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Como a Grécia, temos que confrontar o destino

E então metade do ano de 2015 já foi engolida pelo tempo. Nesse curto espaço o mundo aconteceu de diversos modos. Muitas lições foram oferecidas, como assistir alguns jovens ocidentais aceitarem a sedução de tornar-se soldado do Estado Islâmico, que tem como um dos objetivos a superação ou destruição do Ocidente, local onde vivem os ‘infiéis seguidores da maldade’. A propaganda bem sucedida do EI, em mostrar-se em toda sua fúria e majestade, decapitando, afogando ou queimando infiéis, foi antecedida por uma desconstrução dos valores que criaram o Ocidente desde o século XII, momento de inflexão da grande cultura civilizacional islâmica. O desconforto de Omar Kahyyán já apontava que a dominação dos fundamentalistas religiosos traria o declínio de uma das mais expressivas experiências humana. Jovens cansados de um Ocidente que se cansou de se mesmo buscam afirmar-se em outros lugares e, lamentavelmente afirmam-se destruindo a vida. Atentados ocorridos em cidade francesa e em duas cidades do mundo árabe/islâmico testemunharam a o culto da morte como celebração da vida.

Este meio ano foi tempo de angústia para muitos que viram seus projetos ruírem, suas esperanças mitigarem diante do inexorável das disputas por espaços e coisas. A Grécia que desde muito tempo vem vivendo da construção de navios e dos turistas em busca de divertimento enquanto fingem estar consolidando cultura, vê-se, de novo, diante da Esfinge, obrigando-se a decifrar seu destino, o que ocorre cotidianamente com todas as pessoas, mas que é trágico quando a República está em jogo.

A tragédia, como sabemos, é a impossibilidade de vencer o destino contra o qual se luta bravamente, embora se saiba da inevitabilidade da vitória. Mas se na antiguidade o destino era definido pelos deuses, sabemos hoje que cada um constrói seu próprio caminho, consciente ou não, criando as inevitabilidades. Somos, hoje sabemos, construtores de nossos destinos. Assim, já não nos cabe lamentar o que nos ocorre por encontrarmos a esfinge depois de, por orgulho estúpido, por desrespeito aos mais jovens e aos mais velhos, produzimos a morte de quem nos gerou, como ocorreu a Édipo, assassino de seu pai, a quem não conhecia. O segredo de seu destino é decifrado enquanto vive, e vive condenado por sua própria arrogância.

Os contemporâneos de Édipo foram obrigados, pelas leis criadas pelo rei Édipo, a não dirigir nenhum gesto ou palavra àquele que provocou tanta miséria ao povo por conta do crime de ter destruído, ainda que sem consciência disso, os valores fundamentais de sua cidade.

Simular não saber o que sabia, ou intuía, foi o crime que levou à cegueira e a sua cidade ao declínio. E, como ouvimos, em nossa cidade, os poderosos afirmarem não saber o que sabem. É seu destino, será o da cidade?

Mestre Antônio Teles, a rabeca de Condado

As criações culturais nascidas da criatividade de pessoas das camadas mais distantes dos centros de poder, quase sempre, são familiares. Quer dizer são pessoas da mesma família que produzem aquele tipo de cultura, aquela brincadeira, ou a dança, ou o jeito de cantar, ou jeito de tocar um ou vários instrumentos. Claro que sempre aparece o traço pessoal, o jeito demonstrar a sua individualidade. No universo dos matutos, dessa população da Zona da Mata Norte de Pernambuco, são várias as famílias que se tornaram famosas pela sequencia geracional da arte, como é o caso dos Salustiano – João, Manuel e seus filhos dedicados a fazer o toque da rabeca, o movimento dos pés no Cavalo Marinho, o andar dos caboclos. Mas hoje quero falar um pouco do pouco que sei dos Irmãos Teles – Antônio e Mariano, trabalhadores nos canaviais e artistas de seu povo.

Mariano Teles é o famoso Capitão do Cavalo Marinho da Chã de Camará, ou seja do Cavalo Marinho organizado e mantido pelo Mestre Batista, referendado pelos atuais mestres como o responsável por manter, no seu sítio, essa tradição que teria herdado do seu avô. No terreiro da Chã de Camará, próximo às Três Vendas, na embocadura do caminho que leva à Lagoa Seca, rebatizada por Mário Melo como Upatininga, e até à sua morte, o Mestre Batista era a fonte de informações para os mais jovens. Ali ele transmitia seus conhecimentos dançando o Cavalo Marinho, botando figuras e, com os meninos olhando, exibia o seu saber. E os jovens bebiam o que os mais velhos faziam, cantavam e dançavam. Entre os jovens estavam os irmãos Antônio e Mariano Teles.

Antônio abraçou a rebeca e especializou-se em tirar sons para acompanhar as danças do Cavalo Marinho e também tocar a sua rabeca nos bailes que aconteciam nos sítios, “no tempo em que havia sítios, galos e quintais”. Sentado no Banco do Cavalo Marinho, Antônio Teles fez fama e sua reputação como memória dessa brincadeira é grande. Mas seu jeito mais calado do que outros o manteve no instrumento e, no banco, aproveitou para decorar e aprofundar seu conhecimento na dança, nos textos do teatro que o povo dos sítios e, depois, das pontas de rua, gostava de ver e passar a noite. Foi esse conhecimento que Antônio Teles passou para a sua filha, Nice, que herdou o amor e cuidado com a tradição cultural. Antônio Teles admitiu que Nice sentasse no banco e tocasse e cantasse. Foi ela a primeira mulher a sentar no banco que era exclusividade masculina. Assim a família seguiria, como está a seguir, o caminho da preservação identitária da região. Esse carinho é faz crescer a importância da Família Teles no universo cultural da Mata Norte e do Estado de Pernambuco.

Antônio Teles foi também um organizador da religiosidade de seu povo. Um aspecto pouco conhecido, mas de grande importância.

Ao tomar conhecimento da morte de Antônio Teles veio-me à mente nosso primeiro contato, um tímido contato na sombra das jaqueiras da Chã de Camará. Nossas primeiras palavras e depois assistir e sorver o som de sua rabeca, para que as crianças dançassem alguns passos de Cavalo Marinho, as crianças da Escola Sebastiana Maria da Silva, do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. Em seguida tive o prazer de vê-lo ensinar a Ederlan Fábio os movimentos para arrancar o som da Rabeca. Outro momento com o Mestre Antônio Teles foi em uma viagem a Salvador, para uma apresentação. Fiz uma entrevista de meia hora, mas a fita cassete não quis vir comigo, ficou no quarto do hotel. Ficamos de nos encontrar mais uma vez, entretanto jamais pude refazer aquela conversa.
A nossa cultura recebeu o cuidado do Mestre Antônio Teles que nos deixa a herança com sua filha e netos, uma herança que muito frutifica. Nessas horas costumasse dizer que “a cultura ficou mais pobre”, mas como dizer que a saída de cena do Mestre Antônio Teles nos empobreceu se ele nos deixa a sua riqueza biológica e cultural em plena atividade? Sim, vamos nos sentir tristes, mas sabemos que Antônio Teles está conosco, com sua família que extrapola os limites do Condado, pois ele é um dos responsáveis por ser, a Dança Dramática do Cavalo Marinho uma marca da identidade pernambucana.
Que São Gonçalo do Amarante receba esse homem cujos pés não reclamaram das barrocas do terreiros, e o leve a Olorum, a Jesus e festejem com os Santos Reis do Oriente a alegria da repartição do boi. Amém! Axé!

Tradições juninas e traições universitárias

O mês de junho é especial para os habitantes do Nordeste do Brasil, mês de celebrações da identidade regional, parte integrante da identidade nacional. As músicas, as danças celebram o festival da colheita de milho, no solstício de nosso inverno, na noite de São João; a louvação do amor ao longo da novena de Santo Antônio, o santo casamenteiro e, as festas terminam com louvor a São Pedro, aquele que pediu a Jesus um cuidado especial à sua sogra e, por essa razão, é conhecido como o protetor das viúvas, pois se presume a viuvez da sogra de Pedro, cujo nome é desconhecido. Tão forte esse conjunto de tradição trazido de Portugal enraizou-se no Brasil, que não é possível pensar o Nordeste e sua gente sem tais festejos, sem as músicas e ritmos que os nordestinados criaram para si. Os Xaxados, o Forró, o Chamego, o Xote, o Baião, tornados universais nos sons saídos dos movimentos dos dedos, mãos e braços de tantos sertanejos, agrestinos ou matutos no movimento do Fole de Oito Baixos ou da Sanfona. Dois instrumentos que marcaram o pai Januário e o filho Luiz Gonzaga do Nascimento. Nordestinos confundem-se com as poesias e a voz de Gonzaga, a quem foi atribuído o título de Rei do Baião. Rei que uma imensidade de súditos que se reúnem nas principais cidades e nos mais simples povoados e arruamentos desse imenso país.

Pois bem, parece ser função da universidade pesquisar, ensinar e estender-se para além de seus limites geográficos e abarcar o universo, ao menos o universo mais próximo. Por isso é que, quando foi criado o Departamento de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco logo foi criada a Rádio Universitária. Sua função aproximar a universidade do povo que a paga, ser um caminho e vetor da ação universitária na recepção dos anseios da sociedade e se veículo de comunicação daquilo que a sociedade acadêmica produz para a sociedade circundante. Esta a sua função. Mas, esses tempos confusos, com funcionários confusos que confundem os B de Bonifácio e Bolivar, faz com que, sem escutar a comunidade acadêmica, sem ouvir os professores, um ‘petit comité’ resolve que a Rádio Universitária FM, Emissora da Universidade Federal de Pernambuco não mais terá o programa FORRÓ PARA TODOS, produzido e apresentado por Samuel Valente por mais de duas décadas. Leiamos o seu relato:
“Cheguei na Rádio, e qual não foi a minha surpresa: o programa em questão, havia sido retirado do ar, por um “talentoso” Comitê, do núcleo de Rádio e TV, juntamente com a direção das citadas emissoras! Fui recebido por Mirian Leite, a produtora do programa, e demais funcionários! Hugo Martins havia saído, segundo fui informado, para um encontro com o Reitor da Universidade Federal de Pernambuco! Na minha opinião – e gostaria de ouvir os companheiros, compositores, cantores, músicos -, trata-se de uma abominável atitude, desses “entendidos”, contra a cultura musical junina, pernambucana, seus dedicados defensores, principalmente, contra os ouvintes da Rádio Universitária, 99,9, FM! Contra isso, devemos todos, nos pronunciar! Uma vergonha! Mirian Leite, a produtora, chorou! Hugo Martins, o apresentador, indignado, procurando conversar com o Reitor! Francamente! Além de saquearem o bolso do povo, querem arruinar o que de mais belo existe nos panoramas musicais! Afinal, estamos no Brasil!”

Creio que o Magnífico Reitor, que tem Brasileiro como prenome, assuma o reitorado para o qual foi eleito, e alerte aos que formam o comité que está a apoderar-se do Núcleo de Rádio e Televisão da Universidade Federal de Pernambuco que, no mínimo, é asnice o que fizeram: retirar do ar, na véspera do mês de junho um programa de música junina. Esse ‘petit comité’ não deve destruir, em nome de alguma revolução ( esse tempo caiu em pedaços no centro de Berlim), a obra revolucionária de Paulo Freire, o idealizador da extensão da universidade. Paulo Freire sempre desejou começar a partir do povo, esse ‘petit comité’ é partiu sem o povo nordestino e pernambucano.

Não encontrei, Magnífico, nos dicionários, o significado de ‘Anísio’, mas sabemos o que é Brasileiro. Dê um Tom Brasileiro nesse reitorado que o senhor quis repetir.

A Lei do Cão ou a demência da 15.516

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sam

Será um caso de esquizofrenia, demência ou falta de vergonha e mancômetro. Faz menos de uma semana que o governador do Estado transplantou parte de seu governo para o Engenho Cumbe, no município de Nazaré da Mata. Foi ali, com seu secretário de cultura para entregar um título que, os que se julgam donos do saber, dizem reconhecer que finalmente reconheciam o Maracatu debaque Solto e a dança/teatro Cavalo Marinho, passavam a ser Patrimônio da Cultura Imaterial de Pernambuco. Esses brinquedos, essas artes foram criadas pelos homens cortadores de cana, esses que cortam a cana para os engenhos fornecerem essa matéria prima para as usinas da região.

Pois bem, dez dias depois que o governador do Estado fez uma discurseira sobre a importância das tradições populares na formação do ethos pernambucano; dez dias após o secretário de Cultura pronunciar palavras de respeito ao que os artistas populares , quer dizer: não ricos, criam e que é dever do Estado proteger essas manifestações do gênio pernambucano; uma dezena de dias após a presidente da Empetur bradar em alto e bom som que é função do Estado estimular tais manifestações culturais, o Sr. Governador do Estado sanciona uma lei, proposta por um deputado analfabeto funcional no quesito cultura pernambucana, que proíbe crianças até 14 anos de participarem de espetáculos públicos. Com esse parágrafo da lei, os ilustres deputados decretaram o fim das Tribos de Índios e das Tribos de Caboclinhos. Nem Herodes Antipas faria melhor com a cultura. Com isso também mataram as iniciativas de reviver o Pastoril, normalmente dançado e cantado por meninas nessa faixa etária. E então a Assembleia Legislativa de Pernambuco deu demonstração de sua ignorância sobre o que ocorre no criativo mundo cultural pernambucano. Ou então estão jogando contra o Estado.

Analfabetos funcionais nesse quesito, além do governador que assinou sem ler, parece, a baboseira que recebeu o nome de Lei 15,516, proibindo espetáculos públicos após as 22 horas, exceto aqueles que o governo estadual financia é toda a Assembleia e, de lambuja carregou o Conselho Estadual de Cultura que, presume-se, deva ter sido convocada para dar a sua opinião sobre o que lhe compete, pois para isso recebe jetons vitalícios. Como o governo estadual não financia sambadas, o governador proibiu as sambadas, momentos de agregação, socialização e preparação sistemática para o grande desfile que encanta os turistas mas, que, parece, incomoda a quem expeliu esse projeto lei e a quem aceitou a desonra de assinar.

Essa lei, esse ataque esquizofrênico dos ‘senhores da cultura’ é ainda mais maléfica, se é que isso é possível. Ela proíbe que se venda livros, que se venda obras de cerâmica, de pintura, do artesanato, se o artista principal não for o autor da obra. Mas é em momentos como esses que o povo pode vender o que ele faz. O que ele faz não se vende nos shopigns frequentados pelos deputados. É nessas horas, nesses eventos populares que o artista popular tem seu mercado. Essa lei 15.516 é a lei da destruição da cultura pernambucana, é a Lei do Cão. Penso que Antônio Conselheiro assim a chamaria, como chamou aos impostos injustos que a recente República cobrava do povo pobre.
Rejeição total ao energúmeno que pariu tal lei; Rejeição total a essa Lei do Cão. Que todos os repentistas, que todos os Mestres de Maracatu improvisem contra essa barbarie, essa estupidez; que todos os Mestres de Cavalo chamem o governador, esse cabra de Empata Festa; que todos os Mestres de Capoeira vituperem contra essa insanidade; que os Mestres de Caboclinhos neguem a Jurema e o Mel a esses nossos destruidores.

QUE OS ANTROPÓLOGOS, HISTORIADORES, SOCIÓLOGOS, PROFESSORES DE DANÇA, DE POESIA, DE TEATRO, DE LITERATURA, PROFESSORES DE TODAS AS CIÊNCIAS, SAIAM DO CONFORTO DE SUAS UNIVERSIDADES, AUMENTEM SUAS VIAGENS DE ESTUDO PARA AS NOSSAS REGIÕES, SAIAM DE SEU CONFORTO E OCUPEM A NOSSA CULTURA, NÃO COMO OBJETO DE ESTUDO, MAS COMO SINAL DE NOSSA VIDA.

Severino Vicente da Silva Biu Vicente

Enfrentado o racismo, criando a humanidade

Somos constantemente surpreendidos pela vida, pelos volteios que os humanos criam em sua trajetória enquanto decidem o que são. Uma vez, comentei para mim e para algumas pessoas que podem ter ouvido e lido, a minha admiração por meus pais. Tal admiração tem inúmeros vieses, sendo um deles a capacidade de absorver as mudanças constantes ao longo de suas vidas iniciadas nas primeiras décadas do século XX e terminadas nas duas últimas. Eram pessoas que não receberam a educação formal escolar, não receberam os instrumentos racionais para a releitura do mundo e, no entanto, atravessaram o ‘pequeno século XX’, saindo deles, com pequenas escoriações após ajudar a sua construção e reconstrução de valores. Sempre admirei essa capacidade de significar o mundo constantemente, a cada década e, simultaneamente manter-se íntegro consigo mesmo, com suas crenças e valores aprendidos nos primeiros anos de suas vidas, carregando-as enquanto esses valores eram reorganizados. E sobreviveram as contradições de seus dias.
As surpresas nos chegam a cada instante, a cada curva do tempo. No início dos anos noventa comecei a ficar mais próximo do Sertão de Pernambuco, pois comecei a visitar semanalmente o Sertão do São Francisco. Então aprendi, continuo aprendendo, muitas coisas e tradições que nos formam e nos identificam, mas que me puseram em crise diante de novos conhecimentos. Em minhas andanças, nas duas margens do Rio São Francisco vi, que nas suas cidades, até os anos sessenta a vida social das populações locais eram bem demarcadas com espaços para os brancos e os negros, com este reunindo-se nos Clubes dos Morenos ou dos Artífices, conforme a cidade. Assim conheci a explicitação do racismo, mesmo que social. A modernização forçada pelas construções das hidroelétricas pôs fim desse muro social, mas só aparentemente. Nos anos setenta esses clubes deixaram de existir, e não tive tempo para aprofundar essa questão. Em uma cidade, soube que a Associação Atlética Banco do Brasil foi criada porque o gerente negro não pode entrar no clube da cidade. Após a criação da AABB o clube que negou entrada ao gerente começou a declinar. Além disso, as novas gerações diminuíram suas estadas na cidade natal. Por outro lado, assisti o processo de renovação do Clube dos Artífices, com a população mestiça e negra forçando a construção de seu novo prédio. Enviei alguns livros para a biblioteca que estava sendo pensada para o clube. Soube que foi inaugurado e devo uma visita para outra festa, uma vez que perdi a da inauguração. Soube que foram lembradas e vividas as glórias dos carnavais do antigo Clube dos Artífices.
Para surpresa, soube que em São Paulo está sendo reativado o Aristocrata Clube, criado nos anos sessenta pela comunidade negra que não tinha acesso aos clubes da gente de cor branca, pois diziam que os produtos utilizados na água das piscinas estragariam a cor dos negros. A comunidade negra se organizou, criou o clube, fez a piscina e recebeu para festa gente com Ray Charles e Milton Nascimento, Jair Rodrigues, Jorge Bem, e o jovem Michael, do grupo Jackson Five. São enfrentamentos dos grupos sociais para a criação do seu país, superando as barreiras criadas por aqueles que estão estabelecidos, as barreiras que geram os outosiders. Nos anos 80 o clube como que perdeu a sua função, pois os jovens negros já enfrentavam os problemas de seus pais. As mudanças da sociedade impedem que as piscinas dos condomínios seja discriminatórias. Esse período de declínio parece estar sendo superado com o clube com atividades voltadas especialmente para crianças e negros idosos. Continuamos a completar a tarefa na defesa dos seres humanos, criar uma sociedade que respeite a nossa igualdade essencial apesar das diferenças existenciais e a mais estúpida delas é a discriminação pela cor, especialmente em um país tão colorido quanto o Brasil.

Grupo muito discriminado são os que se reconhecem como continuadores dos ancestrais indígenas na arte da dança. Na periferia da cidade de Goiana, PE, há uma concentração de tribos de índios e caboclinhos. Os curumins crescem aprendendo a dançar nas ruas da vizinhança e, no período do carnaval ocupam as principais ruas da cidade e desfilam no Recife, com tribos de outras cidades do Estado. Cosem-se com suas próprias linhas e carnes, com a ajuda do desleixo das municipalidades com esses grupos fundamentais de nossa ancestralidade e identidade. Esta semana, A Tribo Tapuia Canidé perdeu a liderança de MARIA BUDI. Os terreiros e as ruas Nova Goiana choram de tristeza. Vamos continuar a tarefa de nos tornarmos mais humanos.

Santuário de São Severino dos Ramos e o Processo Civilizador

Aula fora da sala. Alunos de três disciplinas que possuem em comum a preocupação com a cultura, sua criação, transferência e vivência na construção de uma sociedade. Estuda-se, em uma turma, como os ‘estabelecidos’ criam fórmulas e situações que geram os ‘outsiders’, os ‘de fora’ a quem não é permitida a fruição plena de suas capacidades e dos bens gerados por eles e pelos demais membros da sociedade. Outra turma quer entender qual a influência que a Reforma e a Contra Reforma do século XVI tem influenciado a formação e o comportamento do povo surgido do encontro de vários outros, e, finalmente o terceiro grupo quer percorrer os caminhos que foram percorridos para a construção da cultura dos pernambucanos.

Para atender esses objetivos é que nos dirigimos a Paudalho, Tracunhaém e Nazaré da Mata, três cidades da Zona da Mata Norte de Pernambuco, onde pudemos encontrar situações diversas que atendiam as nossas curiosidades. Chama atenção a profusão arquitetônica, exposição dos estilos e das épocas, lado a lado construções dos séculos XIX e XX expõem as belezas que cada geração escolhia para si, como ocupavam os espaços, e como os mesmos foram reorganizados de acordo com os interesses de alguns. Pudemos observar como uma multidão se formou na praça do Fórum esperando a chegada de um criminoso para o julgamento. Esses não cumpriram as normas do contrato social que são pegos e levados a julgamento, são motivos para a curiosidade mórbida, uma alegria ou tristeza pelo ocorrido. Nem é necessário que se saiba qual foi o crime ou quem é o criminoso, a multidão sempre quer justiça, pelas suas mãos ou pelas palavras dos jurados e juízes. Depende do grau de civilização e organização social a que se chegou.
A civilização de um povo pode ser medida pela maneira de como o espaço é ocupado; a permissão dada à ocupação desordenada pode ser um indício de exclusão, de pouco se importar com os que ocupam enfeiando o espaço.

Faz algum tempo que auxiliei estudantes de jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco a realizar o seu TCC. Foi um documentário sobre São Severino do Ramos, o santuário mais popular de Pernambuco e, segundo alguns, o terceiro maior o Brasil. A imagem desse santo chegou ao Engenho Ramos faz uma centúria, presente de um cardeal que ficou alojado em um altar lateral, na capela dedicada a Nossa Senhora da Luz, orago mandado construir pelos senhores do engenho, então em momento de fartura, embalado pela estrada de ferro. Não se sabe bem como nem porque, os trabalhadores do engenho simpatizaram com a representação daquele soldado romano, em seu sepulcro, após longas batalhas travadas no governo do imperador Maximiniano. Relatos de milagres e descrição do soldado que atendia os pedidos dos cortadores de cana atraiam cada vez mais gente. O ciclo de riqueza foi passando, a ferrovia parou de funcionar, os donos do engenho foram morar na capital, mas os cortadores de cana, os cambiteiros, ticuqueiros e seus filhos não deixaram o São Severino abandonado, como o engenho. Sempre tem um devoto e, não havia como evitar que os devotos fossem agradecer ou pedir um adjutório. Os proprietários estabeleceram um espaço onde os visitantes, os romeiros se acomodassem. E vieram os vendedores de alimentos e lembranças. A Igreja envia um sacerdote para a celebração do culto, mas não tem ingerência na administração do prédio. Os donos cuidam para que ele continue a receber os romeiros, mas lá não vão mais. A casa grande da família foi cercada para que os romeiros não invadissem. E eles nunca tentaram. Naquele documentário, um dos membros da família do proprietário diz que o comércio que ali ocorre não está sobre seu controle, mas a prefeitura do Paudalho não pode interferir em propriedade privada.

E o que ocorre? O espaço dedicado aos romeiros está totalmente tomado pelos comerciantes que constroem suas barracas da maneira que desejam, ocupando as calçadas e o terreno que poderia servir para o passeio tranquilo. A maneira de como estão tratando os devotos de São Severino é como se trata o indesejado. Parece que desejam que eles não mais venham, como fazem os donos da casa grande, agora tão abandonada que está se tornando curral para boi e cavalo selvagens. Seria muito bom se a casa grande fosse, de novo trajada, trajando cores novas, arrumada, para que o visitante pudesse ter uma ideia de como era a vida no tempo em que a imagem de São Severino foi trazida de Roma como presente para a família. É certo que o presente foi ressignificado de maneira tão inesperada.

Uma tristeza ver o espaço que deve ter servido para correrias de José Antônio Gonçalves de Mello, João Cabral de Mello, seu primo Gilberto Freyre tornar-se um local desagradável. O processo civilizador estudado por N. Elias parece não ter chegado ali. As margens tristes do Capibaribe domado estão sendo testemunhas e vítimas do comportamento pouco civil dos que lideram ou toleram essa devoção dos pobres.

Mas a viagem serviu para verificar as muitas maneiras de como são tratadas as tradições culturais do povo brasileiro.