Archive for the ‘Mulheres’ Category

Em torno do CIEP Mestre Marçal

segunda-feira, setembro 24th, 2018

Esta semana mais um professor foi agredido, melhor dizendo, a agressão a mais um professor chegou aos meios de comunicação, mais especificamente à televisão, o meio de mais fácil acesso. Todos os dias professores são agredidos neste país, carente de muitas reformas, mas que, a cada mudança de ministro, secretário ou diretor de educação, faz uma minirreforma educacional que parece fazer parte daquilo que Darcy Ribeiro chamava de projeto de deseducação do Brasil. No caso do professor Tiago, que exerce a sua profissão em um Centro Integrado de Educação Pública Mestre Marçal no Rio de Janeiro, o que ocorreu e chegou à televisão através de um vídeo feito por um colega dos agressores, foi uma agressão física, pois como ele informou, tem recebido, continuadamente, agressões verbais e morais, salientando que a direção do CIEP sabia do que ocorria e manteve alheia aos acontecimentos. Pelo que disse o professor Tiago, ele não era o único a ser agredido. Todos silenciaram por temor, por medo. Agentes do Estado estão amedrontados, trabalham atemorizados em prédio público, pois o Estado não garante a segurança de seus agentes, dos agentes que levam a saúde, a educação, a civilidade e a cultura nacional e universal àquele ambiente. Medo de que? O Estado está com medo dos donos das favelas, dos morros, das ruas, dos serviços que o Estado deveria cuidar. Os CIEPs foi uma criação do governo de Leonel Brizola que, ao cria-lo, garantiu que a polícia – parte do Estado – não subiria mais o morro. Agora não sobe mais, nem com a ajuda do Exército Nacional, e por isso, o Professor Tiago e centenas de outros que escolheram, ou foram escolhidos pelo Magistério, são agredidos e, só o soubemos, porque um dos seus alunos teria rompido a lei do silêncio imposta aos abandonados pelo Estado. Não fosse o vídeo posta em uma rede social, talvez essa seria mais uma agressão física sofrida por um professor – agente desarmado do Estado, assim como os médicos, enfermeiros, agentes de saúde – jamais seria de conhecimento público.

Estamos na primavera, às vésperas de uma eleição geral, na qual os candidatos pouco debatem sobre o que farão, e seus seguidores mais se agridem que discutem. Falta de prática democrática, próprio de uma população que foi ensinada a só realizar qualquer tarefa se houver a possibilidade de punição. Mentalidade de escravo, de gente que se recusa a assumir o papel de protagonista, porque tem medo: medo de não ser entendido, medo de ser entendido; medo de ser perseguido, medo de não ser perseguido; medo de procurar o futuro, medo que o futuro chegue; medo de conhecer o seu passado, medo que saibam do seu passado; medo de fazer alguma coisa, medo de fazer coisa nenhuma; medo de pensar, medo de ser chamado de bobo; medo de ser chamado de honesto, medo de ser chamado brasileiro, medo de ser chamado comunista, medo de ser chamado fascista, medo de viver pois vive com medo de morrer. Medo porque não sabe e o medo de vir a saber. E o medo faz com que se perca a noção de civilidade, pois o medo faz parte do humano para sua proteção, mas ficar sob o domínio do medo animaliza, produz apenas reações do límbico.
É a ausência da prática democrática, portanto responsável pela vida social, que impele o estudante brasileiro, especialmente os das camadas sociais menos senhoras de seus desejos, só interessar-se pela leitura indicada pelo professor se houver a perspectiva de prova, de reprovação. Acostumado à vara pela desobediência e ao regalo pela obediência, poucos superam essa armadilha e buscam seu próprio caminho. Aprenderam a “estudar para a prova” e, mais lamentável, aprenderam que se alguém lhes disser que não estudaram o suficiente, poderão recorrer à sedução ou à sedição, objetivando criar o medo nos seus professores. Fazem isso pois contam com o silêncio dos diretores, reitores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidentes e outras autoridades, pois como alçaram tais voos em sociedade que vive do medo e da bajulação dos feitores e seus mentores?

Em poucos dias teremos o que pode ser o primeiro turno das eleições gerais; até chegarmos à data do segundo turno haverá o dia que, talvez envergonhados, haverá comemoração do dia dos Professores. Uma fugaz homenagem a quem é constantemente maltratado nessa sociedade que se recusa respeitar-se. Será que se houvesse um real respeito aos professores haveria tanto desrespeito às mulheres, aos homossexuais, aos índios? Será que o respeito aos professores e sua função social não traria uma diminuição dos índices de violência, criminalidade, agressão no trânsito? Se olharmos os povos que escolheram respeitar os professores, voltaríamos – ou passaríamos, a ter orgulho de nós mesmos.

Algozes de Marielle

sábado, março 17th, 2018

Quando Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março de 18, completava cinco anos de idade, os que hoje estão além dos sessenta anos de idade, estavam, naquele ano, pondo fim à ditadura que se implantara em 1964. E então, proibidos de participação política durante duas décadas, os brasileiros começaram a eleger alguns dos proibidos para as funções de vereadores, prefeitos, governadores de estado, deputados estaduais e federais, senadores e presidentes da República. Aos poucos essa geração desejosa de democracia e que lutou contra a ditadura (alguns porque desejavam outro tipo de ditadura e outros por quererem uma democracia liberal) foi tomando os destinos do Brasil em suas mãos. Além daqueles que assumiram os poderes mais explícitos, muitos foram feitos secretários de educação, saúde, transportes, segurança, e tantas outras; outros assumiram cargos nas procuradorias, tribunais, reitores de universidades, etc. Isso quer dizer, nas últimas quatro décadas, essa geração decidiu sobre política econômica, política educacional, política de saúde, política de segurança, política ambiental e mudou o Brasil. Mas, o assassinato de Marielle, após uma reunião em defesa dos brasileiros de cor negra, mostra que essa geração fracassou em seu projeto, embora alguns tenham tido sucesso quase absoluto em suas vidas privadas.

Fracassaram as tentativas de na educação, pois parecia que a cada quinze dias se queria provar uma nova metodologia, um novo teórico; a pressa de mudar permitia a perenização de costumes antigos e, que bobagem, oferecia condições para os novos professores aprendessem a prática de não aprender o novo. Fracassaram as tentativas de política de segurança, talvez por se ter definido o policial, o militar como inimigo permanente, mesmo que esse policial tivesse apenas vinte anos. Viveu-se um período de desejo de vindita, pois os principais líderes chegaram com o discurso de guerra, de uma guerra que havia sido vencida pelos que negociaram o novo pacto social, mas, aos poucos o pacto foi sendo esquecido, menosprezado e, parece que havia sido definido fazer uma revolução permanente. E tudo que havia antes tinha que ser esquecido, inclusive as coisas boas. Simultaneamente foi assumida uma ideia de que a contravenção, a subversão era positiva (afinal quem chegava ao poder depois de 1985 havia sido subversivo nos anos anteriores). Por alguma razão não se percebeu que a nova subversão era não permitir a sociedade liberal. Fracassaram as políticas de saúde, como comprovam os hospitais mal administrados por quem parece jamais haver estudado ética médica, ou desenvolvera qualquer atividade de cunho social. Houve um fracasso na construção de uma sociedade participativa e cooperativa. Fracassou-se pois, ou invés de viver o presente e construir o futuro, preferiu-se o passado: parte dele para ser imitado e parte para ser odiado.

Nessas quatro décadas, retirando o período de Sarney, todos os titulares do governo federal eram jovens e discursavam contra os desmandos dos ditadores e a corrupção que nela existiu, como os 10% de Delfin Neto (este veio a ser conselheiro dos recentes presidentes) e suas aulas aos estrangeiros de como burlar as leis de compra de terras no Brasil. Mas os novos governantes pegaram atalhos e, neles, enriqueceram, enquanto pequenas melhorias eram realizadas, tornaram-se corruptos. E verificando a idade de Marcelo Odebrecht – 49 anos – e dos que estavam no poder (o mais novo tem 62 anos), podemos perguntar quem foi o líder de quem.
Eis algumas razões para avaliar uma geração que esteve no poder, enquanto continuarmos a tarefa de construir uma sociedade mais justa, mesmo sabendo que estamos lutando contra um sistema forte, mas não será repetindo os atos que tornaram o Brasil um país com um povo deseducado, um povo doente, um povo cultivador de esperança enquanto observa que ela lhe escorre pelos dedos, com a rapidez de um Trem Bala que lhe foi prometido e nunca entregue. O assassinato de Marielle denuncia que houve leniência e que se abandonou os moradores das periferias das cidades a grupos de marginais, no Rio de Janeiro e, creio que se pode dizer em todas as capitais e cidades de pequeno porte; o assassinato de Marielle Franco denuncia os discursos vagos e sem compromisso real com a educação básica, média e superior, e com o ensino público de boa qualidade, pois apenas se continuou com a má qualidade da época da ditadura; a ânsia pelo reconhecimento internacional fez com que as prioridades fossem invertidas. E nessa inversão, alguns levaram as suas vidas para as privadas e lupanares da corrupção, enquanto continuavam com um discurso em que dava aparência de que não estavam no poder. Essas são algumas das razões do assassinato de Marielle. É terrível que Marielle tenha sido morta dessa maneira, um modo que nos leva a lembrar a morte de tantos que morreram para que nem ela nem ninguém mais fosse emboscado por suas ideias. Marielle era parte de uma geração que já foi cuidada pelos que chegaram ao poder em 1985. o assassinato dela nos acusa a todos, especialmente os que estiveram à frente das instituições e que fraquejaram seduzidos pelos conforto do poder. Cada vez que alguém é morto por sua cor, sua crença, suas ideias, seu gênero, todos temos responsabilidades pelo acontecimento.

Enquanto continuarmos colocando a culpa nos outros, continuaremos favorecendo os assassinatos de centenas de Marieles, e faremos muitas vigílias. Só haverá um começo quando os que estiveram no poder nas últimas décadas do século XX e nas primeiras do XXI admitirem que erraram, talvez sem intenção, em não priorizar os verdadeiros anseios do povo brasileiro. Nossos líderes Quiseram ser líderes no mundo e não soubemos ser líderes de si mesmos.
Biu Vicente

As dores do Dia das Mães

terça-feira, maio 16th, 2017

Nos caminhos das redes sociais sempre encontramos novidades que, no mundo já não o são. Assim, descobri que a segunda feira que se segue ao Dia das Mães, tem sido cultivado como o Dia da Família, em países dos norte da América, especialmente, e o Canadá, em uma tentativa de superar os impasses causados por novas formas de organização familiar, algumas das quais prescinde da presença da mulher, nos casos das famílias homo afetivas formadas por pessoas do sexo masculino; pela ausência da figura do pai, quando a família é formada apenas por pessoas do sexo feminino; ainda quando as crianças e jovens pertencem a famílias que se formaram após o divórcio, e então ora não se vive com a mãe biológica, etc. Esse mesmo fenômeno ocorre com o dia dos Pais, e sabemos que o que foi dito acima sobre o dia das mães aplica-se, também ao dia dos pais, que algumas escolas já estão a chamar de Dia do Amigo.
Estamos em um momento em que parece estar ocorrendo um novo processo civilizador, para lembrar Norbert Elias, a criação coletiva de novos costumes, tradições em uma nova sociedade cujas relações são mais líquidas, como pensava Baumann, que as que foram estabelecidas no período moderno da sociedade ou mundo europeu. Nós estamos assistindo, talvez, o nascimento de uma nova Europa, uma nova civilização europeia (?). Aliás, devemos lembrar que Zeus, arrebatado de paixão, fez-se um touro para seduzir uma princesa fenícia, levando-a para a Ilha de Creta, tendo Homero chamado essa rainha de Europa. Desde então essa península que liga à Ásia e África tem tomado formas diversas, com seus povos criando e recriando novos mundos e enfrentando outros tantos.

Então fui procurar de onde vem essa ideia de consagrar um dia para as mães, elogiá-las pelo seu labor, carinho, responsabilidade nos processos de transmissão das cargas genética e cultural.

Lá entre os gregos, o início da primavera era o momento de homenagear Rhea, que também era conhecida como Cibele, a mãe das deusas e deuses. Era uma festividade para louvar, adorar a deusa mãe. Herdamos por caminhos vários essa festa no início de Maio.

Se hoje essa festa é muito “doce”, suas origens são menos almoço familiar. Em 9 de agosto de 1922, Bertha Lutz criou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, herdeira da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que funcionava desde 1919. Aqui convém lembrar que 1922, ano do Centenário da Independência do Brasil, é também o ano de outros movimentos como a explosão do Tenentismo, a criação do Partido Comunista, da Semana de Arte Moderna. Pois bem, o crescimento da Liga de Emancipação Intelectual da Mulher, com filiais nos estados dos estados é que fez surgir a Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em 1926, Bertha Lutz representa as mulheres brasileiras na Primeira Conferência Pan-Americana de Mulheres ocorrida em Baltimore, USA. É dos Estados Unidos da América do Norte que vem essa nossa tradição.

Naquele país o estabelecimento do Dia das Mães começou a ser gerado durante a Guerra Civil que expôs a sua divisão no relacionamento entre seus cidadãos. Em 1852, Anne Maria Reaves Jarvis , preocupada com a mortalidade infantil nas famílias dos trabalhadores, criou o Mothers Days Works Club; em 1865, sua preocupação era com a condição física dos feridos na guerra e, então criou o Mothers Friendship Day. Em 1870, proclamando o desejo de paz, Júlia Ward Howe, publicou o manifesto Mothers Day Proclamation. Entretanto foi Anna Jarwis, filha de de Anne Maria que, para lembrar sua mães que morrera em 1905, iniciou a 12 de maio de 1907, a campanha para que fosse oficializado um dia para homenagear as mães. Em maio de 1914, o Congresso Americano consagrou o segundo domingo de maio como do dia das mães. Assim, podemos verificar que o Dia das Mães nasce do sofrimento das mães cujos filhos seguem para a guerra ou que sofrem e morrem de fome. E são as mulheres que se unem para lembrar a dor que é a experiência em observar o sofrimento ou a morte dos seus filhos. Quando Anne Jarwis percebeu que a celebração do dia das mães foi tomada pelo comércio e perdeu, entre pacotes de celofane, o sentido primeiro que ela e sua mãe tiveram, ela afastou-se e iniciou a batalha para por fim ao feriado que ela havia gerado. Essa batalha ela perdeu.

Foi para atender a solicitação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino que Getúlio Vargas, em, 1932, tornou o segundo domingo do mês de maio, o dia dedicado às mães, aqui no Brasil.

Saudades de minha mãe que subia as ladeiras de Nova Descoberta para cuidar das mães que já não podiam ir até à Igreja.

Esquecidos

terça-feira, janeiro 24th, 2017

Os esquecidos
Por Biu Vicente

Janeiro de 17 quase ao seu final e tudo parece tão modificado que já se torna difícil lembrar o que ocorreu no mês passado.

Muitas mortes ocorreram no Brasil em duas semanas. Uma estatística diz que nos primeiros quinze dias foram mortos quase um policial por dia neste país pacífico. Por seu turno, em três presídios parece ter havido um esforço para superar as mortes nas guerras que estão em andamento naquela parte do mundo que os professores de história nos ensinam terem se formado as primeiras civilizações. Nos tempos de Hamurabi o código dizia que o olho perdido exigia que o outro perdesse seu olho. Nas prisões brasileiras o que está valendo nem é a Lei do Talião, mas a lei que não reconhece o direito simples de viver, se mata para não morrer, enquanto não se é morto. O que os programas de informação estão a nos mostrar é a prática de matar para não ser morto. A decapitação retorna como prática comum, tanto nas guerras do Oriente Médio que usam a religião como justificativa, quanto nos presídios nos quais a justificativa é manter-se vivo, ou explicitar qual a facção está no comando do país. Falta apenas o carnaval de cabeças espetadas, como ocorria nas ruas de Paris no Período do Terror.

O Estado Brasileiro acostumou-se a pensar em apenas 30% da população, fazia planejamento apenas para um terço dos habitantes do país, agora se vê obrigado a ampliar suas preocupações. A sociedade ampliou-se, embora sem fazer crescer proporcionalmente a produção de riquezas. Se há mais gente consumindo, tem haver um crescimento da produção e um alargamento da oferta de ocupação, de oportunidades educacionais, de possibilidades de recreação, facilidade de locomoção, ampliação de coleta de lixo e atendimento preventivo para garantir a saúde e a segurança dos novos grupos convidados a serem plenamente cidadãos, etc.; sem esses complementos cria-se uma sociedade anômica e anêmica social e culturalmente. O Estado que sempre pensou apenas em um terço da sociedade, deve aprender a pensar mais largamente. Novos tempos, novos hábitos. Mas formar novos hábitos leva algum tempo, e pode ser que nosso jovem Estado de apenas duzentos anos, ainda incompletos, já esteja bastante envelhecido; parece que perdeu a prática de sonhar e desejar mudar: ser capaz de sacrificar-se por uma causa é coisa de jovens; ser capaz de fazer os outros sacrificar-se por uma causa, é próprio dos velhos, especialmente dos velhos que venderam seus ideais ainda na segunda idade e, na terceira idade, só pensam em seus confortos. São elefantes que gostam de conforto enquanto esperam a morte. Essa parece ser uma imagem que representa bem a elite que hoje está à frente do Brasil, (talvez não apenas no Brasil, mas em outros países) homens velhos que não souberam ou não quiseram deixar brotar e crescer o novo. Preferiram as novidades, e assim somos uma sociedade que está sempre ofertando novidades a meninos crescidos que se tornam velhos sem experimentar a juventude. Levaram a sério aquela história que “a juventude é uma calça jeans azul e desbotada”.

Na mais rica nação do mundo ocorreu a posse de um novo mandatário que, parece, está disposto a mandar às favas tudo que lembre a construção de uma civilização, uma possibilidade, uma chance para a humanidade. Prefere, ele, apenas a lealdade a seu grupo pequeno. Pensar na humanidade tornou-se estranho, uma vez que vivemos em uma sociedade que cuida de agir pelo prazer do imediato, cuida do pequeno retalho, do fragmento que se escolhe para dizer que é seu. Começamos a agir como aquela galinha da fábula que, tendo caído uma jabuticaba em sua cabeça, saiu a cacarejar que havia caído um pedaço do céu. Donald Trump, em seu discurso de posse citou o “homem esquecido”, imagem utilizada por Franklin Delano Roosevelt, para referir-se aos desempregados da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Este novo presidente foi eleito com o voto dos esquecidos, dos desempregados, daqueles que aparecem nos livros como estatísticas, números sem história que contam a história dos anônimos, esquecidos por aqueles que dizem defendê-lo, enquanto fortalecem sistemas que os tornam mais esquecidos nas histórias. William Reich os chamava de Zé Ninguém. O Zé Ninguém pensa do pescoço para baixo.

Embora bilionário ou trilionário, Trump era um “homem esquecido” a quem não se dava crédito, mas ele falava com os outros esquecidos, com a linguagem necessária para manter a pulsão de vida, a vida não sofisticada, a mais simples. Esses esquecidos se fizeram lembrar. Agora veremos até onde iremos com ideais tão pequenos: como uma conta bancária, um prato de feijão ou lentilhas, a vitória do clube, da tribo da nação que substituem humanidade.

Na cerimônia de sua posse, Trump, que é um homem esquecido, esqueceu que estava acompanhado da esposa.

Nova Vida,Valores que devem continuar

sexta-feira, junho 6th, 2014

Primeira semana de junho, não consegui  que as operadoras de telefonia me pusessem em contato com as minhas irmãs aniversariantes, Lia e Teca, que nasceram no mesmo dia, mas separadas em anos. Lia deixou de comemorar seu aniversário desde  a morte de João XXIII, ocorrida no dia 4 de junho.  Agora creio que ela deve retornar a fazer alguma festa, pois o papa de nossa juventude agora pode ser louvado publicamente como Santo da Igreja Católica Apostólica  Romana.  Teca está exuberante de felicidade, pois agora tem um neto, João Miguel, filho de Cristiano e Andréa, que logo será batizado na fé cristã, para a Glória de Deus.

Esta semana a minha mãe, dona Maria Ferreira, receberá uma homenagem na igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, a mesma matriz que ela ajudou a construir e fundar como paróquia no distante ano de 1959. Homenagem justa de seus irmãos de fé, muitos que viveram com ela a vida paroquial e alguns que só a conheceram nos últimos dias de suja vida na terra. Ela e meu pai, João Vicente, ensinaram-me a ser irmão de todos, de respeitar e amar as diferenças. Jamais discriminar por ser pobre, feio, rico, preto, branco, amarelo: todos somos filhos do mesmo pai.   Ensinaram-me a respeitar os mais velhos, ainda que julguemos que eles estejam errados; se eles nos indiquem que devemos seguir os caminhos  que nos afastem de Deus, não os seguimos, mas os respeitemos. Graças à minha mãe, que é a avó dos meus filhos e sobrinhos, sei que não podemos rejeitar alguém por ser branco, ou preto. E não foi necessária nenhuma lei além do segundo mandamento que está na Bíblia, a mesma que eu leio, a que é lida nos Encontro de Casais com Cristo, nos acampamentos de jovens cristãos, sejam eles promovidos por paróquias pobres ou por colégios ricos. O livro de Tobias nos ensina a cuidar dos mortos, e a respeitar os mais velhos. Foi por respeito ao seu velho pai Isaac que Esaú não se levantou contras seu irmão Jacó por ele ter se apropriado da benção que seria sua. Respeitar os mais velhos, defende-los contra a agressão de jovens irresolutos,  às vezes parentes que se deixaram guiar pelos não-valores, anteriores ao que chamamos de civilização. Pois aquele ou aquela que não respeita ou ataca  o outro por ser de estrutura débil, ter a pele diferente ou não pertencer ao seu grupo social é alguém que ainda está no mais inferior patamar da civilização.  Minha mãe, avó dos meus filhos e sobrinhos, é um exemplar humano que estava muito próximo do que chamamos santidade.

Sempre que nasce alguém na família, é bom lembrarmos dos valores que nossos antepassados nos legaram, a marca da família que quiseram construir e, então assumirmos,  mais  uma vez, o compromisso de fazer este mundo menos mesquinho, que a nossa mesa seja sempre como a mesa de Vovô João e Vovó Maria, sempre com espaço para quem nos encontra.

Festas marianas e as festas das mulheres

segunda-feira, maio 12th, 2014

Festas marianas e as festas das mulheres

Severino Vicente da Silva

Maio de 2014 já superou o dia dedicado às mães, nesse mundo de amores de datas marcadas no calendário das associações de comércio varejista. Tem-se uma medida dos amores relacionada com os relatórios de vendas. Vejamos como será o dia dos namorados, logo ali, no mês que segue a maio. Ao menos aqui nesta parte do mundo em que Santo Antonio cuida de substituir São Valentin. Mas os nomes dos santos tendem a desaparecer, quase são apenas vestígios; assim maio já não é mais mencionado como “mês das noivas”, tempo em que eram celebrados os casamentos, tempo próprio na primavera do Hemisfério Norte. Hoje os casamentos são mais comuns nos meses do recebimento dos salários extras, dos dividendos. As festas são caras. Mas os mais pobres continuam a colecionar dádivas de suas patroas para a formação do enxoval. Casamento continua sendo, para os mais pobres, a possibilidade de vencer as dificuldades das suas vidas, obrigados a seguirem os conceitos morais e sociais sem, contudo, terem condições de promover a festa que socializa o compromisso. Mas esse compromisso, como escreveu o poeta, tem a eternidade do tempo possível para quem possui pouco controle sobre a sua existência.

O mês de maio começa com o dia de louvação ao trabalhador. Não parece ser mais o mês de Maria, que ao final do mês costumava ser coroada rainha. Não mais se vive no tempo das monarquias. Maria, embora continue Rainha, é mais a Companheira das caminhadas, é a Maria que carrega as marcas de ser mulher: às vezes enaltecida por sua obediência e, também por sua capacidade de colaborar com os planos divinos e humanos. A extensão e o significado dessa colaboração também têm sido entendidos de novas maneiras. Ao final do mês de Maio, quando ocorre a coroação da Rainha dos Anjos, é também a festa da mulher que visita a prima Isabel, também grávida. A Rainha vai servir à prima, trabalhar com e para prima, com o objetivo de diminuir as preocupações que acompanham o processo de renovação da vida. Essas visões que faziam de Maio o mês das mulheres, celebrações de uma época de hegemonia religiosa cristã (foi no século XIV que os franciscanos começaram a celebrar a Festa da Visitação), agora a mulher é homenageada, na sociedade que quer negar relações com a religião, no mês de Março. Inversão das festas, criação de novos significados para os símbolos permanentes, ou sua destruição pelo esquecimento. Poucos se lembram de que a “pomba da paz” é a redução dos dons do Espírito Santo.

O mês de maio é uma oportunidade para refletir sobre as novas interpretações que são feitas das tradições; vivemos em uma sociedade que parece pretender tornar vestígio tradições religiosas que moldaram o nosso mundo cultural. Uma questão que se põe é se ainda seremos depois de destruir o que nos forma.