Arquivos

Nota do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco pela democracia

Nota do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco pela democracia.

18/10/2018 10:33 Departamento de História
Reunidos no dia 17 de outubro de 2018, os professores do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, após uma análise da conjuntura política do país às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais do corrente ano, vem manifestar preocupação quanto aos destinos da democracia no país, e quanto à manutenção dos direitos fundamentais das pessoas inscritos no artigo 5 da Constituição Brasileira de 1988.

Ouve-se neste momento político de eleições que definem os destinos do país, narrativas e proposições de incitação à violência, ao ódio e à discriminação racial e de gênero, de caráter ao mesmo tempo homofóbico, misógino e racista e que anunciam o fim da liberdade de expressão.

Defende-se a tortura, a licença de matar, as armas na mão. É apresentado como aceitável expulsar opositores políticos do solo brasileiro pela ameaça de fuzilamento. A palavra de quem prega fuzilamento de adversários políticos, extermínio de criminosos e cidadania desigual é uma ameaça à democracia e configura-se como invocação de um autoritarismo, ou pior, um fascismo.

Os ‘frutos’ de tais discursos já evidenciam que a violência desmedida descortina-se de norte a sul do país: pichações com suásticas em banheiros de locais públicos, tais como no Centro de Cultura e Artes desta Universidade, assassinatos de lideranças comunitárias, como a do mestre de capoeira ocorrido recentemente na cidade de Salvador por motivos torpes de carácter político partidário, dentre outros. Os noticiários nos diversos meios de comunicação dão conta que ‘o pior do passado pode estar por vir’

Diante do acima exposto, os professores do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco, vem por meio deste repudiar os autores e seguidores dos que propagam este projeto de sociedade de caráter nazifascista e antidemocrático.

PELA DEMOCRACIA! PELA EQUIDADE! CONTRA O FASCISMO!

Fé e políticos salvadores

Dois dias após os festejos em honra da Padroeira do Brasil, com multidões caminhando até o seu santuário em Aparecida, louvando e agradecendo todas as graças com as quais ela protege e mantém o Brasil funcionando de maneira eficaz e bonita, na forma que nós deixamos. Nos dois dias seguintes, devotos da Mãe de Jesus seguem, em procissão, em homenagem à Mãe de Jesus várias ruas e rios são o palco da exposição da fé no Belém do Pará, agora não a nomeando Aparecida, mas como Nazaré, a lembrar a vila onde teria nascido e conhecido a José, esse sempre esquecido auxiliar dos mistérios que rondam a Mãe de Jesus. Tudo isso acompanhado na televisão, com os olhos dos cinegrafistas. Quantas pessoas? Dois milhões? Essas festas provocaram uma admiração a uma senhora que se diz católica, embora não costume frequentar a igreja, exceto quando é festa de Maria do Carmo, a Maria dos Carmelitas. Dizia ela: “ a gente só vê gente pobre seguindo e fazendo as promessas.” Apenas disse: pois é.

Nas semanas que se seguem será completado o processo eleitoral e os brasileiros definirão quem os vai governar nos próximos quatro anos, quem tomará decisões que definirão o caminho da nação na primeira metade do século XXI. Os candidatos não são de confiança, e dividem a preferência do eleitorado. Acusam-se mutuamente de fascista e comunista. Um deles proclama que Deus está acima de tudo e outro, embora seja de tradição Ortodoxa, foi flagrado em templo católico comungando, com o apoio do vigário, mas sob discordância da comunidade. Era um dia de homenagem à Mãe de Jesus. Mas, como dizem os de fé, ela é Mãe de todos, inclusive daqueles que lhes negam a maternidade divina. Entretanto, será que essa questão auxilia a superar o dilema posto à sociedade brasileira?

No pleito de 2014, a candidata e o líder do Partido dos Trabalhadores afirmaram que fariam o diabo para não perder a eleição. Agora, como no século XVII e Henrique de Navarra, o candidato parece dizer: Brasília vale uma missa. Quando Henrique de Navarra disse tal frase já havia ocorrido a Noite de São Bartolomeu. Tomara que não venha ocorrer a tragédia com essa aproximação desarvergonhada dos políticos na direção das Igrejas. Já pensou se esquenta esse debate “fulano está com o apoio dessa igreja x beltrano está com essa outra igreja”. E lá vamos nós, de novo à luta de classes que foi renomeada no Brasil sob o “nós contra eles”.

Povo religioso, até os ateus vão à missa e pedem que rezem pelos seus doentes, o brasileiro não deixa de fazer suas promessas aos santos preferidos, mas cultiva um messianismo em suas práticas políticas, sempre à espera de um “salvador” da pátria, uma permanente dependência de um rei, um enviado divino. Definitivamente o brasileiro não parece um povo Moderno, não parece ter completado o Processo Civilizador iniciado no século XVI; acomodou-se na epopeia lusídica, tornando-se o Povo Novo, na definição de Darcy Ribeiro, sempre a fazer Atualizações Históricas e, sempre as faz de maneira incompleta, pois lhe falta um dos substratos básicos da modernidade, a racionalidade de ações, do trabalho sistemático e permanente. O povo brasileiro sempre faz uma pausa, seus políticos não apostam na continuidade de projetos e, cada um apresenta-se como o salvador momentoso. Sem planejamento e continuidade administrativa, o povo será sempre presa das mentes que projetam seu futuro e conseguem fazer o povo aceita-lo como seu.

Na eleição de 28 de outubro, dois projetos redentores estão em jogo, dois salvadores da pátria e da democracia (algo que não tem origem nas navegações do século XV) irão, mais uma vez brincar com a fé do povo que vive sob os braços de Redentor, e tem, em suas mais antigas cidades, o Salvador do Mundo como padroeiro.

Amigos?

Imagine como é duro verificar que pessoas próximas estão tao distantes e que buscavam um meio de lhe deixar como se fossem heróis quando foram chupadores de sangue, idéias e criação. Pobres almas acumuladoras!

Professora Zefinha, Presidente do Conselho de Moradores de Nova Descoberta, minha irmã

Que coisa que é a vida da gente, vida que a gente vive na direção da morte que é a renovação da matéria e ponto de reflexão sobre a vida. Hoje, no meio da tarde meu sobrinho telefonou para me informar que sua mãe, minha irmão mais velha, Zefinha, acabara de falecer. Foi decorrência de um problema renal, mas, de verdade, foi decorrência da vida. A morte é sempre uma decorrência da vida.

Agora, algumas horas são passadas e, depois de explicar para meu filho Isaac, de seis anos de vida, que sua tia tinha ido encontrar a sua Vó Maria, que ele lembra pelos retratos, fotografias de momento em que ele repousa no seu colo, ele disse, sério como um Buda Iluminado: tudo mundo morre. Mas tudo vive.

Pois bem, Zefinha e eu tivemos bons momentos juntos, algumas discussões, mas quase sempre fomos cúmplices. Ela sempre foi muito bonita, e sabia disso e, quando vivia a juventude, sempre deixou isso muito claro, apesar de recato que a educação severa de Seu João e Dona Maria exigia. Pois bem, Zefinha, quando casou com Sebastião – Tão – eu estava eu nos Estados Unidos, mas participei ativamente da cerimônia do seu casamento, pois que me mandaram um fita cassete (os mais jovens nem saberão o que é isso) com toda a cerimônia. Amas acompanhei Zefinha nos momentos em que se preparava para ir à maternidade de sua primeira filha, Luciana – tão bonita quanto ela. Depois vieram Alexandre, Catarina e Eduardo. Mas Eduardo ficou pouco tempo entre nós. Tão dizia que ele veio para alegrar os primeiros anos da velhice de papai.

Zefinha e eu tivemos uma aventura muito próxima, mas da qual nunca falamos um com o outro sobre essa experiência ocorrida entre os meses de agosto e outubro de 1973. Naquele final de agosto fui sequestrado pela forças do porão da ditadura. Sei que deve ter sido muito difícil para todos os que viviam na casa 1420 da Rua Nova Descoberta. Hoje sei que falamos pouco sobre essa experiência. Mas deve ter sido terrível aquela manhã de setembro quando Zefinha saindo para cumprir a sua tarefa de professora, homens da ditadura a sequestraram, em frente da nossa casa, cerca de sete horas da manhã. Ela estava com Luciana, mas a colocaram em carro, enquanto sua filha chorava e seus pais corriam para proteger a neta. Agora eles tinham dois filhos tomados pelos gorilas. Zefinha e eu, bem como Lia – minha outra irmã, sempre estivemos envolvidos com o Conselho de Moradores de Nova Descoberta – Zefinha foi presidente daquele que foi o primeiro Conselho de Moradores criado pela Operação Esperança, resultante da ação de Dom Hélder Câmara para recuperar o Recife que foi atingindo pelas águas da chuva e da cheia do Capibaribe em 1965. Algo dessa história será contada nas cartas de Dom Hélder, embora eu tenha visto que os nomes de minhas irmãs não foram bem decifrados pelos editores (chamei atenção para o fato, mas nós somos de Nova Descoberta, os editores não). Na prisão eu ouvi o murmúrio que haviam pegado uma mulher grávida, mas como foi à luz do dia e com os fregueses da mercearia de papai a tudo assistiram, era preciso ter cuidado. Assim, no murmúrio das celas, eu soube que Juaréz, que tinha recebido um colchão de palha para dormir, pois havia quebrado umas costelas dele no serviço da tortura, foi obrigado a ceder o conforto para a nova prisioneira. Zefinha estava grávida de quatro meses. Ficou dois ou três dias no DOI-CODI e depois foi liberada. Parece que queriam confirmar algo sobre mim, não tinham nada contra ela, mas talvez quisessem me pressionar, sei lá o que se passa na cabeça dos assassinos. Mas sobre essa experiência, o que sei é o que me contaram, Zefinha jamais tocou no assunto e eu sempre respeitei o seu desejo de não falar sobre isso. Nunca os gabamos ou lamentamos o que sofremos por nossas vidas dedicadas a abrir espaços para vidas mais sofredoras que as nossas. Zefinha foi uma dessas mulheres que, na simplicidade de seu viver, contribuiu enormemente para vencermos a ditadura que caiu sobre nosso país. Melhor dizer que não caiu, mas que foi construída pelo egoísmo que provoca dor, sofrimento e morte. Em plena ditadura, fizemos eleições para escolher a diretoria do Conselho de Moradores, e Zefinha era quem animava outras jovens mulheres a participar da organização social. Professora querida por seus alunos, recebia a confiança dos pais daqueles meninos e meninas que hoje são homens e mulheres. Tínhamos medo, mas o medo não nos teve.

Hoje, quando Alexandre Demiam me informou da morte de sua mãe, veio a memória de ele foi sequestrado no ventre se sua mãe, e muitas mulheres rezaram e fizeram promessa para que nada acontecesse a Zefinha nem ao seu filho e prometeram que ele se chamaria Damião, e por isso seu nome é Demian, dito por mim. E eis que Zefinha viajou no dia de São Damião, o seu protetor e protetor de seu filho, quando estavam na masmorra dos tiranos da minha pátria. Quarenta e cinco anos são passados desses momentos de tensão e de amor que é maior que se possa imaginar, e escrevo para que seus filhos Luciana, Demiam e Catarina e seus netos sintam crescer sempre o orgulho de terem vindo de cepa tão grandiosa e tão humilde, tão simples e dedicada à sua família e ao seu povo. Josefa Maria da Silva, Professora Zefinha, Finha, todos sabemos que em você, como em sua mãe, os poderosos foram depostos e, em vocês, os humildes são sempre louvados.

Em torno do CIEP Mestre Marçal

Esta semana mais um professor foi agredido, melhor dizendo, a agressão a mais um professor chegou aos meios de comunicação, mais especificamente à televisão, o meio de mais fácil acesso. Todos os dias professores são agredidos neste país, carente de muitas reformas, mas que, a cada mudança de ministro, secretário ou diretor de educação, faz uma minirreforma educacional que parece fazer parte daquilo que Darcy Ribeiro chamava de projeto de deseducação do Brasil. No caso do professor Tiago, que exerce a sua profissão em um Centro Integrado de Educação Pública Mestre Marçal no Rio de Janeiro, o que ocorreu e chegou à televisão através de um vídeo feito por um colega dos agressores, foi uma agressão física, pois como ele informou, tem recebido, continuadamente, agressões verbais e morais, salientando que a direção do CIEP sabia do que ocorria e manteve alheia aos acontecimentos. Pelo que disse o professor Tiago, ele não era o único a ser agredido. Todos silenciaram por temor, por medo. Agentes do Estado estão amedrontados, trabalham atemorizados em prédio público, pois o Estado não garante a segurança de seus agentes, dos agentes que levam a saúde, a educação, a civilidade e a cultura nacional e universal àquele ambiente. Medo de que? O Estado está com medo dos donos das favelas, dos morros, das ruas, dos serviços que o Estado deveria cuidar. Os CIEPs foi uma criação do governo de Leonel Brizola que, ao cria-lo, garantiu que a polícia – parte do Estado – não subiria mais o morro. Agora não sobe mais, nem com a ajuda do Exército Nacional, e por isso, o Professor Tiago e centenas de outros que escolheram, ou foram escolhidos pelo Magistério, são agredidos e, só o soubemos, porque um dos seus alunos teria rompido a lei do silêncio imposta aos abandonados pelo Estado. Não fosse o vídeo posta em uma rede social, talvez essa seria mais uma agressão física sofrida por um professor – agente desarmado do Estado, assim como os médicos, enfermeiros, agentes de saúde – jamais seria de conhecimento público.

Estamos na primavera, às vésperas de uma eleição geral, na qual os candidatos pouco debatem sobre o que farão, e seus seguidores mais se agridem que discutem. Falta de prática democrática, próprio de uma população que foi ensinada a só realizar qualquer tarefa se houver a possibilidade de punição. Mentalidade de escravo, de gente que se recusa a assumir o papel de protagonista, porque tem medo: medo de não ser entendido, medo de ser entendido; medo de ser perseguido, medo de não ser perseguido; medo de procurar o futuro, medo que o futuro chegue; medo de conhecer o seu passado, medo que saibam do seu passado; medo de fazer alguma coisa, medo de fazer coisa nenhuma; medo de pensar, medo de ser chamado de bobo; medo de ser chamado de honesto, medo de ser chamado brasileiro, medo de ser chamado comunista, medo de ser chamado fascista, medo de viver pois vive com medo de morrer. Medo porque não sabe e o medo de vir a saber. E o medo faz com que se perca a noção de civilidade, pois o medo faz parte do humano para sua proteção, mas ficar sob o domínio do medo animaliza, produz apenas reações do límbico.
É a ausência da prática democrática, portanto responsável pela vida social, que impele o estudante brasileiro, especialmente os das camadas sociais menos senhoras de seus desejos, só interessar-se pela leitura indicada pelo professor se houver a perspectiva de prova, de reprovação. Acostumado à vara pela desobediência e ao regalo pela obediência, poucos superam essa armadilha e buscam seu próprio caminho. Aprenderam a “estudar para a prova” e, mais lamentável, aprenderam que se alguém lhes disser que não estudaram o suficiente, poderão recorrer à sedução ou à sedição, objetivando criar o medo nos seus professores. Fazem isso pois contam com o silêncio dos diretores, reitores, vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidentes e outras autoridades, pois como alçaram tais voos em sociedade que vive do medo e da bajulação dos feitores e seus mentores?

Em poucos dias teremos o que pode ser o primeiro turno das eleições gerais; até chegarmos à data do segundo turno haverá o dia que, talvez envergonhados, haverá comemoração do dia dos Professores. Uma fugaz homenagem a quem é constantemente maltratado nessa sociedade que se recusa respeitar-se. Será que se houvesse um real respeito aos professores haveria tanto desrespeito às mulheres, aos homossexuais, aos índios? Será que o respeito aos professores e sua função social não traria uma diminuição dos índices de violência, criminalidade, agressão no trânsito? Se olharmos os povos que escolheram respeitar os professores, voltaríamos – ou passaríamos, a ter orgulho de nós mesmos.

A Pátria, a Nação em construção

A Semana da Pátria, período que deveria ser dedicado a reflexão sobre a nação, este ano traz novas razões para debruçar-me sobre ela. Nas nuvens da memória, lembro que havia uma pequena poesia no livro Infância Brasileira, que eu usei ainda nas primeiras séries; não lembro dos versos, mas do sentimento que eles comunicavam, que eram de louvor ao ato ocorrido no distante riacho Ipiranga e ao autor do gesto. Creio que o tive decorado até quando alcancei o Primeiro Ano Ginasial, hoje a famosa Quinta Série. Esse sentimento romântico vem até agora, mesmo depois de todos os encaminhamentos dados pela razão, pelos estudo históricos que tenho realizado, acompanhado por mestres e alunos. E tendo aprendido que o príncipe não era tão perfeito e bonito moralmente, não diminuiu o meu sentimento por aquele gesto simples, mas que foi tornado brilhante e permanente na tela de Pedro Américo. Hoje sei que havia uma mulher, dona Leopoldina que, desde o segundo dia de setembro de 1822, havia decidido a superação dos ligamentos a Portugal e tomado a decisão de que o Brasil passaria a ser dono de seu presente e futuro. Aprendi que na construção do Brasil, o príncipe que assumiu a decisão de Dona Leopoldina, cometeu alguns senões aqui em Pernambuco, não reconhecendo que havia se excedido em dissolver a Assembleia Constituinte. E, entretanto a nação foi sendo juntada, ajustada, com revoltas, traições, mortes e acordos. Nem sempre, talvez quase nunca, esses acordos levaram em consideração todos os habitantes do Brasil. A escravidão, como nos ensinou Joaquim Nabuco, foi prejudicial para os senhores de escravos e para os escravos. Aos primeiros ensinou a não ouvir além de suas vozes e, aos segundos criou impedimentos às palavras, aos gestos, aos movimentos. E, quando teve início a construção da República, esses maus hábitos permaneceram e mantiveram as distâncias entre os brasileiros, o que levou a maioria entender que o Brasil não é deles.

Na Semana da Pátria deste ano de 2018, são muitos os acontecimentos que me auxiliam a pensar no que fizemos, estamos fazendo e iremos fazer com a nossa nação. A semana começou com o incêndio do Museu Nacional, local da guarda de substancial parte material de nossa história nacional, mas também de importante volume de informações sobre a trajetória da humanidade, como demonstravam as múmias egípcias compradas pelo príncipe que confirmou o decreto de Dona Leopoldina, e outros artefatos que estavam guardados no palácio que foi construído por um comerciante de escravos (parte dolorosa de nossa história que deve ser aceita e não negada, mas aceita para nos fazer livres)e que veio a ser moradia dos Imperadores, mas que, após o saque ocorrido nos primeiros dias da República, foi tornado Museu. O incêndio do Museu Nacional tornou público, mais uma vez, o descaso com o nosso passado, com a nossa história. O mais triste é que estava sob a guarda da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sabemos o quanto os historiadores, antropólogos, biólogos, físicos, e tantos outros estudiosos amavam e amam esse local, mas vimos que, quando alguns professores tornam-se, por oferecimento ou por escolha, burocratas responsáveis por esses equipamentos culturais, ficam insensíveis e não cuidam devidamente do que lhes foi confiado pela Nação, nem acham que devem explicações aos demais brasileiros. Como se não interessasse aos brasileiros o que ocorre com o seu patrimônio, ou, porque esses administradores não sentem que ali está a vida de sua nação. Talvez não se sintam parte dessa nação, talvez tenham outras fidelidades nacionais ou ideológicas. Embora a ação desses péssimos gerentes tenha afetado negativamente nossa Nação e Pátria, podemos aproveitar a oportunidade para ter mais atenção na transmissão dos valores cívicos.

A Semana da Pátria deste ano de 2018, assistiu a tentativa de assassinato de um candidato à presidente da República, em uma rua da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais. Esse acontecimento mostra o quanto nossa sociedade está sendo movida por sentimentos pouco sociáveis, de pouco apreço às leis e aos costumes sancionados, a incerteza da aplicação das leis e a quase certeza da impunidade. Alguns até chegam a solicitar intervenção de instituições externas para garantir direitos individuais, sem considerar que o portador de direitos é, também portador de deveres para com a nação, a pátria e aos seus compatriotas.

Uma nação é construída a cada dia, pois deve ser diária a aceitação de ser parte de uma nação, de um país. Quando esse país aceita a democracia representativa para sua organização e governo, todos que dele fazem parte escolhem quem ficará à frente da caminhada por algum tempo. É para isso que são realizadas periodicamente as eleições. Mas um país é formado por pessoas que pensam de modo semelhante, mas não por igual. Por isso é que são criados partidos que agregam pessoas que pensam de maneira semelhante para apresentar sua proposta à sociedade. É por isso que há tantos partidos, embora no nosso caso parece estar havendo um excedente que pode ser percebido pela ausência de projetos na maior parte desses partidos que, parece terem surgidos com o objetivo de utilizar o espaço democrático para seu enriquecimento pessoal. Alguns não conseguem esconder esse defeito que é da sociedade. Esta Semana da Pátria que, ao lado das cerimônias oficiais, temos que lembrar os que têm sido permanentemente excluídos das conquistas sociais e culturais. Este ano, mais que em outros, devemos nos perguntar quem escolheremos para orientar os passos da nação nos próximos anos, mas devemos levar em consideração que esses quatro anos serão novo início da nossa construção, mas desejamos que haja continuidade e não apenas ruptura.