casa onde morreu, nos meus braças, enquanto mamãe colocava uma vela em sua mão e Cristiano, seu neto, chamava pelo avô.

Nesta semana, eu urinei sangue, fui ao hospital que fica a três quilômetros de minha casa, fique internado por 24 horas, fui operado e voltei para casa sob medicamentos. Penso em como mudou o Brasil nesses sessenta anos em sua medicina e no trato com sua gente; mas mudanças não foram estruturais. É isso que nos alerta essa pandemia covid19, e não apenas no Brasil. Olhando para a América Latina vemos países que tomaram medidas rápidas , pois entenderam que a situação é trágica e que eles não conseguiriam estancar a perda de vidas humanas, embora que para isso percam alguma riqueza econômica. Outros países, como o Brasil, preferiu adotar o ‘jeito’ americano/Trump de ser, agindo de maneira negacionista e pondo em risco a nação. O mandatário americano rapidamente refluiu de sua loucura, o que não fez o governo brasileiro por incúria e falta de inteligência. E foi esta falta de inteligência que acometeu o país em sua período republicano: seguir políticas norte-americanas em todos os campos, sem considerar que, apesar da influência deles nas palavras da primeira constituição, a alma mais profunda do Brasil está nas culturas silvícolas, africanas e europeias, notadamente Portugal e França. De Portugal, dentre muitas coisas, herdamos esse apego à propriedade privada, mas apenas para os que a podem comprar e jamais, quando era possível, abrir possibilidade para os silvícolas e seus descendentes, os africanos e seus descendentes, excluindo do usufruto da cidadania mais de dois terços da população. O Brasil sempre é pensado como um país de 30%, mas é pensado como se esses 30% tivessem conseguido a cidadania como ela foi gestada nos Estados Unidos da América, como eles costumam dizer o ‘selfmade man’. Entretanto o sentimento de liberdade e busca de igualdade nas relações, nos Estados Unidos esteve baseado em um campo político ideológico de relações individuais responsáveis (com prêmio e castigo), mas com possibilidade de abertura para os membros de iniciativa. O Brasil, por outro lado, formou-se, desde a invasão europeia do século XVI, sob o manto da autoridade abusiva e das liberdades controladas por instâncias de poder externo, o que impediu a formação de uma sociedade livre porque impermeável à mudanças estruturais. Sempre, no Brasil, as mudanças foram realizadas para que as mudanças não fossem realizadas. Pois se as mudanças estruturais houvessem sido realizadas não haveria essa sociedade de 70% de excluídos, ou mais. Por isso meu pai morreu sem compreender porque não recebeu o atendimento médico; por similar razão decidiu, intuitivamente, que não poderia mais continuar a morar na periferia geográfica e cultural dominante. Veio para a periferia da cidade grande, onde também se mantinham as estruturas que o prendiam na parte mais inferior da sociedade desde o nascimento; meu pai não desejava para seus filhos, o cabo da enxada e o túnel social fechado que lhe tocara como neto de escravo e filho de índia mestiça. Mas as estruturas mentais que estão na alma do povo brasileiro, impostas por cerca de 30% dos que governam o Brasil desde 1549, e  continuam firmes nas ações dos descendentes dos desencontros dos fundadores da nação, de sorte que atende apenas o pequeno terço. Aos demais o Rosário.

E o Covid19 tem demonstrado isso muito bem. Neste momento há uma grande preocupação, um temor de que ele se espalhe e alcance o terço dominante, por isso é que se discute o vírus, mas não a estrutura, ou ausência de estrutura para os dois terços da população. O vírus tem atingido setores mais ricos e a classe média da sociedade industrial, de modo a fazer tremer o presidente dos Estados Unidos, a princípio agindo com comportamento blasé e arrogante, mas que se transformou quando Nova York, San Francisco pararam. Aqui também, o presidente Bolsonaro tem mudado, mais lentamente, o seu comportamento, pois o vírus pode alcançar as suas bases milicianas. E, agora vemos, depois de três semanas, que o noticiário começa a entender que não tem água nem sabão em quantidade nas periferias – favelas – das cidades, onde o ‘isolamento social’ é quase impossível com as casas em ajuntamento, sem serviço de esgoto e água, lugares onde os Estado não alcança, pois dominado pelas milícias. E não espanta a ninguém essa situação. Também não espanta que tem sido escondido o desastre populacional causado pela Dengue e, da microcefalia da qual já não se ouve. Da última vez que o governo central abordou o tema foi quase informando que não tem responsabilidade sobre casos novos. Digo Governo Central pois não parece ser federal, como demonstra a ação dos governadores do Nordeste ao descaso do governo federal em relação à Covid19, pois em relação à dengue e a criação de infraestrutura necessária para vencê-la, apenas demonstra que fazem parte das mesmas famílias que sugam o Brasil que é produtivo e trabalhador, como os pequenos proprietários e os ambulantes sem carteira de trabalho, tão desprezados como os mascates e tropeiros que formaram o Brasil.

Todas essas reflexões faço para não perder a consciência de que sou o índio desprezado, o negro evitado e o branco pobre enxerido que quer participar da história do Brasil, e por isso conta essas histórias para seus filhos e netos e a quem estiver disponível. Ela é parecida com 75% da população brasileira.

O Oscar e seu Oscar

segunda-feira, fevereiro 10th, 2020

É certo que estamos envergonhados com o atual governante, seu governo, seus auxiliares que nos põe no ridículo entre as nações civilizadas. Nossa vergonha aumenta quando pensamos que gastamos duas décadas construindo estádios (que são chamados de arena por imposição não se sabe de quem) e não investimos em construção de escolas com bibliotecas, quadras esportivas, teatros, etc.. Ficamos orgulhosos porque um país que sofreu a Guerra de 39-45, foi dividida para a assegurar hegemonias de outros países, viveu outra guerra interna, esteve entre os subdesenvolvidos, e imaginou-se um Tigre, investiu em educação com seriedade para vir a ser o primeiro país de língua não inglesa a receber o maior elogio do cinema na cidade do cinema, rugindo mais forte que o Leão da Metro.  Aconteceu isso porque os coreanos não fingiram, aplicaram em educação e só se dispuseram a receber uma Olimpíada quando efetivamente estavam preparados para tal.

Mas, nos últimos anos notamos que foram feitas histórias cinematográfica, em forma de documentário, que contam algumas razões desse fracasso brasileiro: Lava Jato Polícia Federal, a lei é para todos; O Mecanismo e, agora, Democracia em Vertigem. Preocupa que o resultado de tudo isso, não os filmes mas o que eles contam, favoreceu a formação de um governo com características fascistas.

Por enquanto o Oscar está mais parecido com um samba dos anos cinquenta: Cheguei cansado do trabalho/logo a vizinha me falou/ ah’ seu Oscar, está fazendo meia hora que sua mulher foi embora/ e um bilhete lhe deixou/ meu deus que horror/ o bilhete assim dizia: não posso mais eu quero é viver na orgia.