Archive for the ‘Amizade’ Category

Professor James Beltrão, sempre presente.

segunda-feira, março 11th, 2019

Acordo, e uma das primeiras notícias do início da manhã é que o Professor James Beltrão faleceu. Pouco antes da leitura dessa notícia estava a pensar sobre as minhas ações do passado e o que eu iria faze neste dia, que aulas eu daria e como conversar sobre o tempo como participante de nossa criação cultural. Então a notícia da morte de James Beltrão, do professor James Beltrão, empurra-me para o início da década de setenta, tempo em que estávamos completando o nosso primeiro quinquênio de magistério e nos conhecemos, ele ensinando Geografia, eu aprendendo a ensinar história. É que James era muito bom em nos encantar em seus comentários sociais a partir da ciência que ensinava e que, com imensa razão ensinou-me a não dissocia-la da história. Não é possível a vida humana sem o espaço físico e, como se pode compreender o espaço físico sem a história dos Homens?
Nossa aproximação cresceu quando fizemos a primeira greve em pleno ano de 1979, no mês de abril. Juntamente com a dos motoristas dos coletivos do Recife, foi a primeira greve em plena ditadura. Depois vieram os canavieiros de Pernambuco e os metalúrgicos de Santo André. Mas o que sai nos livros – (didáticos para os primeiros anos de vida, ou universitários, escrito pelos e para os mais velhos, que influenciam os mais jovens) nem sempre corresponde à cronologia que, vez por outra cede espaço para o ideológico. A Greve do SIMPRO deveria encontrar um escritor, alguém que nos lembre de alguns momentos. Enquanto isso não acontece, atrevo-me a lembrar que fizemos das slas do Colégio Marista, na Conde da Boa Vista, o Comando da Greve. Foi então que assisti o professor James Beltrão mostrar a cidade, onde estavam os colégios, como chegar a eles, quais os professores que deveriam ir. Cuidando da logística da greve James Beltrão mostrou-se um grande organizador. Vi isso porque fui escalado para ouvir as notícias e escrever relatórios diários a serem apresentados na assemnléia do final do dia. Pena que esses papéis não foram guardados. Nem poderia ser, naqueles momentos em que começávamos a cavar a sepultura dos pelegos que não desejavam a greve e foram surpreendidos por uma nova geração de professores que estava chegando ao magistério e, também ao sindicalismo. Sério, alegre, mas sempre tendo em mente o grande objetivo, James Beltrão nos comandava e era por todos comandado. As conquistas daquele greve levaram anos para serem descaracterizadas, mas foram intensos e profundos os momentos de temor e de alegria que vivámos. Éramos Costa Natemática), Janildo Chaves Geografia), João Alberto (Geografia), Mário Medeiros (História), Fernandão (Educação Física), Edmilson (Física), Zélia (História), Biu Oliveira (História), Natanel (OSPB) Da Mata (História), Jorge Alves (português), Gabriel (Física), Vera Gomes (Matemática), e muitos outros, alguns já mortos, outros vivos, mantendo a lembrança e a memória dos amigos entusiasmados com a vida e sedentos de liberdade.
Outra lembrança que veio de rápido está relacionada com a morte de Chico Science. Razões de difícil entendimento levaram-me para fora de Pernambuco e, no Rio de Janeiro fui procurar emprego qe aqui estava senod negado em 1994. Fiquei dois anos ensinando em escola de Ensino Básico e em universidades: Universidade Veiga de Almeida, Universidade do Rio de Janeiro. Embora aprovado em concurso público na UNIRIO, vim fazer concurso na UFPE, onde estou, agora como Professor Associado. Seis meses após o meu retorno, descobri Chico Science por quem meus filhos choravam de tristeza por sua morte. Então fui buscar a razão do sentimento de orfandade, pesquisei, li e escrevi um texto que o amigo Mário Hélio publicou em seu espaço no Jornal do Commércio. Algum tempo depois, James Beltrão entrou em minha sala no CFCH, dizendo-me que leu o que escrevi sobre o artista símbolo de uma geração, uma nova geração, novas maneiras de expor os sonhos, ele gostava de Chico, tinha muito material guardado e falamos, quase duas horas, sobre o que nos acontecia, o que estava acontecendo. Rimos. Falamos. Deixamos nossos espíritos viverem, de novo, de maneira nova, os sonhos e realizações.
Gostei muito de conhecer o Professor James Beltrão. Gostei muito do tempo que construímos o tempo e sonhamos com uma cidade mais bonita. Gosto muito dessas lembranças.

Professora Zefinha, Presidente do Conselho de Moradores de Nova Descoberta, minha irmã

quinta-feira, setembro 27th, 2018

Que coisa que é a vida da gente, vida que a gente vive na direção da morte que é a renovação da matéria e ponto de reflexão sobre a vida. Hoje, no meio da tarde meu sobrinho telefonou para me informar que sua mãe, minha irmão mais velha, Zefinha, acabara de falecer. Foi decorrência de um problema renal, mas, de verdade, foi decorrência da vida. A morte é sempre uma decorrência da vida.

Agora, algumas horas são passadas e, depois de explicar para meu filho Isaac, de seis anos de vida, que sua tia tinha ido encontrar a sua Vó Maria, que ele lembra pelos retratos, fotografias de momento em que ele repousa no seu colo, ele disse, sério como um Buda Iluminado: tudo mundo morre. Mas tudo vive.

Pois bem, Zefinha e eu tivemos bons momentos juntos, algumas discussões, mas quase sempre fomos cúmplices. Ela sempre foi muito bonita, e sabia disso e, quando vivia a juventude, sempre deixou isso muito claro, apesar de recato que a educação severa de Seu João e Dona Maria exigia. Pois bem, Zefinha, quando casou com Sebastião – Tão – eu estava eu nos Estados Unidos, mas participei ativamente da cerimônia do seu casamento, pois que me mandaram um fita cassete (os mais jovens nem saberão o que é isso) com toda a cerimônia. Amas acompanhei Zefinha nos momentos em que se preparava para ir à maternidade de sua primeira filha, Luciana – tão bonita quanto ela. Depois vieram Alexandre, Catarina e Eduardo. Mas Eduardo ficou pouco tempo entre nós. Tão dizia que ele veio para alegrar os primeiros anos da velhice de papai.

Zefinha e eu tivemos uma aventura muito próxima, mas da qual nunca falamos um com o outro sobre essa experiência ocorrida entre os meses de agosto e outubro de 1973. Naquele final de agosto fui sequestrado pela forças do porão da ditadura. Sei que deve ter sido muito difícil para todos os que viviam na casa 1420 da Rua Nova Descoberta. Hoje sei que falamos pouco sobre essa experiência. Mas deve ter sido terrível aquela manhã de setembro quando Zefinha saindo para cumprir a sua tarefa de professora, homens da ditadura a sequestraram, em frente da nossa casa, cerca de sete horas da manhã. Ela estava com Luciana, mas a colocaram em carro, enquanto sua filha chorava e seus pais corriam para proteger a neta. Agora eles tinham dois filhos tomados pelos gorilas. Zefinha e eu, bem como Lia – minha outra irmã, sempre estivemos envolvidos com o Conselho de Moradores de Nova Descoberta – Zefinha foi presidente daquele que foi o primeiro Conselho de Moradores criado pela Operação Esperança, resultante da ação de Dom Hélder Câmara para recuperar o Recife que foi atingindo pelas águas da chuva e da cheia do Capibaribe em 1965. Algo dessa história será contada nas cartas de Dom Hélder, embora eu tenha visto que os nomes de minhas irmãs não foram bem decifrados pelos editores (chamei atenção para o fato, mas nós somos de Nova Descoberta, os editores não). Na prisão eu ouvi o murmúrio que haviam pegado uma mulher grávida, mas como foi à luz do dia e com os fregueses da mercearia de papai a tudo assistiram, era preciso ter cuidado. Assim, no murmúrio das celas, eu soube que Juaréz, que tinha recebido um colchão de palha para dormir, pois havia quebrado umas costelas dele no serviço da tortura, foi obrigado a ceder o conforto para a nova prisioneira. Zefinha estava grávida de quatro meses. Ficou dois ou três dias no DOI-CODI e depois foi liberada. Parece que queriam confirmar algo sobre mim, não tinham nada contra ela, mas talvez quisessem me pressionar, sei lá o que se passa na cabeça dos assassinos. Mas sobre essa experiência, o que sei é o que me contaram, Zefinha jamais tocou no assunto e eu sempre respeitei o seu desejo de não falar sobre isso. Nunca os gabamos ou lamentamos o que sofremos por nossas vidas dedicadas a abrir espaços para vidas mais sofredoras que as nossas. Zefinha foi uma dessas mulheres que, na simplicidade de seu viver, contribuiu enormemente para vencermos a ditadura que caiu sobre nosso país. Melhor dizer que não caiu, mas que foi construída pelo egoísmo que provoca dor, sofrimento e morte. Em plena ditadura, fizemos eleições para escolher a diretoria do Conselho de Moradores, e Zefinha era quem animava outras jovens mulheres a participar da organização social. Professora querida por seus alunos, recebia a confiança dos pais daqueles meninos e meninas que hoje são homens e mulheres. Tínhamos medo, mas o medo não nos teve.

Hoje, quando Alexandre Demiam me informou da morte de sua mãe, veio a memória de ele foi sequestrado no ventre se sua mãe, e muitas mulheres rezaram e fizeram promessa para que nada acontecesse a Zefinha nem ao seu filho e prometeram que ele se chamaria Damião, e por isso seu nome é Demian, dito por mim. E eis que Zefinha viajou no dia de São Damião, o seu protetor e protetor de seu filho, quando estavam na masmorra dos tiranos da minha pátria. Quarenta e cinco anos são passados desses momentos de tensão e de amor que é maior que se possa imaginar, e escrevo para que seus filhos Luciana, Demiam e Catarina e seus netos sintam crescer sempre o orgulho de terem vindo de cepa tão grandiosa e tão humilde, tão simples e dedicada à sua família e ao seu povo. Josefa Maria da Silva, Professora Zefinha, Finha, todos sabemos que em você, como em sua mãe, os poderosos foram depostos e, em vocês, os humildes são sempre louvados.

O mundo não acabou: nem o de Plínio Victor, o de Murilo Mellins, nem o meu.

domingo, novembro 19th, 2017

O domingo acordou alegre com um sol quente convidando a uma praia que, passou pela cabeça, mas passou tão rápido quanto essa brisa que vem da orla olindense, 3 quilômetros à minha frente. Começo a imaginar e planejar o meu dia, sem o camarão e a ostra que irão à praia sem mim. Outros glutões dominicais terão essa recompensa. Abro o computador e vou verificar se há algum recado, o que pensam alguns amigos e o que alguns disseram do que eu pensei e publiquei antes de hoje. Então tenho uma surpresa: Plínio Victor informa que, alguma instituição informa que o fim do mundo teria sido transferido para o dia 19 de novembro de 2017, que é hoje. É preocupante, pois isso vai estragar todo o planejamento, inclusive os planos de aula que estou pensando para o próximo semestre, e pior ainda, é que eu havia prometido ir à Praça do Carmo para que Isaac possa experimentar a bicicleta que comprei para ele. Como agora já passa das quatorze horas, parece que vão fazer um novo comunicado, nos informando o adiamento e as razões para mais esta frustração. Espero que Plínio, historiador e arqueólgo, garimpe também essa informação para que nos tranquilizemos e possammos continuar a educar nossos filhos e nos educarmos um pouco mais. Especialmente nos quesitos de ser honestos com as coisas públicas e mantermos as amizades, pois sem elas é o fim do mundo.

Enquanto o mundo não acaba, entre uma atividade e outra folheei um belo livro que Claudfranlklin enviou-me desde Lagarto, uma continuação de uma conversa que mantive, copo de uísque na mão, com Murilo Melins. Primeiro contato na Academia Sergipana de Letras. Nossa conversa foi sobre nossas memórias e a dos outros. Murilo escreveu o livro ARACAU PITORESCO E LENDÁRIO, publicado pela empresa Gráfica da Bahia, no ano de 2015. Resultado de coisas que ele viu, coisas que ouviu e coisas que leu nos jornais aracaujenses desde o inpicio do século XX até “os dias que valem a pena serem lembrados”. Uma delícia para os sergipanos e uma apresentação para quem, como eu, vai esporadicamente a Sergipe. Murilo Melins nos põe em contato com a boemia e com a seriedade, com a juventude pretérita, tão irreverente como a de hoje, com o decoro que o tempo permitia. Transcrevo a página 193.

“As mulheres, ou melhor, as esposas julgam também de seu direito de julgar: assim é que, nas mais diversas modalidades do seu vier, ellas consideram os maridos como as diversas coisas com que lidam:
A negociante julga o seu marido a uma factura paga;
A caixeira – uma caixa vazia;
A médica – um doente desenganado;
A Dentista – um dente obturado;
A bacharela – uma execução de sentença in fine;
A agricultura – um terreno que já produziu;
A operária – um salário pago;
A costureira – um vestido que não suporta mais remonte;
A professora – um Quincas;
A telegraphista – um telegrama retido;
A jornalista – um original archivado.

Bem, se vocês lerem essas brincadeiras dos anos 1930, saibam que o mundo não acabou e que aquela era um sociedade machista e sem a doutrina do politicamente correto nas redações.
E citando D. Côrtes, Murilo vem vem com esses versinhos:

Menina da saia curta – Olhe a Atalaia
Saltadeira de riacho – Olhe a atalia
Trepe naquele coqueiro
E bote dois cocos a baixo.

Obrigado Murilo Melins, pela sua memória, por sua pesquisa que mantém Aracaju viva, como Mario Sette fez com Recife de antigamente.

Fernandão e Edwaldo Gomes – amigos

quinta-feira, julho 20th, 2017

Nesta semana, em um dia, a vida mostrou-se em sua face mais esperada e mais surpreendente para mim: a morte. Ela já apresentou-sê-me de muitas maneiras, desde que alcancei o que chamam – chamavam – de Idade da Razão. Um pouco antes veio a morte de tia Djanira, mas logo depois veio a morte de Vó Alexandrina. Veio um tempo de descanso dessas visitas, embora tenha ficado na memória a ambientação da morte de Pio XI e, com mais clareza as mortes de John Kennedy e João XXIII. Em uma visita inesperada, levou um sobrinho, Eduardo, quando ainda não fizera cinco anos de vida. Fui aprendendo que a morte vem no seu tempo, não no nosso desejo. Depois o luto pessoal veio na morte de meu pai. Depois ela apareceu buscando minha primeira esposa, Tereza, de meu amigo Sebastião Tavares – Tão, meu irmão José e minha mãe Maria.

Mas esta semana, veio em dose dupla. Duas pessoas que participaram de minha vida e que permanecem sempre que reflito sobre os passos que tenho dado, desde os 10 anos de idade. Foi nessa idade que conheci o padre Edwaldo Gomes, no dia em que pisei no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, na Várzea. Meus pais, a meu pedido, me entregaram a ele, que então era vice-reitor daquela casa de formação. Desde então, outra pessoa além de meu pai chamava-me de Biuzinho. Meu amigo Eutrópio Édipo ainda me chama dessa maneira. Nunca crescemos para certas pessoas.

Vivi três anos no Seminário da Várzea e tive Edwaldo Gomes como meu professor de língua Portuguesa, muito preocupado com o enriquecimento de nosso vocabulário e o uso correto das flexões verbais. Em várias ocasiões fui chamado à sua sala para uma reprimenda, pois ele cuidava da disciplina geral dos alunos. No início de 1964 não retornei ao Seminário e veio a Redentora, como a chamava Stanislaw Ponte Preta.

Pouco antes de completar dezenove anos principiei a exercer profissionalmente o magistério. Então conheci Fernandão, professor de língua portuguesa em cursinhos preparatórios para o vestibular. Sempre o chamei de Fernandão pois ele era enorme e eu sempre fui pequeno. Eram tempos difíceis, e terminei sequestrado com outro amigo, José Nivaldo Junior, também professor de cursinho, à época. Fernandão seguiu os estudos, andou no mundo físico e amava com profundidade os escritores que amaram profundamente os homens e fizeram deles a fonte de suas vidas e escrita. Logo depois que os sequestradores me liberaram reencontrei padre Edwaldo na celebração Eucarística no Morro da Conceição. Disse-me que tinha orgulho de ter sido meu professor, no momento da Eucaristia. Eu disse que jamais o esqueci e sempre que nos encontrávamos vivíamos essas carícias da amizade. Padre Edwaldo foi se tornando referência no Recife desde que assumiu como vigário a Paróquia de Casa Forte, seja por sua postura diante o estado autoritário, seja por seu posicionamento respeitoso, coerente, em relação ao arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara. ma das últimas vezes que estive com ele foi no stúdio de uma emissora de Rádio para conversar sobre o papa Francisco. Depois foi em uma missa lembrando Dom Hélder.

Enquanto isso Fernandão que conheceu o padre Daniel Lima bem mais que eu, brilhava com simplicidade nas aulas de literatura, formando gerações. Após 1996 voltamos a trabalhar na mesma instituição, agora UFPE. Trabalhávamos em prédios vizinhos, mas quase não nos víamos. Os corredores foram os locais de nossos encontros rápidos. Mais duradouro foi a noite em que, Flávio Brayner, ele e eu, quase varamos a noite em um bar/restaurante próximo à Praça do Carmo, em um carnaval com piano, canções e bolerões.

Acompanhei Fernando Mota em seus artigos no facebook. Conversávamos e chegamos a marcar almoço em casa de uma amiga comum, Sylvana Brandão. Disse que desejava ouvir mais sobre o sequestro de 1973, queria conversar sobre os temas atuais que eram de nossa preocupação comum. Entretanto ele não foi. Mas a conversa continuou, especialmente quando descobrimos nossa amizade com Montaigne que, disse, era seu companheiro de travesseiro. Em uma de suas últimas conversas no Facebook disse que havia encontrado a morte e sentiu-se calmo. Poucos dias depois, seguiu em sua companhia.

Fernandão e Edwaldo Gomes foram colhidos na mesma safra. Dois homens importantes em minha formação, no caráter e na ilustração.

Amizades em tempos de superfície

terça-feira, julho 18th, 2017

Em tempos mais juvenis, tempo de aprendizados quase permanentes, vários poemas ficaram em minha mente e deles me aproximo, vez em quando, socorrendo-me nas adversidades de agora. Uma delas, que sempre provoca uma cachoeira de emoções quando a canto, diz assim: “se uma boa amizade você tem, louve a Deus, pois amizade é um bem… (…) uma boa amizade é mais forte que a morte (…) ser amigo é fazer ao amigo todo o bem, como é bom saber amar alguém!”.
Tenho bons amigos daquele período. Alguns já morreram, mas converso com eles sempre; outros os vejo algumas vezes no ano; outros não os vejo faz duas dezenas de anos ou mais, lembro dos seus abraços e conselhos. Tem aqueles que voltamos a conversar usando as redes sociais. Nos lemos sempre, enviamos mensagens, escrevemos pequenas frases que mostram a alegria do reencontro, ainda que virtual.

Talvez existam diversos níveis de amizade, mas penso que eles possuem uma base comum que é a afeição e a confiança mútua, embora ainda se possa considerar amigo um daqueles que lesou a amizade. Laços de amizade são muito fortes. Ficamos sendo amigos enquanto cultivarmos os bons momentos construídos juntos e, simultaneamente, lamentamos não poder ficar próximos mais uma vez. Como cachorros sem cura, ficamos lambendo o passado. O que é muito triste, mas confortante ao lembrar dos risos e lágrimas que tivemos juntos.

As redes sociais nos permitiram ampliar nossos laços de amizade. Isso implicou em uma modificação do sentido da palavra AMIZADE e suas derivadas. Antes, só podíamos fazer uma amizade após vários contatos, experiências. Dizia-se que era necessário comer muito sal em sua companhia. O conhecimento viria depois de um quilo. Hoje mudou um pouco, talvez pela quantidade de sal nas batatinhas que mastigamos enquanto teclamos.

Ao entrarmos na rede social virtual buscamos pessoas com as quais tivemos alguma convivência e, logo a rede cresce com pessoas que ouviram falar de nós, pessoas que visitamos em sua linha de tempo, ou que nos visitaram. Nos apresentamos já solicitando e oferecendo amizade. Amigo fica aquele que se reconhece um pouquinho conosco. Não sabemos bem onde mora, pois a geografia dessas amizades tem outra física. Nossos desconhecidos amigos podem morar na Espanha ou no Vietnan, ou mesmo na rua, prédio ou casa onde moramos. Não faz diferença pois, agora a distância não existe para os amigos. Na verdade a distância nunca fez diferença para a criação e manutenção da amizade. Até o final do século XX havia a ansiedade por carteiros e cartas, nelas vinham os amigos. Eram poucos, mas vinham em letras muitas e muitas páginas. E as relíamos duas, três vezes e então respondíamos, dedicando tempo para refletir e escrever outras tantas páginas e letras. Caminhar até a agência do correio era como ir à casa de alguém que nos esperava. Hoje, com mais de mil ‘amigos’ já não interessam as cartas. Algumas dessas pequenas mensagens de hoje podem trazer desaforos porque o amigo não pensa do mesmo modo politicamente. E vem o destratamento: chama o amigo, maneira enviesada, de “coxinha” ou “mortadela”, diz que está desalentado com ele e o chama de traidor. Como a rede é aberta como uma praça, alguns desses nem são amigos, eles são conhecidos de velhas épocas, não se alistaram no exército de amigos, não convidou nem foi convidado para ser parte do seu grupo de amizade, mas, espreita, e quando se escreve algo que não lhe agrada, aparece cobrando a amizade antiga, aquela que ele guardou fossificada na memória.

Mas essa nova geografia também nos torna quase íntimo de pessoas que jamais vimos. As conhecemos através de outros que não conhecíamos. Descobrimos afinidades inimagináveis que nos foram apresentadas indiretamente por amigos mais antigos. Gente que lembra aquele filme: nunca vi sempre te amei. A rede é um universo tão interessante que, vez por outra, esquecemos os amigos com os quais tratamos mais diretamente e amiúde no mundo físico. Estes parecem ficar mais distantes a cada dia. Além disso, não posso descartar a conversa com um simples toque em uma tecla, nem sofrer seu olhar de desencanto pelo encerramento precoce de uma conversa.
Na verdade, tenho amigos físicos que são simultaneamente amigos virtuais, aos poucos nossas amizades esfriam pois não mais conseguimos completar nenhuma conversa, uma vez que nos desacostumamos a ler cartas, viciamos em notas, pois os bilhetes já nos cansam e tomam tempo das outras amizades. Vamos ficando superficiais em nossas amizades e elas já não deixam saudades quando terminam.

Uma vez, um desses amigos da época das cartas, escreveu dizendo que não estava explicando uma decisão sua pois os inimigos jamais aceitariam qualquer explicação, mas os amigos prescindem de explicação. A amizade, como o amor explicita-se em atos, as palavras são floreios mais insuficientes que o silêncio. Talvez seja por isso que muitos se sintam obrigados a explicar por que estão deletando alguns ‘amigos’ de suas relações, em postagens que o amigo que foi deletado jamais não lerá. Mas não era uma amizade, era um conhecido, um encontrão na plataforma da dessa imensa estação de encontros.

de trinta moedas a milhões de dólares

sexta-feira, abril 14th, 2017

Em postagem, uma pessoa de minhas relações, também no facebook, anota que Judas entregou Jesus aos soldados do Templo, por trinta moedas.

Desde que comecei a entender-me de gente, aprendi uma palavra interessante: ‘entreguista’. Referia-se a pessoas que, usavam o seu metier para favorecer que estrangeiros se apossassem do Brasil. Assim, na vida da escola e na escola da vida, foram muitos os personagens da política que recebiam tal rótulo. Havia, como ainda há hoje, uma corrente nacionalista defensora das riquezas nacionais, desde algumas palavras (saudade) até o que está no subsolo. Essa discussão que estava estampada nos jornais diários foi parte de minha educação. Amar o Brasil, amar o povo brasileiro, confundir minha vida com a história de minha pátria, foram lições que aprendi antes dos catorze anos. Naquela idade assisti, vaca de presépio, uma ‘revolução’, um Golpe de Estado, ensinei depois, que usava a pregação de proteção às riquezas do Brasil e que lutava contra os comunistas entreguistas, que, lembro, em grande parte tinham um discurso nacionalista, embora fizessem parte de uma filosofia teleológica internacionalista.

Durante o período da ditadura iniciada em 1964 duas lutas, pelo menos, ocupavam parte de minha geração: a luta pelo entendimento dos Direitos Humanos – fortalecendo a noção de cidadania e a busca do reconhecimento dos pobre como seres humanos – e a luta contra os cartéis e as multinacionais. A ditadura dos cartéis, de Kurt Rudolf Mirow: Cartéis e Desnacionalização, de Moniz Bandeira, Victor Pacheco que escreveu sobre a entrega da saúde às multinacionais, e outros, orientavam nossos debates. Projetos internacionais colocavam em risco a Amazônia, e as fronteiras culturais abertas nos faziam esquecer e negar aspectos essenciais de nossas tradições. Daí havia um grande debate sobre Identidade Brasileira, Civilização Brasileira. Sentia-se que algo estava a se perder. Vendia-se o Brasil por mais de trinta moedas.

Derrubamos a ditadura mas o povo não se apropriou do Brasil; parece ter enveredado por outro caminho, o caminho do desconhecimento de si mesmo. Aumentou o quantitativo de unidades escolares, mas diminuiu pouco o número dos leitores críticos. Aliás a palavra ‘crítico’ passou a ser sinônimo de ser contra o capitalismo ou, o que é mais comum, antiamericano. extrapolar esse sentido era correr o risco de massacrado socialmente, especialmente a partir dos primeiros anos do novo milênio. Mas ser ‘anti’ alguma coisa é uma postura negativa, e não leva necessariamente a ser pró outra coisa.

Grupos ditos nacionalistas, defensores do povo brasileiro chegaram ao poder no início do século XXI. Como são nacionalistas, não entregaram o Brasil às multinacionais, preferiram a Odebrecht. E não só por trinta moedas. Judas aumentou seu valor de mercado.