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O Domingo é republicano e as praias nos pertencem

segunda-feira, novembro 14th, 2016

O DOMINGO É REPUBLICANO

Meados de novembro. Despreocupado piso na areia da praia de Pitimbu. A algazarra e os sons mais diversos são acompanhados por meus olhos embebendo as cores. Todos os matizes brasileiros, todos os mestiços.

A memória me carrega ao passado. Faço parte desse povo que aproveita os domingos, seus feriados permanentes ao longo do ano, para sair de seus lugares e viver o sonho de expandir seu mundo. Sempre sonhamos com o mar, sempre fomos à sua procura. Foi lá que os portugueses nos encontraram na busca da Terra Sem Males.

Hoje esse sonho parece ser é ofertado pela televisão que tem o programa “estou de folga”, e eles sempre mostram praias. Quem vive pendurado em morros de periferias das capitais ou em cidades distantes do litoral, ir à praia é sonho paradisíaco. Horas de viagem em ônibus fretados, são segundos em direção do sonho, das águas salgadas, ao menos, uma vez no ano, às vezes na vida. É o sonho do adolescente que juntou algum dinheiro e, talvez com os pais, pagará uma viagem até o litoral. Será um dia radiante. Ônibus vai lotado, nele há grande quantidade de ansiedade escondida e exposta nas vozes altas e anedotas nervosas. Sempre há um grupo de rapazes com violão, tambor, pandeiro para que a viagem fique menos cansativa. Duas ou três horas de viagem. Quando a praia é vista grande gritaria. Depois é encontrar um lugar na areia. Enquanto os mais velhos conversam em torno de um litro de Rum Montila e muita Coca-Cola, as crianças cavam piscinas com suas mães e os rapazes jogam bola, exibindo-se para as meninas moças do bairro.

Andando na areia da Praia de Pitimbu, PB, lembro que foi assim que, crescendo na periferia do Recife, eu, ainda menino de 12 anos conheci Tambaú, também na Paraíba. Era um passeio promovido pela Cruzada Eucarística da Paróquia de Nova Descoberta. Em passeio de ônibus semelhante fui à distante praia de São José da Coroa Grande, quase vizinha à antiga Comarca de Alagoas. Outro passeio levou-me à Suape, embora fosse mais comum ir até Gaibú, essas praias do litoral sul de Pernambuco. Foi também em excursões semelhantes que conheci as então distantes praias de Conceição e Janga, em Paulista, além da famosa Ilha de Itamaracá, Ponta de Pedras, em Goiana e Rio Doce, esta última em Olinda.

Como se pode perceber, fui farofeiro e gosto de ver meu povo farofeiro feliz. Claro que nesses domingos, nesses feriados nacionais os moradores dessas praias não saem de suas casas. Não se misturam com esse povo. Esses farofeiros, que trazem de casa suas panelas com o que comerão.

Uma vez, já com filhos, em um belo 7 de setembro, dia comemorativo da Independência do Brasil e simbólico dia da Abertura do Verão, em Pernambuco, me encaminhava para a Praia de Maria Farinha e parei na casa de um amigo. Era uma passada rápida e ele me perguntou para onde eu iria. Ao saber que eu estava com a família indo à praia, ele disse: “vá não, hoje esses negros de Nova Descoberta e Casa Amarela estão descendo dos morros”. Sorri e disse à minha esposa: vamos logo.

Quase não gosto de brasileiros que não gostam de brasileiros. Não me agrada essa gente mesquinha, que quer a praia e o mar só para si. Uma vez, em Copacabana, esperando um ônibus para retornar a Zona Norte, uma senhora me disse: “esse ônibus não, espere o próximo. Depois que abriram esse túnel a nossa vida ficou muito difícil”. Ela parecia com o meu amigo do Janga, apesar de ela ser branca.

Gosto muito dos feriados de verão. Eles são republicanos. O povo toma as praias, ruas e as praças enquanto a pretensa nobreza se esconde nos alpendres de suas casas de praia, esperando a praia no dia seguinte ao feriado, pois o povo brasileiro voltará a trabalhar enquanto ela irá à praia. Você sabe como é: ‘segunda feira é dia de branco”. O domingo é republicano, e o povo não o vive como besta, embora assim o vejam.

Carnaval e educação

quarta-feira, março 5th, 2014

É impressionante o que eu vi, ao tempo que ouvi, durante três dias de carnaval em uma cidade litorânea da Paraíba. Foram dias e noites de um só ritmo, uma única e medíocre batida, a suingueira. A palavra sugere balanço e ele pode ser visto nas ancas de rapazes e moças, sendo que os rapazes conseguiam ser mais flexíveis que as moças. Elas paravam para observar como dois rapazes se completavam – côncavo e convexo, e então treinavam entre si. Muito criativo.   E depois vinha outro “trio elétrico” e, com ele a mesma batida, rapazes semelhantes, e moças bonitas. Muito bonitas as moças. As do lugar bem que eram tabajaras com seus longos cabelos negros, ajambadas na cor de pele macia ao olhar. Rapazes oxigenados na ânsia de chamar atenção: “somos dinamarqueses”, “suecos”. Os corpos desnutridos diziam que não. É interessante a quantidade de homens negros com a calvície encomendada ao barbeiro. A cada dois dias uma navalhada.  A impressão é que deixam, a mim, é a necessidade de esconderem o que a natureza lhes pôs acima do cucoruto, o cabelo pixaim que os colocam distante do ideal branco europeu. Como dói essa ausência de identidade!

A batida suingueira repetida ficou de tal modo em minha mente eu sonhei com as aulas de Educação Artística. Sei que esses rapazes, em algum momento foram alunos das escolas públicas e, com certeza tiveram aulas dessa disciplina que lhes devia educar a sensibilidade para as artes, proporcionando-lhes a oportunidade de ler sobre teatro (já não digo fazer pois nossas escolas não possuem espaço para esta atividade), ver pinturas, esculturas, ler poesias, ler romances, ouvir músicas de diversos estilos e épocas, etc.. Mas provavelmente nada disso ocorreu como bem demonstra o apego a essa batida única e medíocre que toma conta dos espaços nos cérebros e corpos dessa geração. Os professores foram ensinados que não devem ensinar,  apenas estimular o que as crianças e jovens que lhes são entregues já fazem e sabem. Assim é que nas festas populares os prefeitos, em grande número, para garantir esses votos possíveis, financiam bandas ridículas e medíocres e distribuem camisas para o sexo protegido. É isso que lhe dá a impressão de serem progressistas. Mas auxiliam a cristalizar um passado que permitia apenas uma conduta, a da aceitação daquilo que cai da mesa do seu senhor. O mais triste é o silêncio medroso que permite o crescimento do poder do barulho como música ou arte.

Leio que não houve morte em Olinda, PE,  durante o carnaval. Isto é bom.

Um pouco da família mais ampla

terça-feira, fevereiro 21st, 2012

Em Pitimbu, praia do litoral sul da Paraíba, neste domingo de carnaval, comemoro 89 anos de vida de minha mãe e dela eu escuto histórias que a sua memória mãe guarda. Uma delas lembra que não fiquei muito tempo na amamentação, apenas três meses, e, depois disso recusei beber leite o que a obrigou a fazer-me comer papa ou mingau, como se alimenta a gansos, colocando pedaços ou quantidades de alimentos boca adentro e garganta abaixo. Assim sobrevivi, cresci forte. Sou um pouco disso tudo. Em seguida sua memória a leva a conversar sobre seu pai, meu avô Severino Cota. A lembrança é sobre a sua vida amorosa, algumas mulheres que meu avô tentava esconder da família, mas que elas terminavam por aparecer. Parece que sua infância e adolescência estavam permeadas dessas experiências. Outras lembranças são em torno de prédios, especialmente os templos católicos. Ela olha a Igreja do Senhor do Bonfim e a compara com a igreja de Angústia, um engenho onde ela costumava ir com a mãe e irmãs para rezar, assistir missas, rezar o Mês de Maio. As construções de cada época trazem a característica, a marca identitária do tempo criada pelos homens e mulheres. Além do mais, naqueles tempos da juventude de minha mãe, os principais prédios eram, efetivamente, os prédios religiosos católicos e com a marca típica da Reforma ou do Neo-clássico. Nos dias atuais são os templos da Assembléia de Deus que estão a marcar a paisagem da nova religiosidade cristã na Mata Norte. O catolicismo não é missionário, acomodou-se às normas da neo-cristandade.

À noite, na praça frontal à igreja, ocorreu uma dança da Aruenda. Pela rua marginal à praça alguns blocos passaram, com caminhões sonoros que fazem a marca das aglomerações de divertimento, mais conhecidos como “trio elétrico”. Quando aconteceu o desfile da Aruenda, por volta das dez da noite, os carros dos turistas e dos moradores recusavam a ceder passagem para um bloco que vai à rua apenas com percussão e o som das vozes dos desfilantes. Ninguém sabe mais o que é Aruenda, uma tradição que desapareceu (?) ou transmutou em novos folguedos, como os blocos, os maracatus. Assim disse Rogério, o professor que está revivendo a Aruenda de Pitimbu, silenciada a mais de trinta anos. Ao fim da noite tive uma conversa bastante produtiva que, sei bem, renderá algumas folhas de papel. Voltarei a conversar com esse professor da Rede de Ensino Estadual de Pernambuco, na cidade de Goiana.

O Mais comum nesse carnaval é baixo nível das melodias, das poesias que são cantadas nas ruas, gritadas a partir dos “trios”. Quanto mais alto o som mais entramos no subsolo dos desejos ocultados. Mas o carnaval é para isso, para viver com intensidade a padre baixa do corpo.
Viva Momo