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Dom Hélder, João Paulo II e o Trabalho Humano

Aproveito a semana para colocar aqui uma crônica de Dom Hélder Câmara, recentemente posta no livro Meus Queridos Amigos, publicado pela CEPE. O livro é uma coletânea de 200 do Dom no seu programa UM OLHAR SOBRE A CIDADE.

Meus queridos amigos

O Santo Padre Joao Paulo II havia preparado a sua Encíclica sobre o trabalho humano, para ser publicada no dia 15 de maio próximo passado, comemorando 90 anos da Rerum Novarum34 de Leao XIII.

Dada a permanência dele no hospital, o querido João de Deus guardou sua Carta para a Festa da Exaltação da Santa Cruz, no dia 14 de setembro passado, terceiro do seu pontificado. O jeito é ler a Carta do Santo Padre. O trabalho sai altamente dignificado da Laborem Exercens 35 e mais ainda o homem, que a Encíclica prova que é sempre o sujeito do trabalho.

Reparem como, a partir da noção de trabalho, a Encíclica prova que raízes materialistas não são privilégios do comunismo, pois o capitalismo cai também no materialismo. É urgente ler e reler o que diz o Papa sobre o direito de propriedade: “A tradição cristã nunca defendeu o direito de propriedade como algo absoluto e intocável.

Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais vasto do direito comum de todos utilizarem os bens da criação inteira: o direito de propriedade privada está subordinado ao direito ao uso comum, subordinado a destinação universal dos bens”.

Mais adiante diz a Encíclica: “Continua sendo inaceitável a posição do capitalismo rígido, que defende o direito exclusivo da propriedade privada dos meios de produção, comum dogma intocável na vida econômica. O princípio do respeito ao trabalho exige que tal direito seja submetido a uma revisão construtiva, tanto em teoria como na prática.”

Procurem o que relembra a Encíclica sobre trabalho e capital, sobre a necessidade da reordenação e novo ajustamento das atuais estruturas, sobre a Comissão de Justiça e Paz, sobre guerra nuclear, sobre a chaga do desemprego e a responsabilidade do governo no tocante a desempregados, sobre sindicatos, sobre direito de greve, sobre o trabalho agrícola e a reforma agrária, sobre multinacionais…

É tão bom, tão importante, tão agradável ouvir o Papa provar que a Igreja confia no homem, que o trabalho foi feito para o homem e não o homem para o trabalho, sobre a verdadeira promoção da mulher e a missão materna exclusiva da mulher… É empolgante ver a Encíclica provar como o problema que outrora era problema de classe, hoje adquiriu dimensões de problema de mundos…

Claro que a Encíclica não esquece a espiritualidade do trabalho.

Lida e meditada com calma, sem paixão, como se ouvíssemos o nosso Joao do Deus em sua passagem inesquecível pelo Brasil, a Encíclica pode fazer um grande bem às pequenas comunidades e ao governo, aos trabalhadores, aos professores, aos jovens, a católicos, e não católicos, cristãos e não cristãos, crentes e descrentes.

Deus seja louvado!

Sexta-feira, 2.10.1981

Semana de aniversários

Este site completa sete anos neste mês. Esta semana tem início o meu 67º ano de vida. Para celebrar as duas efemérides, coletei as minhas intervenções na comunidade do Facebook, um pouco para verificar se disse muitas bobagens e coisas sem conexão. tudo foi escrito ente o dia 15 e o dia 22 de abril.

1. Desejo começar este novo dia agradecendo a todas as pessoas que dedicaram alguns momentos para abraçar-me e dizer o quanto podemos manter laços às distância; agradeço aos que me ajudaram a celebrar o tempo que já passou, o dia em que lembro minha entrada na vida e, também a continuar a viver na alegria e na esperança todos os dias que me restam (espero que sejam muitos) para viver e melhorar a vida. Obrigado a todos.
2. Todos nós estamos chocados com a fotografia do Brasil. Descobrimos a nós mesmos, ao verificar em cadeia nacional o verdadeiro resultado das eleições de outubro de 2014. Não sabíamos o que havia sido eleito, a maioria dos brasileiros que votou displicentemente pode verificar o conjunto da obra. Juízes e ré foram eleitos pelo mesmo povo. Nós devíamos é estar assustados não com esse ou aquele deputado (cada um deles representa uma parte dos eleitores/cidadãos), deveríamos é estar assustados com o nosso descuidado com o que é nosso. Fôssemos mais atentos, não entregaríamos o país a esse tipo de gente. Mas, a fotografia não mente. Veremos, nos próximos dias, o andar de distanciamento do PT em relação à dilma, seguindo o script lido por José Dirceu, alguns empresários ex-amigos e agora completamente desconhecidos. O PT chamará a militância que foi sonambolizada nas centenas de CC, para salvar o partido. dilma, que foi figurante, pode ser descartada. Vão tentar salvar o partido e o projeto de Lula. Pode ser que eu me engane, já me enganei com alguns seguidores dessa seita.
3. “Estou sendo golpista? Para alguns sim. Para quem sabe do meu caráter, não. Não tergiverso com minha honestidade e não vendo minha alma ao diabo na forma de pedidos, favores e dinheiro. Meu nariz está limpo porque jamais ajoelhei para lamber um traseiro ou solicitei um empenho. Quando, um dia, me perguntaram “O que você quer?”, disse sem tremer: “Nada!”” Roberto DaMatta.
4. Conversar com pessoas de mentalidade religiosa é difícil porque eles cegaram e mutilaram os ouvidos . Não estão abertos para além de seus dogmas. (…) Não pensei estar falando de dogmas, uma quase exigência dos grupos que encontraram a verdade e articularam em sentenças que servem de paradigmas para os crentes; referia-me a ‘mentalidade religiosa’ que alguns grupos assumiram na sua luta contra as demais mentalidades religiosas ou não. Certos grupos sociais elevaram os seus projetos sociais à condição de dogmas, verdades eternas e incontestáveis, e, nós sabemos, os projetos realizadas na sociedade podem ser conjunturais, adaptáveis e adaptados à circunstâncias. E com esse tipo de gente que está impossível conversar.
5. Como está ficando meio doido, lá vou eu: penso que esta aventura em Nova Iorque, a ser realizada pela presidente dilma, se propondo a dizer que está havendo um golpe (golpe no gerúndio é lasca!) no Brasil para, em seguida voltar ao Brasil e receber a presidência de volta das mãos do ‘golpista” , é uma encenação, um pedido de intervenção do Mercosul, igual àquele que ela e a moça da Argentina arquitetaram contra o Paraguai. Se for isso, mostra mais uma vez que a guerrilheira que queria implantar uma ditadura de esquerda para substituir uma ditadura de direita, continua sem saber fazer análise da conjuntura. E então fica no ridículo. e nós pagamos a conta da crise econômica, da crise ética, da crise moral além das viagens luxuosas, dignas dos ditadores mais loucos.
6. A maioria das pessoas esquece rápido, mas tem gente de memória, como o Senador Cristóvão Buarque, criador do Bolsa Escola, programa muito criticado pelo PT por ser assistencialista. Entretanto o recebimento da Bolsa Escola estava condicionado a presença das crianças na escola. FHC adotou o programa, com o mesmo nome em seu governo e quem o administrava era o Ministério da Educação. Quando o PT tomou posse do governo (pensou ter tomado posse do Brasil) esqueceu suas críticas , adotou o programa com o nome de Bolsa Família, retirando-o do ME, transferindo para A Assistência Social. Cristóvão que foi Ministro da Educação, foi demitido por telefone e desde então o Bolsa Família é um sucesso de votação, mas a educação não tem avançado, especialmente a educação básica e média. Hoje temos mais universidades, mas o nível médio não é tão alvissareiro.

7. Há sociólogos que nos ensinam estar, tudo ao redor, liquefazendo-se; os artefatos técnicos são rapidamente ultrapassados em sua utilidade e desenhos, cedem lugar aos novos. Não mudam, não cedem e parecem cada vez mais sólidos os líderes partidários, veementemente defendidos por jovens adoradores que caminham rapidamente para o passado dos seus líderes.

8. Pensadores que desejam impedir que sejam ouvidos os que pensam.

9. Comece a pensar na próxima eleição. Não vote em vereador que recebe apoio e apoia deputado e senador envolvido em corrupção, que esteja sob investigação. Agora é cuidar disso para ver se melhoramos isso que vimos hoje. Seria o mesmo se o resultado fosse outro. Um povo faminto e iletrado, sem educação e sem possibilidades de debates, que para recrear tem apenas as igrejas e os bares está fadado ao fracasso ou ao sucesso aparente.

O professor e sua janela virtual cheia de vazio

Da janela da casa uma pessoa pode ver a vida passar, lentamente como os passos de um velho que parece desejar alongar o momento do fim da caminhada; fugaz como o jovem motociclista, sempre atrasado para um encontro que em algum momento chegará ou como o sonolento passeio de ônibus do comerciário, pedreiro, estudante ou enfermeira, demorando em angustiantes paradas para receber mais alguns enquanto vomita outros. Tudo e todos se movem menos a janela e quem na janela está.

Vez por outra o olhar desvia-se para outras janelas, essas que são abertas para lugares inatingíveis, pois nem mesmo se sabe para onde se está olhando. A pequena tela do computador abre-se ao quase infinito, em uma estrada que leva a casas e caras conhecidas e estranhas. Estranha-se o que se vê e o que se lê. Algo chama atenção, um estranhamento maior. Estranha-se que um educador, professor de gerações de novos professores, coloque à disposição de olhares curiosos e sedentos que virão, notícias do tempo passado como se de hoje fosse. O que leva uma pessoa que se propõe a dar as últimas pinceladas na formação de jovens a falsificar o tempo?

Ao abrir minha janela deparei com o recado desse professor. Encontrei esse recado que me falava de percentuais, números representativos da querença a respeito de certa autoridade, números que demonstram uma adesão a essa pessoa e à sua obra. Mas, os números referem ao tempo que passou, foi um momento já vivido e superado. Não é o momento atual, mas ele não informa aos seus leitores que é de um tempo passado. E esse educador apaixonado, não consegue admitir como foi fugaz a ação que lhe provocou a paixão, recusa-se a aceitar a mudança. É notório o direito que cada um tem de se auto enganar. Algum psicólogo poderia auxiliar a entender essa negação da realidade como possibilidade de sobrevivência pessoal, esse distúrbio pode ser tratado pelo uso de medicamento ou análise. Mas, nos dois casos há que se ter aquiescência do possível deslocado e deslocador da realidade.

Um professor pode ser um catalisador de novas realidades descobertas para aquele que se entrega aos seus cuidados; pode ser indutor de uma caminhada em busca do saber, da sabedoria, da verdade. De certa maneira é assim que se pensa um professor. Mas a janela que vi hoje pela manhã, a janela que esse professor abriu para que eu e todos que passassem em sua avenida virtual pudéssemos aprender de seu saber, permitiu-me ver uma pessoa que está induzindo ao erro, ao erro ao qual ele se agarrou. Como professor ele sabe que a maioria das pessoas não buscam as razões de sua presença no mundo; como professor ele sabe que sua função social é auxiliar aqueles que o procuram a aproximar-se da verdade, e quando ele nega a informação correta ou induz à uma compreensão falsa da realidade, levando os que conversam com ele ao erro, ele comete um crime contra a humanidade.

Da minha janela fico angustiado ao ver, pela janela desse professor, o oco que ficou sua existência ao perceber que suas crenças careciam de realidade e, em lugar de enfrentar esse problema resolveu cultivar seu vazio oferecendo informações verdadeiras no passado, como sendo atuais. E faz isso conscientemente. Não informando que os dados apresentados referem ao passado, ele optou pela mentira como forma de vida e, ao ensinar essas mentiras, comete um crime contra a humanidade.

Eu puro, eles pecadores?

Conheci Irmã Mirtes quando minha tinha vivido sete anos. Nos meses que antecederam a sua morte, quando seu carro foi atingido por um trem em Cajueiro Seco, ela ensinou-me o catecismo católico, juntamente com Luzia, que ainda vive hoje em Nova Descoberta e, vez por outra encontro em alguma cerimônia religiosa. Evidente que minha mãe já ensinara o sinal da fé e as orações de dormir. Ainda eram orações de agradecimento pelo dia. Outras orações aprendi indo à igreja e no catecismo com a Irmã Mirtes e Luzia. O que aprendi vem até hoje, mesmo não sendo um católico tão assíduo quanto era no passado. Duas orações tenho rezado desde então; de certa forma elas definem, para mim, um caminho comportamental.

O Pai Nosso sempre a recordar que somos todos membros de uma enorme família, a família dos filhos de Deus. Não exclui ninguém. Nessa oração, sempre rezada na primeira pessoa do plural, pedimos que se realize a Sua vontade, e esta vontade é que não nos falte o pão de cada dia, não o pão acumulado, pois tê-lo em excesso nos leva à preguiça, ao senso de propriedade, à vaidade de mostrar que já não preciso trabalhar pela sobrevivência. Depois aprendi que quem tem em acúmulo está roubando a quem falta o que lhe sobra. E é este pecado que ofende aos outros, pois isto é o pecado: ofender a Deus no outro. Por isso a oração caminha para o pedido de perdão, mas ele é condicionado: que ele nos perdoe como nós perdoamos a quem nos ofende. Aprendemos que só receberemos o perdão se perdoarmos. E se não somos perdoados ficamos tristes porque não fomos capazes de perdoar. Não fomos capazes de pedir o perdão. Pedir perdão implica dizer que errou, dizer que pecou, dizer que ofendeu. Pedir perdão implica jogar fora o orgulho, a vaidade, a autossuficiência. Mas aqui é tudo no plural, tudo no coletivo, tudo no abraço do Pai que nos faz irmãos e iguais.

Outra oração que aprendi com Irmã Mirtes e com Luzia, era repetida no início de todas as missas. E, diferentemente do Pai Nosso, essa oração é na primeira pessoa do singular. Ela trata daquele que reza, é uma oração de reflexão, de voltar-se, de conhecer-se e, conhece-se o pecador. Ela começa assim: Eu pecador. Sim, o pecado é de uma pessoa, ainda que ela viva em sociedade. E são várias as modalidades de pecado: os pecados mentais, pecados que são realizados no íntimo do pensamento, o desejo do mal que não fizemos, mas que desejamos aos outros, ainda que eles jamais saibam que os cometemos; os pecados das ações, as ações realizadas que pensamos e que realizamos, e as fizemos mesmo sabendo que iria levar o sofrimento ao outro. E há ainda os pecados da omissão, do não querer auxiliar o outro. As consequências do pecado são sociais, mas o pecado é da responsabilidade do pecador. Assim foi que aprendi, que me ensinaram. Penso que ainda faz sentido o final da oração que pede perdão ao pai e aos irmãos.

Claro que vivemos, seis décadas depois, em um mundo diferente daquele da Irmã Mirtes. De lá para cá ocorreram mudanças várias, sendo um delas um maior acento no pecado social, e essa acentuação tem quase anulado as responsabilidades pessoais daquele que cometeu o pecado, e tudo vai indo na conta da sociedade, esse ser abstrato que, vez por outra é apresentado como ‘burguesia’ para uns, ‘comunistas’ para outros e, todos afirmando que a culpa de estarmos na situação que estamos é sempre do outro, deles. O Eu passa a ser apenas aquele que aponta o erro, mas nunca é responsável por ele. E isso que é aplicado no discurso do crente individual passa a ser aplicado também aos que governam. Em uma das cartas que li esta semana dirigida a presidente dilma, um religioso católico afirma que todos os problemas por quais passa o Brasil hoje é culpa dos empresários a quem ela recorreu, eles é que a fizeram errar. Ela, a presidente não é responsável por nada, por isso é inocente e…

Não sei, não sou mais teólogo católico desde que o ITER foi fechado, mas ainda sei que o Concílio Vaticano II não modificou nenhum ensinamento dogmático, embora como tenha dados passos expressivos para alcançar o mundo contemporâneo, as ansiedades do mundo contemporâneo. Mas, não creio que tenha decidido que o indivíduo esteja liberado de não mais renunciar as coisas do mundo, podendo agir de maneira irresponsável pois é a sociedade a única responsável por tudo de errado que existe. Mas, o que é a sociedade?

Minha passeata foi maior que a sua

Os dias seguem a marcha permanente da mecânica universal que os físicos desvendaram. Sabemos que a cada segundo segue-se outro neste lado e, sem sabermos pela visão, outros segundos seguirão seus destinos experimentados por outros. No mesmo universo, muitos mundos e diferentes pessoas vivem, cada um a seu modo, compreende o que vive a cada segundo. E sua vida corre paralela ou dividindo parte de seu segundo com outro segundo. Embora sem saber conscientemente o que lhe ocorre e ao outro. Tudo segue como se cada um controlasse o seu segundo de vida. Como se o segundo que vive, seu fosse. Talvez por isso, por julgar-se dono do seu tempo, ou julgar que o tempo é seu, cada um o vive à seu modo e não percebe que todos estão emaranhados nos segundos que os possuem.

Vivemos nossos segundos como se fosse simples a equação de viver, como se a vida e os acontecimentos dependessem de nossa vontade. Por mais que nos digam e tenhamos aprendido que cada momento e entendimento que dele se tem é apenas um entendimento e, noutros mundos, quer dizer, noutras pessoas que vivem seus momentos, continuamos a imaginar o mundo como se ele fosse apenas um, aquele que cada entende e vive. E se assim pensamos e vivemos, torna-se impossível viver considerando o outro. Estamos sempre a exigir que o outro seja colonizado pelo meu pensamento. Desejo que o outro se abre para o meu pensar enquanto não me permito abrir-me para receber o pensar do outro. Ainda que os físicos já tenham desvendado o mundo quântico, ainda que ele nos façam trabalhar com computadores, miniaturas reais do nanomundo, continuamos a ver como Isaac Newton, e nos apegamos ao saber criado nos séculos XVI e XVII. Alguns vislumbraram o século XIX e as contradições geradas pela acumulação do capital e, agarram-se à ideia de que o ele deve ser dividido, desde que quem o divida fique com a maior parte. Aprendemos que são muitas as explicações para os acontecimentos, mas continuamos a agir para que a explicação comum seja a minha e a do meu grupo.

As explicações que encontramos no universo ainda não chegaram a nós para explicara o nosso comportamento social, continuamos apostando na dualidade da vida como explicação e solução para os problemas sociais que criamos, como fizeram os seguidores de Zoroastro. Talvez seja isso que nos faz transformar tudo em uma peleja entre “eu e tu”, “nós e eles”, acumulando os ódios que a acumulação das coisas provocam. Essa emulação para conquistas corações e mentes foi o programa do general Westmoreland no Vietnan, e todos os generais do mundo, antes e depois da compreensão da física quântica. E ela continua a ser a dominante em nossos dias e nossos comportamentos, por ser a mais simples, quase simplória, solução para os complexos problemas que criamos. Por não estarmos sendo capazes de incorporar o conhecimento que conseguimos do universo, o universo que muitos professores continuam a ensinar e ajudar a perpetuar é o universo de ‘minha passeata foi maior que a sua”.

Nossa Páscoa, nossa vida

O mundo cristão, não apenas o católico, estar a completar os quarentas dias de reflexão quaresmal, tempo de preparação para a celebração da vida que tem começo a cada segundo das horas de todos os dias. No ritual católico desta vigília pascal, serão abençoados os elementos básicos da vida: a terra, o fogo, a água, o ar, mantendo tradição religiosa que atravessa milênios e de povos diversos. Sem esses elementos a vida não ocorreria, e seu cuidado é fundamental para a continuidade da vida, não apenas humana. A benção dos elementos e o cuidado pela sua renovação lembra a necessidade de renovar os espíritos, as ideias e superar o que tem nos enganado, o que criamos para nos iludir e ficar tranquilos com as bobagens que fazemos.

E, se temos que cuidar da natureza que nos permite condições básicas para nossa existência enquanto animal, mais ainda devemos cuidar do que criamos, de nossas relações com os demais sócios com os quais convivemos. Nossa história é uma constante criação de laços, organização de comportamentos, quase sempre com dores, como nos ensinou São Paulo. A Páscoa é esse rito anual que nos lembra da responsabilidade de viver e fazer permanecer a vida em suas diversas manifestações.

Após os séculos que construíram as nacionalidades que, a despeito de defender as identidades nacionais, nos aproximaram e nos permitiram verificar essa diversidade. Está sendo difícil e doloroso aprender a conviver com essa proximidade com o estranho. Estranho no falar, estranho no vestuário, estranho na organização familiar, estranho na relação com a divindade, estranho na organização política. Os estranhos, e nós somos estranhos para aqueles que vemos exóticos, para sentirem-se acalmados em seus medos procuram reduzir os outros a si e, como todos desejam isso, o resultado é, nesses primeiros contatos, o desejo de impor o seu jeito de viver e, em casos mais radicais, a eliminação do outro. Esse é o período que agora estamos vivendo em escala mundial, consequência dessa globalização que faz do planeta uma pequena aldeia, e dela julgamos saber tudo. Desse engano é que brotam os atentados que matam em lugares escolhidos para dar visibilidade e provocar temor. Aquele que só entende o outro como inimigo semeia o temor. É certo que se consegue isso, mas provoca outros efeitos, como um maior interesse em superar as condições que nos isolaram no tempo e que criaram a condição do medo. O medo do encontro.

A Páscoa prenuncia esse tempo, um tempo de paz, compreensão, quando as máquinas de guerra serão destruídas para a
feitura de máquinas na produção da riqueza que a todos alimenta; a Páscoa anuncia um tempo no qual o medo do carneiro será superado ele conviverá com o lobo, e o leão não se aproveitará da inocente tranquilidade do boi.

A Páscoa propõe que deixemos de encarar o que pensa diferente, em alguns aspectos, como um inimigo a quem deve-se matar; a Páscoa propõe que busquemos naquele que pensa diferente os pontos em que nossos pensamentos se encontram. Para que isso aconteça é necessário que abramos mão de desejar o poder, do desejo do poder, da volúpia do poder. E se a Páscoa é a celebração do que temos em comum, se realmente acreditamos nisso, não haverá mais lugar para a inveja. E sem essa terrível negação de si mesmo, seremos cada dia nós mesmos, cada dia mais felizes com a felicidade dos outros que conosco dividem o paraíso que nós fazemos a cada dia.

FELIZ PÁSCOA