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Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

domingo, novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.

Todos Irmãos: esperança, cansaço e renovação

quarta-feira, outubro 28th, 2020

Viver em paz é diferente de não fazer nada. Há quem diga que se deve treinar para viver o nada, perceber tudo sem envolver-se no que é visto e experimentado. Experimentar o nada. Eis algo difícil nos dias que vivo, desde o amanhecer até o momento que o cérebro não me permite observar. O cérebro observa-me, o tempo passa e ele, observando-me, refazendo as experiências enquanto durmo. No sono vêm as imagens descritas por Loyola Brandão em Não verás país. Não vejo mais o país. Vejo a impossibilidade de um país sendo criada, não na ficção que Loyola previu três décadas atrás. Não Verás País algum. Vivo a perda do país que imaginava estar criando com os meus contemporâneos, e temo entender que não verei o país que imaginava com alguns de meus contemporâneos.

Em momento tão perdido, que parece ser de descanso, para não perder a sensibilidade vem uma carta do Vaticano, assinada por Francisco a nos dizer que somos Todos irmãos. É sempre escandalosa essa afirmação de sermos todos irmãos. Nem todos percebem que mudanças essas três palavras carregam. Quase ninguém deseja que sejamos todos irmãos. Até mesmo alguns familiares.  Ser irmão no abstrato é aceitável, e a leitura do que o papa escreveu é animadora para muitos, até para os que não leram e, creio, não lerão, essa bela correspondência que foi endereçada aos cristãos, aos que carregam alguma fé e, mesmo aos que vivem sem carregar qualquer fé. Mas é aceitável essa ideia de quem somos todos irmãos.

Não há novidade neste discurso que, mutatis mutantis,  é dito em quase todos os púlpitos erguidos em cada esquina do mundo, dentro ou fora das igrejas e dos parlamentos. Somos todos irmãos, dirão os políticos, os pastores, os padres, os chefes e as chefes (será chefa?) de família, os líderes estudantis, os candidatos a vereadores e prefeitos ao lerem ou ouvirem essas palavras do papa.

Uma semana depois, quando se tornou público um documentário no qual o papa Francisco diz que se deve admitir a união civil de casais do mesmo sexo, logo já se percebeu que nem todos somos irmãos; que se corre o risco de um cisma no mundo católico, pois se diz que o papa é um herege, que o Espírito Santo enganou-se e a Igreja está sendo dirigida por um seguidor do demônio. E alguns cristãos, católicos ou não católicos, passam a agredir os católicos, querendo saber se vão seguir o papa e outras coisas semelhantes.

A ficção de Inácio Loyola Brandão usa um verso de outro poeta, Olavo Bilac. Criança, não verás país algum como esse. Referia-se, o poeta do civismo, ao Brasil que, no início do século XX, incitava as gerações jovens a amar com orgulho o país em que nascera. O país mudava de regime sem conversar com os que formavam a nação, mas os que dirigiam a mudança desejavam po amor de quem amava a monarquia e o amor dos que não a conheceram. O poeta estava otimista quanto ao futuro.  

A passagem do século XIX para o XX era de otimismo para os bem nascidos e, até para os que nasceram sem berço, pois a República parecia criar condições para todos; mas esse “todo” não envolvia a todos, perceberam, bem mais tarde, os mal nascidos e os bem nascidos. Estes, os que se apossaram das terras do país, continuaram a insuflar os que jamais teriam acesso à terra, a cultivarem o amor à nação. Queriam o amor mas não dariam a terra.

Ao longo do século, os que formavam a nação, mas não tinham terra, foram compreendendo que jamais veriam “país como esse”; o preço das passagens aéreas não permitiam ir conhecer outras terras. Era uma promessa que os bem nascidos faziam questão de cumprir: não permitir que outros países fossem conhecidos pelos que não possuíam terras. Não poderiam fazer comparação, poderiam amar o que viam ou o que se permitia que fosse visto.

Outubro está ao término, mas não as bobagens que fizeram enquanto ele dura. Outubro é um mês duro, de muitos dias. Nele, como em todos os meses nasceram muitas pessoas, algumas no início do mês, outras quase em seu término. No início do mês, dois aniversários, o de Francisco de Assis, no dia quatro, sempre me lembra um amigo que nem sei se ainda lembra de mim. Não importa sua lembrança, importa que eu não o esqueço. Todos os anos lhe envio festas no dia 4.  No dia 6 é o aniversário de uma de minhas filhas. Quando ela nasceu lembrei que ela me veio no mês da Revolução que prometia unir os operários e criar um mundo novo. Quando minha filha nasceu a Revolução já se dera por vencida, embora a esperança de que veríamos dias melhores permanecesse. A Esperança é um animal bravio, que se camufla perfeitamente com as folhas. A Esperança, como o bicho-folha, é muito antiga, vem acompanhando os homens desde que se entenderam como tal e, desde então, esperam o paraíso enquanto constroem e destroem a Esperança. Este inseto da alma que se esconde em cada uma das gerações humanas, confundindo-se com elas. Cada uma que morre traz a esperança de que outra virá.

O final de outubro, carregado de aniversários de esperanças perdidas, também carrega, para mim, lembranças de esperanças de vida que não se realizaram. Mas foram belas e vitoriosas como as revoluções em seus processos iniciais quando, a morte da antiga civilização ou antigos amores oferece combustível para o novo que constrói, então. Depois a Revolução cansa e morre, como amores de paixão.

Mas então, vem a Esperança, de novo, com novas caras a repetir que somos Tutti Fratelli.

Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)   

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

terça-feira, setembro 29th, 2020

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

Neste domingo, próximo às 22 horas, em um telefonema, recebo a cobrança sobre o abandono do blog, quase um mês sem um texto novo. Digo que as novas atividades como professor me obrigam a estudar novas técnicas, preparar aulas e acompanhar o estudo de quatro dezenas de estudantes de diversas áreas: História, Geografia, Serviço Social, Filosofia, Farmácia, Medicina, que querem aprofundar conhecimento na história das religiões e igrejas no Nordeste. Em outras oportunidades já recebi alunos de outros cursos, mas não em tão grande número. Creio, e espero, que todos os professores estejam tendo esta experiência e dela aproveitando e deixando-se aproveitar pelos questionamentos que chegam de estudantes de outras ciências.

Esta experiência me põe a repensar sobre o tempo, o meu tempo. Tempo de leitura redobrada para atender a demanda desses jovens que desejam conhecer melhor o povo para quem e com quem vão trabalhar. Toma tempo, produz cansaço, traz alegria e réstias de esperança. A pandemia forçou essas aulas à distância, provocou a fuga do cotidiano, abriu a perspectiva de ver além do estabelecido na Matriz Curricular, ou Grade Curricular, na qual está presa a formação do estudante. Este semestre tornou possível olhar para além do que estava estabelecido, ou se estabelece pelas influências que alunos mais antigos exercem sobre os novos no momento da escolha da disciplina eletiva. O estudante, neste semestre especial viu-se mais livre para escolher, sem a sofrer influência de experiências de outras gerações, às vezes negativa, sobre as disciplinas ou sobre os professores. Livre para matricular-se, para ficar até o término do semestre, ou abandonar as aulas, caso elas não estejam contribuindo para a sua formação. Esta foi uma consequência da Covid 19, que, a mim, parece positiva, embora me force a trabalhar mais.

Ao lado desta alegre surpresa que me força rejuvenescer, tenho acompanhado o crescente desastre brasileiro. A pandemia, mais que criar problemas, tornou explícito o descompromisso dos que governaram o país desde o fim da ditadura, o descompromisso real com a democracia e com o povo brasileiro. Talvez, sem o tom arrastado de Getúlio Vargas, continuaram dizendo “trabalhadores do Brasil…”, enquanto evitaram modificar as estruturas que fazem um país rico com um povo pobre, condenado a subalimentar-se, enquanto assistiu, nestas quatro décadas crescer o número de milionários e o de favelas. Para mostrar que houve mudança, os intelectuais desses governos passaram a dizer que as favelas eram comunidades (penso no desgosto dos sociólogos clássicos) ou assentamento urbano de condições precárias. E os muros das casas e edifícios cresciam enquanto o desalento do povo fazia o mesmo. Continuamos a ouvir Dom Hélder lembrar que enquanto uns, a maioria, não conseguem dormir porque estão com fome, outros, a minoria, não dormem com medo dos que estão com fome. Por isso cresceu o número de empresas de segurança, de carros particulares, sendo que alguns são blindados. Em algumas cidades, esses que enriqueceram sem permitir que houvesse um acesso para além dos iogurtes, frangos e pizzas para dos trabalhadores empregados, deslocam-se apenas em helicópteros e aviões. Não os comerciais. A Pandemia mostrou que escolas construídas no tempo de Getúlio Vargas ofereciam mais espaços para os estudantes desenvolverem suas múltiplas potencialidades. Não tenho dados além do que meus olhos registraram nas cidades que, por razões de minha profissão fui levado a conhecer, mas creio ter sido um grande erro construir-se escolas sem bibliotecas, área para a prática de esportes e artes, mantendo uma educação baseado na escrita das palavras que estão postas nos livros didáticos. A mesma pressa que fez a Ditadura Civil-Militar incentivar a criação de faculdades no interior dos Estados, assistimos na criação de universidades inauguradas em prédios de escolas de nível médio, ou em salas de centros de compra, enquanto se arrumava verba para a construção de espaços que acomodassem a nova unidade de ensino superior. As duas iniciativas trouxeram benefícios, quem há de negar?, mas ambas escancaram a falta de planejamento para a criação de um sério sistema de ensino capaz de gerar e educação e as habilidades necessárias no século XXI. Apesar de pedagogos chamarem atenção de que uma boa sala de aula deveria ser formada por no máximo trinta alunos, os secretários de educação dos Estados e municípios, continuaram com salas de 60 alunos. O mesmo ocorre no ensino superior. E tudo justificável por conta da Grande Evasão, que existe, entre outros fatores, pelo desconforto das salas lotadas – algumas vezes sem cadeiras para os alunos sentarem-se – e da impossibilidade de um professor acompanhar tantos alunos simultaneamente. Economizaram na construção das salas, na não construção de bibliotecas, áreas para a prática de esportes e artes, economizaram no número de professores. Agora, como fazer para retornar as aulas cumprindo as exigências do distanciamento necessário? Para onde irão os alunos que não podem mais ficar na mesma sala simultaneamente? Como dividir os espaços para novas turmas? Serão construídas novas salas? E serão contratados novos professores, serão compradas novas carteiras? Todas essas perguntas nos mostram que, apesar de muito falarem em educação de qualidade, pouco se construiu de democracia, na sociedade e nas escolas. Um pedagogo escreveu um livro com sugestivo tema: quanto mais se falou de democracia na escola menos ela foi democrática, quanto menos se falou em democracia, mais ela foi democrática.

Nesse mesmo período ampliaram os plenários dos parlamentos municipais, estaduais e federal. E também ampliaram os espaços para que os juízes possam trabalhar com dignidade, gastaram-se fortunas em prédios e na manutenção dos privilegiados, acusados por Getúlio Vargas, em sua Carta Testamento, de devorarem as forças do país. E fizeram isso enquanto colocam em jaulas os criminosos mais pobres, e continuam a manter a divisão das prisões para quem tem diploma universitário e para os que não conseguem chegar lá. Há uma relação entre isso e o descaso com a educação. Quando algum poderoso que não tem diploma tem que ir à cadeia, logo se busca uma solução, e proíbem que lhe ponham algemas. E mudam as leis para que jamais sejam condenados.

Mataram a democracia,  não enquanto engordavam o pato, mas enquanto se engordavam do trabalho dos patos. Ainda estamos em 1954. No ano seguinte nasceu Bolsonaro. Já ia me esquecendo que ele continua o trabalho dos antecessores, com sotaque arcaico e mais perigoso.

Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

quinta-feira, agosto 6th, 2020

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.

Drama 11 – Os soldados de Hitler e os dias de hoje

sábado, junho 6th, 2020

Os dias dos anos de nossas vidas passam sem que os notemos, exceto em alguns momentos animados pela memória, essa constante companheira que adulamos e, por vezes não desejamos a sua companhia. Aprendemos a contar o tempo, a sentir como ele se esvai de nós, acompanhamos, não apenas fisicamente, como os animais e vetais, mas conscientemente avançamos para o término da contagem. Na maior parte da vida não nos importamos com isso, pois abstraímos, na maior parte do tempo de nossas vidas, o tempo que vivemos em direção do fim do nosso tempo. Há também os que se ocupam com o final dos tempos, ainda que saibam que não estrão lá para ver, embora alguns desenvolveram a certeza de como ocorrerá o final dos tempos. No tempo que organizamos, a ocorrência de alguns eventos foi organizadora da vida, e então celebra-se o momento daquela ocorrência e a temos como marco da vida do grupo que se renova ao passar do tempo. Aquela dia é celebrado no ciclo da vida do grupo, enquanto o grupo existir.

Um desses eventos cultuados pelo grupo ao qual pertenço, e creio que os eu lerem essas linhas também pertençam, é o 6 de junho, quando rememora-se o sacrifício de milhares de vida jovens em praia francesa, em um grande desembarque para liberar a França do domínio dos nazistas. Para alguns países essa batalha marca o início da vitória dos países aliados – Estados Unidos, Inglaterra, Dinamarca, Suécia e outros. Conheci essa história, não nos livros escolares, embora eles contem, mas  o cinema, em um filme que chama aquele dia como o “Dia D”, apresentava a capacidade logística, a produção industrial, a capacidade econômica daqueles países, mas principalmente a entrega gratuita da vida pelo ideal da liberdade, de acabar com os nazifascistas. Depois li muito a respeito e, aprendi que muitos dos mortos talvez não soubessem as razões da morte que para eles estavam reservadas. Mas eram tantos os que morreram naquela e em outras batalhas que, manteve-se o costume moderno de homenagear a todos com o túmulo do Soldado desconhecido. Em minha primeira adolescência gostei da segunda guerra, também por causa de outro filme que heroicizou a vida militar, o enfrentamento da morte para que todos tivessem melhor vida. Agora trata-se do filme Fugindo do Inferno. Uma plêiade de heróis, especialmente o personagem vivido por Steve McQeen. Cresci com esses heróis e fui aprendendo na vida que nem todos os militares são capazes de morrer pela seu país, mas alguns são capazes de matar seu país para manterem-se vivos, enquanto puderem. Assim ocorreu com muitos oficiais nazistas. Terrível é assistir os derrotados na segunda guerra estarem, por algum tempo, vitoriosos na minha pátria, pois neste mesmo dia 6 de junho, o tenente terrorista decidiu continuar a agir covardemente com o Brasil, ao tentar impedir que ele saiba as consequências mortais dos seus erros na condução da nação no enfrentamento da pandemia. A parte quase positiva disso é que, fica mais explícita a sua relação com os derrotados naquela guerra terminada, fisicamente, em 1945, mas espiritualmente ainda a ser vencida, como mostra o atual desgoverno do Brasil.

O que não é possível esquecer é que a maioria dos Soldados de Hitler não usavam fardas, eram pessoas comuns que assistiam a brutalização dos ciganos, dos judeus, dos homossexuais e de outros grupos perseguidos, silenciaram, e o silêncio fortaleceram os soldados fardados e armados. Hitler, Mussoline, Pinochet, Médici, Geisel, Figueiredo, Costa e Silva, Daniel Ortega, Hugo Chavez, Maduro, Idi Amin, Papa Doc, todos eles tiveram soldados sem farda, soldados que eram caixa de mercados, caixeiros viajantes, professores, vereadores, pequenos empresários, empreiteiros, bancários, banqueiros, donos de indústrias, ferramenteiros, padres, pastores, prostitutas, estudantes, advogados, médicos, vendedores de seguro, mães de família, enfermeiras e tantos outros disfarces. Esses soldados criaram o poder, mantiveram-n0, depois sofreram as consequências, alguns esqueceram dos seus feitos, do orgulho que sentiam, e calaram-se. Mas mantiveram para si a sua história. Assim é que se explica a vitória espiritual desses abjetos seres humanos que existiram para evitar que a humanidade floresça.

Neste 6 de junho, o atual presidente do Brasil, com um soldado fardado à frente de um ministério da saúde, apoiado com a criatividade de um soldado empresário, decidiu ocultar o número dos mortos do genocídio que ele tem criado. E ele só faz tais coisas porque sabe que tem um exército que não usa fardas. Esse exército, nem o espírito do major vivido por Setve Mcqueen, parece ter conseguido derrotar.

Diários de gerações

sábado, maio 30th, 2020

Faz algum tempo que desejo escrever sobre algumas experiências em minha adolescência que, creio, fazem parte deste período de formação de alguns, especialmente os que estiveram em torno de alguma liderança católica nos anos sessenta. Trata-se de dois livros que, parece, acompanharam muitos jovens nas décadas de sessenta e setenta. Foram editados pela Duas Cidades, editora que, parece-me, esteve ligada aos padres dominicanos. Refiro-me ao Diário de Danny e ao Diário de Ana Maria. Havia um mais famoso, ainda nos dias de hoje, o Diário de Anne Frank, a menina judia que contou seu cotidiano no esconderijo, para livrar-se da sanha assassina dos nazistas. Ela terminou caindo e sendo morta. Vive hoje com grande vigor e merecendo ser lida, refletida e amada por todos que desejam a vida plenamente. Anne Frank escreveu sobre as dificuldades do silêncio que lhe era imposto pela situação e, conseguia verificar o quão era possível comunicar-se consigo mesmo, mantendo a sua jovialidade e saúde mental/espiritual, Danny e Ana Maria viviam no mundo pós Segunda Guerra, o mundo criado após a derrota do exército alemão, a destruição dos campos de extermínio. Anne Frank terminou sua aventura em Bergen-Belsen. 

A escrita de diários registrando acontecimentos da vida, reflexões sobre o que então se vivia, tem sido um hábito desde que a cresceu a produção de papel, o que permitiu que o prazer de ler e escrever ultrapassasse as paredes de mosteiros e palácios. Refletir sobre o que se faz durante o dia é uma orientação prática, os monges e outros religiosos o fazem antes de dormir, um exame de consciência, que os católicos são convidados a fazer quando se dirigem ao confessionário. Mas isso era feito mentalmente, ainda que orientado por livros como A Imitação de Cristo e outros. Colocar no papel, como o fez Anne Frank e como mutos fizeram, ainda fazem, é uma maneira de acompanhar o crescimento da espiritual. Os diários auxiliam a fazer a anamnese de si mesmo.

Eu li os dois diários, o de Danny e o de Ana Maria, que foram escritos por Michel Quoist, um padre francês que teve atuação e influência bem forte na vida dos jovens franceses e, também nos países onde ele missionava. Escrever os diários de dois adolescentes foi um dos muitos caminhos utilizados pelo padre Michel Quoist para debater as questões que ele julgava serem essenciais para um engajamento dos católicos nos problemas sociais que a Europa enfrentava, então. Simulando a vida de um rapaz e de uma moça, Michel punha os adolescentes franceses a pensar no que ocorrendo ao redor. A década de 1950 foi vivida muito intensamente pelos católicos franceses, saídos de uma guerra e envolvidos em questões sobre a convivência com povos diferentes, já conhecidos, mas que a Segunda Guerra dera oportunidade de recomeço.

Ao longo do século XIX a França estabeleceu um império, notadamente na África e Ásia, como o fizeram outras nações europeias, o que lhe valeu terem as matérias primas necessárias para as suas indústrias e riquezas para serem consumidas. Mas a Grande Guerra começou a questionar para onde essas riquezas levavam. O que faziam os católicos para diminuir, se não podiam acabar, a exploração dos povos? A derrota dos nazistas abriu espaços para a expansão do comunismo materialista da União Soviética, mas o que faziam os católicos diante da exploração dos operários e das nações subjugadas.

Na busca de novos caminhos, alguns padres franceses foram viver em bairros operários, e o fizeram anonimamente, sem expor o seu status clerical, ainda nos anos quarenta. A experiência criou atrito entre o Vaticano e o governo francês, o que levou Pio XII a suspender essa possibilidade de vida sacerdotal, confirmada, posteriormente por João XXIII. Ao mesmo tempo a Guerra de Independência da Indochina, e do Marrocos, interpelava os ideais le,a da França. O processo de descolonização questionava conceitos tradicionais, surgiam novas nações e, com elas a compreensão de que nem todos os humanos estavam tendo acesso aos bens da economia, da cultura criados pela sociedade que começa a ser chamada, às vezes pejorativamente de Ocidental e Cristã. Os economistas iniciavam a falar em Terceiro Mundo    mundo subdesenvolvido. Os diários escrito por Danny/Michel Quoist são um meio eficaz de levar os jovens a debater os conflitos da sociedade que está em mudança, está modificar valores, como atestam as reflexões encontradas no Diário de Ana Maria/Michel Quoist. A experiência desses  jovens franceses vieram abrir caminho para reflexões de jovens brasileiros, católicos, pertencentes à classe média, buscavam criar e aprofundar uma nova religiosidade mais conscientes dos problemas enfrentados pelos jovens, deixando no passado as certezas de comportamentos fixos, de costumes que apenas preservavam o status quo.

Essa não foi a única influência recebida pelos jovens católicos de classe média, especialmente aqueles que chegavam às universidades, e tornavam-se membros da Juventude Universitária Católica. Mas, todas essas iniciativas tiveram por base a prática de um padre belga, Joseph Cardjin, criador da Juventude Operária Católica – a  JOC. Mas então, já são outros caminhos do envolvimento social dos católicos no século XX.