Arquivos

Santuário de São Severino dos Ramos e o Processo Civilizador

Aula fora da sala. Alunos de três disciplinas que possuem em comum a preocupação com a cultura, sua criação, transferência e vivência na construção de uma sociedade. Estuda-se, em uma turma, como os ‘estabelecidos’ criam fórmulas e situações que geram os ‘outsiders’, os ‘de fora’ a quem não é permitida a fruição plena de suas capacidades e dos bens gerados por eles e pelos demais membros da sociedade. Outra turma quer entender qual a influência que a Reforma e a Contra Reforma do século XVI tem influenciado a formação e o comportamento do povo surgido do encontro de vários outros, e, finalmente o terceiro grupo quer percorrer os caminhos que foram percorridos para a construção da cultura dos pernambucanos.

Para atender esses objetivos é que nos dirigimos a Paudalho, Tracunhaém e Nazaré da Mata, três cidades da Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde pudemos encontrar situações diversas que atendiam as nossas curiosidades. Chama atenção a profusão arquitetônica, exposição dos estilos e das épocas, lado a lado construções dos séculos XIX e XX expõem as belezas que cada geração escolhia para si, como ocupavam os espaços, e como os mesmos foram reorganizados de acordo com os interesses de alguns. Pudemos observar como uma multidão se formou na praça do Fórum esperando a chegada de um criminoso para o julgamento. Esses não cumpriram as normas do contrato social que são pegos e levados a julgamento, são motivos para a curiosidade mórbida, uma alegria ou tristeza pelo ocorrido. Nem é necessário que se saiba qual foi o crime ou quem é o criminoso, a multidão sempre quer justiça, pelas suas mãos ou pelas palavras dos jurados e juízes. Depende do grau de civilização e organização social a que se chegou.
A civilização de um povo pode ser medida pela maneira de como o espaço é ocupado; a permissão dada à ocupação desordenada pode ser um indício de exclusão, de pouco se importar com os que ocupam enfeiando o espaço.

Faz algum tempo que auxiliei estudantes de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco a realizar o seu TCC. Foi um documentário sobre São Severino do Ramos, o santuário mais popular de Pernambuco e, segundo alguns, o terceiro maior o Brasil. A imagem desse santo chegou ao Engenho Ramos faz uma centúria, presente de um cardeal que ficou alojado em um altar lateral, na capela dedicada a Nossa Senhora da Luz, orago mandado construir pelos senhores do engenho, então em momento de fartura, embalado pela estrada de ferro. Não se sabe bem como nem porque, os trabalhadores do engenho simpatizaram com a representação daquele soldado romano, em seu sepulcro, após longas batalhas travadas no governo do imperador Maximiniano. Relatos de milagres e descrição do soldado que atendia os pedidos dos cortadores de cana atraiam cada vez mais gente. O ciclo de riqueza foi passando, a ferrovia parou de funcionar, os donos do engenho foram morar na capital, mas os cortadores de cana, os cambiteiros, ticuqueiros e seus filhos não deixaram o São Severino abandonado, como o engenho. Sempre tem um devoto e, não havia como evitar que os devotos fossem agradecer ou pedir um adjutório. Os proprietários estabeleceram um espaço onde os visitantes, os romeiros se acomodassem. E vieram os vendedores de alimentos e lembranças. A Igreja envia um sacerdote para a celebração do culto, mas não tem ingerência na administração do prédio. Os donos cuidam para que ele continue a receber os romeiros, mas lá não vão mais. A casa grande da família foi cercada para que os romeiros não invadissem. E eles nunca tentaram. Naquele documentário, um dos membros da família do proprietário diz que o comércio que ali ocorre não está sobre seu controle, mas a prefeitura do Paudalho não pode interferir em propriedade privada.

E o que ocorre? O espaço dedicado aos romeiros está totalmente tomado pelos comerciantes que constroem suas barracas da maneira que desejam, ocupando as calçadas e o terreno que poderia servir para o passeio tranquilo. A maneira de como estão tratando os devotos de São Severino é como se trata o indesejado. Parece que desejam que eles não mais venham, como fazem os donos da casa grande, agora tão abandonada que está se tornando curral para boi e cavalo selvagens. Seria muito bom se a casa grande fosse, de novo trajada, trajando cores novas, arrumada, para que o visitante pudesse ter uma ideia de como era a vida no tempo em que a imagem de São Severino foi trazida de Roma como presente para a família. É certo que o presente foi ressignificado de maneira tão inesperada.

Uma tristeza ver o espaço que deve ter servido para correrias de José Antônio Gonçalves de Mello, João Cabral de Mello, seu primo Gilberto Freyre tornar-se um local desagradável. O processo civilizador estudado por N. Elias parece não ter chegado ali. As margens tristes do Capibaribe domado estão sendo testemunhas e vítimas do comportamento pouco civil dos que lideram ou toleram essa devoção dos pobres.

Mas a viagem serviu para verificar as muitas maneiras de como são tratadas as tradições culturais do povo brasileiro.

Professores em greve e responsabilidade da sociedade

Estamos no final de abril e percebemos que em mais de dois terços dos estados brasileiros os professores estão em greve. Tais movimentos reivindicam melhores salários, plano de cargos e carreira, melhoria das instalações materiais para o exercício da profissão. Tal situação é demonstrativa de como a sociedade brasileira considera importante este setor da vida social. Aqueles que governam foram escolhidos pela sociedade e, são um resumo seu.
Interessante notar que esses movimentos ocorrem no sistema educacional que está sob a responsabilidade do Estado, como a Saúde e a Segurança Pública. Nas escolas mantidas pela rede particular de ensino, embora também com carências e problemas, a situação não é tão vexatória, apesar de os professores não serem os mais bem pagos profissionais também no mundo da iniciativa privada. Então, nos dois casos encontramos um ‘desleixo’ quanto aos que se dedicam, escolheram ou foram escolhidos, para essa tarefa social. Porém é no setor público que a situação mais chama atenção.

Ocorre que uma pessoa se propõe a ser professor na rede pública ele deve entender que está se tornando um servidor público naquele ramo do poder que é o Executivo. Ser funcionário público tem suas vantagens, entre elas a estabilidade no emprego e, no passado, prestígio social. Especialmente se for no serviço público federal. Hoje sabemos que não é bem assim, exceto para aqueles que estão no poder Legislativo e no poder Judiciário, pois, a doutrina de separação dos poderes não permite ao executivo interferir nos salários desses poderes, mesmo quando o Estado está em situação econômica e financeira debilitada. Juízes e políticos têm autonomia para estabelecer seus próprios salários, gerando algumas distorções interessantes nos salários dos funcionários públicos, sempre com a conta negativa para os que estão ligados ao executivo.
Bem, mesmo entre os servidores do poder executivo há distinções: Assim, aqueles que atuam diretamente no interesse do Estado, gente que trabalha no serviço de arrecadação de impostos, p.ex., têm seus salários mais facilmente atualizados do que aqueles que atuam nas atividades fins (educação, saúde e segurança) aqueles que atendem diretamente os cidadãos, aqueles que, com o seu trabalho, pagam os salários dos magistrados das diferentes varas e tribunais, pagam os salários dos políticos. No executivo também há outra casta – a dos cargos comissionados – que são gente da confiança dos políticos e, não precisam fazer concursos para a função, e essa função, que deveria ser ocupação do funcionário concursado, é sempre bem melhor remunerada. Atualmente deve haver cerca de cem mil cargos comissionados, gente que está sempre a sorrir para quem comanda o momento.

Ora, desde a década de oitenta do século passado que começou a chamada reestruturação do Estado e ela tem sido realizada basicamente no executivo que tem feito crescer o número de comissionados e desenvolvido um política de desmotivação do funcionalismo, o que é feito, também, com o achatamento dos salários. Mas isso é realizado também ao não fornecer os meios básicos e necessários para que professores, médicos, enfermeiros, policiais realizem as suas tarefas com orgulho e com alegria, beneficiando e sendo beneficiado pelos serviços que o Estado está obrigado a ofertar. Claro que essas condições, as condições das escolas, dos hospitais, dos alojamentos para os soldados, pouco afeta aos políticos e magistrados pois, com os salários que se concedem, podem buscar os serviços educacionais, sanitários e de segurança junto às empresas particulares, e algumas podem até ser de algum parente.
O resultado desse quadro que apenas deixo antever por essas linhas pequenas é o que assistimos: professores cansados de esperar por um reconhecimento social. Não é fácil para mim, professor, verificar a facilidade com que certos agentes sociais I(há casos de que organizadores de destruição de bens públicos e privados foram acolhidos na sede da presidência e condecorados por governadores) conseguem audiências e facilidades junto a prefeitos, governadores, presidentes, enquanto aqueles que representam os professores, os próprios professores são recebidos a dentes de cachorros. Aos professores nenhuma atenção é dada e não se considera que quando os professores não exercem a sua atividade prova-se um golfo no futuro da nação.

É tempo de a sociedade acordar e só acordará quando os professores não mais desejarem receber os dias parados na greve e, dessa forma não serem obrigados a repor aulas, atrasando um dois anos na formação dos trabalhadores necessários ao funcionamento da sociedade que parece ter ódio do magistério.

Como dizia filósofo romano: orgulha-se de saber enquanto envergonham-se daquele que o ensinou.

A necessidade da dança

O vagar das horas aumenta a sensação de que não há o que escrever ou, talvez já não importe que se escreva ou não, pois se escreve para comunicar-se, de maneira que haja um início de conversa, uma troca de experiência e enriqueça a vida. Mas, parece que o tempo das conversas já passou e resta apenas o tempo do enorme silêncio que é companheiro do profundo medo do próximo movimento. O silêncio, como em Zorba, o Grego, após o desastre do teleférico que deveria transportar a madeira que serviria para a recuperação da mina que poderia modificar o monótono vilarejo dominado por um passado angustiante, cheio de normas que preservam a mediocridade da vida morta. E para quebrar o silêncio, Zorba, olhando a omoplata do carneiro que está a comer diz que prevê uma viagem, referindo-se ao retorno do seu patrão para a Inglaterra de onde veio. E então escuta: Zorba, você me ensina a dançar? E o filme que está em seu término, parece que tem novo início.

Estamos como que necessitando de aprender a dançar, buscar novos movimentos que possam alterar o curso tradicional da vida social. Assistimos, nas duas últimas décadas, a construção de uma estrutura que prometia modificar a vida nacional, garantindo que faria a renovação da nação, que iria superar os fossos que separam e excluem; um teleférico que encurtaria o caminho para o futuro, encimando as dificuldades que estavam postas desde muitos anos. E vimos a construção do teleférico ruir, demonstrando que seus construtores pouco sabiam da natureza da montanha que pretendiam superar, a pressa de trazer o futuro com pedaladas e ações fantásticas, com projetos que não consideraram seriamente todas as tradições da sociedade, julgando que a chegada simplesmente de novas leis e ordenamentos superpostos, de maneira superficial sobre os resistentes costumes criados pela tradição de ocultamentos das taras do poder humano apresentado como divino, por uma quase casta que vive da manutenção da ignorância, em espaço paralelo. O dono da mina que, no filme Zorba, o Grego, utiliza o trabalho físico dos homens do vilarejo para reconstruir a mina que herdou e que deixou fenecer por não usá-la, percebe que ele era impotente diante das tradições que não conhecia e não poderia modificar em uma ação solitária e que atingia apenas um dos aspectos da sociedade, o emprego daquela gente que não tinha futuro. Quando a estrutura que, com o seu trabalho começou a ruir, os trabalhadores não ficaram nem para comer o churrasco da inauguração do teleférico que conduziria a madeira necessária para a reconstrução da mina que, no passado foi a riqueza do povoado. Também fugiram, sem esperar pelo churrasco, a elite do povoado, que sempre vivera socialmente distante dos habitantes do povoado, só os encontrando em momentos de festa, dos carnavais que alegravam seus corações tristes. Foram eles os primeiros a fugir do local onde se construía a novidade do teleférico.

Dançar a vida, título de belo livro de Roger Garaudy, é reconstruir os movimentos e os sonhos após os desastres mais monumentais; é próprio de quem, cultiva e vive com sinceridade a busca da felicidade diante da estupidez que é o silêncio sobre os abusos para manter-se no poder, como fazem no filme, as pessoas comuns e os líderes civis e religiosos daquele povoado. E Zorba dança e ensina a dançar, pois sabe que a vida não termina com a aventura de um teleférico mal pensado e mal construído e que morre a sociedade que atrela a si própria a projetos de poder e não de vida.

Estudo da História e as manifestações populares

Estamos na época de grandes mobilizações. Há uma disputa para demonstrar poder ou descontentamento com o poder. Para muitos é como se fosse a primeira vez, ou a segunda, quiçá a terceira, situação em que a população se manifesta. Esses acreditam que tais manifestações são sinais de que “o gigante despertou” ou de que “a direita conservadora” está a aproveitar-se dessa situação para voltar à cena política. Tudo isso é provável, mas essas manifestações não são o início da participação das multidões na história brasileira.
Fenômeno muito interessante, que tenho acompanhado nos espaços da sociedade virtual que frequento, é a quantidade de intervenções indicando ou mandando as pessoas estudarem história por estarem elas manifestando a sua opinião. Um dos motivos desse chamamento ao estudo da história é o fato de muitos, uma expressiva minoria, estarem a clamar por um retorno dos militares ao poder. Esse chamamento ao estudo dá a impressão de que quem estuda história não adere ditaduras, o que é falso, se olharmos os currículos dos apoiadores das ditaduras ao longo da história. Muitos são os ditadores, autocratas e caudillhos que estudaram história. Saber história não é antídoto às plutocracias, aos regimes autoritários. No Brasil os ditadores sempre contaram com o apoio de estudiosos da história nacional. A questão parece ser outra, talvez não seja simplesmente estudar história, mas o que estudar e como estudar.

Por conta desse convite/ordem para estudar história, em algumas aulas fiz um pequeno exercício de memória e conhecimento básico da história pátria em algumas turmas que leciono. Perguntei sobre o que ocorreu no Brasil acontecimentos em um certo 7 de abril; perguntei sobre Felipe dos Santos; perguntei sobre a Noite das Garrafadas; perguntei sobre Manuel Faustino dos Santos e João de Deus; perguntei sobre Cipriano Barata; perguntei sobre Marcílio Dias. O retorno foi igual a zero. Claro que, os estudiosos de história logo dirão que essas são perguntas focadas em indivíduos e que a história é mais que a atuação de indivíduos, o que é uma objeção correta, mas é certo também que os processos ocorrem com a atuação de indivíduos e as multidões reúnem dezenas, centenas ou milhares de indivíduos.

Mas voltando às perguntas e às respostas obtidas em salas de aulas de um curso superior de história, o que quer dizer que todos os perguntados fizeram o Ensino Básico, cursaram o Ensino Médio, foram aprovados no vestibular e, portando espera-se que saibam um pouco da história da pátria pois este é o objetivo dos ensinos Básico e Médio.
1. O de abril era comemorado como o momento da independência, pois, em 1831, sob pressão de manifestação popular, o primeiro imperador do Brasil descobriu-se sem condições de continuar no poder e renunciou em favor de seu filho menor de 10 anos;
2. Felipe dos Santos organizou manifestação contra os abusos portugueses personificados no Conde de Assumar, em Minas gerais, 1720, sendo morto por esquartejamento;
3. A Noite das Garrafadas foi um levante popular no Rio de Janeiro contra a imposição de um gabinete formado por portugueses para governar o Brasil;
4. Manuel Faustino (18 anos de idade) e João de Deus foram enforcados e esquartejados, sem direito à sepultura, em Salvador pelo crime de organizarem a Primeira Revolta Social do Brasil, a conhecida Revolta dos Alfaiates;
5. Cipriano Barata, estudante que, na Bahia participou dos preparativos da Revolta dos Alfaiates, expulso para Pernambuco, participou da Revolução de 1817;
6. Marcílio Dias, jovem marinheiro negro que participou da Guerra da Tríplice Aliança e defendeu, com bravura heroica, o vaso em que servia, de tal sorte que é considerado um dos heróis brasileiros.

Creio que poderia continuar a fazer perguntas sobre os que, com seu sangue e destemor, criaram a pátria brasileira, e possivelmente o índice de acertos seria basicamente o mesmo. E esse índice mostra que as pessoas não estudaram a a história do Brasil, não sabem que homens jovens construíram o país que vivemos. E por não saberem disso, não perceberam, ou o ensino não os auxiliou a perceber que, por trás de cada nome que citei houve um movimento com ampla participação do povo. E não sabem porque os professores continuam a ensinar que Dom Pedro I simplesmente abdicou, (aliás, durante alguns anos, em algumas cidades do Brasil a independência era comemorada no dia 7 de abril, quando deixamos de ser governados por um português); não mostram a importância da participação do povo no processo e não participaram das decisões que se seguiram ao processo. Isso é fazer o jogo dos poderosos. Não adianta mandar estudar história, se quem manda não percebe que a participação popular sempre existiu na nossa história, apenas continuamos sem lhes dar a importância que merecem. E mais recentemente, ao invés de estudarmos esses movimentos, vamos esquartejando essa história, aprofundando o estudo das partes sem termos ciência de que essas partes – mulheres, índios, negros, mestiços: mamelucos, morenos, curibocas, mulatos, cafusos, etc. – formam o todo. As manifestações populares continuaram a ocorrer ao longo do século XX, como foi estudado por José Murilo de Andrade. Mas além dele, quando se estuda a participação popular tem sido para enaltecer este ou aquele partido como condutor do povo, tratando-o sempre como ingênuo e carente de um ‘pai’ que tudo lhe provêm, inclusive a sua consciência, que parece dever ser a consciência que lhes dá esse ou aquele partido ou agrupamento politico, seja da esquerda ou da direita.

Ocorreram greves operárias no Nordeste no início do século XX, mas elas não entram na análise dos que definem a ‘história’ do Brasil, por delas somos ignorantes; a primeira greve contra o regime autoritário que terminou em 1985 continua sendo ensinada que ocorreu em São Bernardo dos Campos, ‘esquecendo’ que, meses antes dela já haviam ocorrido greves de motoristas, professores e canavieiros, em Pernambuco. Mas estudando certa história, ninguém saberá que o povo manifestou-se antes da criação de certa agremiação. O esquecimento da história! A lembrança dos historiadores e dos doutrinadores.

É uma questão de estudar história, mas ….

Feliz Páscoa

Quinta Feira Santa, dia da mais famosa refeição realizada no Ocidente e lembrada no mundo que foi organizado sob a égide dessa ceia carregada de simbolismo e proposta de sociedade. O simples acontecimento da ceia já é envolto de significado. Na véspera os seguidores de Jesus foram enviados a procurar um lugar para a ceia. E eles foram procurar o lugar, assim sem entender direito como se daria a refeição em uma casa que, aparentemente, eles nem mesmo conheciam. Mas eles conheciam quem os havia enviado e, talvez com pequenas dúvidas, mas sabendo que a orientação dada tinha um sentido ainda não compreendido, não revelado. Entretanto a confiança que depositavam naquele que direcionava a ação não supunha a ideia de não realizar a tarefa. Confiança, parece ser o primeiro significado daquela quinta feira.

A Ceia deveria ser realizada pois assim determinava a tradição daqueles homens, pois era a refeição que lembrava importante acontecimento do povo, um acontecimento fundador, a passagem do tempo sem identidade, sem estima, sem esperança, sem futuro para a confirmação de um povo, para a aceitação provada do querer bem a si, para um período de confiança a ser realizada e uma perspectiva de existência e criatividade. Mas a ceia deveria ser realizada não apenas porque lembrava e celebrava o que foi vivido por aqueles homens e seus antepassados, mas deveria ser celebrada por conta de que eles se tornariam, ainda que não soubessem, novos homens e formadores de novo povo.

Deve ter tido outros alimentos, mas o que ficou na nova tradição foi o tradicional Pão e Vinho, o trabalho e a alegria, a força e a celebração. O cotidiano transformado. E a transformação vem acompanhada no gesto do serviço, da ação de lavar o corpo para a nova jornada, não uma sucessão de poderes, mas uma continuidade de cuidado com o outro. O lavar os pés dos convidados, cuidar dos pés que andaram e andarão levando o corpo que carrega a mensagem do servir. E há a partilha, a divisão da comida e da bebida, para que todos fiquem satisfeitos e alimentados.

Foi por conta dessa Ceia que, ainda buscam explicar os modos, que veio a se formar uma nova maneira de viver que, continuando outras maneiras, tornou-se identitária de um grupo, uma parte da humanidade. Os seguidores da Ceia, da partilha do Pão e do Vinho, foram decisivos para a formação de um modo de viver a humanidade. De suas crenças e experiências, divididas e ajuntadas a outras experiências humanas criaram uma civilização que vem se renovando permanentemente, criando e recriado valores e direitos, encaminhando-se para a construção de uma humanidade. É este um processo doloroso, pois outros grupos humanos, em outros lugares da terra, também criaram a sua tradição de humanidade e seu desejo de unidade. E todos esses desejos de unidade carregam a limitação de querer-se único e perfeito, daí a dificuldade de superar a negação do outro, o desejo de apressar o fim. E o pão pode tornar-se raro e o vinho perder o sabor, tornar-se vinagre.

A Ceia que é uma das bases da civilização europeia tem, em sua sequência, os momentos de reflexão, de traições, de fugas, de mortes, de recuperações. Sempre há os que continuam a cultivar a força do pão e o sabor do vinho. É disso que tratam a Sexta Feira e o Sábado, também dias fundadores da civilização europeia.

Nossa sociedade quer negar que ela nasceu desses momentos celebrados de maneiras diferentes pelos muitos grupos cristãos, contudo ela sabe que a negação do fato não implica a sua não existência.

Feliz Páscoa.

Elite ou malta

O mês de março vai passando de surpresa em surpresa. As águas e magoas desfilaram nas ruas de muitas cidades do país na esperança que ouvidos deixassem de ser de mercadores ou de mercadantes e, seriamente entendessem o que estava a se dizer. Foram muitos os recados, mas como dizia famoso teatrólogo, cada um vê e entende o que deseja: assim é se assim lhe parece. Pois bem, houve quem simplificasse todas as vozes à um desabafo contra a corrupção que está borbulhando e saindo pelos buracos que os ratos costumam fazer nas fossas. E tudo foi resumido em corrupção.

Se o problema é a corrupção, logo vem o receituário: nada se pode fazer pois a corrupção é “uma velha senhora” que vive no Brasil a muito tempo, “ela não perdoa ninguém”, não há como derrotá-la, pois parece fazer parte do DNA da sociedade. A pessoa que disse tal asneira não poderia ser mais honesta. Talvez mais explícita e dizer: ‘os brasileiros são todos corruptos, assim temos que conviver com isso” e, seguindo a lógica de salão de manicure, se todos os brasileiros são corruptos, a pessoa que disse assim, apesar de ser brasileira de primeira geração, é também corrupta, e está assumindo-se como tal. Comportando-se como os Donos do Poder para colocar-se acima de todos, a todos chama pelo que ela é. Ora, quem disse tal asneira, desrespeitando os brasileiros trabalhadores, é uma senhora que faz parte da “elite, branca, de olhos verdes”. E, todos nós sabemos que a corrupção moral não faz parte do DNA de nenhum povo, que a corrupção moral é construída pelo exemplo que a vida da elite social oferece aos demais sócios.

Para convencer os brasileiros a aceitarem a sua bobagem, ela vem lembrar que lutou pela democracia. Lá em Nova Descoberta, onde cresci, nós sempre achamos horrorosa esse tipo de pessoa que faz algo e depois fica passando na cara da gente que fez. É gente que enxerga o mundo olhando para o seu umbigo. Ora, precisamos entender que nem todos que lutaram contra a ditadura estavam desejando construir uma democracia, alguns estavam querendo colocar outro tipo de ditadura. Hoje à tarde estive com Antonio Vieira, um homem de setenta e dois anos, que está doente, que foi prisioneiro da ditadura, que comeu o pão que o diabo deu a ele, mas que, após o fim da ditadura continuou lutando no meio rural e jamais foi pedir a ‘bolsa ditadura’, não saiu por aí, como fazem alguns, dizendo: “eu fiz isso, eu fiz aquilo, sou coragem e fiz isso por vocês”, passando na cara o sofrimento que passou, posando para história. Ah! essa gente mesquinha diminui, pensando que cresce ao diminuir os outros, fazendo deles seus devedores. Não devemos nada a ninguém, cada um senhor de suas opções.

Esses acontecimentos levaram-me a pensar que fizeram nos acostumar a entender que ser da elite é ter acumulado riqueza material, contas bancárias, casas imponentes, apartamentos de cobertura nas principais praias do país e, viajar constantemente ao exterior e voltar carregados bregueços e bugigangas com o objetivo de expor-se e seduzir os adoradores de materialidades. Mas isso, esse conjunto de coisas não é a elite, é a estupidez humana enriquecida e abestada. É quase uma malta. Uma elite é o grupo de membros da sociedade que é capaz de auxiliá-la a definir seus objetivos e de organizá-la para alcançar o maior bem estar moral, o enriquecimento intelectual e material da nação. Assim, essas pessoas que, em situação de mando e comando, induzem à sociedade ao desespero ao afirmar que nada pode ser mudado para melhorar e que ela deve adequar-se à miséria moral que corrompe, não apenas a economia das empresas, mas alma das gerações.

Talvez seja o tempo de criarmos uma elite, nos tornando nós mesmos. Esses que se apresentaram para orientar o Brasil, mas que sucumbiram ao canto das sereias, eles não possuem a coragem de Ulisses, nem desejam a felicidade que Prometeu arrancou dos deuses, não para si, mas para fazer os humanos livres das idiossincrasias das divindades. Se desejamos ser livres devemos rever o tipo de elite que nos querem impor e, não seremos liderados por quem acaricia ditadores e tolera o mal por preguiça de lutar contra ele ou por ter já optado por ele.