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70 anos de Auschwitz e as escolhas da humanidade

 

70 anos do fim do pesadelo de Auschwitz , um pesadelo para os que ali viveram até à sua morte e, também pesadelo para os que sobreviveram.  Deste muitos viveram com a culpa de terem sobrevivido, esse sofrimento adicional por ter visto tão sofrimento e dor e, entretanto terem ouvido dos que morreram o pedido para que não deixasse que viesse a ser esquecido o que se vivia naquele local, símbolo do mais baixo índice de moralidade, de negação dos valores que a humanidade vem criando desde que superou o estágio animalesco de sua trajetória. A trajetória humana tem sido de superação da simples sobrevivência animal, estabelecendo normas de convivência, norma que permitiram a geração de religiões, filosofias ciências, tecnologias,  conversações, artes, modas etc.   Auschwitz foi, em nome da defesa de uma adulteração dos valores civilizatórios, o caminho do retorno à e da barbárie que julgávamos ter desaparecido. Os criadores de Auschwitz diziam quere purificar a sociedade, retirando dela aqueles que eles julgavam ser responsáveis pela miséria humana. Mentalidades doentias quiseram impor sua doença como sinal de sanidade e desumanizaram-se ao negar a humanidade de outros. O fim dos campos de concentração nazistas, lamentavelmente não significou o fim do nazismo, nem o desaparecimento dos campos de concentração e extermínio de parte da humanidade. Os que libertaram os sete mil sobreviventes de Auschwitz mantiveram os Gulags e criaram outros; havia campos de concentração em outras nações e, os atuais campos de refugiados de muitas guerras que atualmente estão em andamento no globo, atestam que aprendemos pouco do que aconteceu na Alemanha dominada pela insânia nazista. Quase vemos replicado aquilo que foi vencido. O medo do outro, a defesa de objetos e valores de grupos que se apresentam como representantes de alguma divindade ou seus arautos continuam a tentar destruir valores, enquanto dizem defender a humanidade. As guerras e as defesas da violência e da morte, física ou social de parte da humanidade indicam que aprendemos pouco com a vitória sobre a o projeto fascista do alemães magoados após a guerra de 14.

Conversando com amigo sobre o destino do Brasil, comentei entrevista que o irmão dominicano Frei Beto concedeu à revista Isto é. Nela, o frade que foi assessor de Lula no programa Fome Zero, hoje se diz um ING – indivíduo não governamental, mas lamenta que a presidente Dilma não tenha seguido o caminho de Evo Morales e que espera o retorno de Lula para governar o Brasil de 2018 a 2016. Eu duvidava da realização desse sonho escritor católico defensor da luta armada. Então meu amigo disse que “Lula não perde nem para Jesus Cristo”. Nós rimos e, então eu disse que Jesus Cristo, na política não ganha para ninguém em eleições. Lembrei a ele que Jesus perdeu no plebiscito proposto por Pôncio Pilatos. O povo preferiu Barrabás, aquele que optara pela violência e pela luta armada contra o Império Romano.

Tem gente que diz seguir Jesus, mas, por via das suas dúvidas, prefere votar em Barrabás. Este parece ser o dilema da civilização ocidental, construída sobre os ensinamentos de Jesus, mas com aderência dos seguidores de Barrabás, como se comprova no comportamento de outros religiosos cristãos: São Bernardo e São Domingos. O primeiro, renovador do espírito beneditino e incentivador das Cruzadas, o segundo, fundador da Ordem dos Pregadores (Dominicanos) e  organizador do Tribunal do Santo Ofício. Difícil é ser cristão oferecendo a outra face. Cede-se com facilidade à reação instintiva e, esquecemos os valores da convivência civilizacional. Mas história que tem ficado é a da conversação, do debate, mesmo que a violência e a agressão pareçam vencer momentaneamente.

A barbárie sempre teve seus doutos defensores e religiosos que, desde o Egito Antigo, passando pelas civilizações clássicas, tangenciando mongóis, mings, califas, papas, aitolás, sacerdotes astecas e tantos outros bebedores de sangue humano, e, entretanto, ela sempre é confrontada com os amantes da humanidade que, como dizia  T. Chardin, se eleva sobre o mundo.

 

 

15 de janeiro

Enquanto almoçava hoje, o noticiário lembrou-me que o 15 de janeiro deveria ser mais lembrado por mim e por maoir número de pessoas. Nem sempre nos apercebemos, em nossas vidas, momentos de grave importância para nós e para nossa comunidade. Eventos que hoje são chamados, comumente, de ‘históricos’ não passam de curiosidades, ou talvez mesmo sejam históricos para os pequenos grupos por eles atingidos diretamente. Afinal de contas, a história é também dos pequenos acontecimentos de nossa vida comum. Entretanto, há acontecimentos que são preparados coletivamente, por grupos maiores e atingem milhares de existências, de imediato, e milhões de outras ao longo do tempo que se segue. Por isso, durante a tarde de hoje fiquei pensando sobre o que ocorreu no dia 15 de janeiro de 1985.

Naquela terça feira, estávamos todos – Tereza, Ângelo, Valéria e Tâmisa – na casa dos pais de Tereza – Paulo Ramos e Francis Noronha, em Olinda. Havia uma expectativa para o que estava ocorrendo no Brasil naquele dia, pois o Colégio Eleitoral – Congresso Nacional e mais alguns elementos postos pela ditadura, iria realizar a eleição indireta para a Presidência da República. Havia poucos meses ocorreu a grande decepção da rejeição da Proposta de Emenda Constitucional garantindo o retorno das eleições diretas para o cargo máximo da nação. Embora já houvéssemos ganho a anistia, a transição longa, planejada pelo ditador Geisel e seguida pelo seu sucessor Figueiredo, parecia não querer que o povo participasse da escolha de seus líderes. Durante aquele eleição que derrotou o movimento das Diretas Já, atemorizados, os sequazes da ditadura colocaram o exército na rua, o que parece ter sido a senha para que os deputados derrotassem o movimento do povo na rua. Desde então os fatos sucederam-se, o partido do governo cindiu-se e havia a possibilidade de vitória em um colégio que já havia derrotado as candidaturas de Ulisses Guimarães/Barbosa Lima Sobrinho -1974, Euler Bentes Monteiro/Paulo Bronsard -1978. Naquele ano o Tribunal Eleitoral suspendeu a fidelidade partidária e, embora se temesse o temor dos deputados, havia uma possibilidade de vitória.

Estávamos, Tereza e Eu, ansiosos e esperançosos. As crianças, além dos meus filhos havia Bárbara, Andréa (filhas de Ângela) e  gritavam nas salas aliviados quando os votos eram contra Paulo Maluf, candidato da ditadura; mas felizes com os votos que gritavam Tancredo Neves. O deputado João Cunha, PMDB –SP deu o 344º voto para Tancredo Neves.   Tereza e eu nos abraçamos em lágrimas e nos juntamos ao barulho das crianças e de todo o Brasil. Havíamos ido, “de nariz tapado” ao colégio eleitoral, como dissera Tancredo Neves, mas vencemos os ditadores, apesar de escrupulosos puristas de um partido recém-criado ter-se retirado do plenário para não validar a eleição. A alegria daquele dia foi enorme, mas que foi surpreendida pela doença e morte de Tancredo antes da posse. Assim, no dia 21 de abril do mesmo ano, Tereza, as crianças e eu. Chorávamos em nossa casa, que estão começávamos a construir e onde estou agora, a morte de Tancredo Neves e mantivemos a esperança, mesmo sob a presidência de Sarney, um eterno acólito da ditadura.

Talvez de nada sirvam essas lembranças, mas, eu e os que vivemos conscientemente aquela terça feira, já sabíamos que estávamos vivendo um dia que modificava a o sentir dos brasileiros de então, nós estávamos orgulhosos de que havíamos construído e, no fundo de nossa alma, sabíamos que estávamos comprometendo e nos comprometendo com o futuro e, ao mesmo tempo, sabíamos que não tínhamos certeza do que viria. Mas já são trinta anos que temos realizados eleições diretas, que estamos fortalecendo nossas instituições, que estamos criando um Brasil novo, que começou a muito tempo, não a uma décadas como dizem uns aloprados; um Brasil que vem crescendo a cada ano, vencendo as dificuldades que sempre colocam à sua frente aqueles que, unindo-se a novos súditos enriquecidos com novas modalidades de velhas praticas, pretendem ainda nos manter nas periferias da História, repetindo os atos de vandalismo ao patrimônio republicano que estamos construindo. 15 de janeiro de 1985 foi criação da gente brasileira que forçou as lideranças encontrarem um meio de superar o pedaço da história que alguns iniciaram em 1984.

 

Biu Vicente

FELIZ 2015

Impérios são construídos na força que separa; ainda que pareça suave, o jugo dos impérios provoca a destruição das famílias, o desassossego das pessoas; Os impérios nunca estão tranquilos. As famílias vivem do amor, exceto quando desejam ser impérios e descriminam, nas muitas maneiras de diminuir julgando que assim tornam-se poderosas, mas o seu poder está sob o medo ao provocar o medo. As verdadeiras famílias sobrevivem aos impérios. Desejo que nossas famílias multipliquem-se, espalhem-se pelo mundo gerando novas famílias amorosas e criativas, jamais sucumbam ao desejo de ser um império, jamais percam a alegria de sorrir de si mesmas quando errarem pois o riso é o auxílio necessário para não perder o caminho do amor. Este é o meu desejo de FELIZ ANO NOVO a todos os meus amigos desse espaço onde os conhecemos  e mantemos nossa amizade.

Retrospectiva 2014

Última semana do ano e vem a ansiedade de dizer sobre o que ocorreu e, também de antecipar o que se deseja venha ocorrer. Lembro poema/samba canção de Jair Amorim e Evaldo Gouveia cantado por Moacyr Franco que carregava o seguinte verso: “qualquer um cita exemplos no fim”. É, como dezembro está sempre no fim do ano, começam a aparecer exemplos das diversas opções que foram tomadas, com acertos e erros nos últimos doze meses. Temos mais facilidade de realizar esta tarefa quando se trata de acontecimentos sociais e políticos, pois, embora não tomemos nota diária dos acontecimentos, a imprensa e os demais meios de comunicação social nos auxiliam a elencar o que eles julgam importante e nossas vidas, pela repercussão que tiveram. São as retrospectivas.

Embora assemelhem-se aos exames de consciência que os católicos são ensinados a fazer antes de dirigem-se aos confessionários em busca do perdão, as retrospectivas não são pedidos de perdão que, segundo Tomaz de Aquino se obtém com o compromisso de não mais realizar o ato que provocou a dor e o sofrimento. As retrospectivas são um memorial com o objetivo de guardar uma parte daquilo que foi vivido, próximo ou distante, e que, no futuro pode até servir como base para pesquisa de historiadores, romancistas, jornalistas ou qualquer pessoa interessada no passado, em saber como o presente deles foi construído.

Lendo algumas dessas retrospectivas já percebemos que2014 foi um ano de muitos problemas e algumas soluções realizadas. Se as comprarmos com as dos anos imediatamente anteriores, não sentiremos muita diferença, no conjunto, no global. Mas sempre ocorrem algumas novidades. Neste ano uma novidade foi o reatamento de das relações diplomáticas entre Cuba e os Estados Unidos pondo, segundo alguns analistas, fim a um dos símbolos da Guerra Fria que acometeu o mundo desde o final da Segunda Guerra Mundial. Pode ser, mas pode ser mais que isso, uma vez que a ilha caribenha passará a ser mais assediada pelo capital a que tem tanta ojeriza os seus governantes, e que pretendem continuar defendendo seu povo deste lobo voraz. Mas tudo ainda é muito líquido nessa relação entre o gigante do Norte e o quase pigmeu do Caribe e pode ser que venha a tornar-se mais gasoso, o certo é que estamos nos movendo.

Os conflitos continuam na Faixa de Gaza, no Afeganistão, na Ucrânia, na Colômbia, no Chifre da África, na Síria, nos países da África Central e outros menores, que não ferem tanto a sensibilidade do mundo. Neste quesito as retrospectivas apresentam quase sempre imagens semelhantes, mas com viés e vestuários culturais diferentes. Dez anos após o Tsunami, as enchentes dominam muitos países da Ásia e as tempestades de neve acossam alguns estados americanos e países europeus, estes demonstrando cansaço em receber africanos que     atravessam o Mediterrâneo, esperançosos em construir uma vida no continente que construiu uma civilização que afeta a todos, para o bem ou para o mal. A velha Europa ainda é o sonho de todos, ainda que chineses ou japoneses, e é o sonho não pela inovações atuais, mas pelo que vem construindo desde três mil anos, tendo sido a panela na qual foi preparado o angu de nossa civilização, pois a Europa foi convergência de quase todas as culturas. Tem se perdido no orgulho e, agora tem o papa Francisco a lembrar qual a sua verdadeira missão perante a humanidade e dela não pode escusar-se.

Quanto ao Brasil os que fazem retrospectivas quase não se lembram o juiz que provocou uma mudança na compreensão da justiça, pondo alguns colarinhos imaculados na prisão, o que vem sendo seguido por outro juiz que esta destruindo uma lavanderia encontrada em um posto de lava-jato. Assim, aos poucos vamos nos esforçando para mudar comportamentos tradicionais que sempre beneficiavam os que se consideram donos da nação. Vamos nos tornando republicanos, apesar de sermos tentados a sucumbir aos cantos das sereias. Um desses cantos é a facilidade que é ofertada aos pesquisadores das tradições afro-brasileiras, especialmente se esses pesquisadores se esforçam para esquecer importantes negros e mulatos que, no século desde o século XVII, ajudaram a construir o Brasil, gente como Henrique Dias, João de Deus, Manuel Faustino dos Anjos, Marcílio Dias, Lima Barreto, José do Patrocínio, Castro Alves, José Vicente e outros ainda menos cotados pelos movimentos negros por suas trajetórias de vida estarem com fimbrias sociais não politicamente corretas definidas pelas agências financiadoras. O mesmo se diga a respeito de movimentos que quase nos fazem esquecer que somos também miscigenados com a genética e tradições culturais tupiniquins. Aliás, quando se quer zombar de algo brasileiro logo se diz que é “tupiniquim”.

Fiz algumas ações voltadas para vulgarização de alguns conhecimentos em cursos sobre a cultura brasileira, com enfoque especial no Nordeste e Pernambuco, em cidades da Zona da Mata Norte, cumpri minhas aulas na UFPE, publiquei na Revista Canavial, girei em torno dos rios Capibaribe, Siriji, Botafogo, Igarassu e Capibaribe Mirim.  Foi um ano interessante, com momentos de tensão. Perdi algumas relações, mas sempre perdemos a pele no caminho da vida.

Feliz Ano Novo.

Biu Vicente

Vaticano, Caribe, religiões

 

E então chegamos à última quinzena de 2014, com a surpresa na política internacional provocada pela festa latino-americana na Praça de São Pedro, no Vaticano, celebrando o aniversário do Papa Francisco. Casais dançaram o tango ao mesmo tempo em que o mundo tomava conhecimento de que os Estados Unidos da América do Norte e a República de Cuba declararam que estavam reatando relações diplomáticas sustadas faz 53 anos. A informação desse ato diplomático e civilizatório no dia do aniversário do papa foi um sinal da importância da intermediação do papa nesse contendo que demonstra aos mais jovens a existência da Guerra Fria, e aos mais velhos que ela tem pouco sentido.

Aqueles que tinham 10 ou 12 anos de idade no início dos anos cinquenta e, que tiveram a oportunidade de terem em seus lugares de vivência um televisor, acompanharam momentos dramáticos do enfrentamento entre as duas potências atômicas, EUA e a URSS, o confronto entre dois modelos de sociedade que se apresentavam ao mundo de então. Poucos anos antes, jovens cubanos, com apoio de parte da população dos Estados Unidos, afastaram do poder o sargento Fulgêncio Batista que dominava  ilha e permitia que a máfia a utilizasse como espaço de seu divertimento.  Depois, os jovens liderados por Fidel Castro definiram-se como socialistas e aliaram-se à União Soviética, quebrando o paradigma de Yalta e Potsdan.  No mundo tensionado de então, os americanos que pretendiam colocar bases militares em regiões próximas às fronteiras soviéticas, viram navios da potência oriental aproximarem-se do Caribe com armas que deveriam ficar voltadas para a potência ocidental. Uma semana de tensão e, conversações entre os dois líderes Kruchev e Kennedy, estabeleceram a permanência pacífica da tensão. Os Estados Unidos tomaram a decisão de bloquear economicamente a ilha, pretendendo leva-la à ruina. Um dos maiores erros da história, uma vez que o bloqueio jamais ocorreu em sua totalidade, e muitos países, inclusive o Brasil vêm mantendo comércio com os cubanos desde os anos sessenta. Como a decisão norte-americana de fazer o bloqueio econômico foi um ato do Congresso, a retomada das relações diplomáticas não o afetará: só o Congresso americano poderá por fim a esta bobagem, pois ele atualmente existe apenas para o Congresso ver, como se dizia antigamente a respeito de algumas leis criadas no Brasil para satisfazer à Inglaterra no século XIX. Claro que crescerá o intercâmbio econômico com a ilha caribenha, especialmente os investidores cubanos da Flórida, que terão o Porto de Mariel, recentemente construído com ajuda secreta do Brasil. Mas importa entendermos que o Vaticano retoma a sua capacidade de intermediação de conflitos entre as nações e que temos, à frente, um processo cubano à chinesa, no qual o capitalismo econômico avança, mas as liberdades democráticas e as instituições de guarda dos direitos humanos ficarão a passos de cágado, caso entrem em compasso de mudança.

O Vaticano e as religiões ocupam cada vez mais espaço nos noticiários e na vida das pessoas e comunidades, contrariando filósofos e cientistas sociais que apontavam o fim da religião no século XX. Houve até teólogos que anunciaram a Igreja como Túmulo de Deus. Como previu o historiador católico e conservador Arnold Toynbee, são as etnias e as religiões que estão a servir de referência aos indivíduos e aos grupos. Todas as religiões estão em alta, não apenas nos cantões distantes, próximos às matas ou aos pés dos montes, mas nos planaltos acadêmicos, como demonstra fortalecimento dos estudos da Ciência das Religiões, com a aprovação de doutorados nessa especialidade do conhecimento, nas universidades Católica de Pernambuco e Federal da Paraíba.  Assim, neste período natalino teremos mais motivos para celebrar a data máxima da cristandade, não do cristianismo.  Deste meu lugar, parabenizo os professores e amigos Carlos André, Newton Cabral, Gilbraz pela caminhada e pela confiança nos seus projetos.

biu Vicente

Senhora Conceição, cultura da Mata Norte é Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil

 

Dezembro avança com poucas chuvas e muitas festas, como as que os católicos realizam em honra da mãe de Jesus. A tradição que admite a concepção sem pecado é muito antiga, bem mais antiga do que essa Igreja em seu louvor, construída, em 1887, quase no centro histórico de Goiana. Interessante é que, construída em plena chegada da indústria em Goiana, o templo foi construído seguindo o modelo barroco.

Embora presente na tradição desde o século  II, apenas no século XIX, 1854, é que veio a ser definido como dogma, o nascimento imaculado da Mãe de Jesus. Era o tempo de contrapor o mistério da fé ao secularismo prático dos tempos incertos da Revolução Industrial, da Unificação italiana.  A fé está sempre em diálogo com o mundo, pois diálogo não significa redução do outro ao mesmo, mas, o reconhecimento das diferenças sem desejar destrói-las.  Devoção romanizadora, a Conceição substituiu, substitui ou fez diminuir a devoção à Senhora do Rosário – a dos Homens Pretos e a dos Homens Brancos. Muitos foram os “filhos do Ventre Livre” amadrinhados por Nossa Senhora da Conceição. A mãe de meu pai era Florinda da Conceição e ele era seu afilhado de batismo.

Muitas são as Marias da Conceição, ou Conceptas, de acordo com a classe social. Em samba canção famoso, de autoria de Jair Amorim e Dunga, Cauby Peixoto lamenta  que Conceição desceu do morro pensando em subir na vida e, depois de muitas andanças no asfalto da cidade, sonha em voltar a ser Conceição.

No Recife, a Nossa Senhora da Conceição do Morro, também conhecida como Nossa Senhora do Morro da Conceição, passou a ser reconhecida como Padroeira da Cidade, a despeito  de Santo Antonio, Sargento protetor da cidade desde os tempo da colonização portuguesa e, também a despeito de Nossa Senhora do Carmo, também protetora da cidade, a pedido do comércio modernizado na segunda metade do século XIX e início do século XX. A Virgem da Conceição virou a Santa dos pobres dos morros do Recife, morros que foram habitados pelos “bestializados” no processo da República comandada, em Pernambuco pelos senhores das terras, dos engenhos, das usinas. E ao longo do século XX, A Conceição foi sendo, também, Iemanjá. Tangidos pelas estiagens e pelas modernizações conservadores, os trabalhadores da cana desceram da Zona da Mata Norte e foram fazer companhia aos retirados dos mangues e dos mocambos, pela política de higienização e pela exploração. Ali, ao longo do século XX, encontram-se as criações dos trabalhadores rurais e urbanos. Os senhores que viviam nos sobrados e nas casas senhoriais, governavam Pernambuco e definiam o que era ou não cultura. Com certo cuidado, eles conviviam com o Maracatu Nação, herdeiro das procissões da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e, com auxílio de antropóloga americana, não foi muito difícil acatar o Maracatu de Baque Virado como expressão cultural. A mesma antropóloga, contudo, não conseguiu vislumbrar o que está no movimento do maracatu rural, a ponto de lamentar a sua presença no carnaval do Recife. Ainda nos anos de 1990, editores do Jornal do Commercio denunciavam o “cheiro de urina” deixado pelos caboclos de lança e “o brilho falso das lantejoulas”. Mas os “bestializados” da Zona da Mata Norte organizaram-se na Associação dos Maracatus de Baque Solto, sob a liderança de Mestre Batista, do Mestre Salustiano e do Mestre Biu Hermenegildo, e continuaram a conquista das ruas e das cidades. No final dos anos 90  o Diário de Pernambuco já diz “uma das mais belas representações de nossa cultura é feita de homens simples e resistentes  e mulheres fortes e com coragem invejável, espalhados pelos 87 maracatus de baque solto de Pernambuco”. A primeira década do século XXI foi marcada por publicações sobre o as tradições culturais da Mata Norte:  “Maracatu Rural, o espetáculo como espaço social” (Ana Valéria Vicente); “João Manoel e Maciel Salustiano, três gerações de artistas populares recriando os brinquedos de Pernambuco (Mariana Cunha Mesquita do Nascimento) “Festa de Caboclo”, “Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição” (Severino Vicente da Silva) foram postos a público em 2005, e também “a mulher no maracatu rural” (Tamar Alessandra Thalez Vasconcelos), em 2012. Outros estudos acadêmicos foram e continuam sendo realizados sobre a criatividade da população cortadora de cana da Mata Norte.

Ao final da Olimpíadas de Londres, o Caboclo de lança foi apresentado ao mundo como símbolo do Brasil e neste 3 de dezembro foi estabelecido que o Maracatu de Baque Virado, o Maracatu de Baque Solto e o Cavalo Marinho, todos filhos da criatividade dos povos da Mata, passa a ser, oficialmente, Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

Só temos que agradecer a nossa Madrinha, Senhora da Conceição, também louvada como Iemanjá.

ps. Todos os livros citados foram publicados pela Editora Associação Reviva. Olinda, PE