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Independência a ser conquistada

sábado, setembro 17th, 2022

Descolonizar a independência

Prof. Severino Vicente da Silva

Passaram-se quinze dias dos festejos do bicentenário da Independência do Brasil, em sua relação com Portugal, sua antiga metrópole dominadora e colonizadora. Tal celebração teria que ter sido de grande júbilo e, contudo, passou com um gosto amargo, diversos amargores e uma pequena dose de mel, nos foi dada pelo presente.

Celebrar duzentos anos de um acontecimento é, principalmente voltar ao passado, ou a vários passados, pois que não há um só. Foi assim que este Sete de Setembro, lembra os Sete de Setembro do passados. Ouvimos várias discussões sobre o que “realmente” aconteceu no final da tarde de 1822; discutimos sobre quem foram os personagens naquela tarde; debatemos sobre a atuação da Princesa Regente que, antes do marido, entendeu de declarar o Reino do Brasil separado definitivamente do Reino de Portugal, recém libertado do domínio inglês; também houve debates, mas em menor número, sobre a atuação de José Bonifácio, o sábio ministro que escrevera a Carta às Nações, denunciando o projeto de recolonização posto em andamento pela Assembleia Constituinte portuguesa; até mesmo houve quem lembrasse que o famoso quadro do Grito do Ipiranga foi pintado anos depois do acontecimento e, foi realizado para enaltecer a figura do primeiro imperador do Brasil, que perdeu o lustro desde que fechou a Assembleia Constituinte brasileira, apontando os limites que seriam trilhados pelos liberais brasileiros. Aproveitou-se a oportunidade para mostrar que quem pagou pela pintura não queria negros no quadro, e artista os colocou saindo pelo alto e à esquerda, mais abaixo o povo que trabalha e, no centro, os que usam farda e governam.

Uma quase novidade foi a luta travada por intelectuais de diversas partes do Brasil para mostrar que sem a sua participação não teria havido independência. Uma grande questão que ainda está a ser resolvida é onde foi proclamada a independência. A maior tradição diz que foi em São Paulo, como está na arte de Pedro Américo e nos inumeráveis livros didáticos escritos a partir do que foi definido no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, com sede na Corte Imperial, no Rio de Janeiro, uma vez que São Paulo ainda não tinha a estrutura necessária para tal função, nem fora levado a sério o projeto bonifaciano de colocar a capital no centro do Brasil. Esperou-se 139 anos para que um mineiro realizasse o sonho do Patriarca da Independência. O Brasil que surgiu em 1822 tem essas coisas, tem um Patriarca, mas não tem Matriarca.

Mas onde ocorreu a Independência? Quem a fez? Os pernambucanos, agora dizem que foram eles, na Convenção de Beberibe, em outubro de 1821, quando as Juntas Governativas de Goiana, Cabo e Olinda, se levantaram contra a autoridade militar portuguesa e a forçaram a admitir que não tinha mais controle sobre a província. As Câmaras eram formadas pelos “homens bons”, na sua maioria senhores de engenhos e escravos e alguns comerciantes. Por questões de prestígio e vaidades que poderiam dificultar a unidade do movimento, escolheram o comerciantes Gervásio Pires Ferreira para presidir a província liberta, não de Portugal, pois o Brasil já era um Reino, um Estado reconhecido pelas nações do mundo, mas do Rio de Janeiro, que era o centro do Reino, regido pelo príncipe Pedro de Alcântara, sempre fiel ao seu pai. Claro que as razões dessa escolha não estão escritas em nenhum documento, mas nos fatos, pois algum tempo depois, alguns ‘nobres’ da vila de Goiana fizeram acordo com o Patriarca que levaram à deposição e prisão de Gervásio Pires, finalmente entregue às Cortes de Portugal. Assim, Em Pernambuco há a glória de ser o primeiro território brasileiro sem governo português, mas abdica dessa honra para que se consolide a independência pensada por José Bonifácio. E o rio Beberibe desaguou no riacho Ipiranga. Essa parte final não aparece nos livros de história nem nas celebrações que Pernambuco não realiza.

À medida que o Brasil avança no processo de educar-se, de conhecer seu passado, começa a entender que a sua história não ocorre apenas na beira do mar, mas nos sertões, no seu interior. A cada ano escutamos mais sobre a Batalha do Jenipapo, ocorrida entre o Piauí e o Maranhão. O governo do Maranhão, por razões explicáveis pelo processo de colonização portuguesa sempre manteve pouca relação com os governos da colônia, habituando-se a relacionar-se diretamente com Lisboa. Essa circunstância explica a forte relação com Portugal e a sua adesão de sua elite às Cortes lusitanas, o seu rechaço à separação. De Oeiras sai o clamor pela independência, mais aceita pelos camponeses, pelos sem-terra, pelos pobres mulatos, outros mestiços e negros, e eles enfrentaram, com suas foices, enxadas, facões ancinhos e seu corpos. cerca de 1500 soldados bem armados. Sim foram massacrados, mas feriram de tal forma o exército português, que forçou, algum tempo depois, a rendição. Mas as elites de São Luís tiveram que enfrentar a marinha que o Imperador enviou para lá.

Quem sempre discute a sua importância crucial e definitiva para a “independência do Brasil” é a Bahia, que sempre festeja com orgulho e alegria o dia 2 de julho, com o desfile do caboclo, dos negros, das mulheres -Maria Quitéria e Maria Angélica, uma camponesa e outra freira. Sempre haverá alguém para dizer que essa independência é tardia, só ocorreu em 1823. Mas, dirão os baianos, aqui houve guerra contra uma comunidade portuguesa bem estabelecida e apoiadora do exército e, contudo, eles foram derrotados e, dessa maneira fechou-se o ciclo da independência política, que ainda necessitará de uma prova de amor do imperador do Brasil para o Reino de Portugal, o acordo de 1827.

Como se vê, luta-se pelo passado. Alguns pelo passado bem morto, como a inciativa de se buscar para um passeio de 10 dias em terras brasileira, o coração do rei Dom Pedro IV de Portugal, retirando-o da cidade do Porto, local de sua preferência e de onde não deveria ter saído. Saiu de lá para cumprir um ritual desejado porque pouco sabe da história do Brasil e, como os colonizadores, dedica-se a retirar o máximo que pode dos pobres. E buscam dominar o passado para que ele seja o seu futuro, pois jamais abandonaram o tempo de colônia portuguesa, quando colaboravam com a escravidão, com a cobrança do Quinto, quando traiam Tiradentes, Abreu e Lima, Manuel Faustino, Gervásio Pires e tantos outros, para continuarem a despojar o povo, deixá-lo morrer de fome, sem remédio, sem casa, sem nada. Vivem o presente como se estivessem no passado, pois é este o futuro que querem para si.

E nas celebrações da “independência do Brasil”, podemos encontrar aqueles que sabem que não houve independência, não houve separação, pois a mentalidade colonial e escravista está presente nas elites, e por terem essa consciência que a história, a sua história de vida, eles continuam construindo a independência, a liberdade. Assistimos os descendentes morais de Silvério dos Reis, abraçados com a bandeira brasileira, mas também com a dso Estados Unidos da América e, não consigo entender o porquê, com a bandeira de Israel. Olhamos para eles e nos vem a voz de Castro Alves, em prantos, clamar: “antes te houvesse roto nas batalhas que servires a um povo de mortalha”. Sim, sei que as escolas estão organizadas a não lerem esses versos, e outros. Esse Grito dos Excluídos, esse poético, é o presente que anuncia o futuro, como anunciou o fim da escravidão. Não, é necessário construir um sete de Setembro, que pode continuar como um divertimento para os que gostam e brincaram de soldadinhos de chumbo, essa brinquedo das guerras do século XIX, o necessário e o que está sendo feito, é continuar a invenção da liberdade, da independência dos falsos líderes, das nações falsas e excluidoras.

Uma semana pensando na pátria. Pequeno ensaio

sábado, setembro 3rd, 2022

UMA SEMANA PENSANDO NA PÁTRIA

Severino Vicente da Silva

O cotidiano dominou o meu agosto. Fui tomado pelas ações da rotina e a escrita ficou resumida ao reservado à preparação das aulas, respostas a correspondência, mas principalmente, ao que exige o trabalho contratado. Pouco espaço para a tentativa de escrever o que se carrega no íntimo e, por exigência da alma, quer-se dividir. Um mês longo, como as jornadas de trabalho.

Neste ano do bicentenário da Independência do Brasil, nos chegam propostas para conversar sobre o acontecimento nas escolas secundárias e, nas universidades, professores são convidados a participar de mesas redondas, seminários, etc. Assim, como de surpresa o tema torna-se popular. Na verdade, desde o período da mais recente ditadura civil-militar, esta festividade em torno da independência parece ter-se tornado uma exclusividade militar, embora nos desfiles do dia marcado para celebrar o feito da separação do Reino do Brasil, ainda aliado ao seu antigo colonizador, clamava-se que estudantes se juntassem aos militares na passeata que ocorria nas capitais dos estados. O Sete de Setembro era uma oportunidade de celebrar a não divisão do Brasil em pequenas repúblicas, como ocorrera com as colônias espanholas na América. Como Pedro Américo nos apresenta em seu famoso quadro, feito para formar o sentimento de unidade nacional, com o príncipe, futuro imperador sendo o ponto central da independência, o que seria o povo brasileiro estava à margem, como o carreiro que olhava a movimentação dos soldados sem entender o que ocorria. Outra parte do povo, formada por negros e pardos que caminham em sentido contrário ao movimento da soldadesca, aparece no alto do quadro, quase imperceptível. Ou invisível, como foi definido recentemente por ministro do Estado, no atual governo. Aliás essa terminologia já vinha sendo utilizada pelo IBGE e por outros setores da sociedade.

A exclusão apresentada romanticamente por Pedro Américo dói bastante anos excluídos, de tal modo que, alguns deles se juntaram e começaram a fazer o sete de Setembro dos Excluídos, saindo em desfile procissão em ruas paralelas do desfile oficial: O Grito dos Excluídos marca há mais de duas décadas o esforço que a sociedade faz para ser ouvida, para que seu clamor, que é ouvido por seu Deus, seja ouvido pelos homens e mulheres que governam o Brasil. O Grito dos Excluídos diz que quer deixar de ser invisível. Mas negros, pardos, indígenas, os que possuem alguma deficiência todos eles homens e mulheres,  

Como na tela de Pedro Américo a visibilidade fica para o príncipe seus seguranças, seus amigos. Parece que foi esse grupo que fez a independência do Brasil. Mas não foi bem assim. O processo de independência vinha ocorrendo desde muitos anos, pois que sempre houve pessoas ou grupo de pessoas que desejaram essa separação, porém a história não se faz com a vontade de uma só pessoa ou um pequeno grupo de pessoas. É necessário que esse desejo seja compartilhado por muitas pessoas, e nem é necessário que se reconheçam: quando for o momento eles se reconhecerão e tomarão ciências que, embora queiram o mesmo objetivo, cada grupo tem suas preferências. Enquanto não forem criadas as condições históricas, ocorrerão martírios dos que expressaram seus sentimentos ou se juntaram para os realizar. Assim ocorreu em Minas Gerais, quando um grupo de pessoas se sentiram prejudicados pelos altos impostos que tinham que pagar à Coroa portuguesa, e formaram uma conjura, a qual não foi bem-sucedida, foi abortada por traidores, e que ficou famosa pela coragem e adesão idealista do menos “importante” participante do grupo, o militar Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, a quem foi dirigida toda a vingança dos portugueses que se sentiram traídos por aqueles inconfidentes. É que aqueles eram bem situados na sociedade, haviam estudado na Corte, eram empregados do Império.

A situação europeia sofre câmbios, os franceses estavam a derrubar seu rei, guilhotinar a nobreza, e na sua Colônia, Portugal escolhe o Rio de Janeiro para nova sede do governo, subtraindo de Salvador da Bahia a movimentação de riqueza que o poder promove e, com isso afeta os ganhos da população liberta que atendia as necessidades de luxo e festas a que estavam familiarizados. Esse empobrecimento fez aflorar as insatisfações da população, inclusive dos artesões, especialmente dos costureiros. Percebem, alguns setores, ser necessário responder a afronta. Mas, exceto alguns padres, estudantes, os envolvidos eram os pobres, os invisíveis da sociedade, os quais não estavam organizados para a tarefa da separação. Ingênuos foram facilmente dominados. Os que faziam parte da bolha do poder por laços familiares puderam safar-se da repressão violenta e fatal que atingiu Manuel Faustino dos Santos, o alfaiate João de Deus, o soldado luís Gonzaga das Virgens, Lucas Dantas. A sua condição social permitiu a severa repressão e a justificativa das penas de degredos daqueles de melhor posição social.

A chegada da família real portuguesa, escapando do Bloqueio Econômico estabelecido por Napoleão Bonaparte contra os ingleses, além de promover o embelezamento e crescimento do Rio de Janeiro, causou insatisfação em outras regiões do país, pois que sentiram que pagavam impostos que revertiam em benefícios para o Rio de Janeiro. Principal prejudicado na equação de tornar o Brasil sede da monarquia portuguesa, o Norte, liderado por Pernambuco levantou-se em brado republicano, orientado pelos ideais franceses e estadunidenses, em 1817. Inicialmente vitorioso, a República que unia Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará, teve curta vida pois lhe faltou o apoio do povo, dos escravos. Embora o movimento lhe fosse simpático, a população que não era intelectual como os padres, comerciantes, proprietários ou soldados, não tomou as armas em sua defesa, os líderes da Revolução de 1817 escolheram manter os escravos que esperavam a liberdade, a ter um exército. Mas o movimento de 1817 resultou na Convenção de Beberibe, definidora da expulsão do exército português em outubro de 1821. Gervásio Pires Ferreira governou Pernambuco independente até que setores da elite açucareira associaram-se ao projeto de José Bonifácio e Dona Leopoldina e Dom Pedro, elegendo uma Junta Governativa formada por representantes da agricultura, A Junta dos Matutos, a 23 de setembro de 1822. Em dezembro, ocorreu a aclamação de Dom Pedro, como imperador, no Senado de Olinda. Gervásio Pires foi aprisionado na Bahia pelo General Madeira que o enviou para Lisboa.

E se a Revolução Pernambucana de 1817 abriu o caminho para independência que veio a ocorrer em São Paulo e Rio de Janeiro, nas regiões onde as tropas portuguesas estavam estruturadas e em convênio com as elites locais, como foi o caso do Maranhão, o povo, escravo e livre assumiu que devia lutar para a expulsão dos portugueses, como aconteceu na região fronteiriça entre Piauí, Maranhão e Ceará, próximo ao Rio Jenipapo. O povo com seus instrumentos de trabalho enfrentou tropas portuguesas, e cerca de mil brasileiros marcaram a terra com seu sangue. A Batalha de Jenipapo, com todo o seu heroísmo na construção e defesa da Independência, é outro Invisível em nossa história, pois são heróis sem nome de nobreza, exceto a de serem humanos e amantes da liberdade. O povo daquela região não ficou “deitado” às margens do Jenipapo, elas não eram “plácidas”, foram campo de batalha.

Vez por outra vem a pergunta sobre a não celebração da Convenção de Beberibe e a grande festa que os baianos realizam no Dois de Julho, celebrando a sua independência. O segredo baiano é que a sua independência foi resultante de batalhas que envolveram as catadoras de mariscos, escravos, indígenas, jovens, mulheres como Felipa e Maria Quitéria. Todos guiados pelos índios, pelos caboclos, enfrentando as tropas do general Madeira. Salvador foi o último reduto português a ser derrotado para formar o Brasil. O povo tem que ter tido parte para poder reconhecer-se como parte da construção, a independência gerada pelos baianos foi na luta, não nas conversas de gabinetes. Aliás foram essas conversas de gabinetes, esse afastamento do povo, que tornaram Dom Pedro um estranho, mas tão estranho ao povo que se viu expulso do Brasil, viu-se forçado a “abdicar” em 7 de abril de 1931.

 Os anos que se seguiram foram anos de luta entre os “proprietários do Brasil” em busca de um acordo que evitasse a dissolução do império, procurava-se aparar as arestas entre o Rio de Janeiro e as demais províncias. Neste período ocorreram revoltas e levantes, como a dos charqueadores do Rio Grande do Sul (Farroupilhas -1835-1845), os Liberais em São Paulo e Minas Gerais (1842); também existiram revoltas de cunho mais popular como a Balaiada no Maranhão (1837) e a Cabanada (1837-1847) no Pará. O acordo veio com o reconhecimento da maioridade concedida (1840) a Pedro de Alcântara que passa a imperar como Pedro II. E foram promulgados atos como a Lei de Terras (1851), restringindo o acesso à propriedade a quase totalidade da população, pois que exigia ser a terra comprada em moeda e registrada em cartório. É nessa década que o Sete de Setembro começa a ser comemorado como data comum, como data nacional em louvor da Independência do Brasil. Mas essa disposição jamais impediu os baianos saírem às ruas de Salvador para lembrar seus feitos e vivar o Caboclo.

Vivia-se o tempo da expansão da indústria europeia, e o sistema econômico, que até então havia vivido com a exploração do trabalho escravizado, exigia o fim da escravidão humana como principal fator de produção de riqueza. Nos Estados Unidos da América do Norte ocorreu uma guerra civil (1850-1855), enquanto no Brasil foi estabelecido o fim do tráfico internacional de escravos, que pode ser considerada como uma forma de retardar o fim da escravidão. Seguiram-se outras leis protelatórias: a lei do Ventre Livre (171) e a lei do Sexagenário (1885), até que veio a Lei João Alfredo ou Lei Áurea, em 1888). Era o receio de que os novos homens livres viessem a pleitear direitos de cidadania. Já estava imbuído o preconceito negativo contra os africanos e seus descendentes brasileiros, a quem sempre foi negada a liberdade. Enquanto isso levas de europeus foram desempregados foram recebidos no Brasil, com apoio e ajuda governamental. E assim terminou o império dos Bragança que, com criaram um estado de exclusão social, no qual a maior parte dos brasileiros não são convidados a participar. Quando o Império, forçado pelas circunstâncias históricas decidiu o fim da escravidão, o regime que possibilita a um homem ser proprietário de outro, os senhores da terra auxiliaram o exército a iniciar uma nova fase da trajetória histórica brasileira: a República.

Repetiu-se em 1889 o gesto de 1831: afasta-se o imperador. A República livra-se do imperador e da nobreza, deseja fazer um governa que seja comum, do povo, uma coisa pública. Mas os primeiros quatro anos foram de guerra intestina pelo poder até que se firmou o poder dos senhores de terra e de café, enquanto Brasil a dentro o povo reivindicava a sua participação dos negócios. Assim aconteceu em Canudos, no Raso da Catirina, ao negar a forma excludente como se organizou a República, e que se viu massacrado a pedido do grande proprietário, o Barão de Jeremoabo; ou guerra dos Muckers que, na região fronteiriça do Paraná com Santa Catarina, viu-se despojado de direitos sobre a terra onde morava, diante do avanço indiscriminado da ferrovia, sempre beneficiando os senhores da terra. Também nas capitais, com governantes ansiosos em torná-las sempre mais semelhantes às modernas cidades europeias, abrindo espaços, demolindo prédios que, se eram ocupados pela elite durante o império, foram abandonados, sendo alugados aos pobres recém libertados da escravidão. Aquela população urbana teve que seguir os passos dos sobreviventes de Canudos, levados à força para a capital federal para assumir serviços caseiros de militares graduados, quando não para alentos sexuais. Ocupam os morros, iniciando pelo da Favela, onde foram despejados soldados rasos que lutaram no Sertão baiano e o canudenses que escaparam da “gravata”. Ainda no início do século XX, os moradores do Rio de Janeiro assistiram a luta dos marinheiros, em sua quase totalidade, descentes de africanos, para pôr fim aos castigos físicos a que eram submetidos para que os oficiais pudessem continuar a tradição do “tronco”, como costumavam fazer seus pais e avós nos terreiros de suas fazendas de açúcar o café. Na sua luta por direitos, o povo excluído foi usado como massa de manobra por facções políticas, sendo levados a recusar a vacina que lhes salvaria do contágio da Febre Amarela, comportamento ainda hoje usado pelos setores mais toscos da dita elite nacional. E a Revolta do Vintém apresenta o povo em sua luta para deslocar-se de suas casas para os locais de trabalho. Fatos como os citados acima, que você encontra nos livros de história do Brasil (eles contam de preferência os fatos do Rio de Janeiro e São Paulo) ocorreram no Recife, em Salvador, Belém do Pará e quase todas as capitais no início do século XX. Era o povo criando a sua independência dentro do Brasil do Sete de Setembro, sem negar o Sete de Setembro, mas vibrando com ele, pois nele encontravam a força comum.

Afastados dos centros das capitais, o povo a ele voltava e volta sempre com as suas criações. Em Pernambuco inventa o Frevo, os blocos de rua, que as transformavam em seus salões de dança, como o fizeram em Salvador e no Rio de Janeiro. O tempo do domínio dos proprietários de terras produtoras de Café, o tempo da República do Café com Leite foi o tempo em que, sem escolas, o povo se alfabetizava nas escolas de samba, nos blocos e clubes carnavalescos, contando a história do Brasil em seus desfiles. O Frevo, o Samba são gritos de independência, independência dos modos europeus assimilados pela elite governante. Os jovens paulistas da Semana de Arte Moderna, estavam perambulando em Paris enquanto o povo fazia suas aquarelas, e se surpreenderam quando entraram em contato com a arte brasileira.

Um paradoxo brasileiro é o carinho que o povo brasileiro dedica ao ditador Getúlio Vargas, mas não apenas ele. A dita Elite evita falar mal do ditador Vargas, o “velhinho” que teria garantido os direitos trabalhistas, auxiliando os trabalhadores a serem mais independentes dos patrões, agora limitados por alguns leis que os impedem de tratar operários livres como escravos seus. Se essas leis foram mais um “Sete de Setembro” ara os trabalhadores urbanos, os trabalhadores rurais de Pernambuco viram-se independentes dos Barracões de Engenhos e Usinas apenas em 1961. O Sete de Setembro das empregadas domésticas só ocorreu no início do século XXI.

Sete de Setembro é um símbolo que lembra a nossa independência de Portugal, mas parece ter sido criado para o benefício de um grupo de nossa sociedade. Historicamente ele vem sendo, não ressignificado, mas enriquecido por novos significados e estava sendo, cada vez mais parte da tradição brasileira, tendo passado por várias ditaduras que, mui sabiamente, souberam cultivar essa data como uma data de todos os brasileiros, pois entendiam, como os fundadores do Império e da República, ser impossível o Brasil sem esta data comum, sem esta festa comum. Ela exerce o papel fundamental na sociedade criada pelos grandes proprietários, mas que vem sendo modificada, por um povo que se quer ativo participante da vida nacional. Ainda quando reconhece os limites da independência, os limites da abolição, e expressa esses limites com O Grito dos Excluídos, a Marcha dos Sem-terra, jamais propuseram uma divisão do país, da Nação. O que se deseja é fazer crescer a unidade nacional. Fez isso quando voltou a cantar o Hino Nacional em suas manifestações, dizendo aos militares ditadores que o Hino é Nacional, não dos soldados. Vi isso quando tentaram tomar o caixão do Padre Henrique em 1969, e os militares recuaram enquanto o povo trocava o Prova de amor maior não que doar a vida pelo irmão pelo Ouviram do Ipiranga. E cada um com a minha idade tem alguma experiência semelhante, pois este povo “não foge à luta”.

E o que estamos vivendo nesta Semana da Pátria não é bem a alegria da unidade nacional, mas o temor de que, um militar malformado e mal expulso do Exército Nacional, tendo galgado a presidência da República, está nos fazer temer. Não respeitar os símbolos nacionais é negar respeito à história dos brasileiros. Vivemos um momento difícil, é que um setor da dita elite brasileira entende que o acesso da população brasileiros aos bens por ela produzidos é a negação da pátria. Assim pensavam seus tetravôs e tetravós sociais em 1850, seus trisavôs e trisavós em 1888, mas o Brasil, apesar deles, continuou e continua sua trajetória em direção à liberdade, à independência. Digo “tetravós sociais”, pois eles foram acolhidos no Brasil, buscando oportunidades que a Europa não provia à época. Seus tetravôs e tetravós eram tão pobres como os pobres que ainda temos no Brasil, esses celebram todas essas tradições que nos tornam um povo de formação múltipla, que acolheu a todos que aqui chegaram. Celebramos dessa parte que veio, como livres, formar o Brasil; também celebramos as dores e as alegrias dos africanos que vieram escravizados e agora celebram a construção da liberdade; e celebramos os primeiros habitantes dessa terra, os povos originários, dos quais somos filhos que lhes tomamos a terra e temos o sagrado dever de protegê-los e mantê-los para nos mantermos, como povo, como Nação.

A todos, uma Feliz Semana da Pátria.

Bibliografia

BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio.

CALDEIRA, Jorge. História da riqueza no Brasil. Coinco séculos de pessoas, costumes e governos. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2017;

GOMES, Laurentino. Escravidão: da Independência do Brasil à Lei Áurea. Volume III. Rio de Janeiro: Globo Livros. 2022.

GUERRA, Flávio. História de Pernambuco. Recife: Editora Raiz Ltda, 1984.

PINHO, Wanderley. A Bahia: 1808 -1856 in História Geral da Civilização Brasileira, O Brasil Monárquico. Sérgio Buarque de Holanda (organizador). Tomo II, Vol. 2. São Paulo: DIFEL, 1972.

OLIVEIRA, Marcus Vinícius de Faria et al. Brinquedos e brincadeiras populares: Idenrtidade e memória. 2ª edição.Natal: IFRN Editora, 2010. 

QUINTAS, Amaro. Agitação republicana no Nordeste. In História Geral da Civilização Brasileira, O Processo de Emancipação. Tomo II, Vol. 1. São Paulo: DIFEL, 1970.

SILVA, Severino Vicente da. Economia e formação sociais no sertão nordestino na segunda parte di século XIX in A Igreja e a Questão Agrária no Nordeste, subsídios históricos. Severino Vicente da Silva (organizador). São Paulo: Edições Paulinas, 1986.

—         Festa de Caboclo. 2ª edição. Olinda: associação REVIVA, 2012.

SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira ou como o país se deixa manipular pela elite. 2ª edição. Rio de Janeiro: Editora Leya. 2018.

Olinda, Patrimônio da Humanidade

quarta-feira, agosto 17th, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Então, a gloriosa cidade de Olinda, fundada por Duarte Coelho e Dona Brites Albuquerque, no longínquo século XVI, tem aniversário específico neste ano que o do bicentenário do Estado brasileiro. Da pequena vila crescida nas terras anteriormente ocupadas pelos Caeté, formou-se uma cidade e uma sociedade a partir da produção de açúcar de cana, uma atividade trazida da Ilha da Madeira, local dos primeiros experimentos portugueses na produção da especiaria que fez a riqueza de Portugal e de Olinda. No período inicial do declínio do império português, Olinda viu-se in vadida pelos holandeses, com os quais os portugueses mantinham relações comerciais e de amizade. Mas, a dedicação religiosa do rei Dom Sebastião permitiu que a coroa lusitana fosse arrebatada pelo império espanhol, então em guerra com os Países Baixos, que aceitavam a autoridade espanhola, desde que lhes fossem assegurada sua liberdade religiosa. Mas a política centralizadora de Felipe II levou à guerra. É nesta guerra que Olinda, então o maior centro urbano português na América, viu-se acossada e dominada pelos soldados contratados pela Companhia das Índias Ocidentais Holandesa, e teve parte de seu rico patrimônio destruído em incêndio. Pedras tiradas do casario de burgo olindense foram utilizados para construir novos espaços no Recife, então porto a serviço do comércio do açúcar, riqueza local e dos comerciantes holandeses.

Após a expulsão dos invasores, Olinda esforçou-se para voltar a brilhar, renovou seu casario, ocupou a colina onde estabeleceram-se os beneditinos, criou um palácio para os governadores, mas a riqueza encontrava-se no antigo porto, que crescia e sua sombra deitava-se sobre Olinda. Esvaziada, a cidade mantinha a sede do episcopado e sua catedral, o colégio dos jesuítas, mais tarde feito Seminário que recebia estudantes das capitanias vizinha. Carmelitas, franciscanos mantiveram suas casas em Olinda, embora cuidassem de estabelecer-se no Recife, que mais tarde tornar-se-ia cidade e capital da província, já no Império. Olinda continuava com suas procissões que atraiam os recifenses, e este lutavam para não precisarem deslocar-se até Olinda para os atos religiosos. O crescimento urbano criou condições para que os dois burgos realizassem seus atos de sociabilidade e de fé religiosa.          

Esses caminhos históricos favoreceram a preservação do patrimônio físico e espiritual da Marim dos Caeté. A quietude do tempo, das pessoas favoreceu que, apesar dos conflitos, Olinda mantivesse sua identidade colonial nos espaços das colinas. Tornou-se desde então local de repouso, de refrigério dos recifenses que passavam temporadas nas casas coloniais ou nos pequenos palacetes erguidos próximos às margens do rio Beberibe. Na segunda metade do século XX Olinda viveu uma expansão populacional e, em decorrência de questões políticas, acolheu muitos artistas plásticos que já encontravam espaços no Recife que perdeu parte do seu humor a partir de 1964. Olinda tornou-se uma festa permanente, e a recriação do carnaval deu um novo fôlego à cidade e uma nova visibilidade. Foi observado pelo poeta que “Olinda é só desejos, ninguém diz é lá que eu moro, diz apenas é lá que eu vejo”.

E o que se vê em Olinda? A história, desejos realizados ou não; vê-se o tempo passar lentamente, vê-se o tempo passando. Vê-se a história de um povo, de vários povos que formaram uma nação. Vê-se o desejo dos senhores de engenho em ter casas fortes e permanentes para que sua riqueza seja vista e admirada; em Olinda vê-se os caboclos a nos lembrar dos índios, os índios que viviam fora da cidade, lá para bandas de Guadalupe, perto da estrada que levava à Paraíba; vê-se o trabalho dos negros, africanos escravizados que serraram as madeiras para sustentar as casas dos homens e as casas que dizem ser de Deus. Em Olinda vê-se a história do “mundo que o português criou”, no dizer de Gilberto Freyre. Mas a Organização das Nações Unidas para a Ciência, Cultura e Educação viu que em Olinda é tangível a história da Humanidade.  Andar em Olinda é caminhar nos séculos anteriores e surpreender-se pensado o quanto custou construir e preservar, manter livre da possiblidade destruidora do mundo moderno, e pós-moderno. O moderno que tudo quer construir aos seu modo, destruindo os modos dos outros, e o pós-moderno dizendo que nada precisa ser conservado, pois tudo pode ser refeito e, para isso é necessário desfazer o feito.

É provável que nem todos moradores de Olinda, nascidos em Olinda ou os que a escolheram e foram acolhidos por ela, saibam que faz Quarenta anos que a UNESCO reconheceu que Olinda é um patrimônio da Humanidade e, ao reconhecer este fato, disse aos olindenses: vocês devem cuidar desse patrimônio para que os homens e mulheres que aqui não vivem, possam vir e compreender o que significam essas pedras, essas ruas, esses prédios residenciais, essas igrejas; esse patrimônio foi-lhes dado pelos seus ancestrais e cabe a vocês cuidar dele para que os nossos descendentes compreendam como o trabalho dos homens e mulheres, como os seus desejos, como as suas religiões, cada uma com os seus deuses cooperaram para que Olinda tenha a “paz dos mosteiros da Índia” e barulho das alegrias de todas as raças.

Cuidemos do nosso Patrimônio. Um deles, o Arquivo Público, está a definhar pela incúria dos que governaram e governam Olinda.

Mulheres e Homens Maravilha

quinta-feira, julho 28th, 2022

Mulheres e Homens Maravilha

Prof. Severino Vicente da Silva

         Creio ter havido um tempo no Recife dominado pela Turma do Flau. Foi um tempo anterior ao Estatuto da Criança e do Adolescente, o tempo que preparou o processo de debate que levou ao Estatuto de que protege a criança e o adolescente. Esse tempo da Turma do Flau está muito ligado à história de Brasília Teimosa, esse bairro criado pelo excluídos, que se meteu bem no começo da Praia do Pina, vizinha à Praia de Boa Viagem. Teimosamente, os que não quiseram ou não puderam ir participar da construção de Brasília, a capital que teria sido profetizada por Dom Bosco, e que estava prevista nas constituições do Brasil, e que entrou sem programação na campanha de Juscelino Kubistchek, construíram a sua Brasília, derrubada e levantada a cada semana, teimosa como o desejo da vida por viver, como explicou aquele físico ganhador do Prêmio Nobel. A vida surge por acaso, mas se mantém por necessidade de estar viva.

            A Turma do Flau é resultante dessa teimosia da vida que explodiu no Recife dos anos cinquenta. Eram muitas crianças que ficavam o dia todo sem fazer nada, exceto brincar e gerar preocupações nos pais que saiam para procurar um biscate, um trabalho capaz de assegurar a alimentação diária. Os pobres sabem o que realmente significa “dá-nos, hoje, o pão de cada dia”. No tempo da ditadura, apareceu uma freira, Ir. Aurieta, da Congregação de Jesus Crucificado, que iniciou um grupo de jovens na produção de e venda de picolés. Flau era o nome que foi dado ao picolé. E então foi um caminho para que crianças e adolescentes começassem a ser vistos com uma caixinha, feita de isopor, a vender picolés. E então começaram a reproduzir grupos semelhantes que, depois de algum tempo, não valia a mais sair de casa e da rua para vender picolé. Fenômeno semelhante se seguiu com as padarias do bairro, grupos de famílias se organizavam para produzir pão mais barato. Depois de algum tempo, passou a febre do pão caseiro, também. Mas a Irmã Aurieta ainda continua com a Turma do Flau, não mais vendendo picolé, porém construindo cidadania, acolhendo os mais pobres dos pobres de Brasília Teimosa. Esta é uma mulher maravilha, como Maria de Lourdes, que vive a andar do litoral ao Sertão, debatendo e vivendo a luta pela cidadania das maravilhosas mulheres do povo.

             Cinquenta anos depois de iniciada a organização dos meninos pobres da pobre Brasília Teimosa, Ir. Aurieta sabe que os pobres existem porque eles são produzidos, não malthusianamente, mas de modo quase sistemático, por um sistema de dominação. Aurieta, Lourdes, Dulce, Tereza continuam a cuidar dos pobres, e tantas outras mulheres e homens, como Luiz Tenderine, Romano, Lancelotti.  Antes desses houve muitos que cuidaram dos pobres, desejando diminuir o seu sofrimento, dando-lhes algum alento. Depois deles virão outros com semelhantes desejos e, como eles sofrerão por sentirem-se impotentes contra o modo de viver que produz a pobreza, que leva os pobres à miséria.

            Outro dia comentei que poucas pessoas fazem relação entre a acumulação da bens com a produção da pobreza. Sim, era uma pessoa de curso superior, com diploma guardado em alguma gaveta ou pendurado na parede do seu quarto pessoal. “Pobres sempre os tereis”, disse o Mestre que as pessoas citadas seguem. “Eles não sabem o que fazem” disse o mesmo Mestre, pois sabia que pouquíssimas pessoas fazem relação entre as suas vidas e as vidas dos demais, não querem fazer tal relação. Claro que todos sabemos que todos os atos realizados por um homem, por uma mulher, afetam a vida de todos os homens e todas as mulheres do mundo, pois não somos uma ilha, nos disse o criador de Gulliver, repetindo laicamente o que os religiosos dizem. Ah, neste grupo poucos fazem essa relação, assim como o profissional de formação universitária não consegue fazer a relação do corte do ICMS da gasolina que abastece o seu carro com a situação do ensino básico. A negação da realidade foi a maneira encontrada para a manutenção do sistema produtor de riqueza e pobreza, simultaneamente. A negação da realidade não é uma praga de nosso tempo, ela tem perpassado a vida do Homem Que Sabe. Sabe e sabe negar. É quase instintivo, mas é só reprimido, ensinou o barbudo de Viena.

            Em todas as sociedades humanas encontramos diferentes formas de desigualdade, mas a sociedade que vem se formando, de maneira mais explícita nos últimos trezentos anos, estar a criar e aprofundar noções como Direitos e Deveres, alguns sociais para além dos pessoais, também reconhecidos nos últimos séculos. “Nós todos já nascemos com direitos” disse a mulher defronte do morro deslizado que matou alguns dos seus familiares e acabou com a casa de sua mordia; “Estamos perdendo nossa dignidade”, disse ela, mas aí devia dizer: estão tirando a nossa dignidade, a nossa humanidade. Essa mulher é resultante das transformações sociais dos últimos trezentos anos, as suas frases não seriam ouvidas no na civilização do francês Luiz XIII, do mongol Gengis Kan, do grego Sócrates, do egípcio Putifar. As palavras daquela mulher dizem que pode haver, que há outra maneira de viver, que é reconhecendo a existência do outro e seus direitos. Se não desejarmos e fizermos este caminho que faz medo, caminharemos para a destruição.

            Negar o saber, negar a possibilidade do outro viver, é caminhar para a destruição da vida. Tomara que Jacque Monod tenha razão e os homens decidam pela necessidade de manter a vida.

A Sednhora do Carmo e o Vampiro da história

sábado, julho 16th, 2022

É dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira do Recife, ao lado de Santo Antônio, mais antigo e tornado soldado protetor. Essas homenagens e esses dias de glória e festejos dedicados aos santos protetores, vêm de um tempo mais religioso, mais festivo e, como era menor o número de habitantes, menores as possibilidades de divertimento, as homenagens pareciam ser maiores, mais concorridas. Antes, toda população era da mesma religião, pois que ela era oficial; antes todos os comerciantes faziam questão em tomar em suas mãos, ainda que por pouco tempo, o andor que levava o santo a andar nas ruas da cidade que protegia. Novos tempos, novos costumes, novas fidelidades. A cidade cresceu, outras religiões e outros santos vieram fazer companhia aos católicos, e cresceram de tal modo, que ouvi, recentemente, um babalorixá dizer que “os católicos deviam nos agradecer, pois nós fazemos propaganda dos santos deles, pois em certos dias nós vamos às suas igrejas rezar para os nossos orixás”. E a Senhora do Carmo que foi posta como padroeira, a apedido dos comerciantes, hoje vem se tornando avatar de Oxum, o orixá da riqueza. E os pobres da periferia, completam todos os bancos da Basílica. De acordo com o babalorixá, se houver algum católico, não encontrará local para assento. São novos esses tempos.

São tempos de espetáculos. Aliás, o filósofo francês que participou do espetaculoso maio de 1968, sabe que a vida sempre foi um espetáculo, desde os tempos faraônicos. Os mais abastados, ou seja os que tomaram para si o que todos produziam, sempre vestiam-se para apresentar um espetáculo, sempre prontos a mostrar o quanto riqueza produzida por tantos, foi drenada e, em determinados momentos festivos, os que a produziram podem dela usufruir pelos olhos, admirando – mirando de longe – o que eles fizeram e não podem tocar. Foi sempre assim. O espetáculo da fé, o espetáculo do poder. Nestes dias atuais, a novidade é que o povo também se enfeita e sai para se mostrar, ser visto como sendo acumulador/portador de riqueza. As bijuterias, roupas que parecem com aquelas usadas pelos reis, pelos nobres, estão no corpo do povo, que parece rico. Charmosamente chanelianos. Antes era o carnaval que servia para esse espetáculo popular, esta festa do mundo ponta cabeça; nestes tempos, o carnaval é um detalhe, pois todos os dias são de espetáculos, não do povo, mas desse grupo que não se quer povo, mas não consegue ser o sacerdote, nem o rei, de modo permanente. No carnaval o povo não se engana, ele sabe, ou sabia, que tudo terminava na Quarta Feira ouvindo o padre dizer que ele era apenas pó. Um pequeno lembrete sobre a provisoriedade desta vida, que é necessário ser humilde diante do tempo infinito que é a eternidade. Mas, quem leva à sério o que diz o sacerdote? Melhor esquecer a eternidade que começa com o fim do tempo que se vê passar, e viver a eternidade que dura o tempo presente. Ainda que este tempo seja duvidoso e que tem a certeza do seu fim.

Os séculos foram de guerras, os livros de história estão repletos de heróis cujos feitos foram levar homens aos campos de batalhas, vê-los matar-se mutuamente. Assim forjaram as nações, os impérios que eram tão grandes quanto o número de mortos que deixavam nos campos. Quantos poemas dedicados à morte e àqueles que levaram os jovens para morrer ou matar, tirando-os dos braços de suas amantes. Esses cantos de morte encantavam mulheres que perdiam a oportunidade de viver por mais tempo um grande amor. Alguns casais abraçavam-se durante a véspera da viagem, da batalha ou da morte. E faziam a glória dos heróis e construíam as pátrias. As nações sempre foram construídas com cadáveres. Continuam a existir essas fábricas de heróis, e com elas e eles, a fome endêmica, também geradora da morte. Milhões de pessoas morrem de fome no mundo, milhares de pessoas morrem em cada país e, nessa guerra silenciosa, há novos heróis que não montam cavalos, não vão aos campos de batalhas, como aqueles louvados por Heródoto, Tucídides e tantos outros. Os campos de batalhas são, hoje, as casas de câmbio, as bolsas de valores. Na verdade elas sempre estiveram lá, dissimuladamente. Para conseguir dinheiro com o objetivo de fazer uma guerra na Irlanda, Carlos I arrastou-se até o Parlamento e ouviu um não. O “não” pronunciado pelos Comuns anunciou a Guerra Civil e, essa matança provocou um novo modo de governar a sociedade. A defesa dos interesses de nobres e clérigos de alto escalão levou à revolução na França e a matanças para que fosse criado um mundo de fraternidade. Muitas mortes levaram à República na América de Norte e, mais morte ainda para que fosse estabelecida o fim da escravidão dos negros no país da liberdade. Como disse Michelet, “a história é um vampiro”. E, no entanto, a história é os homens em movimento, não é uma ideia.

O vampiro não é a ideia da história, mas o homem que faz a história, dominando as plantas, os animais, todos os seres vivos que estão na terra, os domina e os mata, e vive, tem vivido, dessa matança. Essa guerra que sempre se pensou que fosse contra o inimigo da tribo, do clã, da pátria, da nação, tem sido uma guerra contra o planeta. É tempo, já é tempo, de os homens pararem de se destruir, de lutar para acumular riquezas levando o planeta, com todos os seres que nela vivem, inclusive ele, à morte.

Os carmelitas têm como patricarcas dois profetas: Elias e Eliseu. Elias, o maior dos profetas, entre suas ações está o sacrifício de dezenas de sacerdotes de Baal, após manifestar a força e poder de Javé. Elias, parece, não morreu, foi arrebatado aos céus em carruagem de fogo.

A encruzilhada do Antropoceno

sábado, julho 2nd, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Acontecimentos estranhos ocorrem a cada momento na face da terra, como se fora dela haja ocorrências que não parecem comuns, pois o incomum sempre é percebido pelo humano e a partir de suas experiências. Talvez, no universo material estudado por Isaac Newton e, depois por Einstein, as ocorrências não se repitam, mas elas, talvez, não se percebam como extraordinárias. O mundo físico é muito ordinário. Nossa parte física é bastante ordinária e, até mesmo se pode prever o que ocorrerá com ela no seu processo em direção da degeneração. Claro que não é destruição, mas ocorrerão transformações na matéria que parece ter acabado. Mas se pensarmos no mundo que não natural, esse criado pelos homens e mulheres ao longo desse período hoje chamado de Antropoceno, podemos intuir que algo poderá mudar. Mas em que direção?

Em que direção caminharam os antigos egípcios para se tornarem uma potência, dominando alguns povos vizinhos? Quais caminhos foram criados pelos caldeus, assírios e tantos outros povos que procuraram entender de onde vieram, e para que existiam. Pelos testemunhos do que restou de suas culturas e sistemas de vida, podemos induzir que eles entendiam que aqui estavam porque alguma divindade os colocou com o intuito de que lhes prestassem homenagem, dominassem os seus vizinhos, sempre definidos como inimigos da humanidade, entendendo-se como humanidade o conjunto de normas e comportamentos que estabeleceram para suas vidas.

 Ao termo de algum tempo esses e outros povos deixaram de existir fisicamente, mas suas experiências ficaram guardadas, de modo inconsciente, por seus sucessores. Sim, seus sucessores fizeram com eles o que eles fizeram com seus vizinhos. Ocorreu o mesmo com povos de todos os continentes. Mas, como estavam muito isolados, não se conheciam e, para as mesmas perguntas encontraram respostas semelhantes, mas não iguais. Sim, também os povos pré colombianos. Mas todas essas culturas têm em comum o fato de serem animais, seguindo as normas da natureza em seu ciclo vital. Uns sucumbem para que outros continuem a existir. O que parece separar os homens dos demais animais é que, em sua organização parece existir uma norma que os levam a jamais estarem satisfeitos com suas realizações. Depois de dominar os animais diferentes de si, resolveram dominar os animais semelhantes a si. Dessa forma criaram as mais diferentes justificativas para explicar suas ações de domínio. Viviam tranquilos por estarem separados e intranquilos por temerem ser atacados pelos inimigos distantes. Sim, inventaram essa palavra justificativa e permissiva. Os homens permitiram a si mesmos a possibilidade de anular o inimigo, aquele que não reconheciam como igual. E Alexandre foi até à Índia em busca do inimigo. No Antropoceno tudo que diferente torna-se inimigo, portanto, próprio para o extermínio.

Essa situação de buscar o inimigo acentuou-se nos últimos séculos, exatamente os séculos de maior aproximação, pois nesses séculos a natureza foi “totalmente” dominada: na terra, onde milhares de animais já foram extintos para que o homem tivesse onde morar e espaço ´para arrancar do seio da terra as riquezas ali guardadas; nos mares, onde seus navios levam barulhos estranhos que impedem a comunicação entre os animais marinhos, e que também caçam para sua alimentação, e jogam o óleo gerado da morte de seres que viveram em tempo anterior ao Antropoceno, causando a morte de milhares de animais, mas isso também está concetado ao desejo de comunicar-se com o outro; no ar onde a fumaça gerada pela queima de material fóssil suja a atmosfera e a perfura com favorecendo a antecipação da morte da terra, a casa comum dos homens e mulheres, conforme a definição dada por Francisco, Papa dos cristãos católicos.

O século XXI tem sido a explicitação de que a vida se consome na produção da morte, não importa que as justificativas das ações humanas sejam religiosas ou não. Nesta fase do Antropoceno, as justificativas religiosas são dadas pelos que não frequentaram as escolas, nestas se ensina que os deuses e as religiões são desnecessários ou desnecessárias.

Há muitas guerras em andamento, neste instante. A mais famosa é entre a Federação Russa e a Ucrânia. Em verdade, está se travar uma guerra entre a concepção de humanidade que o Ocidente (União Europeia, Estados Unidos da América do Norte) e a concepção que o Oriente (Federação Russa, China). É a sempre presente ideia de que meu inimigo deve morrer. Estamos, no século XXI DC, com conceitos extremamente semelhante ao modo de Hamurabi que se proclamava Senhor dos Quatro Cantos da Terra.

Quando refletimos e estudamos essa situação com uma distância razoável, e modo que os misseis não nos alcancem, o fazemos racional e tranquilamente, mas se esse modo de pensar começa a ganhar espaço na sociedade em que vivemos, como está agora acontecendo no Brasil, o medo nos assalta. Nem percebemos que estão a destruir o que de melhor foi criado no Antropoceno, o esforço de, no meio da exploração constante do homem pelo homem, recriar a humanidade com os valores de respeito ao outro, de aceitação do outro, da compaixão tornada forma legal de comportamento. Desenvolvemos a compaixão pelas crianças nascidas com deficiências, não mais aceitamos como norma social abandoná-las ou vende-las; definimos que a tortura, ou seja, o uso de violência contra uma pessoa impossibilitada de defesa, como crime; estamos a criar um novo patamar nas relações entre os sexos; buscamos inibir a violência por motivações religiosas, regulamos as maneiras de estabelecer contrato de trabalho com o objetivo de diminuir a exploração do homem pelo homem; as nações celebram contratos de convivência e cooperação, e tantas outras conquistas e vitórias sobre os comportamentos que hoje consideramos barbárie. Mas falta muito para que superemos esse amanhecer da humanidade. E os estudiosos do Antropoceno nos apontam que esses comportamentos continuam a ser ideais a serem conquistados, enquanto isso, os inimigos da civilização continuam a nos amedrontar.

Até quando o Antropoceno será o causador do fracasso da vida?