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Continua entre nós o Embaixador da morte

domingo, maio 16th, 2021

CONTINUA ENTRE NÓS O EMBAIXADOR DA MORTE

Fui treinado para matar, diz aquele não coveiro;
Pouco importa quem morra, pois que todos vão morrer,
Continua, o carrasco, escondido em transparente capuz.

E ele continua vendo morrer os que à distância mata
Sabendo que outros farão limpas suas mãos
Enquanto sujam a nação de sangue e de puz.

Morrem seu público mais pobre,
Mas quem se importa,
Se, quem lhe importa jamais sai de sua porta
Com doações e pedidos não nobres.

Esses não veem cadáveres
Apenas olham os ativos,
Que do Bolso vão às bolsas.
Não há mortes, não há crimes,
Apenas pequenos enganos,
Pequeno tiranos.

Morreu a artista famosa, que era uma das cem mil,
Morreu o bailarino que frevou caboclinho,
Morreu político decente.
E vejo morrendo um Brasil
Escuto o riso de político doente.

Como um zumbi imortal,
Alimenta-se da vida e da morte,
E cultiva o medo, e produz mentais prisões,
Mostra com alegria aquilo que aprendeu:
Aprendeu matar o povo
O povo que vida lhe deu.

Biu Vicente -16/05/2021

Uma amizade severina

sábado, maio 8th, 2021

https://www.jornaldodiase.com.br/noticias_ler.php?id=54638&t=biu-vicente-uma-amizade-severina

Um capitão, o outono triste

quinta-feira, maio 6th, 2021

Que outono difícil estamos vivendo, este segundo outono da pandemia, do convívio com o vírus descoberto em 2019, ano que lhe deu o sobrenome. Sim, este vírus apoderou-se do ano e tem se apoderado da vida de muitos em todos os países, em todas as camadas e classes sociais, em todos os gêneros e sexos, em todas as etnias e gente de todas as cores. Como uma divindade ele está presente em todos os lugares. Alguns o temem, outros apenas sorriem e o chamam de “gripezinha”, algo que não afeta os atletas. Há mesmo quem acredite nessas “verdades”. Em nosso país já morreram mais de 411 mil pessoas, enquanto os dirigentes discutem se vai haver golpe de estado, pois o capitão, que se julga rei, mandou dizer que o voto tem que ser impresso enquanto as comunicações do governo são realizadas por meios mais modernos. Meios que escapam do controle do senhor rei, que tem muitos amigos nas milícias e tem promovido a venda de armas no país, uma venda sem o controle do exército que parece ser controlado por ele, não pela Constituição.

O outono, essa estação marcada pela queda das folhas que servirão de alimento para as árvores e os animais que a circundam, agora aparece como presságio de golpes, como as serras que destroem as florestas de norte a sul, sob os auspícios do ministério do meio ambiente, um ambiente de muito agrado aos madeireiros ilegais. Hoje mais um funcionário público (este ser abominado pelo capitão e seus generais amestrados) foi assediado em sua repartição por ter cumprindo o seu dever de funcionário público, defender o patrimônio público. Essa gente no poder só deseja defensores do seu patrimônio.

Mas, como cortam árvores, ceifam-se vidas. Hoje tivemos mais uma ação escandalosa da guerra civil, não oficial, com a morte de 24 pessoas na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. A favela é filha da desordem criada desde o tempo que os portugueses dominaram este pedaço do continente, mas que tem sido fortalecida pelos herdeiros dos colonizadores, o que já está bem explicado por historiadores de diversas correntes teóricas, e, contudo, nunca levado a sério pela sociedade que paga os estudos realizados. Esta situação geradora de miséria tem sido fortalecida recentemente, e é uma miséria física e moral que cresce à medida que são diminuídos os esforços de expansão educacional. Desde os anos setenta do século passado que já era sentido um declínio da qualidade educacional e, podemos inferir, a partir de muitas pesquisas, que nisso há uma relação com a universalização da educação escolar. Ampliou-se o número de escolas, promoveu-se a desqualificação do magistério, restringiu-se os espaços escolares, e as escolas construídas nas regiões mais pobres são desprovidas dos benefícios e das facilidades ofertadas pelo mundo moderno. Então amplia-se o fosso, aumenta-se a altura dos muros que separam as classes sociais, as populações. Muros que separam ricos de pobres não são um invenção do ex-presidente norte americano, basta olhar fotografias de Jacarezinho, encurralada entre dois muros.

Quem assistiu o relato televisivo dos acontecimentos em Jacarezinho, pode verificar, sem dificuldade, a divisão social exposta na diferença de fenótipo dos apresentadores, repórteres, autoridades oficiais, coordenadores de ONGs e os moradores de Jacarezinho. E aqui não há nenhuma personalização, mas uma constatação do resultado do modelo civilizacional que os brasileiros herdaram e cuidaram de aperfeiçoar, apresentando-se como um povo alegre, carnavalesco, cordial.

Talvez devamos voltar a ler, refletir criticamente a tese do brasileiro como um homem triste, que convive e sofre a violência diária, violentando-se ao negar o sofrimento. Como dizem alguns versos de canção popular “cantando eu mando a tristeza embora”. Mas ela não irá enquanto continuarmos a manter e criar favelas.

Prof. Biu Vicente

Perde-se mais que vidas individuais

segunda-feira, abril 26th, 2021

Perde-se mais que vidas individuais

Esta manhã o repórter me informa que os gastos do poder legislativo federal com viagens e despesas que fazem para que sejam pagas pelos impostos dos brasileiros foi superior ao orçamento que da Fundação Osvaldo Cruz -FIOCRUZ, órgão do Estado para pesquisar, conhecer e melhorar a situação da saúde dos brasileiros. O egocentrismo, o egoísmo, dos nossos legisladores os fazem capazes de se entenderem superiores aos demais cidadãos. Eles, apesar de terem sido eleitos para representar o povo e legislar em seu interesse, resolvem usar o poder que lhes é concedido por algum tempo para criar benefícios para si e para os seus áulicos. Mas eles são o reflexo da civilização da qual fazemos partes e, terrível dizer, dividimos com eles esse mesmo egoísmo, esse mesmo desprezo pelo bem comum. Nascemos e vivemos em uma sociedade que decidiu não viver coletivamente, mas em ajuntamentos; não mais viver como comunidade, ou seja, ser um grupo de pessoas que decide viver juntos e perseguir os mesmos ideais de buscar uma felicidade comum. Aprendemos e fortalecemos a ideia de “farinha pouca meu, pirão primeiro” em lugar de “a farinha está pouca, vejamos como pode chegar pouco para todos”. Descartou-se de tal forma a ideia de comunidade, que atualmente ela é aplicada às favelas, àquele grupo de pessoas a quem são negados os direitos de uma habitação digna, acesso à água, à iluminação, à educação escolar, à diversão, ao corpo e espírito saudável. É isso que ouvimos quando os noticiários informam que “as comunidades pobres se organizam para se ajudar”, e dizem isso deixando claro que aqueles que vivem nas favelas não fazem parte de seu mundo, o mundo limpo dos condomínios fechados por serem temerosos de que as pessoas das “comunidades” os ataquem e tomem um pouco do muito que eles possuem. É este comportamento que leva à morte a civilização criada pela Europa nos últimos quinhentos anos. Ou mudamos esta visão do mundo ou não teremos um bom futuro.

A pandemia do COVID19 tornou mais claro essa opção pelo bem estar particular e individual dos setores que não fazem parte das “comunidades”, eles a assistem de longe e, quase se surpreendem quando algum deles é atingido. A pandemia mata mais os pobres que os ricos, cinicamente dirão: é que há mais pobres que ricos; a pandemia mata mais negros que brancos, e de novo dirão que há mais negros que brancos. Ficam preocupados porque o comércio diminuiu, que algumas empresas foram à falência. Não sei bem os dados sobre o Brasil, mas nos EUA foram as empresas pertencentes a negros as que mais fecharam. Esses que julgam não precisar dos demais companheiros sociais, que acreditam na grande fake do self made man, ainda não entenderam que não é apenas uma escolha entre a economia e a saúde, mas é uma escolha sobre uma maneira de compreender a vida e, que a obsessão em negar a inevitável cooperação entre os homens pode vir a acarretar na aceleração do processo de destruição da vida humana, pois a vida humana, como as demais vidas que formam a vida, só é possível na visão comunitária. A preocupação com o lucro sobre o sofrimento do outro impede que se pense na suspensão das patentes. O que fazem os grandes laboratórios, assistimos nos mercados ao acompanhar pessoas que compram o que não necessitam, e lamentam não estarem indo aos restaurantes que, diariamente, jogam restos de comida no lixo.

A pandemia do COVID19 explicitou que a maioria dos humanos, ou uma grande parte desses humanos, são capazes de usar, fabricar, sonhar coisas, mas ainda não perceberam que ao dedicar-se apenas às coisas, coisificaram-se, perderam a capacidade de recriar-se como novos seres abertos para a vida; optaram pela morte. A pandemia que estamos sofrendo confirmou o que pensaram os líderes nazistas: se dermos oportunidade ao mal ele terá mais adeptos e enganará a muitos. E assim temos a ressurgência do julgávamos ter aniquilado naquele bunker em Berlim, mas muitos escaparam dos bunkers, muito continuaram mentindo, e nesse espaço de dois terços de século voltaram a ocupar espaços e, como disse o profeta: quando um demônio é expulso, volta e encontra espaço, ele não volta só, vem com uma legião.

Nossa tarefa agora é vencer a pandemia e a legião que se apossou do coração de muitos. E para combater o mal só tem um caminho: o exercício do bem.

Severino – Biu -Vicente da Silva  

Tempos no tempo das pestes

segunda-feira, abril 19th, 2021

Tempos no tempo das pestes

Prof. Severino Vicente da silva

Entramos na vida quando ela já se desenrolava nos espaços e no tempo através dos tempos. Somos membros dessa incessante corrente que se renova a cada instante, somos como um instante, mas alguns de nós escapam de ser apenas um instante. O instante é tão passageiro, como os quase cem anos que agora podemos viver. Houve um tempo que este instante era menor para todos, mesmo os mais aquinhoados pela fortuna, poucos ultrapassavam a marca dos cinquenta anos vividos. Era um tempo de vida pequeno, vinte, trinta, quarenta anos. Tudo era tão rápido que era uma bênção divina ver os filhos dos filhos, ser avô, ser avô. Morria-se com mais facilidade, seja pelo teor violento da vida, como ensinava Huizinga, seja por não ter tido tempo de afeiçoar-se aos filhos, pois que eles morriam muito cedo, como ocorreu a Montaigne.

As guerras foram, ainda são, companheiras permanentes dos homens. Eram muitos os que morriam de espada em punho enquanto outra espada transpassava seu corpo. A vida era acompanhada diariamente pela morte, quase uma simbiose. Matava-se em todos os lugares, ainda hoje é assim; mas na bela Florença renascentista, os Medici foram atacados dentro de uma igreja, durante uma cerimônia, mas o que não foi morto perseguiu aos que tentaram mata-lo e os enforcou, deixando seus corpos apodrecerem, pendurados nos janelões da casa da Senhoria. O jovem Leonardo da Vinci aproveitou a oportunidade para registrar as expressões dos mortos, quase como os fotógrafos dos jornais do século XX faziam, o que atraia muitos leitores para olhar “a vida como ela é”, e como se acaba para todos. As fotografias permitiram que se guardasse a última visão do defunto antes de seguir para o cemitério. Guardava-se o último retrato como relíquia familiar. Era um bom costume da época vitoriana que se praticava ainda na sexta década do século XX em algumas cidades do Interior do país. Matou-se muito no século XX, em intermináveis guerras para acabar com as guerras, para acabar com a exploração, criar um mundo novo, e foram tantas as razões criadas para matar; matava-se para defender a vida, estabelecer um código, um projeto que garantisse o direito de nascer, viver, morar, trabalhar, ter uma família, receber proteção, ter um país, receber educação, receber cuidados com a saúde.

O final do século XX foi o tempo da criação dos direitos, agia-se como se fosse um esforço para chegar ao convencimento de que os seres humanos podem ser bons, felizes e que podiam comprometer-se em jamais voltar a produzir tantos sofrimentos, como os inventados nos diversos campos de concentração de gente posta a trabalhar até à morte, ou mesmo simplesmente postos lá para morrerem.

Talvez um dia se aprenda que os que fazem a história não caminham sempre na mesma direção, na mesma velocidade, com mesmo entusiasmo. E há sempre, ao lados dos construtores de possibilidades para se viver de uma maneira menos violenta, aqueles que preferem que tudo continue como estava, pois as mudanças previstas implicam em perdas para si: além disso, criar um mundo novo acarreta muito trabalho, muito esforço, melhor deixar como estava, um mundo em que alguns poucos poderiam viver um pouco mais que o restante da humanidade, pois deviam dedicar seu tempo para beneficiá-los, por isso melhor deixar como estava: muitos sofrendo para a alegria de alguns. E se morressem nessa tarefa?

Provavelmente esse modo de pensar pode explicar porque não foi fácil descolonizar os povos e nações asiáticas e africanas. Após a guerra contra os nazistas, os europeus não perceberam que continuaram a tratar os não europeus de modo similar ao tratamento que os seguidores de Hitler, e assemelhados, dispensaram aos ciganos, aos homossexuais, aos judeus, aos comunistas, aos católicos e a todos que não eram eles mesmos. O pós-guerra, ao mesmo tempo em que parte da humanidade pretendia criar um mundo novo, os “costumes comuns” foram e continuam sendo um impedimento para este novo mundo. O Zé Ninguém não escutou William Reich e permaneceu forte na defesa de seu mundo de inveja, desejos irrealizados, e amor à morte.

Uma das guerras do século XX foi a guerra de libertação do povo do Vietnan, primeiro para afastar a França e, depois, os Estados Unidos da América do Norte. Esta guerra marcou o fim do encanto do americam way of life, ideologia que conquistou corações e mentes, vendendo um paraíso com os desenhos de Disney, o riso de Doris Day enquanto escondia as Vinhas da ira. O general Westmoreland, comandante das tropas americanas no Vietnan, a princípio dizia que “aquelas pessoas não tinham sentimento em relação aos seus mortos”, mas logo compreendeu que se não conquistasse os corações e as mentes daquele povo, a guerra estaria perdida. E a perdeu enquanto uma juventude celebrava uma era nova que seria de paz, a Era de Aquarius. Mas aqueles jovens de 1968 são sessentões hoje, e olham o mundo que herdaram e o que estão deixando em herança. O que faz a diferença entre 1968 e 2021, o que diferencia a vida neste terceiro milênio do modo de vida no século que passou e nos séculos todos que foram passados?

Todos concordam que materialmente estamos melhor situados que os avoengos, pois mais pessoas podem dormir mais tranquilas sabendo que a comida do dia seguinte está garantida, embora haja muita gente, mais da metade da população da terra, morrendo de fome nas esquinas de nossas cidades, da cidade de nossa moradia. Mas agora temos informações sobre o que acontece em todas as partes do globo, sabemos do que os movimentos da natureza, cada vez mais em choque com as criações culturais, reduzem casas, carros, estradas – de barro, ferro ou cimento e asfalto – à lama, forçando-nos a refletir não apenas sobre as condições dos homens, mas a condição desses homens e mulheres nos locais em que vivem, e que por eles foram construídos. Como as fortalezas, os castelos e os palácios protegiam os que diziam proteger os povos que mandavam à guerra, eram protegidos com guardas a impedir o acesso dos camponeses e artesões aos espaços das festas das cortes onde se praticava regras de convivência e o aperfeiçoamento das relações, também hoje há muros invisíveis que aperfeiçoam tal separação, fazendo que cada um saiba qual o seu lugar e seu papel na sociedade. Essa ordem segue padrões tão aperfeiçoados de separação que nem notamos, pois que somos ensinados a não perceber as diferenças, uma vez que os cortesões que fazem a crítica, quase sempre condenatória da espúria situação da maior parte da população, a fazem ao lado dos organizadores do invisível muro que separam os homens. Não notamos, os muros que, além de invisíveis são fluidos, como nos explicou o sociólogo polonês.  Tornam próximo o que está distante, um desvio ótico, como uma vara dentro de um lago ou rio. Uma ilusão de ótica, a ótica social e política.

Neste terceiro milênio pode ser que venhamos a viver um mundo falso que não precisa de muros a separar, exceto quando se quer proteger objetos, essas criações culturais que denotam poder, riqueza, avidez, ganância, beleza conceitual e tudo que auxilia a explicitar a separação.

Como em épocas anteriores estamos vivendo uma pandemia, uma reação da natureza à forma de nossa organização sobre o planeta e de nossa relação com os demais seres vivos, e mesmo os inanimados, e, como nos séculos anteriores, muitas são as mortes. Assusta a quantidade de mortes que vem ocorrendo diariamente; em algumas regiões do país, morre-se mais que nascem pessoas. Em nossa país será que, em algum momento, morreram tantos de uma só vez? Terá sido assim em Palmares, o Quilombo? E na Cabanagem? E no Arraial do Bom Jesus em Canudos? Na seca de 1877? Na seca de 1915? Na seca de 1970? Mas essas foram mortes distantes, no meio do mato, nos sertões, nas beiradas dos rios, mortes que soubemos depois, que estão nos livros de história ou literatura. Agora temos a morte que soma com a ocorrida na vizinhança, na própria família. E, como outras mortes, essas poderiam ser evitadas caso fosse outra a conformação da sociedade.

O vírus, Corona 1919, está a matar por razões semelhantes ao Cólera em 1864, ao Aedes aegipti que tem a Febre Amarela, o Dengue, a Chincungunha: a razão da concentração de riqueza de um lado e a dispersão/concentração de pobreza de outro. Em todos os casos, como na praga dos primogênitos do Egito, para que o filho do faraó morresse foi necessário a ocorrência da morte de muitos filhos dos que não eram faraós. Quantos filhos dos pobres devem morrem para que se morra o filho faraó?

O que diferencia a atual situação das ocorrências nos séculos anteriores, é que agora acompanhamos imediatamente o fato e as mortes, não é necessário esperar que alguém escreva um livro de história que, como sempre, contará apenas uma parte dos acontecimentos com a visão que se deseje fixar. Mas as informações chegam tão rapidamente e em tal quantidade que elas são regurgitadas, são negadas, são apagadas. E os que estudam a Psique aconselham a procurar outras informações para que não se perca a saúde mental, não se morra espiritualmente.

Daniel Defoe, escreveu o Diário da Peste, que ocorreu na Inglaterra do século XVII, tendo dela sobrevivido. Utilizando depoimentos dos seus contemporâneos nos mostra que eles não tinham ideia de onde vinha a doença e tomaram medidas de restrição social, aprisionando em suas casas os doentes que eram obrigados a conviver com o enfermo e com os ratos e suas pulgas transmissoras. Morreram muitos, e valas foram abertas para a incineração dos cadáveres. Lentamente os homens vão aprendendo que os bacilos, os vírus que provocam as diversas pestes, eles não morrem, mas como que se resguardam para quando surgirem outras oportunidades para o espetáculo mortífero e mortal.

Mas se existem as pestes físicas que destroem as sociedades em sua população, há pestes que destroem as nações em seu caráter, em sua moral, em sua essência, como nos ensina Camus, a peste da traição, da colaboração com a morte. Em todas as pandemias e epidemias sempre surgem os pestilentos da mentira, do ódio, da incompreensão, do esforço para evitar que s humanidade se aperfeiçoe.

Nestes dois anos de convivência com o Coronavírus 2019 temos tido conhecimento e experimentado esses dois tipos. Ambos se tornam mais poderosos com a ignorância, com o conforto que elimina a angústia, a companheira dos que procuram o saber. É o conhecimento que derrota, ao menos provisoriamente, as causas das pestes.

A casa, as aulas, os tribunais

sexta-feira, abril 9th, 2021

Desde a morte de meu irmão Jorge Cláudio tenho posto meu tempo à leitura dos artigos de meus alunos, tarefa de avaliação das disciplinas colocadas sob minha responsabilidade neste semestre, às tarefas caseiras, essas improdutividades que não entram nas planilhas macroeconômicas. A leitura consome e enriquece. As escolhas que os estudantes fazem para suas pesquisas, transformadas em textos, apontam alguns interesses que, pelo uso da repetição temática da disciplina obrigatória, me surpreendem. O mundo é mais amplo que aquele experimentado por uma pessoa, expressão vulgar repetida, como eram as canções da juventude, a curiosidade dos jovens indicam que tenho passeado em poucas ruas. Surpreende a escolha de pesquisar sobre a Liga das Nações e mostrar que, diferente do que dizem os professores, a aluna indica os frutos positivos que ela gerou, promovendo o primeiro grande esforço para uma ação coletiva das nações, traçando rotas impensáveis em período anterior à Bela Época que se seguiu ao tempo da Rainha Vitória. E vem a reflexão de como vivem os venezuelanos que foram acolhidos para viver e recomeçar nova vida em Igarassu, onde começou Pernambuco. E tem aquele outro, preocupado em entender a vida do pescador artesanal, carregador de uma tradição, de muitas tradições, entre elas os preconceitos de etnia. As mulheres aparecem em muitas formas, como a busca de saber quais foram as que estiveram presentes da Revolução de 1817, a revolução de um Pernambuco extenso. E aquele interesse pela ação das mulheres comuns e que se afirmam diariamente sob uma infinidade de pressões próprias de uma sociedade patriarcal, não apenas no Brasil, pois que esta parte do globo é integrante da sociedade Ocidental de fundo europeu e dificuldades em conviver com as outras culturas que nos formam. Em seguida vem a preocupação teórica sobre como se pensa a mulher, e como as teóricas pensam sobre o que os homens pensaram a respeito das mulheres.  A leitura dos textos e a oitiva das apresentações na sala virtual trazem um universo de novas visões. Ouvi, não a repetição de temas típicos dos historiadores e estudantes de História, mas outra ciência social, e então me deparo com a preocupação sobre aparelhos que diminuem a surdez e aumentam a possibilidade de integração social; ou ainda o simples viver dos moradores de rua, que não são apenas objetos descartados pelo sistema após usados. E em todas as reflexões uma busca de entender como nós chegamos aqui, neste fluído mundo, no qual tudo parece desfazer-se, mas não a curiosidade juvenil que, mesmo na academia, se mantém.

Nesses dias após a morte de meu irmão, morreram muitos outros irmãos, muitos pais, tios, avós, amigos. Alguns que conheci na leitura, como Bossi. E vamos ficando órfãos e com a família diminuída. Este mês de abril, tudo indica que no Brasil haverá mais mortes que nascimentos. Talvez seja a primeira vez que este fenômeno ocorre e, ele terá consequências sérias no futuro. E enquanto as realidades continuam o processo de mudanças, alguns senhores julgam que a principal questão a ser resolvida é manter contato direto do crente com o líder religioso que o fanatiza. Lutero não esperava que seus atos em busca da liberdade de consciência e responsabilidade pessoal diante de Deus, fossem utilizados por alguns pastores, no século XXI, para afirmar que o crente tem que ir ao templo, conversar com o pastor e levar o dízimo para que ele possa comunicar-se com Deus. Mesmo antes de Lutero, em plena Idade Média, papas fecharam as igrejas, proibiram procissões, quando a peste os alcançava e enquanto durasse a endemia. E os papas medievais não tiveram acesso ao conhecimento científico que pastores, alçados ao comando das instituições brasileiras, possuem. E, pastores fantasiados de juristas e ministros de uma República laica, agem com a piedade dos fariseus a quem Jesus perguntou: é lícito fazer o bem, curar um homem, em um Sábado?  Os fariseus, dizem as escrituras, ficaram calados, não tinham resposta diante do óbvio. Mas, esses que colocam longas togas pretas, continuam a arengar seus impropérios, na ânsia de agradar ao Caifaz ou o Herodes do momento. A qualquer momento, fossem eles, momentaneamente sinceros como aqueles que testavam a Jesus, já estariam clamando: “que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”.

Curar no sábado, orar onde estiver, mesmo porque Jesus, a quem dizem seguir, não ia ao templo com a frequência que os fariseus esperavam, ele preferia fazer suas orações fora das paredes do templo. E tinha o costume de se afastar para orar, se afastar, ficar só, em silêncio. Apenas em duas ocasiões convidou os amigos a orar com ele. O Pastor Mendonça, em sua fala demonstra que não refletiu sobre os livros sagrados, nem cuidou da  Constituição Brasileira que, aliás, não citou em sua arenga.

Após essa pequena digressão, voltarei para o cotidiano: preparar o café, fazer do cuscuz, talvez tapioca; cuidar dos animais, apoiar Isaac em sua aula, ler meus alunos. Manter a vida, sendo-a como ela me faz e eu a fiz.