Archive for the ‘Tradição brasileira de matriz européia’ Category

Drama 2 – Superar a doença da morte

sexta-feira, março 27th, 2020

Próprio da humanidade inventar meios para sua preservação, ensinar o que aprendeu no ato da invenção, modificar o aprendido, aperfeiçoar o recebido. É que tem ocorrido sempre, mas não somente. Alguns aprenderam mas não transmitiram o que aprenderam ou aperfeiçoaram, interromperam o processo, ou melhor, modificaram o processo humano: tornaram seu o que era comum.

Qual o nome que tenho? Quem o pôs em mim? Porque razão escolheu este nome para marcar-me entre todos os seres? Sim, o nome que carregamos é uma marca que permite sermos reconhecidos pelos demais, mas esta marca nos foi dada por alguém que possuía um objetivo ao nomear-me. Devem ter sido essas as considerações que fizeram meu filho Isaac interpelar sua mãe, marcada om o nome do avô, Manuel. É uma tradição romana. Aprendi, que as mulheres carregavam o nome de algum ancestral. Mas, porque pus o nome Isaac em meu caçula? Quantas tradições culturais, civilizacionais em um só parágrafo: romana, judia, africano-portuguesa.

Conto histórias para meu filho dormir, então quis contar a história do seu nome. Uma história que começa em Ur da Caldeia, na Mesopotâmia, no tempo de Hamurabi. Abrão, homem de alguma posse, casado com Sara, teria tido um encontro com o seu deus pessoal que lhe ordenara abandonar a cidade, ir para o deserto com sua família. E então ele migra com a mulher, seus bois, cabras, escravos, alguns parentes. Abrão diz a Sara que seu deus lhe havia dito que teria uma grande descendência e que eles formariam um grande povo. O tempo passava e Sara não engravidava e já havia passado tempo de ela engravidar. Para agradar o marido, Sara permite que ele tenha um filho com uma de suas escravas e adota esse filho como seu. Sara não parece confiar na promessa do deus de Abrão, procura um jeito de cumprir a sua parte na promessa para a qual não fora consultada.

Uma tarde dois jovens estão de passagem e passam no acampamento de Abrão que os recebe e os trata bem. Na conversa os estranhos dizem que logo Sara engravidará e  Abrão terá o filho que lhe fora prometido. Sara escuta e ri , pois entende que seu tempo de maternidade já havia passado. Os visitantes reclamam de sua pouca confiança ou fé no deus de Abrão. E seguem viagem. Algum tempo depois o corpo de Sara apresenta os sinais da gravidez. No tempo apropriado pare seu filho. Então Abrão fica muito alegre e diz que o menino que nasceu é a alegria de sua velhice, um prêmio, e o chama de Isaac. Foi pela alegria de ter um filho após os sessenta anos que eu, formado em parte da tradição judaica, resolvi chamar de Isaac o meu filho.

Poderia ter terminado neste ponto a história, mas o filho de Abrão, que então passara a ser conhecido como Abraão, tem uma vida maior que o seu nascimento. O nascimento é apenas um momento da vida que começara antes e terminará muito depois da experiência da vida. Assim continuei a história, não mais do nome, mas da vida de Isaac. O deus de Abraão cumprira a promessa, mas, diz a tradição, havia mais a ser realizado, mudado.

Quando saiu de Ur levando suas coisas, Abraão levava também seus sacrifício, costumes e, entre eles, havia um hábito de oferecer aos deuses a primícias de tudo que o crente produzia. E Abraão entendeu que tinha a obrigação de oferecer Isaac em sacrifício ao seu deus, de quem disse que ouvira a cobrança. Assim ele chamou Isaac para um passeio e resolveu matá-lo para agradar seu deus. Durante a caminhada Isaac perturbava Abraão sobre qual o animal que seria sacrificado. Eu estava contando essa parte da história quando ouvi o soluço de meu filho, estupefato com a ideia de que Isaac seria morto para a alegria do deus de Abraão. E pouco adiantou ter adiantado a história, ter dito que no último instante o deus de Abraão não permitiu que fosse consumado o sacrifício/assassinato de Isaac, que apareceu um animal e que a história apenas mostrava de como os seres humanos estavam superando uma etapa do drama, deixando de matar seus primogênitos, e que Isaac. Pouco adiantou dizer que, além de ser a alegria da velhice de seu pai, Isaac era também o sinal da libertação, da superação de uma fase antiga e o começo de uma humanidade menos sangrenta e dolorosa, embora ainda muitos sofrimentos estivessem por vir. Lembrei que só vim a entender o que viveram Abraão e seu filho após estudar um pouco de antropologia, pois teologicamente eu apenas aceitava aquela visão de um pai com uma faca na direção do filho indefeso.

Contos de fada servem para explicar o mundo às crianças, são contados por adultos que raramente compreendem o seu significado. Assim também acontece no relacionamento dos homens com os seus deuses. A tradição judaica parece ter início com a superação dos sacrifícios humanos dos seus primogênitos, como se confirma com a história central da libertação no  Egito. A tradição cristã também exige um sacrifício do unigênito. As crianças sofrem muito no aprendizado dessas tradições que formam a cultura, a sensibilidade que carregam as fazem solidárias ao sofrimento de todas as crianças, de todos os humanos que construíram a humanidade.

Vez por outra, as sociedade estão governadas por adultos que não tiveram ou perderam a infância.   

FELIZ PÁSCOA

sábado, março 31st, 2018

Feliz Páscoa! Disse, na quinta feira desta semana, nesta última semana do mês de março de 18, a Semana Santa, para os católicos. A frase foi em direção de um velho colega que passava no corredor. Dois minutos depois ele retorna e diz: feliz Páscoa. E comenta: estamos todos ficando ateus, parece. Antigamente esta era a primeira frase que dizíamos, mas agora ela começa a parecer estranha, não mais a usamos e ficamos surpresos quando ela nos é dirigida.

Na rede de comunicação virtual que frequento, são raras essas expressões de desejo de uma Páscoa feliz. Mais fácil encontrar comentários de teor crítico, relativizando a história do memorial ou da pessoa central do memorial. Até mesmo a referência o hábito do consumo de peixe nesse período é banalizado. Uma postagem de diversos corte de carne bovina ridiculariza o costume que obrigava, por religião, os nobres a comer a comida dos pobres na Idade Média, quando a carne e a caça era privilégio da nobreza.

Vi e ouvi uma postagem de um amigo, bom católico, leigo ativo e criativo, que nos desejava uma feliz páscoa, uma renovação do espírito, enquanto lembrava que a Páscoa é uma festividade de celebração do início da primavera, estação que alegra após o período invernal. A sua observação nos dá a oportunidade de notar que a páscoa é uma festividade originária dos povos do Hemisfério Norte que nós, do Hemisfério Sul a celebramos na chegada do Outono, quando o Verão nos deixa e as chuvas de março nos deixam vislumbrar o tempo de plantio e cultivo.

Outros cingem este festival primaveril à tradição judaica, pois que se lembra do Anjo de Deus que passou sobre o Egito, promovendo condições para que o faraó liberasse o povo que então se dirigiu ao deserto em busca de uma Terra Prometida, na qual, além de rios onde o leite e mel corriam, era também local de liberdade para um povo que, até então, vivia em escravidão.

Todos esses sentidos, e muitos outros, fazem desta festa um momento de revigorar as esperanças de que é possível construir outra vida, na qual a alegria seja o alimento diário, a riqueza seja comum a todos. E este é o desejo que guardo no meu íntimo e dele sai para cada pessoa que casualmente leia essa coluna.
Neste ano, o último dia da Quaresma cristã coincide com aniversário pouco celebrado, o dia no qual, faz cinquenta e quatro anos, o exército nacional brasileiro, liderado por generais carregados de medo e ressentimentos, saía dos quarteis, derrubaram um governo legítimo e reformista para iniciar um período de suspensão das liberdades de pensamento, de locomoção, de expressão. Contudo, aproveitamos a data da Ressureição, da Páscoa, para celebrar a vitória que conquistamos sobre aquela ditadura civil-militar, retomando o percurso da liberdade, que nos cabe conquistar e cultivar diariamente, recusando sempre a dominação do mal, do desentendimento em nossas vidas pessoal e social.

FELIZ PÁSCOA.

Aula do dia 20 de novembro: Iluminismo e o dia da Consciência Negra:

terça-feira, novembro 21st, 2017

O assunto da aula foi Iluminismo, então tomei alguns verbetes do Dicionário Filosófico – Igualdade, liberdade, Preconceito; juntei a bandeira da Revolução de 1817 e nos deleitamos a conversar. Que relação tem isso com a nossa vida e o que o Iluminismo importa para nós, foi o que rolou.
Quando faço esse tipo de aula noto que são poucos os alunos que expressam seus pensamentos. A sala lhes oprime, ou talvez seja eu. Mas o diálogo saiu e à medida que a aula fluía várias lembranças vieram-me, especialmente quando eu disse que esses temas estavam ligados ao que comemoramos, ou devemos refletir em um dia como o de hoje. E então veio a pergunta: que dia é hoje, saído de maneira tão verdadeira, em uma turma que está vencendo 50% do Curso de Licenciatura em História. Olhei para a turma e esperei a resposta que veio tímida e envergonhada: Dia da Consciência Negra.

Aprendi e repito sempre nas aulas que um historiador, aquele que deseja ser historiador deve ler, diariamente o jornal do dia, pois eles nos dizem os problemas do presente, o que justifica a pesquisa no passado para entender como o presente que vivemos foi construído. A pergunta da aluna me fez indagar, internamente: está a terminar o curso de história, já fez todas as disciplinas de História do Brasil; fez o ensino médio e como não sabem o que o dia da Consciência Negra! Porque foi criado tal dia e qual o seu objetivo, tudo isso estava fora da preocupação e conhecimento daqueles estudantes. Parece que certos momentos e temas são coisas de militantes, não de cidadãos. Mas também não sabiam que ontem, dia 19 de novembro foi o Dia da Bandeira Nacional.

Então lembrei que em 1988, quando a professora Edla Soares estava Secretária de Educação do Recife e eu Diretor de Projetos Especiais da mesma secretaria, fizemos ocorrer uma passeata dos estudantes da rede municipal, no dia 13 de maio, para discutir a questão dos negros no Brasil. Naquele ano, Plínio Victor e eu pensamos na possibilidade de criar um memorial Zumbi dos Palmares na Praça do Carmo. Não tem o memorial, mas lá está o busto representativo d Zumbi dos Palmares. E então era a época que começava a nascer e fortalecer o movimento negro em busca da afirmação, o que passava até pela relativização do ato da Princesa Izabel, não da desqualificação. A União dos Dirigentes de Educação Municipal promoveu debate envolvendo professores de 14 redes municipais do Estado – dois dias de estudos no Seminário Cristo Rei, em Camaragibe. E isso muito antes da lei que regulamenta a discussão da cultura afro-brasileira na escola. E meus alunos na universidade, em 2017, ficam surpresos que exista esse dia da Consciência Negra.

Agora reflito que esse desconhecimento é sinal que devemos vez por outra tocar nesse assunto, inclusive para lembrar que somos mestiços, de negros, brancos e ameríndios. Devemos nos esforçar um pouco mais para nos conhecermos, pois se não nos encararmos de verdade, jamais seremos algo além da sombra de um povo que poderia ter sido. Não somos apenas a herança europeia, como não somos apenas a herança africana. Somos as duas, sendo que as tradições europeias tornaram-se fortes, quase única, à medida que procurou impedir a continuidade das tradições africanas e, também destruíram, no puderam, a tradição dos povos que aqui encontraram. O dia 20 de Novembro é para repensar todas essas particularidades que, parece, nossos currículos – os visíveis e os invisíveis – parecem desejar esconder.

Como nos lembrou o professor Marcus Carvalho, na conversa realizada no Projeto Olinda 1817 – 2017, parece que anda estamos longe de realizarmos o projeto dos iluministas dos séculos XVII e XVIII.

Encruzilhada nas pesquisas e na vida

domingo, maio 7th, 2017

Leio, ouço e vejo vários professores universitários, alguns, como eu, já próximos da aposentadoria, continuando a trabalhar apesar de terem cumprido todos os protocolos para a jubilação de sua vida laboral, e estão quase desiludidos com alguns aspectos vividos na instituição que trabalham e amam tanto após anos de dedicação. É um sentimento nascido no confronto de algumas ideias, de ideologias. Talvez essa situação seja mais sentida na área das ditas Ciências Humanas. Essas ciências quase sempre surgiram para explicar e compreender o comportamento dos homens e mulheres. Houve um tempo de maior dedicação ao conhecimento, à análise do acontecimento social. Foi um tempo dedicado ao trabalho descritivo do mundo histórico cultural. Entretanto, no final da primeira metade do século XIX, surgiu a concepção de que, mais que conhecer a realidade, como vinham fazendo os filósofos, deve-se transformá-la. Desde então a questão que se põe é: transformá-la em qual direção, em qual sociedade, em quais tipos de relações.

À medida que se formavam e cresciam, as ciências ditas humanas e sociais passaram a agir separadamente da filosofia, passaram a dedicar-se ao método. Os homens e o que lhes aconteceriam de fato foram se tornando algo dispensável. Como disse Sartre, é uma Questão de Método. E foram tentados muitos, alguns criados em laboratórios mentais por alguns que associaram os projetos autoritários de Humanistas renascentistas com as ideias de mudanças abruptas, postas em prática pelos seguidores da Criança Terrível dos iluministas. Criou-se um clima indesejável de guerra permanente entre dois grupos que disputam todos os espaços: administração, bancas de concurso, bancas de seleção, gerências de Departamentos, Centros, Reitorias, etc. Mais recentemente essa disputa começou a atingir a sala de aula, os corredores; e então, o engajamento na luta pelo poder e sua democratização levou a uma união, quase total, com o movimento estudantil, pondo em risco a possibilidade de crítica. Quase submissão a La Chinoise. A autocrítica supõe autonomia. Não é à toa que nas recentes invasões, ou ocupações, de unidades da universidade, os professores que foram agredidos foram dispensados de qualquer solidariedade por parte de seus colegas ou colegiado da universidade. E se alguns manifestaram solidariedade, o fizeram de maneira pessoal, informal e privada. Parece ter havido um temor que soubessem desse seu pequeno deslize.

Sem possibilidade de uma crítica, como criar um conhecimento minimamente livre e científico. Ou só será científico aquele que se pareça com a experiência de Lysenko?

É necessário que, lendo o livro dos outros escrevamos os nossos, não copiemos o que lemos. As reflexões sociais que temos a partir das experiências europeias têm nos auxiliado, mas devemos tentar superar a prática de ficarmos apenas na realização de cursos de atualização de conhecimentos; já é tempo de voltarmo-nos para nossa história e procurar nos entender como fomos, somos e queremos ser. Nos divertimos ou nos envergonhamos conosco por sermos um povo mestiço (há algum que não seja?), mas é tempo de nos aprofundarmos nessa nossa mestiçagem que nos faz universais e para além da dicotomia entre Apolo e Dionísio. Para isso, é necessário dedicar mais horas de pesquisa e reflexão sobre o Brasil, esse desconhecido nas universidades.

Massacre de Manaus e a civilização

quarta-feira, janeiro 4th, 2017

Uma vista rápida no facebook e logo vejo uma postagem a informar que mais de 80% dos suecos não acredita em Deus e lá estão fechando presídios por falta de usuários; o mesmo post, também em foto, informa que mais de 80% da população brasileira acredita em Deus e aqui os presídios estão lotados. Termina com a pergunta: para que serve a religião? Claro está que quem posta não fez qualquer comentário. Aliás, grande parte das postagens é apenas o famoso esforço/método de estudo que tem feito grande sucesso nas escolas – secundárias e universitárias – o Copiar e Colar, antigamente conhecido como “tesoura e cola” . Talvez essa publicação na rede social seja uma referência ao massacre ocorrido no sistema prisional do Estado do Amazonas, logo no alvorecer deste novo ano, o décimo sexto do terceiro milênio da Era Cristã. Atrevo-me a comentar, não o massacre, que é uma mostra de nossa incapacidade coletiva de nos proteger contra a barbárie, mas sobre a postagem. Mas uma reflexão está ligada à outra.
Quem posta foto sem as comentar compra a ideia que lhe venderam. Nesse caso, a postagem apresenta-se fora da história, como um dado caído de algum planeta. Essas informações chegam sem refletir que a Suécia e os demais países do Norte da Europa veem modificando seus comportamentos desde o século XVI. Não ocorreu informar que naquelas sociedades o padre foi substituído pelo promotor e o inferno pelas prisões. O famoso Leviatã se fez presente ao tempo que ocorria o processo civilizador e o fortalecimento da ética do trabalho. E isso vinha ocorrendo antes de Freud e das diversas psicologias. Bem, o processo civilizador, apontado por Norbert Elias, não conseguiu terminar seus passos no Brasil. Os mais radicais podem dizer que nem começou.

Como nos ensinou Darcy Ribeiro, um apaixonado pelo Brasil e pelo povo brasileiro, o Brasil, além de ser um “povo Novo” é, também, um povo que não fez nenhuma Revolução Técnico-científica, sendo condenado a fazer constantes Atualizações Históricas, sempre a acompanhar o que outros inventam. o porquê disso fica para outra oportunidade. Por ora ficaremos com a ideia de que, no Brasil o padre foi substituído não pelo Promotor, mas pelo psicólogo; em lugar da ética do trabalho foi criado o sistema de tolerância ao jeitinho; e o Leviatã aqui tomou a forma de um Senhor de Fazenda (não vou dizer engenho para que se pense que isso é coisa do Nordeste açucareiro, apenas, e não se refere ao sudeste do café), sempre cordial, um compadre para todas as horas, e o Inferno é coisa que acontece nas favelas ou Assentamentos Urbanos Não Estruturados.

Os presídios estão vazios em países em que a honestidade nas relações sociais é mais importante que os compadrios; os presídios estão vazios nos países em que as autoridades não sobrecarregam o erários com leis garantidoras de privilégios e regalias próprias dos séculos anteriores às Revoluções Francesa e Industrial. No Brasil, ainda teremos, por algum tempo, levantes contra prisões de figurões da política que cometem crimes contra o patrimônio público. Assim ocorre porque a prisão desses criminosos da política põe em risco as sinecuras de muitos que levantam contra reformas, mas, dizem, estão prontos a fazer revoluções para impor sistemas que já se mostraram falidos, com ou sem religião.

Começamos o ano com um massacre, segundo o noticiário, anunciado. Na verdade poderia ser definido como um “homicídio coletivo culposo”, para que ouvidos mais sensíveis de almas insensíveis não sofram com a ideia de um assassinato previsto pelo ‘leviatã’ caseiro.

Patrimônio e Irmandades

quinta-feira, setembro 22nd, 2016

Hoje é o primeiro dia da primavera deste ano de 2016 e, nesta manhã acompanho, sem o desejar, a conversa de três jovens sobre as possibilidades de poderem se apresentar para fazer os próximos concursos. São sonhos de rapazes e moças para o seu futuro. Conversam sobre assuntos diversos, relacionados com suas vidas. Estão em uma biblioteca pública. Sobre a mesa um computador, mas a biblioteca não oferece internet. O prefeito e o seu secretário não entendem que seja necessário esse pequeno detalhe. Por uma rede na biblioteca ou a biblioteca na rede. Os livros da biblioteca são aqueles que algumas pessoas decidiram que não havia mais espaço para eles em suas casas. No centro histórico de uma cidade que patrimônio cultural da humanidade, duas das portas laterais da biblioteca estão a cair. A casa é centenária e foi, parece doada por ilustre família tradicional e de tradição intelectual. Mas duvido que haja, no município, uma política de incentivo à relação da biblioteca para com a sociedade, além de manter a porta aberta e os livros nas estantes. Esta casa possui um conceito atrasado, para dizer o mínimo, do que é uma biblioteca.

Algumas cidades brasileiras começaram a existir ainda no período do Império português. Esta é uma delas. Caminhar em suas ruas ajuda a entender um pouco da Europa medieval e também do período barroco. Além dos edifícios oficiais próprios de uma cidade que já foi centro politico, as construções mais significativas são religiosas, igrejas construídas com o entusiasmo religioso organizado em Irmandades religiosas. Irmandades de Nossa Senhora do Amparo, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Irmandade de São João Militares, Irmandade da Ordem Terceira de São Francisco, Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim. Suas igrejas foram construídas por particulares, não foram iniciativas de nenhum bispo. A fé veio antes da organização burocrática. Às vezes a burocracia interrompe o caminho da fé. Mas os clérigos, que são pagos para servir às irmandades, não se apercebem disso, e, parece, assim acontece ao clero pernambucano, como à oligarquia do açúcar. Ao clero, em Olinda tombada pelo Patrimônio Histórico e referência da cultura civilizacional ocidental, pertencem apenas a Catedral, a Igreja de São Pedro Apóstolo e a Igreja de Nossa Senhora da Graça do Seminário. Esta deveria ser dos jesuítas, mas tendo eles sido expulsos por ordem do Marquês do Pombal, ela foi incorporada aos bens da Diocese de Olinda quando Azeredo Coutinho decidiu que faria ali seu seminário.

O sentimento religioso da população da cidade que foi sede da Capitania de Pernambuco diminuiu bastante desde que as irmandades foram estabelecidas ao longo do período colonial português, desde que o processo de secularização acelerou-se no final do século XIX em diante. Hoje as irmandades precisam atrair mais os jovens para suas atividades e voltarem a ser espaço de socialização, de transmissão de saberes, de formação de tradições. Irmãos, irmãs, confrades e clero, em tempos anteriores se completavam nessa tarefa de organizar a cidade de manter o sentimento religioso. As irmandades é que devem zelar pelos seus templos, envolvendo, como o fizeram no passado, a vizinhança. Quanto ao bispo, ele pode continuar concedendo aos padres o direito de usarem o espaço dos templos das irmandades para que eles celebrem os sacramentos, o que justifica a sua existência: prestar serviço religioso e fortificar a fé dos que aceitam a fé cristã católica. Foi assim, mesmo quando ocorreu a separação dos poderes político e eclesiástico, passo dos primeiros na República.

Se cada parte da sociedade cuidar de suas responsabilidades, não interferindo nos direitos dos outros, continuaremos a ter belas procissões organizadas pelas irmandades que sempre estarão alegres por terem os padres dispensando as bênçãos e as graças que a divindade concede a todos. Da mesma maneira, se a Secretaria de Educação e a Secretaria do Patrimônio Histórico cuidarem melhor da Biblioteca Pública de Olinda, estarão, também, preservando Patrimônio Cultural da Humanidade, conforme definido pela UNESCO. Se não fizerem isso estarão traindo as suas vidas. Uns prestarão contas a Deus por não cuidarem bem de suas ovelhas, outros prestarão contas aos cidadãos que são os eleitores.