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A bênção Vô! A bênção Vó!

Hoje, dia 26 de julho, os católicos celebram e honram a lembrança de um casal, Ana e Joaquim. Eles foram os pais de Maria, a moça que veio a casar com José e aceitou ser a mãe de Jesus. Assim, se celebra os avós maternos de Jesus. Quanto aos pais de José, dos avós paternos, nada se sabe sobre eles e, creio ninguém jamais se interessou em saber. Afinal foi ‘pequena’ a sua contribuição na Economia da Salvação: José apenas protegeu a criança, cuidou da sua infância, transmitiu os valores sociais, foi a figura de homem para o adolescente, ensinou as habilidades próprias de uma profissão, cuidou do adolescente e depois sumiu. Mas como se sabe pouco de José, é Joaquim, o Avô materno que se tem como referência familiar e, sabemos pouco sobre ele e sua esposa. Maria teria sido um fruto da idade mais que madura, como ocorreu com Abraão e Sara no nascimento de Isaac. Apenas a partir do século II é que começa a tradição a respeito dos avós de Jesus, mas há pouco além de lembrar que “é pelos frutos que conhecereis a planta”. Maria parece ter sido bem educada, informada e formada, como se depreende da conversa que manteve com o Anjo Gabriel. Ela recebeu orientação para a vida sexual e conversa sem os traumas que foram criados após as Reformas Religiosas do século XVI. Santana e Joaquim não falaram de ‘cegonhas e sementinhas’ para Maria.

Ana, que a tradição foi transformando de Santa Ana, Sant’Ana para chegar a Santana é representada ensinando algo a sua filha. A iconografia a faz uma nobre apresentando um livro para a filha. É uma iconografia da Idade Moderna, dos tempos de Gutemberg. Na maior parte do tempo suas festas eram separadas, Ana era reverenciada em 25 de julho e Joaquim a 20 de Março. Apenas em 1913 é que o casal passou a ser referenciado conjuntamente no dia 26 de julho. Mas ainda assim, pouco se diz de Joaquim.
Aqui na região açucareira do Nordeste, Santana esteve entre as devoções preferidas pelas senhoras das casas grandes. Na Capela da Luz, onde São Severino é honrado, no Engenho dos Ramos há uma imagem do Casal, mas o comum é Santana está só, na sua tarefa de transmitir conhecimento à sua filha. São José, e não São Joaquim é que foi feito quase à imagem do Senhor de Engenho, calçado com botas, conforme pode ser visto em diversos templos da região, desde Igarassu até São José da Coroa Grande. Entretanto, Santana também tem presença fora dos alpendres da grande casa e foi viver, como sua filha: nas senzalas, nos mocambos, favelas, alagada. Ali ela está vestida nas cores azul e branca, com uma criança no colo, cuidando e acariciando o futuro.

Neste dia dos avós, eu lembro-me de Alexandrina e Severino Cota, de Florinda e José Vicente. Foram da mesma classe social, embora de níveis diferentes, pois os primeiros são mais ligados às tradições europeias e indígenas e os paternos carregam a Europa e África.

As avós eu conheci, lembro-me do colo de Alexandrina e do rosto forte e moreno de Florinda nos dias que antecederam a sua morte. Tenho um retrato delas duas juntas. Não nasci a tempo de conhecer Severino Cota e José Vicente. Carrego seus nomes e soube de histórias de suas vidas. Ser avô é uma benção: ver os filhos dos seus filhos, hoje tão comum por causa da longevidade que a ciência ocidental produziu, era incomum em um tempo em que se morria “ de velhice antes dos trinta, de bala antes dos vinte e de fome um pouco por dia”. Severino Cota morreu de bala, José Vicente morreu da faina diária. Não viram seus netos, não puderam ver a continuidade de suas vidas. De Severino tenho as sobrancelhas grossas e de José o corpo pequeno. Eles são desconhecidos, como ocorreu com Joaquim e com os pais de José. Mas cuidaram de meus pais, foram bons exemplos, transmitiram os valores típicos de sua época: a honestidade, o gosto pelo trabalho, o respeito pelos mais velhos.

Avós são, para os netos, o afago, o carinho, a desculpa e a proteção contra as exigências dos pais, a que eles usaram quando eram apenas pais. Mas, nós o avós, não devemos tomar o lugar de nossos filhos, apenas cuidar para eles continuem sendo boas árvores, produzindo bons frutos, saudáveis e fortes para que se tornem avós.

A aridez do Quinze e dos seres

Metade de julho deste ano de dois mil e quinze já passou. Tem sido tão árido quanto o Quinze de Rachel de Queiroz, aquele de 1915, o da seca que fez a menina filha de fazendeiro ficar famosa desde o primeiro livro. A secura dos sertões queimava os homens, as mulheres e as crianças. A natureza parecia querer destruir a todos, mas os que viviam nas casas grandes das fazendas ou nos sobrados das cidades, esses pareciam ter um melhor relacionamento com as forças naturais, pois que eles não morriam como morriam os famintos que pareciam desfilar nas estradas em indo em direção à capital ou à morte. A seca de Quinze parecia tão violenta quanto a seca dos Dois Martelos, a de 77 ou 1877. A natureza sempre criou dificuldades para os seres que nela vivem. Alguns problemas cresceram com a ajuda de um desses seres, os humanos que, com seu cérebro grande, sua postura, seus olhos capazes de ver diferençar as cores e ver distante do solo, suas mãos capazes de pegar objetos e segurar os corpo e jogá-los para longe foram dominando parte da natureza externa a si mesmo. Mas sempre tiveram dificuldade de dominar o que havia e há dentro deles.

O medo das forças externas que não dominavam às vezes se une às forças internas que não dominam. E o medo é mais pavoroso e então buscaram algo além daquilo que estava ao seu redor e ‘compreenderam’ que era necessário acalmar a natureza exterior, inclusive essa que eles não conseguiam ver, para poder acalmar o que havia dentro de si. E inventaram regras de comportamento que procuravam limitar essa estranha força que carregam dentro de si. Foram criando normas e algumas delas ficaram conhecidas como sendo emanadas dessa força que chamam de Espírito, de Deus, de Jeová, de Alá, ou qualquer outra denominação, coletiva ou individualmente. Criaram ritos religiosos que unem e separam, fazem uns de nossos e uns de outros. O medo parece estar dominado quando se está entre os conhecidos, nos seus territórios.

Os deuses estabeleceram os territórios que os homens que os respeitam, determinaram. Enquanto o espaço físico mantinha distante o desconhecido o medo esteve controlado. Mas sempre o desconhecido sempre aparece, traz consigo o medo e este provoca as forças interiores não dominadas. E essas forças parecem ser horríveis, e por isso elas costumam ser vistas no exterior, no outro, no desconhecido que chega a para perturbar, para destruir. Então a força interna não dominada sai e vai destruir aqueles e aquelas situações que estão carregadas de medo. E se se se elimina o que provoca o medo, vem a sensação da vitória e a calma que a morte do outro traz.

Esse Quinze que vivemos hoje chegou brutalmente com a foto de uma criança debruçando-se sobre um adulto manietado. A criança está com a função de decapitar o adulto. Não foi ele que aprisionou o adulto, mas está sendo ensinado que deve matar aquele adulto, para sentir-se sem medo. Assim lhe ensina o adulto que não aparece na foto; ele diz que a divindade precisa do sangue desse homem prostrado.

As religiões foram criadas com o objetivo de auxiliar os homens a conviverem com a natureza, o que significa dizer, consigo mesmo. Depois foram tornadas motivos de lutas, pois cada grupo tinha suas próprias maneiras de religião e cada uma afirmava-se melhor que as demais. Isso custou muito sangue, muitas mortes e o crescimento do medo.

Nos últimos séculos alguns grupos começaram a entender que as fronteiras deixam de existir e que é necessário um número menor de ofertas às forças divinas. Alguns grupos até compreenderam que seus deuses nem desejavam tanto sangue, mas eram alguns de seus companheiros. Até que íamos bem, parece. Há uns cinquenta anos, falava-se em uma Era de Aquarius, que Krisna viria ensinar todo mundo alcançar a felicidade cantando e dançando, que Deus é Deusa, e que haveria o início do milênio da felicidade. Mas esse Quinze está muito árido e aquela criança bem nutrida estava fazendo o sacrifício que, Abraão já se recusara a fazer. Abraão venceu o medo, mas seus filhos, os que puseram em livro o que julgaram ser a vontade de seu deus continuam sob o domínio de Baal.

Que País é este?

Todos nós somos a idade que vivemos e, entretanto, às vezes, gostaríamos de ter outra idade, sermos de outro tempo. Ficamos eternizados por algum momento, enquanto os outros, os que ficarem depois de nossa morte, lembrarem-se de nós. Os tempos atuais, com essas tecnologias que foram sendo criadas nos últimos quinhentos anos dão-nos uma eternidade que a maioria absoluta dos homens jamais teve. Jamais saberemos as angústias amorosas dos adolescentes romanos, egípcios, caldeus, assírios, os do Império do Meio e dos que morreram nas lutas dos shoguns. Podemos até imaginar a angústia dos jovens toltecas sendo levados para o sacrifício da primavera, mas não registro algum de suas palavras ou pensamentos. Colocamos neles as nossas imaginações para adivinharmos os seus pensamentos e temores. Assim os eternizamos no anonimato. Também anônimas e eternas escravas de Sara, de Raquel e de Lia, que lhes deram, e aos seus maridos, os filhos que não puderam gerar. E o que pensaram elas? Não saberemos. Das suas amas sabemos o nome e algumas palavras que, imaginaram os autores da Bíblia, disseram elas em algumas situações.

A escrita começou a tornar alguns dos homens e algumas das mulheres eternas e, nelas e neles, todos ficaram eternos nas lembranças que foram escritas. Assim ocorreu em muitos lugares do planeta. Certo que alguns procuraram se eternizar em construções, como as pirâmides, os obeliscos, estátuas construídas nas montanhas, eternizando e divinizando um homem enquanto símbolo do lugar onde as pessoas desejam chegar. Mas nem sempre é o homem que é lembrado e sim um dos momentos por ele vivido. Até que a maioria já nem sabe se está vivo ainda, ou de sua existência.

Todas essas palavras e pensamentos brotaram ao tocar em um livro que eu comprei em sua segunda edição, no ano de 1978. Millor Fernandes dedicou o livro Que país é este? a Carlos Frederico Polari de Alverga, então com 9 anos de idade, o seu “melhor amigo na esperança de que um dia não precise fazer a pergunta.” A pergunta é o título do livro, foi uma resposta à pergunta feita por um presidente da Aliança Renovadora Nacional, partido do “sim senhor” na ditadura civil-militar, surpreso por a oposição não acreditar que Geisel iria promover a abertura: “Que país é esse em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?” Foi uma surpresa para quem presidia “o maior partido da maior democracia do Ocidente” que o povo não reconhecesse as benfeitorias da ditadura. Algum tempo depois Geisel fechou o Congresso Nacional e criou o Senador Biônico. Pois bem, o piauiense que veio a ser escolhido por Ernesto Geisel para governar Minas Gerais (Francelino Pereira chegou à Belo Horizonte ainda menino, migrante com a família), recentemente esteve ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva no enterro de José de Alencar, o vice do “presidente operário”.

Neste dia 7 de julho completa 25 anos da morte de Cazuza. São muitos os jovens e adultos que, julgam essa frase ter sido formulada pela primeira vez por Renato Russo em famosa música, escrita em 1978, mas só gravada em 1987. Também Affonso Romano de Santana, em 1980 lançou livro de poemas com o título “Que país é este e outros poemas”.

A pergunta continua fazendo sucesso, pois, parece, ainda não sabemos que país é esse. Também não o sabia Machado de Assis que assim escreveu: “Em que tempos estamos? Que país é este? Pois um funcionário público, elevado às primeiras posições, – não para a satisfação da vaidade, mas para servir o país – responde daquele modo a uma intimação grave?”

E continuamos a verificar que alguns alcançam as mais altas funções públicas e, contrariamente do esperado, servem-se da coisa pública para o contentamento de suas vaidades.

Como a Grécia, temos que confrontar o destino

E então metade do ano de 2015 já foi engolida pelo tempo. Nesse curto espaço o mundo aconteceu de diversos modos. Muitas lições foram oferecidas, como assistir alguns jovens ocidentais aceitarem a sedução de tornar-se soldado do Estado Islâmico, que tem como um dos objetivos a superação ou destruição do Ocidente, local onde vivem os ‘infiéis seguidores da maldade’. A propaganda bem sucedida do EI, em mostrar-se em toda sua fúria e majestade, decapitando, afogando ou queimando infiéis, foi antecedida por uma desconstrução dos valores que criaram o Ocidente desde o século XII, momento de inflexão da grande cultura civilizacional islâmica. O desconforto de Omar Kahyyán já apontava que a dominação dos fundamentalistas religiosos traria o declínio de uma das mais expressivas experiências humana. Jovens cansados de um Ocidente que se cansou de se mesmo buscam afirmar-se em outros lugares e, lamentavelmente afirmam-se destruindo a vida. Atentados ocorridos em cidade francesa e em duas cidades do mundo árabe/islâmico testemunharam a o culto da morte como celebração da vida.

Este meio ano foi tempo de angústia para muitos que viram seus projetos ruírem, suas esperanças mitigarem diante do inexorável das disputas por espaços e coisas. A Grécia que desde muito tempo vem vivendo da construção de navios e dos turistas em busca de divertimento enquanto fingem estar consolidando cultura, vê-se, de novo, diante da Esfinge, obrigando-se a decifrar seu destino, o que ocorre cotidianamente com todas as pessoas, mas que é trágico quando a República está em jogo.

A tragédia, como sabemos, é a impossibilidade de vencer o destino contra o qual se luta bravamente, embora se saiba da inevitabilidade da vitória. Mas se na antiguidade o destino era definido pelos deuses, sabemos hoje que cada um constrói seu próprio caminho, consciente ou não, criando as inevitabilidades. Somos, hoje sabemos, construtores de nossos destinos. Assim, já não nos cabe lamentar o que nos ocorre por encontrarmos a esfinge depois de, por orgulho estúpido, por desrespeito aos mais jovens e aos mais velhos, produzimos a morte de quem nos gerou, como ocorreu a Édipo, assassino de seu pai, a quem não conhecia. O segredo de seu destino é decifrado enquanto vive, e vive condenado por sua própria arrogância.

Os contemporâneos de Édipo foram obrigados, pelas leis criadas pelo rei Édipo, a não dirigir nenhum gesto ou palavra àquele que provocou tanta miséria ao povo por conta do crime de ter destruído, ainda que sem consciência disso, os valores fundamentais de sua cidade.

Simular não saber o que sabia, ou intuía, foi o crime que levou à cegueira e a sua cidade ao declínio. E, como ouvimos, em nossa cidade, os poderosos afirmarem não saber o que sabem. É seu destino, será o da cidade?

Mestre Antônio Teles, a rabeca de Condado

As criações culturais nascidas da criatividade de pessoas das camadas mais distantes dos centros de poder, quase sempre, são familiares. Quer dizer são pessoas da mesma família que produzem aquele tipo de cultura, aquela brincadeira, ou a dança, ou o jeito de cantar, ou jeito de tocar um ou vários instrumentos. Claro que sempre aparece o traço pessoal, o jeito demonstrar a sua individualidade. No universo dos matutos, dessa população da Zona da Mata Norte de Pernambuco, são várias as famílias que se tornaram famosas pela sequencia geracional da arte, como é o caso dos Salustiano – João, Manuel e seus filhos dedicados a fazer o toque da rabeca, o movimento dos pés no Cavalo Marinho, o andar dos caboclos. Mas hoje quero falar um pouco do pouco que sei dos Irmãos Teles – Antônio e Mariano, trabalhadores nos canaviais e artistas de seu povo.

Mariano Teles é o famoso Capitão do Cavalo Marinho da Chã de Camará, ou seja do Cavalo Marinho organizado e mantido pelo Mestre Batista, referendado pelos atuais mestres como o responsável por manter, no seu sítio, essa tradição que teria herdado do seu avô. No terreiro da Chã de Camará, próximo às Três Vendas, na embocadura do caminho que leva à Lagoa Seca, rebatizada por Mário Melo como Upatininga, e até à sua morte, o Mestre Batista era a fonte de informações para os mais jovens. Ali ele transmitia seus conhecimentos dançando o Cavalo Marinho, botando figuras e, com os meninos olhando, exibia o seu saber. E os jovens bebiam o que os mais velhos faziam, cantavam e dançavam. Entre os jovens estavam os irmãos Antônio e Mariano Teles.

Antônio abraçou a rebeca e especializou-se em tirar sons para acompanhar as danças do Cavalo Marinho e também tocar a sua rabeca nos bailes que aconteciam nos sítios, “no tempo em que havia sítios, galos e quintais”. Sentado no Banco do Cavalo Marinho, Antônio Teles fez fama e sua reputação como memória dessa brincadeira é grande. Mas seu jeito mais calado do que outros o manteve no instrumento e, no banco, aproveitou para decorar e aprofundar seu conhecimento na dança, nos textos do teatro que o povo dos sítios e, depois, das pontas de rua, gostava de ver e passar a noite. Foi esse conhecimento que Antônio Teles passou para a sua filha, Nice, que herdou o amor e cuidado com a tradição cultural. Antônio Teles admitiu que Nice sentasse no banco e tocasse e cantasse. Foi ela a primeira mulher a sentar no banco que era exclusividade masculina. Assim a família seguiria, como está a seguir, o caminho da preservação identitária da região. Esse carinho é faz crescer a importância da Família Teles no universo cultural da Mata Norte e do Estado de Pernambuco.

Antônio Teles foi também um organizador da religiosidade de seu povo. Um aspecto pouco conhecido, mas de grande importância.

Ao tomar conhecimento da morte de Antônio Teles veio-me à mente nosso primeiro contato, um tímido contato na sombra das jaqueiras da Chã de Camará. Nossas primeiras palavras e depois assistir e sorver o som de sua rabeca, para que as crianças dançassem alguns passos de Cavalo Marinho, as crianças da Escola Sebastiana Maria da Silva, do Ponto de Cultura Estrela de Ouro de Aliança. Em seguida tive o prazer de vê-lo ensinar a Ederlan Fábio os movimentos para arrancar o som da Rabeca. Outro momento com o Mestre Antônio Teles foi em uma viagem a Salvador, para uma apresentação. Fiz uma entrevista de meia hora, mas a fita cassete não quis vir comigo, ficou no quarto do hotel. Ficamos de nos encontrar mais uma vez, entretanto jamais pude refazer aquela conversa.
A nossa cultura recebeu o cuidado do Mestre Antônio Teles que nos deixa a herança com sua filha e netos, uma herança que muito frutifica. Nessas horas costumasse dizer que “a cultura ficou mais pobre”, mas como dizer que a saída de cena do Mestre Antônio Teles nos empobreceu se ele nos deixa a sua riqueza biológica e cultural em plena atividade? Sim, vamos nos sentir tristes, mas sabemos que Antônio Teles está conosco, com sua família que extrapola os limites do Condado, pois ele é um dos responsáveis por ser, a Dança Dramática do Cavalo Marinho uma marca da identidade pernambucana.
Que São Gonçalo do Amarante receba esse homem cujos pés não reclamaram das barrocas do terreiros, e o leve a Olorum, a Jesus e festejem com os Santos Reis do Oriente a alegria da repartição do boi. Amém! Axé!

Tradições juninas e traições universitárias

O mês de junho é especial para os habitantes do Nordeste do Brasil, mês de celebrações da identidade regional, parte integrante da identidade nacional. As músicas, as danças celebram o festival da colheita de milho, no solstício de nosso inverno, na noite de São João; a louvação do amor ao longo da novena de Santo Antônio, o santo casamenteiro e, as festas terminam com louvor a São Pedro, aquele que pediu a Jesus um cuidado especial à sua sogra e, por essa razão, é conhecido como o protetor das viúvas, pois se presume a viuvez da sogra de Pedro, cujo nome é desconhecido. Tão forte esse conjunto de tradição trazido de Portugal enraizou-se no Brasil, que não é possível pensar o Nordeste e sua gente sem tais festejos, sem as músicas e ritmos que os nordestinados criaram para si. Os Xaxados, o Forró, o Chamego, o Xote, o Baião, tornados universais nos sons saídos dos movimentos dos dedos, mãos e braços de tantos sertanejos, agrestinos ou matutos no movimento do Fole de Oito Baixos ou da Sanfona. Dois instrumentos que marcaram o pai Januário e o filho Luiz Gonzaga do Nascimento. Nordestinos confundem-se com as poesias e a voz de Gonzaga, a quem foi atribuído o título de Rei do Baião. Rei que uma imensidade de súditos que se reúnem nas principais cidades e nos mais simples povoados e arruamentos desse imenso país.

Pois bem, parece ser função da universidade pesquisar, ensinar e estender-se para além de seus limites geográficos e abarcar o universo, ao menos o universo mais próximo. Por isso é que, quando foi criado o Departamento de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco logo foi criada a Rádio Universitária. Sua função aproximar a universidade do povo que a paga, ser um caminho e vetor da ação universitária na recepção dos anseios da sociedade e se veículo de comunicação daquilo que a sociedade acadêmica produz para a sociedade circundante. Esta a sua função. Mas, esses tempos confusos, com funcionários confusos que confundem os B de Bonifácio e Bolivar, faz com que, sem escutar a comunidade acadêmica, sem ouvir os professores, um ‘petit comité’ resolve que a Rádio Universitária FM, Emissora da Universidade Federal de Pernambuco não mais terá o programa FORRÓ PARA TODOS, produzido e apresentado por Samuel Valente por mais de duas décadas. Leiamos o seu relato:
“Cheguei na Rádio, e qual não foi a minha surpresa: o programa em questão, havia sido retirado do ar, por um “talentoso” Comitê, do núcleo de Rádio e TV, juntamente com a direção das citadas emissoras! Fui recebido por Mirian Leite, a produtora do programa, e demais funcionários! Hugo Martins havia saído, segundo fui informado, para um encontro com o Reitor da Universidade Federal de Pernambuco! Na minha opinião – e gostaria de ouvir os companheiros, compositores, cantores, músicos -, trata-se de uma abominável atitude, desses “entendidos”, contra a cultura musical junina, pernambucana, seus dedicados defensores, principalmente, contra os ouvintes da Rádio Universitária, 99,9, FM! Contra isso, devemos todos, nos pronunciar! Uma vergonha! Mirian Leite, a produtora, chorou! Hugo Martins, o apresentador, indignado, procurando conversar com o Reitor! Francamente! Além de saquearem o bolso do povo, querem arruinar o que de mais belo existe nos panoramas musicais! Afinal, estamos no Brasil!”

Creio que o Magnífico Reitor, que tem Brasileiro como prenome, assuma o reitorado para o qual foi eleito, e alerte aos que formam o comité que está a apoderar-se do Núcleo de Rádio e Televisão da Universidade Federal de Pernambuco que, no mínimo, é asnice o que fizeram: retirar do ar, na véspera do mês de junho um programa de música junina. Esse ‘petit comité’ não deve destruir, em nome de alguma revolução ( esse tempo caiu em pedaços no centro de Berlim), a obra revolucionária de Paulo Freire, o idealizador da extensão da universidade. Paulo Freire sempre desejou começar a partir do povo, esse ‘petit comité’ é partiu sem o povo nordestino e pernambucano.

Não encontrei, Magnífico, nos dicionários, o significado de ‘Anísio’, mas sabemos o que é Brasileiro. Dê um Tom Brasileiro nesse reitorado que o senhor quis repetir.