Archive for the ‘Sem categoria’ Category

Pelé

sexta-feira, dezembro 30th, 2022

Tem coisas que a gente pensa mas não tem coragem de dizer e, na emoção, escorregam as palavras. Eu tinha oito anos quando vi Pelé jogar na Suécia e os suecos aplaudindo ser derrotados pelo rapazola que chorava nos braços de Gilmar dos Santos. Mas isso foi lá em casa, acendendo uma vela, pedindo aos santos que ajudassem a Pelé, que eu acabara de conhecer. Nunca vou esquecer esse momento quando chorei vendo Pelé chorar e, com os colegas, realizar uma volta olímpica com a bandeira do Brasil cobrindo a todos.

Foi nessa época que também conheci Didi e Vavá, e Garrincha, Djalma Santos, Beline, Nilton Santos, Pepe. Depois eu soube que foi nessa época que se superava o “complexo de Vira Lata”, uma explicação de Nelson Rodrigues para o constante fracasso brasileiro. Cresci amando dois times: o Santos e o Santa Cruz.

Mas, como eu disse eu conheci Pelé aos oito anos e vi tudo isso por conta da narração dos artistas que nos contavam o que viam, nos emocionavam com suas emoções verdadeiras. Em um tempo em que as imagens nos vinham pelas palavras dos locutores esportivos. Eles contaram como a realeza europeia se curvou diante a realeza do moleque que foi ensinar futebol aos que pensavam que haviam inventado o futebol. Foi assim que conheci Pelé que depois eu vi no Jornal 100.

Não, nunca conheci a Edson Arantes do Nascimento, nem mesmo quando veio casar-se no Recife. Nunca me interessei por Edson. Aliás, Edson, quando falava, deixava bem claro que ele e Pelé eram diferentes, embora vivessem no mesmo corpo, este muito bem cuidado por Pelé. Assim, hoje ocorreu a morte de Edson Arantes do Nascimento, que nasceu em 1940, em Três Corações, MG, morreu hoje. Pelé nasceu em Santos e não morrerá, pois as lendas e os contos de fadas são eternos. Pelé viverá enquanto houver um atleta, ainda que não seja perfeito como esse corpo educado para ser o corpo de um deus.

Histórias do Natal

quarta-feira, dezembro 21st, 2022

Prof. Severino Vicente da Silva

Pois bem. Nós estamos ao final do ano. E este mês de dezembro nos trouxe muitas surpresas. Entre elas, destaca-se a situação do Brasil ao final da Copa do Mundo de futebol, promovido pela FIFA. O Brasil não foi o grande destaque, apesar de que parte da imprensa Brasileira ter convencido a população, os tecedores brasileiros, de que o Brasil poderia conseguir o seu hexa campeonato. Ora, o que vimos foi uma seleção pouco entusiasmada pelo futebol, e parecia gastar mais tempo na produção de seus cabelos e na organização de danças coreográficas para comemorar possíveis gols. E o resultado foi simplesmente lamentável. Podemos até dizer que foi ótimo não termos ido para a final do torneio, porque com certeza o vexame teria sido muito maior do que o fato de termos perdido para a Croácia. Assim, a comemoração do hexa campeonato ficou marcada para o ano de 2026. Os argentinos, por seu turno, ganharam o torneio. E o tricampeonato.

Enquanto os orgulhosos e felizes argentinos comemoram o seu título. Aqui no Brasil, o mês de dezembro continuou assistindo cenas deploráveis do nascimento de uma tendência fascista, grupos de pessoas que se recusam a reconhecer o resultado da eleição que ocorreu no mês de outubro. Querem que não venha o ano novo, desejam a continuação da velha política, da constante escolha pelo sofrimento e da destruição da esperança.

Sem surpresa para quem observa os acontecimentos e escuta os sinais do tempo, uma pesquisa nos informa que ESPERANÇA foi a palavra que marcou ano de 2022 paa os brasileiros. Alguns a cultivaram no desejo da manutenção e fortalecimento das forças geradoras do mal e outros a tiveram como um facho em direção do ignoto, desejando que o futuro venha a ser construído com as forças desejosas da manutenção da vida repleta de gestos de bondade criativa e construção de pessoas mais interessadas que sejam diminuídas as desigualdades sociais, econômicas, culturais. O resultado das urnas de outubro indicam que poderemos esperançar coisas, situações, ações que nos levem à construção de uma sociedade mais voltadas para agir na direção de superar os entraves que impedem a criação da humanidade.

Agora aproxima-se o festejo natalino, uma festa de aniversário, a comemoração de um nascimento que ocorreu a pouco mais de dois mil anos. Aniversaroo de ima criança nascida em um estábulo, local de descanso para animais e seus proprietários. Os que escreveram sobre este nascimento nos dizem que a vida não estava fácil para os pais dessa criança, pois contam que a sua mãe engravidou antes das bodas esponsais e o seu pai pensou em abandonar a sua noiva. Por pouco o menino teria sido mais uma criança criada só pela mãe. Mas josé, o noivo de Maria reconsiderou sua decisão, Manteve o acordo matrimonial. Resolvido esse problema, eis que a autoridade política resolve fazer um censo, e obriga todos os que saíram de seus locais de nascimento a eles retornarem, o que levou aquela família se dirigir ao povoado de Belém. Mas eram muitos que tiveram de voltar a Belém, por isso não havia casas nem quartos de hospedaria. Só restou ao casal dirigir-se e arrumar-se em uma gruta que havia fora do povoado. Então a jovem inexperiente entrou em trabalho de parto, tendo como auxiliar o marido. Situação de extrema pobreza. Mas parece que não estava muito frio, pois naquela estrebaria só havia dois animais, os pastores preferiram ficar ao relento, apreciando as estrelas, conversando, contado casos e causos, em torno de uma pequena fogueira. Os que narram esses acontecimentos, Lucas e Mateus, chamam atenção a fatos surpreendentes e maravilhosos. Assim como eu, Lucas e Mateus não estavam no dia do nascimento do filho de José e Maria, a quem José deu o nome de JESUS, que quer dizer, Deus Salva.

Mateus diz que homens sábios estavam viajando desde muito longe para conhecer, ainda em criança, aquele que, diziam as estrelas, iria mudar o mundo. Seguiam uma estrela e ela havia parado naquela região. Como entendiam que essa criança que procuravam ia ser importante, um rei (sempre se deu muita importância aos reis), foram perguntar ao rei daquela região, Herodes. Logo Herodes ficou preocupado pois, se alguém ia ser rei, o seu emprego passou a correr perigo. Como Herodes sabia que um sábio do passado havia dito que de Belém viria um rei, nascido de uma jovem, resolveu usar os sábios que vieram do Oriente para ver o rei como seus auxiliares e pediu, gentilmente que, assim que soubessem onde estava essa criança que ia ser rei, mandassem um recado, pois ele desejava prestigiar a criança. Claro que os sábios do Oriente, que pareciam ser reis, conversaram entre si e chegaram à conclusão que Herodes não era de confiança, acharam muito estranho que o rei Herodes nada soubesse da criança. Decidiram que não mais se comunicariam com Herodes. Mateus diz que os reis encontraram o local do nascimento, viram o menino rei, deram-lhe presentes.

Lucas conta outros acontecimentos, esses sem reis. Ele nos conta que perto da gruta havia um grupo de pastores protegendo suas ovelhas e cabras contra a ação de animais famintos. Então os pastores sentiram-se envolvidos por luzes e sentiram medo, quando a voz de um anjo lhes informou que todos deviam alegrar-se pois havia nascido o Salvador na cidade de Belém. Eles viram vários anjos e ouviram que eles davam glória a Deus e aos homens que Ele ama. E o anjo os convidou a visitarem a criança e sua família, deu-lhes o endereço, com indicação para encontrar a família e a criança. E os anjos foram embora, e os pastores resolveram seguir as instruções recebidas. Encontraram a criança e foram logo contando como é que souberam da criança. Lucas diz que os que ouviram as palavras dos pastores ficaram admirados. Devem ter ficado algum tempo conversando sobre o menino. Lucas diz que a mãe de Jesus ouvia tudo, guardava tudo que ouvia. Ela estava maravilhada com o filho. Foi uma noite muito interessante, essa do nascimento de Jesus, nela se encontraram reis de vieram de longe, reis sábios, conhecedores das estrelas, capazes de ler os sinais do tempo, e pastores, talvez não estivesse cuidando de suas cabras e carneiros, mas cuidavam, no relento da noite, dos animais de outros que deviam estar sob seus lençóis, com aconchego de suas casas.

No dia seguinte, os reis voltaram para suas terras, os pastores para as colinas a cuidar dos animais. José e Maria que tinham ouvido dos reis, que trouxeram presentes de ouro, incenso e mirra, que deviam sair logo daquele lugar, pois Herodes poderia vir a fazer mal à criança. Devem ter começado a organizar os pequenos objetos que traziam consigo. É provável que a família chefiada por José tomou a decisão de sair do país, abandonar sua terra, a terra de seus antepassados, deixar para trás a oficina que ficara em Nazaré. Tornaram-se imigrantes. Parentes e amigos cuidariam dessas coisas até que pudessem retornar.

Esses acontecimentos, junto a muitos outros que fizeram a vida de jesus, foram sendo repetidos de uma geração a outra, chegaram até nossos dias. E essa história é contada para que todos nos vejamos nesse menino, para que vejamos todos os que são obrigados a sair de suas terras originárias, ou ficarem em suas terras, desconhecidos, perseguidos pelos poderosos que semelhantes a Herodes, desejando manter-se permanentemente no poder, perseguem crianças pobres, indefesas, pois são filhos de pais pobres, recusam alimento às crianças, enquanto festejam seus desejos iludindo que louvam aquele que nasceu pobre e foi perseguido desde o nascimento. 

Na festa de aniversário de Jesus, quem pode, como os Reis do Oriente, dá presente; os que não podem dar presente, como os pastores, apresentam-se para alegrar os pais e cantar alegria, canções de ninar.

Cuidemos do Menino Jesus, continuamente ameaçado por reis malvados. Evitemos ser causadores da dor das crianças, não esqueçamos que adultos são crianças crescidas. Vamos perfumar o mundo com o incenso, com o perfume da vida, esse que nos vem das flores.   

Marília Orange

sábado, dezembro 3rd, 2022

Severino Vicente da Silva

Esta semana fui impactado com a notícia da ressureição de Marília Orange, uma personagem, uma pessoa importante em minha vida, desde a nossa adolescência. Ela, sua mãe Hortênsia, seu irmão Valdo, a querida Sônia, sempre me acolheram com simpatia e carinho. Sua casa foi sempre um lugar onde encontrei amor. Marília surpreendeu a todos nós quando ele decidiu viver com o seu amor. Seu gesto nos deixou confusos, não sabíamos o que dizer, pois ela rompeu os caminhos que nos haviam ensinado. Lembro dos assustados que fazíamos, festas na casa de Vavá que ficava quase em frente da igreja matriz de Nova Descoberta. E Ninha tinha consciência do seu gesto.

Ninha dedicou parte de sua vida em olhar a administração pública, como servidora atenta, honesta, digna e respeitadora do contrato que assinou com o povo brasileiro de servi-lo. Os bons funcionários são anônimos, pouco conhecidos, mas sem eles o Estado não se manteria servindo ao povo, pois os que chegam a dirigir o Estado, não por concurso e sim por indicação, quase sempre agem em benefício próprio. Em sua vida pessoal, anos depois, sim depois de separar-se de seu amor, Marília voltou a casar com o amor de sua juventude, voltou a viver com ele até o fim dos seus dias.

Entre os muitos momentos que encontrei Ninha, foi na Secretaria de Educação do Município do Recife, quando fiz concurso para professor, mas foi parar na Diretoria de Projetos Especiais da Secretaria, e depois na presidência da Fundação Educar – antigo MOBRAL – com a incumbência de torna-la diretoria de Educação de Jovens e Adultos. Tarefa realizada, fui seu primeiro diretor. Após a mudança de prefeito, por ser o único diretor concursado na prefeitura, os demais estavam ligados à UFPE para onde voltaram, no último dia do governo que saia, fui posto à disposição da Prefeitura de Olinda, onde deveria assumir cargo semelhante, o que não ocorreu por questões político partidária. Então fui convidado a assumir uma assessoria na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, quando participei do grupo de trabalho que deu início a Educação Indígena, o que me deu a oportunidade de visitar as escolas indígenas. Minha chefe era a professor Elizabeth Varjal. Nesse período recebo um recado de Marília e fui ao Departamento de Pessoal da Secretaria de Educação do Município do Recife, e soube que iria ser exonerado pois os que que me levaram à Secretaria Estadual não haviam comunicado ao município a minha transferência de Olinda para a SEC de Pernambuco. Meu anjo, na forma de Ninha evitou essa enorme crise em minha vida. Ela sorriu e disse que eu deveria tomar conta de mim e não acreditar em tudo que as pessoas me diziam, que eu deveria checar as informações, pois sempre haveria pessoas que prejudicam outras por razões políticas, religiosas ou mesmo por que não desenvolveram bom caráter. Foi mais um momento que Marília tomou conta de mim.

Marília ressuscitou no primeiro dia de aula deste semestre e o horário do sepultamento de seu corpo coincidiu com a aula. Mesmo assim tentei chegar ao Parque das Flores, mas as obras na BR e o acampamento de maus cidadãos que não reconhecem o resultado das urnas, sob a proteção de um exército que esqueceu sua função: defender as instituições, não me permitiram chegar e me despedir de minha amiga, de meu anjo protetor, de que cuidou de mim em momento difícil de minha vida. Este depoimento é para dizer a Marília, à Sônia, a Valdo e a dona Hortênsia (em memória), o quanto eu devo a cada um de vocês, cada um à sua maneira, e que eu terei, até a minha ressureição, guardado em minha memória Ninha e cada um de vocês. Sônia, eu amo vocês.

Primeiro Grito de República no Brasil

quarta-feira, novembro 9th, 2022

10 DE NOVEMBRO DE 1710

PRIMEIRO GRITO DE REPÚBLICA NA HISTÓRIA DO BRASIL

Prof. Severino Vicente da Silva

A cada ano as efemérides se repetem, nós as repetimos para não as esquecermos e, assim, vamos formando nosso patrimônio, guardando o que vivemos, nos equilibrando para não esquecer o que somos, quem somos na história. As cidades são entes vivos que existem enquanto nós existimos e as guardando, não esquecendo seus feitos, celebrando os seus feitos, ainda que não sejam tão grandiosos. A grandiosidade de uma cidade é criada pelos seus habitantes que não esquecem o que não viveram, mas sabem que os que viveram deixaram notícias para que, guardando-as, construamos a cidade para além das suas construções físicas. Na verdade as construções só são importantes se soubermos para que serviam.

No alto da Ribeira em Olinda, bem no cume, há um resto de parede, um paredão que nos informa que ali havia uma casa. NO paredão tem uma estela, uma estrela a nos informar que ali funcionava o Senado da Câmara de Olinda, uma das primeiras Câmaras de Olinda. O paredão nos ajuda a lembrar que houve um tempo em que o povoado do Recife era parte de Olinda, e chegou um momento no qual os habitantes do Recife, enriquecidos pelo comércio desejaram separar-se de Olinda.

A primeira capital de Pernambuco era habitada principalmente por senhores de engenho produtores de açúcar e recusaram a separação que lhes seria prejudicial pois implicava na perda de impostos, o que geraria o seu enfraquecimento econômico. O conflito de interesses levou a um conflito que ficou conhecido como Guerra dos Mascates. Como a Coroa portuguesa favoreceu o Recife, os olindenses mais radicais pensaram em uma separação de Portugal, tornado Olinda uma República. Acostumamos a dizer que o Sargento Mor Bernardo Vieira de Melo, Homem Bom e vereador, no dia 10 de novembro de 1710, no Senado da Câmara teria dado o “grito de república”. Aquela foi a primeira vez que essa palavra de sentido político estava sendo utilizada no Império Português. Embora os demais vereadores não continuassem o debate, tendo ficado apenas a sugestão, o Hino de Pernambuco que louva os momentos cruciais da formação de nossa identidade, nos traz essa lembrança e nos ajuda a não esquecer a rebeldia de um senhor de engenho contra os interesses do Império. Bernardo Vieira de Melo foi preso, levado a Portugal, inocentado e hoje é parte vida de nosso passado. É isso que o feriado de 10 de Novembro, que existe apenas em Olinda, quer nos lembrar e, é isso que devemos comemorar.

FELIZ DIA DO PRIMEIRO GRITO DE REPÚBLICA NA HISTÓRIA DO BRASIL

Ouro Preto, Olinda, 9 de novembro de 2022.

Severino Vicente da Silva, PhD em História do Brasil pela UFPE; sócio da Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina; Sócio do Instituto Histórico de Olinda; Sócio Correspondente do Instituto Histórico Geográfico de Goiana; membro do Conselho de Preservação do Part5rimônio cultural de Olinda.

começar, continuar

sábado, novembro 5th, 2022

Severino Vicente da Silva

Novembro é quase fim de ano e pode ser o início de um novo tempo. Nos últimos anos temos “sofrido prá cachorro”, e deixamos que a parte mais malvada de nossa formação treinasse a fazer o mal, a cultivar o medo, a nos prender em nós mesmos, silenciando nossa possibilidade de liberdade diante dos gritos alucinantes e barulhos de motocicletas. Anunciavam a morte, celebravam o fim das possibilidades de alegria, de sentimento da festa que viria. Ao longo deste ano vimos crescer a maldade, o lado obscuro da alma brasileira. Antigos hábitos, que por parcimônia eram praticados na surdina, começaram a explodir em nossa frente. As placas “elevador privativo”, “elevador de serviço”, por força da legislação começaram a serem proibidas nos edifícios e condomínios, embora o hábito sempre levou os arquitetos brasileiros a sempre desenharem um elevador extra, menor, onde não se punha a placa, mas se praticava o racismo racial e social. Afinal, os arquitetos sempre subiram pelo “social”.

Setembro e outubro foram transformados em meses dedicados à mentira, ao engodo, à intriga, à malícia, tudo indicava que venceria a milícia que se armou com armas de fogo sob a complacência de quem devia proteger os cidadãos brasileiros, leis foram modificadas de modo a permitir a destruição de árvores, dos animais e homens e mulheres da floresta. E a sociedade silenciosa, com poucas vozes apontando que caminhávamos ao desastre, e muitos nem perceberam que a fome estava voltando, reduzindo as potências do povo, pois que discutiam o fim do contrato do Faustão, e não se levava em conta o crescimento numérico de vereadores acusados de pedofilia, assassinato de crianças, enquanto víamos a Câmara Federal servir de coito a assassina e a perseguidos pela justiça. Nem houve comoção quando o “presidente” concedeu perdão a quem descaradamente afrontava a Constituição. “tudo dentro das quatro linhas” mais elásticas que já foram armadas desde o tempo de Nabucodonosor.

O final de outubro foi o desencanto para essa parte da sociedade que já se preparava para um tempo sem negros e mulatos nas universidades, a retorno do “elevador de serviço” e a garantia de que os aeroportos seriam apenas seus, sem pobres à vista. A maior parte dos eleitores que foram votar preferiram o brasil multicolorido, multicultural, multireligioso, em busca de criar um país sem fome, com mais escolas e menos pistolas. E então o Brasil pode ver o que se gestava em suas entranhas, das bocas que clamavam o nome de Deus em vão começaram a sair palavrões como em tsunami; “homens de bem” e defensores da família começaram a invadir ônibus escolares para bater em crianças; pessoas que bebiam e saiam às ruas para matar quem não votou como ele e comemorava a vitória; professoras com PhD cortaram de suas aulas alunos  que não votaram como ela; diretora de clube de futebol lamentava os votos do nordestinos que não permitiram a continuidade da miséria que estava sendo gestada. E neste ano vimos uma parte do Brasil que nos recusávamos a ver, esta coisa tribal, não civilizada com verniz de civilização, começamos a ver uma parte do Brasil insensível ao sofrimento do outro, um Brasil formado por gente incapaz de tolerar diferenças, compreender que é necessário sair do universo que gosta a morte. Foi um triste aprendizado, mas necessário para que não continuemos a nos enganar.

Agora sabemos que não somos uma nação feliz como nos fizeram crer; agora sabemos que avançamos pouco desde que o Conde Afonso Celso escreveu “porque me ufano do meu país”, no início do século XX. Então sua glória eram as florestas que estão destruindo, como destruíram o rio Doce, e esburacaram Minas Gerais ao longo do século. O orgulho de Afonso Celso é “apenas uma fotografia na parede”. E todo esse conhecimento de nós mesmos que alcançamos neste ano deve servir para que nos dediquemos mais aos reais valores humanos, que não iremos esmorecer na tarefa de nos tornarmos humanos e não apenas acumuladores de moedas.       

Independência a ser conquistada

sábado, setembro 17th, 2022

Descolonizar a independência

Prof. Severino Vicente da Silva

Passaram-se quinze dias dos festejos do bicentenário da Independência do Brasil, em sua relação com Portugal, sua antiga metrópole dominadora e colonizadora. Tal celebração teria que ter sido de grande júbilo e, contudo, passou com um gosto amargo, diversos amargores e uma pequena dose de mel, nos foi dada pelo presente.

Celebrar duzentos anos de um acontecimento é, principalmente voltar ao passado, ou a vários passados, pois que não há um só. Foi assim que este Sete de Setembro, lembra os Sete de Setembro do passados. Ouvimos várias discussões sobre o que “realmente” aconteceu no final da tarde de 1822; discutimos sobre quem foram os personagens naquela tarde; debatemos sobre a atuação da Princesa Regente que, antes do marido, entendeu de declarar o Reino do Brasil separado definitivamente do Reino de Portugal, recém libertado do domínio inglês; também houve debates, mas em menor número, sobre a atuação de José Bonifácio, o sábio ministro que escrevera a Carta às Nações, denunciando o projeto de recolonização posto em andamento pela Assembleia Constituinte portuguesa; até mesmo houve quem lembrasse que o famoso quadro do Grito do Ipiranga foi pintado anos depois do acontecimento e, foi realizado para enaltecer a figura do primeiro imperador do Brasil, que perdeu o lustro desde que fechou a Assembleia Constituinte brasileira, apontando os limites que seriam trilhados pelos liberais brasileiros. Aproveitou-se a oportunidade para mostrar que quem pagou pela pintura não queria negros no quadro, e artista os colocou saindo pelo alto e à esquerda, mais abaixo o povo que trabalha e, no centro, os que usam farda e governam.

Uma quase novidade foi a luta travada por intelectuais de diversas partes do Brasil para mostrar que sem a sua participação não teria havido independência. Uma grande questão que ainda está a ser resolvida é onde foi proclamada a independência. A maior tradição diz que foi em São Paulo, como está na arte de Pedro Américo e nos inumeráveis livros didáticos escritos a partir do que foi definido no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, com sede na Corte Imperial, no Rio de Janeiro, uma vez que São Paulo ainda não tinha a estrutura necessária para tal função, nem fora levado a sério o projeto bonifaciano de colocar a capital no centro do Brasil. Esperou-se 139 anos para que um mineiro realizasse o sonho do Patriarca da Independência. O Brasil que surgiu em 1822 tem essas coisas, tem um Patriarca, mas não tem Matriarca.

Mas onde ocorreu a Independência? Quem a fez? Os pernambucanos, agora dizem que foram eles, na Convenção de Beberibe, em outubro de 1821, quando as Juntas Governativas de Goiana, Cabo e Olinda, se levantaram contra a autoridade militar portuguesa e a forçaram a admitir que não tinha mais controle sobre a província. As Câmaras eram formadas pelos “homens bons”, na sua maioria senhores de engenhos e escravos e alguns comerciantes. Por questões de prestígio e vaidades que poderiam dificultar a unidade do movimento, escolheram o comerciantes Gervásio Pires Ferreira para presidir a província liberta, não de Portugal, pois o Brasil já era um Reino, um Estado reconhecido pelas nações do mundo, mas do Rio de Janeiro, que era o centro do Reino, regido pelo príncipe Pedro de Alcântara, sempre fiel ao seu pai. Claro que as razões dessa escolha não estão escritas em nenhum documento, mas nos fatos, pois algum tempo depois, alguns ‘nobres’ da vila de Goiana fizeram acordo com o Patriarca que levaram à deposição e prisão de Gervásio Pires, finalmente entregue às Cortes de Portugal. Assim, Em Pernambuco há a glória de ser o primeiro território brasileiro sem governo português, mas abdica dessa honra para que se consolide a independência pensada por José Bonifácio. E o rio Beberibe desaguou no riacho Ipiranga. Essa parte final não aparece nos livros de história nem nas celebrações que Pernambuco não realiza.

À medida que o Brasil avança no processo de educar-se, de conhecer seu passado, começa a entender que a sua história não ocorre apenas na beira do mar, mas nos sertões, no seu interior. A cada ano escutamos mais sobre a Batalha do Jenipapo, ocorrida entre o Piauí e o Maranhão. O governo do Maranhão, por razões explicáveis pelo processo de colonização portuguesa sempre manteve pouca relação com os governos da colônia, habituando-se a relacionar-se diretamente com Lisboa. Essa circunstância explica a forte relação com Portugal e a sua adesão de sua elite às Cortes lusitanas, o seu rechaço à separação. De Oeiras sai o clamor pela independência, mais aceita pelos camponeses, pelos sem-terra, pelos pobres mulatos, outros mestiços e negros, e eles enfrentaram, com suas foices, enxadas, facões ancinhos e seu corpos. cerca de 1500 soldados bem armados. Sim foram massacrados, mas feriram de tal forma o exército português, que forçou, algum tempo depois, a rendição. Mas as elites de São Luís tiveram que enfrentar a marinha que o Imperador enviou para lá.

Quem sempre discute a sua importância crucial e definitiva para a “independência do Brasil” é a Bahia, que sempre festeja com orgulho e alegria o dia 2 de julho, com o desfile do caboclo, dos negros, das mulheres -Maria Quitéria e Maria Angélica, uma camponesa e outra freira. Sempre haverá alguém para dizer que essa independência é tardia, só ocorreu em 1823. Mas, dirão os baianos, aqui houve guerra contra uma comunidade portuguesa bem estabelecida e apoiadora do exército e, contudo, eles foram derrotados e, dessa maneira fechou-se o ciclo da independência política, que ainda necessitará de uma prova de amor do imperador do Brasil para o Reino de Portugal, o acordo de 1827.

Como se vê, luta-se pelo passado. Alguns pelo passado bem morto, como a inciativa de se buscar para um passeio de 10 dias em terras brasileira, o coração do rei Dom Pedro IV de Portugal, retirando-o da cidade do Porto, local de sua preferência e de onde não deveria ter saído. Saiu de lá para cumprir um ritual desejado porque pouco sabe da história do Brasil e, como os colonizadores, dedica-se a retirar o máximo que pode dos pobres. E buscam dominar o passado para que ele seja o seu futuro, pois jamais abandonaram o tempo de colônia portuguesa, quando colaboravam com a escravidão, com a cobrança do Quinto, quando traiam Tiradentes, Abreu e Lima, Manuel Faustino, Gervásio Pires e tantos outros, para continuarem a despojar o povo, deixá-lo morrer de fome, sem remédio, sem casa, sem nada. Vivem o presente como se estivessem no passado, pois é este o futuro que querem para si.

E nas celebrações da “independência do Brasil”, podemos encontrar aqueles que sabem que não houve independência, não houve separação, pois a mentalidade colonial e escravista está presente nas elites, e por terem essa consciência que a história, a sua história de vida, eles continuam construindo a independência, a liberdade. Assistimos os descendentes morais de Silvério dos Reis, abraçados com a bandeira brasileira, mas também com a dso Estados Unidos da América e, não consigo entender o porquê, com a bandeira de Israel. Olhamos para eles e nos vem a voz de Castro Alves, em prantos, clamar: “antes te houvesse roto nas batalhas que servires a um povo de mortalha”. Sim, sei que as escolas estão organizadas a não lerem esses versos, e outros. Esse Grito dos Excluídos, esse poético, é o presente que anuncia o futuro, como anunciou o fim da escravidão. Não, é necessário construir um sete de Setembro, que pode continuar como um divertimento para os que gostam e brincaram de soldadinhos de chumbo, essa brinquedo das guerras do século XIX, o necessário e o que está sendo feito, é continuar a invenção da liberdade, da independência dos falsos líderes, das nações falsas e excluidoras.