O País da Coconha

janeiro 16th, 2021

Quinze dias se passaram desde que o ano de 2021 teve início. Quando ocorreu o mágico momento em o ponteiro que marca os segundos, eram muitos os pensamentos positivos e as preces que pediam, aos muitos deuses e deusas, um ano melhor do que aquele que estava finando. 2020, ao finar-se deixava uma marca triste no número de finados, de pessoas que deixaram de ser, que passaram a ser lembranças, para os que lhes conheciam e, com eles, dividiram parte de seu tempo e, é quase certo, sonharam alguns sonhos, tendo alguns deles sido materializados. Mas, os mais otimistas entendiam que haveria muitas repetições das dores que a peste traz.

As alegrias, sabemos, são pequenas flores que aparecem nos jardins, em uma brava luta contra o que se convencionou chamar de erva daninha. Elas são sempre em número maior que as flores de nosso agrado. Aliás as flores que nos alegram quando olhamos nos  jardins, só o fazem porque nos dedicamos a elas. Muita gente é feliz sem saber, ou pensar, que o que lhes traz felicidade é resultado de seus esforços. Também os sofrimentos. Fala-se que o Conselheiro Acácio costumava dizer que “as consequência chegam depois”. Assim sendo, as dores de 2020 e dos anos que seguiremos, são resultantes da ação de cuidarmos das flores ou deixarmos crescer as ervas daninhas. O que dói é admitir que se existem esses sofrimentos, esses acontecimentos indesejáveis que nos molestam hoje, eles foram cultivados, foram desejados, de alguma forma, nos anos anteriores.

O ‘País da Coconha’ quem não o deseja? Os brasileiros, talvez mais que qualquer outro povo o deseja, até mesmo mais do que aqueles que o inventaram, o imaginaram. Pintores europeus mostraram esses sonhos, os representaram com lavradores deitados na relva, e em êxtase viam as galinhas já greladas vindo na direção de sua boca para satisfazer seu apetite. Os lavradores sonhavam isso, pois viam isso ser vivido pela nobreza que, não trabalhando na terra, recebiam os alimentos em suas mesas tendo, no máximo, de fazer o esforço de leva-los à boca para o supremo trabalho de mover as mandíbulas e, com a língua, empurrar o alimento para o estômago.

O que parece é que os vieram da Europa para formar o Brasil trouxeram em sua mente o País da Cocanha e uma certa Visão do Paraíso, julgaram ter encontrado o lugar da benção inicial, e pensaram e agiram como se na Cocanha tivessem chegado. Não, eles não eram nobres, os que vieram para o Brasil, era gente que se enobreceu na guerra de conquista do litoral africano e em algumas regiões da Ásia, então criaram para si o que julgavam ser o mito. Para tal passaram a explorar, sistematicamente, os habitantes da terra e, mandaram buscar, no outro lado do Atlântico, gente para substituir os nativos. Começara o processo de substituição de tecnologia para a produção e, desde então, isso é pago com o preço do atraso. Daí, quando não mais puderam ficar com Portugal lhes tomando parte do que lhes cabia, promoveram a ‘separação’ e desde então não se envergonham de dizer que estão “deitados eternamente em berço esplêndido, ao som do mar e à luz do céu profundo”.

Com mesma tranquilidade de sempre, seus descendentes continuam fazendo pouco caso das mortes dos que produzem a riqueza para que eles se empanturrem de comida e bebida. Daí o descaso com que tratam a pandemia Covid 19, colocando a economia acima da vida dos trabalhadores. Se fizeram isso com os nativos escravizados, com africanos escravizados, continuaram a fazer com os moradores arrendatários, e o fazem atualmente com os motoristas e cobradores de ônibus, com os frentistas, com os empregados e empregadas domésticas, com os entregadores de comida pronta, com os comerciários. Animados pelos novos godos, os comerciantes e industriais exigiram, continuam exigindo, que as atividades econômicas não parem, para que seus lucros não cessem. Talvez até estejam fazendo cálculos para saber qual o ganho da Previdência Social com a morte dos mais velhos. Só eles podem envelhecer, ainda que vilmente.

Mas estamos no final da primeira quinzena do mês de janeiro, o mês daquela deusa que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, que só percebemos quando presente. Enquanto ele não existe é apenas desejo.

Os habitantes de Coconha não formam uma nação, pois uma nação é formada por pessoas que se juntam para realizar o sonho comum e o fazem solidariamente, mesmo quando  não em igualdade total. Uma sociedade na qual apenas uma parte tem acesso aos bens criados por todos, uma sociedade que se comporta como Siris na Lata, uma sociedade que não admite o mínimo de solidariedade e reconhecimento do outro, jamais será uma nação: será sempre um grupo de exploradores que cultiva o egoísmo, que aceita negar a dor do outro. Coconha é uma sociedade de necrófilos, de genocidas. O Paraíso, mesmo para os exploradores é um inferno, como disse um cronista dos tempos em que Portugal explorava essa região do globo: o Brasil é o paraíso dos mulatos, o purgatório dos brancos e o inferno dos negros. Por isso temos Manaus. Vocês sabem, Manaus era uma nação indígena suprimida pelos sonhadores de Coconha.

Continuamos assim, neste início do século XXI. Vemos que os que estão no poder de Coconha carregam inveja dos mulatos; continuam a tornar um inferno a vida dos negros, mas jamais sentem-se no paraíso, que continua sendo uma Visão, como dizia aquele historiador respeitável. Mas é um paraíso que jamais será alcançado pois eles tudo farão para tornar a vida de todos um inferno, criando dificuldades as mais diversas, inclusive para o acesso à vacina. Mas isso não os fará felizes, seu líder continua desejando uma praia. Em outros países que também vivem da exploração de seus compatriotas, mas que se esforçam para ser uma nação, os líderes cuidam para que o seu cotidiano sofrido não seja definido como inferno. É que eles não sonham com Coconha.

Início do séc XXIa – Dia de Reis

janeiro 9th, 2021

Correu a primeira semana e, podemos dizer que foi um fecho formidável do diminuto século XXIa. Os acontecimentos em Washington, DC, sob a liderança de Donald Trump, a escalada do Capitólio por uma pequena multidão de seguidores do atual presidente dos EUA, marcam o fim desse pequeníssimo século, que pôs gananciosamente as garras à mostra, explicitando o que pode ser  esperado daqueles que herdaram a glória de Búfalo Bill, a batalha de Little Bighorn (1876) e sua exaltação à morte. A invasão da Casa dos legisladores marcará o fim do governo Trump, embora possa vir a firmar a sua liderança mais ativa nos movimentos populistas, agregadores dos WASP mais pobres e abandonados, dispostos a arrancar o que ainda sobrou dos índios, latinos e afro-americanos.

No sul dos Estados Unidos, na terra de George Wallace, aquele que em 1962 recusou a política de integração racial, perseguia os seguidores de Martin Luther King Jr., e foi candidato a candidato à presidência com o  slogan “segregação antes, segregação agora, segregação sempre”, nos idos de 1972, no Estado de Geórgia, ocorreu a eleição de um pastor negro, Raphael Warnock, para o Senado. Assim, enquanto os supremacistas brancos e outros grupos marginais e marginalizados pela política excludente dos EUA exibiam a truculência trumpniana, os eleitores de um dos estados mais racistas daquele país, apontavam para a construção de uma sociedade possível, mais inclusiva, mais aberta para os valores que vêm sendo construídos a cinco séculos, ou mais. 0 seis de janeiro de 2021 pode vir a ser considerado um novo marco na sociedade ocidental, um marco dos limites das práticas antigas.

No Brasil, o dia seis de janeiro pode vir a ser um dia memorável para a sociedade brasileira, para a comunidade científica brasileira, pois foi anunciado que o trabalho desenvolvido pelos cientistas do Instituto Butantã foi coroado de êxito, a vacina, desenvolvida naquele instituto, para controlar a expansão do Novo Corona Vírus foi bem sucedida. Uma vitória contra o vírus da natureza e, também, uma vitória sobre o vírus da ignorância, capitaneada pelo presidente Bolsonaro, um seguidor fervoroso do fracassado presidente Trump, dos EUA. A vitória dos cientistas do Butantã servirá de alento para os professores, formadores de cientistas, em uma nação que, desde a sua fundação, tem posto a educação de si mesma como algo irrelevante, uma vez que os que dela se fizeram senhores, sempre colocaram a sua economia pessoal acima do em comum. Quando o presidente Bolsonaro repetia durante o ano de 2020 que estava pensando na economia, e foi respaldado pelos que controlam o poder econômico, estava pensando na economia de sua família e dos grupos que nunca desejaram incluir o povo brasileiro no Estado Brasileiro.

Em algumas regiões do Brasil, a Festa dos Reis é o momento de visitar e receber a visita dos reis em suas casas. É um momento de júbilo, e cada casa é um “oratório onde Deus fez a morada” e todos são o menino que recebe os reis, e reis que visitam o menino. A festa dos Reis é festa de anúncio de tempos novos, é a esperança de que novos mundos ocorram e todos sejam acolhidos. É uma profecia? Talvez, pois todo desejo é uma abertura para a sua realização que às vezes não ocorre por medo da sua realização. Sim, nós temos medo do futuro que desejamos, pois, interessante é que não sabemos como seremos nele. Entretanto continuamos a desejar, a querer que os reis nos visitem com seus presente e que, também nos tornemos reis visitantes, eternos visitantes nessa casa “onde Deus fez a morada”.

Século XXI.a

janeiro 1st, 2021

E vai terminando no ano de 2020, pondo fim à segunda década do século XXI que, parafraseando Hobsbawm, pode-se dizer que agora é que começou o século XXI, o terceiro milênio, após a experiência da pandemia do Novo Covirus, apresentado ao mundo no final do de 2019, daí ser vulgarmente conhecido como covirus19. Assim teríamos um século intermediário, esse que se põe entre o final da experiência dos Soviets, popularizado pelas imagens da quebra e queda do Muro de Berlim, construído no final dos anos cinquenta. A construção do Muro foi uma explicitação física da separação ideológica entre duas partes da cultura ocidental. A queda do Muro, para alguns teria sido a vitória da ortodoxia capitalista, a derrota da heresia marxista/leninista/Stalinista que buscava um ocidente alternativo, sem o dogma da Propriedade Privada. Falou-se, e foram gastos rios de tinta publicando o fim da história, o fim dos conflitos, no pensamento de historiador do Departamento de Estado dos Estados Unidos. Os anos seguintes ao término do curto século XX, seriam os do século XXI, de acordo com o historiador inglês mais popular no Brasil.

Um novo mundo teria começado, após a liquefação do Muro da Vergonha, como o apelidou, o mais jovem presidente do Estados Unidos da América. E com esse encurtamento do século XX, podemos imaginar que tivemos um século XXI.a que poderia correr até o final de 2020, quando foram anunciadas a conclusão de pesquisas que criaram as vacinas  para derrotar a peste que ocorreu no ano da conjunção dos planetas, graciosamente chamada de Estrela de Belém. E agora começaria o século XXI, a famosa Era de Aquarius. Será?       

Essa nova Era de Aquarius seria, dizem os estudiosos esotéricos, marcada pelo ilimitado e pela ascensão dos Direitos Humanos e das maiorias; estaríamos entrando em um Marco Zero, na possibilidade de tudo iniciar uma nova chance para a humanidade. O que isso quer dizer? Nada. Pois se o ano fiscal terminou, se o ano meteorológico  terminou, a pandemia não terminou, e o hábito de se ver como o único centro do mundo, manteve-se firme entre os que, no Brasil, pensam que são ricos, que julgam contar com a proteção especial de uma divindade que os teria escolhido para sobreviver e dominar o mundo. Claro que há ricos no Brasil, mas esses não são tão numerosos a ponto de formarem essas multidões que vemos nas festas não autorizadas em casas alugadas aos ricos, para que esses abençoados pela força da natureza não percebam que o “seu capitão’ os está conduzindo para a construção de uma sociedade que busca atender apenas os instintos e pulsões de morte.

Não podemos dizer que esse século tampão tenha terminado com o início da terceira década. A primeira e famosa era de Aquário, nos anos sessenta, veio acompanhada com jovens dançando pelo fim da Guerra no Vietnã, com os Hari Krisna e seus sinos ocupando as ruas, com os ritos da morte comandado por Jin Jones. Essa pandemia atual vem se mantendo com a competente ajuda dos Mileniais (geração Y) e pela Geração Z, os que gostam de fazer experiências individuais coletivamente e os que são consumidores de verdade. Talvez estejam levando ao extremo a liquidez da sociedade, enquanto criam novos valores e, portanto uma nova sociedade.

Os que pesquisam esses grupos para entender como o mercado deve comportar-se com eles nos dizem que sua filosofia é o YOLO (You Only Live Once – Você Vive Só Uma Vez). O que isso pode significar em termos de compreensão de responsabilidade social, é que veremos quando superarmos esse minúsculo século XXIa.

Reflexões do natal 2020

dezembro 20th, 2020

Com a aproximação do final do ano é quase um truísmo a necessidade, ou o hábito, de volver o olhar para os últimos 360 dias vividos, ponderando o que foi realizado, qual o custo e peso dessas realização nas nossas vidas pessoais. Creio que faremos isso, mas este ano, os bens e os males vividos sé poderão ser contabilizados se vierem acompanhados de uma reflexão sobre os bens e os males sofridos neste 2020,  o ano da pandemia, da doença que afetou a toda a população da terra, lembrando a todos que somos mortais. Sempre soubemos que somos mortais, mas faz algum tempo que a morte tornou-se apenas mais um episódio, como muitos que ouvimos falar. A cerca de trezentos anos a civilização  Ocidental começou a dominar os caminhos, os atalhos, que podem tornar o encontro com a  “noiva de todos” algo mais distante no tempo. A produção de alimentos, mudanças nos hábitos diários de higiene, a expansão do conhecimento sobre os seres vivos, todas essas práticas e muitas mais, auxiliaram a muitos a conviver com a morte muito raramente. Primeiros ocorreu a diminuição de mortes de recém-nascidos e de parturientes em hospitais, seguiu-se, embora mais lentamente, a diminuição de mortes infantis nos primeiros anos de vida, graças a melhor alimentação e cuidados. Mas inicialmente isso foi sentido em pequena parte da população, os que sempre tiveram um pouco mais de bens materiais que outros. Esse grupo ouvia falar da morte, dos outros. A pandemia do ano de 2020, o Novo Coronavírus conhecido em 2019, empurrou a morte, inicialmente para dentro das casas dos mais abastados, dos que viajavam os quatro cantos do mundo. Esses foram surpreendidos pela morte, e relutaram muito em admitir que foram os vetores que levaram a morte para os mais pobres. Depois todos ficaram mais vulneráveis à morte que, em condições naturais, não faz diferenciações sociais.

 

Ao final deste ano serão contabilizadas milhares de mortes, no Brasil talvez chegue-se a 200.000 pessoas mortas. Sim, são muitas mortes para uma civilização que havia colocado a morte em situação secundária, e as existentes, ocorriam em países fora do perímetro da civilização ou, internamente, nas regiões mais periféricas. A morte por Covid 19 não é periférica, como não é periférica a insensibilidade de alguns dirigentes de países, como o Brasil. Mas esses não chegaram ao cargo máximo da República por um ato de magia, mas por um ato de vontade dos cidadãos que votaram. Claro que os que decidiram não votar, não tomar uma decisão, votaram e decidiram aceitar o que a maioria dos votantes optaram. Seja dizer: neste final de ano deve-se admitir que o presidente que não se incomoda com a morte dos cidadãos brasileiros é o representante dos cidadãos, embora uma minoria destes não aprovara a indicação do candidato. Nota-se, também, que os 51% da população que aprovara o nome do atual presidente, está, neste momento, restrito a cerca de 35%. Esses continuam apostando que é correto deixar morrer mais algumas pessoas, concidadãos seus, evitando ou atrasando o processo que os levem à vacinação.

 

E aqui é o momento de lembrar coisas boas que ocorreram neste ano tão difícil. Os cientistas pesquisadores na área médica e farmacológica conseguiram, utilizando os meios que as múltiplas áreas do conhecimento colocam à disposição, avançar o processo de produção de vacinas, com o objetivo de diminuir os malefícios causadas pelo Novo Coronavírus. Este é um longo caminho iniciado em 1786 quando o médico Edward Jenner estabeleceu a primeira vacina, que foi contra a varíola. Com as vacinas foram evitadas muitas mortes, pois que elas tornam a pessoa que a recebe imune à doença. A criação de uma vacina toma tempo, e assistimos neste ano o uso intensivo de tecnologias com o objetivo de criar uma maneira de diminuir os danos sociais e pessoais que uma peste provoca aos indivíduos e à sociedade. Esta cooperação, e emulação de laboratórios para a criação de vacinas, é uma das boas coisas a lembrar este ano.

 

Um ponto especial foi a preocupação com os estudos dos que estão em formação. Afastados das atividades normais de ensino/aprendizagem, alunos e professores viram-se desafiados a encontrar meios e métodos novos de transmissão e produção de conhecimentos. Professores que recusavam o uso das modernas tecnologias, alguns que diziam que não iriam saber como dar aulas usando tais meios tecnológicos, descobriram novas habilidades e possibilidades: atualizaram-se, superaram medos, criaram suas novos caminhos. Mas então escancarou-se o despreparo das escolas públicas e privadas, as redes de ensino brasileiras, estão defasadas tecnologicamente, algumas haviam feito uma atualização rasteira e sem profundidade. Agora podemos entender melhor que o Brasil, os brasileiros, não investem em educação, em ensino, em pesquisa. Aliás, neste campo assistimos o presidente da República perseguir juma instituição de pesquisa, recusando aceitar os resultados positivos que ela tem apresentado na busca de uma vacina. Digo assistimos, porque não houve uma reação dos políticos contra as ações anticientíficas do presidente. A Covid 19 nos mostrou que os políticos são inoperantes para defender a república, preferindo seus interesses partidários e pessoais.

 

Outra lição positiva ao lado de um extremamente negativa. Vimos como alguns políticos desviaram verbas destinadas a diminuir os efeitos da pandemia. Foram secretários de saúde os maiores criminosos, mas sob a proteção de algum governador e a atuação do capitalista, daqueles que engolem a vida dos outros para enriquecer as suas contas bancárias e, com suas esposas e filhos, brindarem à morte que lhe garante a vida fácil e desonesta. Positivo foi o modo exemplar de médicos, enfermeiros, serventes, auxiliares de serviços gerais, motoristas de ambulância que, arriscando suas vidas, muitos morreram, para diminuir o sofrimento.

 

Os que roubaram e enganaram o povo, esses terão o natal de noel, dos presentes, dos objetos. Que sejam felizes ao seu modo.

Com essas reflexões neste domingo, quero lembrar e desejar a todos um FELIZ NATAL DE JESUS, a simplicidade da vida que, apesar dos Herodes e Pilatos, a todos conforta. Que a Paz do NATAL DE JESUS esteja na casa e em cada um.

Patrimônios Vivos

dezembro 4th, 2020

Notícia auspiciosa recebo agora. O Conselho de cultura de Pernambuco acabou de escolher dois novos Patrimônios Vivos: As Pretinhas do Congo de Goiana e o grupos de São Gonçalo de Itacuruba. Embora não tenha tido participação direta no encaminhamento do pedido, satisfaço-me por ter, em 2006, publicado o artigo UMA DEVOÇÃO DOS POBRES: A DANÇA DE SÃO GONÇALO, ( História das Religiões no Brasil, Vol. 4, [331-346], org. por Sylvana Brandão, Editora Universitária, UFPE) a partir de minhas pesquisas na região do Médio São Francisco, e ter convivido alguns bons Momentos com Seu Jerônimo e participado de muitas rodas com o seu grupo. Na ocasião também conheci a IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS, de Floresta, e soube que artigo meu, publicado em uma jornal experimental dos estudantes de comunicação da UFPE, no qual comentava na única festa dos Reis do Congo que se mantém e mantém sem a carnavalização, foi utilizado para o reconhecimento daquela instituição como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Tive, também o prazer de escrever e publicar pela Editora da Associação Reviva, com o patrocínio da FUNDARPE, o livro UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE: AS PRETINHAS DO CONGO DE GOIANA, no ano de 2011. Ainda feliz por lembrar que acompanhei as Pretinhas do Congo do Baldo, sob a liderança do Mestre Val, em visita que fizemos à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Floresta; ajudei a promover o seu encontro e agora as duas são reconhecidas como Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana. Muito feliz por ter promovido esses encontros e, ajudado a revelar, para além dos seus espaços, a importância que esses mestres e pontos de renovação e permanência da cultura para nós que entendemos e amamos o Brasil para além das praias, dos lugares elegantes e eurocentrados.  VIVA O POVO BRASILEIRO, viva a nossa cultura.

O 20 de novembro que sonho

novembro 20th, 2020

Semana da Consciência Negra, período do ano no qual se deve pensar um pouco mais no quanto somos negros, no Brasil. Claro que os que perambulam pelos Centros de Compra (diz-se Shoping Center)  em busca de liquidação (agora se diz Black Friday – uma sexta-feira negra), só rapidamente percebe gente de cor nos corredores. Historicamente fomos nos formando assim: vendo o mundo de pessoas brancas com alguns manchas negras e pardas perambulando com seus uniformes que os diferenciam dos não uniformizadas e entre si, de acordo com sua ocupação, sua tarefa, naquele lugar. Os uniformes são visíveis e passam com desenvoltura silenciosa e prestativa. Vez por outra aparece alguém de cor não branca sem uniforme e, dependendo do humor de quem o ver, pode ser parado para um pequeno inquérito que desvende sua presença. Caso seja jovem  e desacompanhado, problemas podem vir à tona, sim, os problemas criados pela nossa formação, como povo e como pessoa. Esta é uma semana para refletir um pouco nesse descompasso.

Meu filho mais jovem, oito anos, veio perguntar-me: Biu, é verdade que maltratavam muito os negros no Brasil? Disse que sim, que os maltratavam bem mais do que hoje; que seu trisavô havia sido escravo, escravizado, pois deve ter nascido alguns anos antes da Lei do Ventre Livre (1871), bem como seu tetravô, que possivelmente nasceu após a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que proibia o comércio internacional de escravos. Esses dois antepassados sofreram bem mais que o seu bisavô (José), pois este já nasceu livre, nos primeiros anos da República.

Meu filho vez por outra pergunta, porque alguns de seus irmãos e tios têm a pele mais branca que a dele, a do seu irmão e a minha. São esses segredos da genética que expõem a intensa troca de informações realizadas pelas gerações anteriores e nos fazem um país multicolorido e, também multicultural. Essa troca genética ocorreu mais, e é mais notada, nas regiões de Pindorama que foram ocupadas primeiro pelos europeus, especialmente o português. Afirmar que houve essa troca genética para a criação do brasileiro, não significa dizer que ela foi realizada de maneira consensual, pois o intercâmbio genético tem, como principal fator o homem branco, não a mulher branca, que era em pequena quantidade nos anos iniciais da colonização portuguesa. Somente nos século XIX, com a chegada de uma grande quantidade de emigrantes vindos da Itália, Alemanha, Suíça, Polônia e outros países, que aqui chegaram com suas mulheres e filhos é que ocorreu um aumento substancial das pessoas de pele branca. E eles ficaram isolados em suas colônias, reproduzindo a mesma sociedade vivida na Europa. Foi pequena e pobre a troca genética e cultural. Eram poucos os negros entre eles, e quase sempre em condição de escravidão. O Brasil mestiço, mulato, é encontrado no Recife, em Salvador, São Luiz, e outras cidades do Nordeste, também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas sempre em condições periféricas.

A mestiçagem biológica não significou uma adesão à cultura dos índios e dos africanos que foram trazidos para o trabalho escravo. Sempre houve um muro sociocultural que nos separa de alguns ancestrais, os ancestrais dos primeiros habitantes e os ancestrais dos africanos. Durante anos, em nossas escolas, os padres católicos, os pastores protestantes, os legisladores, não cuidaram de nossas ancestralidades, cuidaram de nos mostrar apenas aquela que veio da Europa. Embora sempre houvesse havido pessoas que chamaram atenção à presença e contribuição de índios e negros na nossa formação, é apenas na segunda metade do século que este movimento é fortalecido socialmente. A quebra das cancelas culturais garantidas pelo isolamento geográfico das populações, desanuviaram muitas mentes e corações. As migrações internas, os boias-frias, esses trabalhadores transportados em caminhões para atender os interesses de fazendeiros, foram dando nova visibilidade aos brasileiros mais coloridos, morenos, pardos, cafuzos, negros. Seus costumes, suas tradições passaram a ser estudadas a partir e para eles mesmo, e foi sendo assumida a ideia de que o Brasil tem muitas culturas e muitas tradições que foram submersas pelo projeto de fazer o Brasil, país de uma só cultura e, apesar do que sempre disseram os olhos, tentaram fazer-nos o país de um cor única.

A movimentação geográfica foi acompanhada de movimentos culturais e, os grupos foram surgindo no processo de descolonização interna, ao mesmo tempo que estava sendo realizada da Descolonização da Ásia e da África.

Com processo de Descolonização em andamento tivemos, como consequência, a exposição dos conflitos “invisíveis”, dos choques que existiam mas não eram comentados, apurados. Famoso foi o caso de uma senhora de fina estampa que colocou em colégio para a alta burguesia fluminese, o filho de sua empregada, logo expulso, por ser negro. Uma situação que gerou o primeiro caso de racismo julgado no Brasil, em 1955. Os donos do colégio foram presos, segundo a Lei Afonso Arinos, criada anos antes, que definia o racismo como crime.

O caminho das artes foi uma das rotas seguida para a apresentação das cores e sofrimentos sociais dos coloridos brasileiros. A música, o cinema, o teatro, a poesia, a dança, entre outros, foram espaços sócio-culturiais galgados pelos negros e mestiços brasileiros. Os esportes foram desde o mais antigo passado, uma atividade das elites, mas é o futebol, esporte que foi tomado pelos operários, tornou-se o espaço onde mais brilharam os negros, em uma época de terrenos baldios, próprios para o divertimento dos pobres que aprimoravam o modo de jogar e, em 1958, a seleção de negros, mestiços e brancos derrotou o modo europeu de jogar. São tantos os negros que tornaram o Brasil visível, para si e para o exterior.

E, então, vieram os tempos das conquistas educacionais, a ocupação dos bancos escolares, uma vez que os novos tempos forçaram os donos do poder a colocar escolas na favelas e periferias que o progresso e o enriquecimento de alguns. Sim, no início do século XX tivemos um presidente negro, mas o poder não está na presidência, está no Parlamento; este é um espaço que deve ser conquistado pelos brasileiros de todas as cores. Temos alguns deputados e vereadores negros, mas alguns deles ainda pensam como se o país fosse de apenas uma tradição, aquela que foi apontada pelos primeiros criadores da história do Brasil, uma história da tradição branca, como a proclamada por um cidadão “preto de alma branca” que foi posto na presidência da Fundação Palmares.

Quando olho para meus filhos e netos coloridos, meus sobrinhos brancos mestiços, penso que não desejo um Brasil Preto no Branco, nem Branco no Preto; tampouco desejo um Brasil bicolor, pois isso é falso, é um “brasil/colônia”. Desejo um Brasil ecumênico nas suas cores, nos seus ritmos, nas suas danças, nos seus sotaques, nos seus deuses. Desejo um Brasil conciliado com suas tradições, com a consciência de que é negro, que é branco, que é índio e que é muito mais e maior do que esse triângulo básico indica. E para isso é necessário, mais que lembrar o passado de sofrimento, afirmar que neste passado sofrido, os nossos ancestrais negros foram criadores de uma nação que ainda não tem consciência de sua beleza.