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Fernandão e Edwaldo Gomes – amigos

Nesta semana, em um dia, a vida mostrou-se em sua face mais esperada e mais surpreendente para mim: a morte. Ela já apresentou-sê-me de muitas maneiras, desde que alcancei o que chamam – chamavam – de Idade da Razão. Um pouco antes veio a morte de tia Djanira, mas logo depois veio a morte de Vó Alexandrina. Veio um tempo de descanso dessas visitas, embora tenha ficado na memória a ambientação da morte de Pio XI e, com mais clareza as mortes de John Kennedy e João XXIII. Em uma visita inesperada, levou um sobrinho, Eduardo, quando ainda não fizera cinco anos de vida. Fui aprendendo que a morte vem no seu tempo, não no nosso desejo. Depois o luto pessoal veio na morte de meu pai. Depois ela apareceu buscando minha primeira esposa, Tereza, de meu amigo Sebastião Tavares – Tão, meu irmão José e minha mãe Maria.

Mas esta semana, veio em dose dupla. Duas pessoas que participaram de minha vida e que permanecem sempre que reflito sobre os passos que tenho dado, desde os 10 anos de idade. Foi nessa idade que conheci o padre Edwaldo Gomes, no dia em que pisei no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, na Várzea. Meus pais, a meu pedido, me entregaram a ele, que então era vice-reitor daquela casa de formação. Desde então, outra pessoa além de meu pai chamava-me de Biuzinho. Meu amigo Eutrópio Édipo ainda me chama dessa maneira. Nunca crescemos para certas pessoas.

Vivi três anos no Seminário da Várzea e tive Edwaldo Gomes como meu professor de língua Portuguesa, muito preocupado com o enriquecimento de nosso vocabulário e o uso correto das flexões verbais. Em várias ocasiões fui chamado à sua sala para uma reprimenda, pois ele cuidava da disciplina geral dos alunos. No início de 1964 não retornei ao Seminário e veio a Redentora, como a chamava Stanislaw Ponte Preta.

Pouco antes de completar dezenove anos principiei a exercer profissionalmente o magistério. Então conheci Fernandão, professor de língua portuguesa em cursinhos preparatórios para o vestibular. Sempre o chamei de Fernandão pois ele era enorme e eu sempre fui pequeno. Eram tempos difíceis, e terminei sequestrado com outro amigo, José Nivaldo Junior, também professor de cursinho, à época. Fernandão seguiu os estudos, andou no mundo físico e amava com profundidade os escritores que amaram profundamente os homens e fizeram deles a fonte de suas vidas e escrita. Logo depois que os sequestradores me liberaram reencontrei padre Edwaldo na celebração Eucarística no Morro da Conceição. Disse-me que tinha orgulho de ter sido meu professor, no momento da Eucaristia. Eu disse que jamais o esqueci e sempre que nos encontrávamos vivíamos essas carícias da amizade. Padre Edwaldo foi se tornando referência no Recife desde que assumiu como vigário a Paróquia de Casa Forte, seja por sua postura diante o estado autoritário, seja por seu posicionamento respeitoso, coerente, em relação ao arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara. ma das últimas vezes que estive com ele foi no stúdio de uma emissora de Rádio para conversar sobre o papa Francisco. Depois foi em uma missa lembrando Dom Hélder.

Enquanto isso Fernandão que conheceu o padre Daniel Lima bem mais que eu, brilhava com simplicidade nas aulas de literatura, formando gerações. Após 1996 voltamos a trabalhar na mesma instituição, agora UFPE. Trabalhávamos em prédios vizinhos, mas quase não nos víamos. Os corredores foram os locais de nossos encontros rápidos. Mais duradouro foi a noite em que, Flávio Brayner, ele e eu, quase varamos a noite em um bar/restaurante próximo à Praça do Carmo, em um carnaval com piano, canções e bolerões.

Acompanhei Fernando Mota em seus artigos no facebook. Conversávamos e chegamos a marcar almoço em casa de uma amiga comum, Sylvana Brandão. Disse que desejava ouvir mais sobre o sequestro de 1973, queria conversar sobre os temas atuais que eram de nossa preocupação comum. Entretanto ele não foi. Mas a conversa continuou, especialmente quando descobrimos nossa amizade com Montaigne que, disse, era seu companheiro de travesseiro. Em uma de suas últimas conversas no Facebook disse que havia encontrado a morte e sentiu-se calmo. Poucos dias depois, seguiu em sua companhia.

Fernandão e Edwaldo Gomes foram colhidos na mesma safra. Dois homens importantes em minha formação, no caráter e na ilustração.

Amizades em tempos de superfície

Em tempos mais juvenis, tempo de aprendizados quase permanentes, vários poemas ficaram em minha mente e deles me aproximo, vez em quando, socorrendo-me nas adversidades de agora. Uma delas, que sempre provoca uma cachoeira de emoções quando a canto, diz assim: “se uma boa amizade você tem, louve a Deus, pois amizade é um bem… (…) uma boa amizade é mais forte que a morte (…) ser amigo é fazer ao amigo todo o bem, como é bom saber amar alguém!”.
Tenho bons amigos daquele período. Alguns já morreram, mas converso com eles sempre; outros os vejo algumas vezes no ano; outros não os vejo faz duas dezenas de anos ou mais, lembro dos seus abraços e conselhos. Tem aqueles que voltamos a conversar usando as redes sociais. Nos lemos sempre, enviamos mensagens, escrevemos pequenas frases que mostram a alegria do reencontro, ainda que virtual.

Talvez existam diversos níveis de amizade, mas penso que eles possuem uma base comum que é a afeição e a confiança mútua, embora ainda se possa considerar amigo um daqueles que lesou a amizade. Laços de amizade são muito fortes. Ficamos sendo amigos enquanto cultivarmos os bons momentos construídos juntos e, simultaneamente, lamentamos não poder ficar próximos mais uma vez. Como cachorros sem cura, ficamos lambendo o passado. O que é muito triste, mas confortante ao lembrar dos risos e lágrimas que tivemos juntos.

As redes sociais nos permitiram ampliar nossos laços de amizade. Isso implicou em uma modificação do sentido da palavra AMIZADE e suas derivadas. Antes, só podíamos fazer uma amizade após vários contatos, experiências. Dizia-se que era necessário comer muito sal em sua companhia. O conhecimento viria depois de um quilo. Hoje mudou um pouco, talvez pela quantidade de sal nas batatinhas que mastigamos enquanto teclamos.

Ao entrarmos na rede social virtual buscamos pessoas com as quais tivemos alguma convivência e, logo a rede cresce com pessoas que ouviram falar de nós, pessoas que visitamos em sua linha de tempo, ou que nos visitaram. Nos apresentamos já solicitando e oferecendo amizade. Amigo fica aquele que se reconhece um pouquinho conosco. Não sabemos bem onde mora, pois a geografia dessas amizades tem outra física. Nossos desconhecidos amigos podem morar na Espanha ou no Vietnan, ou mesmo na rua, prédio ou casa onde moramos. Não faz diferença pois, agora a distância não existe para os amigos. Na verdade a distância nunca fez diferença para a criação e manutenção da amizade. Até o final do século XX havia a ansiedade por carteiros e cartas, nelas vinham os amigos. Eram poucos, mas vinham em letras muitas e muitas páginas. E as relíamos duas, três vezes e então respondíamos, dedicando tempo para refletir e escrever outras tantas páginas e letras. Caminhar até a agência do correio era como ir à casa de alguém que nos esperava. Hoje, com mais de mil ‘amigos’ já não interessam as cartas. Algumas dessas pequenas mensagens de hoje podem trazer desaforos porque o amigo não pensa do mesmo modo politicamente. E vem o destratamento: chama o amigo, maneira enviesada, de “coxinha” ou “mortadela”, diz que está desalentado com ele e o chama de traidor. Como a rede é aberta como uma praça, alguns desses nem são amigos, eles são conhecidos de velhas épocas, não se alistaram no exército de amigos, não convidou nem foi convidado para ser parte do seu grupo de amizade, mas, espreita, e quando se escreve algo que não lhe agrada, aparece cobrando a amizade antiga, aquela que ele guardou fossificada na memória.

Mas essa nova geografia também nos torna quase íntimo de pessoas que jamais vimos. As conhecemos através de outros que não conhecíamos. Descobrimos afinidades inimagináveis que nos foram apresentadas indiretamente por amigos mais antigos. Gente que lembra aquele filme: nunca vi sempre te amei. A rede é um universo tão interessante que, vez por outra, esquecemos os amigos com os quais tratamos mais diretamente e amiúde no mundo físico. Estes parecem ficar mais distantes a cada dia. Além disso, não posso descartar a conversa com um simples toque em uma tecla, nem sofrer seu olhar de desencanto pelo encerramento precoce de uma conversa.
Na verdade, tenho amigos físicos que são simultaneamente amigos virtuais, aos poucos nossas amizades esfriam pois não mais conseguimos completar nenhuma conversa, uma vez que nos desacostumamos a ler cartas, viciamos em notas, pois os bilhetes já nos cansam e tomam tempo das outras amizades. Vamos ficando superficiais em nossas amizades e elas já não deixam saudades quando terminam.

Uma vez, um desses amigos da época das cartas, escreveu dizendo que não estava explicando uma decisão sua pois os inimigos jamais aceitariam qualquer explicação, mas os amigos prescindem de explicação. A amizade, como o amor explicita-se em atos, as palavras são floreios mais insuficientes que o silêncio. Talvez seja por isso que muitos se sintam obrigados a explicar por que estão deletando alguns ‘amigos’ de suas relações, em postagens que o amigo que foi deletado jamais não lerá. Mas não era uma amizade, era um conhecido, um encontrão na plataforma da dessa imensa estação de encontros.

Uma tentativa de compreensão

Não sei se estou pensando bem, mas vou tentar dizer o que me vem à cabeça após ouvir o lamento de que o governo cortou verba para a Polícia Federal. Na verdade, por receio de um retorno dos militares,os governos desde 1988 diminuíram sensivelmente as verbas para as forças de segurança, externa e interna. Não temos aviação militar séria para garantir a soberania do espaço aéreo, nem navios para proteger as fronteiras oceânicas ou fluviais, como também não temos exército para garantir as fronteiras secas. Prova isso a crescente transformação do Brasil como rota de fornecimento internacional de drogas. Vez por outra toneladas de drogas são encontradas em helicópteros ou outro suporte de transporte.
As forças de segurança interna também estão defasadas,não há policiais – civis ou militares – para garantir a tranquilidade de um passeio familiar. Há áreas em cidades que os serviços públicos estão proibidos aos cidadãos, pois os criminosos dominam geograficamente o pedaço. Mesmo os espaços políticos foram tomados pela bandidagem que pode financiar estudos de leis a alguns que hoje atuam nas portas de cadeia. Nossos líderes, aqueles que elegemos para cuidar da nação enquanto nós produzimos a riqueza, dedicaram-se mais em fortalecer suas casas legislativas, criando privilégios para si e para o pode judiciário. Talvez gastemos mais com essas instituições do que com o cuidado com a saúde, a educação e a segurança. Esse egoísmo corporativo impede a formação de um sentimento de nação.
Nas universidades, assistimos pedagogos sempre dispostos a inovar (copiar as novidades que saem dos crânios de outras nações) não permitindo que nenhuma experiência complete seu círculo para podermos fazer uma avaliação coerente. Nosso ensino tem caído de qualidade em relação aos outros países, ainda que tenha melhorado quando se compara como passado, mas esse é um crescimento vegetativo.
Sim, não temos policiais em número suficiente para atender a demanda da segurança pública; não temos escolas e professores suficientes em número e boa qualidade para darmos os alto necessário para o futuro; não temos hospitais em número para atender o povo, além de que continuamos a promover a concentração deles em alguma localidades, impedindo o acesso aos atendimento, além de que formamos médicos sem consciência ética e social. O sistema prisional transformou-se em uma Escola Superior do Crime porque não foram investidos em programas de reeducação, como prevê a filosofia do Código de Direito Penal.
Entretanto temos o Parlamento, o judiciário e o ministério público mais bem pagos do mundo, cheios de privilégios. e a cada anos eles inventam mais um. Tivéssemos menos privilégios (aliás não deveria haver nenhum) o que se gasta com esse penduricalho poderia ser aplicado onde realmente a nação precisa. Mas Preferimos criar bolsas para quem lutou armado contra a ditadura, bolsa para quem não tem salário decente, bolsa para quem não tem emprego, bolsa para quem não teve escola decente, bolsa para quem está na prisão, etc. etc. etc. E essas bolsas serviram para adormecer o sentimento de desejo de melhoria e verdadeira mudança social. Muitos dos que dizem ter lutado pela democracia foram alçados aos parlamentos pois pareciam que amavam o país e seu povo.
Assistimos o desvelamento dessa mentira com a publicização dos roubos que praticaram desde que chegaram ao poder, eles e seus mentores mais antigos na arte de roubar o povo,oferecendo-lhes migalhas para sedar sua possível revolta. Amam Lula, Dirceu como amaram Ademar de Barros, Agamenon Magalhães, e tantos outros que foram sendo criados nas fazendas de gado, nas plantações de café, nos campos da borracha, na beira dos portos, nas plantações de cana e em tantos outros lugares de onde se formaram para criar a ilusão das superficialidades das aulas de história das escolas de samba e outras maneiras encontradas e apropriadas pelos criminosos para lavar seus crimes.
Agora, quando uma parte mais jovem desse aparato agiu para descortinar tantos crimes, vêm os criminosos, transformando ideias mater de nossa sociedade em jargões para diminuir mais ainda quem garante os serviços básicos (segurança, ensino, serviço médico) enquanto protegem os criminosos que enganaram duplamente o Brasil. Pena que os jovens estejam velhos pois aprenderam explicações sem terem conhecido o caminho da pesquisa para encontrar as causas. As pílulas de conhecimento ofertadas nos cursos preparatórios para concursos agora estão dando os seus resultados. Como diziam antigamente, cabeça vazia é oficina para o diabo, que as enche com o que ele deseja.

O que somos está em torno da fogueira

De maneira geral a vida é uma sucessão de acontecimentos esperados: sol vem após a noite; plantas e animais nascem crescem e, depois de algum tempo morrem e a natureza corre em seu fluxo. Adequar-se a esse processo, dizem alguns, é sabedoria. E a Sabedoria esteve no primeiro momento da criação, diz famoso livro sagrado, para alguns. Vez por outra acontece um inesperado: um tufão, uma enchente, um vulcão que explode, um deslizamento de morro, algum terremoto, um raio; qualquer desses eventos dos elementares da vida e, algumas vidas são tolhidas, animais são pegos de surpresas. Muitas mortes e, algum tempo depois, tudo volta à rotina natural, não há tristezas, alegrias ou lembranças na vida natural. Contudo eis que um animal, em algum momento passou a perguntar-se porque tais coisas acontecem, quais razões levaram o seu companheiro a não mais andar? E porque aquela fruta pode ser comida e propiciar prazer e aqueloutra provoca dor? Assim, do mundo natural floresce a cultura, que é a lembrança da alegria, da dor, do sofrimento, que provoca lágrima, mas lágrimas que nascem de outra dor, a dor alegre de descobrir que aquele que não mais aparecia aparece e faz sorrir. E então tem festa, tem conversa, tem noite de palavras que inventam danças, abraços e o tempo parece parar pois não se percebe seu curso até que o sol atinja as pupilas e seu calor diga, que voltou o tempo da fadiga.

As festas em torno de fogueiras são universais: o fogo, dominado, atrai para si as atenções dos corpos que ficam ao seu redor. Ele provoca as conversas e as lembranças são expostas, informações são trocadas e agradecimentos surgem em relação a algo que ocorreu. O começo do inverno em nosso país, contrapartida do começo do verão noutro espaço do globo, é visto com alegria e temor. As chuvas que sempre caem nesse período molestam as populações que molestaram os rios ao fazerem casas tão próxima das águas que, vez por outra, parecem lembrar o caminho que fazia em outros tempos. No meio do percurso anual, há que se festejar a vida passada, a passada que não foi vivida pelos que agora celebram, e essa vida recentemente passada. Nem sempre as pessoas, hoje, sabem que celebram o passado que não viveram.

Acender uma fogueira, hoje algo incorreto para os que perderam o gosto de festejar, é repetir um gesto que vem dos primeiros momentos da vida social; estar em volta de uma fogueira é celebrar o primeiro domínio sobre o fogo. Esse é um costume vem dos povos que primeiro viveram aqui onde vivemos hoje; assim como é uma lembrança de povos que viviam do outro lado do oceano que faziam grande fogueiras para celebrar as forças reprodutivas da natureza, e celebravam tal festa nas florestas que já não existem na Europa, que tanto as usou para construir navios para encontrar outras terras. Mas antes de se meterem nessa viagem ao desconhecido, as fogueiras passaram a ter outro sentido. Saídos do Oriente em direção ao então “centro” do mundo, depois de vencer e assimilar os deuses que protegiam o Império, os cristãos dirigiram-se para a Europa e conquistaram os seus deuses, assim os europeus (então chamados pelo genérico “bárbaros”)foram lentamente viver em cidades. E as fogueiras que eram acessas nas florestas passaram a ser acessas em vilas e cidades, em frente das casas ou das igrejas. E se até então louvavam a fertilidade, passaram a louvar na longa noite que anuncia o verão, o nascimento daquele que anuncia o nascimento que ocorrerá na longa noite do inverno. Quando os europeus em seus navios chegaram nas terras às quais chamamos de Brasil, mais propriamente na parte que chamamos Nordeste, trouxeram a fogueira de São João, que dominou sobre as fogueiras do Tupi E Tapuia. E os europeus trouxeram a cana que é a base do açúcar, também o coco, o cravo da índia, a canela, que vieram lá do Oriente mais distante; e trouxeram muitos africanos, que chegaram com suas tradições culinárias e com os deuses de suas crenças.

As festas que ocorrem no Nordeste, neste período do ano, carregam todo esse passado que somos. Há quem diga que somos uma grande feijoada, mas o arroz apenas fica perto do feijão, como a laranja que pode acompanhar, da mesma maneira que ocorre com os demais ingredientes que provocam o surgimento dessa maravilha capaz de colocar toda família e amigos em torno da mesa. Entretanto os elementos estão próximos, não se interpenetram, não formam algo de novo. Por outro lado, tomemos o que ocorre nas noite de São João, sempre nesse solstício que integra a festa ao centro de energia que provoca a vida no planeta; A Longa Noite exige fogueiras que louvem a vida, (na tradição luso-cristã-católica, informa o nascimento do menino João; e na tradição vinda das Áfricas, é o grande guerreiro Xangô, mais esquecido está Manitu); Durante o dia, as famílias sentam-se para descascar, limpar, ralar o milho, misturar esse caldo com o açúcar retirado das canas, carregado de suor e vida dos trabalhadores no canavial e nas máquinas; e no caldo que virá a ser canjica ou pamonha,se põe o leite feito do coco, e se põe um pouco de canela e alguns ainda põem o cravo. E como separar depois? Nada está justaposto, o conjunto do trabalho, ao final é uma unidade. E nós, brasileiros somos essa mistura única, resultado de muitas tradições de trabalho, de origens, de cultura, de religiões. E, claro, ainda tem o festejo que põe ao lado da sanfona, seja ela de oito ou cento e vinte baixos, as danças da Mazurca (origem polonesa), do Maxixe (origem africana), do Xaxado(pernambucana), do Xote (origem escocesa) do Baião (nordestina), e também a quadrilha que veio da corte francesa, mas foi recriada nos terreiros para celebrar casamentos impossíveis, forçados, arranjados pelos senhores das terras que nem sempre controlavam os desejos de suas filhas.
Assim, penso, se fez nosso povo, fizemo-nos. A despeito de tudo continuamos a nos fazer.

Mas não nos contam essa história, não contam as nossas histórias, contam como os ricos ficaram mais ricos, como parte dos moradores do Brasil não conseguem ver e sentir o Brasil. Alguns são até capazes de escrever livros sobre o Brasil, mas não conseguem entender porque temos saudades das “quadrilhas matutas” (assim chamadas por terem vindo das matas, da Zona da Mata que existe de norte a sul do Brasil), mesmo se ‘gostamos’ dessas quadrilhas estilizadas, cada vez mais feéricas, mais sapucaianeses, e menos de nossas ancestralidades. Para termos nosso “São João” de volta, temos que nos escutar mais.

O Brasil, o TSE e o processo sem catecismo.

Está ficando difícil a situação da chamada “elite brasileira”. Ele tem-se mantido nos últimos dois séculos graças ao processo de reprodução em duas camadas. Primeiro porque ela se reproduz biologicamente, o que, penso, garante a continuidade familiar de parentesco até o terceiro grau. Mudam-se as posições dos sobrenomes e mantêm-se os patrimônios e as amizades. Noutro plano, ela ajuda a reprodução dos acólitos mais próximos, aqueles que administram suas propriedades, e esses recebem as possibilidades de uma boa educação, e poderão tornar-se políticos e juristas bem sucedidos, compondo a paisagem social necessária para o encantamento (daí que começaram com as universidades e com os cursos de pós-graduação); além disso, mantem com informações culturais-escolar um pouco acima da média da média para alguns que ocupam parte do estrato social e, com esforço, podem ascender ao grupo imediatamente acima. Finalmente a maior parte da população continua a redução biológica necessária para a manutenção do funcionamento das engrenagens mais obscuras, porém necessárias. Assim tem sido e, julgava ela, continuaria dessa maneira, sem a necessidade de mudanças profundas, capazes de agregar mais pessoas nas partes superiores da sociedade ao mesmo tempo em que deveria criar meios para diminuir e melhor o padrão do grupo “menos favorecido”. Mas a história é processual e os grupos dominantes, as “elites” precisam renovar-se. Quando não toma essa iniciativa, as elites podem ser avexadas pelas mudanças e o vexame é sempre vexaminoso.

Desde meados do século passado que a industrialização forçada tem exigido uma adaptação maior, e mais rápida, das elites. A industrialização e a sociedade capitalista (a elite brasileira optou ou foi levada a optar por ela) exige que o maior número de pessoas tenha a possibilidade de participar ativamente da vida e das decisões sociais. Nem mesmo é necessário que participem, mas é necessário que tenham essa possibilidade. Essa situação exige pessoas com maior escolaridade e possibilidade de conversação. Ora, o Brasil aumentou o número de escolas, ampliou as matrículas, mas as escolas não educam para a democracia e para a liberdade. Ampliou-se o número de salas de aulas, mas de escolas sem bibliotecas, sem laboratórios, sem teatros, sem quadras esportivas, etc.. Apenas no início do século XXI é que essas preocupações começaram a firmar-se no ambiente de pedagogos que fazem bons discursos de mudanças, mas sem a eles aderir. Cria-se uma situação de enfermeiros em campo de batalha: reclama de muitos feridos, mas sabem que sem eles suas posições perdem sentido. Mudanças conjunturais na última década do século pareciam indicar que a elite estava planificando o terreno para uma maior inclusão, uma expansão do grupo médio da sociedade. No início do século, uma nova “elite” advinda de fora, outsiders do tradicional fluxo de governantes, com apoio de uma secção da elite cultural e econômica tradicional.

Ocorreu um diálogo entre Olívio Dutra, quando presidente da Petrobrás com Luiz Inácio, presidente da República. Sobre um assunto, que não vem ao caso agora, Dutra teria dito: “mas Lula, isso não faz parte da tradição da Petrobrás”, ao que Lula replicou: “Dutra, pela tradição, você jamais seria presidente da Petrobrás”. Era um novo grupo que tomara parte do poder da elite tradicional e, então passou a integrar, no consumo, parte da população que não tinha condições de consumir: alimentos, roupas, viagens, escolas, teatro, etc.. Contudo as expectativas criadas não eram de todo atendidas e, tanto a antiga elite quanto os novos consumidores, queria mais: os primeiros mais lucros e os segundo mais em qualidade. E as duas elites desentenderam-se.
Vivemos este momento do qual, processualmente, novo pacto social será realizado. Políticos, juristas, grupos empresariais, corporações de trabalhadores de diversos níveis participam desse processo, e o povo, a grande massa não pode simplesmente ser deixada sem consideração: agora ela já aprendeu a ler, escrever, pensar, fazer e contar sua própria história. No acordo social algumas vozes atualmente barulhentas serão caladas, outras serão ouvidas; a conjuntura, apesar de não ter havido uma mudança estrutural da sociedade, exige iniciativas novas, pois não é mais tempo da reprodução biológica do poder das elites.

E o que estamos assistindo nas sessões do Tribunal Superior Eleitoral. O elo está sendo quebrado por desgaste: desgaste do atual presidente da República, que fez carreira política após o fim da ditadura que se manteve na mentalidade de muitos; desgaste do presidente do TSE, expondo publicamente a função de certos tribunais a serviço do poder de então, embora sabendo que está perdendo o futuro ao expor tão brutalmente a função que desempenha de justificador e guardião da ordem que está sendo vencida; desgaste de um grupo politico (não apenas um ou dois partidos) que está observando que sua função de transição da ditadura para uma nova sociedade acabou e, sabendo disso, um dos seus aliados – os irmãos Batista – já fez mudança para outras praças. O que vem depois disso? pergunta aquele que pensa a partir de catecismos, aqueles livrinhos de perguntas e respostas que sacerdotes de todas as religiões , inclusive as laicas, entregam aos seus servidores. Em um processo social o futuro é o futuro; a física social não existe.

E muitos ficarão perplexos com a história que os engoliu.

Europa – Brasil

Conversa rápida com amiga, atualmente em Londres, em treinamento para o doutorado em sua área de estudo e atuação. Não é esta a primeira vez que ela se dirige àquele continente, mas tem sido a mais duradoura, ultrapassando o período de trinta dias. Não estando como turista, tem a oportunidade de apreciar e refletir sobre o comportamento social, se não sobre as grandes instituições, mas sobre aquelas que formam o cotidiano e dão sustentação à vida. Observa como é fácil transportar-se sem medo nas ruas das cidades; percebe que as pessoas não carecem de policiamento para ocupar a cidade e receber dela o que procura. Todos parecem saber o que se espera delas e, efetivamente dão o que é esperado e recebem o que está previsto no contrato de vida social. Claro que não ela não está a viver no completo paraíso, entretanto, apesar das diferenças sociais, o convívio é agradável. Essa sensação de liberdade e de confiança nos demais membros da sociedade tem sido algo marcante para essa minha amiga.

Ao telefone disse-lhe que está ela em uma sociedade que assumiu os valores que construíram, em um processo longo e de constante negociação, exigindo de cada um que diga o que pensa e escute o que o outro diz; essa negociação que faz a democracia ser mais que um instante de votação e transferência de responsabilidade para um deputado. A honestidade que se espera de um parlamentar é a mesma que faz o cidadão comprar o bilhete para a passagem sem que um agente do Estado esteja por perto, qual um “cabo de usina”, verificando a honestidade do cidadão. Esse sentimento de pertença à sociedade foi construído coletivamente, como nos explicou Norbert Elias. E então, digo-lhe que em nossa sociedade o processo não ocorreu de maneira evolutiva, mas é filho de reciclagens permanentes, de atualizações históricas, como nos explicou Darcy Ribeiro (totalmente esquecido em nossos estudos), o que não permite que haja absorção de tais valores e práticas sociais, uma vez que eles foram criados em outras experiências históricas. No Brasil não criamos para nós uma democracia, uma sociedade,na qual os indivíduos não mantêm relações de responsabilidade por seus atos e respeito aos demais membros da sociedade, daí a necessidade da constante vigilância que o membro de nossa sociedade exige sobre ele mesmo pois, desenvolveu a ideia que, se ninguém estiver percebendo, pode-se burlar a lei em seu benefício, pouco importando o prejuízo que isso venha a causar à sociedade. Temos dificuldade de entender a sociedade como sendo nossa e de nossa responsabilidade.

Embora as crises sejam comuns em todas as sociedades, vivemos, no Brasil, uma grande crise política que é decorrente da forma como entendemos a nossa sociedade, decorrente da maneira como formamos a nossa sociedade. E, como somos irresponsáveis – talvez imputáveis, estamos sempre a construir a justificativa dessa irresponsabilidade como um mal de origem, um maléfico determinismo cultural que alimenta e é alimentado por nossa preguiça. Esquecemos, conscientemente, que “determinismo cultural” não existe, mas esse paradigma justifica os arranjos que fazemos, diariamente para não cumprimos as normas que criamos. Sabemos que é nosso desejo viver o ideal de tranquilidade na sociedade, mas não conseguimos, pois vivemos no medo de o outro não me respeite e esse medo parece que me proporciona o direito de a ninguém respeitar, e então nos surpreendemos quando experimentamos que isso é possível. Mas não queremos pagar o preço, o sacrifício para vivermos bem em sociedade.

E saímos cantando “vou lambuzando um selo se colar colou, foi desse jeito que alguém se arrumou, vou …” o que significa que aceitamos o mal como bem,