Arquivos

Patrimônio e Irmandades

Hoje é o primeiro dia da primavera deste ano de 2016 e, nesta manhã acompanho, sem o desejar, a conversa de três jovens sobre as possibilidades de poderem se apresentar para fazer os próximos concursos. São sonhos de rapazes e moças para o seu futuro. Conversam sobre assuntos diversos, relacionados com suas vidas. Estão em uma biblioteca pública. Sobre a mesa um computador, mas a biblioteca não oferece internet. O prefeito e o seu secretário não entendem que seja necessário esse pequeno detalhe. Por uma rede na biblioteca ou a biblioteca na rede. Os livros da biblioteca são aqueles que algumas pessoas decidiram que não havia mais espaço para eles em suas casas. No centro histórico de uma cidade que patrimônio cultural da humanidade, duas das portas laterais da biblioteca estão a cair. A casa é centenária e foi, parece doada por ilustre família tradicional e de tradição intelectual. Mas duvido que haja, no município, uma política de incentivo à relação da biblioteca para com a sociedade, além de manter a porta aberta e os livros nas estantes. Esta casa possui um conceito atrasado, para dizer o mínimo, do que é uma biblioteca.

Algumas cidades brasileiras começaram a existir ainda no período do Império português. Esta é uma delas. Caminhar em suas ruas ajuda a entender um pouco da Europa medieval e também do período barroco. Além dos edifícios oficiais próprios de uma cidade que já foi centro politico, as construções mais significativas são religiosas, igrejas construídas com o entusiasmo religioso organizado em Irmandades religiosas. Irmandades de Nossa Senhora do Amparo, Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Irmandade de São João Militares, Irmandade da Ordem Terceira de São Francisco, Irmandade de Nosso Senhor do Bonfim. Suas igrejas foram construídas por particulares, não foram iniciativas de nenhum bispo. A fé veio antes da organização burocrática. Às vezes a burocracia interrompe o caminho da fé. Mas os clérigos, que são pagos para servir às irmandades, não se apercebem disso, e, parece, assim acontece ao clero pernambucano, como à oligarquia do açúcar. Ao clero, em Olinda tombada pelo Patrimônio Histórico e referência da cultura civilizacional ocidental, pertencem apenas a Catedral, a Igreja de São Pedro Apóstolo e a Igreja de Nossa Senhora da Graça do Seminário. Esta deveria ser dos jesuítas, mas tendo eles sido expulsos por ordem do Marquês do Pombal, ela foi incorporada aos bens da Diocese de Olinda quando Azeredo Coutinho decidiu que faria ali seu seminário.

O sentimento religioso da população da cidade que foi sede da Capitania de Pernambuco diminuiu bastante desde que as irmandades foram estabelecidas ao longo do período colonial português, desde que o processo de secularização acelerou-se no final do século XIX em diante. Hoje as irmandades precisam atrair mais os jovens para suas atividades e voltarem a ser espaço de socialização, de transmissão de saberes, de formação de tradições. Irmãos, irmãs, confrades e clero, em tempos anteriores se completavam nessa tarefa de organizar a cidade de manter o sentimento religioso. As irmandades é que devem zelar pelos seus templos, envolvendo, como o fizeram no passado, a vizinhança. Quanto ao bispo, ele pode continuar concedendo aos padres o direito de usarem o espaço dos templos das irmandades para que eles celebrem os sacramentos, o que justifica a sua existência: prestar serviço religioso e fortificar a fé dos que aceitam a fé cristã católica. Foi assim, mesmo quando ocorreu a separação dos poderes político e eclesiástico, passo dos primeiros na República.

Se cada parte da sociedade cuidar de suas responsabilidades, não interferindo nos direitos dos outros, continuaremos a ter belas procissões organizadas pelas irmandades que sempre estarão alegres por terem os padres dispensando as bênçãos e as graças que a divindade concede a todos. Da mesma maneira, se a Secretaria de Educação e a Secretaria do Patrimônio Histórico cuidarem melhor da Biblioteca Pública de Olinda, estarão, também, preservando Patrimônio Cultural da Humanidade, conforme definido pela UNESCO. Se não fizerem isso estarão traindo as suas vidas. Uns prestarão contas a Deus por não cuidarem bem de suas ovelhas, outros prestarão contas aos cidadãos que são os eleitores.

A Primavera, a Morte e o Rio São Francisco

A primavera aproxima-se, repete-se a cada ano, faz muito tempo. A cada geração muitos poetas falam da primavera, os melhores não se repetem em tema tão repetido desde que o sistema solar alcançou a temperatura ideal para a criação da vida, sua renovação. A cada ano volta a primavera e, como é difícil encontrar repetição nesse retorno. Sei que chegam as rosas, e as abelhas motivadas pela luz solar e pelo aroma doce das flores, repte-se a dança da polinização, colocando junto o que estava separado. Nesses aleatórios movimentos, das abelhas, borboletas besouros e ventos a vida se mantém. E cada vez essa repetição parece ser diferente, ao menos aos nossos olhos que, surpreendem-se com as novas informações que o cérebro seleciona para a visão, o tato, paladar. Claro que também a audição sempre pode trazer novos sons primaveris, desde que escutemos a seleção que nos cabe ouvir, presentes de pássaros, cigarras, cobras, tatus, ventos farfalhando árvores. E como cheira a primavera, os perfumes entontecem! O perfume de uma mulher, o cheiro de um homem em plena primavera é uma festa que nos leva, que tem levado a humanidade a festas de renovação da vida. Nunca cansamos de repetir tanta vida. Dela morremos.

Sim a morte também é parte integrante da primavera. Complemento da vida, a morte anuncia a renovação. Se a semente não morrer não veremos a árvores. Sendo que já completou o ciclo, os seres se despedem e servem para o fortalecimento de novos seres. A vida é a sua sucessão. Uma parte dos seres vivos assumiu a consciência de si e quere recusar-se a dar seguimento à vida contribuindo com a sua morte. Nós, os humanos não entendemos a morte, não aceitamos que essa separação radical seja parte inerente do viver. A morte nos é estranha, embora seja nossa companhia desde quando começamos a viver. Recusamo-nos a aceitar que há um limite em nosso tempo para nossa vida pessoal. No passado cuidávamos que a própria vida cuidasse desse momento, mas, insatisfeito criamos muitas maneiras para atrasar o momento de morrer. Carecemos de tempo para aceitar que alguém morreu, buscamos desculpas e culpados. Inventamos o tempo de luto, para que nos despojemos da dor que a morte nos traz.

Nesta semana ocorreu a morte de um ator que, por suas atuações em telenovelas, mas especificamente nessa última, O Velho Chico, o Velho Rio São Francisco, conquistou a simpatia e o carinho dos espectadores. Em capítulos anteriores, o personagem Santos, após emboscado, caiu no rio e foi salvo pela intervenção de índios da região, o que propiciou a apresentação de rituais religiosos para a cura dos seus ferimentos, os físicos e os espirituais, pois é essa unidade humana que é compreendida por aquela sociedade. O sentimento etnocêntrico, que é filho da incompreensão da diversidade da experiência humana, logo se apresentou e expressou o pensamento que a morte do ator Domingos Montgamer teria sido um castigo por ter a emissora de televisão aberto espaço para aquela expressão religiosa, a dos Caboclos e dos Encantados. Por traz desse pensamento está um entendimento errado da tradição judaico-cristã. Mas é também um não entendimento de nossa diversidade cultural brasileira é, em parte, resultado da ignorância de nossos currículos escolares que ignoram esse fenômeno, a diversidade cultural brasileira, não sabem como agir com essa diversidade. Negam-na quando apenas mencionam uma das tradições religiosas, e também negam-na quando, buscando desculpar-se pelo passado, passa a demonizar aquela que foi, durante muito tempo, a tradição, mais que majoritária, hegemônica. Mas a morte não é castigo individual em nenhuma cultura, e na tradição judaico-cristã é uma decorrência da desobediência à divindade, e não uma condenação individual. A morte não é prêmio nem castigo, é resultado da vida.

E se alguns estão a responsabilizar o rio São Francisco pela morte do ator, é porque ainda não entendera que um dos motivos dessa novela parece ter sido o de denunciar o assassinato que vem sendo cometido publicamente para atender interesses da sociedade industrial que nos envolve. Morre o o São Francisco com as barragens construídas com o intuito de transformar sua força em eletricidade; morrem os peixes proibidos da piracema dos habitantes primeiros das águas; morrem os pescadores; morrem as matas que foram submersas e as que foram derrubadas nas margens do rio para cultivos e, depois essa agricultura ser também submergida; morrem cidades e povoados, afogados para o estabelecimento de reservatórios, esses grandes açudes; morrem os pássaros da região que vão buscar alimentos em plantações que usam agrotóxicos para espantar insetos; morrem os agricultores intoxicados ao colocar esses venenos na plantações, etc.. São tantas as mortes que foram denunciados nessa novela de Bendito Rui Barbosa que ela quase vale um curso a respeito do meio-ambiente. E claro, também há a notícia de uma morte difícil, a morte do mandonismo, do coronelismo nos sertões do Saõ Francisco, mas não apenas lá. E, em meio de todas essas mortes, o autor diz que podemos encontrar a possibilidade de novos amores, nova vida, que nasce do amor à terra, da terra e na terra.

O dia da Independência é símbolo de uma história

Primavera que chega nesta banda do globo terrestre, como a que ocorreu na outra banda, carrega a alegria da vida que se renova. Ciclo permanente: vida-morte-vida. No dia em que brasileiros lembram a sua independência, os noticiosos informa que milhões de crianças são afetadas diretamente por conflitos em diversos países, especialmente naquele pedaço onde nasceram as duas maiores religiões. Dizia-se que lutavam pelo petróleo escondido nas areias dos desertos, energia líquida resultante de vidas terminadas. Morria-se e matava-se pelo que restou da vida. Diz-se, também, que se mata pela água, fonte da vida. Controlar a água e ser dela dispensador é controlar a vida de cidades, de milhares de pessoas. Controlar a vida pode ser definir a chegada da morte. A primavera é explosão de vida, mas para iniciar a árvore, a semente precisa conhecer a morte. São muitas as crianças mortas nas guerras, algumas sendo raptadas e treinadas para matar como soldados, indo à frente dos seus treinadores que, dessa forma mantêm-se vivos para continuar a urdidura do mal.

É nesse despontar de primavera que há uma celebração comum aos brasileiros, a Festa da Independência. Todos nós sabemos que esta data é um símbolo, não daquele momento em que o Príncipe Regente do Reino do Brasil, – atenção, não da colônia, pois ela já não existia, apesar desse ‘esquecimento’ nos livros didáticos e na formação dos professores – Dom Pedro ao lado daqueles que o acompanhavam em uma viagem a São Paulo, deixou explodir sua insatisfação com as orientações da chegadas das cortes portuguesas em revolta contra o absolutismo, decide que escolhe separar o Reino do Brasil do Reino de Portugal. Claro está que quando centramos no dia 7 de Setembro a celebração da independência, fazemos isso como um símbolo de todas as lutas que ocorreram antes e depois dos acontecimentos em 1822, na margem do Rio Ipiranga, no Planalto de Piratininga. É uma data simbólica do desejo de unidade do Estado e da Nação brasileiras. E não foi fácil aceitar o símbolo. Uma dificuldade é que, nove anos após ter liderado a independência do Brasil, o Imperador Dom Pedro, foi levado à renúncia, consequência de seus erros e da sua arrogância em não admitir os erros e a não respeitar o povo que o glorificava anos antes. Aqui em Pernambuco, durante algum tempo, a celebração não ocorria no Sete de Setembro, mas no Sete de Abril, para significar a Independência.

Soube de uma diretora de escola que justificou não celebrar o Sete de Setembro, dizendo que houve outras lutas depois de 1822. Parece-me desejo de ocultar o fato de que ela está a negar um dos patamares da unidade brasileira. Talvez por inocência decorrente de parco conhecimento de eventos pretéritos e formadores da nacionalidade ou, o que é pior, ação deliberada de não transmitir a crianças part de sua herança cultural.
O Sete de Setembro simboliza a Conjuração Mineira (1789), A Conjuração Bahiana (1798), a criação do Reino do Brasil unido ao Reino de Portugal e Algarves (1816), a Revolução Pernambucana de 1817, a Convenção de Beberibe, a Noite das Garrafadas (1822), a Batalha de Jenipapo, a Independência da Bahia em 1823, o Massacre no Maranhão em 1822, o Sete de abril de 1831, o Golpe da Maioridade (1840), a Guerra dos Farrapos (1835-1845), a Cabanada de 1837, a Sabinada de 1837, a Balaiada de Caxias, 1837, a Revolta Liberal de Teófilo Otoni, a Revolução Praieira de 1848, a Revolta do Quebra –Quilos, a Guerra de Canudos, a Guerra do Contestado, a existência e desorganização do Cangaço, os Soldados da Borracha, a Revolta do Vintém, a perseguição ao Samba, ao Maracatu (solto e virado), a perseguição aos capoeiras, a Semana de Arte Moderna, a Coluna Prestes, a Arte de Vitalino e Ana das Carrancas, a Ditadura Vargas, a Ditadura civil militar mais recente, e tantas coisas mais, muitas desconhecidas de mim, mas que sei que fazem parte da formação do povo e da Nação Brasileira que se organiza e se reorganiza sempre dentro do Estado. É tudo isso que se celebra no dia Sete de Setembro. Enquanto não se compreender o Sete de Setembro como a celebração da nação, continuaremos a perguntar: qual é a nossa identidade? E quem não sabe qual é a sua identidade, é fácil ser feita massa de manobra, boca sem espírito a repetir palavras de ordens que desrespeitam a nossa história.

E escrevo isso pensando que tantas crianças morrendo assassinadas pela fome física; escrevo isso pensando no assassinato diário de jovens brasileiros excluídos dos bens que seus pais produzem. E eles morrem sem saber qual é a sua história, pois a história de um home, a história de uma mulher não é contada apenas pelos dias que estão entre o seu nascimento e a sua morte. E sei que os humanos se agridem e matam uns aos outros por não admitirem que todos são uma só história contada de maneiras diferentes, quase sempre para justificar a diferença e aceitar que o outro não é parte de um todo.

O dia da Independência é o símbolo de muitas vidas.

1817 – Bicentenário

Estamos na véspera do bicentenário da Revolução de 1817. É certo que serão muitas as homenagens aos heróis já bastante esquecidos daquele movimento. A maior parte das pessoas lembram, no máximo de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, martirizado ao término da Confederação do Equador, mas indissoluvelmente ligado a 17. Além de Cruz Cabugá, quem mais é lembrado em nossas ruas e avenidas? O Padre Roma, o Vigário Tenório. E o dia 6 de março, criado Dia da Pátria para ser esquecido nas escolas, nas conversas de bares, nas Assembleias e nas Câmaras dos Municípios. Ah! Existe o município Frei Miguelinho. Quem era mesmo aquele vigário cujos restos mortais está na Paróquia de Paulista? São tantos quem esquecemos que muitos nem mesmo lembram quais os seus ideais.

Amaro Quintas é um dos melhores historiadores que Pernambuco produziu, e sua tese sobre a Revolução Praieira continua sendo reverenciada como um bela página escrita a respeito dos que formaram a geração de Quarenta e Oito, partícipes do que chamam de Primavera dos Povos, antecessora de certos ideais socialistas que vieram a ser tornadas sacramento nas obras do alemão que pesquisou na Biblioteca de Londres os estudos sobre o capitalismo inglês, então no leme da economia e política mundial. Entretanto, amaro Quintas escreveu mais que O Sentido Social da Praieira. É sobre isso que quero conversar.

Em 1939, quando ainda era um jovem de 28 anos, o professor Amaro Quintas presenteou a historiografia brasileira o excelente estudo A Revolução de 1817, livro hoje pouco conhecido, embora a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – FUNDARPE, tenha, em 1985 publicado uma segunda edição em convênio com a José Olímpio Editora. Livro resultado de intensas e extensiva pesquisa, os mostra um autor capaz de mostrar as inverdades escritas por Adolfo Varnhagen, dito pai da historiografia, sobre a Revolução Pernambucana, exercendo o seu papel de escriba áulico da monarquia. Amaro Quintas chega a negar-lhe o reconhecimento como historiador. Que ele fosse grato aos Bragança, que fosse áulico, que praticasse a cortesania em larga escala, está tudo muito bem. Mas o que não está bem é que arvorasse em historiador. Podia escrever loas à dinastia. Podia vituperar a revolução. Era um direito que lhe pertencia. Mas não intitulasse seus trabalhos de história. (…) Que historiador é esse que diz: “os reis são a imagem do Deus de misericórdia”.

No alvorecer da ditadura do Estado Novo, o jovem historiador louva a liberdade e aqueles que foram capazes de colocar suas vidas na defesa do ideal maior, não o de serviçais de partidos ou governos. Durante a ditadura iniciada em 1964, não foi levado à prisão por ter sido escondido por Gilberto Freyre, que foi seu amigo, tendo ambos militado na União Democrática Nacional – UDN, contra a ditadura fascista de Vargas e depois na Esquerda Democrática.

A severidade do historiador também se volta para o ressentido Tollenare. Amaro Quintas mostra o quanto o comerciante francês, tão louvado por suas observações posta em papel dominicalmente, cria um mundo falso para diminuir a estatura moral do líder Domingos Jorge Martins. Nosso autor lembra que O francês, dotado de espírito anti-revolucionário (sic), intensamente conservador, chega a denomina-la de “maldita revolução”.
Este é um bom momento para reler, ou ler, esta obra . A publicação de 1985 ao apresentar uma pequena biografia do ilustre historiador, esqueceram de mencionar que ele foi afastado de sua cadeira na Universidade Federal de Pernambuco durante a ditadura, só retomando após a anistia.

Tive a honra de ser seu aluno no Instituto de Teologia do Recife – ITER, em 1969, em aulas de História da Cultura. Nos anos mais escuros, o ITER foi local de encontro e trabalho para professores de alta qualidade, impedidos de trabalhar por conta de seu apego à liberdade.

Domingos, paraísos e esperanças

Os domingos são dias especiais, pois os guardamos para nós e para os que amamos. Por isso tanta gente vai às Igrejas (templos, centros, terreiros), encontrar aqueles que cultivam o mesmo amor. Uma reunião em uma igreja é uma reunião de amantes em torno do amor que cura a tudo, pois todas as dores sossegam na presença do amado. Semelhante é o que ocorre nos clubes e nos piqueniques, pois nesses lugares e momentos também se celebra o amor, a amizade. Nos piqueniques quase sempre a comida é trazida, juntada e dividida. Entretanto, em todos esses lugares, vez por outra a amizade é esquecida ou, por desgraça, alguém que não ama faz-se presente e, pode vir a tristeza, a mágoa, o sofrimento, a morte. Domingos também são dias nos quais muitas tristezas são cultivadas, mesmo nos mais belos jardins.
A mitologia judaico-cristã faz a experiência humana ter seu início em um Jardim onde tudo está posto para ser degustado sem esforços excepcionais. Até mesmo a ideia da morte não está presente, pois o presente daquele jardim pode ser eterno, exceto se houver alguma mudança na rotina. E ela aconteceu. Alguém quis mais do que lhe era oferecido e a ordem foi rompida. Mesmo no mais perfeito paraíso ocorreu a desarmonia que provocou muito sofrimento e o fechamento daquele condomínio feliz. A felicidade ininterrupta não foi de agrado daquela família que estava feliz enquanto estava fechada em si mesmo e a procura de novas experiências rompeu o equilíbrio. O mito judaico-cristão continua com a enumeração do que é próprio da humanidade na sua eterna busca de felicidade: trabalho, sofrimento, nascimentos, mortes e a esperança de que em meio a tudo isso uma dia serão felizes porque virá uma mulher que esmagará a cabeça do mal.

Mas, enquanto esse momento não vem, temos uma matança quase infinita em mundo que, para muitos, está em paz, pois eles criaram seus paraísos pessoais, trancaram-se em seus condomínios de luxo e não percebem que tomaram para si o que podia ser de muitos e, por conta disso, levantaram altos muros que os separam dos demais. Só conseguem fazer piqueniques protegidos pelas altas paredes ou na distância dos outros seres humanos. Julgam estar no paraíso, no mais perfeito dos jardins, mas, cultivam a serpente que quer sempre mais, pois se a eternidade prometida ao primeiro casal não satisfez porque lhes faltava o conhecimento, o conhecimento que conquistaram não lhes garante nem mesmo a tranquilidade atrás de seus muros. Agora eles possuem um falso conhecimento – não sabem, não percebem não sentem que o que ocorre aquém dos muros é a falsa felicidade. Fosse a verdadeira, não careceriam de muros, de guardas, de armas, para viverem.

As manhãs de domingo podem servir para pensar se estamos indo ao piquenique da vida com esperança e desejo de encontrar outros piqueniques no grande parque, ou com o desejo escondido de comer mais maçã para o deleite individual, sem considerar que o que é produzido coletivamente é para ser degustado coletivamente. Todos os seres se unem para criar o jardim e ele só existe se todos participarem de suas delícias.

Parece que o Jardim mitológico foi rompido, não pelo ato sexual, que é o momento da entrega e troca suprema entre duas pessoas que se amam, se penetram para prosseguir vivendo; mas foi rompido por quererem ter mais para si, negando-se a dividir o saber, a dividir a vida, escolhendo acumular cada vez mais, ainda que saibam que o Jardim será perdido para todos.

Os piqueniques, as celebrações dominicais estão sempre a lembrar que a alegria e a felicidade são decorrentes da divisão, da distribuição e fruição coletiva do que tem sido criado pela família humana.

Bom Domingo.

Bambina, a Senhora do terreiro

Uma das minhas cachorras morreu enquanto eu estava fora. Bambina, assim a denominou Isa Trigo, professora da Universidade Estadual da Bahia em uma de suas passagens por nossa casa, deixou as suas companheiras, Mocinha e Bonita tristes. A morte, a separação é sentida por todos os seres, embora não o percebamos ou nos esforcemos a negar nossos sentimentos e o dos outros. Minhas cachorras estão tristes. Elas perderam a companhia de brincadeiras, a vira lata que fazia mais barulho e que era a Senhora do terreiro.

Bambina chegou em nossa casa nas primeiras semanas de sua vida; chegou nos braços de Afonso que, feliz, disse ter comprado uma pastora, e que era um presente para Tâmisa que, naqueles dias começava a sua jornada rumo ao mestrado na Universidade de Santa Catarina. A pastora era raciada e os gens plebeus, os famosos VLB, sobrepujaram a aristocracia alemã. E Bambina ficou acompanhou o crescimento da família, a chegada dos filhos dos meus filhos e do meu caçula. Só recentemente é que Lucas e Tereza criaram intimidade com Bambina e suas amigas. E se tornaram amigos na fase idosa da Senhora do Terreiro, que já não estava com a disposição infantil para brincar. Já estava em despedida, e parecia saber disso. Quando vinha para meu colo, já não apresentava a alegria tradicional, mas deixava-se acariciar dolente e lambia minhas mãos melancolicamente. A idade lhe pesava, bem como a doença. Quando viajei para os três dias de férias, conversei com ela, que ficou de cabeça baixa. Despedia-se. Ao retornar notei que ela não veio ao nosso encontro e as suas amigas não mostraram entusiasmo. Pensei que ela estivesse em sua casinha. Marcos, que coloca a comida delas quase todas as manhãs é que veio com a notícia e relato do acontecido, lamentando a “morte da pobrezinha”.

O mês de agosto ficou triste no quintal sem as brincadeiras e os ruídos de Bambina, e mesmo a labrador Bonita, tem corrido menos com o peso da saudade.