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PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS

domingo, março 15th, 2020

PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS

Artigo/relatório a partir de pesquisação com os presidentes dos maracatus Leão Cultural, Águia Dourada, Leão Misterioso e Coração Nazareno, em 2009, atividade do Projeto PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS, a realizado em Nazaré da Mata, pelo prof. Severino Vicente da Silva.[1]

Durante dois meses do ano de 2009, julho e agosto, cumprindo  o que estava previsto, foram realizadas visitas aos Maracatus de Baque Solto Leão Misterioso, Coração Nazareno, Águia Misteriosa e Leão Cultural, como parte da realização do Projeto ENGENHO DE MARACATUS, aprovado pelo Programa Cultura Viva.

O objetivo da Pesquisa foi recolher informações sobre os maracatus procurando verificar como eles poderiam trabalhar conjuntamente e organizar informações sobre os instrumentos, vestuário, adereços e movimentos dos componentes da brincadeira do maracatu de baque solto, também conhecido como Maracatu de baque Virado, visando a realização de oficinas de produção e de apresentação em escolas da rede municipal do município de Nazaré da Mata.

MARACATU LEÃO CULTURAL

A primeira visita foi realizada foi ao Maracatu Leão Cultural, em sua sede. Entrevistamos o sr. Manoel Antônio da Silva, dono do maracatu. A visita/entrevista ocorreu enquanto ‘seu’ Antônio, como prefere ser chamado, estava construindo/confeccionando chapéus para o próximo carnaval. Falou da dificuldade que enfrentava a cada ano para “colocar o maracatu” na rua, pois a cada ano o material ficava mais caro e era pouca a ajuda que recebia de amigos e o que a prefeitura paga por apresentação não é o suficiente para pagar os caboclos. Aqui então ele lembra dos “tempos de antigamente”, quando os caboclos se ofereciam para sair, e quase todos já vinham com suas roupas prontas. Agora, diz ele. “os meninos não querem brincar sem receber algum trocado, e eles não querem pouco.” Também lamenta que já não tanta gente que está interessada em brincar maracatu. Quanto ao Projeto Engenho de Maracatus, ele tem a esperança que seja de boa ajuda e que promova o interesse dos jovens em participar como caboclos e, principalmente ele sente que tem mais dificuldade de encontrar moças que queiram ser baianas e formar a corte. Reclama que as exigências que são feitas para o desfile são muitas e, maracatus pobres como o dele, dificilmente tem possibilidade de atender todas as exigências. Mas acredita que, com a formação do PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS e a ajuda dos outros maracatus que estão fazendo parte do Ponto de Cultura, será mais fácil, para ele, encontrar alguns meios para melhorar a situação do Maracatu Leão Cultural.

MARACATU ÁGUIA DOURADA

Muito interessante foi a visita ao Maracatu Águia Misteriosa em sua sede social, e fomos recebido pelo senhor Belarmino Jerônimo e toda a diretoria do Águia Dourada. Nos chamou atenção a localização da sede, bem próxima do canavial que avança sobre as casas e que, durante o período do corte, deve provocar imenso calor. A convivência com o canavial ocorre desde o início de suas vidas, pois muitos dos que usam a roupa de caboclo e carregam as lanças de guerreiro, são os mesmos que utilizam as foices na derrubada das canas depois levadas para as usinas. Na pequena sala havia pessoas de diversas idades e, embora todos estivessem voltados para conversar e falar sobre as questões do cotidiano do Maracatu Água de Ouro, via-se que pela manhã muitas pessoas haviam, pela manhã trabalhado no local. Uma das oficinas que estavam interessadas em realizar era para a formação/treinamento para Mestre de Apito, mais conhecido como Mestre de Maracatu. Foi dito que era necessário formar gente mais nova para a tirada das loas, a criação de versos que fazem a alegria dos trabalhadores quando o maracatu sai pra se mostrar. Não é como disseram, que se vá ensinar a ser poeta, mas que seja uma possibilidade de aperfeiçoar os meninos que treinam sozinhos para serem mestres. Essa é um dos objetivos que o Maracatu Águia de Ouro espera na participação do PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS.

MARACATU LEÃO MISTERIOSO

O Maracatu Leão Misterioso pertence a João Manoel dos Santos, personalidade entre os maracatuzeiros de Nazaré da Mata e de toda a região da Mara Norte de Pernambuco, onde ele mais conhecido como Mestre João Paulo, e recebe uma titulação, dada pela população, de O Papa do Maracatu, relacionando-o ao papa João Paulo II, pontífice católico então reinante. Como os demais maracatus rurais, a sede do Leão Misterioso está localizada na periferia da área urbana da cidade. Este maracatu é um caso interessante, no qual o Mestre de Maracatu, aquele que entoa as canções as loas, e orienta os movimentos dos integrantes do maracatu é, ao mesmo tempo o seu proprietário e principal responsável pela sua organização financeira, econômica, estrutural, enfim. Observamos que o Maracatu Leão Misterioso mantem relação na comunidade, uma relação que ultrapassa os limites da brincadeira, pois mantem uma aula de informática para os jovens da comunidade, além de promover atividades como curso de dança e formação para um maracatu mirim. A participação do Maracatu Leão Misterioso no PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS será a partilha de sua experiência e a recepção de novas práticas da arte utilizadas pelos demais participantes. João Paulo louva que o Projeto Engenho de Maracatu é mais um passa para diminuir a rivalidade entre os maracatus, rivalidade que, no passado trouxe muitos problemas para os próprios maracatu.

MARACATU CORAÇÃO NAZARENO

O quarto participante do PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DOS MARACATUS é o Maracatu Coração Nazareno, presidido por Givalda Maria da Silva. Pioneiro em sua modalidade, o Maracatu Coração Nazareno é o primeiro Maracatu formado totalmente por mulheres, sendo uma das ações promovidas pela Associação da Mulheres de Nazaré da Mata – AMUNAM. Para Givalda Maria da Silva, o Maracatu Coração Nazaré é um instrumento de afirmação das mulheres em uma sociedade onde prevalecem os valores machistas, que favorecem o homem, embora as mulheres seja importante força de trabalho na produção da principal riqueza da região, além do trabalho doméstico, sempre pouco valorizado. Assumindo o papel de  caboclas guerreiras nos desfiles, o Maracatu Coração Nazareno é um estímulo para a participação das mulheres em outras atividades da vida pública. E também da arte, como pode ser notado pela dedicação das mulheres – adolescentes, jovens e adultas, em aprenderem o toque dos instrumentos, formando o terno próprio. É esse entusiasmo que as caboclas do Coração Nazareno pretendem levar ao PROJETO PONTO DE CULTURA ENGENHO DE MARACATUS, diz a presidente do Coração Nazareno, além de uma imensa vontade de aprofundar os seus conhecimentos na arte da confecção dos artefatos e vestuários utilizados nas apresentações.  


[1] Professor do Departamento de História da UFPE; Vice Coordenador do Laboratório de História Oral e Imagem – LAHOI, UFPE;   Membro do Instituto Histórico de Olinda – IHO; Comissão de Estudos de História da Igreja da América Latina – CEHILA.

Epifania de Jesus, epifania do povo

domingo, janeiro 5th, 2020

Epifania do Senhor. Aprendi sobre a visitação de três Reis Magos, três sábios que, saídos do Oriente, seguiram uma Estrela que os guiou até um estábulo onde encontraram uma família que recentemente tinha visto o nascimento de um menino a quem deram o  nome de Jesus. Anos depois aprendi que esta palavra: Jesus, significa Deus Salva. Os reis, que ninguém sabe de onde eram, se governavam alguma nação, ajoelharam-se diante do menino e lhe deram presentes. Enquanto os reis do Oriente faziam isso, o rei que governava as terras onde nascera o menino, teria mandado matar todas as crianças de até dois anos de idade para evitar que se cumprisse a profecia de que aquela criança seria rei. Muitas mortes para atingir uma determinada pessoa. Um gasto de vida sempre é realizado por aqueles que cultivam a morte e, são incapazes de oferecer presentes; quando muito trocam objetos, prestígio para manterem-se em evidência. Isso aprendi anos depois, de tanto ver as pessoas só oferecerem presentes se forem convidadas a festas. Não fazem como os Reis (sem terra) do Oriente. Chegaram sem serem convidados,e trouxeram presentes. Tudo isso era representado nos Pastoris, na danças das ciganas que vem do Egito e pedem licença para adorar porque “Jesus nasceu para nos salvar”.

A Festa dos Reis Magos, no Nordeste do Brasil marca o fim do período natalino, quando se realiza a queima da Lapinha, aquele espaço criado na Idade Média, para representar o local do nascimento de Jesus. A Lapinha – também dito Presépio – foi criação do espírito didático de Francisco de Assis para transmitir o espírito do nascimento de Jesus. E esta metodologia tornou-se mais, incorporado ao catolicismo popular, passou a ser parte da cultura europeia e chegou ao Brasil com os portugueses. E vieram as festas das pastoras que fizeram parte das festividades da Igreja até os anos sessenta. O racionalismo que criticou o catolicismo moderno europeu, veio com muita sede contras as tradições populares que estavam a escapar do modelo clerical desde a romanização. Aplicado com entusiasmo pelos reformadores de então, os padres que aplicaram o Vaticano II, os presépios e, principalmente, os pastoris foram afastados da praças próximas às igrejas e foram sumindo.  

O pastoril sobreviveu os ventos do Concílio Vaticano I, à pastoral sacramentalizante, mas não conseguiu vencer os primeiros entendimentos do ensinamentos do Vaticano II. Embora tenha sido pouco refletido esse aspecto, o Vaticano II auxiliou a enfraquecer a cultura popular tradicional, e agora são muitos os que  estão a reencontrá-la neste tempos de recuperação, reencontro da identidade local frente ao mundo globalizador. Ainda bem que os movimentos da Cultura Popular, os Pontos de Cultura continuam a ação de, mesmo não sendo parte da cultura dominante, age por ser parte inerente do povo que sempre foi negado. Talvez não seja um grande exemplo, mas vou tentar.

Quando os Carmelitas aportaram em Olinda no final do século XVI, o primeiro da colonização portuguesa, o governador de Pernambuco que era devoto de Nossa Senhora do Carmo, entregou aos padres carmelitanos o orago de São Gonçalo do Amarante, protetor dos pescadores e das mulheres não casadas. O orago ficava localizado fora dos limites da cidade. Hoje poucos habitantes e visitantes de Olinda sabem quem foi esse São Gonçalo, nem mesmo sabem de sua existência, mas era muito popular,e dançavam em seu louvor no interior das igrejas. Desalojado de sua ermida, os devotos cuidavam de sua devoção na Igreja do senhor do Bonfim. No século XX sumiu. Mas ele está por aí. Quando vamos assistir/participar de uma festa de Cavalo Marinho, encontramos o povo cantando os Reis e a Estrela do Oriente, e também os Arcos de São Gonçalo.

 Ó que caminho tão longe

Tão cheio de areia quente

Junto com São Gonçalo

Vamos continuar em frente

E continuam cantando a Estrela do Oriente junto com os Arcos de São Gonçalo.

MARIANO TELES, Mestre de um Povo Novo

terça-feira, fevereiro 19th, 2019

Políticas públicas que auxiliem a promoção de pessoas ou grupos de pessoas, comunidade são necessárias em sociedades como a nossa, caso haja o desejo de diminuir as desigualdades e afirmar a liberdade republicana para todos os que formam a nação. Somos uma nação resultante da chamada Revolução Mercantil, promotora das Grandes Navegações realizadas por Espanha, Portugal, seguidos por Holanda, França e Inglaterra. Tal Revolução tecnológica está ancorada no Livro e na pólvora como arma eficaz de dominação. Mas, apesar de nos voltarmos tanto para os feitos dos generais e seus exércitos conquistadores, foi a imprensa que garantiu o domínio cultural sobre os povos americanos, e mesmo sobre outras civilizações melhor apetrechadas nas criações espirituais, mais sofisticadas que as mantidas pelos Povos Coletores e Caçadores. A escrita, sobre a qual os europeus estavam aperfeiçoando o domínio com a tipografia, e a decisão de evitar que os povos submetidos a ela tivessem acesso, foi o que estabeleceu e manteve a dominação nas terras que receberam o nome do empregado dos banqueiros italianos. Além da conquista territorial, consequência das vitórias militares, foi a conquista espiritual que garantiu aos povos da pequena Europa estabelecer seus padrões básicos de hábitos, costumes, religião, leis aos povos que eles encontraram em seu périplo. Darcy Ribeiro ensinou que esta Revolução Tecnológica resultou Povos Testemunhos, Povos Transplantados e um Povo Novo, o Brasil.

O Povo Novo, surgido no processo da Revolução Mercantil, não teve acesso direto à tecnologia, recebendo-a à conta gotas, sempre que interessava aos conquistadores. Ora, é a leitura o instrumental básico para a transmissão e recriação do mundo moderno e, como sabemos, não houve qualquer interesse em construir escolas que tornasse comum a leitura, a escrita e o estímulo à criação de bibliotecas. Os portugueses não tomaram iniciativa de popularizar a tecnologia da escrita e da leitura; os espanhóis criaram, de imediato universidades em algumas de suas colônias, mas não escolas para o vulgo, o índio, o meztizo; as universidades estava para atender os Creoulos, para a formação de quadros administrativos garantidores da dominação. Assim os espanhóis, segundo Darcy Ribeiro, fizeram das civilizações Inca, Maia e Azteca, povos Testemunhos.

Nesta semana que passou, dia 14, ocorreu a morte de Mariano Teles, pessoa que conheci no início do século, mas que nasceu na primeira metade do século XX. Foi em um dos engenhos da cidade de Aliança e, em sua adolescência assistiu o desmanche dos engenhos de fogo morto, tornados em fornecedores de cana para as usinas que se estabeleciam na região desde o início do século XX. Mas enquanto a cana chegava vagarosamente, os sítios eram os locais de moradia dos trabalhadores da cana, e nesses sítios, descendentes de escravos que se caldeavam com descendentes de índios, criavam suas brincadeiras, ou davam novo sentido a essas brincadeiras. Quando Severino Lourenço da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, estabeleceu-se no sítio Chã de Camará e começou a fazer “samba” nos finais de semana, Mariano Teles começou a frequentar o lugar e, um dia, tomado de muita coragem, pediu para entrar na brincadeira do Cavalo Marinho. Nunca mais deixou de brincar e aprendeu tudo que podia aprender com o Mestre Batista, de tal maneira que, cm a morte de Batista, Mariano passa a mestrar, e o fez até que sua saúde permitiu. Na universidade do Mestre Batista, foram formados os Mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Biu Roque, Mané Salustiano, Gumercindo, Grimário, Mané Deodato, Antônio Teles, Zé Duda, Mariano Teles e muitos outros, inclusive o jovem Siba.

Mestre Mariano Teles conviveu com todos esses nomes famosos no mundo que fica distante daquele que está mais próximo da tradição europeia, mas que, recentemente, vive a conversar com esses mestres da cultura que o povo recriou, a despeito das imposições ou, talvez, por causa das imposições. Assim, o Cavalo Marinho, que o padre Lopes Gama, o Carapuceiro do Recife da segunda metade do XIX, dizia não conhecer algo “ tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi, um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se cavalo marinho; outro, alapardado sob lençóis, chama-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo , outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama caipora. Há além disso outro capadócio que se chama pai Mateus.(…)”. (O Carapuceiro, n.2 (11/1/1840) citado por Evaldo Cabral de Melo).

A descrição da brincadeira que o padre assistiu – a contragosto, diga- se, continuou a existir em alguns bairros do Recife, mas escondeu-se na Mata Norte do estado, recriando-se e se mantendo, com a inteligência e a memória dos que não tiveram acesso às tecnologias, mas viam e ouviam e, desse vir e ouvir, guardaram, cultivaram as experiências que hoje são buscadas pelos doutores diplomados que, às vezes com falsa humildade, sentam-se aos pés de mestre como Mariano Teles, para saber como é e que era o passado de seus (nossos) avós. Mariano Teles pode ter sido o último Mestre da Cultura Popular que não foi afetado pela escala de espetáculo que vem dominando o conhecimento da cultura popular; não se tornou “artista”, continuou Mestre, em Chã de Camará, assistindo, de longe os brilhos de seus colegas em plagas distantes, dançando sob os olhares dos novos carapuceiros que, parecem saber mais que todos, e assumem a tarefa de dizer o que vale ou não vale a pena ser cultivado.

Mestre Mariano Teles, a quem ouvi, sentado no banco de seu quarto, ou debaixo de frondosa jaqueira no sítio Chã de Camará, continuou cantando e dançando os Arcos de São Gonçalo no chão de terra batida, mas cheio de barroca; ali onde ele aprendeu os versos da Estrela de Belém, continuava ensinado às crianças; no mesmo terreiro ensinava a Toada do Vaqueiro e o drama de suas filhas. Todas as Figuras ele sabia cantar e dançar, como ensinou ao jovem Mestre Zé Mário.

Jamais esquecerei a singeleza e a elegância da resposta que, uma noite deu ao seu amigo Mestre Salustiano, em um dos primeiros Encontro de Cavalo Marinho. Mestre Salustiano Perguntou: “Mariano, qual a figura mais bonita do Cavalo Marinho” Ele disse: “não sei, se eu disser que é esta você vai dizer que é aquela, seu disse que é aquela, você vai dizer que é esta. Cada tem a sua preferia e a preferida é a mais bonita para quem acha.”

Saudade de Mestre Mariano Teles, mestre de um povo novo, que se tornou novidadeiro. Ele não, foi para outra Chã, foi dançar com Mestre Batista, conversar com Salustiano e, com Biu Roque, cantar.

Cultura popular e o momento atual.

terça-feira, outubro 23rd, 2018

Uma questão difícil é aceitar que o povo pensa como Deus. É comum ouvir que “Deus escreve certo por linhas tortas.

O problema para alguns é que nem o povo nem Deus está pensando, seriamente, a pedir orientação dos intelectuais.

Pátio de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda

sexta-feira, janeiro 13th, 2017

Terminei a leitura de ADROS, PÁTIOS E PRAÇAS PÚBLICAS, de autoria de Fernando Guerra de Souza, professor de História da Arte no Departamento de Arqueologia da UFPE, uma publicação do Centro de Estudos de História Municipal – CEHM, desta cidade do Recife. Sua leitura nos convida a percorrer os muitos espaços de sociabilidade criados ao longo da trajetória humana, mais especificamente a tradição greco-romana e europeia, matriz dominante de nossas cidades. É um percurso que nos apresenta, com elegância, os pontos básicos para a compreensão das transformações dos espaços de acordo com as necessidades sociais, e assim fazemos uma pequena arqueologia dos Adros, Praças e Pátios que encontramos no Estado de Pernambuco, mas sempre relacionando-os com a grande tradição que nos envolve. Belas fotos relacionadas com o texto e aos espaços mencionados, sejam eles espaços nascidos no atendimento de necessidades religiosas sejam aqueles espaços crescido a partir das atividades seculares.

No livro do professor Fernando Guerra de Souza não poderia deixar de ter papel de protagonismo a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, caminhando para o quarto centenário, a primeira igreja dedicada à Senhora do Rosário no Brasil. Nós sabemos que o Brasil é formado desse amalgama ameríndio-afro-europeu, não apenas na composição biogenética da população, mas, principalmente cultural. Ao dizer cultural, sabemos o quanto as religiões foram importantes na organização das múltiplas culturas e civilizações geradas no constante processo de mudanças da vida humana, e no caso brasileiro, isso parece tão óbvio! Mas, o que é interessante é que, no Brasil as religiões inicialmente se afirmaram sem o concurso dos sacerdotes. Certo que ocorreu a matança física e cultural dos pajés e lideranças religiosas das selvas, mas a religiosidade se manteve e também se firmou no Brasil inventando novos sacerdotes que, sabiamente juntaram valores e símbolos das religiões que vieram da Europa e da África. E essas religiões chegaram aqui e se organizaram antes que seus respectivos sacerdotes estabelecessem.

As religiões, os deuses, estão no coração dos homens e se despejam nos lugares onde eles vivem. Foram os mercadores e marinheiros os primeiros evangelizadores cristãos. Tomemos o caso dos franciscanos, foi uma terceira que deu as terras para os frades quando eles chegaram; no Recife, os pescadores criaram a Igreja de SanTelmo antes da criação da paróquia de Pedro Gonçalves. Para usar um termo da teologia cristã protestante, eles estavam exercendo o sacerdócio universal. Assim foi o caminho percorrido pelo catolicismo: primeiro o católico comum, depois vem o padre para organizar. Podemos dizer o mesmo das religiões que vieram da África, não foram os babalorixás e as Orixalás que criaram os cultos, os cultos os criaram para atender a necessidade. E como não havia uma autoridade explícita que definisse a ‘ortodoxia’, ocorreu a mestiçagem também nas religiões, o sincretismo ameríndio-afro-europeu que pode ser visto em qualquer templo das muitas religiões que são praticadas no Brasil. Evidentemente que a religião dos europeus teve uma dominância sobre as demais, entretanto, jamais as outras deixaram de estar presentes e influentes na vida social. Mesmo os escravos, acolhidos no mundo católico, puderam organizar seu espaço nesse novo universo que lhe foi dado, pois, segundo a doutrina, todos são livres no amor de Deus, organizaram-se em confraria, tiveram a permissão para construírem seus templos e cultuarem a Virgem do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e todos os santos. Assim, os seus senhores evitavam de os encontrar em seus momentos de liberdade, quando estavam aos pés da Senhora do Rosário. Assim entendemos o porquê de serem tantos os afilhados de Nossa Senhora da Conceição.

Construtores das igrejas das outras irmandades, construíram a sua, resultado de seu labor e dos irmãos libertos que, reunidos conseguiam a alforria, a liberdade dos irmãos escravizados pelos homens. As irmandades dos Homens Pretos são a afirmação do trabalho, do sonho e da sua realização. O momento do culto, seja o culto interno na Igreja, seja o culto público nas procissões. A honra de carregar o andor de nossa Senhora do Rosário, ou o andor de São Benedito ou de Santa Efigênia nos ombros cansados do corte da da cana ou do calor das caldeiras, é afirmação da liberdade, ainda que no campo espiritual. Como ouvimos dizer, às vezes dizemos nós, “estar aos pés de Nossa Senhora é o céu na terra”.

Por tudo isso é que nos custa a acreditar que, na arquidiocese que recentemente foi pastoreada por Dom Helder Câmara, já considerada um Herói da Fé, a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos esteja sendo ameaçada pelo bispo que deveria cuidar dos direitos daqueles que, faz quatrocentos anos, cuidam do orago dedicado à Mãe de Cristo, ali, onde nenhum homem branco quis morar, pois era fora da cidade, mas hoje é considerado centro histórico de Olinda. E, no entanto é lugar dos pobres e os pobres são a preferência de Jesus, o Filho de Maria.

O Domingo é republicano e as praias nos pertencem

segunda-feira, novembro 14th, 2016

O DOMINGO É REPUBLICANO

Meados de novembro. Despreocupado piso na areia da praia de Pitimbu. A algazarra e os sons mais diversos são acompanhados por meus olhos embebendo as cores. Todos os matizes brasileiros, todos os mestiços.

A memória me carrega ao passado. Faço parte desse povo que aproveita os domingos, seus feriados permanentes ao longo do ano, para sair de seus lugares e viver o sonho de expandir seu mundo. Sempre sonhamos com o mar, sempre fomos à sua procura. Foi lá que os portugueses nos encontraram na busca da Terra Sem Males.

Hoje esse sonho parece ser é ofertado pela televisão que tem o programa “estou de folga”, e eles sempre mostram praias. Quem vive pendurado em morros de periferias das capitais ou em cidades distantes do litoral, ir à praia é sonho paradisíaco. Horas de viagem em ônibus fretados, são segundos em direção do sonho, das águas salgadas, ao menos, uma vez no ano, às vezes na vida. É o sonho do adolescente que juntou algum dinheiro e, talvez com os pais, pagará uma viagem até o litoral. Será um dia radiante. Ônibus vai lotado, nele há grande quantidade de ansiedade escondida e exposta nas vozes altas e anedotas nervosas. Sempre há um grupo de rapazes com violão, tambor, pandeiro para que a viagem fique menos cansativa. Duas ou três horas de viagem. Quando a praia é vista grande gritaria. Depois é encontrar um lugar na areia. Enquanto os mais velhos conversam em torno de um litro de Rum Montila e muita Coca-Cola, as crianças cavam piscinas com suas mães e os rapazes jogam bola, exibindo-se para as meninas moças do bairro.

Andando na areia da Praia de Pitimbu, PB, lembro que foi assim que, crescendo na periferia do Recife, eu, ainda menino de 12 anos conheci Tambaú, também na Paraíba. Era um passeio promovido pela Cruzada Eucarística da Paróquia de Nova Descoberta. Em passeio de ônibus semelhante fui à distante praia de São José da Coroa Grande, quase vizinha à antiga Comarca de Alagoas. Outro passeio levou-me à Suape, embora fosse mais comum ir até Gaibú, essas praias do litoral sul de Pernambuco. Foi também em excursões semelhantes que conheci as então distantes praias de Conceição e Janga, em Paulista, além da famosa Ilha de Itamaracá, Ponta de Pedras, em Goiana e Rio Doce, esta última em Olinda.

Como se pode perceber, fui farofeiro e gosto de ver meu povo farofeiro feliz. Claro que nesses domingos, nesses feriados nacionais os moradores dessas praias não saem de suas casas. Não se misturam com esse povo. Esses farofeiros, que trazem de casa suas panelas com o que comerão.

Uma vez, já com filhos, em um belo 7 de setembro, dia comemorativo da Independência do Brasil e simbólico dia da Abertura do Verão, em Pernambuco, me encaminhava para a Praia de Maria Farinha e parei na casa de um amigo. Era uma passada rápida e ele me perguntou para onde eu iria. Ao saber que eu estava com a família indo à praia, ele disse: “vá não, hoje esses negros de Nova Descoberta e Casa Amarela estão descendo dos morros”. Sorri e disse à minha esposa: vamos logo.

Quase não gosto de brasileiros que não gostam de brasileiros. Não me agrada essa gente mesquinha, que quer a praia e o mar só para si. Uma vez, em Copacabana, esperando um ônibus para retornar a Zona Norte, uma senhora me disse: “esse ônibus não, espere o próximo. Depois que abriram esse túnel a nossa vida ficou muito difícil”. Ela parecia com o meu amigo do Janga, apesar de ela ser branca.

Gosto muito dos feriados de verão. Eles são republicanos. O povo toma as praias, ruas e as praças enquanto a pretensa nobreza se esconde nos alpendres de suas casas de praia, esperando a praia no dia seguinte ao feriado, pois o povo brasileiro voltará a trabalhar enquanto ela irá à praia. Você sabe como é: ‘segunda feira é dia de branco”. O domingo é republicano, e o povo não o vive como besta, embora assim o vejam.