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Crise Covid-19 ou do Ocidente?

sábado, março 28th, 2020

Notícias da Europa dão conta que a rainha Elizabeth II estaria com COVID19. Não há confirmação mas a bolsa de apostas apontam a vitória da Rainha. Pior para Charles, que poderá perder a oportunidade de ser rei. Mas brincadeira de lado, vi que apostadores na vitória da Rainha a chamam de ‘lagarto’, capaz de adaptar-se às mais difíceis situações. Coisas do humor britânico, tão necessário neste momento. Também leio que esta pandemia está a nos mostrar que a Europa perdeu a liderança civilizacional, ou a  completou.

Desde 1914 que Oswald Spengler chamava atenção ao Declínio do Ocidente, aos limites que estavam sendo alcançados. Mostrava que as civilizações têm seu ciclo. Arnold Toynbee fez grandes estudos sobre as civilizações, apontando, o que todos sabem, que nenhuma delas é eterna e, chega um momento em que ocorre a perda da criatividade, o momento no qual as novas gerações rejeitam o que receberam, ou não veem necessidade de continuar o que receberam. Morre a civilização. Outra lhe toma o lugar, recolhendo o que de bom existia, ou que lhes dava condições de ser a liderança da humanidade.

O mal estar europeu vinha sendo apontado desde meados do século XIX, na escrita dos poetas, nas linhas dos romancistas, nas tintas dos artistas plásticos que, em seus sonhos para a além do efêmero, apontavam ser um engano a adoração à técnicas que suavizavam o modo de viver de alguns, mas endureciam o coração de duas ou três gerações que impunham o seu modo de viver aos africanos, que vinham sofrendo séculos de desumanização, e aos asiáticos que buscaram manter suas tradições isoladas do contágio europeu desde o século XVII. Mas a fome do poder e o emagrecimento da alma tornaram os povos europeus fechados em si enquanto arrombavam as portas do globo. Para Garaudy, antigo secretário geral do Partido Comunista Francês, o Ocidente seria apenas um acidente ao longo da vida humana, um acidente ocorrido entre os século XIII e XVII, e que conheceu seu apogeu nos séculos XIX e XX. É o que vemos, que estamos assistindo: sua fragmentação, sua dissolução, anunciada desde o século XIX, como mencionamos.

Mas o que era o Ocidente, como ele se formou, quem e o que lhe deu as bases?  Creio que ele é um amálgama das experiências que se encontraram e  se confrontaram desde as primeiras experiências humanas até o século XVI. O fim do Renascimento, a vitória da Quaresma, a organização do pensamento científico levaram a Europa à busca dos ideais de perfeição e controle sobre o mundo religiosa, e solidificaram o Ocidente que se cristalizou na vitória tecnológica sobre a natureza. Após a solidificação dos novos princípios religiosos e assunção da predestinação, nada mais interessava. Semelhante ao que ocorrera com a civilização muçulmana, alguns séculos antes. Assumindo que estava predestinado a dominar o mundo e que as nações lhe seriam vassalas, o “novo Israel” se impôs com a religião profana, a religião da ciência, da superioridade sobre todos. Então, o Ocidente não mais aprendeu, como aprendera e se formara na antiguidade cristã e na Alta Idade Média, períodos nos quais não teve pejos de sincretizar os costumes, os deuses. Mas, a partir do período pós Reforma, a Europa não mais aprendeu, apenas expandiu seu modo de viver. A perda da ideia da aceitação do outro, a perda da criatividade é a perda da fé em si mesma. Não sem razão o segunda metade do século XX foi o tempo das crises, crises das quais nada se aprendeu. Mas alguns dos povos que foram dominados pelo Ocidente, aprenderam a ser ocidentais, adaptando-se e recriando o que recebiam. Eles herdarão o Ocidente.

No início dos anos setenta, em um estudo sobre a história, ocorrido em um dos conventos estabelecidos na Primeira Olinda, Eduardo Hoonaert e eu discutíamos sobre isso com cantadores repentistas. Era o tempo em que se discutia a Trilateral, discussão que ocorria fora dos labirintos dos departamentos de história, embora bordejassem as áreas de ciências políticas. Falava-se que haveria de surgir um mundo com três polos: América do Norte, Europa e Ásia. Coisas dos Rockfeller, que provocou o aparecimento de Jimmy Carter na política internacional. Era visto que os EUA (América do Norte) pensaria na questão da segurança; a Alemanha (Europa) cuidaria da questão alimentícia e o Japão (Ásia) ficaria responsável pela tecnologia. O mundo ainda era o da Guerra Fria. Assim a china não aprecia nos esquadros. Mas, em nossa conversa, que possuía uma base teológica, discutia-se que a humanidade esteve sempre olhando para o Oriente, por isso dizíamos ‘orientar-se’, mas desde o Renascimento tudo passou a ser ‘norteado’. Lembramos que até a segunda metade do século XIX, o mundo (ainda que não proclamasse abertamente) sempre olhava para a China, para onde foi levado grande parte do ouro das Minas Gerais, embora a maior parte das pessoas não saibam disso, julgam que tudo ficou na Inglaterra.

Naquela ocasião, Eduardo Hoornaert chamava atenção para o papel que a China iria desempenhar no século XXI. Estamos vendo agora. Não pela maldade da China, mas pela incapacidade do Ocidente enfrentar algo novo, como o Covid-19.

Vamos nos orientar?

O bom é que isso passa.

sábado, outubro 5th, 2019

Podemos até dizer que setembro se foi quando chegou a primavera, pois de lá para cá, este final de primeira semana de outubro, tem havido muita novidade antiga, pois que assim pode ser percebida a realidade brasileira nos dias atuais, quando o presente fica, em alguns aspectos com jeito de passado, de coisa já vista e indesejável. Mas sempre vem novidades em forma de esperança, e sabemos que toda esperança tem um pouco de saudade, um pouco de desejo de que as coisas boas voltem a ocorrer.

É lamentável ter um presidente que nos mente propositadamente, com o objetivo de confundir a todos e, assim, continuar em evidência na mídia que diz tanto detestar; é lamentável ter um presidente que usa palavras e expressões pouco delicadas e desaconselháveis diante senhoritas, como se dizia antigamente. A palavra e seus usos são o retrato da sociedade. É o caso de “porra”, palavra que, cerca de quarenta, cinquenta anos, só os homens usavam em público, e quando estavam com seus pareceiros, e agora é de uso comum em comícios na frente do palácio presidencial. Sim, entendemos que o avanço do politicamente correto, agregado à parcimoniosa prática da leitura nos tempos atuais, tornou tal palavra tão comum que até as moças de famílias tradicionais sempre a carregam na ponta da língua, e a despejam sem cerimônia em suas conversações. É uma palavra sinônima de tudo, de todas as coisas, de todas as práticas: está a tornar-se um vocábulo de gala. Outra palavra simbólica.

Na mesma direção, a porra do nosso presidente, nesta semana, fez retornar o saudável hábito de gritar a mãe dos outros. Quando alguém lhe perguntou pelo amigo Queiroz, ele prontamente respondeu: “tá com sua mãe”. Existe algo mais brasileiro, mais caserneiro, mais maloqueiro que o hábito de falar depreciativamente da mãe do outro? É assim que nosso presidente demonstra o carinho e a preocupação que ele tem pela família brasileira, pelos costumes que deram a forma ao Brasil, não o que queremos, mas o que tem sido construído nesses séculos de exclusões. Essas atitudes, ele toma, por entender que é assim que o brasileiro é. Muito importante que o presidente Bolsonaro esteja se esforçando para ser ele mesmo, sendo um exemplo para a atual e a futura geração. Afinal o seu objetivo é fazer essa porra do Brasil continuar a ser um país de filho da … mãe.

O bom é que isso vai passar. Como se sabe, isso é uma palavra que era utiizada para evitar dizer M…;

Os supremos e Nossa Senhora de Paris

sexta-feira, abril 19th, 2019

A segunda semana deste mês de abril nos trouxe possibilidades várias para nossa compreensão como parte do Ocidente, da cultura ou civilização ocidental. No Brasil tivemos o insólito comportamento de dois ministros do Supremo Tribunal Federal em protagonizar a tentativa de retorno à censura prévia às informações. Em defesa de interesses particulares, e mantendo uma tradição patrimonialistas do Estado, confundiram o juiz com o tribunal. Se nos primeiros dias seus colegas ficaram silentes, ao longo da semana, ao sentirem a reação dos cidadãos e da imprensa, ao menos dois juízes saíram, publicamente, na defesa da liberdade de expressão. Os demais, dizem, cochichavam nos corredores, mas não vieram a público apresentar sua discordância com seus companheiros aloprados. Depois de ter recusado a orientação da Procuradoria Geral da República, o juiz relator, mais vocacionado para delegado, suspendeu a censura que havia imposto à revista semana, digital, Crusoé. Mas ficou evidente que existem pessoas que desejam retornar ao período anterior ao Iluminismo, às revoluções democráticas que tornaram o Ocidente esse espaço de debate e, em consequência, de criatividade e liberdade. Mas também esclareceu-se que há quem deseje a liberdade com mais entusiasmo.

Mas o Ocidente, a Civilização Ocidental, não é apenas uma criação dos filósofos dos séculos XVII e XVIII; como nos ensinaram os mais antigos, “somos como pigmeus assentados em ombros de gigantes”. A cultura é acumulativa, cada geração posterior criando a partir da criatividade e resolução dos mais antigos. Livro sagrado dos cristãos nos lembra que ‘o homem sábio tira de seu baú coisas novas e velhas”. Apesar da feroz crítica iluminista, dos séculos XVIII a XX, o cristianismo não pode ser descartado nesse processo de construção da civilização ocidental. A má consciência europeia quase a faz jogar fora a criança com a água suja. Desde a Guerra de 1914, quando a “Europa perdeu a sua inocência”, vem se fortalecendo a tendência de negar a herança cristã europeia, como se tivesse sido possível tantas criações e indústria sem o esclarecimento do livre arbítrio que povos europeus universalizaram, embora ainda não de todo. As mortes geradas pelas guerras cientificamente dirigidas para alcançar objetivos definidos do sistema industrial, parece terem servido para esquecer que toda história, não apenas a do Ocidente, é feita de sangue humano, além do de animais e plantas sacrificados para a vida humana. A crítica constante às instituições europeias relativizaram o que a Europa gerou. “Tudo que é sólido desmancha no ar” reza famoso opúsculo do século XIX, profetizando o fim da sociedade baseado no indivíduo; “Deus está morto” avisou aquele outro ou não sentir-se confortável em um templo cristão onde ainda se cultuava como no século XIV, e sacerdotes discursavam sobre uma simbologia que pouco dizia ao homem envolvido em conviver com maquinário e com os novos saberes da sociedade resultante da junção do matemático com o engenheiro; enquanto alguns morriam do trabalho outros começavam a morrer de tédio por nada fazer, o filósofo gritava a morte de Deus, teólogos dizia que as igrejas eram o túmulo desse deus; o romancista previu o fim da catedral sob fogo, agora quase concretizado. E, o monumento mais visitado, fez-se vivo, renasceram sentimentos múltiplos, inclusive com jovens e velhos de terços nas mãos, rezando publicamente na cidadela do processo laicizador ocidental. A queima da Notre Dame de Paris dá-nos ver o sólido de oito séculos desvanecer-se no ar e, ao mesmo tempo ver, nas ruas parisienses, solidificar-se uma tradição que parecia morta.

Notre Dame de Paris é a Nossa Senhora de todos os lugares para onde fora, enviados cristãos com mensagens que, em seu tempo julgavam ser o melhor. De Paris, onde foi um dia entronizada uma deusa da razão, saíram outras razões para a fortalecimento da Europa, com muitos enganos e muita confusão entre o que seria o desejo dos homens e a vontade do Deus que cultivavam. Em uma sociedade que tem dificuldade de assumir seu passado, sabendo-o causador de dores a tantos povos, seria mais simples aproveitar a oportunidade e cobrir as cinzas desse passado nos escombros de uma velha catedral, mas, tais cinzas são dos corpos que geraram a Europa, sua cultura, seu pensamento, sua alma. As chamas que queimaram a Catedral de Nossa Senhora de Paris, reaqueceram o amor pela tradição europeia, até mesmo naqueles que desejam, ou anteveem o seu final. Daí o desejo de reconstruí-la, restabelecer fisicamente o símbolo da Europa, cristã em sua base formadora. Uma pena que este desejo não se apresente também na reconstrução da base amorosa do cristianismo que, em suas diversas tendências, poderiam fazer nascer os momentos mais radiantes da vida humana.

E tão pouco que se precisa, apenas ganhar um pouco menos, abrir mão das riquezas e deixar que as graças, como as da Senhora de Paris, sejam derramadas sobre o mundo

As chuvas e os crimes sociais do verão

sábado, fevereiro 9th, 2019

Mesmo quando apresenta-se com 29 dias, fevereiro é um mês pequeno, o menor de todos, e muito esperado por alguns por conta do grande festival que conhecemos e vivemos como Carnaval. Este ano o carnaval ocorrerá em março, mas em algumas cidades, ou em partes de algumas cidades, as pessoas treinam, preparam-se, para viver plenamente a loucura que se diz existir nos três dias dedicados aos prazeres da carne.

Fevereiro começou ainda com o rescaldo do recente acidente em Brumadinho, MG. Restos do minério retirado da terra e vendido, principalmente aos chineses, guardado em barragem situada metros de altitude acima de uma cidade, desceu montanha abaixo, tudo matando, tudo destruindo, tudo contaminando. Muitas pessoas morreram e a cidade foi sensivelmente afetada, pois perderá a atividade que a fez surgir. Pode ser que venha a Tornar-se uma cidade-zumbi, quase morta. Sua longa história não permite tal afirmação. Originária da atuação de bandeirantes no final do século XVII, esta cidade cresce com a mineração do ferro, após a criação da Companhia Vale do Rio Doce, durante a ditadura de Getúli0 Vargas, e faz parte do esforço de criação da uma indústria nacional. Situada no vale do Rio Paraopeba, suas madrugadas e manhãs são famosas pelas brumas que cobrem o povoado/cidade, de onde lhe vem o nome. Espanta a possibilidade de sua morte, a lembrança de que no século XIX, um inglês, o Senhor Thimoty, ou o Senhor Tim, que foi sendo chamado de Nhô Tim e, Inhotim. Nas terras de Nhô Tim, em 2004, o empresário de mineração siderurgia e arte, Bernardo Paz, guarda no local sua bela coleção de arte, e em 2006 a torna de acesso ao público, e recentemente, em 2014 foi tornado museu a céu aberto da Arte Contemporânea. Inhotim, tem origem na ação predadora da caça ao silvícola e ao ouro, cresce da retirada do ferro de suas entranhas, cujo rejeito agora mata o Rio e suas margens, mas pode ter seu futuro garantido pela arte e pela reconstrução da natureza, que vai tomar algum tempo.

Este desastre anunciado, o rompimento da barragem de rejeito de ferro sobre Inhotim, não tem sido um caso isolado na trajetória de Minas Gerais. Faz menos de uma década que, a cidade de Mariana sofreu o rompimento de uma barragem de rejeito que, parece tem matado o Rio Doce, que alimentava a região. Agora, a morte do Rio Paraopeba, pode vir a atingir o Rio São Francisco. Desastres que ocorrem após a ação descuidada dos empresários em diversas épocas, são comuns na construção do Brasil, pois os que orientam os caminhos do “progresso” parece acreditar que a natureza é capaz de se recuperar eternamente. Em decorrência desse entendimento, os projetos de “progresso” do Brasil têm sido realizados em função do apetite pantagruélico dos seus dirigentes, por isso não deixam espaços para que os menos poderosos, os índios, os trabalhadores de suas empresas possam se acomodar decentemente: os poderosos apossaram-se de tudo, e o resultado são favelas, vilas operárias que amontoam em pouco espaço centenas ou milhares de pessoas; numerosos são os que constroem em morros que estão sempre ameaçados pelas forças da natureza, como assistimos anualmente durante as chuvas de verão que iniciam cada ano, no Sul do Brasil e, em junho/julho no Nordeste. E quando ocorrem os donos dos meios de comunicação, junto com os governantes que foram financiados pelos poderosos, ordenam que as palavras constantemente repetidas seja, “tragédia”, “acidente”, “fatalidade”, de maneira que seja esquecido que o que ocorre a cada ano são atos criminosos.

A cada ano o Rio de Janeiro oferece a visão dos crimes que são cometidos ao forçar parte de sua população a viver em condições infames, nos morros que circundam a cidade. A cada ano casas caem e pessoas são feridas ou mortas por viverem em “locais de riscos”, como dizem os que construíram seus condomínio locais sem riscos. Este ano aconteceu de novo, e as chuvas, como fizeram a trinta, cinquenta e setenta anos, ocuparam a cidade que foi sendo construída sobre riachos e rios. É maravilhoso o panorama da natureza, é maravilhosa a sua ação sistemática de lembrar que os homens precisam encontrar um limite para as suas ações e cometam menos atos criminosos contra a natureza. Sim, os humanos são parte da natureza.

Ato criminoso é que ocorreu também nas acomodações que do Clube Regatas Flamengo, simplesmente flamengo, do Rio de Janeiro, chama de Centro de Treinamento, CT. Nesta semana 10 jovens foram surpreendidos na madrugada por um incêndio no dormitório. Jovens entre 14 e 16 anos foram machucados, seis deles morreram. Nos primeiros momentos as palavras “tragédia” , “fatalidade” provocaram ondas de simpatia ao clube e seus dirigentes, pois este “terrível acidente” é muito doloroso para “os esportes e o futebol brasileiros”, disse famoso atleta. Aos poucos chegam notícias de que a construção onde dormiam os jovens atletas não estava no projeto inicial; depois o Corpo de Bombeiros não havia dado permissão para funcionamento daquele “dormitório”; em seguida se sabe que a Prefeitura da cidade já havia embargado diversas vezes aquela instalação. E o que era um “acidente”, uma “tragédia’, uma “fatalidade” que colheu a vida de seis jovens e os sonhos de dez famílias, finalmente é visto como o que é: um crime. Os dirigentes do Flamengo (talvez outros clubes tenham comportamento semelhante) usam os sonhos de jovens adolescentes pobres, nascidos nas periferias amontoadas em torno das grandes cidades, e dos sonhos de seus pais para aumentar suas ganâncias, seus ganhos. Os dirigentes dos clubes de futebol, como os pais dos adolescentes, sabem que o estudo não garantirá aos jovens condições de vida que a televisão e os meios de comunicação em geral promovem e fazem os jovens desejarem. Mas o futebol pode ser um caminho de esperança para os que nasceram em desvantagem social, como é sempre lembrado nos programas esportivos dedicados a promover os sonhos de alguns, de serem atletas e poderem comprar uma casa para seus avós, sua mãe, seus irmãos. Em um mundo gerado pela ganância dos bandeirantes, os pais estão quase sempre ausentes na maioria dos relatos.

As águas de Janeiro e fevereiro deste ano de 2019 promoveram lama, sofrimentos, mas podem ajudar a tirar parte da sujeira dos olhos sociais que não permitem perceber a luz da realidade histórica de nossa sociedade.

Olinda, 08 de fevereiro de 19

Anos 10 ou anos 70

terça-feira, janeiro 15th, 2019

Na segunda metade dos anos setenta ministrava aulas, juntamente com os professores Rubem Franca, Reginaldo Fontenelle, para onde fui levado pela indicação da professora Sônia Medeiros no Colégio e Curso Radier. Foi um tempo muito interessante, pois tinha que manter em segredo que, pouco meses antes havia sido hóspede do DOI-CODI, no que fui bem sucedido por algum tempo. Nesse período ocorreu um invasão de seres extraterrestres para infernizar as aulas de história. Foi tempo da glória de um rapaz alemão Erich Von Danniken, que preencheu a imaginação de gerações com explicações sobre a construção das pirâmides egípcias, maias e astecas; dos canais da Babilônia e de todas as maravilhas do mundo antigo, fruto do trabalho, das mãos e da capacidade humanas. Sua explicação era que “deuses astronautas” teriam vindo à terra e “ensinado” alguns homens e retornaram para seus mundos para além das galáxias. Havia um guru para essas extravagâncias, um senhor versado em leis que morava em São Lourenço da Mata e, em diversas ocasiões foram promovidos debates entre os professores e esses ‘sábios’. Também os professores das Ciências Biológicas tiveram que participar desses debates, que terminavam por contrapor as teorias da Evolução e o Criacionismo (ou creacionismo). Eram tempos árduos e interessantes, quase divertidos, confronto de mundos, de intenções religiosas em todos os casos, luta contra o pensamento científico. Esses debates provocavam estudos e debates inflamados, com alunos confrontando professores e seus colegas.

A disputa pelo saber, pelo poder. Pelo poder de dizer que só seres de ouyto mundo poderiam ter feito as ‘Maravilhas do mundo antigo”. Se conseguissem isso, também provariam que tudo virá dos deuses. Todos debatiam enquanto a caravana da história continuavam a passar. Ibrahim Sued, cronista social bem sucedido no Rio de Janeiro, todos os dias publicava o que ele dizia ser provérbio árabe: Os cães ladram e a caravana passa. Uri Geller entortava talheres e padre Quevedo vivia a discutir a a Parapsicologia e o ET de Varjinha, em Minas Gerais, era mais uma comprovação da vida extra terrestre. Ainda era o tempo que se anunciava a Era de Aquarius, embora Leila Diniz tivesse morrido;

Brasília foi construída em local previsto pelo místico Dom João Bosco. Vales do Amanhecer traziam novas esperanças, Zé Arigó – Dr. Fritz, cuidava da saúde do povo sem hospitais, médicos e enfermeiros. A caridade cristã de católicos e espíritas era criticada pelos grupos de esquerdas ateias pois entendiam que essa ajuda inviabilizaria a revolução que venceria a ditadura. Vieram novos tempos, esses que vivemos.

Pois bem, não é que estamos debatendo a sério, de novo, essas questões, agora com o auxílio de canais de televisão que, com efeitos especiais estão a demonstrar que tanto as profecias de Nostradamus como os Deuses Astronautas estão vivos. O Mais recente “Arigó” está rico e na prisão, denunciado por abusos sexuais, o que jamais ocorreu com o primeiro.

Nesses tempos novos há muitos cultivadores de deuses, não astronautas, mas que parecem negar a possibilidade criativa dos homens e mulheres de nossos tempos. Sérgio Porto – Stanislaw Ponte Preta – morreu três messes antes da proclamação da escravidão do AI 5, mas notou que havia um Festival de Besteira que Assolava o País – o FEBEAPA. Ele continua existindo, sempre auxiliado de maneira difusa por um Plano Nacional de Burrificação, um PNB, agora mais ou menos detectado nos Ministérios da Educação e da Cidadania.

O fim de uma guerra em 1917

domingo, novembro 11th, 2018

Quando paramos para comemorar cem anos do final da Primeira Guerra Mundial do século XX, notamos que pouco lembramos dessa guerra distante no tempo, mas que marcou o início do século XX, segundo famosos historiador britânico. Mais voltado para a América latina, o francês Olivier Campagnon entende que aquela guerra encaminhou o Brasil para definir sua identidade, mais voltada para os Estados Unidos, especialmente a Europa germânica e britânica. Aos poucos foi também afastando-se, culturalmente da França. A guerra que terminou a 11 de novembro de 1919 foi, segundo alguns continuada em silêncio durante algum tempo e, depois de 1939, ao som dos tanques e bombardeios aéreos sobre cidades inglesas, principalmente.

Para alcançar meu mestrado em história pesquisei como as lideranças da Arquidiocese de Olinda e Recife usaram as informações sobre a guerra de 1914, no jornal A Tribuna, para angariar a simpatia dos governantes e animar os católicos na direção do patriotismo. Verifiquei duas tendências entre os católicos de Olinda e Recife: uma delas, era verbalizada pelo Monsenhor Afonso Pequeno que entendia não ser do interesse do Brasil envolver-se em uma guerra que favoreceria aos Estados Unidos, recentemente entrado no conflito, após período de indecisão de Wilson. Era dos Estados Unidos de onde estavam vindo, em profusão, o protestantismo e o bicudo, “duas pragas”, dizia ele, que estavam arruinando a identidade brasileira e o algodão que era uma das forças da economia pernambucana naquele momento. Para o Monsenhor Afonso Pequeno o Brasil deveria permanecer neutro, seguindo a orientação do papa Bento XV. Outra tendência era a orientada pelo superior do Monsenhor, Dom Sebastião Leme, arcebispo que se esmerava na política de fortalecer as relações entre a Igreja e o Estado, pois entendia que o catolicismo era a argamassa que fez e une o Brasil, como escrevera em sua Carta de Saudação aos seus novos diocesanos, em 1916. As ele, durante o seu pastoreio em Olinda e Recife, fez presidente estadual da Comissão de Civismo e foi defensor do serviço militar obrigatório, auxiliando a cruzada do poeta Olavo Bilac. Dom Leme não seguia a orientação do Santo Padre, assim como fez o arcebispo de Paris que, em sermão na Notre Dame, disse que não poderia calar o seu sentimento de amor à pátria quando ela estava sendo agredida. O Brasil sentiu pouco essa agressão, tendo alguns navios mercantes, que se dirigiam à Europa, atacados por submarinos, o que favoreceu o intercâmbio comercial com os Estados Unidos, seu futuro principal parceiro comercial. Alguns soldados foram enviados, mas não travaram nenhum combate, tendo chegado à Europa no dia 10 de novembro. Mas as simpatias dos intelectuais foram sempre para os franceses, especialmente, sempre vistos como paladinos da civilização.

Após a declaração de guerra aos Países Centrais – Alemanha, Áustria, Hungria – ocorreram depredações de prédios com estabelecimentos comerciais de alemães, e também conventos que eram habitados por padres de origem alemã, sob a suspeita de estarem à serviço daquelas potências bárbaras que combatiam a civilização, ou seja, a França. Isso aconteceu em outras cidades, mas na região de imigração alemã, viu-se alguns milhares voluntariando-se para combater na defesa do Kaiser Guilherme II.

O término dessa guerra trouxe um surto de nacionalismo. Três depois vieram as festas comemorativas do Centenário da Independência, A Semana de Arte Moderna, e outros movimentos que buscavam uma identidade brasileira. Daí resultaram o Integralismo de Plínio Salgado, mas principalmente o fim da democracia nascida dom movimento de 1930, com a adoção do Estado Novo.

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SILVA, Severino Vicente da. Da Guerra à neocristandade – A Tribuna Religiosa, 1917-1919. Curitiba: Editora Prismas, 2015.