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Recusando a inércia e o aprendizado ordenado

Os mais recentes dias nos encorajam para muitas diversões do pensamento. Noticias variadas nos confirmam a diversidade cultural da humanidade. É certo que alguns peleam pela diversidade na esperança, escondida, de que todos venham a se reunir sobre a “sua diversidade”. A natureza é diversa nos seus frutos, embora todas essa diversidade parece ter originado de um momento, um átimo,m algo que carregava em si a possibilidade de tão belo caleidoscópio, sempre o mesmo e sempre com novas formas e possibilidades.

Mas somos a possibilidade de sermos e, por sermos diversos, colhemos da multiplicidade das criações da natureza e da inteligência que a natureza concedeu aos seres e, parece que os animais humanos foram beneficiados pela ausência de uma regra única na natureza.   Os professores, nós encontramos essa diversidade em nossas salas de aulas. É claro que nas salas de aulas supomos encontrar pessoas de diversas origens sociais e com interesses diversos. Mas, como deslocaram-se de suas casas para um ponto  comum que os atraiu, tomamos a liberdade de presumir que esses seres diversos, de origens diversas, de grupos sociais diversos, ao sentarem em bancos de uma sala estejam interessados no que vai ser dito naquela sala. Como chegaram ali por sua escolha e iniciativa, acreditamos que devemos ficar surpresos por esses seres não esboçarem qualquer reação ao objeto do estudo.  Surpreende que a maioria chegue atrasada; lamenta-se a forma de como espalham seus corpos nas cadeiras e ofende o olhar vago sobre o nada que parece existir em sua frente, mas que se expande do seu espírito, ou que resta dele naquela massa. Quase nenhum tem um livro ou caderno à sua frente ou lápis próximo a si. Dizem que a burguesia inventou camisas com bolso para que ali pusessem os instrumentos de trabalho. Os operários levam suas ferramentas em caixa, se são autônomos, ou usam as caixas nas fábricas para guardar os instrumentos após o trabalho. Em uma escola de ensino superior que está a preparar pessoas para a atividade de ensinar, espera-se que esses operários que não sujam a mão de graxa, tenham algum instrumento e lugar para guardá-los. A maioria dos aprendizes chega como aristocratas em campo de férias: em seus vestuários nenhum bolso, em suas mãos nenhum instrumento. Claro que eles devem ter um cérebro onde estão armazenando de maneira definitiva, julgam, aquilo que acham necessário.

Boa parte desses jovens produz seus corpos com exercícios físicos, apresentam músculos bem definidos sob a camiseta esportiva que os protege e expõe. Mas seus cérebros não aprecem exercitados na arte do desenvolvimento da curiosidade. Perguntas novas não parecem aflorar das elipses elétricas. Quase supomos, pelo olhar, que o cérebro está em repouso esperando o momento de responder, pavlovamente, a palavras como “time de futebol”, “copa do mundo”, “reacionário”, “show de …”, e e outras palavras de ordem. Então a vida surge como a baba do cachorro do cientista, e essa reação chamam de vida.

Quem foi educado dessa maneira, no falso diálogo, não tem a resistência para a leitura de um texto, para a comparação. A comparação implica a perceber, se não a diversidade, ao menos a existência de duas realidades diferentes. Entretanto é melhor continuar a brincadeira, essa que brincam sem saber da sua existência, como o peixe não se distingue da água, a brincadeira de Boca de Forno, essa na qual há o compromisso de se fazer tudo que o Senhor Rei mandar. Nessa brincadeira corre-se de um lado para outro, apenas com o objetivo de “fazer o que o senhor rei mandar”. Para tal só é necessário o exercício físico, a resistência física. Não se deve argumentar com rei. Apenas seguir as suas ordens, elas a todos confortam por proporcionarem um momento de exaltação e êxtase por cumprir a tarefa, desde que essa tarefa não implique o uso da massa para além de indicar qual membro do corpo deve ser utilizado para o gáudio majestático.

E como ensinamos usar o mínimo possível o cérebro, é que uma Popozuda passa a ser considerada por um professor de uma escola brasiliense, uma importante pensadora da atualidade. Afinal a ausência de estrias ou celulite é o ideal das moças para o gáudio ocular dos rapazes. Nada de rugas, e o cérebro é rugoso. E os movimentos que fazem as informações que a ele chegam, podem ter as mais diversas consequências. cada pensamento é uma miríade de possibilidades, caso haja a prática de exercício, o interesse de desenvolver a curiosidade e que esse interesse  seja mais remunerado que os apetites que exigem cérebros menos rugosos.

BV

O dente de leite de meu neto e os dentes das ditaduras

 

Meu neto expõe sorriso sem um dente de leite que lhe caiu. Está a se aproximar do que costumava ser a “idade da razão”. Dizia-se que, aos sete anos esse menino já podia entender o que ocorria ao seu redor e estava em processo de empoderamento dos valores sociais, como se diz nos dias atuais.  Isso significava que “esse menino” já sabia o que fazia, e podia até ficar cuidando dos irmãos menores. Mas, como cresce enormemente os saberes coletivos necessários para a sobrevivência, os indivíduos sabem cada vez menos desse total e, apesar de os sete anos de idade continuar sendo visto como o início da idade da razão e, espera-se que a criança já saiba ler e escrever, mas podemos observar que estamos a criar leis que tornam “esse menino” irresponsável sobre seus atos, especialmente aqueles que ferem e matam.  Para alguns casos, a idade da razão nunca chega, apesar da queda dos dentes de leite e o crescimento das presas do animal caçador.

Bem, tive um dos meus dentes extraídos após um acidente que envolveu uma pedra servida no feijão. Embora não fosse esse ocaso, os dentes caem com a idade ganha, esse processo faz parte das perdas que acompanham a conquista do tempo que nos conquista à medida que o vivemos. Em sociedades que já não existem, lá nas regiões mais frias, quando os mais velhos perdiam os dentes e quando já não podiam mastigar as peles dos animais para amaciá-las, eles se retiravam para morrer. Eram vistos como incapazes de continuar a auxiliar o grupo a viver e, podiam causar problemas à sociedade. Como desde cedo eles eram educados vendo desaparecerem alguns velhos, e ouvindo a explicação desse comportamento ao longo de suas vidas, quando chegava a sua vez, eles seguiam normalmente a razão da sociedade, razão que aprenderam ao longo do tempo usando seus dentes.

Cavalos são analisados pela qualidade de seus dentes, assim eram, também, avaliados os que prisioneiros levados aos mercados para serem vendidos como  escravos. As sociedades dos tempos modernos criaram meios para proteger-se contra o envelhecimento, claramente expostos no sorriso que deixa à mostra os dentes ou a sua ausência. Uma nação moderna previne a queda dos dentes, pela higiene bucal, pela educação alimentar, etc. Mesmo sem os dentes naturais, com os dentes artificiais, os mais velhos podem continuar a contribuir na sobrevivência do seu grupo social, da sua sociedade se, além dos dentes, mantidos ou repostos pela tecnologia, mantém também seus cérebros funcionando e os pondo ao serviço do meio onde vivem. Quando isso acontece é um ganho para todos.

Disse ao meu neto que a perda dos dentes mostra que estamos envelhecendo, ele e eu; ele por aproximar-se da Idade da Razão e eu por aproximar-me à idade na qual, além dos dentes, também podemos perder a o uso da razão.

Nessa semana de avaliação do movimento ocorrido em 31 de março e primeiro de abril de 1964, entre os depoimentos que li, uma professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco diz que “ os atores políticos que serviram à ditadura desapareceram de cena porque não tem como participar da construção da democracia. Foram impostores de um tempo sombrio, de medo e violência” [1]; outro depoimento, de José Sarney, que foi um auxiliar do regime militar desde os primeiros dias e o presidente involuntário do Brasil no processo de transição iniciado por Tancredo Neves diz que “A transição democrática brasileira se deve ao meu temperamento, também, esse jeito nordestino de dialogar. Cometi um erro ao voltar à política quando encerrei meu mandato presidencial. De novo, deveria ter ido para casa, mas daí veio o Collor, com todos aqueles problemas, e me chamaram de volta, isso, antes do impeachment. Saí então senador pelo Amapá, porque o PMDB não me deu legenda no Maranhão. Mas, enfim, olhando para esse meu retorno, vejo-o com arrependimento. Já havia encerrado a missão maior, que foi a transição democrática. E é só o que o País deve a este presidente improvisado, que assumiu para ser deposto.”[2]

Como se vê, a perda dos dentes atualmente não é visível e nem sempre ela é acompanhada com a sabedoria que ouso dos dentes daria.

Neste semana e neste mês que serão preenchidas com debates sobre o que ocorreu nos últimos cinquenta anos, devemos uma homenagem, não tanto aos que desejaram apenas vencer a ditadura ocorrida entre 1964 e 1985, mas, principalmente, a todos que lutaram pelo retorno e construção da  democracia. Aos Anônimos da história, aos que não podem e nem querem receber remuneração pela sua participação na reconstrução permanente da democracia, nossa homenagem.



[1] Diário de Pernambuco, em caderno especial sobre AS MARCAS DO GOLPE. 31 de março de 14.

[2] Estado de São Paulo, 28 de março de 14.

M de Magistério, M de Menorah

A corrente da vida continua sempre na direção que não desejamos enquanto fazemos aquilo que nos agrada. O estímulo para continuar na imensa maratona é que a vida deseja ser vivida. Como uma vela ela ilumina e se consome. O importante é o brilho que produz o aquecimento, a possibilidade de promover a visão para além de si mesma. E nem sempre a vela brilha com o vento leve, uma pequena brisa que auxilia a combustão produtora da luz e do calor. Nem sempre a vela queima recebendo a exata dose de oxigênio, às vezes o vento que lhe toca está bravio e faz a chama dobrar-se, quase apagar. Algumas velas não resistem e param de fornecer o brilho antes que todo o pavio e a sua cera sejam consumidas. Todos os dias eu fico pensando nas velas que não queimaram até o final. É triste.

Entendo que não somos apenas uma vela, somos um castiçal de sete velas, um Menorah que é posto no Santo dos Santos, sinal dos dons divinos: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento, temor do Senhor e prazer no Senhor. Nas tribulações da vida necessitamos de todos esses para que possamos nos queimar na construção do mundo, na continuação da obra na qual chegamos já em curso. Cada um desses dons que temos nos auxiliam a não desistir.

Leio, de alguns amigos, palavras que falam de um possível fracasso em sua tarefa de magistério porque muitos foram à rua protestar contra o que eles estão vivendo e, por engano, voltam-se para o passado, querem o retorno da ditadura civil militar que machucou a pátria brasileira durante um quarto de século. Oito meses são passados quando outras pessoas também saíram à rua para protestar contra o que elas estão vivendo. Não saíram pedindo a volta do passado, mas tampouco apontaram para algum futuro. Oito meses atrás as aulas de história pareciam ter tido um bom resultado, uma vez que os saíram às ruas estavam mais próximos das ideias que esses meus colegas professores – e eu também – professam; agora parece que as nossas aulas de história não serviram, pois os que agora saíram às ruas professam ideias diferentes desses professores. Como precisamos de entendimento para aconselhar!

De qualquer modo, a função do professor de história é professar, é ensinar, indicar o caminho ou caminhos possíveis e, para isso, como me ensinou um professor: um livro é bom, um livro só não presta. Se apenas indicamos uma leitura, uma explicação sobre os acontecimentos não estamos ensinando as mentes a pensar, estamos amestrando as mentes e, se os amestramos criamos em nós mesmos a expectativa de que eles pensarão como nós pensamos. Se for assim, ficaremos desiludidos quando eles não agirem como nós os treinamos. Se uma pessoa recebe muito de um só alimento, isso o levará ao desgosto desse alimento e, sem o gosto, ele, o alimento, será rejeitado. A variedade de possibilidades das análises da realidade trará muito mais possibilidade de fazer surgir o novo. A oferta de uma só explicação terá duas consequências vergonhosas para um professor: fará um clone de si mesmo – e os clones sempre trazem consigo algum defeito, sendo o principal deles o cultivo da mediocridade para ser aceito; ou fará um reagente que negará aquele que o quis enfeitiçar – não ensinar possíveis caminhos – e então aprenderá a gostar de fazer aquilo que desgosta a quem o quer medíocre.

Um professor não é, não pode ser, um agente de propaganda, um professor deve ter a coragem de formar alguém que poderá pensar diferente de si. Um professor não é um replicador deste ou daquele ‘pensador’, ‘projeto politico’ ou coisas semelhantes. Um professor nem mesmo é um formador, pois ele não deve dar forma a ninguém, – deve cuidar da sua própria forma -, um professor é um orientador, um gerador de possibilidades. Essa deve ser a sua consumação: iluminar as possibilidades, os seus alunos escolherão o futuro deles. Nele estaremos na medida em que os auxiliarmos a tomar as suas decisões. Não as nossas. Esse é o Prazer.

Março

 

Março, em meados foi assassinado Júlio César que desejava permanecer no comando da República Romana até que ocorresse a sua morte. Assassinado por amigos, entre eles seu filho adotivo, sua vontade foi realizada, pois, após ele a República Romana deixou de existir, sendo o seu assassinato a prova definitiva de que aquela etapa da vida romana havia sido vencida. O governo de César apontava o governo dos césares. Março é um mês como outros, mas o pensamento mágico o liga a alguns acontecimentos que são tomados como prenúncio. Assim foi o 15 de março para César, assim foi 13 de março para Goulart. As vaias de março podem apenas significar as vaias de março para Dilma e não o retorno daquele que se recusou a ir. E é na segunda quinzena de março que termina um ciclo e inicia outro no calendário das religiões antigas

Em um desses março, foi escolhido um latino americano para assumir a liderança dos católicos e, parece que, desde então vem ocorrendo mudanças insuspeitadas e alento novo à Igreja Católica Romana. Nos anos da contracultura, período explosivo inicial de repúdio à Civilização Ocidental pelos ocidentais, a renovação da Igreja, ao menos na América Latina, decorreu da necessidade de defender politicamente os direitos humanos, resultados da criatividade ocidental, diante da barbárie que vinha sendo instalada desde a Guerra de 14 e quase cristalizada nos campos de concentração nazistas ou nos gullags soviéticos, cambdjanos e outros motivados pela leitura entusiasmada das utopias iluministas que reduzem alguns à servidão em nome de liberdades que, dizem, um há de chegar. Naquele momento os católicos animaram-se com a escolha de um padre originário de família camponesa, simples e gordo como se fora um avô que trazia novos caminhos e arejamentos. A Igreja renovou-se e, na América Latina ela tomou rumos políticos insuspeitados, pois a realidade no subcontinente era uma negação dos melhores sonhos da modernidade.   Daí a defesa dos Direitos Humanos, reconhecidos e alentados em uma declaração universal de 1948.

Mas os Direitos Humanos podem ser utilizados para defender os direitos de uma parcela em detrimento dos de outra parcela da humanidade quando apenas defendemos direitos em abstratos e sem considerar os fatos, a realidade objetiva, essa da fome de milhares de pessoas que não podem esperara próxima geração para saciar-se enquanto defensores dos direitos usam as palavras para defender seus interesses tribais. O papa que foi escolhido em meados de março de 2013 começou dizendo aos de sua tribo, especialmente aqueles com poderes efetivos, que mais que as argumentações valem os fatos da vida. Não tem validade argumentos usados por aqueles que enriquecem enquanto dizem fazer a defesa dos direitos dos pobres. Palavras devem vir acompanhadas por ações maiores que os interesses tribais, sejam elas sanguíneas, religiosas ou partidárias. Que bom que o mês de março pode nos trazer tantas novidades!

Neste março, mês de aniversários de meu pai, de irmãos, filha, netos e sobrinhos distantes, leio que a sobrinha Tatiana Nascimento recebeu mais um prêmio por seu trabalho como jornalista, escrevendo sobre o difícil caminho dos trabalhadores que constroem o Porto de Suape, em Pernambuco. Parabéns, Tati. Eu e meu irmão Doc estamos felizes.

Mad Maria, Mad Madeira, Mad Amazônia

Este é um artigo de Fernando Gabeira, no Estado de São Paulo, sobre as águas do Rio Madeira e a irresponsabilidades, em 14 de março de 2014

“Quem reconhece o drama, quando se precipita, sem máscara? Muitas vezes escrevi sobre o verso de Drummond. Não consigo esquecê-lo agora, navegando no bairro Triângulo, em Porto Velho, tomado pelo Rio Madeira, que já subiu 19 metros acima do nível normal. Milhares de desabrigados, milhões perdidos, estradas bloqueadas, centenas de cabeças de gado submersas, uma tragédia que passa em branco pelo radar dos políticos e intelectuais que conferem grande peso simbólico à região.

 

No momento em que escrevo, nem a presidente Dilma Rousseff nem seus adversários resolveram chegar por aqui para ver o que se passa e aprender um pouco com a crise. Mas essa vontade de não saber se estende também aos próprios empresários e habitantes da Amazônia, se olhamos para as duas grandes usinas construídas aqui: Jirau e Santo Antônio.

Não é sensato culpá-las pela enchente. Mas hoje podemos afirmar que os relatórios de impacto ambiental que as licenciaram ignoraram, por questões econômicas, a realidade mais ampla da Bacia do Madeira. Deixaram de lado o Rio Beni, que vem da Bolívia, e o Rio Madre de Dios, que vem do Peru – ambos concorrem para a formação do Madeira. Ignoraram, na verdade, algo bem mais consistente: a Cordilheira dos Andes. Essa escolha impediu que se preparasse melhor para uma grande cheia que conjuga um degelo maior nos Andes e grandes chuvas nas cabeceiras do Beni e do Madre de Dios.

O valor simbólico da Amazônia tem muito que ver com plantas e bichos. Os seres humanos que vivem aqui são coadjuvantes nas fantasias salvacionistas. Mesmo assim, se abstrairmos o bicho-homem, os outros também estão sofrendo. É triste ver o gado se afogando sem que se tenha condições de salvá-lo. Os milhares de jacarés do Lago do Cuniã foram arrastados do seu hábitat e lançados nas águas do Madeira. Eram explorados, com autorização do Ibama, por um frigorífico que também se afogou.

O que restava de um monumento da engenharia nacional, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, foi por água abaixo. Os poucos quilômetros de trilhos, as velhas locomotivas no pátio do museu, peças históricas, tudo isso naufragou. Obra em que morreram milhares, construída entre 1907 e 1912, a Mad Maria estava desaparecendo há muito tempo, até que afundou no Mad Madeira.

Os sucessivos governos de Rondônia foram incapazes de reconhecer o valor cultural da Madeira-Mamoré, algo que seria altamente recompensado com a criação de um polo turístico. Os 7 km de trilhos que restaram poderiam sustentar um passeio pela mata. Apesar de inúmeras tentativas, jamais se conseguiu reaproveitá-los.

É muito difícil um Estado como Rondônia se interessar pela própria História. Grande parte dos seus moradores não se identifica com ela, principalmente os mais ricos. De 40 governadores do Estado, apenas um foi enterrado por aqui, observa o historiador Antônio Ocampo.

Naveguei no Rio Madeira algumas vezes. Na década de 1980, com a ajuda do Sindicato dos Mergulhadores, publiquei na capa da Folha de S.Paulo algumas fotos espantosas: esqueletos em escafandros. É que durante a exploração do ouro os mergulhadores eram às vezes assassinados. Subiam com o ouro e, quando mergulhavam de novo, os sócios cortavam-lhes o oxigênio. Houve mortes também por excesso de trabalho, condições precárias.

Hoje não se procura mais ouro no Madeira. A riqueza vem da energia de suas águas represadas. As duas usinas, Jirau e Santo Antônio, podem produzir 6.450 MW, mas têm grande impacto no meio ambiente. É questão internacional, porque envolve também a Bolívia. E deveria ser reavaliada pelos governos. É preciso incorporar os Andes, o Beni, o Madre de Dios, enfim, fazer um estudo mais amplo para garantir que funcionem sem grandes danos.

Um técnico explicou-me um fenômeno chamado curva de remanso. Segundo ele, a água vem freando como se a informação da existência de uma barragem fosse transmitida rio acima. E isso provoca ondas.

No auge da crise, a Usina de Jirau acusou a de Santo Antônio de não ter avaliado bem os dados sobre volume e vazão e ter-se atrasado demais nas medidas de emergência. Não se pode simplesmente acreditar na versão de uma contra a outra. A verdade é que o bairro Triângulo, por onde já caminhei nos trilhos da Madeira-Mamoré, virou um rio com dois metros de profundidade.

Antes as famílias levavam cadeiras para os trilhos e conversavam nos fins de tarde. Hoje esse bairro – com lojas, salões de beleza, academias e agência de turismo – se tornou inviável. Algumas casas ficaram totalmente submersas. O Triângulo fica na margem oposta à da Usina de Santo Antônio e é agora uma área de altíssimo risco.

Como transplantar todo um bairro? A que custo? Um senador de Rondônia conseguiu em Brasília R$ 3 milhões para uma pequena cidade, seu reduto eleitoral, que não foi atingida pelas cheias. Até o momento em que deixei a cidade, Porto Velho havia conseguido uma promessa de R$ 600 mil e contabilizava um prejuízo de R$ 320 milhões.

Não acredito nunca no rigor dessas estimativas de prejuízo. Meus olhos dizem que foram altos, como devem ter sido altos para o Acre com os bloqueios na BR-364 e a inundação causada pelo próprio Rio Acre.

Foi um ano excepcional? Tudo indica que sim. Apesar do insucesso na Usina de Fukushima, os japoneses sempre se preparam para o pior tsunami. A Amazônia deveria preparar-se para a pior das cheias. Enquanto esquecemos a Amazônia real em nossos bares, a Amazônia se esquece de si própria e ainda destrói progressivamente sua memória. Mad Amazônia.

O boto-cor-de-rosa, que, segundo a lenda, seduz e engravida virgens nas margens do Madeira, também está com a sua reprodução ameaçada pela nova configuração do rio. Mas se o boto sumir, ainda continuará seduzindo e engravidando, porque, nesse caso, é só uma questão de acreditar.”

*Fernando Gabeira é jornalista.

A dor de Barbosa que o Brasil sentiu

Aloisio de Toledo César* – O Estado de S.Paulo

11 de março de 2014

Não esteve sozinho o ministro Joaquim Barbosa na dor estampada no rosto quando se deu conta de que o colega Luís Roberto Barroso, no voto proferido, absolvia José Dirceu do crime de formação de quadrilha e, assim, o deixava muito mais perto da porta de saída da prisão. A consequência desastrosa do julgamento atinge em cheio o Judiciário no momento em que recuperava sua imagem, tão desgastada.

 

Milhões de brasileiros que acompanharam a decisão final dos embargos infringentes, ao longo da última semana de fevereiro, sentiram a mesma indignação de Joaquim Barbosa e, se pudessem exprimir tal contrariedade, talvez gritassem em coro que está na hora de rever o critério de escolha de ministros para o Supremo Tribunal Federal (STF). Uma escolha que deixasse o escolhido livre de ter de pagar o favor da nomeação.

Serão beneficiados pelo amolecimento já sacramentado exatamente os políticos petistas que escandalizaram o País com sua conduta criminosa, porque permanecerão menos tempo detrás das grades.

No momento em que o ministro Joaquim Barbosa, referindo-se a Luís Roberto Barroso, falou em voto político, voto de interesse do Partido dos Trabalhadores, não disse nenhuma novidade, porque era exatamente essa a impressão causada por aquela decisão, proferida com certo pedantismo. Apesar do esforço de Barroso, não conseguiu o ministro propagar a ideia de um voto apenas jurídico.

O processo do mensalão, já tão velho, teve a incrível qualidade de demonstrar a existência entre os brasileiros de um sentimento nacional de justiça que pareceu estar adormecido durante décadas. À medida que o julgamento avançava, conduzido por Joaquim Barbosa, e indicava ser possível pôr gente rica na cadeia, esse sentimento de justiça se viu recompensado e fortalecido. Melhorava a imagem do Judiciário.

Quando já estava para encerrar-se, houve a necessidade de decidir se seriam recebidos ou não os embargos infringentes propostos por alguns réus, principalmente os que faziam parte do grupo íntimo do ex-presidente Lula. O risco desse julgamento estava na possibilidade de reduzir a pena dos condenados e livrá-los da prisão em regime fechado. Foi o que aconteceu.

Aparentemente sem remorso, e também sem se mostrar envergonhado, Celso de Mello foi o ministro que convalidou os embargos infringentes, admitindo-os, no ano passado. Como resultado, meses depois novos ministros nomeados pela presidente Dilma Rousseff, disciplinados como escoteiros, votaram a favor de deixar Dirceu mais próximo da porta de saída.

Imagina-se que entre os petistas tenha havido regozijo e festa, até mesmo porque a partir do final de 2014 o ministro Ricardo Lewandowski, que sempre defendeu José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, deverá assumir a presidência do Supremo. Com a decisão de procedência dos embargos infringentes, chegará o momento de exame do regime de progressão das penas. Enquanto o ministro Joaquim Barbosa se mantiver na presidência do STF, e na relatoria do processo, as facilidades ocorrerão de conformidade com o que diz a lei.

Há um cerco muito grande de políticos em torno do ministro Joaquim Barbosa, decorrente da imagem que construiu no País graças à sua conduta no Supremo. Os políticos oferecem-lhe apoio para concorrer à Presidência da República e/ou ao Senado, acenando, enfim, com a possibilidade de uma nova carreira pública.

Nascido numa região áspera de Minas Gerais, pessoa que sofreu na infância e na adolescência as agruras de uma vida marcada por preconceitos e privações, Barbosa acabou construindo com as próprias pernas uma linda carreira jurídica, cresceu aos olhos de todos e desfruta imagem pública raramente conseguida por outro brasileiro. Ele demonstra ter consciência desse respeito e talvez se sinta dividido entre a lealdade que deve à magistratura e à exortação, quem sabe tentadora, de uma nova carreira na vida pública.

Enquanto estiver como presidente do Supremo, Barbosa sabe que poderá exigir rigor no cumprimento das condenações. Mas quando passar o cargo ao colega Lewandowski a realidade poderá ser outra, porque a brandura desse ministro em relação a alguns dos condenados sugere o risco de ocorrer o oposto. Sem dúvida alguma os condenados, e seus advogados, estão ansiosos pela chegada de Lewandowski a presidente.

Diante desse quadro, é de esperar que Joaquim Barbosa se mantenha no Supremo, onde sua voz será sempre ouvida e poderá influir nas decisões. Eventual saída para carreira política significaria deixar campo aberto para excessos de bondade dos ministros tolerantes com os condenados. O seu mandato na presidência do Supremo expira no fim do ano. Caso se aposente antes, para assumir nova carreira no malvisto mundo político, o restante do mandato de dois anos será cumprido pelo mais antigo ministro, ou seja, Celso de Mello, e somente depois seria a vez de Ricardo Lewandowski, por dois anos.

Este ministro deverá assumir a presidência do Supremo numa época bastante delicada, quando José Dirceu e a sua turminha estarão lutando pela progressão das penas, algo que realmente preocupa. O exemplo de desprezo pela Justiça dado pelos líderes e filiados do Partido dos Trabalhadores – incluída a clara tentativa de desmoralizar as condenações com dinheiro arrecadado coletivamente, em tom de deboche, para pagar as multas dos punidos – deixa evidente a possibilidade de os condenados tentarem voltar, no futuro, a disputar eleições.

É possível que esse seja mesmo o sonho de cada um deles. Seria a forma de se vingarem dos que os condenaram e também de tentarem retomar o projeto de fazer do Brasil uma República socialista, preguiçosa e burra como Cuba ou, quem sabe, uma Venezuela ainda pior do que a que nos assusta a cada dia pela desordem, que chega a ser até maior do que a existente no Brasil.

*Aloisio de Toledo César é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail: aloisio.parana@gmail.com.

o medo do retorno de março de 1964

O mês de março deste ano de 2014 inicia com o sentimento do passado, um sentimento que leva alguns a imaginar que será reeditado o movimento de 1964. Esse sentimento tem sido alimentado por setores favoráveis e por setores contrários ao ocorrido naquele primeiro de abril que coroou as conspirações dos vencedores e dos perdedores de então. Embora o Brasil tenha dificuldade de aprender com os seus erros, assim como muitas outras nações, não há espaço para a reedição daqueles atos que levaram à ditadura que se solidificou em dezembro de 1968, um ano que para muitos ainda não terminou. Embora não seja prudente ficar anunciando o que vai acontecer ou que não vai acontecer, não vejo caminho para a reedição do passado, mas posso perceber que um discurso sobre essa reedição seja alimentado por um discurso que leva os mais inocentes que eu a acreditarem nesse retorno do passado: é que ele tem medo e alimentam esse medo, o medo de alguns que hoje estão no poder, vivem alimentando este medo para que possam ali manter-se. Em 1964 os golpistas usaram o medo do comunismo como grande mote, hoje parece que se está a cultivar o medo do anticomunismo. Os debates que estão sendo e serão levados a efeito, especialmente por historiadores, poderão estar marcados com esse tipo de medo, com os cientistas do passado desentendo o presente, mais informados por adesões ideológicas que por visitas aos arquivos. E digo isso sem negar que existam grupos de saudosistas inconformados com a sociedade criada a despeito de suas ações e vontades individuais. É certo que apesar de  o general Newton Cruz ter sido derrotado sempre existirão os que como ele entendem que a sociedade seria melhor com o Congresso Nacional fechado, mas esses grupos não têm possibilidade de enfrentar uma sociedade que, bem ou mal, está aprendendo a viver com a liberdade. Mas em nossa sociedade ainda há grupos que sonham com a possibilidade de terem a ditadura de proletários a definir e impor o que é o melhor para o ingênuo povo que precisa de babá e não de líderes. Devemos nos esforçar para evitar que as nossas reflexões históricas não se transformem em discursos histéricos por não serem mais históricos, ao tomarem por base discursos eleitorais e não realidades objetivas. Historiadores devem ser mais comprometidos com a busca da verdade histórica, embora como cidadãos tenham suas escolhas partidárias, mas se não souberem separar essas instâncias poderão tornar-se historiadores oficiais e, então perderão sua credibilidade histórica em troca da aceitação fácil nos espaços da conjuntura atual.

A pedagogia do medo não deve fazer presença em nossas comunicações nem em nossas salas de aulas.

 

Carnaval e educação

É impressionante o que eu vi, ao tempo que ouvi, durante três dias de carnaval em uma cidade litorânea da Paraíba. Foram dias e noites de um só ritmo, uma única e medíocre batida, a suingueira. A palavra sugere balanço e ele pode ser visto nas ancas de rapazes e moças, sendo que os rapazes conseguiam ser mais flexíveis que as moças. Elas paravam para observar como dois rapazes se completavam – côncavo e convexo, e então treinavam entre si. Muito criativo.   E depois vinha outro “trio elétrico” e, com ele a mesma batida, rapazes semelhantes, e moças bonitas. Muito bonitas as moças. As do lugar bem que eram tabajaras com seus longos cabelos negros, ajambadas na cor de pele macia ao olhar. Rapazes oxigenados na ânsia de chamar atenção: “somos dinamarqueses”, “suecos”. Os corpos desnutridos diziam que não. É interessante a quantidade de homens negros com a calvície encomendada ao barbeiro. A cada dois dias uma navalhada.  A impressão é que deixam, a mim, é a necessidade de esconderem o que a natureza lhes pôs acima do cucoruto, o cabelo pixaim que os colocam distante do ideal branco europeu. Como dói essa ausência de identidade!

A batida suingueira repetida ficou de tal modo em minha mente eu sonhei com as aulas de Educação Artística. Sei que esses rapazes, em algum momento foram alunos das escolas públicas e, com certeza tiveram aulas dessa disciplina que lhes devia educar a sensibilidade para as artes, proporcionando-lhes a oportunidade de ler sobre teatro (já não digo fazer pois nossas escolas não possuem espaço para esta atividade), ver pinturas, esculturas, ler poesias, ler romances, ouvir músicas de diversos estilos e épocas, etc.. Mas provavelmente nada disso ocorreu como bem demonstra o apego a essa batida única e medíocre que toma conta dos espaços nos cérebros e corpos dessa geração. Os professores foram ensinados que não devem ensinar,  apenas estimular o que as crianças e jovens que lhes são entregues já fazem e sabem. Assim é que nas festas populares os prefeitos, em grande número, para garantir esses votos possíveis, financiam bandas ridículas e medíocres e distribuem camisas para o sexo protegido. É isso que lhe dá a impressão de serem progressistas. Mas auxiliam a cristalizar um passado que permitia apenas uma conduta, a da aceitação daquilo que cai da mesa do seu senhor. O mais triste é o silêncio medroso que permite o crescimento do poder do barulho como música ou arte.

Leio que não houve morte em Olinda, PE,  durante o carnaval. Isto é bom.

Ouvir sobre o carnaval

http://radiojcnews.ne10.uol.com.br/2014/03/02/historia-do-carnaval-tem-origens-na-antiguidade-e-chegou-ao-brasil-durante-a-colonizacao/

Lembranças de carnavais

Nesse período carnavalesco que antecede o carnaval fico sem graça. Como bom Pernambucano espero “um ano e se mete na brincadeira, esquece tudo” , costumo acreditar que “carnaval só tem três dias, foi um anjo que inventou”, oração aprendida em umas das canções de Nelson Ferreira, dessas que eram cantadas nos bailes de carnaval, aqueles em orquestras, um cantor e uma multidão de palhaços, artistas, gente alegre dançando nos salões. Também era comum ouvir as canções nos rádios e nas ruas, meses antes do carnaval, quando chegava o tempo do carnaval todos sabiam e cantavam as músicas. Havia aquecimentos nas sedes dos clubes, uma preparação, mas nada espetacular. Na rua, a aproximação do carnaval era notada por causa do barulho de crianças e adolescentes, com latas nas mãos, a barulhar, na semana pré o canto “a la ursa quer dinheiro, que não der é pirangueiro”. Nas cidades e nos bairros, os “donos” das agremiações saiam com o livro de Ouro, em busca de apoiadores – comerciantes, vereadores, gente do povo ajudando a festa do povo. Era o tempo do rádio, quando ainda não havia a antecipação do futuro.

Não sei, mas pode ser que o carnaval foi ganhando as semanas anteriores ao período oficial do festejo com a criação da “semana pré-carnavalesca”. Depois veio a pré da pré e, o carnaval foi espichando para traz, tornando sem sentido a figura do Zé Pereira abrindo o carnaval. Como abrir o que já estava escancarado, com a emulação dos grupos de amigos aninhando-se em feijoadas que foram se tornando “troças”?  Vai ver que o carnaval foi se reinventando, voltando às origens europeias, de ter uns dias para zombar das autoridades. Afinal, os carnavais de minha juventude coincidiram com os “tempos de chumbo”,  eram os tempos da ditadura militar e os tempos da “abertura”, e  recordo a piada que se fazia a respeito dos policiais destacados para garantir a segurança do folião: eram sempre os ganhadores da melhor fantasia de grupo. De uma só tacada zombava-se a repressão e o Bal masqué e o baile municipal, em uma época em que desfilantes mostravam-se para as pessoas foliãs e não apenas para o júri e as câmaras da televisão. Interessante é que o primeiro baile municipal do Recife foi umas das últimas realizações do governo popular de Miguel Arraes. Teria sido o “baile da Ilha Fiscal” em uma nova versão? Mas eu jamais fui ao Baile Municipal, auxiliar a angariar dinheiro para associações caritativas. Vi alguns momentâneos apresentados na televisão. Talvez não por opção, pois jamais procurei saber o valor dessa caridosa contribuição.

Na maior parte dos carnavais vivi na rua, acompanhando Pitombeiras e Elefantes em Olinda e, na terça feira acompanhava os desfiles dessas e outras – Marim Dos Caeté, Tribo Cariri – na Avenida Getúlio Vargas. Lembro de um baile no Internacional, outros no Esporte, Náutico com meus irmãos e, no Santa Cruz e Paz Douradas, eu sozinho com a multidão. E foi assim que começamos o Nóis Sofre mais nós goza, um bloco anárquico carnavalesco que começou a reunir, no final dos tempos de chumbo, professores e outros intelectuais em torno da Livraria Livro 7. Foram anos interessantes, inclusive desfilando na Escola de Samba Gigantes do Samba, saindo da Maciel Pinheiro e, gloriosamente, avançar sobre a Rua da Imperatriz, a Ponte da Boa Vista, Rua Nova e chegar a Dantas Barreto. E havia o desfile dos blocos, troças, ursos que íamos assistir com os filhos em crescimento, na companhia do compadre Zé Nivaldo, e comadre Fátima. Mas então o Galo da Madrugada foi expandindo e conseguiu espaços sociais e políticos que ampliaram o seu terreiro, a madrugada foi tomando o dia imperalisticamente, sufocando os desfiles dos maracatus, que inventaram ou reinventaram uma devoção sincrética na Noite dos Tambores Silenciosos. Mas o Galo é o sobrevivente de outros blocos como a Língua Ferina, a Gota D’água. O jeito foi ir-se arrumando por outros lugares com o Recife e suas pontes sendo fechadas para a exibição do Galo em seus trios sufocadores das orquestras de chão. Olinda foi virando reduto de muitos que dizia “Eu acho é Pouco”, pois havia pouco espaço para “Siri na Lata”. Zombando de presidentes, inventou-se o “Cheiro do Povo” e, no Engenho do Meio, o Cabeça de Touro descobriu seguidores insuspeitos que aumentam em número até os dias de hoje, uma semana antes do Galo; em Água Fria, foram se juntando Os Irresponsáveis” pensaram que podiam superar o Batata e o seu “Bacalhau na Vara”, mas foram surpreendidos pelos Desfile do Boi da Boa Hora, em Olinda. O carnaval espichou para traz e para frente, esvaziando as cerimônias da Quarta Feira de Cinzas.

Hoje, ainda nem começou o carnaval e já vi uma reportagem na televisão informando que nesta páscoa o consumo de Ovos de Páscoa tem diminuído por causa da qualidade dos chocolates, pois fica mais em conta comprar um bom tablete do que ovos de chocolate. As crianças receberam os mais baratos. Durante a Quaresma ocorrerá “carnaval fora de época”. Como se vê, logo depois do carnaval, terá início as vendas de fim de ano e a preparação para o reveilon.