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ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO DO PADRE REGINALDO VELOSO

sábado, maio 21st, 2022

ALGUMAS PALAVRAS EM TORNO DA VIDA E DO TEMPO VIVIDO PELO PADRE REGINALDO VELOSO.

Prof. Severino Vicente da Silva

Desde a Páscoa que o Padre Reginaldo Veloso foi hospitalizado e, na madrugada de ontem, realizou a sua Páscoa, Como escreveu a sua esposa, está com Papai do Céu.

Conheci Reginaldo quando ele era um dos padres que atendia a Paróquia da Macaxeira, juntamente com Padre Adriano. Esses dois padres são marcos de uma época, do envolvimento da Igreja com os operários. Por motivos diversos, dizem que os dois “deixaram de ser padres”, o que não é verdade. Adriano decidiu ser operário, tornou-se motorista de taxi, fez da rua o altar onde celebrava diariamente, comungando a vida do povo que escolheu para ser seu, pois não nasceu no Brasil, porém poucos foram tão brasileiros como ele. Como costumava dizer Dom Hélder, há estrangeiros que nasceram na Rua da Aurora e há brasileiros que fora dos limites geográficos brasileiros.

O padre Reginaldo Veloso foi afastado do altar por determinação do Arcebispo José Cardoso, escolhido por indicação de um bispo progressista que pretendia agradar a Pernambuco, apontando para substituir Dom Hélder, um bispo que nascera em Caruaru. Nem sempre o berço é um bom pressagio.

Reginaldo nasceu em família católica e veio a entrar em seminário no Recife, foi enviado para terminar os estudos em Roma, onde estudou História da Igreja, mas foi o serviço litúrgico que o conquistou. Depois de ordenado, passou algum tempo como professor em seminário, depois foi indicado para a Paróquia Santa Luzia, criada no início do século XX, para o atendimento religioso dos operários do Cotonifício Othon Bezerra de Mello, vulgo, Fábrica da Macaxeira. No meu tempo de menino, nós saímos de Nova Descoberta, passávamos pela mata de eucalipto plantada para diminuir os efeitos deletérios que a fumaça da fábrica produzia, para as festas natalinas que ocorriam na praça da igreja. A fábrica empregou muitos que desceram da Zona da Mata Norte e ocuparam os morros vizinhos.

No início do século XX a prática da Igreja foi de colaboração com os industriais católicos que trouxeram da Europa congregações para formar e manter o espírito cristão dos operários. A situação de cooperação foi sendo modificada no pós Segunda Guerra Mundial por diversas razões, entre elas algumas tentativas que a Igreja Católica estava permitindo serem realizadas na França, com os “padres operários”. Reginaldo estava na Europa quando ocorreu essa experiência, talvez tenha tomado notícias dela, especialmente quando foi suspensa por orientação romana após incidente diplomático, provocado pela prisão dos padres. Nunca perguntei a Reginaldo se esse acontecimento afetou a sua atuação, mas o fato é que quando ele foi trabalhar na paróquia da Macaxeira, a situação social pedia outro tipo de sacerdote. No início dos anos sessenta o arcebispo era Dom Carlos Gouveia Coelho, um bispo preocupado com os trabalhadores, como prova o seu empenho com a JOC e o incentivo que deu ao Padre Paulo Crespo para a organização do Serviço de Assistência Rural de Pernambuco – o SORPE.  Às vezes, quase sempre os leigos chegam primeiro, e havia um ativo grupo da Juventude Operária Católica, aplicando o famoso método VER – JULGAR – AGIR, criado pelo padre Joseph Cardjin, a quem deve ser atribuído a criação da Ação Católica, reconhecida pelo Papa Pio XI. Assim, havia um sentimento/ de crítica ao sistema capitalista, também praticado pelo Partido Comunista Brasileiro, também atuante na fábrica. Então veio o Golpe civil-militar de 1964, que desmantelou a atuação da Igreja e dos comunistas na Fábrica da Macaxeira. E é então quando Reginaldo e Adriano estão cuidando dos católicos da região. A disposição dos novos governantes em acabar com o “comunismo” na Fábrica, levou a Fábrica da Macaxeira à falência, como aconteceu com as outras fábricas de tecelagem e fiação em Pernambuco. Aliás esse é um dos benefícios que o Golpe de 1964 garantiu aos pernambucanos. Tem gente que ainda não consegue juntar essas letras.

Enquanto a “redentora” impossibilitava a ação nas fábricas (elas estavam fechando para gáudio do colonialismo interno) o novo Arcebispo, agora Dom Hélder Câmara, animava novos meios de aproximação cristã na sociedade, os movimentos sociais passavam a substituir os sindicatos, agora entregue à pelegada. Entre os movimentos católicos, surgiu a Pastoral de Juventude no Meio Popular – PJMP, que recebia orientação do Padre Reginaldo, que nessa época começava também a exercitar mais os seus talentos de músico e poeta, voltados para compreender e alimentar os desejos do povo, como fazia o Padre Geraldo Leite, que foi vigário em Pontezinha e depois no Morro da Conceição. Reginaldo veio a ser grande amigo e colaborador do padre Romano Zufery que organizou a Ação Católica Operária – ACO, para manter a animação dos operários. Em 1985, quando ocorreu a morte do Padre Romano, Reginaldo assumiu a tarefa e a ACO tornou-se Movimento dos Trabalhadores Cristãos, uma visão ecumênica.

Em 1968, o padre Reginaldo e toda a arquidiocese envolveu-se no processo educacional para que os brasileiros soubessem que, em 1948, o Brasil havia se comprometido em desenvolver condições para que fosse garantido a todos os Direitos Humanos definidos na Organização das Nações Unidas. Foi esse o tempo de pensar nos Direitos da Criança, e o MAC começa ser gestado. Era o tempo do endurecimento da ditadura civil militar. Então Dom Hélder envia Reginaldo para ser o pároco do Morro da Conceição, Santuário de devoção das camadas mais pobres da sociedade recifense. Também foi escolhido para ser o Coordenador da pastoral de Casa Amarela. Nesse período, em diversas ocasiões fui chamado a refletir sobre as questões sociais, econômicas do Brasil e da região, colaborando para o VER. Foi essa a época em que ocorreu o fortalecimento das Comunidades Eclesiais de Base -CEBs, o Encontro de Irmãos, uma maior participação dos leigos na vida da Igreja, seguindo as resoluções do Concílio Vaticano II. A Igreja Católica do Brasil e da América Latina, refletia sobre os acontecimentos, os julgava a partir da leitura bíblica, e agia. E, dessa reflexão, foi sendo formada a Teologia da Libertação, surgia um pensamento teológico para além da experiência dos católicos europeus.

Vivia-se tal situação na Arquidiocese quando ocorreu o falecimento do papa Paulo VI e a nova janela de riso, aberta pelo papa João Paulo, que morreu trinta dias após a coroação. E então um novo Conclave escolheu o primeiro para não italiano em quinhentos anos, e nomeou-se João Paulo, o segundo com este nome.

O Cardeal Wojtyla cresceu na parte do mundo dominada pela União Soviética que não admitia a liberdade de religião, ou mesmo a religião. E claro que as perseguições que o jovem católico vivenciou a perseguição religiosa em sua nação, e isso influenciou a sua percepção de mundo. Em seu pontificado, um dos objetivos perseguidos era derrotar o comunismo, o que viria ocorrer, cedo ou tarde, por questões econômicas e não religiosas. Mas, mesmo os santos, às vezes não cultivam a paciência histórica e desejam o protagonismo. Este desejo de João Paulo II matou (?) os sonhos de católicos na América Latina. Foram desautorizados e perseguido pelas autoridades vaticanas os teólogos da Teologia da Libertação, chamados, constantemente a explicar-se no Discatério da Doutrina e Fé, nome fantasia para Tribunal do Santo Ofício. Não bastou a perseguição dos regimes locais. Padres foram mortos, bispos sequestrados, leigos aprisionados por praticar sua fé, acusados de comunistas. Quando o padre missionário Vito Miracapillo foi expulso do Brasil por não atender o desejo de um prefeito para que celebrasse para honrar um país que deixava seu povo morrer de fome, Reginaldo levanta sua arte e homenageia o padre expulso com a canção Vito, Vito, Vitória. Isso lhe vale a prisão, é preso por afirmar o que a história mostra que a vitória dos homens não é a vitória de Deus. Corria o ano de 1980. Dezenove anos depois, o arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara, retira o padre Reginaldo Veloso da paróquia de Nossa Senhora da Conceição, e retira-lhe a condição de presbítero do Altar. Proibido de ser padre, de celebrar a Eucaristia, o povo do Recife, os jornais do Recife, os não católicos do Recife, os não crentes do Recife, todos continuaram a dizer Padre Reginaldo.  Desmantelava-se Igreja Povo de Deus, proclamada pelo Vaticano II, dominava a Igreja clerical, definida no Concílio de Trento, no século XVI. Parecia que se fechava a janela aberta por João XXIII.

Participei do velório, da queima de velas para iluminar o caminho para a casa do Pai, lembrar a Vela do Batismo, a Vela da Páscoa. As exéquias foram realizadas no Morro da Conceição, mas não foram celebradas na nave do Santuário que o padre Reginaldo cuidou entre 1988 e 1998. Os leigos decidiram fazer esse ritual em uma escola próxima ao Santuário. Vieram muitos padres com vestes litúrgicas para dirigir e celebrar, mas a comunidade decidiu que tudo seria feito pelos leigos, não pelo clero. Três mulheres dirigiram a cerimônia, a Celebração. Um padre representante do arcebispo foi convidado a dizer algumas palavras, e as disse ressaltando as qualidades do padre Reginaldo. O beneditino, padre Marcelo Barros, foi convidado a refletir o Evangelho e, entre muitas palavras, lembrou o Sínodo da Amazônia e a palavra do papa Francisco sobre a necessidade de ampliar a compreensão do sacramento da Ordem. O clima foi de alegria, apesar das lágrimas de saudade. Nenhum dos presentes parecia duvidar que estava acompanhando um presbítero da humanidade, um cristão que não reduz a sua Igreja às determinações clericais. O padre, lembrava Dom Hélder as palavras de pai, o padre é para servir, não para ser servido.    

sábado, maio 14th, 2022

REVISÃO DA HISTÓRIA – De Fátima à Praça do Carmo, da Princesa a Zumbi.

Prof. Severino Vicente da Silva

Ontem foi 13 de maio, terminei mais um semestre debatendo alguns aspectos da trajetória europeia, aquele período que os historiadores brasileiros deram a chamar de Moderno. Fui surpreendido com umas palmas, e com o sorriso alegre dos alunos, até recebi uns abraços. Foi uma turma interessante. Nem deu tempo para conversar sobre o Treze de Maio, data polissêmica em minha formação de cidadão, de professor de história e, segundo dizem, de historiador.

Incialmente, foi-me ensinado sobre o Treze de Maio de 1917, foi o dia em que três crianças, duas meninas e um menino, afirmavam que viram e conversavam com a mãe de Jesus, a Nossa Senhora. O caso ocorreu no lugarejo Fátima, e deu muito o que falar, juntou muita gente, veio o prefeito, o padre, o bispo. Inicialmente as crianças foram mal vistas, tidas como mentirosas, mas aos poucos a comunidade foi aceitando que algo extraordinário ocorria no seu lugarejo. Ontem, o noticiário afirmava que mais de duzentas mil pessoas estavam em Fátima, louvando e venerando a Virgem que apareceu aos Três pastorzinhos.

São muitas as explicações, e maior ainda o número de consequências daquele fato, dadas e vividas na Europa e nas outras partes do mundo desde então. Na sociedade europeia que se tornava cada vez menos religiosa e afastada dos tradicionais instrumentos de educação, como a religião, a visita de Nossa Senhora, era como uma reação da fé ao mundo moderno, às ideias que cresciam de uma possível vitória dos comunistas, em Portugal e no mundo. Os católicos retomaram a reza do Rosário e a veneração expandia-se pelo mundo católico. Cresci praticando a fé com o Terço nas mãos, declinando as Ave Maria necessárias para afastar o perigo do comunismo e trazer a paz para o mundo.  Em minhas andanças na Zona da Mata, à cata da minha história e do meu povo, pude observar que nas portas das casas estava colocada um retrato de Virgem de Fátima, com uma ave maria e o pedido para afastar o comunismo do Brasil. Estavam nas casas mais pobres, mas nas portas das casas do Senhor de engenho, dos donos de fazenda de gado, nas portas dos quartos, nas sacristias das capelas dos engenhos. A veneração a Nossa Senhora de Fátima foi trazida para o Brasil por jesuítas portugueses, perseguidos em Portugal no início do século XX, e, coisa notável, a as mesmas pessoas que sempre desgostaram dos jesuítas nos séculos anteriores, os acolheram e à devoção que traziam.

Mas o Treze de Maio tem outro sentido também aprendido na infância, não nas conversas familiares, mas na escola. O Treze de maio de 1888. Foi na escola que aprendi sobre a Princesa Isabel, a filha do Imperador Pedro II, assinou uma lei que ficou conhecida como Lei Áurea, de ouro. João Alfredo, ministro do Império, pernambucano, casado com uma filha do Barão de Goiana, é que redigiu a lei, simples como milagre. Por ela ficou decretado o fim da escravidão de seres humanos no Brasil, seres humanos que, eles ou seus avós, vieram da África. Aqui chegaram para fazer funcionar os engenhos de moedores da cana para fazer o açúcar, a cachaça, o vinagre, mas as pessoas só lembram do açúcar que vinha do caldo da cana espremida, esmagada, como foram esmagadas vidas daqueles africanos aprisionados em sua terra de origem, e trazidos para os engenhos de Pernambuco e das outras regiões do Brasil. Houve festa em todo o Brasil após a Lei Áurea, até o papa Leão XIII mandou um presente para a Princesa. O fim da escravidão no Brasil parecia um presente que dona Isabel deu ao moradores do Brasil que ainda eram escravos naquele ano. Algum tempo depois é que eu soube de José do Patrocínio, de Cruz de Rebouças, Luiz Gama, Joaquim Nabuco, e fui compreendendo que houve muita luta para que se chegasse a esse fim, e também que havia muita gente não negra, gente que enriquecera comprando africanos e vendendo escravos, interessada no fim dessa prática de transformar seres humanos em animais de carga. Esses conhecimentos foram chegando aos poucos, pois é aos poucos que se conhece a história da família nuclear e da família nacional. Aprendi que meu avô paterno, que não conheci, era preto, e sua esposa, a Vó Florinda, que ainda vi antes que morresse, era uma cafuza de cor negra e cabelo índio. Ainda tenho um retrato dela, ao lado de minha outra avó, quase branca, mas com traços indígenas. Dei-me conta, ouvindo e repensando as conversas mantidas com meu pai, que a história de minha família, como milhares de milhares de outras, é a história do Brasil.

Em 1988, estava trabalhando na Coordenação de Projetos Especiais da Secretaria de Educação da Prefeitura da Cidade do Recife, e a secretária de Educação, professora Edla Soares, orientou para termos atividades em torno do fim da escravidão no Brasil, não no sentido de homenagear a Princesa Isabel, mas de refletir sobre como era a situação das crianças e jovens que frequentavam as escolas do município. Promovemos um seminário que envolveu vários municípios pernambucanos com palestras ditas por professores locais, mas com o a presença de Décio Freitas, que não pode vir; então a secretária convidou um professor, que já recebia um jeton para assessorar a secretaria de Educação, mas ele pediu uma alta soma de dinheiro para substituir o professor Décio. Como coordenador do projeto, recusei pagar ao professor, fiz gratuitamente a palestra. Usamos o dinheiro para coisa mais útil. Também realizamos uma passeata com os estudantes das escolas, ocupamos o as ruas com as crianças e jovens pobres e negros, das escolas municipais e das Escolas da Comunidade, para lembrar aos vereadores que os descendentes dos homens e mulheres escravizados careciam de mais escolas e que oferecessem uma educação de boa qualidade.

O projeto previa uma revista da secretaria de educação, saiu apenas o primeiro número, cuja capa era a representação de uma criança negra com um lápis na boca. A professora Edla Soares escreveu uma apresentação com o título Negro, desbotado não. Vários professores de diversos municípios colaboraram com artigos.  E foi criada a Medalha da Abolição, entregues a pessoas dedicadas às tradições afro-originárias, como a Badia, que a recebeu em cerimônia pública na Praça do Carmo, local da exibição da cabeça de Zumbi dos Palmares e hoje tem a estátua em sua memória; também entregamos a medalha a estudiosos da vida dos negros no Brasil, como a professora Kátia Mattoso.  Plínio Victor e eu sonhávamos com um memorial Zumbi dos Palmares.

Alguns anos depois, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, 1997) assinou decretou que pôs Zumbi dos Palmares no Panteão dos Heróis brasileiros; em 1911, 20 de novembro passou a ser considerado dia da Consciência Negra.

Sim, continuo rezando e pedindo a proteção de Nossa Senhora de Fátima, e tenho respeito à dona Isabel que agiu nas condições de seu tempo e nas suas possibilidades.

O Cardeal, o Cristo e o Exú no Carnaval

terça-feira, abril 26th, 2022

O Cardeal, o Cristo, e o Exú no Carnaval

Prof. Severino Vicente da Silva

Era Carnaval, esse mundo da alegria quase revolução, quando o mundo fica quase de “ponta cabeça”, todo invertido. Ninguém leva sério o rei de plantão, e a chave da cidade fica confiada ao Rei Momo, quase sempre gordo, sempre sorridente, com a pureza de um semiembriagado. Antigamente não tinha Rainha do Carnaval, agora inventaram essa, uma pequena satisfação à família. Antes era Pomba Gira, mulher sedutora, de riso enigmático, promessa de paraíso em três dias. Eram muitas e todas perdidas na multidão, prontas para serem achadas. Cantava-se “durante os três dias não sou de ninguém, até quarta-feira, meu bem”. Mas arrumaram uma rainha que ninguém leva a sério, nem o rei. Nos dias de hoje o carnaval é oficial, no sentido de que, se não precisa mais a licença da Igreja, tem a licença do prefeito, aquele que entrega a chave e vai se divertir, mas antes ele já havia definido os locais liberados para a liberdade que o carnaval promete. Melhor, os locais onde os cidadãos podem ser foliões, ficar doidos de alegria. Sim, tem ruas marcadas para isso. Mas o carnaval se faz a partir da alma do folião que nem se importa do que dizem dele; o folião é um ator de si mesmo e, dança, canta, grita, para si mesmo. Ele é sua plateia, é uma alegria para si. E também para quem não é folião, para quem não quer ser folião, para quem só quer ver folião, para quem deseja ser folião, mas fica pensando no que o vizinho vai dizer. Como é cidadão, o prefeito organizou um jeito de separar os foliões dos que gostariam de ser foliões. E então mandou construir passarelas e bancos para aqueles assistirem o carnaval, separados dos que são foliões. Nas bancadas fez-se outra divisão, criaram-se camarotes, mais isolados, de forma que ninguém saiba as folias que acontecem naquele espaço separado para os separados. Uma alegria para quem não se alegram no carnaval das ruas. “Não fiz, mas vejo”.

Faz alguns anos, quando os católicos do Rio de Janeiro estavam sob a responsabilidade do Cardeal Arcebispo Eugênio Sales, ocorreu memorável acontecimento, quase “esquecido pelas novas gerações” e, também pelas menos novas. Imaginem que um “carnavalesco”, que é uma categoria diferente de folião, pois o carnavalesco diz como alguns foliões devem ficar loucos, na alegria contida de 90 minutos. Uma loucura concentrada, organizada, um espetáculo para que a turma das bancadas possa divertir-se. Pois bem esse carnavalesco, Joãozinho Trinta, que já inovara pondo os seios das mulheres à mostra na passarela, resolveu levar O Cristo Redentor para a passarela. O carro dessa alegoria estaria acompanhado de mendigos. A liberdade do carnaval pretendia fazer uma crítica, uma denúncia da maneira como a cidade estava tratando parte de sua população. Afinal, houve um tempo, quando havia o Estado da Guanabara, falava-se, à voz de surdina e em alguns jornais, que estaria em curso uma política para que a cidade ficasse livre dos mendigos. Esse costume vem da Europa do século XVI, quando se ensaiava a ideia de “o trabalho dignifica o homem”. Pois bem, nos anos 1962-1963, o Estado da Guanabara radicalizou e apareceram muitos corpos de mendigos boiando no rio Mundau. Era a ‘operação mata mendigos”.[1] Foi um escândalo, mas o Cardeal Arcebispo da época, se disse alguma coisa, foi na surdina. Consta que os moradores de Copacabana aprovaram a política do governador Carlos Lacerda. o qual foi um dos líderes civis do golpe de 1964.

Em 1989, quando o Brasil ainda começava a sacudir as dores da ditadura iniciada 1964, é que ocorreu a cena do Cristo e os Mendigos da Escola de Samba Beija-flor de Nilópolis. O cardeal arcebispo usou todo o seu prestígio para evitar que viesse a ocorrer o desfile do Cristo Redentor em uma escola de samba. Muitos editoriais foram escritos e, possivelmente, muitas conversas de pé de ouvido com os novos paladinos da democracia e defensores do Cristo, esquecendo que ele foi criticado por andar em má companhia antes de ser preso e ser morto entre dois ladrões. Mas o cristo saiu no desfile coberto por lona de plástico preto, com uma grande faixa dizendo bem forte: “mesmo proibido, rogai por nós, cercado de mendigos por todos os lados. Agarrado com os poderes, bem semelhantes aos que mataram nos rios e nos quartéis, o cardeal arcebispo perdeu seu rebanho, pois não abriu caminho para os que denunciavam as injustiças, naquele carnaval.

Este ano, como no ano passado não houve carnaval, esse comum que dá início ao Calendário Lunar, o calendário religioso. Esta semana, contudo, ocorreu o carnaval, totalmente fora de época, na semana seguinte aos festejos de Páscoa, quando os seguidores de Cristo lembram a sua morte e celebram a sua ressurreição. Algumas autoridades religiosas reclamaram, tentaram evitar tal celebração. Não conseguiram e, trinta e três anos depois do Cristo Proibido no carnaval, a escola de Samba Grande Rio, levou Exu para a avenida. Exu é Orixá das religiões originadas na África, que foi atravessado com os escravizados, é o orixá da comunicação, aquele que abre as possibilidades, que aponta os caminhos a serem escolhidos. Os mendigos mortos e encontrados boiando na Guanabara dos anos sessenta, quase todos tinham a pele preta, como preta é a pele de Exu. Não houve debate sobre o passeio de Exu na passarela do samba. Ainda hoje não se sabe como estava representado o Cristo escondido na lona de plástico, que era preta. Nunca saberemos como os carnavalescos imaginaram o Redentor dos Mendigos. Será que tinha a cor do Benedito? Seria o Exu? O cardeal que proibiu sem saber, morreu sem saber. E Marcelo Alencar também não sabe. É não se sabe como era o Cristo.


[1]https://www.researchgate.net/profile/Mariana-Dias-Antonio/publication/334605471_A_Operacao_mata-mendigos_e_o_jornal_Ultima_Hora_Rio_de_Janeiro_1961-1969/links/5d35a1d3a6fdcc370a54d4f2/A-Operacao-mata-mendigos-e-o-jornal-Ultima-Hora-Rio-de-Janeiro-1961-1969.pdf

Frei Henrique Soares, de Cabrália ao Corcovado

quinta-feira, abril 7th, 2022

FREI HENRIQUE SOARES, DE CABRÁLIA AO CORCOVADO

Prof. Severino Vicente da Silva.

Dedicado ao Padre Tiago Torlby

E então ficamos surpreendidos por acontecimento aparentemente comum, no Brasil, desde que Frei Henrique Soares, em rápida passagem nessas terras, então, recentemente descobertas, celebrou a missa na Páscoa do ano 1500, na presença do representante do rei de Portugal. Ali estava exposta a aliança que se formara desde a vitória de Afonso Henriques sobre as pretensões dos outros iberos. Tão antiga quanto a Sé de Braga, é essa união entre a Coroa e a Mitra. Essa união tem sido mantida através dos séculos lusitanos e, por extensão aos brasileiros que, neste ano deveriam estar celebrando a separação política de Portugal. Mas, tendo ocorrido a separação dos reinos de Brasil e Portugal, não existiu a separação do Trono e a Mitra. Coroado por um bispo, no espaço de uma igreja, o novel imperador manteve o Padroado e, dessa forma o seu poder sobre o bispo que abençoava e punha a coroa em sua cabeça. Como Pedro Álvares Cabral, o imperador participou da missa e do Te Deum. Nada disso impediu que fosse expulso do trono, pelos súditos, em Sete de Abril de 1831. A historiografia serviçal iniciada pelo Visconde de Porto Seguro nos fez aprender e decorar a expressão “abdicação em favor de seu filho”.

Outro Te Deum e outra missa foi assistida pelo adolescente que passa a ser o segundo imperador do Brasil em 1840. Assim começava o Segundo Império, de Pedro Álvares a Pedro de Alcântara Orleans e Bragança. E seguiu até o golpe que inaugurou a República e com ela, a separação da Estado com a Mitra. Entretanto, logo foram entabuladas conversações entre a República, representada por Rui Barbosa que traduzira um livro adverso à Igreja, e Dom Macedo Costa, bispo que amargara a prisão por ordem do Imperador. Ambos entendiam que a República não poderia dispensar os serviços da Igreja, doutrina que embasou a construção de uma neo-cristandade que buscou a cristalização nos anos de 1930. Escolhendo um evento para marcar esta nova cristandade, podemos tomar o 12 de outubro de 1931, quando foi inaugurado o Cristo Redentor, no morro do Corcovado, com a presença do Ditador Getúlio Vargas ao lado do Cardeal Sebastião Leme. Não houve o Te Deum naquele dia, mas se manteve a tradição que atravessou o Atlântico, os séculos e os regimes: a cooperação do Estado e a Igreja para manter a união estabelecida nos acordos de 1822.

Em boa parte do século XX, os cardeais e os bispos julgaram que poderiam manter a aliança com o Estado, silenciando sobre os excessos das ditaduras, e os pequenos espaços temporais de liberdades democráticas; e poucos se deram conta que o povo brasileiro estava mudando, como o mundo, pois a sociedade viu-se obrigada a considerar a chegada da parte invisível do povo, um povo mais preto, mais mulato, mais pardo, mais indígena, explicitando outras crenças, outras formas de falar de Deus, outros deuses. Era um Povo Novo, como ensinava Darcy Ribeiro; um Povo Novo traz consigo problemas diferentes e novos, e este Povo Novo chega desejando outras soluções que não fosse a submissão aos tradicionais Donos do Poder, no linguajar de Raimundo Faoro.

Os novos problemas e possíveis soluções são percebidos apenas por uma minoria, mas essa percepção racha a sociedade, como ocorreu na tentativa de evitar a emergência do novo, em 1964, e que estabeleceu uma nova ditadura até 1985. E entre as muitas ações realizadas e vistas no período, assistimos a corrida de líderes religiosos das múltiplas religiões para alcançar o prêmio de ser protagonista da novíssima cristandade. E foi grande a concorrência entre algumas lideranças das ditas igrejas cristãs. Apenas uma minoria dos religiosos não mais queria a apoiar-se ou sentar-se na cadeira ao lado da do “ditador de plantão”, como bem definiu Carlos Imperial. Os ditadores gostam dos obedientes, deixam que levem algumas vantagens, desde que colaborem efetivamente a manter a unidade do Estado. Os mais cooperativos receberam maiores prebendas, mais espaço nas ondas de rádio, de televisão, ampliando os púlpitos e arrecadação de dízimo. Afinal o crescimento populacional também ampliou o número dos “sempre os tereis”, esses que precisam da constante caridade para que o mundo não se renove.  

No mundo plural, a novíssima cristandade não se faz apenas com uma igreja ou religião. A pluralidade religiosa exige múltiplos acordos, aqueles que primeiro se aproximam do Trono e colaboram com maior eficácia com o poder, são melhor aquinhoados com os nacos de poder que sobram. Os que continuaram a sentir-se imprescindíveis ao poderoso do momento, ficaram esperando serem chamados para agir. Depois perceberam que estavam fora do jogo por “serem mornos”. A série apresentada na NETFLIX, com o título SINTONIA, mostra a vida de três jovens no mundo da droga violência e religião, os evangélicos estão presenes mas não há menção ao catolicismo. Embora a série apresente jovens paulistas, pode ser que tenha ocorrido caso semelhante no Rio de Janeiro. A Igreja Católica perdeu espaços peela aderência de uma prática bem sucedida no passado, uma adesão ao mundo que não quer mudar. Pode ser que os cardeais recentes pensassem que poderiam imitar Dom Leme. Na ‘Revolução de 1930’, o presidente Washington Luiz recusava entregar o governo e ameaçava matar-se, então os generais mandaram chamar o cardeal Leme que conversou com o presidente, e este aceitou a saída honrosa do exílio. Esse movimento resultou na inauguração do Cristo Redentor do Corcovado, um sonho da princesa Isabel.

Parece que o atual cardeal não percebeu que os tempo mudaram e o Estado tem mais escolhas para fazer alianças com aqueles que desejem. O militares de pijamas que governam o país atualmente jamais perdoaram as ações de Bispos como Dom Hipólito, Dom Valdyr Calheiros, Dom Arns, Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldaglia, Dom José Maria Pires, e outros que se direcionaram ao novo, ao novo tempo, ao Povo Novo que desejava e deseja uma nova sociedade na qual não sejam tratados como lixo. Por não perdoarem essa novo mudo de ser Igreja, os apijamados deixaram, de maneira geral, os cristãos católicos fora dos acordos para manter as antigas e carcomidas estruturas que mantém a maior parte do povo escravizado pela impossibilidade de atender suas necessidades básicas e procuram reanimação nos templos que vendem ‘os céus’ enquanto lhe tomam as terras. Talvez tenha sido a solidão vivida no palácio de São Joaquim, longe do poder e distane do povo, que levou o cardeal Dom Orani Tempesta a celebrar uma missa – Te Deum seria um exagero maior – para o atual presidente, família, agregados e ministros, aos pés do Cristo Redentor do Corcovado, na esperança de ser redimido pelo ‘ditador’, ou melhor, pelo plantonista servidor da elite herdeira dos escravocratas. Talvez Frei Henrique de Soares seja desses personagens permanentes da história do Brasil.

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

terça-feira, março 22nd, 2022

SEM ORIENTAÇÃO, OS BARÕES CONTINUAM A MATAR OS POVOS

Prof. Severino Vicente da Silva 

Quase trinta dias do mês de março e a guerra, uma das muitas que atualmente estão ocorrendo no planeta, explicitada pelo ataque da Rússia à sua vizinha Ucrânia, continua sem perspectiva de fim, exceto quando se tornar semelhante a Canudos, defendida por velhos e crianças. No final, vencerá o que está melhor armado. A questão é que quando o relato de Canudos apareceu de maneira mais ordenada, já não havia mais a população no local para ser testemunha, o que não é o caso atual. Contudo, quase um século depois, quando o exército chegou a governar o Brasil em uma ditadura, a presença de Canudos ainda era tão forte que foi necessário afogar o defunto que, ainda vive. Talvez ocorra isso com a Ucrânia, derrotada militarmente, destruída fisicamente em sua estrutura, tornar-se-á viva simbolicamente. Os sertanejos que criaram o Brasil foram dizimados no sertão bahiano e, contudo, Édipo jamais teve paz.

Na década de setenta, um grupo de padres sociólogos, historiadores e teólogos, criaram uma Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina, deveria ser um organismo eclesiástico, pois que os teólogos achavam que a Igreja havia feito a opção pelos pobres, contudo, ocorria uma virada e, o papado que se iniciava apontava para um período de conservadorismo e reação, acompanhando o processo político então vivido na América Latina, com as ditaduras que vinham sendo criadas e incentivadas desde 1964, então a CEHILA foi criada como uma instituição laica, escapando, destarte, do controle eclesiástico. Assim foi possível uma trajetória de repensar a participação da Igreja Católica no processo de formação da América Latina. Essa ação foi fundamental para a compreensão da Igreja e o papel por ela desempenhado desde a Conquista e colonização; mas também veio a revelar-se importantíssima para mudanças na historiografia da região. Quando as universidades não ultrapassam os espaços da repetição, a história mostra, a sociedade aponta os caminhos que os acadêmicos depois tomam, no sentido de andar neles e no de tornar a coisa como sendo criação deles.

Naquele mesmo período, sob a regência de David Rockfeller, setores capitalistas viviam o sonho da Trilateral, uma comissão supra nacional que apontaria os rumos políticos do mundo sob a batuta dos Estados Unidos da América, Alemanha e Japão. Era secretário dessa Trilateral, o ainda jovem Jimmy Carter, que veio a ser presidente dos EUA e, um dos responsáveis pela desarticulação das ditaduras criadas por seus interesses duas décadas antes.

Enquanto o tempo girava, Eduardo Hoornaert, um dos fundadores da CEHILA, sonhava e realizava, com uma pequena equipe (Paulo Tannuci, Ir. Adélia, Frei Domingos Sávio, Biu Vicente), uma Cehila-Popular, uma estrada para escapar do vicio de pesar sobre o povo, deve-se favorecer o povo pensar, sobre si e sobre a elite que o domina. Por atuar na Cehila-Popular, não sem dificuldade, pude ser membro da CEHILA-Brasil e da Cehila-Latino-americana. Entre os muitos trabalhos que realizamos juntos na Cehila-Popular, houve aqueles que envolveram violeiros improvisadores, desde Sergipe até o Ceará. Fazíamos encontros para nos contar histórias, acrescendo nosso conhecimento com as trocas de saberes. Conversávamos sobre os temas de afloram a partir do Rio São Francisco, dos Sertões e das cidades de cada um. Também conversávamos sobre a relação que sempre existem entre qualquer arruado e a grande política que os arruados desconhecem. Contávamos e aprendíamos a história do Brasil, as histórias dos brasis; a história do mundo e as histórias dos mundos. A Comissão Trilateral entrou em uma dessas conversas, e olhando o mapa, sim havia mapas, veio a pergunta: e a China, onde entra nessa história? Eduardo tomou a conversa e mostrou que na tradição cristã, os reis vieram do Oriente trouxeram presentes e depois não mais ouvimos falar deles. Mas a primeira tradição do cristianismo voltava-se para o Oriente, lembrava que a expressão que se usava é que as pessoas devem “se orientar”; é voltados para o Oriente que formamos os pontos cardeais. Depois aprendemos que as especiarias chegavam do Oriente para a Europa pela Rota da Seda, iniciada na China e, pela mesma rota, mais tarde pela rota dos oceanos, as especiarias foram pagas com o ouro e prata retirada das Américas.

A Comissão Trilateral não pretendia “Orientar-se”, mas sua meta era que todos olhassem para o norte. Nortear-se é um hábito que veio a ser criado recentemente, coisa do século XX. Foi no século XIX que a China deixou de ser o centro, o Império do Meio. Entretanto, mesmo quando a Inglaterra tinha o seu imenso Império, a joia da Coroa era o Oriente. O auge da Era Vitoriana foi a coroação de Vitória como Imperatriz da Índia.

Neste mês de março, no dia em que começa o outono, penso que assisto a parte final do fracasso da Comissão Trilateral, enquanto a tendência política parece confirmar que se torna explícito: Orientar-se será o verbo das próximas décadas.

A Cehila-Popular realizou um trabalho educacional muito interessante, além de, também produzir artigos hoje utilizados por um ou outro acadêmico, como que seguindo os passos da CEHILA-Brasil e Latino-americana. O esforço para refutar a CEHILA pode ser visto no esforço do historiador Jacobina Lacombe ter escrito um livro para criticar, aqui no sentido de falar mal, da obra de Eduardo Hoornaert. Soube do livro de Lacombe, pois uma influente historiadora de renome local, deu-me cópia do livro com riso nos lábios: “vê o que estão dizendo da obra dos teus historiadores”. Agora percebo que, desnorteada, ela precisava orientar-se para os novos tempos, esses que deploram as ações do Barão do Jeremoabo.

Em torno do aniversário de Olinda e Recife

sábado, março 12th, 2022

Em torno do aniversário de Olinda e Recife

Prof. Severino Vicente da Silva

Então é mais uma aniversário de duas cidades vizinhas, Olinda e Recife. Algumas pessoas dizem que são irmãs e outras falam da relação materno-filial. Ambas recebem uma iluminação especial do sol, uma concentração de luz que, segundo dizem, é a alegria dos fotógrafos. Que seja. Olinda, disse um poeta, é um lugar de desejo, nem mesmo lá se mora, lá, diz ele, é onde se vê. E o que se vê desde as colinas que formam a cidade primeira, é o Recife. Um olindense maldoso, daqueles que carregam o pesar de Olinda não ser mais a capital, dirá que se vê “o aterro”, as terras que foram criadas e tomadas do mar, dos mangues, do rio.

Essas duas cidades são possuídas por rios, sumidos ao longo do tempo em que os homens e mulheres criaram as cidades. Alguns rios sumiram e, vez por outra aparecem e, como outras cidades, ocupam as ruas que os sufocaram. Assim foi com o rio Bultrins, o rio Tapado, o rio Fragoso, o rio Doce, o rio Beberibe, que vem desde Camaragibe, como resultado do abraço dos rios Paca e Araçá. Todos eles quase reduzidos a canais, quase sempre infectados com os dejetos humanos. Esses em Olinda, mas destino semelhante sofreram o rio Tijipió, o rio do Brejo, o Passarinho, o rio Parnamirim, e o famoso Capibaribe, que quase ressurge ao abraçar-se com o Beberibe, antes de lançar-se ao Oceano Atlântico.

Como tudo que é vivo, essas cidades nasceram com sangue e no sangue. A Marim dos Caetés tem seu batismo na guerra com os indígenas que carregavam esse nome. os expulsaram, perseguindo por todo o litoral, e os sobreviventes foram para o “sertão”, buscar espaços de vida. Tomado o espaço, vieram os engenhos, levantados às margens dos rios que forneciam energia e recebiam os detritos. Olinda cresceu, chamava atenção por sua riqueza, concentrada no morro onde Duarte Coelho fez moradia, ergueu uma igreja dedicada ao Salvador do Mundo, hoje catedral do segundo bispado do Brasil, desde final do século XVII. Pouco antes, a riqueza olindense chamou atenção dos comerciantes das Sete Províncias, os chamados Países Baixos, em guerra com a Espanha, que então era possuidora das terras de Portugal. Os batavos, flamengos, neerlandeses, holandeses, como queiram chama-los, incendiaram a orgulhosa cidade, pois decidiram que o Recife, que servia como porto aos produtores de açúcar moradores de Olinda, oferecia melhores possibilidades para os projetos dos comerciantes da Companhia das Índias Ocidentais. Assim, a vila de pescadores começava a sua projeção para além dos arrecifes. Um herdeiro de engenhos e usinas, entusiasmado com a beleza que viu, um dia chegou a dizer que o mundo começa no Recife. Sendo verdade, Olinda foi o vestíbulo.

Muito antes do pintor pernambucano, um alemão resolveu fazer do Recife, especialmente da ilha que fica entre os braços do rio, uma cidade renascentista. Mas, uma semana anos não foi suficiente para que o nobre alemão realizasse o seu sonho, testemunhado pelas pinturas e livros que retrataram o mundo visto por eles. Naqueles anos, porém, o Recife engalanou-se, fez-se pontes para ligar as ilhas e festas, inclusive com bois voando; como também voaram as ordens religiosas que se mudaram para a cidade de “seu Maurício”. Só os de São Bento ficaram no morro que compraram, perto do Varadouro. Um bardo mineiro, séculos depois versejou que os artistas devem estar onde o povo está. Franciscanos e carmelitas sabiam disso.

Olinda viu-se despojada, inclusive os tijolos que antes sustentavam paredes de casas ricas, e muitos serviram para a construção do Recife, cidade com vocação mercantil, local de vivenda das muitas religiões praticadas com relativa liberdade, como sentiram os jesuítas que foram expulsos, e os franciscanos comensais do alemão lembrado como holandês, amigo dos judeus e contratado pelos líderes da Igreja Reformada da Holanda.

Entretanto, as ondas da política levaram o Brasil de volta para Portugal Restaurado e, os senhores de engenho fizeram a Guerra da Restauração não desejada, e retomaram para o domínio dos lusitanos. Olinda procurou de volta o esplendor, inclusive construindo um palácio para o governador, perto do Mosteiro de São Bento, que ampliara suas propriedades na então abandonada Olinda. Contudo o Recife seguiu o curso irreversível e, os novos governadores ampliam os espaços da cidade.

No início do terceiro século veio a inevitável separação, acompanhada com fuga de governadores, prisão de bispos, discursos inflamados de autonomia republicana, mas, enfim o Recife passou a ter pelourinho para espancar escravos, e, também, a sua Câmara do Senado.

Com tempo a passar, Olinda, dizem, tornou-se um lugar “de ventos e conventos”. Mas teve um Seminário que alimentou ideias de Revolução e Liberdade, junto com padres que atuavam no Recife; depois passou a ter uma Escola de Leis. Mas o poder se esvai. Logo se mudaram o governo da Província, a sede do bispado e a Escola de Direito para o Recife. No início do quarto século as irmãs se completam: os ricos do Recife passam feriados natalinos na antiga capital, inclusive com estrada terrestre, com trens que fazem percurso pela Encruzilhada e Beberibe. O Banho de mar atrai a muitos que frequentam as praias do Carmo, Milagre, Farol.

As duas cidades festejam juntas o aniversário porque o Recife não sabe como começou, embora saiba seu lugar. Então, um recifense nascido na Paraíba, há muitos deste tipo pois o Recife sempre abraça quem o escolhe, definiu, após muitos estudos que concluíram por nenhuma data, que o 12 de março é a data de nascimento do Recife. Daí a festa de hoje, com missa celebrada pelo reitor do Seminário de Olinda, na Catedral de São Salvador do mundo, com presença do prefeito, ex-prefeita, muitos seminaristas, personalidades homenageadas, mas com pouca afluência da população. Afinal são poucas as famílias que moram no burgo fundado por Duarte Coelho que agora é, basicamente, apenas um ponto turístico, embora nas encostas do morro haja algumas moradias. Mas esta parte mais antiga, mais ‘histórica’ é cada vez menos povoada, e é para onde os governantes da cidade atraem os turistas.

Parece que naquilo que deveria ser a homilia, ouvi o reitor informar ao prefeito que serão celebradas missas em alemão. Dá a impressão de que há mais turistas alemães que católicos de fala portuguesa no Alto da Sé e frequentadores da Catedral. Mas isso é uma história que parece ter agradado ao prefeito, embora ele não saiba falar fluentemente o alemão.

Esse vazio populacional no local onde começou Olinda parece ocorrer também no Recife, aquela parte que os recifenses e turistas costumam chamar de Recife Antigo, onde se morava e eram realizados grandes comércios no tempo dos holandeses e, ainda recentemente, nos anos setenta do século passado. Mas o porto não foi modernizado a tempo, os armazéns foram perdendo suas funções, a precária chegada de marinheiros e a substituição dos estivadores por esteiras rolantes, também afastaram as prostitutas que tantas agonias traziam às esposas da classe média e de alguns ricaços que atravessavam as pontes após as 18 horas.

Como em Olinda, os prefeitos do Recife gastam parte do seu tempo e dos impostos em ‘revitalizar o Recife Antigo’ e, terminaram por matar o Recife criado ou sonhado pelo príncipe de Nassau, a ilha de Antônio Vaz ou Santo Antônio, mesmo a nova versão inaugurada nos anos quarenta e cinquenta dos novecentos. O que está a crescer são as regiões periféricas das duas cidades, seja nas construções mais populares e numerosas, os barracos nos morros, seja na ‘revitalização do rio Capibaribe, ou melhor, das suas margens, onde aparece um espigão a cada mês. Aos poucos voltou a ser interessante morar na margem do rio, embora há quem diga que já não serve para pesca, navegação. Como Olinda, o rio Capibaribe é “para os olhos”.

As pontes do Recife, como as suas praças estão lá. Os recifenses que moravam na Conde da Boa Vista foram para outros lugares, os colégios cederam seus espaços para centros de compra. Cada centro de compra é uma cidade, ou um pedaço da cidade que foi engolido. Os mascates do Recife vendem seus artigos em frente a lojas fechadas e os moradores dos sobrados não existem mais. Só os dos mocambos.

Olinda tem praias, mas não tem mais coqueiros. Uns foram derrubados pelo avanço do mar, outros pela exploração imobiliária que tomaram seus lugares, assim como os coqueiros havia desarrumado a vida dos cajueiros. Por suas praias estarem encolhidas entre o mar e concreto, são poucos os banhistas, a maior parte deles vindos da Olinda que, pode ter até um padre alemão, mas ele faz questão de falar e rezar em português. Sim, tem essa Olinda que começa pelas bandas do Guadalupe e depois de onde foram construídos os primeiros engenhos. Esse é outro aspecto que une as duas cidades, eles possuem uma parte que não é ‘histórica’, ou seja, não apresenta as casas dos senhores de engenho, pois esses, dizem os livros que eles escreveram, fizeram a história. Sim, assim com o verbo no passado.

 Mas se o presente é construído a partir do que foi passado, o passado só existe se o presente o desejar. Será que o presente de hoje deseja e quer manter vivo o passado ou quer apenas a sua preservação? Preservar algo que não faz parte da vida é simplesmente a exposição gratuita dos objetos. Talvez por isso, essas cidades tenham tantos problemas e dificuldades em manter seus sítios históricos, por negarem a historicidade vivida pelo povo que não fala alemão.

Agora, uma pergunta desse mestiço pardo, nascido em Carpina, criado no Recife e habitante de Olinda: Quando será que que o reitor do Seminário de Nossa Senhora das Graças de Olinda nos informará quando teremos uma missa em nagô na Catedral?