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Patrimônios Vivos

sexta-feira, dezembro 4th, 2020

Notícia auspiciosa recebo agora. O Conselho de cultura de Pernambuco acabou de escolher dois novos Patrimônios Vivos: As Pretinhas do Congo de Goiana e o grupos de São Gonçalo de Itacuruba. Embora não tenha tido participação direta no encaminhamento do pedido, satisfaço-me por ter, em 2006, publicado o artigo UMA DEVOÇÃO DOS POBRES: A DANÇA DE SÃO GONÇALO, ( História das Religiões no Brasil, Vol. 4, [331-346], org. por Sylvana Brandão, Editora Universitária, UFPE) a partir de minhas pesquisas na região do Médio São Francisco, e ter convivido alguns bons Momentos com Seu Jerônimo e participado de muitas rodas com o seu grupo. Na ocasião também conheci a IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS, de Floresta, e soube que artigo meu, publicado em uma jornal experimental dos estudantes de comunicação da UFPE, no qual comentava na única festa dos Reis do Congo que se mantém e mantém sem a carnavalização, foi utilizado para o reconhecimento daquela instituição como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Tive, também o prazer de escrever e publicar pela Editora da Associação Reviva, com o patrocínio da FUNDARPE, o livro UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE: AS PRETINHAS DO CONGO DE GOIANA, no ano de 2011. Ainda feliz por lembrar que acompanhei as Pretinhas do Congo do Baldo, sob a liderança do Mestre Val, em visita que fizemos à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Floresta; ajudei a promover o seu encontro e agora as duas são reconhecidas como Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana. Muito feliz por ter promovido esses encontros e, ajudado a revelar, para além dos seus espaços, a importância que esses mestres e pontos de renovação e permanência da cultura para nós que entendemos e amamos o Brasil para além das praias, dos lugares elegantes e eurocentrados.  VIVA O POVO BRASILEIRO, viva a nossa cultura.

O 20 de novembro que sonho

sexta-feira, novembro 20th, 2020

Semana da Consciência Negra, período do ano no qual se deve pensar um pouco mais no quanto somos negros, no Brasil. Claro que os que perambulam pelos Centros de Compra (diz-se Shoping Center)  em busca de liquidação (agora se diz Black Friday – uma sexta-feira negra), só rapidamente percebe gente de cor nos corredores. Historicamente fomos nos formando assim: vendo o mundo de pessoas brancas com alguns manchas negras e pardas perambulando com seus uniformes que os diferenciam dos não uniformizadas e entre si, de acordo com sua ocupação, sua tarefa, naquele lugar. Os uniformes são visíveis e passam com desenvoltura silenciosa e prestativa. Vez por outra aparece alguém de cor não branca sem uniforme e, dependendo do humor de quem o ver, pode ser parado para um pequeno inquérito que desvende sua presença. Caso seja jovem  e desacompanhado, problemas podem vir à tona, sim, os problemas criados pela nossa formação, como povo e como pessoa. Esta é uma semana para refletir um pouco nesse descompasso.

Meu filho mais jovem, oito anos, veio perguntar-me: Biu, é verdade que maltratavam muito os negros no Brasil? Disse que sim, que os maltratavam bem mais do que hoje; que seu trisavô havia sido escravo, escravizado, pois deve ter nascido alguns anos antes da Lei do Ventre Livre (1871), bem como seu tetravô, que possivelmente nasceu após a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que proibia o comércio internacional de escravos. Esses dois antepassados sofreram bem mais que o seu bisavô (José), pois este já nasceu livre, nos primeiros anos da República.

Meu filho vez por outra pergunta, porque alguns de seus irmãos e tios têm a pele mais branca que a dele, a do seu irmão e a minha. São esses segredos da genética que expõem a intensa troca de informações realizadas pelas gerações anteriores e nos fazem um país multicolorido e, também multicultural. Essa troca genética ocorreu mais, e é mais notada, nas regiões de Pindorama que foram ocupadas primeiro pelos europeus, especialmente o português. Afirmar que houve essa troca genética para a criação do brasileiro, não significa dizer que ela foi realizada de maneira consensual, pois o intercâmbio genético tem, como principal fator o homem branco, não a mulher branca, que era em pequena quantidade nos anos iniciais da colonização portuguesa. Somente nos século XIX, com a chegada de uma grande quantidade de emigrantes vindos da Itália, Alemanha, Suíça, Polônia e outros países, que aqui chegaram com suas mulheres e filhos é que ocorreu um aumento substancial das pessoas de pele branca. E eles ficaram isolados em suas colônias, reproduzindo a mesma sociedade vivida na Europa. Foi pequena e pobre a troca genética e cultural. Eram poucos os negros entre eles, e quase sempre em condição de escravidão. O Brasil mestiço, mulato, é encontrado no Recife, em Salvador, São Luiz, e outras cidades do Nordeste, também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas sempre em condições periféricas.

A mestiçagem biológica não significou uma adesão à cultura dos índios e dos africanos que foram trazidos para o trabalho escravo. Sempre houve um muro sociocultural que nos separa de alguns ancestrais, os ancestrais dos primeiros habitantes e os ancestrais dos africanos. Durante anos, em nossas escolas, os padres católicos, os pastores protestantes, os legisladores, não cuidaram de nossas ancestralidades, cuidaram de nos mostrar apenas aquela que veio da Europa. Embora sempre houvesse havido pessoas que chamaram atenção à presença e contribuição de índios e negros na nossa formação, é apenas na segunda metade do século que este movimento é fortalecido socialmente. A quebra das cancelas culturais garantidas pelo isolamento geográfico das populações, desanuviaram muitas mentes e corações. As migrações internas, os boias-frias, esses trabalhadores transportados em caminhões para atender os interesses de fazendeiros, foram dando nova visibilidade aos brasileiros mais coloridos, morenos, pardos, cafuzos, negros. Seus costumes, suas tradições passaram a ser estudadas a partir e para eles mesmo, e foi sendo assumida a ideia de que o Brasil tem muitas culturas e muitas tradições que foram submersas pelo projeto de fazer o Brasil, país de uma só cultura e, apesar do que sempre disseram os olhos, tentaram fazer-nos o país de um cor única.

A movimentação geográfica foi acompanhada de movimentos culturais e, os grupos foram surgindo no processo de descolonização interna, ao mesmo tempo que estava sendo realizada da Descolonização da Ásia e da África.

Com processo de Descolonização em andamento tivemos, como consequência, a exposição dos conflitos “invisíveis”, dos choques que existiam mas não eram comentados, apurados. Famoso foi o caso de uma senhora de fina estampa que colocou em colégio para a alta burguesia fluminese, o filho de sua empregada, logo expulso, por ser negro. Uma situação que gerou o primeiro caso de racismo julgado no Brasil, em 1955. Os donos do colégio foram presos, segundo a Lei Afonso Arinos, criada anos antes, que definia o racismo como crime.

O caminho das artes foi uma das rotas seguida para a apresentação das cores e sofrimentos sociais dos coloridos brasileiros. A música, o cinema, o teatro, a poesia, a dança, entre outros, foram espaços sócio-culturiais galgados pelos negros e mestiços brasileiros. Os esportes foram desde o mais antigo passado, uma atividade das elites, mas é o futebol, esporte que foi tomado pelos operários, tornou-se o espaço onde mais brilharam os negros, em uma época de terrenos baldios, próprios para o divertimento dos pobres que aprimoravam o modo de jogar e, em 1958, a seleção de negros, mestiços e brancos derrotou o modo europeu de jogar. São tantos os negros que tornaram o Brasil visível, para si e para o exterior.

E, então, vieram os tempos das conquistas educacionais, a ocupação dos bancos escolares, uma vez que os novos tempos forçaram os donos do poder a colocar escolas na favelas e periferias que o progresso e o enriquecimento de alguns. Sim, no início do século XX tivemos um presidente negro, mas o poder não está na presidência, está no Parlamento; este é um espaço que deve ser conquistado pelos brasileiros de todas as cores. Temos alguns deputados e vereadores negros, mas alguns deles ainda pensam como se o país fosse de apenas uma tradição, aquela que foi apontada pelos primeiros criadores da história do Brasil, uma história da tradição branca, como a proclamada por um cidadão “preto de alma branca” que foi posto na presidência da Fundação Palmares.

Quando olho para meus filhos e netos coloridos, meus sobrinhos brancos mestiços, penso que não desejo um Brasil Preto no Branco, nem Branco no Preto; tampouco desejo um Brasil bicolor, pois isso é falso, é um “brasil/colônia”. Desejo um Brasil ecumênico nas suas cores, nos seus ritmos, nas suas danças, nos seus sotaques, nos seus deuses. Desejo um Brasil conciliado com suas tradições, com a consciência de que é negro, que é branco, que é índio e que é muito mais e maior do que esse triângulo básico indica. E para isso é necessário, mais que lembrar o passado de sofrimento, afirmar que neste passado sofrido, os nossos ancestrais negros foram criadores de uma nação que ainda não tem consciência de sua beleza.  

Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

domingo, novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.

Todos Irmãos: esperança, cansaço e renovação

quarta-feira, outubro 28th, 2020

Viver em paz é diferente de não fazer nada. Há quem diga que se deve treinar para viver o nada, perceber tudo sem envolver-se no que é visto e experimentado. Experimentar o nada. Eis algo difícil nos dias que vivo, desde o amanhecer até o momento que o cérebro não me permite observar. O cérebro observa-me, o tempo passa e ele, observando-me, refazendo as experiências enquanto durmo. No sono vêm as imagens descritas por Loyola Brandão em Não verás país. Não vejo mais o país. Vejo a impossibilidade de um país sendo criada, não na ficção que Loyola previu três décadas atrás. Não Verás País algum. Vivo a perda do país que imaginava estar criando com os meus contemporâneos, e temo entender que não verei o país que imaginava com alguns de meus contemporâneos.

Em momento tão perdido, que parece ser de descanso, para não perder a sensibilidade vem uma carta do Vaticano, assinada por Francisco a nos dizer que somos Todos irmãos. É sempre escandalosa essa afirmação de sermos todos irmãos. Nem todos percebem que mudanças essas três palavras carregam. Quase ninguém deseja que sejamos todos irmãos. Até mesmo alguns familiares.  Ser irmão no abstrato é aceitável, e a leitura do que o papa escreveu é animadora para muitos, até para os que não leram e, creio, não lerão, essa bela correspondência que foi endereçada aos cristãos, aos que carregam alguma fé e, mesmo aos que vivem sem carregar qualquer fé. Mas é aceitável essa ideia de quem somos todos irmãos.

Não há novidade neste discurso que, mutatis mutantis,  é dito em quase todos os púlpitos erguidos em cada esquina do mundo, dentro ou fora das igrejas e dos parlamentos. Somos todos irmãos, dirão os políticos, os pastores, os padres, os chefes e as chefes (será chefa?) de família, os líderes estudantis, os candidatos a vereadores e prefeitos ao lerem ou ouvirem essas palavras do papa.

Uma semana depois, quando se tornou público um documentário no qual o papa Francisco diz que se deve admitir a união civil de casais do mesmo sexo, logo já se percebeu que nem todos somos irmãos; que se corre o risco de um cisma no mundo católico, pois se diz que o papa é um herege, que o Espírito Santo enganou-se e a Igreja está sendo dirigida por um seguidor do demônio. E alguns cristãos, católicos ou não católicos, passam a agredir os católicos, querendo saber se vão seguir o papa e outras coisas semelhantes.

A ficção de Inácio Loyola Brandão usa um verso de outro poeta, Olavo Bilac. Criança, não verás país algum como esse. Referia-se, o poeta do civismo, ao Brasil que, no início do século XX, incitava as gerações jovens a amar com orgulho o país em que nascera. O país mudava de regime sem conversar com os que formavam a nação, mas os que dirigiam a mudança desejavam po amor de quem amava a monarquia e o amor dos que não a conheceram. O poeta estava otimista quanto ao futuro.  

A passagem do século XIX para o XX era de otimismo para os bem nascidos e, até para os que nasceram sem berço, pois a República parecia criar condições para todos; mas esse “todo” não envolvia a todos, perceberam, bem mais tarde, os mal nascidos e os bem nascidos. Estes, os que se apossaram das terras do país, continuaram a insuflar os que jamais teriam acesso à terra, a cultivarem o amor à nação. Queriam o amor mas não dariam a terra.

Ao longo do século, os que formavam a nação, mas não tinham terra, foram compreendendo que jamais veriam “país como esse”; o preço das passagens aéreas não permitiam ir conhecer outras terras. Era uma promessa que os bem nascidos faziam questão de cumprir: não permitir que outros países fossem conhecidos pelos que não possuíam terras. Não poderiam fazer comparação, poderiam amar o que viam ou o que se permitia que fosse visto.

Outubro está ao término, mas não as bobagens que fizeram enquanto ele dura. Outubro é um mês duro, de muitos dias. Nele, como em todos os meses nasceram muitas pessoas, algumas no início do mês, outras quase em seu término. No início do mês, dois aniversários, o de Francisco de Assis, no dia quatro, sempre me lembra um amigo que nem sei se ainda lembra de mim. Não importa sua lembrança, importa que eu não o esqueço. Todos os anos lhe envio festas no dia 4.  No dia 6 é o aniversário de uma de minhas filhas. Quando ela nasceu lembrei que ela me veio no mês da Revolução que prometia unir os operários e criar um mundo novo. Quando minha filha nasceu a Revolução já se dera por vencida, embora a esperança de que veríamos dias melhores permanecesse. A Esperança é um animal bravio, que se camufla perfeitamente com as folhas. A Esperança, como o bicho-folha, é muito antiga, vem acompanhando os homens desde que se entenderam como tal e, desde então, esperam o paraíso enquanto constroem e destroem a Esperança. Este inseto da alma que se esconde em cada uma das gerações humanas, confundindo-se com elas. Cada uma que morre traz a esperança de que outra virá.

O final de outubro, carregado de aniversários de esperanças perdidas, também carrega, para mim, lembranças de esperanças de vida que não se realizaram. Mas foram belas e vitoriosas como as revoluções em seus processos iniciais quando, a morte da antiga civilização ou antigos amores oferece combustível para o novo que constrói, então. Depois a Revolução cansa e morre, como amores de paixão.

Mas então, vem a Esperança, de novo, com novas caras a repetir que somos Tutti Fratelli.

Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)   

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

terça-feira, setembro 29th, 2020

Drama 20 – A Educação e Democracia impossibilitadas

Neste domingo, próximo às 22 horas, em um telefonema, recebo a cobrança sobre o abandono do blog, quase um mês sem um texto novo. Digo que as novas atividades como professor me obrigam a estudar novas técnicas, preparar aulas e acompanhar o estudo de quatro dezenas de estudantes de diversas áreas: História, Geografia, Serviço Social, Filosofia, Farmácia, Medicina, que querem aprofundar conhecimento na história das religiões e igrejas no Nordeste. Em outras oportunidades já recebi alunos de outros cursos, mas não em tão grande número. Creio, e espero, que todos os professores estejam tendo esta experiência e dela aproveitando e deixando-se aproveitar pelos questionamentos que chegam de estudantes de outras ciências.

Esta experiência me põe a repensar sobre o tempo, o meu tempo. Tempo de leitura redobrada para atender a demanda desses jovens que desejam conhecer melhor o povo para quem e com quem vão trabalhar. Toma tempo, produz cansaço, traz alegria e réstias de esperança. A pandemia forçou essas aulas à distância, provocou a fuga do cotidiano, abriu a perspectiva de ver além do estabelecido na Matriz Curricular, ou Grade Curricular, na qual está presa a formação do estudante. Este semestre tornou possível olhar para além do que estava estabelecido, ou se estabelece pelas influências que alunos mais antigos exercem sobre os novos no momento da escolha da disciplina eletiva. O estudante, neste semestre especial viu-se mais livre para escolher, sem a sofrer influência de experiências de outras gerações, às vezes negativa, sobre as disciplinas ou sobre os professores. Livre para matricular-se, para ficar até o término do semestre, ou abandonar as aulas, caso elas não estejam contribuindo para a sua formação. Esta foi uma consequência da Covid 19, que, a mim, parece positiva, embora me force a trabalhar mais.

Ao lado desta alegre surpresa que me força rejuvenescer, tenho acompanhado o crescente desastre brasileiro. A pandemia, mais que criar problemas, tornou explícito o descompromisso dos que governaram o país desde o fim da ditadura, o descompromisso real com a democracia e com o povo brasileiro. Talvez, sem o tom arrastado de Getúlio Vargas, continuaram dizendo “trabalhadores do Brasil…”, enquanto evitaram modificar as estruturas que fazem um país rico com um povo pobre, condenado a subalimentar-se, enquanto assistiu, nestas quatro décadas crescer o número de milionários e o de favelas. Para mostrar que houve mudança, os intelectuais desses governos passaram a dizer que as favelas eram comunidades (penso no desgosto dos sociólogos clássicos) ou assentamento urbano de condições precárias. E os muros das casas e edifícios cresciam enquanto o desalento do povo fazia o mesmo. Continuamos a ouvir Dom Hélder lembrar que enquanto uns, a maioria, não conseguem dormir porque estão com fome, outros, a minoria, não dormem com medo dos que estão com fome. Por isso cresceu o número de empresas de segurança, de carros particulares, sendo que alguns são blindados. Em algumas cidades, esses que enriqueceram sem permitir que houvesse um acesso para além dos iogurtes, frangos e pizzas para dos trabalhadores empregados, deslocam-se apenas em helicópteros e aviões. Não os comerciais. A Pandemia mostrou que escolas construídas no tempo de Getúlio Vargas ofereciam mais espaços para os estudantes desenvolverem suas múltiplas potencialidades. Não tenho dados além do que meus olhos registraram nas cidades que, por razões de minha profissão fui levado a conhecer, mas creio ter sido um grande erro construir-se escolas sem bibliotecas, área para a prática de esportes e artes, mantendo uma educação baseado na escrita das palavras que estão postas nos livros didáticos. A mesma pressa que fez a Ditadura Civil-Militar incentivar a criação de faculdades no interior dos Estados, assistimos na criação de universidades inauguradas em prédios de escolas de nível médio, ou em salas de centros de compra, enquanto se arrumava verba para a construção de espaços que acomodassem a nova unidade de ensino superior. As duas iniciativas trouxeram benefícios, quem há de negar?, mas ambas escancaram a falta de planejamento para a criação de um sério sistema de ensino capaz de gerar e educação e as habilidades necessárias no século XXI. Apesar de pedagogos chamarem atenção de que uma boa sala de aula deveria ser formada por no máximo trinta alunos, os secretários de educação dos Estados e municípios, continuaram com salas de 60 alunos. O mesmo ocorre no ensino superior. E tudo justificável por conta da Grande Evasão, que existe, entre outros fatores, pelo desconforto das salas lotadas – algumas vezes sem cadeiras para os alunos sentarem-se – e da impossibilidade de um professor acompanhar tantos alunos simultaneamente. Economizaram na construção das salas, na não construção de bibliotecas, áreas para a prática de esportes e artes, economizaram no número de professores. Agora, como fazer para retornar as aulas cumprindo as exigências do distanciamento necessário? Para onde irão os alunos que não podem mais ficar na mesma sala simultaneamente? Como dividir os espaços para novas turmas? Serão construídas novas salas? E serão contratados novos professores, serão compradas novas carteiras? Todas essas perguntas nos mostram que, apesar de muito falarem em educação de qualidade, pouco se construiu de democracia, na sociedade e nas escolas. Um pedagogo escreveu um livro com sugestivo tema: quanto mais se falou de democracia na escola menos ela foi democrática, quanto menos se falou em democracia, mais ela foi democrática.

Nesse mesmo período ampliaram os plenários dos parlamentos municipais, estaduais e federal. E também ampliaram os espaços para que os juízes possam trabalhar com dignidade, gastaram-se fortunas em prédios e na manutenção dos privilegiados, acusados por Getúlio Vargas, em sua Carta Testamento, de devorarem as forças do país. E fizeram isso enquanto colocam em jaulas os criminosos mais pobres, e continuam a manter a divisão das prisões para quem tem diploma universitário e para os que não conseguem chegar lá. Há uma relação entre isso e o descaso com a educação. Quando algum poderoso que não tem diploma tem que ir à cadeia, logo se busca uma solução, e proíbem que lhe ponham algemas. E mudam as leis para que jamais sejam condenados.

Mataram a democracia,  não enquanto engordavam o pato, mas enquanto se engordavam do trabalho dos patos. Ainda estamos em 1954. No ano seguinte nasceu Bolsonaro. Já ia me esquecendo que ele continua o trabalho dos antecessores, com sotaque arcaico e mais perigoso.

Drama 18 – Hiroshima, Xingu e Casaldáliga

quinta-feira, agosto 6th, 2020

É madrugada do dia 6 de agosto, setenta e cinco anos depois da explosão de uma bomba sobre a cidade de Hiroshima, no Japão. Naquela manhã cerca de 80.000 pessoas morreram imediatamente após a passagem do Enola Gay. Três dias depois, o Bocks’Car lançou outra bomba sobre Nagasaki, e 40.000 pessoas tiveram o mesmo destino. Assim terminava a Guerra do Pacífico e tinha início a Era Atômica, uma era na qual todos os habitantes da terra podem ser evaporados instantaneamente, as civilizações destruídas, pois elas só existem se os homens existirem. Neste 6 de agosto, um vírus que parece ter chegado no Brasil no final do ano 2019, provocou a morte de 90.000 pessoas e, ao término do mês de agosto, possivelmente terá matado cerca de 120.000 brasileiros. Não foram mortas instantâneas, como as que ocorreram no final do Império Japonês, forçando o imperador admitir         que não era uma divindade. As divindades morrem quando expostas ao público, perdem suas forças quando deixam de ser mistério. Ao longo da jornada, os homens tiveram muitos deuses e ainda os têm, mas eles perdem com a racionalidade das bombas. As bombas são racionais, os deuses, seus crentes e os vírus não o são.

No  começo dessa madrugada, um historiador lembra-me que em 1960, “pela primeira vez, em toda a história do Brasil, um candidato da oposição ganhou uma eleição para a chefia do executivo”, seu nome era Jânio Quadros, governou com minoria no Parlamento, pois quatro quintos dos parlamentares estavam ligados à eterna situação que governa o Brasil desde sua fundação: a defesa da propriedade da terra para si. Esses parlamentares ficaram bastante surpresos quando, por decreto, Jânio Quadros criou, em 14 de abril de 1961, o Parque do Xingu, a primeira demarcação de terras indígenas da história republicana. Foi uma mexida na tradicional política de controle de terras. Um dos grandes sucessos do carnaval de 1961 foi uma marchinha que dizia: “eu não quer colar, índio quer apito”, uma mostra de como a questão era de conhecimento geral.  Começava um novo tipo de barulho. Em agosto o presidente disse que não suportava as pressões de “forças ocultas” e renunciou. Então, quarenta anos depois, a floresta amazônica arde em chamas, o Pantanal arde em chamas, terras indígenas demarcadas são invadidas, motosserras são acionadas e o chefe do executivo nacional tenta passar uma lei que proíbe fornecer água potável, atendimento médico aos índios atingidos pelo vírus que tem matado mais pessoas que as bombas sobre o Japão. A racionalidade de Truman, que o levou à decisão de jogar à bomba sobre o Japão para pôr fim ao conflito, ainda que isso promovesse tantas mortes, é semelhante à decisão do presidente do Brasil a negar água e atendimento à saúde aos índios: é uma questão de gasto, uma questão econômica.

É essa racionalidade econômica que tem impedido a expansão do saneamento básico: fornecimento de água, recolhimento de lixo e esgoto, para todo o país, para toda a população. Nota-se que o vírus Corona 19 mata mais nos lugares onde não há a oferta e uso desses bens sociais, embora sejam as pessoas que moram nesses locais, os que trabalham e vivem pelo pão diário. Os que sempre estão governando fazem com que seja sempre baixo o pagamento do trabalhador. O mesmo arrocho salarial que vem sendo posto aos trabalhadores brasileiros desde sempre, vem se confirmando com a aprovação das atuais reformas econômicas e sociais, sempre em detrimento do trabalhador, pois a razão sempre aponta que o sucesso é o acúmulo de renda, é ser participante dos clubes dos 20, dos 15, dos 9, dos 5, dependendo do grupo que represente, em determinado momento, o interesse dos que sempre governam.

6 de agosto de 2020, o número de mortes pela Covid 19, no Brasil, ultrapassará 95.000.

Enquanto isso, está vivendo seus últimos dias o primeiro bispo da Prelazia do Alto Xingu, Dom Pedro Casaldáliga, morre de uma vida gasta na defesa dos mais pobres, dos brasileiros roubados de seus direitos básicos.

PS. Historiador Jorge Caldeira, História da Riqueza no Brasil; Haroldo Lobo é o autor da marchinha Índio quer apito.