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Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE

Em busca da liberdade e autonomia

 

 

Somos pais em busca da liberdade e autonomia, nossa e de nossos filhos.[1]

Severino Vicente da Silva[2]

Mª Lana Monteiro[3]

 

Quando colocamos nossos filhos para iniciar sua convivência social nesta escola, o fizemos como resultado de reflexão: uma escola que pareça com a sociedade que desejamos para nós e nossos filhos. E nisso vai nossa responsabilidade e a responsabilidade da escola. E escolhemos uma escola que nasceu nos anos em que os grande educadores eram Carl Rogers (1902-1987), Ivan Illich (1926-2002) e Paulo Freire (1921-1997). Eles são conhecidos como educadores para a liberdade. Vamos conversar em torno de Paulo Freire.

Paulo Freire nasceu no Recife e participou intensamente da vida cultural local nos anos cinquenta e sessenta, extrapolando depois de 1964 para os diversos continentes do planeta. Seu escrito mais famoso foi a “Educação como prática da liberdade” (1959), pouco lido atualmente, pois é um livro de reflexão filosófica a partir da realidade que ele conhecera e decidiu agir para transformá-la. Professor, ele compreendeu que a educação não ocorre apenas na escola, mas em todos os ambientes da vida humana: em casa, no trabalho, no lazer, nas igrejas etc. Assim ele definiu que todas as pessoas são educadoras, inclusive os professores, estes especializados na transferência dos conhecimentos científicos sistematizados pela ciência. Mas a educação não é apenas o que se tem na escola, por isso é que Paulo Freire diz que todos os humanos são educadores. Nas sociedades que baseiam na escravidão e que pretendem manter o sistema de escravidão, a pedagogia, ou seja, o caminho de transferência dos saberes – os comuns e os científicos – é uma pedagogia que leva à servidão, à opressão. Daí a reflexão no livro a “Pedagogia do Oprimido” (1968), no qual ele explica os meios que são utilizados para manter as populações em uma situação de opressão, na aceitação da opressão e da falta de liberdade como uma situação natural. Ao mesmo tempo mostra caminhos possíveis para sair da opressão e construir um caminho para a liberdade.

No mundo industrial no qual Pernambuco, o Nordeste e o Brasil estava sendo inserido nos anos cinquenta, Paulo Freire chamava atenção de que o domínio da leitura, da escrita e da fala era o caminho da liberdade, daí ele passou a organizar uma técnica com o objetivo de facilitar a alfabetização, o hoje conhecido como “Método Paulo Freire de Alfabetização”, que é um produto de sua reflexão filosófica no caminho da liberdade. Infelizmente as pessoas passaram a usar o ‘método’ sem a filosofia de Paulo Freire. Pouco antes de sua morte ele produziu o que forma a sua trilogia filosófica, e que só foi publicado pouco antes de sua morte, a Pedagogia da Autonomia (1996).   Não liberdade sem autonomia, a capacidade de decidir seu destino, suas ações diárias. Pois liberdade sem autonomia gera opressão, pessoas dependentes e, que podem permitir que opressores surjam, cresçam e dominem a sociedade, pondo fim à liberdade.

É esse anseio de liberdade com autonomia que reúne pessoas para refletirem sobre suas vidas, no intuito de melhorar e aperfeiçoar a prática da liberdade, a educação para a autonomia. Por isso nos perguntamos como agir na espera do segundo filho? Qual o momento que a criança não deve mais usar fralda? Quanto tempo eu devo permitir, ao meu filho assistir programas de televisão? E quais programas? Quais tipos de música eu devo ter em casa, para ouvir e educar o ouvido de meu filho? Será que tenho sido presente na vida do meu filho, ou sou um pai ou mãe ausente? Como conter a agressividade de meu filho? E esse egocentrismo do meu filho durará quanto tempo? Essas e outras são preocupações saudáveis e demonstram o sentimento de responsabilidade familiar e social daqueles que fazem tais perguntas. Mas então é que ficamos no dilema apontado por Paulo Freire: como se dá a educação como Prática da Liberdade?

Como fez Paulo Freire, que aprendeu nos tempos de Juventude Universitária Católica – JUC, o primeiro passo é ver a realidade. E qual a nossa realidade? Como nossos filhos, nós somos animais racionais; animais com inteligência, com a possibilidade e capacidade de compreender o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de modificar, refazer o mundo; somos animais com a possibilidade e capacidade de criar redes de relacionamentos, terminá-las e reorganizá-las.

Bem, somos animais, temos um corpo com uma infinidade de necessidades: necessidade de movimentação para encontrar alimentos; necessidade de repouso quando o cansaço chega após a movimentação; necessidade de alimentação sólida, líquida ou gasosa; necessidade de comunicar as descobertas e necessidade de receber informações sobre as descobertas dos outros animais; necessidade de excreção de gases, líquidos e sólidos que já não interessam ao corpo. Sim somos animais e possuímos corpos e quase nos esquecemos disso; quase nos esquecemos de que nossas lembranças e nossos aprendizados estão armazenados em nossos corpos e que nosso cérebro é uma matéria e funciona com redes e ondas; quase nos esquecemos que conhecemos o mundo com os sete buracos da cabeça e com os milhões de buraquinhos que formam nossa pele.

Por outro lado somos animais sociais, que só conseguimos sobreviver em grupos e, por isso, precisamos definir como nos relacionarmos em grupos. Foi para atender essa necessidade que nossos antepassados criaram normas de convivência, criaram os idiomas, as gramáticas, os demais códigos de comunicação, as formas de organização política, os instrumentos de trabalho, os meios de transportes, os sistemas religiosos, os sistemas políticos, etc. Olhando o passado verificamos que a maioria dos homens e mulheres estiveram em situação de dominação, em situação de servidão. E, em cada uma dessas sociedades existiram homens e mulheres que procuraram inventar a liberdade.  Assim também nós somos convidados a buscar a liberdade em uma sociedade que nos oprime com obrigações falsas, como as do consumo e ostentação. As campanhas publicitárias estão, a todo momento, a nos incitar hábitos de consumo como se fossem de primeira necessidade, a nos incitar a comprar carro novo ou vestuário novo com os quais impressionaremos os nossos vizinhos e colegas de trabalho, às vezes os humilhando e os forçando a endividar-se para concorrer conosco, assim como podemos nos ter endividados para mostrar o que somos ou fingimos ser. Programas de televisão nos dizem o que comer, como comer, onde comer. E somos levados a escolher o que escolheram para nós. Ficamos fragilizados de alguma forma e, em lugar de pararmos para perguntar: o que fiz para meu corpo esteja tendo essa reação? Foi algo que comi? Fiz mais esforço que o necessário? O que vem me causando essa tristeza? O que fiz para que meus sentimentos estejam tão embaralhados? Em lugar de buscar as respostas dessas e de outras perguntas semelhantes, vamos logo marcar uma consulta com o especialista médico, psicólogo para que eles nos digam o que fazer. Se formos aos especialistas, eles certamente nos farão as perguntas acima ou algo parecido com elas.

O mesmo ocorre em nossa relação com os nossos filhos. Ouvimos a opinião de outros sem prestar atenção à nossa própria opinião pessoal. Aos poucos vamos delegando à especialistas tudo que se refere à nossa vida e à nossa responsabilidade. Vamos perdendo a autonomia, o controle de nossas vidas. E é disso que trata a obra Pedagogia da Autonomia. Não é que não devamos procurar conselhos, informações com os especialistas, mas devemos ter o cuidado de, após ouvi-los assumirmos as decisões e o controle de nossas vidas! E assim saberemos como preparar nossos filhos para a vida na sociedade, transmitindo com tranquilidade os valores que vivemos e desejamos para eles e para o mundo no qual eles viverão, construído por eles, como nós construímos o nosso mundo a cada momento e a cada decisão.

 

Olinda, 29 de Novembro de 2014.

[1] Escrito para dia de estudo no ZAB, com os pais.

[2] Doutor em História do Brasil pela UFPE, Professor Adjunto do Departamento de História da UFPE, pai de Aluno no ZAB.

[3] Mestre em História do Brasil pela UFPE, professora da UPE , Campus Garanhuns.

República, João Cândido e Consciência Negra

Mês de novembro quase ao seu final e as datas nos trazem lembranças de acontecimentos diversos. Alguns, melhor dizendo, todos históricos,, uns mais famosos outros menos falados e alguns históricos completamente esquecidos. Mas o esquecimento de um fato é uma maneira de  explicar a história. Sempre serão lembradas, por aqueles viram, no calor do acontecimento ou na crônica dos vídeos, os momentos que se seguiram ao assassinato de John Kennedy ocorrido em 1962, no dia 22 de novembro. Comoveu o mundo o assassinato do presidente de uma república ocorrido à frente de todos. A palavra VERGONHA estampada durante horas nos vídeos dos televisores norteamericanos são inimagináveis nestes dias de hoje, quando se produzem decapitação ritual e pública e não h´pa repúdio nem ninguém, nem um cana de televisão gastará seu tempo expondo a palavra vergonha. Perda de tempo e de dinheiro.

A 11 de novembro de 1918 ocorreu o fim da Primeira Guerra Mundial e iniciava-se a trajetória para as guerras seguintes que levaram à breca os impérios que os europeus criaram no século XIX. Foram muitos os jovens mortos naquele conflito, e alguns morreram julgando que aquela seria a última guerra. E foi, para eles. A vontade de vingança dos líderes vitoriosos, que se negaram a ouvir as vozes acalmadoras de Bento XV ou mesmo de W. Wilson, criou ou regou as bases da política dos fascistas de todos os matizes e construiu o roteiro da guerra iniciada em 1939 e jamais terminada, embora fosse esfriada com a queda do muro que vergonhosamente, os fascistas levantaram em território berlinense. Tudo é novembro, anúncio de inverno ou de verão, dependendo do hemisfério em que se encontra.

Neste final de semana deparei-me, em aula, verificando o quanto novembro  tem significado na história da sociedade brasileira, e o quanto este novembro nos mostra a manipulação da história, dos fatos. A releitura da história é sempre uma tentativa de escrevê-la ao modo de quem a interpreta.  Foi no mês de novembro que, bem ou  mal foi proclamada a República brasileira, com a participação de poucos, com o alheamento de muitos. Entretanto a história não é construída em um só dia, mas a cada dia. Se o povo assistiu bestificado o desfile militar de 1889, se ele foi bestializado em grande parte desse período de nossa história, não como negar que nós soubemos, estamos sabendo criar os  caminhos para aumentar a nossa participação na construção da nação. Assim, fiquei surpreso quando percebi que meus alunos não se aperceberam que não houve debates nem aulas, em seus colégios, sobre a importância e o significado da República. Também eles, meus alunos que são, simultaneamente, professores de diversas redes municipais, pouco sabiam do dia 19 de novembro, dedicado á bandeira nacional. Nenhum deles sabia quem era Olavo Bilac. Um lembrou que ele havia sido poeta. E porque não houve debate sobre a República Brasileira nas escolas que formam os futuros cidadãos da República Brasileira? É que, desde o final de outubro que o debate gira em torno do Dia da Consciência Negra. Esse dia estabelecido pela República para que os cidadãos repensem seu comportamento de maneira a tornarem-se cada vez mais republicanos, suplantou a ideia da República do Brasil. E o debate dessa consciência negra termina sendo mais voltada para a imagem criada de Zumbi dos Palmares e das religiões afroriginárias que da participação dos homens e mulheres na construção da República. Louva-se, merecidamente a Zumbi mas olvida-se, criminosamente a João Cândido, ele é um dos que resistiram e não admitiu ser bestializado, exigiu um tratamento republicano, com uma revolta contra os abusos de oficiais sobre os marinhos e, a 22 de novembro de 1910, foi aclamado como líder de todos os marinheiros. O silêncio da Consciência Negra sobre esse acontecimento, sobre este brasileiro construtor da República, concentrando no resgate de raízes africanas, danças e orixás, é um apoio ao silêncio que a historiografia conservadora. Sem o adubo a história as raízes perdem vigor e são dominadas por pragas devoradoras de homens e suas histórias.

Celebrar a Consciência afastando-se da história, negando-a, querendo fazê-la ao seu gosto, é um caminho perigoso que leva aos misticismos.

Viva João Cândido, líder do povo brasileiro republicano que tem consciência de sua humanidade.

Festival Canavial e Dom Hélder Câmara

 

O Direito de Celebrar

 

Manhã do dia 15 de novembro 2014. Sem grande participação popular, a República do Brasil começou a 115 anos. Um grupo de soldados, bacharéis e jornalistas afastaram a monarquia e desejaram construir uma nova maneira de gerir os interesses públicos. Mas desde logo se observou que parte do povo brasileiro ficou assistindo como besta e, depois, continuou sendo bestializado. Trabalhador construtor de riquezas, homens e mulheres continuaram a viver seus afazeres, particulares e públicos, com as dificuldades de sempre. Desde ontem estou em Nazaré da Mata participando do 8° Festival Canavial, que teve seu início humilde nas Festas de Terreiros, realizadas no Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança, uma festa mensal que punha o desafio para alguns rapazes e moças do entorno da Chã de Camará: treinarem a produção de um evento. Era a recuperação de uma tradição: o povo fazer a sua própria festa, em um momento em que as administrações federais, estaduais e municipais teimavam em desconhecer as criações artísticas dos trabalhadores rurais e urbanos da República. Os organizadores da Festa de Terreiros entendiam que a arte, a educação artística, é um caminho para a cidadania. Coquistas, Repentistas, bailarinos de Cavalo Marinho, Cirandeiros, Maracatuzeiros, Forrozeiros, Guerreiros, Sanfoneiros, eram os convidados para cantar e dançar com os trabalhadores dos canaviais da Mata Norte de Pernambuco. Aqueles que foram bestializados apresentavam-se para que eles mesmos conhecem-se as belezas que construíram nos cem anos, que literato chamava de solidão, mas eram, simultaneamente de criação, afirmação de sua maneira de ver, entender e recriar o  mundo. Nesses oito anos, o Festival Canavial vem se ampliando e já ultrapassou os limites da Mata Norte, com presença nas litorâneas Olinda e Ipojuca, e na agrestina Limoeiro. Interessante é que onde chega o Festival Canavial não encontra espaço vazio, mas chega para alimentar o fogo da vida que pulsa naquelas cidades, uma vida periférica que acolhe o festival que auxilia a troca de experiências dos criadores da cultura brasileira com as suas especificidades locais.

Nesta manhã que celebramos o advento da República, vejo como o rio da cultura popular vem se alastrando no exercício da cidadania. Nossa República tem sido bastante acossada por hábitos oligárquicos de mandonismo, que nos fizeram viver vários momentos de governos ditatoriais. O mais recente findou em 1985 e, desde então vivemos o mais longo período de vida democrática em nossa sociedade. Alvísseras e gritos de alegrias por esse período que desejamos uma maior duração. E, é necessário que compreendamos como ele foi construído, esse período tem longa gestação, que é a gestação de nossa cidadania, a criação e conquistas de nossos direitos. Ninguém pode arvorar-se a dizer que ‘fiz isso e fiz aquilo’, ‘eu dei tais e tais direitos’. Os que assim agem denunciam o seu ranço de dominador, escravizador de homens e mulheres. O que temos hoje em nossa República tem sido resultado do trabalhos, dos sofrimentos, do anseios, das esperanças dos bestializados que, vez por outra encontra alguém a simbolizar essa luta. Zumbi dos Palmares, oculto dos brasileiros durante três séculos, hoje simboliza as lutas e as conquistas que fazem de nós um povo livre e que luta contra os diferentes tipos de amebas políticos que os rondam. Ontem, recebi uma notícia que tem relação enorme com o que estou vivendo aqui neste 8º Festival Canavial. Amigos me informaram que, parece, Dom Hélder Câmara foi definido em lei como Patrono dos Direitos Humanos no Brasil. Rapidamente a memória levou-me para o já longínquo ano de 1967, quando escutei Dom Hèlder conversar sobre Mahatama Gandhi e Martin Luther King. Vivíamos sob o duro tacão da ditadura imposta por civis e militares ao povo brasileiro. Era a ditadura que eu conheci, Dom Hélder falava de outras que ele conhecera, especialmente a que terminara em 1945. Foi durante aquela ditadura comandada por Getúlio Vargas que ele começou a experimentar a transição da tentação totalitária para a vida democrática. Creio que a sua experiência com os jovens da Ação Católica deu-lhe a compreensão dos limites que eram impostos ao povo brasileiro, com o intuito de mantê-lo sempre bestializado. Como bispo auxiliar do Rio de Janeiro iniciou o processo de garantia do direito à moradia decente para os favelados. Foi o Drama da Habitação Popular que o apaixonou e que deu início ao ódio que lhe dedicaram os exploradores e fabricantes de marionetes. Dalí para sonhar com a ações encaminhadoras da cidadania foi um passo acertado. Vieram a SUDENE  e a SUDAN, depois desencaminhadas de seus objetivos iniciais para garantir o prazer do lucro aos que sempre lucraram com a bestialização do povo. Assisti Dom Hélder iniciar a Pressão Moral Libertadora, uma rota de não violência para fortalecer os que agiam para superar a destruição do homem. “Nordeste, o Homem proibido” foi, salvo engano, o primeiro documento a afrontar os ditadores  ao clamar contra a destruição dos homens e mulheres pela exploração desenfreada que não  lhes permitia iniciar a jornada para estabelecer no Brasil o que foi definido na Declaração Universal dos Direitos Humanos, pela ONU em 1948. Foi a defesa dos Direitos Humanos que tanto incomodou coronéis, generais, de farda indústria ou terras. O Estabelecimento da primeira Comissão de Justiça e Paz, na Arquidiocese de Olinda e Recife é um marco na história do Brasil, na história da superação da bestialização a que vem sendo submetida parte da sociedade brasileira.

Entendo o Festival Canavial, como muitos outros semelhantes a ele que são organizados neste país, afora e adentro, neste início do século XXI, como o início do alcance da liberdade de criar a arte e de poder expressá-la para si e para os seus. Todos esses festivais que nos expressam, que expõem a nossa cultura são resultados da luta pelos Direitos Humanos.

Nesta manhã republicana, nesta semana da celebramos a necessidade de assumirmos que somos negros, índios, mestiços, caboclos, evangélicos, católicos, brancos, xangozeiros, candomblecistas, macumbeiros, catimbozeiros, matutos, caipiras, e tantas outras identidades que nos faz belos brasileiros, belos seres humanos.

 

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente

Mais um prêmio para a Biblioteca Mestre Batista

O mês de novembro vem cheio de lembranças boas.  Faz vinte e cinco anos que o MURO DE, BERLIM foi derrubado, acontecimento tão importante que o historiador marxista Eric Hobsbawn o utilizou para definir o fim do século XX, que chamou de curto, pois teria iniciado com os soviets e 1917. O Muro caiu sobre eles. Começara então o século XXI, embora muitos ainda queiram construir o final do XIX. Mas se os soviets consumiram-se julgando ser a única esperança, os sonhos da liberdade continuam a respirar na humanidade em busca de fazer-se a si mesma, inventando-se, libertando-se das experiências frustradas pelas ambições pessoais, pelo desejo e prática de diminuição do outro, do não reconhecimento do outro, como se essa fosse a melhor maneira de afirmar-se. Lamentavelmente essa maneira de pensar que eu ou meu grupo seja o ‘senhor da história’ , cultivando ainda a ideia de que ser senhor é ser parecido com aquele que era possuidor de engenhos de moer cana de açúcar e homens. Mas vamos descobrindo, ‘nem sempre ganhando, nem sempre perdendo’ e aprendendo que o Senhor é o que serve.

Na beira de uma rodovia, quase perdido entre canaviais foi fundado o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança em 1966, pelo Mestre Batista. Era o tempo em que as usinas ainda não usavam tratores nos canaviais nem os caminhões era servidos por empilhadeiras para depois correrem aos pátios das usinas, no caso a Usina Aliança. Muitos homens e mulheres que trabalhavam nos canaviais divertiam-se nos bailes à luz de lampiões, dançavam e ou assistiam aos espetáculos de Cavalo Marinho e vestiam-se de guerreiros de lança na mão nos dias de carnaval, subindo e descendo as colinas das Terras Altas do vale do Siriji. Anos após a morte de Mestre Batista, seu filho e seus amigos conseguiram tornar o ponto de cultura que havia no Sítio Chã de Camará, em torno da ação do Mestre Batista, reconhecido oficialmente pelo Ministério da Cultura como um Ponto de Cultura, um local que cria, mantém e transmite a cultura criada pelos moradores da região, pelos trabalhadores na cana de açúcar, explorados, homens e mulheres, que vivem em busca da cidadania.

Desde o primeiro instante os organizadores do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança sonharam com uma biblioteca que colocasse na mãos das crianças, dos jovens e adultos que vivem na proximidade, livros. Livros para tocar, cheirar, folhear, inventar histórias vendo as figuras e até resgar por usar. Logo a Biblioteca Mestre Batista passou a fazer parte da rede da Biblioteca Nacional, depois vieram outros prêmios e parcerias. Uma delas com o IBRAM e fomos reconhecidos como Ponto de Memória, projeto que está em terminalização e que será sagrado no encerramento do próximo dia 15. São os ‘bestializados’ fazendo história, assenhorando-se, tímida, mas, constantemente, da sua história. Hoje a Biblioteca Mestre Batista recebeu o Prêmio Leitura Para Todos, da Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas (DLLLB), do Ministério da Cultura (MinC).

Nem todos compreendem o que está acontecendo ao seu redor. Mas todos sabem que algo está a se mover e esses movimentos são causados pela ação de rapazes e moças que sonham, não com o passado nem com o poder, mas com a humanização da humanidade. Citarei algumas que atuaram ao  longo desse sonho que está sendo construído: Wanessa Gonçalves, Ederlan Fábio, Mel Vilela, Bárbara Gonçalves, Tâmisa Vicente, Afonso Oliveira, Andrea Batista, Luiz Caboclo, Zé Lourenço, Érica Fernanda, Daniela Ferreira, Leonardo Silva, Guh Xavier, Fábio Silva, Valéria Vicente, Liana Gesteira, Manuela Guedes, Dany Patrícia, Mestre Zé Duda, e as crianças que chegam todos os sábados, e  as mães, os pais e as avós que trazem seus filhos e participam das festas.

Assim vamos derrubando os muros e criando as possibilidades de humanização da humanidade. Visite a site https://www.facebook.com/pontodeculturaestreladeouro?fref=ts

http://biuvicente.com/pontodeleitura/

Chuvas e lembranças de mestres: Divanildo Pimentel e Aldemar Paiva

Choveu na noite de ontem em muitos lugares do planeta e, em alguns a chuva foi recebida em festa. Ocorre sempre que somos crianças e desejamos brincar na lama. Mas isso acontece nos dias de hoje apenas nas ruas que estão distante do centro da cidade, nas regiões mais pobres, aonde o asfalto não chega e a água da chuva transforma a paisagem, as ruas tornam-se rios. A água que desce dos telhados é a oportunidade do chuveiro, nessas ruas tão desassistidas do serviço de água e esgotos. Ah! Os esgotos a céu aberto são sempre motivo para que as crianças sejam alertadas de que não devem ir par a chuva pois a lama é suja. Assim o banho de chuva ocorre quando a água invade a casa e todos são obrigados a saírem.

A chuva é sempre uma alegria, mas pode estar carregada de tristeza. A chuva sempre me faz lembrar do professor padre Divanildo Pimentel que nos obrigava a fazer e a entender análise sintática. Texto que me acompanha: “tão temorosa vinha, e carregada, que punha nos corações um grande peso.” E ainda: “a copa das árvores, ao invés de diminuir, tornava mais fortes os pingos.”  Não lembro os autores, ou autor, mas essa Tempestade nos fazia tremer, não frio, mas da quase impossibilidade de encontrar todos os complementos e adjuntos. A chuva que fez rir aos paulistas, trouxe-me, aqui em Olinda, lembranças do meu professor, aquele que me permitiu ler os romances históricos de Paulo Setúbal, inclusive o Confiteor, aos doze anos. Não sei se entendi o que lia, mas gostei tanto que, anos depois comprei para  minha estante a coleção na mesma edição que manuseei na sala de estudos do rigoroso professor. Creio que aquela leitura pôs-me algo que me faz desconfiar dos historiadores demasiadamente bem sucedidos em suas narrativas semioficiais enquanto pretendem serem críticos ao confirmar o que desejam os poderosos do momento, como nos ensina Marc Ferro.

Nesta semana pós eleitoral ainda podemos sentir que estamos a construir um mundo novo e, por isso temos que lutar contra os mais diversos saudosismos, revanchismos ou desejos por épocas que jamais voltarão. As épocas jamais retornam, não movem engenhos. Esses apegos aos sonhos passados julgando que eles podem renascer, como diz poema famoso que cantei na prisão (… renascerá em outros corações), é querer aprisionar o futuro e expressa o desejo de impor aos que virão as nossas lutas. Mas eles terão outras lutas e outras respostas aos seus problemas.

E eu, como todos que observam a sua vida, vejo como nós passamos e dizemos que ela passa. Muitos foram os anos que, nas manhãs, escutei que “é melhor perder um minuto na vida que a vida em um minuto” na mesma voz que dizia “Pernambuco, você é meu”. Neste meu viver tive a felicidade de conhecer pessoalmente a Aldemar Paiva, indo ao seu programa matinal que acordava a cidade ali, como ele dizia “no coração da cidade”. Fui porque meu irmão mais velho, o Doutor, fugiu de casa após receber o resultado negativo nos estudos, mais uma vez reprovado; então ele sumiu, retornando à casa depois de anunciado, pela voz de Aldemar Paiva, a angústia de papai. Carrego essa alegria de ter conhecido Aldemar e guardo a maneira de como interpretava um poema sobre As Mãos. No noticiário televisivo apareceu trecho de uma entrevista em que dizia que era “gordo e feliz”. Tinha que ser feliz quem animou por mais de duas décadas as manhãs pernambucanas. “quem tem saudade nunca está sozinho….”

Biu Vicente