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Pátio de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda

Terminei a leitura de ADROS, PÁTIOS E PRAÇAS PÚBLICAS, de autoria de Fernando Guerra de Souza, professor de História da Arte no Departamento de Arqueologia da UFPE, uma publicação do Centro de Estudos de História Municipal – CEHM, desta cidade do Recife. Sua leitura nos convida a percorrer os muitos espaços de sociabilidade criados ao longo da trajetória humana, mais especificamente a tradição greco-romana e europeia, matriz dominante de nossas cidades. É um percurso que nos apresenta, com elegância, os pontos básicos para a compreensão das transformações dos espaços de acordo com as necessidades sociais, e assim fazemos uma pequena arqueologia dos Adros, Praças e Pátios que encontramos no Estado de Pernambuco, mas sempre relacionando-os com a grande tradição que nos envolve. Belas fotos relacionadas com o texto e aos espaços mencionados, sejam eles espaços nascidos no atendimento de necessidades religiosas sejam aqueles espaços crescido a partir das atividades seculares.

No livro do professor Fernando Guerra de Souza não poderia deixar de ter papel de protagonismo a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, caminhando para o quarto centenário, a primeira igreja dedicada à Senhora do Rosário no Brasil. Nós sabemos que o Brasil é formado desse amalgama ameríndio-afro-europeu, não apenas na composição biogenética da população, mas, principalmente cultural. Ao dizer cultural, sabemos o quanto as religiões foram importantes na organização das múltiplas culturas e civilizações geradas no constante processo de mudanças da vida humana, e no caso brasileiro, isso parece tão óbvio! Mas, o que é interessante é que, no Brasil as religiões inicialmente se afirmaram sem o concurso dos sacerdotes. Certo que ocorreu a matança física e cultural dos pajés e lideranças religiosas das selvas, mas a religiosidade se manteve e também se firmou no Brasil inventando novos sacerdotes que, sabiamente juntaram valores e símbolos das religiões que vieram da Europa e da África. E essas religiões chegaram aqui e se organizaram antes que seus respectivos sacerdotes estabelecessem.

As religiões, os deuses, estão no coração dos homens e se despejam nos lugares onde eles vivem. Foram os mercadores e marinheiros os primeiros evangelizadores cristãos. Tomemos o caso dos franciscanos, foi uma terceira que deu as terras para os frades quando eles chegaram; no Recife, os pescadores criaram a Igreja de SanTelmo antes da criação da paróquia de Pedro Gonçalves. Para usar um termo da teologia cristã protestante, eles estavam exercendo o sacerdócio universal. Assim foi o caminho percorrido pelo catolicismo: primeiro o católico comum, depois vem o padre para organizar. Podemos dizer o mesmo das religiões que vieram da África, não foram os babalorixás e as Orixalás que criaram os cultos, os cultos os criaram para atender a necessidade. E como não havia uma autoridade explícita que definisse a ‘ortodoxia’, ocorreu a mestiçagem também nas religiões, o sincretismo ameríndio-afro-europeu que pode ser visto em qualquer templo das muitas religiões que são praticadas no Brasil. Evidentemente que a religião dos europeus teve uma dominância sobre as demais, entretanto, jamais as outras deixaram de estar presentes e influentes na vida social. Mesmo os escravos, acolhidos no mundo católico, puderam organizar seu espaço nesse novo universo que lhe foi dado, pois, segundo a doutrina, todos são livres no amor de Deus, organizaram-se em confraria, tiveram a permissão para construírem seus templos e cultuarem a Virgem do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e todos os santos. Assim, os seus senhores evitavam de os encontrar em seus momentos de liberdade, quando estavam aos pés da Senhora do Rosário. Assim entendemos o porquê de serem tantos os afilhados de Nossa Senhora da Conceição.

Construtores das igrejas das outras irmandades, construíram a sua, resultado de seu labor e dos irmãos libertos que, reunidos conseguiam a alforria, a liberdade dos irmãos escravizados pelos homens. As irmandades dos Homens Pretos são a afirmação do trabalho, do sonho e da sua realização. O momento do culto, seja o culto interno na Igreja, seja o culto público nas procissões. A honra de carregar o andor de nossa Senhora do Rosário, ou o andor de São Benedito ou de Santa Efigênia nos ombros cansados do corte da da cana ou do calor das caldeiras, é afirmação da liberdade, ainda que no campo espiritual. Como ouvimos dizer, às vezes dizemos nós, “estar aos pés de Nossa Senhora é o céu na terra”.

Por tudo isso é que nos custa a acreditar que, na arquidiocese que recentemente foi pastoreada por Dom Helder Câmara, já considerada um Herói da Fé, a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos esteja sendo ameaçada pelo bispo que deveria cuidar dos direitos daqueles que, faz quatrocentos anos, cuidam do orago dedicado à Mãe de Cristo, ali, onde nenhum homem branco quis morar, pois era fora da cidade, mas hoje é considerado centro histórico de Olinda. E, no entanto é lugar dos pobres e os pobres são a preferência de Jesus, o Filho de Maria.

Massacre de Manaus e a civilização

Uma vista rápida no facebook e logo vejo uma postagem a informar que mais de 80% dos suecos não acredita em Deus e lá estão fechando presídios por falta de usuários; o mesmo post, também em foto, informa que mais de 80% da população brasileira acredita em Deus e aqui os presídios estão lotados. Termina com a pergunta: para que serve a religião? Claro está que quem posta não fez qualquer comentário. Aliás, grande parte das postagens é apenas o famoso esforço/método de estudo que tem feito grande sucesso nas escolas – secundárias e universitárias – o Copiar e Colar, antigamente conhecido como “tesoura e cola” . Talvez essa publicação na rede social seja uma referência ao massacre ocorrido no sistema prisional do Estado do Amazonas, logo no alvorecer deste novo ano, o décimo sexto do terceiro milênio da Era Cristã. Atrevo-me a comentar, não o massacre, que é uma mostra de nossa incapacidade coletiva de nos proteger contra a barbárie, mas sobre a postagem. Mas uma reflexão está ligada à outra.
Quem posta foto sem as comentar compra a ideia que lhe venderam. Nesse caso, a postagem apresenta-se fora da história, como um dado caído de algum planeta. Essas informações chegam sem refletir que a Suécia e os demais países do Norte da Europa veem modificando seus comportamentos desde o século XVI. Não ocorreu informar que naquelas sociedades o padre foi substituído pelo promotor e o inferno pelas prisões. O famoso Leviatã se fez presente ao tempo que ocorria o processo civilizador e o fortalecimento da ética do trabalho. E isso vinha ocorrendo antes de Freud e das diversas psicologias. Bem, o processo civilizador, apontado por Norbert Elias, não conseguiu terminar seus passos no Brasil. Os mais radicais podem dizer que nem começou.

Como nos ensinou Darcy Ribeiro, um apaixonado pelo Brasil e pelo povo brasileiro, o Brasil, além de ser um “povo Novo” é, também, um povo que não fez nenhuma Revolução Técnico-científica, sendo condenado a fazer constantes Atualizações Históricas, sempre a acompanhar o que outros inventam. o porquê disso fica para outra oportunidade. Por ora ficaremos com a ideia de que, no Brasil o padre foi substituído não pelo Promotor, mas pelo psicólogo; em lugar da ética do trabalho foi criado o sistema de tolerância ao jeitinho; e o Leviatã aqui tomou a forma de um Senhor de Fazenda (não vou dizer engenho para que se pense que isso é coisa do Nordeste açucareiro, apenas, e não se refere ao sudeste do café), sempre cordial, um compadre para todas as horas, e o Inferno é coisa que acontece nas favelas ou Assentamentos Urbanos Não Estruturados.

Os presídios estão vazios em países em que a honestidade nas relações sociais é mais importante que os compadrios; os presídios estão vazios nos países em que as autoridades não sobrecarregam o erários com leis garantidoras de privilégios e regalias próprias dos séculos anteriores às Revoluções Francesa e Industrial. No Brasil, ainda teremos, por algum tempo, levantes contra prisões de figurões da política que cometem crimes contra o patrimônio público. Assim ocorre porque a prisão desses criminosos da política põe em risco as sinecuras de muitos que levantam contra reformas, mas, dizem, estão prontos a fazer revoluções para impor sistemas que já se mostraram falidos, com ou sem religião.

Começamos o ano com um massacre, segundo o noticiário, anunciado. Na verdade poderia ser definido como um “homicídio coletivo culposo”, para que ouvidos mais sensíveis de almas insensíveis não sofram com a ideia de um assassinato previsto pelo ‘leviatã’ caseiro.

O que se podia aprender em 2016

Aproxima-se o novo ano e vem carregado de “contas a pagar”. Contas antigas, muito antigas, acrescidas por novas, quase do mesmo teor das antigas, agora realizadas por novos personagens. Como o comportamento dos que dirigem o Brasil republicano segue o comportamento dos que dirigiam as fazendas de café, açúcar, algodão, gado e outras criações da natureza dominada pelos homens, há pouco a diferençar, exceto algumas novas atualizações em relação ao aperfeiçoamento das tecnologias. Roubos, comportamentos antissociais sempre foram recorrentes em nossa história, bem como ocorre em todos os povos e nações. Entretanto, neste ano que está a findar, tivemos a revelação da capacidade de superação de nossos dirigentes. Não que tivéssemos a ilusão de que não nos roubavam, mesmo porque “roubar e fazer” e expressões semelhantes apareciam em depoimentos de políticos antes de 1988. Nem os militantes de certo partido de viés comunista, aqueles que roubaram a fortuna de Ademar de Barros durante a ditadura, em uma casa em Santa Tereza, imaginavam que eles poderiam superar o político paulista. Pois bem, as revelações de 2016 nos permitiram conhecer que nossos dirigentes estão no topo da gatunagem nos cofres públicos. E, como no passado, contaram com o auxílio do “empresariado burguês”, também atualizado na contabilidade, de modo a não permitir que político que desejasse algum jamais deixasse de receber o dinheiro e alcunha, apelido ou codinome. Finalmente o Ministério Público e a Polícia federal do Brasil forneceram provas de que os políticos são o rosto do capitalista que permanece oculto. Sempre houve uma desconfiança da relação dos Kennedy com a marginal da sociedade; sempre houve desconfiança de que os mafiosos influenciaram na política e nas artes, mas isso jamais ficou tão esclarecido como nos relatórios emitidos por setores da justiça brasileira no ano de 2016.

Enquanto as guerras dominavam o cenário internacional, neste ano que o Papa Francisco clamou ser o da Misericórdia, aqui no Brasil continuava a matança indiscriminada e insaciável, nas periferias das cidades e em suas ruas, de modo a superar os que morriam em guerras noutros espaços e entre outros povos. E enquanto mudávamos de presidente na esperança de alguma mudança real, pudemos verificar que seis é sempre igual a meia dúzia, embora possam ser vistos em cores diversas. E, entretanto podemos estar na construção de novos tempos, pagando o tempo que foi gasto em ilusionismos. Como teremos que buscar o que foi perdido, sabemos desde agora, que quando o obtivermos já não será o poderia ter sido. Mas iremos buscar uma nova maneira de nos construirmos, com a Misericórdia, mais do que justiça, pois que ela pode nos ser adversa por nossa insensibilidade diante do sofrimento que provocamos com nossa tibieza diante dos que escolhemos para orientar os passos da nação: são tíbios em nos perceber, são tíbios em assumir a responsabilidade do comando, mas lépidos em favorecer a criação de leis e atalhos em seu benefício e dos amigos ao tempo em estão a organizar atalaias contra os que os escolheram. E enquanto fazem assim, sem intencionar, nos permitem entender as bordas das piscinas onde se assentam para tramar a permanência no poder. Neste final de ano soubemos que a quebra de cláusula pétrea da Constituição para a facilitação da vida política de dilma Roussef foi definida de modo a garantir a presidência do Senado para um senador do PMDB. Aprendemos muita coisa sobre nossos costumes políticos sem termos que esperar pelas explicações de sociólogos e historiadores do futuro, como até então tem acontecido; policiais, jornalistas, imagens postas nas salas de todas as residências substituíram, temporariamente, esses intelectuais, pois com as informações dadas atualmente estão confundindo-os.

O mesmo aconteceu na compreensão dos movimentos da política internacional. Poucos foram os intelectuais, aqui ou além fronteiras, que percebiam o que significava Donald Trump para parte dos americanos. Assim pudemos aprender que sempre há algo a surpreender, especialmente quando se mantém firmemente atados a modelos já vencidos pelo tempo. Tivemos a oportunidade de compreender que a compreensão e conhecimento do mundo é um permanente aprendizado, que não há como evitar o futuro utilizando o passado como armadura; melhor dizer que não há como evitar o futuro e, principalmente que não há como controlá-lo. Mais fácil controlar o passado, como tentaram, com relativo sucesso, alguns governos. Mas o sucesso desse empreendimento é sempre relativo.

Finalmente, creio que alguns professores universitários tiveram a oportunidade de aprender que nem mesmo podem controlar os movimentos dos poucos jovens com os quais mantêm contato mais aproximados.

Quase fim de ano, não fim do mundo

Então 2016 está a terminar com muitas esperanças destruídas e com muitas promessas a serem cumpridas nos próximos anos. Ano algum jamais termina, pois há sempre “restos a pagar”. Mas este de 2016 fez terminar o mandato de uma presidente e, com ele quase terminava uma era, a de um partido político que teve, neste ano de 2016, suas vísceras expostas. O que foi exposto não foi realizado em 2016, eram “restos a pagar”; o que foi exposto faz lembrar título de filme famoso: o passado te condena. Muitos estão zangados com as pessoas que expuseram as bobagens e as ‘sabidurias’ de uma turma que se propunha a mudar o mundo. Mudaram eles, e o que foi exposto foram as mudanças que eles promoveram: foi exposto o que desejavam em seu íntimo. Esqueceram que em algum momento tudo é revelado.

Assim a eleição norte-americana expôs um paradoxo: um país que se formou com a aceitação da diversidade religiosa, que se fez com a aceitação de grupos provenientes de várias regiões, concedeu vitória a quem se levanta contra os novos migrantes e as novas diversidades. Entretanto, esse paradoxo expôs a falsidade dessa ‘verdade histórica’ da aceitação do diverso e do diferente. Historicamente o diverso foi, na verdade, o mesmo; desde começo aquela nação só aceitava cristãos, e estes reformados; aceitava todos os povos, desde que viessem da Europa, preferencialmente setentrional e central. Os africanos que para lá foram levados, logo tiveram de despir-se de todas as tradições culturais que carregavam, ao mesmo tempo em que foram obrigados a assumir as tradições europeias e aceitassem não serem vistas socialmente. Foi isso que a eleição de Trump revelou: a farsa do multiculturalismo e do politicamente correto. Terrível esse ano de 2016.

Se ampliarmos nosso olhar e procurar entender o que fazem as instituições que devem apontar o futuro – ONU, OEA,- e outras similares, ficamos sem compreender como o mundo parece pior hoje do que quando foram elas constituídas. Aparentemente não há guerras no mundo, desde que o conceito de mundo não considere o continente africano e a maior parte da Ásia, e também podemos considerar que favelas nas periferias das grandes cidades não fazem parte do ‘mundo’. No máximo elas serão percebidas como números estatísticos, não pessoas. As mortes que são anunciadas como parte de atentados no Oriente ou África não nos chegam como pessoas, assim como “essas almas sebosas” que constam dos noticiários policiais de nossas cidades. As guerras civis dos Estados distantes são tão distantes como a guerra civil que nos faz fechar nossa casa com muitos ferrolhos e fechaduras. Não as percebemos, pois elas não são humanas como nós. Assim pensamos. Conheço alguns que até se fantasiam como solidariedade, mas são tão excludentes como aqueles a quem julgam excludentes. Este ano que termina nos deu mais uma oportunidade de entender que o discurso excludente é falso. Dizer “nós e eles” como escutamos faz tanto tempo, é falso: “nós e eles” na verdade é “nós contra eles” e, mais seriamente, deveríamos entender como “eu contra eles”, pois este nós é o tal de “plural majestático. Esse discurso é falso, e é mantenedor da desigualdade ideológica, pois naturalmente somos desiguais, mas ser desigual não significa ser inimigos, como os oradores inimigos da humanidade nos querem fazer entender.

E enquanto escrevo sei que os bombardeios continuam sobre Alepo e um caminhão é dirigido sobre alemães que estão em compras ou passeando suas vidas em uma feira, talvez cumprindo ordens para eliminar aqueles seres viventes, sem a consideração de suas humanidades. A barbárie que nega a humanidade do outro não é exclusividade dos que são ocidentais, também os mão ocidentais agem dessa forma. Também esses são “restos a pagar”. Enquanto o massacre continuar, enquanto continuarmos a lógica do Cavalo de Tróia, enquanto nos aproximarmos dos outros com o objetivo de negar a sua vida, estaremos evitando a beleza da expressão humana, a assumpção da vida.

Tenho certeza que 2017 vai receber muitos “restos a pagar” de 2016, mas tenho a esperança que este ano novo vai se dar muito bem, embora nem todos nos saiamos muito bem, especialmente os mais pobres, esses que os poderosos estão sempre querendo ajudar. Como disse o Mestre da Galileia, “pobres sempre os tereis”. Ele sabia que é uma questão de metanóia, além da economia, “estúpido”.

Situações inusitadas

A semana foi inusitada, muitas surpresas, como usualmente ocorre, pois não somos senhores dos momentos que seguem ao que estamos a viver. Como temos a capacidade de abstrair o que não nos interessa, demos a pensar que controlamos a nossa vida e a dos outros. Parece que jamais aprenderemos com as folhas e o seu suceder enquanto a árvore cresce. Parte da árvore, ela deve ter a impressão de ser somente ela a árvore e o caminho por onde passam os insetos, e que aqueles que por ali passam são todos os insetos que existem. Há folhas enormes e folhas menores, todas elas sem a perspectiva da árvore. O outono quando chega traz alguma novidade para a verde folha tão ciosa de sua verdura. Aos poucos pode vir a percepção de que a seiva já não chega e o verdor amarelece, qualquer animal que passe é um peso jamais imaginado. Então chega um momento em que um brisa suave parece um furacão, e a folha cai e flutua até chegar ao chão. Então, com se fosse seus últimos momentos, ela vê a enorme árvore sobre si. Só então percebe que fazia parte de algo, ainda que consciente não fosse.

Entre os acontecimentos inusitados houve a decisão de um ministro do Supremo Tribunal Federal em definir a saída do presidente do Senado por ele ser réu e, portanto, segundo o ministro entende, inabilitado para assumir a presidência da República. Inusitado foi, também, a atitude do presidente do Senado em não receber o oficial de Justiça. Mais inusitado, foi a Mesa Diretora do Senado, composta por 8 senadores, apoiarem o comportamento do presidente em não receber o oficial de Justiça. não tendo recebido a correspondência do Ministro juiz do STF, a Mesa do Senado fez mais um gesto inusitado: Escreve um documento e pede que o STF julgue o documento que eles não receberam. Mais inusitado foi que os ministros do STF definiram sem efeito o ato do ministro, e que o presidente do Senado, ainda que réu, poderá continuar na presidência, mas não poderá exercer integralmente as funções do cargo, pois não poderá assumir a presidência. Ele está na linha de sucessão presidencial, mas não está na linha presidencial. Parece ser uma situação inusitada. Extravagante, talvez. Após definir isso, a presidente do STF disse que ninguém pode recusar receber um oficial de justiça, pois isso é dar as costas à justiça. Mas, nesse caso passa.

A seiva democrática, essa que leva à compreensão de que todos são iguais perante a lei, não consegue chegar plenamente à árvore Brasil. O solo político brasileiro é eivado de louvação à desigualdade: um criminoso com título universitário tem uma prisão especial, diferente daquele criminoso que não chegou à universidade; um político que comete um crime comum (roubo dos cofres públicos) só pode ser julgado no STF: a prerrogativa de foro especial para defender a sua liberdade de expressão tornou-se a liberdade de roubar enquanto for deputado, senador, ministro, etc.; um magistrado que ganha cerca de 41 salários mínimo, recebe um auxílio para pagar aluguel enquanto que o trabalhador que só recebe um salário mínimo não tem direito a esse conforto. O mesmo privilégio é dado a deputados e senadores que ganham semelhantemente aos magistrados e, como eles, têm outras benesses. Com legislações e privilégios como esses, será árduo e talvez impossível chegarmos a uma democracia, sem adjetivos.

Antropoformizando as folhas que caem das árvores, dissemos que quando elas caem pode ser o momento de consciência de que elas fazem parte da árvore. Não sei se posso dizer o mesmo a respeito dos que se põem na vida política no Brasil, seja ela a vida política partidária ou sindical; cada vez mais sinto, é uma sensação, que esses jamais terão a ciência de pertencer a algo além das suas propriedades, as da função e as econômicas.

A respeito de Fidel Castro

Nesta manhã de 26 de novembro a primeira notícia que sei é a morte de Fidel Castro. É uma tamanha figura que acompanha quase todo o século XX, especialmente a segunda parte. Podemos dizer que o segundo terço do século foi seu período de formação, com significativa passagem por colégios jesuítas que lhes transmitiram a disciplina pensada por Inácio de Loyola, e que lhe foi tão necessária desde 1950. Um reformador do século XVI forma um revolucionário do século XX.

Historiadores há que definem a História da América latina em Antes e depois de Fidel, pois que, desde o fracassado ataque a Moncada que lhe valeu a prisão e, posterior exílio nos Estados Unidos, nenhum país da América ficou isento de sua influência. Provavelmente o Sargento Batista, quando decidiu libertar o jovem revolucionário para celebrar a sua vitória eleitoral, não imaginava que aquele jovem fosse capaz de seduzir a tantos e que, com um pequeno grupo guerrilheiro, pudesses avançar sobre Havana desde a Sierra Maestra e expulsá-lo de Cuba em uma festa de Reveillon, inventada pela monarquia francesa.

A paixão de Fidel Castro pelos brinquedos que a sociedade capitalista (relógio Rolex, iates, produtos da Adidas, etc.) produz não impediu que desenvolvesse uma paixão pela mudança, pela libertação de seu povo. E ele o fez. E, se no início de sua trajetória revolucionária parecia não atentar contra a ordem capitalista, dois anos depois assumiu a opção pelo seguimento da União Soviética. Desvencilhou-se dos possíveis inimigos em julgamentos sumários e execuções imediatas. Pouco tempo depois caminhou os passos de Stalin, mesmo após o mundo tomar conhecimento de suas façanhas expostas pelo Relatório de Nikita Kuschev. Aliás, foi essa sua aliança com Nikita, no auge da Guerra Fria, que permitiu o enfrentamento com os Estados Unidos da América, com a tentativa de estabelecer bases de misseis a poucos quilômetros daquela potência que comandava o mundo Ocidental, enfrentando a crescente potência socialista do Oriente. Em 1962 assistiu-se, pela televisão, a possibilidade de um embate entre as potências nucleares. Acordos entre as lideranças, Kennedy e Kruschev, distenderam os ânimos. Desde então a Cuba de Fidel foi excluída da OEA e o embargo econômico da ilha pretendeu dominá-la, só não o conseguindo por conta do apoio econômico e financeiro chegada da URSS, além do fato de que alguns países continuaram a comerciar com Cuba
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A chegada de Fidel ao poder coincide com a adolescência de uma geração que começava a cansar-se da ‘felicidade do american way of life’, e de uma juventude europeia que via o processo de descolonização, e alimentava esperanças de ser possível criar um novo mundo sem as mazelas do ‘terceiro mundo’ criado pelas potências colonialistas do século XIX, aquelas que estavam definhando no pós-guerra. Assim, Fidel, ao mesmo tempo em que modificava algumas estruturas do seu país, promovendo a educação das populações, criando caminhos novos para os jovens cubanos, também incentivava a exportação revolucionária, um pouco para se livrar do incômodo argentino que o auxiliara no extermínio dos inimigos dos primeiros anos, era amado por sua coragem de levantar-se contra o Império. Guevara foi morto na Bolívia, sonhando um levante continental (um fracasso de novo, do novo Bolívar) enquanto tropas da socialista Cuba protegiam os campos petrolíferos de Angola. Esses campos que fazem a fortuna dos revolucionários que tomaram o poder após a descolonização.

O temor de uma expansão da revolução cubana na América Latina fez o papa João XXIII incentivar bispos europeus a enviar padres para suprir o histórico déficit de padres; enquanto isso John Kennedy criava o Peace Corps e a Aliança para o Progresso, especialmente pensado para os países abaixo do Rio Grande. Esses movimentos fortaleceram a boa imagem de Fidel como o vingador dos oprimidos da América Latina. O temor de uma possível expansão do comunismo na América do Sul promoveu a fase de ditaduras militares financiadas pelos capitalistas locais em comunhão com as administrações Kennedy, Johnson, Nixon, mas que começaram a decair com a administração de Jimmy Carter. Entretanto, os projetos americanos perderam os corações e as mentes dos seus jovens e dos jovens universitários latino-americanos. Esses, influenciados por Sartre, não consideraram o Relatório do Secretário Geral do Partido Comunista da União soviética e, da mesma maneira, talvez por costume e não por reflexão, anos depois não perceberam a Queda do Muro de Berlim. Convenceram-se que apenas ocorrera a traição de Gorbachov. E Fidel continuou a reinar como o líder da grande revolução. Afinal, os índices de miséria da maioria dos países da América Latina fazem um grande contraste com o que a economia cubana conseguiu, financiada pela URSS, na educação e na medicina. Após a Queda do Muro, manifestação simbólica do fracasso da chamada “pátria dos trabalhadores” que decidiu dar “adeus a Lenin”, Cuba só não ruiu por conta das doações do petróleo venezuelano e do Foro de São Paulo, o que permitiu que a sua chegada ao terceiro milênio se tornasse num momento midiático, e apresentar os Estados Unidos como que vergados com Barac Obama, após a interferência do Papa Francisco.

Além dos erros cometidos pelos líderes americanos no trato com a Ilha, ela foi beneficiada pela ação de uma juventude que se mantém com os ideais dos anos sessenta. Cuba é um Woodstock interminável, pois a revolução prometida naqueles anos foi mantida, no Brasil, com livros como A Ilha, de Fernando Moraes e Fidel e a Religião, conversas editadas por Frei Beto. Para alguns setores do catolicismo latino americano a emergência da Revolução Cubana é mais significativa que o Concílio Vaticano II. Pode-se até mesmo dizer que, ao tempo em que ocorreu a dessacralização do catolicismo, foram sendo sacralizadas as figuras representativas da Revolução Cubana.

Em seu depoimento, após o fracasso de Moncada, Fidel Castro emitiu uma palavra que é repetida como sendo uma verdade: ‘ a história me absolverá’. Historiadores sabem que a história não absolve ninguém. Todos os homens que por sua atuação influenciaram a trajetória da humanidade continuam, a cada geração, sendo julgados. E o veredicto nunca é unânime.

Apenas as ditaduras tentam ser unânimes, mas, como sabemos e me disse um dia o compadre Zé Nivaldo, “as ditaduras não são eternas”. Nem os julgamentos da história.