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SEM NÓS NUNCA MAIS

quinta-feira, janeiro 12th, 2023

SEM NÓS, NUNCA MAIS

Prof. Severino Vicente da Silva

Pouco tempo após a eleição ser definida em favor do sr. Luiz Inácio Lula da Silva, Eduardo Hoornaert escreveu em seu blog que a derrota do ex-presidente pouco dizia, uma vez que o bolsonarismo crescera e criara raízes nas diversas instâncias do Estado brasileiro, e na mente de muitos cidadãos. O mal estava instalado, era um elefante na sala (http://eduardohoornaert.blogspot.com/2023/01/o-elefante-na-sala.html).

Enquanto isso o ano de 2023 começava com uma festa pelo retorno de  Lula à sede do governo, com todos os simbolismo e promessas de um futuro mais próprio para a diversidade brasileira, gente comum representando gente comum subindo a rampa do palácio para, em gesto inusitado, colocar a faixa presidencial no novo governante. Parecia a realização do sonho de Darcy Ribeiro.

O antigo presidente recusara realizar o gesto que significaria mais um passo na direção de quebrar o monopólio do poder que esteve sempre, explicitamente, nas mão de um pequeno grupo; o antigo presidente sempre fez parte do grupo que pretende perpetuar o Estado baseado no projeto de fazer uma nação sem povo; após quatro anos no governo, ele e seus companheiros e seguidores, não conseguiam entender, como ainda não conseguem, porque razão havia sido rejeitado. De Longe assistiram a posse dos novos/antigos adversários, a quem definiram como inimigos. Não muito distante dos festejos, continuaram a se fortalecer para, na semana seguinte tentar de surpresa mostrar a extensão de seu poder.

Enquanto os novos governantes ainda não se entendiam no todo e mostravam fragilidades desnecessárias, e uma confiança exagerada de que aqueles que garantiram a doutrinação para a aceitação do fortalecimento da estrutura que sempre pautou o comportamento da elite governante brasileira aceitassem ser parte secundária na política. Enganaram-se, pois os ninhos da seita estavam repletos e os filhotes eram alimentados nas átrios das pretendidas novas catedrais, como provavam as atitudes dos ‘cardeais’ que se recusaram a entregar o comando de suas tropas. Ali estava gritando o sinal da sublevação, da ignomínia e da traição à Constituição Cidadã. E então no oitavo dia do ano veio o dilúvio com o qual pretendiam afogar a democracia, a possibilidade de o povo brasileiro tentar apontar outro caminho para uma nação que ainda não se formou plenamente. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 expõem que a elite econômica do Brasil, aliada aos militares, se recusa a ser protagonista de uma proposta social que acolha todos os ramos formadores da humanidade. A exclusão parece ser o afã de sua existência.

A existência humana não pode ser explicada apenas por uma tensão binária, tampouco a história dos homens. Jacques Monod explica que a ocorrência da vida teria sido um acaso, um acontecimento fortuito, mas, um vez instalada, é a necessidade de manter-se viva que permite a continuidade da vida. Falava-se que os portugueses teriam chegado a essa terra que denominamos Brasil, por acaso, no ano de 1500. Essa foi a primeira maneira de desqualificar um dos nossos antepassados, negando-lhes o reconhecimento de seus estudos para o domínio dos mares, na construção naval, no domínio das ciências, enfim. Essa percepção negativa que foi construída sobre os portugueses e sua cultura, parece ter sido resultante das explicações proclamadas pelas nações da Europa Setentrional, que tardiamente seguiram os caminhos abertos pelos lusitanos, a partir de meados do século XVII, na demonização da cultura barroca católica em face de uma pretensa separação da religião protestante em relação ao Estado. Tal explicação levou gerações a acreditarem que todo o processo de destruição dos povos originários desse continente que hoje chamamos América, teria sido realizado pelos iberos. Quando menino e adolescente, tive aulas nos cinemas para nos convencer que os matadores dos Dakotas, dos Chayenes, dos Pés-Pretos, dos Navajo eram heróis fundadores, enquanto os padres jesuítas eram vilões destruidores de nações. Só recentemente é que europeus não iberos começaram a ser vistos como comerciantes de africanos escravizados, eram mostrados apenas os criadores das ligas antiescravistas. Os europeus que, bem ou mal, mesclaram com indígenas ou africanos passaram a ser vistos como inferiores, assim como seus descendentes. Foi com este preconceito contra si mesmo que o Brasil veio sendo construído desde a separação política de Portugal. E o ensinamento que os povos indígenas eram traidores, mentirosos, preguiçosos, antropófagos, etc.  Dos negros africanos e seus descendentes diziam que eram lascivos, preguiçosos, só trabalhavam sob chibata, indolentes e sem religião, como diziam também dos povos indígenas. E aprendemos isso, e naturalizamos essa situação, nos livros, nas escolas, nas igrejas e nas delegacias. Por isso sempre pareceu tão fácil à elite dominar e manter seu poder. Mas estou pensando mais claramente na elite que se firmou especialmente após 1870, embranquecida pela chegada de europeus excluídos do sistema industrial, cuja inclusão foi bastante facilitada pelos que aqui já haviam se alojado. Foi fácil para eles criar uma República excludente, como escreveu um dos seus líderes, os que não concordavam em algum ponto foram massacrados e depois elogiados como sendo “antes de tudo, um forte”; foi fácil convencer que o golpe de 1930 foi uma “revolução”; também foi fácil convencer várias gerações que o que seus avós lutaram para conseguir, foi um agrado dada por um estancieiro que governou o Brasil como dirigia a sua fazenda. Ainda há professores que ensinam que a CLT foi uma doação de Getúlio Vargas retirando o protagonismo de operários que construíram parte de São Paulo no início do século XX, depois vieram “os do Norte” e completaram o serviço.

Mas, como a dinâmica da História não é bipolar, as elites viram-se forçadas a permitir alguma participação do povo, aprovando o voto, desde que a pessoa fosse alfabetizada, assim se excluía 70% da população. Claro que não foram construídas escolas para o povo, mas o povo construiu escolas para si. E começaram a votar e indicar caminhos para o país, e esses caminhos foram sendo obstruídos. O Recife foi a última capital a eleger seu prefeito e, uma vez eleito, tomaram providência para impedir que ele atuasse. Em 1964, afastaram do poder um presidente eleito, conseguiram o golpe impedido em 1954 e 1961. Desde o tempo do primeiro imperador eles sempre querem um poder moderador, alguém que acima das leis represente aqueles que fazem leis para os favorecer e impedem a participação da maioria.

Eles tentaram no dia 8 de janeiro de 2023, mais uma vez, impedir que o Brasil seja planejado para mais que 30% da sua população. O que viram subir a rampa do Palácio na tarde do dia 1º de janeiro, foi a realização de seu maior pesadelo: excluídos incluindo-se. É que a vida, o desejo de viver, é assim pode vir por um acaso mas, depois que se instala começa o tempo da necessidade. Os que estão no reino da necessidade de comer, de vestir, de morar, precisam responder a essas necessidades, e a necessidade de participar. Falta muito, mas chegaremos lá, faremos a humanidade, diversa e colorida, incluir a todos. Como disse Sônia Guajajara: Sem nós nunca mais.

Drama 10. Corações e mentes

quarta-feira, maio 20th, 2020

Drama

Segunda quinzena de maio e o número de mortos nesta epidemia global, no Brasil, supera a marca dos 15 mil e, o país ouviu o estrepitoso silêncio do presidente da República, controlador do Ministério do Trabalho, sobre tal situação. O que se ouviu foi sua gargalhada comemorativa da liberação de um protocolo para o uso de mu medicamento, cuja eficácia é posta em dúvida pela Organização Mundial de Saúde. O uso desse medicamento foi uma das razões para o afastamento de médicos na chefia do Ministério da Saúde. A outra razão foi que tais médicos recusaram seguir a orientação do presidente que, sabe-se lá que razões tem para tal, desejoso de que os infectados pela Covid19 recebessem tratamento com esta droga. Era a vontade de um desconhecedor da área que desejava se impor aos médicos sob o argumento de que, sendo ele presidente, todos os ministros devem estar unidos com ele, não havendo espaço para a discordância. Esta é a visão na qual são treinados os soldados do exército, treinados a cumprir ordens sem questionamentos. Lembrou bem o tenente que, o exército o treinou para matar, ou eliminar todos os que agem como obstáculo à consecução do objetivo definido pelo Estado Maior, cabendo aos subalternos, o simples cumprimento das ordens recebidas, ainda que elas sejam estúpidas e sem sentido. Ora, neste momento temos um general reservista, que jamais estudou medicina ou ciência correlata, dirigindo o Ministério a Saúde. Por ser um ex-general, ele também foi treinado para matar. Pessoas treinadas para matar precisam matar em si mesmo os sentimentos que a morte de uma pessoa possa provocar. Aliás, para poder matar sem questionamento, os soldados quando se dirigem ao campo de batalha não podem ver pessoas, eles só enxergam inimigos que devem ser eliminados. Os mortos são consequência normal da atividade de um soldado em batalha, daí o silêncio sobre os 15 mil brasileiros mortos desde março pela Covid19.

Recentemente assisti o filme 1917, que conta linearmente a saga de dois soldados que receberam a tarefa de entregar uma mensagem a um comandante, e para tal teriam que passar por campos dominados pelos inimigos. O que considero o momento mais tocante no filme é a cena das ruas formadas pelas trincheiras. A Guerra de 1914-19 foi uma guerra parada, com pequenos avanços que objetivavam aumentar os danos ao inimigo com pouco custo de vida de seus soldados e armamentos. Com essa tática, a troca de tiros e pequenos ataques levou a guerra a longo quatro anos. Mas a cena a qual me refiro apresenta, naquelas ruelas é de soldados postos contra os paredões, esperando a ordem para que subissem as escadas e afrontassem o inimigo com os seus corpos, recebessem as balas, simplesmente morressem sob o comando de um coronel ou general que estava mais protegido, distante da linha de fogo. O que me impressionou era a face de aceitação dos soldados que olhavam, indiferentes, o que ocorria ao logo das trincheiras, o movimento que havia. A eles importava apenas ouvir a ordem de “avançar” e levantavam-se e corriam em direção à morte. A sua morte, mais que a do inimigo é que estava certa e garantia sua vitória: uma morte silenciosa, solitária, distante de tudo. É que o mundo e tudo o que ele representa já havia terminado.

Uma reunião do comando militar para debater a estratégia da ação, verificar a logística que melhor interesse ao comando superior, é o que interessa. Um dos atos iniciais após a declaração russa de guerra à Alemanha, foi o gesto de arrancar os fios de telefone para evitar que houvesse alguma comunicação que desse oportunidade a suspensão da guerra. Os fios foram quebrados, assim como os navios de Cortez. Os que desejam a guerra explicitam que não pode haver retorno, arrependimento, pois só a verdade da morte libertará. Ao transformar o Ministério da Saúde em uma casamata, abrigo protetor do comando, o atual governo brasileiro assumiu que está em uma nova fase de sua guerra, após o controle sobre a Amazônia, sonho cultivado desde a recusa do plano terrorista do tenente que, só não foi expulso do exército pela ação de seus colegas em um julgamento fraudado. A fase anterior, foi a conquista de espaços das mentes. Estão seguindo a pensamento do general Westmoreland na guerra do Vietnan: Conquistar Corações e Mentes. Westmoreland perdeu. Deixaremos que ele nos vença?   

Drama 9 – setembro 22; maio 88; maio 20

quinta-feira, maio 14th, 2020

“Caprichoso ( ….) não punha calma no pendor de querer sempre triunfante o seu alvitre. Desamava Conselhos. Quer isso dizer que temperamentalmente possuía minguados recursos para a função de reinar sem governar (…) da categoria a que deveria pertencer. Daí não vir jamais a compreender ou aceitar a engenhosa combinação do poder popular com as instituições…”

O texto acima é de Octávio Tarquínio de Sousa, na sua obra Vida de D. Pedro I, é sobre o objeto de suas pesquisas. Esse é um retrato do nosso primeiro governante após o rompimento dos laços estabelecidos pelo Reino do Brasil Unido ao Reino de Portugal e Algarves,  consequência de séculos de domínio português sobre o Brasil. Tal rompimento foi por ele assumido em um rompante próprio de sua personalidade mercurial, entretanto vinha sendo banhado em sangue desde o final do século XVIII, e foi  urdido pela ciência de José Bonifácio que fez a confusão entre o interesse de alguns com o interesse da pátria. Tudo isso parece ser uma das marcas que trazemos em nossa política. O voluntarismo de governantes que põem a sua vontade acima dos objetivos da nação, destes se aproveitando em momentos de confluência, sem contudo perder a oportunidade de afastar aqueles que não formam com sua orientação, desejo ou juízo. Esses governantes que povoam o tempo de nossa história são mantidos por uma aristocracia de proprietários de terras, clérigos de diversas igrejas (inicialmente eram apenas os católicos romanos), mais recentemente juntaram-se os industriais e banqueiros, esses e alguns  promotores de algumas ações paternalistas, de modo a manter a população subjugada a um patrão-pai. Assim formou-se o Estado brasileiro, uma nação, hoje com 220 milhões de habitantes, dos quais apenas cerca de 1/3 tem acesso aos bens culturais e civilizacionais, como está a nos provar a atual pandemia.

Em dois anos completar-se-á dois séculos do rompimento dos laços políticos e jurídicos que ligavam o Reino do Brasil ao Reino de Portugal e Algarves, mas quando este fato ocorreu, foi decidido que o novo Estado seria formado por duas grandes nações: a dos proprietários e seus acólitos bajuladores, mas só na medida em que sejam capazes de pensar como o chefe,  e manter distância dos interesses dos não proprietários.

Nas primeiras quatro décadas (1820-1850), a nação dos proprietários do novo Estado, viu-se em uma constante guerra contra a outra nação, até submetê-la, para então criar uma legislação garantidora do seu futuro, ainda que fosse obrigada a pôr fim à escravidão. Enquanto  isso não ocorria, buscou-se, entre os destituídos da Europa, o material humano para manter a submissão dos eternos insatisfeitos com a ordem que os prende à margem da nação, exceto em tempos eleitorais, de modo a confirmar a sua hegemonia. Mas o ato de votar, só veio a ser reconhecido como direito universal muito recentemente, pela Emenda nº 25  à Constituição de 1967, no ano de 1985. Contudo os governos que se seguiram falaram muito em “educação de qualidade”, e nenhum deles percebeu que deveriam preocupar-se com “educação de BOA qualidade”. E sem uma educação de BOA qualidade, mesmo que saiam da caverna, muitos para ela retornam, assim como os que saíram da escravidão do Egito, na primeira dificuldade, tiveram saudade da “sopa de cebola” que recebiam ao final de um dia extenuante de trabalho. Essa é uma das razões porque, após dois séculos do Brasil livre dos laços portugueses, estamos assistindo parte de nossa sociedade sonhando com o conforto das senzalas, das dádivas do tipo “peixe da semana santa”.

Neste dia que escrevo essas palavras, completa-se 132 anos do estabelecimento legal do fim da escravidão no Brasil, mas essa data não coincide com a decisão de unir as nações que formam o Estado Brasileiro, pois os libertos não viram a terra libertada. Os escravizadores da terra estão muito ativos, uma vez que, os que para o Brasil foram transplantados no final do século XIX, a eles se aliaram, tornaram-se eles, assumiram a sina de manter as nações separadas, parece que vieram para aprofundar as diferenças, e assumiram em realizar o passado crendo estar construindo o futuro.

Nos faltou uma educação de BOA qualidade para que os que saíram das matas, das senzalas. Sem essa educação estaremos sempre à ‘disposição’ dos voluntariosos que se apresentam como salvadores dos carneiros enquanto os encaminham para o matadouro.