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Capangas da elite

Qualquer pessoa de bom sendo pode vir a se perguntar como se explica que tanta riqueza produzida no mundo e tantos sem riqueza alguma. Às vezes a situação de pobreza é tão grande que, quase não se percebe humanidade em tanto sofrimento. E, de outro olhar, também temos dificuldade de perceber a humanidade em setores e pessoas que vivem em meio a tanto luxo e riqueza. A extrema pobreza e a extrema riqueza material não podem ser própria da humanidade. Não da humanidade para a qual parece que sempre rumamos. Aquela percebida por Teilhard de Chardin na Missa sobre o mundo, celebrando o Cristo Cósmico. Não foi ele o primeiro a enunciar esse desejo de felicidade completa dos homens, um sonho explicitado por Isaias, o profeta que enunciou a paz entre o Leão e o Boi, a criança e a serpente. Mas como explicar tanta miséria que, para alguns é resultante do trabalho que um homem rouba de outro, apropriando-se totalmente do que o outro produziu, apresentando como justificativa o fato de que ele colocou algum capital, sem perceber que capital, aquilo que resta após a satisfação da necessidade, já é resultado de uma apropriação anterior, de um não dividir. Observamos essa situação em todas as sociedades humanas até agora, esta exploração não é exclusividade de nossa civilização, mas o sonho é que todos saiam do reino da necessidade, não viviam sob o jugo da fome e da miséria. É disso que tratam os sonhos dos religiosos e dos não religiosos que se esforçam para construir a humanidade completa

Uma vez li de um intelectual paraibano/pernambucano da sua surpresa diante da beleza do Maracatu Rural na cidade de Tracunhaém, ele ficou admirado por um povo tão pobre fazer tanta beleza de cores e alegria. Quando li as suas linhas pensei que a exclamação poderia ter sido: depois de tanto anos e séculos de exploração que fazemos, como podem esses trabalhadores rurais, submetidos a situações tão vexatórias para a humanidade, como podem eles ainda viverem e sonharem com tantas cores e alegrias. Joaquim Nabuco, também membro da oligarquia que tem feito a miséria dos que produzem a riqueza no Brasil, já percebia que a riqueza consequente do trabalho escravo não faria uma nação plena, mas subjugada pelo medo. Desses dois membros da oligarquia que inventou e domina o Brasil podemos dizer que o queriam diferente. Josué de Castro, Jessé de Souza de Souza são outros que apontam as razões de miséria material da maioria dos brasileiros e a miséria moral da minoria que se apropria da riqueza e da alegria do povo.

A oligarquia e seus acólitos que formam a “elite do atraso” procuram manter-se discreta e não explicitar a sua miséria moral. Mas nessas últimas décadas ela tem perdido a vergonha, o pudor. Esta segunda semana de setembro as flores do pântano resolveram mostrar-se em sua grandiosidade. Assim tivemos a atuação de pessoas que formam a família de serviço da elite, confundindo-se com ela. Descendentes de imigrantes que fugiram da miséria italiana, mostraram-se indispensáveis para os donos do poder e, surpreendendo a muitos, agem como sendo quatrocentões, com o despudor dos que não fizeram o curso de civilização por inteiro, mas foram bons alunos de cursos de atualizações. Deram para apresentar-se em hospitais e reuniões da mesma forma que os barões de açúcar, café e cacau faziam: de pistolas na cintura, de maneira ostensiva. Na mesma semana um disse, e outro justificou, que a democracia não trará as mudanças que o Brasil precisa. E disseram isso com a mão próxima a pistola. Claro que setores mais civilizados da elite, com mais tempo e traquejo na arte de iludir, saíram a apagar o fogo e minimizar o que foi dito. Quase pediram aos capangas para não estragar o prato que estão preparando para si. Outro deslize foi dado por um bacharel de Direito que se tornou procurador da República, fazendo questão de dizer que “infelizmente não sou de origem humilde(,,,) não estou habituado a tantas limitações” enquanto reclama seu salário base de R$24.000.00, mas, com as vantagens que criaram para eles mesmos, seu ganho mensal se aproxima de R$80.000.00. Ele não suporta ganhar o miserê de vinte quatro mil reais.

São relances da Elite do Atraso, gente rica de dinheiro e miserável de humanidade.

Prof. Jarbas Maciel.

Enquanto dirigia-me à UFPE, pensava sobre a tarefa que iria realizar com alguns alunos, orientando-os para o seu Trabalho de Conclusão de Curso, o TCC. Depois encontrei-me com Antônio Paulo Rezende e trocamos ideias sobre nosso trabalho vocacionado. Mas a conversa com o professor Antônio Paulo Rezende sobre as dificuldades que enfrentamos no momento atual foi sendo encaminhada para algumas figuras que marcaram nossas vidas aqui na UFPE. Então veio a surpresa: Jarbas Maciel havia morrido no final da semana que passou. Eu não sabia até o momento, apesar de ler diariamente o boletim da UFPE, que eventualmente nos informa da morte de colegas que conhecíamos ou que, ainda que desconhecidos, travaram o bom combate pela boa educação para este país. E veio-me à memória as aulas sobre Cultura Brasileira que dele recebi. Hoje busco, em minhas aulas mostrar a sensibilidade que ele cultivava sobre o povo brasileiro.

Em suas aulas, no curso de Mestrado em História, Jarbas Maciel falava de um “Brasil Profundo”, para o qual devíamos estar atentos. Numa dessas aulas sobre o sentimento e a vida que se constrói no país, veio uma pergunta: “Biu, você compreende a música de Brahams? Eu tenho tentado e escuto sempre, pois ele tem algo a dizer sobre a compreensão do homem, mesmo do homem brasileiro.”

Abobei-me. Penso sempre em Jarbas Maciel e, vez por outra ponho aquele compositor na radiola e busco terminar aquela aula. E aquele professor era matemático, auxiliou a criar o curso de matemática na UFPE,iniciou o núcleo de informática da nossa universidade, esteve, parece que na coordenação, do processo de informatização do BANORTE, primeiro banco informatizado do Brasil. Vocês não imaginam a surpresa que tiveram os funcionários do BAMERINDUS, que ainda usavam caneta e máquina de datilografia, quando, por interesses dos sudestinos, compraram um banco que estava anos à frente no uso da tecnologia.

O professor Jarbas Maciel era músico, clássico e armorial. Além de ser professor na Pós Graduação de História, lecionava no curso de Filosofia. A Revista Clio, do Departamento de História, tem o que parece ter sido uma das últimas, senão a última publicação acadêmica de Jarbas Maciel, e foi a respeito do movimento Armorial ( “Sertões: Espaços, Tempos e Movimentos”. 01. ed. Recife: Editora da Universidade Federal de Pernambuco, 2009. v. 01. 190p .) Poucas pessoas, creio, produziram tanto conhecimento, e em tão variadas direções, quanto o professor Jarbas Maciel.

Ainda neste mês de agosto, tendo encontrado o professor Caio Maciel, colega que atua no Departamento de Geografia, conversei sobre seu pai, disse que o havia citado em minha aula naquela semana e pedia que lhe desse um abraço, com a pretensão de estaria em sua memória. Mas ele é que estará sempre comigo, nas minhas aulas sobre o Brasil, Pernambuco, sobre a minha cultura, na esperança de que todos nós possamos entender a universalidade e a unidade múltipla da humanidade.

Quero, nesta página, honrar o professor Jarbas Maciel.

A CULTURA DA MATA NORTE O LABORATÓRIO DE HISTÓRIA ORAL E IMAGEM – LAHOI

A CULTURA DA MATA NORTE O LABORATÓRIO DE HISTÓRIA ORAL E IMAGEM – LAHOI
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Boa tarde a todos que estão aqui, que escolheram estar com o Laboratório de História Oral e da Imagem, do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco. Nesta tarde estamos iniciando o que desejamos ser um projeto permanente deste Laboratório, a escuta de personalidades que estão contribuindo com a formação de nossa sociedade, preservando, inovando a cultura que elas herdaram e que nós herdamos de nossos antepassados.
Um Laboratório de Memória em um Departamento de História é fundamental, tanto para a escrita da história contemporânea, quanto daquela que já não vivenciamos, exceto pela lembrança, pelo que ficou guardado nos registros cerebrais. Comumente a história é escrita a partir de documentos que foram selecionados e guardados em algum arquivo de alguma instituição que para tal fim foi criada, mas o que foi escolhido é apenas parte do que algumas pessoas, algum grupo, decidiu que era importante guardar. Mas sabemos que foram muitas, são muitas as memórias que não foram guardadas por não terem sido escritas, e muitas das escritas terminaram por serem descartadas, ora pela ação do tempo, ora pela ação das intempéries, ora pela ação intencional de um grupo que não desejava a sua manutenção. Neste último caso, estão as memórias dos pobres, a memória dos que gastam sua vida na luta pela sobrevivência, mas que pela vida. Em todas as sociedades, a memória que fica registrada em arquivo e livros é a memória dos poder, e mesmo quando, por alguma sorte, guarda-se a memória dos que não estão no poder, tal memória vem a ser explicada de acordo com as normas estabelecidas pelo poder.
A mais antiga das universidades (Bolonha) surgiu de um consórcio de pessoas que desejavam estudar e, para tal contrataram professores que tinham a memória, o que fora construído no passado e era a base para o seu presente. Mais tarde, o poder passou a controlar o consórcio que era dos estudantes. Então as universidades passaram a ensinar o que era definido pelo poder. O saber e o poder são partes de um mesmo corpo de um ser siamês. O poder sem o saber, sem a memória coletiva, tende a se extinguir por si, leva tempo, provoca sofrimento, mas esse poder que repudia o saber será superado. O saber, o conhecimento, sempre será base de um poder.
A Universidade Federal de Pernambuco, através do Departamento de História, e ele criando e mantendo o Laboratório de História Oral e Imagem, fundado e organizado que foi pelo Professor Dr. Antônio Montenegro, neste momento coordenado pela Professora Drª Isabel Guillen, tem cumprido seu papel de coletor e guardador de algumas memórias e imagens de parte da sociedade que mais sofre que exerce o poder. E, entretanto, são elas sustentáculos da sociedade. Pesquisas realizadas por estudantes junto a grupos e movimentos sociais estão hoje disponíveis para o conhecimento, o estudo daqueles que se tenham interesse em entender alguns dos processos de criação da alma, da cultura, da vida da sociedade. E todos nós deveríamos ter este interesse, e cada um dos cursos da universidade deve ser para satisfazer os interesses que temos sobre os homens e as sociedades que criam. Esta é a razão para guardarmos e incentivarmos pesquisas e reflexões sobre como nos formamos e como somos.
É nesta perspectiva que estamos aqui com Manoelzinho Salustiano, orgulhoso de carregar o nome do pai, Mestre Salustiano, mestre da cultura popular que, em 1965 recebeu o título de Doutor Honoris Causa, concedido pela Universidade Federal de Pernambuco . Mas hoje estamos aqui para ouvir o depoimento de Manoel Salustiano da Silva, que foi folgazão do Maracatu Piaba de Ouro, é artesão de gola de caboclo e Bandeira de Maracatu, produtor cultural e gestor de projetos e oficianas de formação.

Conselho Universitário da UFPE manifesta-se contrariamente ao programa Future-se por meio de nota pública

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO

26.03.2019

Conselho Universitário da UFPE manifesta-se contrariamente ao programa Future-se por meio de nota pública

A decisão foi tomada, por unanimidade, pelo Conselho Universitário, reunido hoje (26), no Auditório João Alfredo

A Universidade Federal de Pernambuco, por seu Conselho Universitário, reunido em sessão extraordinária no dia 26 de agosto de 2019, vem a público manifestar-se contrariamente à atual versão do Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras – Future-se, apresentado pelo Ministério da Educação e materializado em projeto de lei a ser remetido ao Congresso Nacional, considerando os princípios constitucionais que regem esta Ifes, comprometidos com os interesses democráticos do Brasil, dentre os quais se destacam os da autonomia universitária, do caráter público, gratuito e de qualidade do ensino superior, da admissão por concurso público, da diversidade do conhecimento e da pluralidade de ideias.

Inicialmente há de se consignar o caráter lacônico do projeto, que não explicita, de modo claro e transparente, as atividades de gestão a serem transferidas para a organização social contratada, a composição do comitê gestor, as diretrizes da política de internacionalização, os critérios de escolha dos fundos de investimento, entre outras questões relevantes para que se possa compreender adequadamente o funcionamento do modelo proposto. A UFPE já possui experiência de boas práticas de governança, empreendedorismo, inovação e internacionalização, aliada às várias formas de parcerias com todos os setores da sociedade, sempre norteada pelo interesse público e o debate plural de ideias.

Entende a Universidade que, ao remeter pontos relevantes para posterior regulamentação do Ministério da Educação, o projeto enfraquece o debate público sobre o tema e desconsidera a competência privativa do Congresso Nacional de aprovar as diretrizes da educação nacional, conduzindo a um modelo de excessiva centralização de poderes no âmbito do Ministério.

Por outro lado, é nítido que o programa pretende transferir a gestão dos recursos financeiros das Universidades e Institutos a uma organização social, escolhida pelo Ministério da Educação, permitindo-se entrever que essa entidade atuará, ainda, na gestão de pessoas, bens e serviços das instituições de ensino. Essa organização social, inclusive, poderá ser escolhida sem prévia chamada pública, prevendo-se a contratação de entidade que já desenvolva projetos junto ao Ministério da Educação.

Conquanto a Universidade Federal de Pernambuco nunca tenha se furtado ao diálogo interinstitucional, acerca de sua participação em projetos de interesse público e no debate sobre os meios de se aumentar a sua eficiência administrativa, suas decisões permanecem pautadas pelos estritos termos da Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 1988. A UFPE analisará, à luz dos seus princípios, a versão que será enviada ao Congresso Nacional.

O art. 207 da Carta Magna é explícito ao assegurar às Universidades “autonomia didático-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial”. Esta prerrogativa não é um fim em si mesmo, mas um meio de se preservar a pluralidade de ideias, o livre pensar, o desenvolvimento científico e tecnológico, sem as amarras que lhes foram impostas no passado recente, nos anos da ditadura.

A autonomia universitária é uma garantia estabelecida em prol de toda a sociedade brasileira e não algo de que as Universidades possam livremente dispor.

Por tais motivos, a Universidade Federal de Pernambuco entende que não lhe cabe, em hipótese alguma, renunciar à sua autonomia, repassando a sua gestão administrativa e orçamentária a uma entidade alheia à comunidade acadêmica.

Repudia a Universidade, inclusive, a possibilidade de escolha de organizações sociais sem prévia chamada pública, além da possibilidade de pagamento de remuneração aos diretores dessas organizações. Essas mudanças seguem na contramão do decidido pelo Supremo Tribunal Federal e desnaturam a própria razão de ser dessas entidades sociais, pensadas como reunião de pessoas que desejam, voluntariamente, trabalhar em prol do interesse da coletividade. Caso aprovadas as alterações, recursos públicos poderão ser destinados ao pagamento desses diretores, escolhidos diretamente pelo Ministério da Educação, sem concurso público, sem prévia licitação, sem qualquer procedimento capaz de preservar a moralidade e a impessoalidade administrativas.

Embora textualmente se diga que a assinatura do contrato de gestão dependerá da anuência da universidade ou instituto, a Universidade Federal de Pernambuco alerta a comunidade, com ênfase aos seus representantes no Congresso Nacional, acerca dos riscos advindos desse projeto. A experiência brasileira demonstra o risco concreto de, caso aprovado o programa, em seguida proceder-se ao tratamento desigual entre as instituições aderentes e não aderentes, inclusive mediante o contingenciamento de seus recursos orçamentários. A proposta de projeto de lei, como está apresentada, contraria os princípios da autonomia universitária e o compromisso de democratização do ensino superior.

A Universidade também se opõe à securitização do seu patrimônio imobiliário, vez que subordiná-lo à lógica e aos riscos do mercado financeiro não condiz com as finalidades constitucionais das instituições de Ensino Superior. Expressa, por fim, a sua perplexidade com a proposta de se permitir aos hospitais universitários a celebração de convênios com operadoras de planos privados de saúde. Esse modelo, adotado no passado, marcou-se pelo tratamento diferenciado concedido aos pacientes dos planos de saúde, em detrimento da população mais necessitada, razão pela qual foi proscrito pelo Sistema Único de Saúde. A aprovação do projeto, neste item, representaria um evidente retrocesso nas políticas de atenção à saúde no país.

Em síntese, a Universidade Federal de Pernambuco permanece aberta ao diálogo, sobretudo no que tange a iniciativas que permitam ampliar o aporte financeiro e aperfeiçoar a gestão administrativa, no âmbito das instituições de ensino superior, e esclarece as razões pelas quais se opõe à atual versão do Programa Institutos e Universidades Empreendedoras e Inovadoras – Future-se.

Fracasso da educação é o fracasso da sociedade

Nossas orelhas queimam de tanto ouvir reclamações sobre a educação que nossos jovens recebem nas escolas que frequentam. Os resultados alcançados nos exames gerais, nacionais ou aplicados por entidades de abrangência internacional, apontam que os jovens, após 10 ou 12 anos de escolaridades, não conseguem escrever um texto, seja, não organizam as ideias que lhes chegam, apenas as aglutinam; não conseguem resolver problemas simples de aritmética ou geometria, faltando-lhes lógica e, se se lhes pedem que exprimam seus pensamentos, ficam acuados e, tímidos, não nos deixam saber o que lhes passa na mente. Ouvimos dizer que se “gasta” pouco nos anos escolares iniciais e se “gasta” muito nas universidades.

E, então começo a implicar com a expressão “gasto”. Em nossa sociedade esta palavra está relacionada com desperdício. E, pôr verba na atividade de educar a nova geração não pode ser considerado desperdício. Claro que pode haver má gerência e então desperdiçar algo do que foi posto como investimento. E nessa direção podemos encontrar muitos administradores utilizando as verbas de maneira imprópria, diminuindo os resultados esperados. Na verdade, há pouco investimento na educação, pois se tem dessa atividade, em nossa sociedade, uma visão muito tacanha. Os administradores públicos, herdeiros de uma sociedade escravocrata, parecem entender que devem comportar-se como seus antepassados ao oferecer cursos de língua portuguesa aos seus novos escravos. Há escolas municipais, na área rural, que nem mesmo possuem privada, obrigando alunos e professores atenderem aos ditames da natureza na própria natureza. Não havendo este equipamento, imagine o quesito Biblioteca, sala de leitura, espaço para teatro, área de recreação equipada. Neste tempos informatizados e conectados com o mundo, poucas são as salas de aulas universitárias nas quais professores possam utilizar os modernos equipamentos transmissores de informações a serem transformados em conhecimentos, para a formação dos estudantes postos à sua responsabilidade. Se, a alguns, parece que são altos os investimentos em educação universitária, é que eles não percebem que a formação de um cientista, professor, engenheiro, médico, matemático, físico, aquele que virá a ser um administrador de empresa, assistente social, sociólogo músico é um processo longo e caro. A única formação barata é a formação dos idiotas. E, observando o comportamento de muitos que hoje estão liderando o país, após terem passado anos nos diversos graus de ensino, até mesmo nas ditas rigorosas escolas militares, parece que o gasto tem sido enorme.

Das universidades têm saído muitos bons técnicos e poucos humanistas; muitos bons sociólogos e poucos humanistas; muitos bons advogados e poucos humanistas; bons políticos e poucos humanistas. Como a educação é uma atividade de resultados tardios, só agora é que podemos verificar, considerando a atuação de parte da elite, a que está no Congresso Nacional, nos Tribunais Maiores e Supremos, nos gabinetes dos palácios, podemos compreender melhor o quanto nós fracassamos, pois, de certa maneira, nós fizemos crescer parte dessas pessoas e de seus eleitores. (vai ver nós ajudamos, até mesmo com nosso voto, a eleição dos piores). Sim, a educação tem fracassado ao formar líderes que são incapazes de articular uma frase com lógica ou decência ( e isso não se aplica apenas aos atuais), pessoas sem sendo de justiça, moralidade, dignidade, sem respeito aos auditórios, aos seus concidadãos, sem vigor cívico. Sei que alguns deles confundem vigor cívico com baboseiras diante a bandeira ou bravatas do tipo “ a beleza de nossas praias, mulheres”, etc. Mas, considerando a idade média desses que fazem essa pequena representação da sociedade, devemos nos perguntar em que tempo eles e seus professores viveram e se formaram. Tal pergunta nos levará ao período ditatorial. Ainda que após vinte e cindo anos do final da ditadura, estamos sob seus efeitos. Afinal, o atual presidente conseguiu sua dragona durante o governo Geisel. E os generais que o assessoram foram seus comandantes ou colegas. E os mais jovens, e os civis, em quais colégios aprenderam esse desdém pelo povo, precisamos saber para entender essa loucura da terra plana e de que o frio de certos dias e noites prova que não há aquecimento global.

Mas devemos considerar, também, que essas pessoas, como a maior parte das pessoas, ficam pouco horas do dia na escola média, secundária ou superior), grande parte de sua educação ocorre noutros espaços educacionais, como as igrejas, os bares, ambientes de trabalho, campos de futebol, diante da televisão ou no maravilhoso mundo das redes sociais. Isso diminui um pouco a ideia de que os professores são os responsáveis pelo fracasso da escola. Muitos dos que assumem secretarias de educação seguem estão mais afinados com o pensamento político do seu chefe (dono) do que com o que se debate no âmbito da Pedagogia, do Ensino, da Pesquisa. Quero dizer: não são cientistas, e quando o são, agem de forma a seguir o que a propaganda ensinou nos anos setenta: “o importante é levar vantagem em tudo”.

A “o importante é tirar vantagem em tudo”, que ficou conhecida como a Lei de Gérson, juntou-se à outra: “viemos aqui para beber ou para conversar” são duas grandes tiradas “filosóficas” que tem formado, desde a ditadura, a cabeça das novas gerações. Agora, imagine essas genialidades, misturadas com a ideia do “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza” governada por quem acredita-se Capitão Nascimento, o Mito da Tropa de Elite.

A Juventude só ocorre uma vez

A juventude só ocorre uma vez
Metade do ano já seguiu para o passado, após alguns décimos de segundos, quando presente parecia ser. Esse momento singular, constante no seu passamento nos dá a sensação de duração. Interessante é que o passado parece ser o presente quando refletimos sobre a situação política brasileira, cada dia mais parecendo algo que já foi visto, vivido e, pensávamos, indesejado mas, agora assistimos, nesses décimos de segundo, quantidade de gente com saudades do passado que pensávamos estar superado. Triste saber que o passado na últimas décadas do século XX, é o presente desejado por cerca de 30% dos brasileiros que parece terem optado por agarrar-se à covardia como maneira de viver. Sim porque todos os sistemas que optam por serem totalitários, erigem a covardia e a falsidade, não apenas como método, mas quase como objetivo a ser atingido. Aos poucos sentimos desaparecer práticas de boa convivência, do respeito mútuo, do reconhecimento do direito de todos e de cada um. É triste verificar que tem crescido o número daqueles que “só trabalham para ganhar dinheiro”. Esse o caminho que as reformas sociais estão tomando nesses oito meses de governo pós petismo.

Dia dos Pais, melhor, dia escolhido para prestar uma homenagem aos pais, pois os pais o são todos os dias. Neste dia dos pais, enquanto passava a calça, assisti um documentário sobre a conquista dos Direitos Civis nos Estados Unidos da América do Norte, uma luta dos afro-americanos que, cem anos após a Guerra de Secessão, ainda não tinha direito a votar, e viver com leis segregacionistas nos estados sulistas, onde o governador George Wallace discursava “segregação hoje, segregação amanhã, segregação sempre”, mas viu-se surpreendido com a capacidade de ver o futuro de duas gerações de afrodescendentes: os mais velhos que assumiam a liderança e os mais jovens, meninos e meninas ginasianas, gente entre 15 e 18 anos, que confrontaram o status quo racista, representado pela polícia e foram presas, em um dia mais de trezentas, forçando o presidente Lyndon Johnson a assinar a enviar ao Congresso a lei da universalização do voto nos Estados Unidos da América do Norte. We shall overcame, cantavam os manifestantes em direção ao futuro. Trinta anos depois do assassinato de Luther King Jr, precisamos recordar que a juventude ocorre apenas uma vez em nossas vidas, e é nela que o futuro é construído, por isso não podemos desperdiçá-la, vivê-la sem objetivo. Estamos experimentamos, neste final de década, a destruição de muitos direitos sociais em nome de uma racionalidade que garante, primeiramente vantagens aos que sempre as tiveram, Não tem sentido apenas dizer que o Estado está quebrado e, por isso é necessário que sejam retirados ou diminuídos os direitos dos mais pobres, enquanto se mantem a lógica da acumulação pura e simples que engorda as ‘vacas de Bazã’. Erros sérios de governantes que, no coração, esqueceram seus ideais e tornaram-se iguais aos seus antigos exploradores. Uma juventude não deve deixar-se enganar com medo do futuro. O futuro virá com ou sem o nosso medo, nosso temor, mas se o enfrentarmos, o que virá será resultado de nosso trabalho na construção do sonho, e não a imposição de um déspota.