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O Brasil, o TSE e o processo sem catecismo.

Está ficando difícil a situação da chamada “elite brasileira”. Ele tem-se mantido nos últimos dois séculos graças ao processo de reprodução em duas camadas. Primeiro porque ela se reproduz biologicamente, o que, penso, garante a continuidade familiar de parentesco até o terceiro grau. Mudam-se as posições dos sobrenomes e mantêm-se os patrimônios e as amizades. Noutro plano, ela ajuda a reprodução dos acólitos mais próximos, aqueles que administram suas propriedades, e esses recebem as possibilidades de uma boa educação, e poderão tornar-se políticos e juristas bem sucedidos, compondo a paisagem social necessária para o encantamento (daí que começaram com as universidades e com os cursos de pós-graduação); além disso, mantem com informações culturais-escolar um pouco acima da média da média para alguns que ocupam parte do estrato social e, com esforço, podem ascender ao grupo imediatamente acima. Finalmente a maior parte da população continua a redução biológica necessária para a manutenção do funcionamento das engrenagens mais obscuras, porém necessárias. Assim tem sido e, julgava ela, continuaria dessa maneira, sem a necessidade de mudanças profundas, capazes de agregar mais pessoas nas partes superiores da sociedade ao mesmo tempo em que deveria criar meios para diminuir e melhor o padrão do grupo “menos favorecido”. Mas a história é processual e os grupos dominantes, as “elites” precisam renovar-se. Quando não toma essa iniciativa, as elites podem ser avexadas pelas mudanças e o vexame é sempre vexaminoso.

Desde meados do século passado que a industrialização forçada tem exigido uma adaptação maior, e mais rápida, das elites. A industrialização e a sociedade capitalista (a elite brasileira optou ou foi levada a optar por ela) exige que o maior número de pessoas tenha a possibilidade de participar ativamente da vida e das decisões sociais. Nem mesmo é necessário que participem, mas é necessário que tenham essa possibilidade. Essa situação exige pessoas com maior escolaridade e possibilidade de conversação. Ora, o Brasil aumentou o número de escolas, ampliou as matrículas, mas as escolas não educam para a democracia e para a liberdade. Ampliou-se o número de salas de aulas, mas de escolas sem bibliotecas, sem laboratórios, sem teatros, sem quadras esportivas, etc.. Apenas no início do século XXI é que essas preocupações começaram a firmar-se no ambiente de pedagogos que fazem bons discursos de mudanças, mas sem a eles aderir. Cria-se uma situação de enfermeiros em campo de batalha: reclama de muitos feridos, mas sabem que sem eles suas posições perdem sentido. Mudanças conjunturais na última década do século pareciam indicar que a elite estava planificando o terreno para uma maior inclusão, uma expansão do grupo médio da sociedade. No início do século, uma nova “elite” advinda de fora, outsiders do tradicional fluxo de governantes, com apoio de uma secção da elite cultural e econômica tradicional.

Ocorreu um diálogo entre Olívio Dutra, quando presidente da Petrobrás com Luiz Inácio, presidente da República. Sobre um assunto, que não vem ao caso agora, Dutra teria dito: “mas Lula, isso não faz parte da tradição da Petrobrás”, ao que Lula replicou: “Dutra, pela tradição, você jamais seria presidente da Petrobrás”. Era um novo grupo que tomara parte do poder da elite tradicional e, então passou a integrar, no consumo, parte da população que não tinha condições de consumir: alimentos, roupas, viagens, escolas, teatro, etc.. Contudo as expectativas criadas não eram de todo atendidas e, tanto a antiga elite quanto os novos consumidores, queria mais: os primeiros mais lucros e os segundo mais em qualidade. E as duas elites desentenderam-se.
Vivemos este momento do qual, processualmente, novo pacto social será realizado. Políticos, juristas, grupos empresariais, corporações de trabalhadores de diversos níveis participam desse processo, e o povo, a grande massa não pode simplesmente ser deixada sem consideração: agora ela já aprendeu a ler, escrever, pensar, fazer e contar sua própria história. No acordo social algumas vozes atualmente barulhentas serão caladas, outras serão ouvidas; a conjuntura, apesar de não ter havido uma mudança estrutural da sociedade, exige iniciativas novas, pois não é mais tempo da reprodução biológica do poder das elites.

E o que estamos assistindo nas sessões do Tribunal Superior Eleitoral. O elo está sendo quebrado por desgaste: desgaste do atual presidente da República, que fez carreira política após o fim da ditadura que se manteve na mentalidade de muitos; desgaste do presidente do TSE, expondo publicamente a função de certos tribunais a serviço do poder de então, embora sabendo que está perdendo o futuro ao expor tão brutalmente a função que desempenha de justificador e guardião da ordem que está sendo vencida; desgaste de um grupo politico (não apenas um ou dois partidos) que está observando que sua função de transição da ditadura para uma nova sociedade acabou e, sabendo disso, um dos seus aliados – os irmãos Batista – já fez mudança para outras praças. O que vem depois disso? pergunta aquele que pensa a partir de catecismos, aqueles livrinhos de perguntas e respostas que sacerdotes de todas as religiões , inclusive as laicas, entregam aos seus servidores. Em um processo social o futuro é o futuro; a física social não existe.

E muitos ficarão perplexos com a história que os engoliu.

Europa – Brasil

Conversa rápida com amiga, atualmente em Londres, em treinamento para o doutorado em sua área de estudo e atuação. Não é esta a primeira vez que ela se dirige àquele continente, mas tem sido a mais duradoura, ultrapassando o período de trinta dias. Não estando como turista, tem a oportunidade de apreciar e refletir sobre o comportamento social, se não sobre as grandes instituições, mas sobre aquelas que formam o cotidiano e dão sustentação à vida. Observa como é fácil transportar-se sem medo nas ruas das cidades; percebe que as pessoas não carecem de policiamento para ocupar a cidade e receber dela o que procura. Todos parecem saber o que se espera delas e, efetivamente dão o que é esperado e recebem o que está previsto no contrato de vida social. Claro que não ela não está a viver no completo paraíso, entretanto, apesar das diferenças sociais, o convívio é agradável. Essa sensação de liberdade e de confiança nos demais membros da sociedade tem sido algo marcante para essa minha amiga.

Ao telefone disse-lhe que está ela em uma sociedade que assumiu os valores que construíram, em um processo longo e de constante negociação, exigindo de cada um que diga o que pensa e escute o que o outro diz; essa negociação que faz a democracia ser mais que um instante de votação e transferência de responsabilidade para um deputado. A honestidade que se espera de um parlamentar é a mesma que faz o cidadão comprar o bilhete para a passagem sem que um agente do Estado esteja por perto, qual um “cabo de usina”, verificando a honestidade do cidadão. Esse sentimento de pertença à sociedade foi construído coletivamente, como nos explicou Norbert Elias. E então, digo-lhe que em nossa sociedade o processo não ocorreu de maneira evolutiva, mas é filho de reciclagens permanentes, de atualizações históricas, como nos explicou Darcy Ribeiro (totalmente esquecido em nossos estudos), o que não permite que haja absorção de tais valores e práticas sociais, uma vez que eles foram criados em outras experiências históricas. No Brasil não criamos para nós uma democracia, uma sociedade,na qual os indivíduos não mantêm relações de responsabilidade por seus atos e respeito aos demais membros da sociedade, daí a necessidade da constante vigilância que o membro de nossa sociedade exige sobre ele mesmo pois, desenvolveu a ideia que, se ninguém estiver percebendo, pode-se burlar a lei em seu benefício, pouco importando o prejuízo que isso venha a causar à sociedade. Temos dificuldade de entender a sociedade como sendo nossa e de nossa responsabilidade.

Embora as crises sejam comuns em todas as sociedades, vivemos, no Brasil, uma grande crise política que é decorrente da forma como entendemos a nossa sociedade, decorrente da maneira como formamos a nossa sociedade. E, como somos irresponsáveis – talvez imputáveis, estamos sempre a construir a justificativa dessa irresponsabilidade como um mal de origem, um maléfico determinismo cultural que alimenta e é alimentado por nossa preguiça. Esquecemos, conscientemente, que “determinismo cultural” não existe, mas esse paradigma justifica os arranjos que fazemos, diariamente para não cumprimos as normas que criamos. Sabemos que é nosso desejo viver o ideal de tranquilidade na sociedade, mas não conseguimos, pois vivemos no medo de o outro não me respeite e esse medo parece que me proporciona o direito de a ninguém respeitar, e então nos surpreendemos quando experimentamos que isso é possível. Mas não queremos pagar o preço, o sacrifício para vivermos bem em sociedade.

E saímos cantando “vou lambuzando um selo se colar colou, foi desse jeito que alguém se arrumou, vou …” o que significa que aceitamos o mal como bem,

OLINDA E OS CARIRI: SERTÕES, SEMINARISTAS, COMÉRCIO E CARNAVAL.

Já uma vez foi dito, e muitas vezes repetido, que “o povo assistiu bestificado a proclamação da República” em 1889, o que é verdadeiro. Aquela foi uma ação de um grupo social bastante atuante na administração da monarquia. Mas uma nação não é formada apenas pelos que governam as estruturas, ela existe pela ação daqueles diariamente produzem as riquezas, materiais e imateriais que dão lastro aos sentimentos de pertença. Se saímos do que nos ensinam nos livros e nas escolas, podemos entender como as ruas nos dizem de nossa República e das coisas públicas construídas e inventadas enquanto homens e mulheres se movimentam carregando coisas para vender e imaginação para viver. Dentro da República há muitas repúblicas, esquecidas nos livros, amadas nas avenidas, nos mercados, nas ruas, nos becos e nas boticas. Um dos nossos fundamentos nacionais é a experiência pré-cabralina, arrostada nos experimentos da colonização portuguesa que fez surgir a nação brasileira. Nessas repúblicas há sempre festa, elas cantam e dançam as amizades, as trocas, mesmo quando as guerras quase as dizimaram.
No início do século XX, entre as muitas realizações republicanas, para além e por traz da Olinda dos livros, no Largo da igreja dedicada à Senhora de Guadalupe, as tradições dos Cariri encontraram-se com a alegria dos recusam serem vistos como vacas de presépio.
No bicentenário da República de 1817, estamos relendo a nossa história e nossa visão republicana sobre as relações entre os sertões e Olinda.
OLINDA E OS CARIRI: SERTÕES, SEMINARISTAS, COMÉRCIO E CARNAVAL.
Palestrante: Ms. PLÍNIO VICTOR
Local: Sede da TCM CARIRI OLINDENSE – Largo de Guadalupe, Olinda.
Dia 27 de maio
HORA: 14:00

As dores do Dia das Mães

Nos caminhos das redes sociais sempre encontramos novidades que, no mundo já não o são. Assim, descobri que a segunda feira que se segue ao Dia das Mães, tem sido cultivado como o Dia da Família, em países dos norte da América, especialmente, e o Canadá, em uma tentativa de superar os impasses causados por novas formas de organização familiar, algumas das quais prescinde da presença da mulher, nos casos das famílias homo afetivas formadas por pessoas do sexo masculino; pela ausência da figura do pai, quando a família é formada apenas por pessoas do sexo feminino; ainda quando as crianças e jovens pertencem a famílias que se formaram após o divórcio, e então ora não se vive com a mãe biológica, etc. Esse mesmo fenômeno ocorre com o dia dos Pais, e sabemos que o que foi dito acima sobre o dia das mães aplica-se, também ao dia dos pais, que algumas escolas já estão a chamar de Dia do Amigo.
Estamos em um momento em que parece estar ocorrendo um novo processo civilizador, para lembrar Norbert Elias, a criação coletiva de novos costumes, tradições em uma nova sociedade cujas relações são mais líquidas, como pensava Baumann, que as que foram estabelecidas no período moderno da sociedade ou mundo europeu. Nós estamos assistindo, talvez, o nascimento de uma nova Europa, uma nova civilização europeia (?). Aliás, devemos lembrar que Zeus, arrebatado de paixão, fez-se um touro para seduzir uma princesa fenícia, levando-a para a Ilha de Creta, tendo Homero chamado essa rainha de Europa. Desde então essa península que liga à Ásia e África tem tomado formas diversas, com seus povos criando e recriando novos mundos e enfrentando outros tantos.

Então fui procurar de onde vem essa ideia de consagrar um dia para as mães, elogiá-las pelo seu labor, carinho, responsabilidade nos processos de transmissão das cargas genética e cultural.

Lá entre os gregos, o início da primavera era o momento de homenagear Rhea, que também era conhecida como Cibele, a mãe das deusas e deuses. Era uma festividade para louvar, adorar a deusa mãe. Herdamos por caminhos vários essa festa no início de Maio.

Se hoje essa festa é muito “doce”, suas origens são menos almoço familiar. Em 9 de agosto de 1922, Bertha Lutz criou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, herdeira da Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, que funcionava desde 1919. Aqui convém lembrar que 1922, ano do Centenário da Independência do Brasil, é também o ano de outros movimentos como a explosão do Tenentismo, a criação do Partido Comunista, da Semana de Arte Moderna. Pois bem, o crescimento da Liga de Emancipação Intelectual da Mulher, com filiais nos estados dos estados é que fez surgir a Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Em 1926, Bertha Lutz representa as mulheres brasileiras na Primeira Conferência Pan-Americana de Mulheres ocorrida em Baltimore, USA. É dos Estados Unidos da América do Norte que vem essa nossa tradição.

Naquele país o estabelecimento do Dia das Mães começou a ser gerado durante a Guerra Civil que expôs a sua divisão no relacionamento entre seus cidadãos. Em 1852, Anne Maria Reaves Jarvis , preocupada com a mortalidade infantil nas famílias dos trabalhadores, criou o Mothers Days Works Club; em 1865, sua preocupação era com a condição física dos feridos na guerra e, então criou o Mothers Friendship Day. Em 1870, proclamando o desejo de paz, Júlia Ward Howe, publicou o manifesto Mothers Day Proclamation. Entretanto foi Anna Jarwis, filha de de Anne Maria que, para lembrar sua mães que morrera em 1905, iniciou a 12 de maio de 1907, a campanha para que fosse oficializado um dia para homenagear as mães. Em maio de 1914, o Congresso Americano consagrou o segundo domingo de maio como do dia das mães. Assim, podemos verificar que o Dia das Mães nasce do sofrimento das mães cujos filhos seguem para a guerra ou que sofrem e morrem de fome. E são as mulheres que se unem para lembrar a dor que é a experiência em observar o sofrimento ou a morte dos seus filhos. Quando Anne Jarwis percebeu que a celebração do dia das mães foi tomada pelo comércio e perdeu, entre pacotes de celofane, o sentido primeiro que ela e sua mãe tiveram, ela afastou-se e iniciou a batalha para por fim ao feriado que ela havia gerado. Essa batalha ela perdeu.

Foi para atender a solicitação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino que Getúlio Vargas, em, 1932, tornou o segundo domingo do mês de maio, o dia dedicado às mães, aqui no Brasil.

Saudades de minha mãe que subia as ladeiras de Nova Descoberta para cuidar das mães que já não podiam ir até à Igreja.

Encruzilhada nas pesquisas e na vida

Leio, ouço e vejo vários professores universitários, alguns, como eu, já próximos da aposentadoria, continuando a trabalhar apesar de terem cumprido todos os protocolos para a jubilação de sua vida laboral, e estão quase desiludidos com alguns aspectos vividos na instituição que trabalham e amam tanto após anos de dedicação. É um sentimento nascido no confronto de algumas ideias, de ideologias. Talvez essa situação seja mais sentida na área das ditas Ciências Humanas. Essas ciências quase sempre surgiram para explicar e compreender o comportamento dos homens e mulheres. Houve um tempo de maior dedicação ao conhecimento, à análise do acontecimento social. Foi um tempo dedicado ao trabalho descritivo do mundo histórico cultural. Entretanto, no final da primeira metade do século XIX, surgiu a concepção de que, mais que conhecer a realidade, como vinham fazendo os filósofos, deve-se transformá-la. Desde então a questão que se põe é: transformá-la em qual direção, em qual sociedade, em quais tipos de relações.

À medida que se formavam e cresciam, as ciências ditas humanas e sociais passaram a agir separadamente da filosofia, passaram a dedicar-se ao método. Os homens e o que lhes aconteceriam de fato foram se tornando algo dispensável. Como disse Sartre, é uma Questão de Método. E foram tentados muitos, alguns criados em laboratórios mentais por alguns que associaram os projetos autoritários de Humanistas renascentistas com as ideias de mudanças abruptas, postas em prática pelos seguidores da Criança Terrível dos iluministas. Criou-se um clima indesejável de guerra permanente entre dois grupos que disputam todos os espaços: administração, bancas de concurso, bancas de seleção, gerências de Departamentos, Centros, Reitorias, etc. Mais recentemente essa disputa começou a atingir a sala de aula, os corredores; e então, o engajamento na luta pelo poder e sua democratização levou a uma união, quase total, com o movimento estudantil, pondo em risco a possibilidade de crítica. Quase submissão a La Chinoise. A autocrítica supõe autonomia. Não é à toa que nas recentes invasões, ou ocupações, de unidades da universidade, os professores que foram agredidos foram dispensados de qualquer solidariedade por parte de seus colegas ou colegiado da universidade. E se alguns manifestaram solidariedade, o fizeram de maneira pessoal, informal e privada. Parece ter havido um temor que soubessem desse seu pequeno deslize.

Sem possibilidade de uma crítica, como criar um conhecimento minimamente livre e científico. Ou só será científico aquele que se pareça com a experiência de Lysenko?

É necessário que, lendo o livro dos outros escrevamos os nossos, não copiemos o que lemos. As reflexões sociais que temos a partir das experiências europeias têm nos auxiliado, mas devemos tentar superar a prática de ficarmos apenas na realização de cursos de atualização de conhecimentos; já é tempo de voltarmo-nos para nossa história e procurar nos entender como fomos, somos e queremos ser. Nos divertimos ou nos envergonhamos conosco por sermos um povo mestiço (há algum que não seja?), mas é tempo de nos aprofundarmos nessa nossa mestiçagem que nos faz universais e para além da dicotomia entre Apolo e Dionísio. Para isso, é necessário dedicar mais horas de pesquisa e reflexão sobre o Brasil, esse desconhecido nas universidades.

Inimigo do povo ou amigo do poder? eis a questão.

Em uma conversa ocorrida em sala do Arquivo Público de Olinda veio o nome de Henrick Ibsen. Veio a propósito de companhias, de conversação, de companhias. Vivia em uma ilha e respondendo se não se aborrecia por estar só, ele teria dito “mas eu não estou só, estou comigo e gosto de minha companhia”. Na mesma semana o ministro Edson Fachim viu-se derrotado em sessão da segunda turma do STF. Colocaram em liberdade quem pôs em risco a liberdade do país, encontrou-se uma maneira de dizer que não era importante nem necessário manter na prisão esses homens que cometeram crime contra a sociedade. Lembrou, o ministro Edson Fachin uma obra de Ibsen, O Inimigo do Povo. Viveu a solidão na sala de trabalho, viu-se feliz apenas com a sua companhia, e a Ibsen.

O papa Francisco escreve que “A nossa esperança está em Jesus Cristo” pretende que se faça uma grave mudança na Igreja: que seja revisto o papel do laicato, que a Igreja seja menos clerical, o seja, deixe de ser clerical, ou seja, governada pelos clérigos. Vai ser difícil fazer surgir essa “Igreja que sai” do apego ao poder. Uma vez estava no Acre, lecionando em curso de teologia, e escutei de um clérigo muito importante prócer da Teologia da Libertação, diretor daquele instituto, perguntar: “quando será que teremos um leigo que mereça a Igreja, como foi o Dr. Alceu de Amoroso Lima?” Escutei a pergunta e respondi, como leigo que sou: Talvez a pergunta seja: quando a Igreja virá a merecer os seus leigos? Foi a última vez que estive no Acre, convidado para ensinar naquele instituto. Outro dia comprei as memórias de um sacerdote que, durante anos foi o vigário para os leigos na arquidiocese de Olinda e Recife, nela ele dedica vários parágrafos à saga de um militante comunista que usava a Igreja Católica como aparelho para a realização de ações de seu partido e, não lavrou uma linha em relação aos leigos católicos que foram presos e torturados durante a ditadura. O Papa Francisco sabe que os clérigos que estão à frente dos organismos da Igreja, desenvolvem projetos pessoais ao lado do projeto de Jesus. Como sua preparação foi realizada os afastando do mundo, criaram um mundo à parte e, como fazem parte do poder, só relacionam-se, igualmente, com quem tem poder neste mundo do qual foram “afastados”. Ficam confusos quando se aproximam do mundo e, na confusão que fazem, vivem com mais interesse os intentos do mundo.

O Papa Francisco não precisava, ao informar que não poderia vir ao Brasil neste ano, fazer críticas diretas ao governo do presidente atual, dando a entender que não vinha ao Brasil pela situação em vive parte da população brasileira. Fosse isso verdade não teria vindo quando governava o Brasil a inocente do petrolão e o governador Cabral. Por ter cruzado essa linha, o Papa abriu espaço para que a CNBB tornasse claro o seu desejo de dirigir as esquerdas, ou de servi-las, incentivando os católicos a participarem de uma greve cujo interesse, não explicito, era apoiar um ex-presidente enrolado com várias acusações em andamento no judiciário. Interessante que Leonardo Boff, ex-franciscano, no mesmo período colocou em sua página uma matéria não escrita por ele, com críticas ao governo de Luiz Inácio. Uma forma diplomática de dizer sem dizer o que pensa. Com s pressões sofridas por seu partido, rapidamente o ex-frade tentou se recompor com seus amigos.

Em 2017, a Igreja Católica agiu como o arcebispo de Olinda e Recife, Dom Sebastião Leme, que pôs o peso da Igreja na defesa do Serviço Militar Obrigatório, na formação das Linhas de tiro e no incentivo da participação do Brasil na guerra que se iniciara em 1914. (A Primeira Guerra na Tribuna Religiosa. Curitiba, Editora Prismas) Dom Leme queria um novo acordo com o Estado, alcançado com a Revolução de 1930. E agora, o que quer incentivando a deposição de um presidente enquanto ceva a candidatura de outro?

Os meses seguintes prometem. Veremos quem dará o que a César, e então saberemos quem é deste mundo, ou que sabe que está aqui de passagem.