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11 de setembro: os germes, as armas, as civilizações

domingo, setembro 12th, 2021

11 de setembro, os germes, as armas, as civilizações.

Prof. Severino Vicente da Silva

No mesmo ano em que ocorreram as lembranças de duas décadas do atentado, bem sucedido, que derrubou os maiores edifícios de Nova York, também foi visto a derrota dos Estados Unidos da América do Norte ao admitir que fracassou na tentativa de impor o seu modo de viver a povos de outra tradição. A saída arrumada por um presidente republicano e posta em prática por presidente democrata, torna claro que o fracasso foi do Estado. O 11 de setembro de 2001 demonstrou que as agências de segurança não conseguiram perceber o que se preparava, dentro dos Estados Unidos, contra os Estados Unidos. Sabe-se, hoje, que o arquiteto e financiador das ações de setembro 2001, era amigo da família presidencial, que então passou a ser perseguido até à morte. No meio tempo começou uma guerra que demostrou pouca inteligência ao tornar todos os habitantes de diversos países inimigos, menos o país de origem do financiador do “projeto Torres Gêmeas”. Os sauditas pouco ou nada sofreram, diferente do que ocorreu com o Iraque, o Afeganistão e outros que estavam minando o campo das relações sauditas-estadunidenses.

Nesses vinte anos iniciais do século XXI, o confronto cultural fortaleceu os setores mais conservadores das nações, e em todas elas assistimos o retrocesso nas relações humanas, políticas, pessoais e religiosas.  A enorme quantidade de livros de autoajuda, a imensa quantidade de sábios a ensinar a melhor maneira de viver, são sinais explícitos dessa tendência, desse fracasso civilizacional que assistimos e, de alguma maneira, dele participamos. Quem leu os estudos de Jared Diamond Armas. Germes e Aço: os destinos das sociedades humanas, compreenderá que pouco difere a ação do então presidente dos Estados Unidos da América daquilo que ocorreu entre os humanos nos primórdios de sua ação sobre o planeta e sobre os seus semelhantes, que também estavam se organizando para viver. O que os acontecimentos deste início de século e milênio nos dizem é que aprendemos a usar com mais habilidade os germes, aperfeiçoar os metais e a prática da guerra. A guerra realizada para impor uma maneira de compreender o mundo continua a ser o modo mais usual das ações dos grupos humanos organizados em clãs, tribos, nações ou estados; é usada para tornar claro ao grupo mais fraco, aquele que não conseguiu dominar os metais ou aperfeiçoar seus usos como instrumento de trabalho ou arma mortífera,  que só lhe resta duas alternativas: adesão ao novo modelo que lhe é apresentado ou resistir até a morte na defesa de si mesmo e, aos sobreviventes o tratamento de desconhecimento de sua humanidade, ficará na periferia, como lixo descartável.

A formação de sociedades mais complexas nas quais vivemos ou delas temos conhecimento, sempre produziu esses resíduos humanos indesejáveis que, vez por outra são mortos em ações mais ou menos aceitas pelos sócios, sempre prontos a justificar com suas religiões e/ou filosofias. Claro que se sofisticaram os meios e métodos de explicação para o não reconhecimento da humanidade desses sobreviventes. Daí os livros de autoajuda, as sociologias, as teologias, as constantes revisões históricas, as psicologias, etc.

Outro fator que se repõe neste início de século milênio, são os germes, esses companheiros de vida e morte, de difícil compreensão pois que estão fora dos nossos olhos, sabemos de sua existência, sentimos sua presença de maneira mais sensível quando adoecemos. Reclamamos explicações para as doenças, e sempre nos foram dadas pelas religiões: são mal olhados, são possessões demoníacas, são espíritos malignos, encostos, pragas, castigos divinos, e tudo mais que a imaginação e medo provocam. Desde final do século XV que a ciência racional, científica, vem buscando compreender a origem, função desses seres invisíveis com os quais convivemos e, em determinados momentos e circunstâncias levam à morte, quase sempre de modo individual, mas também pode vir de maneira coletiva, como estamos a experimentar mais uma vez, como forma endemia ou pandemia. E como o problema é coletivo, mas os livros de autoajuda são para indivíduos, cá estamos em uma enrascada à Simão Bacamarte.

Neste setembro assistimos mais um capítulo do atual Simão Bacamarte, gestor na Itaguaí atual, apoiado por assessores internacionais, que expôs a produção do medo ao máximo para impor seu modo de viver, ameaçando, com invisíveis bacamartes e fuzis, colocar a todos na famosa Casa Verde, agora acrescida de amarelo.

E em meio a tudo isso, há um debate sobre a Grande Imprensa que faz “narrativas”, como se, em algum tempo a imprensa foi efetivamente “portadora da verdade”. A sequência de manchetes na imprensa francesa entre a fuga de Napoleão e sua chegada a Paris nos dá uma pista para pensar sobre a ruindade da imprensa atual, e a relação entre a imprensa e o poder.

Escolhas históricas

quarta-feira, setembro 8th, 2021

Escolhas históricas.

Severino Vicente da Silva[1]

Pois que veio e se foi, este agosto de chuva, ventos e acontecimentos comuns e incomuns. Em muitas escolas continuam festejando o Mês de Folclore, essa palavra inglesa, inventada no século XIX para negar que aos pobres da Inglaterra e aos povos não europeus fosse concedida a permissiva ideia de que eles teriam cultura. Na época, alemães e franceses debatiam se eles eram detentores de cultura ou civilização, debate bem apresentado por Norbert Elias enquanto desvelava o processo pelo qual a Europa inventou a sua civilização, até início do século XX. Enquanto isso, aqui no Brasil, a Secretaria de Cultura, subordinada ao Ministério do Turismo, juntamente como Ministério da Fazenda, colocava à venda o edifício Gustavo Capanema que foi a primeira sede do Ministério da Cultura, pois que ele perdeu a sua utilidade (Estadão, 19/8/21). Na véspera deste Mês do ‘Folclore’ (G1 SP 30/7/21), assistimos imagens de um incêndio que fez desaparecer grande parte da memória, da produção do cinema brasileiro. No mesmo passo, soubemos que o Diretor da Fundação Palmares está propenso a retirar os símbolos da tradição africana do logotipo da Fundação (Poder 360, 24/08/21). Agosto é mês que corre muito vento, nem sempre esses ventos são do Saci Pererê, que são ventos de brincadeira. Mas a cultura neste país continua sendo folclore, coisa para turista ver. Talvez seja por isso que o atual governante do Brasil tenha colocado a cultura como parte do turismo. Mas é um desastre após o outro e, neste diapasão logo mais não teremos, da cultura que criamos ao longo de quatro século, “nada além de uma linda ilusão”, como dito em famoso fox, composto por Custódio Mesquita e Mario Lago, em 1938.

Entretanto, em grupos menores, esses que poderiam ser chamados por minorias abraamicas, se usássemos a sugestão de dom Hélder para indicar os que não desistem de seus ideais, pudemos assistir e, também participar, de debates sobre os acontecimentos históricos de 1821, aqui em Pernambuco, envolvendo pessoas de Goiana, Nazaré da Mata, Paudalho, Olinda, Recife. À época ocorria no Império Português a Revolução do Porto que determinava a formação de Juntas Governativas, sugerindo grandes mudanças políticas. Pensava-se superar a autocracia monárquica por uma monarquia constitucional. As diversas províncias deveriam criar Juntas Governativas e aderir ao processo constitucional em andamento. Então, o General Luiz do Rego, português que governava Pernambuco desde a derrota da República de 1917, não se dispôs a acatar as determinações provenientes do Porto, e pretendia continuar com o seu mando autoritário, a Câmara de Goiana, após longo debate, estabeleceu uma Junta Governativa e exigiu a renúncia do algoz dos pernambucanos. A insistência em manter seu arbítrio pessoal, o fez enviar soldados para deter as tropas que foram criadas a partir dos acontecimentos de Goiana, mas os soldados pernambucanos que estavam sob comando de portugueses aderiram ao movimento que se dirigia ao Recife. Cercando o Recife, estabelecendo quartel general próximo ao rio Beberibe, no mês de outubro, a Junta de Goiana forçou a queda da autoridade do Império Português em Pernambuco. Formou-se, provisoriamente, um governo independente do Reino Unido Brasil/Portugal. Mais tarde, na Catedral de Olinda ocorreu a votação para o primeiro governo independente no Brasil, tendo sido escolhido para chefiá-lo o comerciante e combatente de 1817, Gervásio Pires Ferreira.

Em 29 de agosto de 2021, o Instituto Histórico Geográfico de Goiana celebrou a data da independência “sem Ipiranga, sem independência vassala”, no dizer do historiador Josemir Camilo.

Celebramos a vitória dessa primeira independência, nos institutos históricos de Olinda e Goiana e em outros institutos, embora haja celebrações maiores por sua derrota, em decorrência do grito tardo e do agrado de Dom João, o rei do Brasil e de Portugal. E fazemos essas celebrações para que se saiba desses fatos passados há dois séculos, e o fazemos em um momento crucial da nação brasileira que se forjou em torno do Sete de Setembro, quando um outro militar de parca compreensão do momento histórico, voltado para si mesmo, apoiado por alguns, deseja perpetrar um golpe contra as instituições brasileiras, conclamando seus seguidores para, no dia sete de setembro, demonstrar seu poder. Em verdade demonstra que, como Luiz do Rego truncou as orientações da Assembleia Constituinte do Porto, atualmente, o militar reformado para não ser expulso do exército, vive a fazer esdrúxulas leituras da Constituição brasileira a seu interesse. Celebramos as vitórias de 29 de setembro e 10 de outubro de 1821, derrotadas na continuidade do sete de setembro de 1822, na confiança de que não retornaremos a situação de subalternidade que os atuais gerentes do país nos querem levar.


[1] PhD em História pela Universidade Federal de Pernambuco, Sócio do Instituto Histórico de Olinda, Sócio Correspondente do Instituto Histórico Geográfico de Goiana, Membro da Comissão de História da Igreja da América Latina.

Foi escrito para outro meio que não o blog

Semana da Pátria e a história de um povo

sábado, setembro 4th, 2021

Semana da Pátria e a história do povo

Severino Vicente da Silva

Então começou setembro e, com ele, a Semana da Pátria, como aprendi desde os primeiros anos de minha vida escolar. Também um pouco em casa, embora não tenha sido no ambiente familiar meu primeiro conhecimento dos eventos que culminaram com a proclamação de um jovem príncipe, às margens de um riacho conhecido como Ipiranga. Creio que o mesmo aconteceu com a maioria dos jovens de minha idade, nascidos no interior do Brasil.

Essa história de pátria brasileira, de heróis brasileiros, só se sabia através das cédulas que traziam imagens de Pedro Álvares Cabral, Barão do Rio Branco, Duque de Caxias, Deodoro da Fonseca, Princesa Isabel, Pedro I, Pedro II. Meus país cresceram no final da República Velha, foram jovens ao longo da Ditadura do Estado Novo. Eu, nascido no período da dita redemocratização, como meus irmãos já íamos para a escola onde aprendemos que vivíamos no Brasil. Meus avós e meus país nasceram e cresceram nas terras de alguém. Do Brasil sabiam por terem pago um imposto no cartório ao registrar um pedaço de terra, resultado da guarda de dinheiro ganho no transporte de algodão, e também por terem casado “casado no civil”, pagando ao Estado por este serviço, também pago quando registraram seus filhos. Mas foi na capital que foram se tornando íntimos do Estado. E pagavam impostos sem saber que o pagavam. Ainda pagaram escolas primária e secundária para seus filhos, pois não havia escola pública para atender os mais pobres. Não era fácil conseguir uma matrícula em “escola do governo”, como se diz na época. Mas todos pagavam impostos, e muitos sonegavam, como hoje. Foi para diminuir a sonegação dos comerciantes que o Secretário da Fazenda no governo de Cid Sampaio, Miguel Arraes, criou o programa Bônus BS.  

Só nos anos setenta é que se soube que havia o tal de Leão do Imposto de Renda. É, foi pelos impostos que o Estado brasileiro se aproximou do seu povo. Além da polícia, sempre temida pelos mais pobres, pois que estava a serviço dos poderosos. A proteção prometida era sempre relativa. A relatividade das relações sociais sempre foi do conhecimento dos pobres, ainda que não soubessem nada do pensamento de Einstein.

Mas, voltando ao tema, a Semana da Pátria era o momento em que o Estado mostrava a sua força nos desfiles militares. O Sete de Setembro foi sempre um momento de exposição do poder da força do Estado, com suas fanfarras, seus passos de sincronizados, uma “amostração” para o povo que, como disse Aristides Lobo, “assistiu bestificado a proclamação da República”. Mas os desfiles das Forças Armadas foi um caminho escolhido pelo ditador Vargas para encontrar-se com o povo, criar uma ideia de nação; era um esforço para definir o Brasil que, sem modificar as marcas do império do latifúndio escravocrata, viesse a sentir-se diferente. Um esforço que foi continuado após o fim formal da ditadura e pela nova ditadura instaurada em 1964. Aos poucos foram sendo integrados outros aspectos da sociedade, especialmente após a guerra findada em 1945. Criaram-se os Jogos estudantis e até mesmo a abertura de espaços para estudantes pouco antes do desfile dos militares, no Sete de Setembro, passaram a ocorrer. A percepção de que tais desfiles de armas não representava o povo, fez surgir em 1994, o Grito dos Excluídos.

Neste ano de 2021 algo interessante está ocorrendo: nem mesmo o exército está muito interessado em desfilar no Sete de Setembro, pois teme que seja definitivamente confundido com uma demonstração de um grupo que pretende golpear o Estado que eles construíram 103 anos de influência, direta ou indireta, na formação da ideia de uma nação. Assim, mesmo sabendo que nem sempre o Estado Brasileiro, que o Exército brasileiro esteve intimamente ligado aos interesses do povo construtor do Brasil por seu trabalho sem reconhecimento, vamos celebrar o Sete de Setembro no  sentido de completa-lo, incluindo a celebração do 5 de outubro de 1821, a primeira independência do Brasil, nas margens do rio Beberibe.

Aprendendo dos avós

sábado, julho 24th, 2021

Nosso passado no presente

Prof. Severino Vicente da Silva

No Recife de minha infância o inverno era mais frio, como está sendo o mês de julho deste ano, o que tem surpreendido a muitos, pois o calor tem sido a marca dos últimos anos, talvez em decorrência da diminuição das áreas verdes, talvez pelo avanço do cimento que impermeabiliza o solo. Mas o certo é que esse pequeno frio,, deste mês de Santana, me traz lembranças, como as de minha avó Alexandrina em sua cadeira de balanço, eu no colo. Não sei se é lembrança minha ou dos outros que me contaram, mas parece que do seu colo eu via a rua e a Casa Grande. Assim, lembro dela sempre que, em uma igreja, ou foto em livro, encontro a imagem de uma senhora com um livro na mão ensinando a uma menina. Aprendi que aquela era Ana, e a menina tinha o nome de Maria. Ana ensinava Maria. Essa é uma imagem que deve ter sido criada no Renascimento europeu, pois no tempo da meninice de Maria não havia o tipo de livro que manipulam, mas é a imagem da avó de Jesus mais comum nas capelas dos antigos engenhos que moeram cana durante anos na Zona da Mata de Pernambuco. São muitas as capelas a ela dedicadas, e, disso pode ser deduzido que, as senhoras dos engenhos por ela tinham uma devoção especial. Será que se viam como a Sant’Ana, responsável pela educação dos seus escravos e moradores? Não sei, ensinar exige humildade de servir. Mas o que sabemos de certo é que são dedicadas festas a Sant’Ana de tal forma que, para a população, julho não é o mês do imperador Júlio César, mas o mês de Sant’Ana.

Ana é a avó educadora, transmissora das tradições, mas, entre nós, dedicou-se especialmente às tradições europeias. Hoje vivemos em um mundo mais plural do que o universo que eram os engenhos que produziam açúcar, o adoçante para a Europa, e os engenhos o fizeram de tal forma que hoje há quem confunda doce com açúcar, mais especificamente o açúcar de cana. Talvez seja por isso que se criou o costume de colocar açúcar nos sucos das frutas, diminuindo seus sabores. O castigo é a diabetes?

O Brasil, o povo brasileiro é formado de muitas tradições e de variadas cores, como as frutas da terra, e também as que vieram da África, Europa, Ásia.  Muitas delas já nem as vemos mais, exceto por fotos, e já são várias as gerações que não sentiram o gosto da mangaba. Mas, se a agricultura que busca lucrar pode nos fazer perder a tradição da romã, do sapoti, do ubu, da jaboticaba (esta é utilizada para zombar de algo que é único no Brasil, especialmente as práticas políticas sem sabor decente), não conseguiu esvaziar as memórias das muitas tradições culturais que formam nosso universo mitológico ou religioso. Estou a pensar como essa tradição  que explodiu neste mês de Nanã, na distante Terra do Sol Nascente. O jovem Paulinho comemorou o gol realizado por ele dedicando a Oxóssi, que muitos brasileiros acolhem como São Sebastião, o senhor das matas, vencedor com uma só flecha. Como a única flecha de Oxóssi, o gol de Paulinho, garantiu a vitória; seu gesto enviou a mensagem de que somos vários, os brasileiros. É Nanã, é Ana, cuja celebração ocorre no dia 26, a nos mostrar o livro da vida, mostrar como devemos nos comportar, aceitar e viver nossas tradições.  

O conhecimento, quando chegamos a ele, é sempre doloroso, nos expõe em nossa permanente ignorância, e são necessárias, ao menos duas virtudes para obtê-lo: coragem e humildade. Humildade para aceitar o novo que irrompe e nos rompe a casca de pequeno saber que julgávamos ser todo o saber; e coragem para abandonar a casca que nos protegia, para aceitar e continuar a descobrir coisas novas nas antigas coisas que nossos olhos sociais não nos permitiam ver. Sim nós somos levados a ver o que a sociedade nos indica a ver. Nem todas as pessoas possuem a coragem de aceitar que o mundo é maior que o seu quintal cultural.

Faz algum tempo, um grupo religioso em ascensão social e numérica demonstrou isso levando jogadores a exporem a sua fé nos estádios, afirmando que a sua vitória era a vitória de seu Deus. Nem todos os setores da sociedade sentiram-se confortáveis com esses gestos que, aos poucos, foram rareando. Agora, é a vez dos seguidores das religiões afro-originárias assumir publicamente a sua fé, acreditando na aceitação social da pluralidade religiosa no Brasil, o que causou espanto a muitos que desconhecem os ritos e símbolos sagrados dos Xangôs, Candomblés, Jurema, Macumba, Umbanda. Foi necessário, é necessário, explicar para facilitar a compreensão desse fenômeno que nos ajudará, creio e desejo, a viver em uma sociedade laica que, no futuro compreenderá que a prática religiosa deve ser respeitada, praticada com simplicidade, sem agressividade.

Sempre podemos aprender com nossos avós, com nossos ancestrais. Assim, Salve Nanã, Salve os Espíritos das Matas, Salve SantAna.

Paredes que contam história

domingo, julho 11th, 2021

PAREDES QUE CONTAM HISTÓRIA

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente –

ORCID 000000189111409

Esperei o dia 10 de julho com o objetivo de participar de um evento que deveria ter ocorrido em dezembro de 2020, impedido pela pandemia que marca esta terceira década do século. Assim, após as vacinações necessárias, o Instituto Histórico Arqueológico Geográfico de Goiana, cidade cujas origens estão fundadas na Capitania de Itamaracá e que compõe a então Província de Pernambuco apenas no final do século XVIII, realizou mais uma etapa do projeto Paredes que contam história. A ideia básica da referida ação é, de maneia simples e visual, socializar acontecimentos, pessoas, instituições que fizeram a cidade, ao tempo que atualizam a memória da população local para a importância do passado no seu presente e, para o visitante, turista ou simplesmente um passante, expor informações que levarão consigo para seus lugares de origem. Com esse projeto, o IHAGGO demonstra o empenho de superar a distância que sempre marcou os espaços entre as instituições do saber organizado à moda dominante e as pessoas comuns que, premidas pela luta diária da produção dos bens materiais necessários à sobrevivência, não percebem que suas ações são as portadoras da história, e dela são alienadas. Assim, nas paredes ficam expostas, não apenas os nomes das ruas, logradouros, edifícios, mas o que eles significam por terem sido parte da construção social.

Neste dia 10 de julho, o IHAGGO celebrou, no espaço de um antigo porto fluvial, um braço do Capibaribe Mirim, o Canal de Goiana, uma parede em homenagem às Pretinhas do Congo de Goiana. O local é mais conhecido como o Baldo do Rio, habitado por gente pobre, quase todos afrodescendentes, como está exposto em suas peles negras. No início do século XX ali eram os fundos do Fabrica de Tecidos e Linhas de Goyana, marco de uma tentativa de industrialização de Pernambuco, uma das primeiras a criar as Vilas Operárias, casas para os trabalhadores, o mesmo modelo para todos, porém diferenciando das residências dos funcionários administrativos e da direção da companhia. Era um esforço dos industriais, alguns de antigas famílias proprietárias de terra na região, bem como de comerciantes bem sucedidos em caminho de ascensão política. A fábrica apontava um novo caminho para Goiana e para o Estado, juntando-se às usinas de produção de açúcar de cana que substituíram os engenhos. Com operariado crescente, Goiana chegou a ser local de encontro operário nacional, sendo que um dos seus párocos, Padre Távora, ser posteriormente cognominado de Bispo dos Operários.

Um dos orgulhos goianenses é que sua Câmara foi a primeira, em Pernambuco, a abolir a escravidão, mas o Baldo do rio é uma mostra de que, como no restante do Estado e do país, pouco se cuidou da integração dos trabalhadores libertados pela Câmara em fevereiro, e pela Princesa Isabel em maio de 1888. Aliás, um dos cantos da Pretinha é de louvação à filha do Imperador Pedro II. Como frisou um historiador, era o curso de uma “modernização conservadora”, que mantinha o padrão de atender o interesse de uma pequena parcela da população, e a riqueza gerada não foi razoavelmente distribuída pela população local, de modo a não provocar crescimento real do mercado interno; além disso, não foram incorporadas as modificações técnicas geradas no campo externo, levando à consolidação das estruturas tradicionais, por isso, apenas uma parte superficial da sociedade pode acumular a riqueza promovida pela indústria, aumentar a acumulação das riquezas e, quando assim não o faziam, apenas assistiam a troca de mando nas riquezas, com a venda dos engenhos de fogo morto, as usinas e o maquinário incapaz de concorrer com as modernas e constantes mudanças na produção. Coube aos mais pobres, aos homens e mulheres livres da escravidão em 1888, estabelecer moradia nos espaços do maquinário que ficava mais próximo do Canal de Goiana, aquele lugar esquecido, um Baldo.

Mas muito antes dos acontecimentos dos anos cinquenta, quando o parque industrial do Sudeste crescia e engolfava as tentativas industriais das demais regiões, nos anos trinta, preocupado com as crianças que viviam sem escolas, sem lazer e com futuro ameaçado, um homem que trabalhava na fábrica deu início à tarefa de oferecer algum sentido à vida das meninas afrodescendentes que viviam perambulando à beira do braço do rio Capibaribe Mirim, e criou a Pretinhas do Congo. Alguns anos depois, talvez premido por pressões políticas, entregou a tarefa a seu Pirrixiu que a transferiu para a filha e a ‘Heleno’. Atualmente a Pretinhas do Congo estão sob a responsabilidade de seu Val e de Rosa. Cuidar das crianças antes que a sociedade dominante pensasse no Estatuto da Criança e dos Adolescentes, é o que nos ensina o criador da Pretinhas do Congo. Se é comum encontrar a consciência de que a República foi proclamada sem considerar necessária a participação do povo, costumo dizer que o povo fez sua república, continua fazendo a república que a todos deseja incluir. Assim é que a Pretinhas do Congo, agora reconhecida como Patrimônio Cultural de Pernambuco por iniciativa de Willemberg Francelino, recebeu alegremente o IHAGGO para a inauguração da placa que conta um resumo da história da Pretinhas do Congo. É um momento de contato, para além das apresentações carnavalescas, entre duas instituições culturais da cidade, o reconhecimento mútuo de que carecemos muito fazer para que nossas repúblicas se tornem uma república de homens e mulheres livres e amantes da liberdade, a todos acolhendo.      

Matuto e matutos

sexta-feira, julho 2nd, 2021

MATUTO E MATUTOS

Severino Vicente da Silva

Nos anos finais do século passado frequentei algumas regiões do “interior” de Pernambuco, o Sertão, aquela parte geográfica do país mais distante do litoral, pude compreender certos mitos, verdades aparentes que me foram ensinadas nas salas de aulas e nas ruas, e que foram absorvidas, com algum preconceito, a respeito do Sertão e o seu modo de viver. Frequentando a região e conhecendo algumas franjas do viver das pessoas, aprendi coisas novas, de modo que o Sertão ficou sendo também a minha terra, fui me tornando sertanejo. Como cresci quase cheirando o mar, tudo que não era do litoral era-me estranho. Convidado para ir dividir com jovens sequiosos de saber o que havia aprendido ao longo de minha vida, nos bancos escolares e em outros lugares, a ida ao Sertão deu-me oportunidade de lenta e quase inconscientemente, compreender que havia aprendido pouco. O que não quer dizer que o Sertão sabe tudo, mas a experiência de ter vivido lá alguns finais de semana, foi valiosa para entender novos caminhos. Eu já estivera em outros lugares além das ruas do Recife, a cidade que me desafiou a viver do magistério. Cresci vendo enchentes do rio que desce desde o Agreste para criar uma ilha em cooperação com o Oceano Atlântico, e ainda outra com um rio matuto; cresci no Recife sentindo o vento solto de agosto, fazendo levantar as saias da moças nas esquinas dos prédios levantados à beira do rio, zombando das palafitas formadoras das favelas fluviais; acompanhei as chuvas que serrilham o barro dos morros ocupados corajosamente por uma gente que, como minha família, chegou da Mata; tudo isso era o meu mundo, e me fez.

E quando voei para longe, fui por cima, tão alto e tão rápido que pouco aprendi no trajeto, mas a surpresa da vida com objetos e pessoas tão distintas que lá encontrei encantou-me. Encantados não aprendem, embora o encantamento inicial pode vir a ser um dos caminhos do aprendizado. Viver com o encantador nos põe em contato com seus segredos e, podemos alcançar suas fragilidades.

Hoje observo que houve um tempo que eu não, queria ser matuto, desgostava-me que assim me vissem. Viver no Recife é aprender a não ser matuto. Matuto, diz o dicionário, “é aquele que demonstra timidez, retraimento, desconfiança”; do matuto também se diz que é “indivíduo que vive no campo e cuja personalidade revela rusticidade de espírito, falta de traquejo social; caipira, roceiro, jeca”[i].  Ser matuto é ser descriminado negativamente.

Engraçado é que houve um momento em que uma Junta de Matutos, afastou do governo Gervásio Pires Ferreira, revolucionário de 1817, escolhido na Convenção de Beberibe (1821) para governar Pernambuco, primeira região livre do domínio dos portugueses.[ii] Quem e o que eram esses “matutos”, será que a sua ação aprofundou, ou criou, esse sentimento nos recifenses?

Aqueles Matutos eram senhores de engenho, membros das tradicionais famílias Albuquerque e Cavalcanti, a quem se atribui os maiores feitos da história pernambucana. Após terem participado de conspirações e revoltas contra o poder colonial em 1801, e mesmo em 1817, eles foram seduzidos pelos projetos de José Bonifácio de Andrade e Silva, cuja carreira política se fez sob a proteção dos Bragança. Ao Regente uniram-se após o Sete de setembro de 1822, o regente de Dom João, aqui deixado para evitar que aventureiros se apossassem das terras conquistadas pelos lusitanos. Então, os Matutos, os donos de terra e escravos, abandonaram os ideais de Frei Miguelinho, padre João Ribeiro, Padre Tenório. Mais tarde derrotaram a Confederação do Equador, que levou Frei Caneca ao arcabuzamento anônimo, pois os recifenses, livres ou escravos a quem prometiam liberdade, recusaram colocar as cordas no pescoço do patriota recifense. Não quiseram ficar como os “Matutos”.  Mas não se manda se não se tem a quem mandar.

Por crescer no Recife, sendo matuto de Carpina, retirante para o litoral, aprendi a não gostar de matutos, tornei-me recifense. Os do Recife, sem saberem, refazem a historiografia silenciosamente, enquanto o historiador oficial conta a vitória dos Matutos e, procura entender porque sua história é tão rica, mas fica perdida na bagaceira.

Neste período de celebração de dois séculos da independência de Pernambuco, há que se lembrar que houve uma disputa interna na elite, sendo uma parte mais enamorada dos ideais republicanos e de autonomia em relação ao Rio de Janeiro e à Lisboa, e outra parte mais próxima do projeto dos Bragança, sob a liderança de José Bonifácio, apoiada nos setores mais conservadores e monárquicos, pois a monarquia lhes servia mais. Entre 1821 e 1825 houve muita troca de lugares na política, para finalmente os Matutos, senhores dos engenhos da Zona da Mata, continuarem a cavalgar a Província. O professor Marcus Carvalho nos lembra que se pode dizer

 com razoável segurança que 1824 não foi uma aventura republicana pura e simples, mas uma radicalização desesperada, o desdobramento trágico das tentativas de tomar o poder feitas pelas facções das elites que não queriam se aliar ao projeto centralista e autoritário vindo do Rio e que, por alguns meses, chegaram a preferir a manutenção do status de reino unido, desde que dentro do modelo federalista e constitucional adotado, por algum tempo, pelas cortes a partir de 1820.[iii]

Hoje sei que não devo colocar, juntar, no mesmo espaço social, os que formaram a Junta dos Matutos e os matutos que vieram a formar as residências que ocupam os morros da Macaxeira, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Córrego do Euclides, Beberibe e os becos do Arruda. Afinal são Dois Séculos no qual assistimos os dois matutos: um que é Cavalcanti e sua parentela, o outro que é o cavalgado. Por outro lado, compreendo que são duzentos anos de reclamações dos cavalgadores em relação às esporas e freios que lhes são postos desde que, para garantir a limpeza de suas botas, aceitaram por medo de uma haiatização, o café sempre servido sem açúcar.


[i] https://www.google.com.br/search?q=matuto+significado&sxsrf=ALeKk02kQR31dIE56D4vCyn89MmqF9mJXw%3A1625139690208&source=hp&ei=6qndYOCwCtS85OUPw4KiwAo&iflsig=AINFCbYAAAAAYN23-poUJFBYITiB1RkOIcN-BbCJdZLu&oq=matuto&gs_lcp=Cgdnd3Mtd2l6EAEYATIFCAAQsQMyAggAMgIIADICCC4yAgguMggILhDHARCvATIICC4QxwEQrwEyAggAMgIIADICCC46BAgjECc6CAguELEDEIMBOgUILhCxA1CgR1i_S2C_dmgAcAB4AIABkwSIAdYMkgEJMi0xLjEuMC4ymAEAoAEBqgEHZ3dzLXdpeg&sclient=gws-wiz. Visto em 1º/07/21.

[ii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014

[iii] CARVALHO, Marcus J. M. de. Cavalcantis e cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco, 1817-1824. https://doi.org/10.1590/S0102-01881998000200014