Archive for the ‘Teatro’ Category

Carnaval e educação

quarta-feira, março 5th, 2014

É impressionante o que eu vi, ao tempo que ouvi, durante três dias de carnaval em uma cidade litorânea da Paraíba. Foram dias e noites de um só ritmo, uma única e medíocre batida, a suingueira. A palavra sugere balanço e ele pode ser visto nas ancas de rapazes e moças, sendo que os rapazes conseguiam ser mais flexíveis que as moças. Elas paravam para observar como dois rapazes se completavam – côncavo e convexo, e então treinavam entre si. Muito criativo.   E depois vinha outro “trio elétrico” e, com ele a mesma batida, rapazes semelhantes, e moças bonitas. Muito bonitas as moças. As do lugar bem que eram tabajaras com seus longos cabelos negros, ajambadas na cor de pele macia ao olhar. Rapazes oxigenados na ânsia de chamar atenção: “somos dinamarqueses”, “suecos”. Os corpos desnutridos diziam que não. É interessante a quantidade de homens negros com a calvície encomendada ao barbeiro. A cada dois dias uma navalhada.  A impressão é que deixam, a mim, é a necessidade de esconderem o que a natureza lhes pôs acima do cucoruto, o cabelo pixaim que os colocam distante do ideal branco europeu. Como dói essa ausência de identidade!

A batida suingueira repetida ficou de tal modo em minha mente eu sonhei com as aulas de Educação Artística. Sei que esses rapazes, em algum momento foram alunos das escolas públicas e, com certeza tiveram aulas dessa disciplina que lhes devia educar a sensibilidade para as artes, proporcionando-lhes a oportunidade de ler sobre teatro (já não digo fazer pois nossas escolas não possuem espaço para esta atividade), ver pinturas, esculturas, ler poesias, ler romances, ouvir músicas de diversos estilos e épocas, etc.. Mas provavelmente nada disso ocorreu como bem demonstra o apego a essa batida única e medíocre que toma conta dos espaços nos cérebros e corpos dessa geração. Os professores foram ensinados que não devem ensinar,  apenas estimular o que as crianças e jovens que lhes são entregues já fazem e sabem. Assim é que nas festas populares os prefeitos, em grande número, para garantir esses votos possíveis, financiam bandas ridículas e medíocres e distribuem camisas para o sexo protegido. É isso que lhe dá a impressão de serem progressistas. Mas auxiliam a cristalizar um passado que permitia apenas uma conduta, a da aceitação daquilo que cai da mesa do seu senhor. O mais triste é o silêncio medroso que permite o crescimento do poder do barulho como música ou arte.

Leio que não houve morte em Olinda, PE,  durante o carnaval. Isto é bom.

Dois Mestres Pernambucanos

domingo, fevereiro 16th, 2014

Estava a ler, em obra intitulada GESTOS E VOZES DE PERNAMBUCO, editado pela Universidade Federal de Pernambuco em 1970, obra do professor Luiz Delgado, no capítulo em que discute a participação de Pernambuco na Assembleia Constituinte de 1890, quando chegou ao meu conhecimento que havia neste dia, não acordara Doca Maurício, em sua casa, no Assentamento Margarida Maria, no município de Aliança.

Luiz Delgado foi professor e, também, diretor da Faculdade de Direito do Recife, pessoa que influenciou de muitas e diversas maneiras a sociedade pernambucana e brasileira. Devo tê-lo conhecido em algum momento da minha vida, pois em diversas ocasiões estive no prédio da Tribuna Religiosa, instituição que recebeu anos de sua dedicação de católico militante, homem de crença forte e humanidade desenvolvida e ainda carente de estudos, como vários outros intelectuais pernambucanos de sua geração. É necessário ter cuidado para que não nos percamos no imediato da vida.

Escrevo as palavras acima a respeito de um mestre que conheci em minhas pesquisas sobre a Igreja Católica em Pernambuco porque  a minha leitura foi interrompida com a notícia da morte de um mestre que conheci uma dezena  de anos passados. Mestre Doca Maurício será pouco lembrado para além do mundo que usufruiu de seus trabalhos e de sua arte. Dizia um filósofo que o nosso mundo é o mundo que nós conhecemos. E todos nós conhecemos pouco do mundo e, mesmo do nosso mundo, este que nos arrodeia, como diria Doca Maurício. Ele não escreveu nenhum livro e nada escrito, além de algumas assinaturas em declarações e recibos. Nasceu em um engenho, cresceu menino de engenho, viveu quase todas as experiências que a vida em uma fábrica de açúcar permite aos que constroem a Casa Grande, mas nela não entram. Cambiteiro, valeiro, ticuqueiro, carreiro, cortador de cana.

Os tempos industriais impuseram o dito momento de repouso, que foi um freio à ganância, esses que chamamos espaços de lazer, pois o trabalho que é realizado para além das necessidades vitais torna-se desagradável e destruidor da criatividade: perde a alegria de produzir quem não saboreia o seu produto. Em tempos mais antigos, quando a escala da produção era menor, havia mais temo para a recriação da realidade e a recreação era poética, ou seja, era uma ação de criar o desfrute e não apenas o desfrute, como é o lazer. E foi no tempo de lazer concedido pela Usina Aliança que Doca Maurício reinventou sua existência, tornando-se um artista produtor de sonhos e sons. Ainda menino, nos anos quarenta foi Dama no Cavalo Marinho, depois Galante. Aprendeu a “botar figura” e sentava no banco para entoar as Loas, as modas e canções que varavam as noites nos sítios ou em frente uma venda em uma rua no fim da cidade. Carregava na de cor, na memória e no coração, todas as conversas Mateus, Bastião e demais personagens desse teatro semiestruturado, pois que permite a participação dos que passam por ele.  E Doca Maurício cresceu ouvindo os sons produzidos pelos chocalhos dos caboclos, solitários em seu retorno à casa após as conquistas realizadas nos dias de carnaval. Eram os Tempos Heroicos da construção e reconstrução da idade dos caboclos da mata, dos Matutos da Zona da Mata. Não dos “Matutos” que chegaram a governar a Província e o Estado de Pernambuco, mas dos matutos de gestos acanhados, moradores de casas pau-a-pique, com piso de barro e mobília rara, mas que saiam de suas casas para mostrar, orgulhosos e altaneiros, a arte de suas mãos de artesões e a agilidade de seus pés, treinados no piso do molhado massapê. Doca Maurício era conhecedor do maracatu, do som de suas orquestras. Era também artista do som. Membro da orquestra do Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, Doca Maurício tocava a poica, de onde saía o lamento de dor dos cortadores de cana, no movimento de sua mão, escorregando no interior do cilindro de bambu, de madeira aproveitada das barricas do bacalhau magro que sempre foi alimento dos pobres desde os tempos da colonização portuguesa, e, mais recentemente, de plástico. A esse instrumento, que substitui a buzina, dos momentos iniciais do Maracatu, os bacanas quando o veem, dizem cuíca. Doca Maurício jamais tocou cuíca: na Chã de Camará, em Condado, Nazaré da Mata, na Avenida Dantas Barreto, no Recife, na Praça Guadalajara, em Garanhuns, em Brasília, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Teresina, Paris, na França, sempre tocou Poica.

A morte de Doca Maurício nos impede de cumprir dois compromissos: a gravação de uma entrevista para o Ponto de Memória do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, na qual ficaria registrado em palavras e imagens os feitos que sua memória guardava de sua vida; o segundo era um compromisso pessoal de ir até à sua casa para conversarmos e apanhar uma dúzia de avos de suas galinhas caipiras.

O corpo pequeno e roliço de Doca Maurício, musculoso e isento de gorduras, resultado de trabalho e seriedade, às vezes fazia-me pensar no instrumento com que ilustrava a caixa, o tambor e o mineiro. Não mais ouvirei a poica do Mestre  Doca Maurício, mas sempre ouvir um poica buzinando, serei testemunha da sua eternidade, com a mesma intensidade que as palavras escritas por Luiz Delgado sobre GESTOS E AS VOZES DE PERNAMBUCO. DOCA MAURÍCIO é desse ramo na nas matas dos sítios da Mata Norte.

Carnaval é coisa séria

sexta-feira, fevereiro 18th, 2011

Estamos a poucos dias do carnaval e as fantasias começam a sair dos armários, enquanto que os mais ricos estão na luta para encontrar novos modelos. Precisamos atualizar a de palhaço. Essa fantasia é sucesso garantido todos os anos e, se gasta porque se usa todos os dias do ano, não apenas no carnaval ou nos espetáculos circenses. O palhaço é um personagem que parece que vai se dar bem nas suas tarefas quando, de maneira inesperada o inesperado – ou o esperado – acontece e toda a armação de sucesso vira uma palhaçada e, então todos riem. Menos o palhaço, que chora do riso que provoca e, seu choro provoca novos risos na platéia.

Palhaços são próximos a Arlequins, até mesmo no vestuário. A diferença é no tipo do riso, pois o Arlequim é um palhaço triste que tem consciência de sua perda, enquanto o Palhaço acredita que não vai perder e tenta mais uma vez conquistar Colombina que sempre encontra alguém para dançar inocentemente no salão. Ainda que o salão esteja repleto de Dragões, Sapos, Piratas, Vampiros, Franksteins, diversos tipos bandidos abraçados a Freiras, Padres e Pastores enrustidos em falsas alegrias e Parusias. Os bebuns estão sempre à espreita da Colombina como Lobos em torno da Chapeuzinho de todas as cores. Lá no fundo, a Rainha de Copas olha a todos ameaçadoramente carinhosa, enquanto o Coelho sabido corre em busca dos Três Porquinhos no imenso salão das desproporcionalidades das Alices ou Erenices que abrem em buracos nos Espelhos. Gatos escondem-se em si mesmo.

Pois bem, uma das fantasias mais usadas ultimamente é a de Democrata, uma fantasia que esconde tendências autoritárias, como a intenção de estabelecer salário por decreto. Como nos tempos dos “generais de plantão”, a Câmara dos Deputados – se não cuidar vira uma Assembléia de Loucas – definiu que durante o mandato da atual presidente o salário será definido por decreto. E Chapeleiros Malucos que atuam na rádio cnn afirmam ser este o “primeiro mandato” da Rainha. Ah! Esses Gatos de Botas que dizem ser o que nunca foram enquanto se apoderam das terras plantadas por outrem. Contos de fadas que custam Contos de Réis ou Reais.queen_of_hearts_promo2

Esse baile de fantasias, fantasias tão bem feitas que parecem ser verdadeiras – as boas fantasias assim são – não acontecem no Sítio do Pica Pau Amarelo mas em sítio e granjas que florescem a Torto com tendência à Direita.

E os Palhaços. Continuam a sorrir forçadamente para um povo com síndrome de Peter Pan, um eterno país jovem que pensa ser o Reino da Cocanha.

Lá vem o Homem da Meia Noite e o Tarado Sé. Isso tá parecendo desfile das Katraia da Terra do Nunca.

Oitava economia do mundo, sétima em desigualdade

sábado, julho 24th, 2010

  

A corrida eleitoral escapa das mãos da Justiça competente, uma vez que os candidatos entenderam que vale a pena burlar as leis e, em troca, receber pequenas multas. Como disse um jornalista, comentando a desfaçatez dos presidenciáveis e do atual presidente: “tudo vale a pena quando a multa é pequena”.  Mais uma contribuição brasileira para a compreensão de Fernando Pessoa.

Para ele é a alça que não deve ser pequena
Para ele é a alma que não deve ser pequena

Crimes contra a Justiça Eleitoral são tão punidos como os crimes de trânsito, ou aqueles que, de colarinho branco ou acinzentado, podem pagar advogados chincaneiros ou de porta de cadeia. A nós outros, cabe curtir o sucesso ou o insucesso de suas campanhas, o que é ofertado pelas pesquisas sobre a opinião dos que irão voltar às urnas, e cumprir o único dever cívico ensinado na escola de qualidade – ruim – que lhes é ofertada de norte a sul do território nacional. Enquanto isso, os dados estatísticos nos mostram que tem diminuído o número de miseráveis, crescido o quantitativo de milionários, e o país continua sendo um dos sete piores do mundo em desigualdade social.

Crianças trabalhando na Bolívia

Crianças trabalhando na Bolívia

Como se sabe o principal fator de manutenção de desigualdade social é o acesso a uma boa educação formal, sem ela, independente da quantidade de frangos e batata frita consumida, os cidadãos do futuro serão encontrados na mesma situação de hoje: um país rico e desigual, com alguns miseráveis e pobres escapando e sendo pouco entendido pelo fato de terem escapado da miséria se puxando pelos próprios cabelos. Programas sociais de ajustes, sem a seriedade de reformas estruturais capazes de modificar profundamente os modos de produzir e distribuir rendas, serão apenas curativos superficiais sobre o câncer, embora pareçam curar e façam a alegria de quem se contenta com pouco.

Almas no Purgatório

Almas no Purgatório

Houve um tempo em que, para não perder os fiéis enriquecidos pela usura, a Igreja Católica inventou o Purgatório e introduziu na economia da salvação o “banco de indulgência”, socorrendo banqueiros e comerciantes do inferno iminente. À medida que avançou o processo de secularização e tem crescido a aceitação do retorno constante até se atingir a perfeição, o Purgatório perde sua importância e a vida passa a ser uma permanente análise para a superação dos karmas. Então temos tempo de ficarmos a fazer  ações afirmativas e cobrar dívidas históricas. Mas a situação, mostra o estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD -, nos põe na mesma situação do Haiti e da Bolívia. No Haiti, além do tufão dos revolucionários franceses do século XIX ocorreram terremotos políticos no século XX e um fisco no XXI. Já a Bolívia, tem sofrido, desde a independência, a exploração de suas elites aliadas aos estrangeiros – mesmo mal que nos aflige – e o domínio dos produtores e exportadores de coca. Nós não produzimos coca, mas há setores da sociedade brasileira que, por consumo, tem mantido a boa situação dos cocaleiros. Lá também há milionários.Presidente do país mais desigual da América Latina - PNUD, 2010.

 

 

 

 

 

 

 

 

Vergonhoso ser um dos países mais ricos do mundo com tal concentração de renda e ficar se enganando que tudo está bem.

Mulheres e homens de Tejucupapo

sexta-feira, abril 30th, 2010

 

Batalha de Tejucupapo - foto de Biu Vicente

Batalha de Tejucupapo - foto de Biu Vicente

No início da última semana do mês de abril, estive em um lugar conhecido como Tejucupapo. É um distrito do município de Goiana, cidade que passado foi sede da capitania de Itamaracá. Após uma subida que nos permite verificar as técnicas de construção de casas de pau a pique, muito comum nos períodos de dominação colonial e até os anos do meados do século passado, chegamos a uma chã, um pequeno planalto. Ali construído um obelisco com o objetivo de guardar a memória da passagem de Pedro II, imperador do Brasil até 1889. Homem cultivado nas letras e ciências, o imperador ficou chocado com o desconhecimento que os pernambucanos têm de sua história que, em sua opinião, bonita e cheia de bravura, não causa interesse nos que vivem em Pernambuco, herdeiros das lutas e conquistas fundantes da nação e pátria brasileira.

Do local onde está o obelisco a vista para o Oceano Atlântico é bonita e, em um dia limpo como aquele domingo, a vista alcança bem além da Ilha de Itamaracá e da Coroa do Avião. O imperador fez questão de visitar aquele local porque ali ocorrera uma ação interessante, pouco documentada, mas que, nos últimos 17 anos vem sendo resgatada, graças aos esforços e animação de uma mulher, merendeira da escola local. Ali, na Chã, uma propriedade particular aberta especialmente para uma encenação teatral,  que naquela tarde recebeu mais de um milhar de pessoas, ocorreu uma batalha com a participação ostensiva das mulheres do vilarejo de Tejucupapo. Era a época da dominação holandesa, já em sua fase terminal. Por três vezes patrulhas flamengas invadiram o local para apropriar-se da produção dos homens e mulheres que ali viviam.

mulheres de Tejucupapo - foto de Biu Vicente

mulheres de Tejucupapo - foto de Biu Vicente

Essa situação fez existir algo inusitado em um império autocrata: a população resolveu organizar-se por si e enfrentar quem lhe tomava o resultado de seus trabalhos. Mulheres e homens do povoado decidiram emboscar, na terceira investida flamenga, os soldados que lhes assaltavam e tomavam os alimentos produzidos na comunidade.

Esse fato singular, aprendi sobre ele quando iniciava meus estudos ainda na Quarta Série do curso Primário, hoje dito Ensino Fundamental. Foi o tema de uma leitura e, dela a professora fazia o discurso histórico e cívico, retirando do evento, a moral e o civismo para a formação cidadã do menino que crescia em Nova Descoberta. De certa maneira, meus sentimentos de civismo começaram no conhecimento daquele fato histórico, diminuto, diante da grandeza de heróis cujos nomes aprendi colados com os engenhos dos quais eram proprietários. Na leitura, ainda tenho guardado o livro em minha estante, não há menção ao nome das mulheres, de tal modo que, para mim e para muitos, apenas sabemos que ocorreu uma batalha que, mais no orgulho cívico que na historiografia, é guardada como A Batalha de Tejucupapo.

A representação da Batalha de Tejucupapo é feita com a população local. Orgulhoso de sua história, aos pés do obelisco, um  “soldado holandês” demonstrou a sua insatisfação quando eu lhe disse que era primeira vez que ali eu estava: “tá vendo? É por isso! Ninguém sabe da história da gente.” E saiu ofendido. Parecia Dom Pedro II puxando a orelha da elite pernambucana que não sabe de sua história, e ficava a lhe pedir títulos e mais títulos de nobreza. Goiana, por exemplo, parece que tinha três barões.

O amparo de um povo é ele mesmo - foto de Biu Vicente

O amparo de um povo é ele mesmo - foto de Biu Vicente

As Mulheres de Tejucupapo, as mulheres, os homens, as crianças e os jovens de Tejucupapo, continuam nos ensinando que devemos defender os frutos de nossos trabalhos, os resultados de nossas ações, pois o amparo de um povo é ele mesmo.