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Preparar e viver o carnaval

O carnaval virá oficialmente nos dias finais de fevereiro. Mas isso não impede o treinamento necessário vivê-lo intensamente, física e espiritualmente, no momento de sua realização. As gêmeas Olinda e Recife são, nos finais de semana, campo de treino, e aprendizagem para tornar batuqueiros e bebedores resistentes para o que os espera nos dias oficiais do Reinado de Momo, o rei que tudo permite, inclusive a melancolia dos Pierrots, embora esses sejam hoje em número cada vez menor. As Colombinas já não são tão recatadas e já pouco importa as lágrimas desse lastimoso personagem superado no tempo. Como já percebia Zé Keti nos ano setenta, há “mais de mil palhaços no salão” e nem mesmo é necessário o uso de máscaras. O carnaval não é uma comédia de l’arte, é uma comédia.
O mês de fevereiro começa com celebrações em homenagem a Nossa Senhora e/ou Iemanjá, e isso depende do grupo social a que se esteja atrelado por nascimento e/ou por opção. Tradicionalmente sabemos que há pessoas que costumavam gostar mais do “e”, entretanto, defensores de tradições outras, por serem multiculturais, preferem o “ou”, deixando claro que são tolerantes a todos, menos aos que sabem ser mamelucos ou outro tipo de mestiço. Claro que no carnaval nada disso conta muito. Houve um tempo que o toque dos tambores alertava a polícia que, de pronto cuidava de silenciá-los, na busca de evitar que se continuasse essa africanização do Brasil. O carnaval mostra o fracasso dessa tentativa boba. Passeando em Olinda nesse tempo de preparação para os rituais momescos, podemos observar que os tambores (hoje se prefere dizer Alfaia) estão nas mãos de jovens, mais moças que moços, que pouco lembram os bantús e nagôs que trouxeram esses batuques transoceânicos. As alfaias que desfilam nas ruas olindenses não cabem nos orçamentos familiares dos descendentes africanos, embora eles continuem na função de Ogans. O carnaval nos leva sempre ao Brasil do “e”.

Mas, as semanas que antecedem o carnaval também são de preparação para os prestadores de serviços diversos àqueles que só têm três dias para cair na brincadeira que os anjos teriam inventado, segundo uns versos de Nelson Ferreira: são fornecedores de chapéus, turbantes, fantasias, bebidas diversas, tudo que possa estimular o fervor do súdito de Momo. Alguns desses fornecedores são moradores das periferias, invisíveis durante o ano, continuam invisíveis durante o carnaval. São percebidos na medida em que entregam a mercadoria e, logo em seguida são esquecidos, como o Pierrot da Colombina.

E, contudo, o carnaval é também a constante lembrança da vida que pulsa e deseja ser menos contida, mais alegre que as obrigações diárias dos outros dias do ano. O carnaval é uma das muitas maneiras inventadas pelos homens para louvar a fertilidade da vida que vem escondida em um pedaço de tecido ou de sorriso; numa canção ou em um abraço inesperado.

Uma característica do carnaval é que ele atrai gente de fora da comunidade imediata; vem para o carnaval, em Olinda e em outras cidades do Brasil, pessoas de outros carnavais vividos em outros lugares, podem ser pessoas que em seus locais de vida já não tem um carnaval como os que são contados nas histórias de seus antepassados. Há pessoas que viajam para longe de suas casas para encontrar o País da Cocanha. É que ouviram dizer que ele existe em terras longínquas, terras onde a juventude é perene e os limites são menos densos. Essas pessoas ajudam a criar o carnaval na medida em que deixam de ser turistas, se deixam contaminar pelo ‘micróbio do frevo’ e passam a experimentar a doença da alegria, ainda que seja auxiliada pelo bate-bate de maracujá ou pela batida de limão. E, quando vier a quarta feira, ficará na lembrança os momentos vividos ao lado de Vênus, Dionísio, Rudá. E cantarão:
“tive um sonho que durou três dias,
foi um sonho lindo em sonho encantador,
eu dançava e tu me conduzias ao castelo azul onde mora o amor…”

Esquecidos

Os esquecidos
Por Biu Vicente

Janeiro de 17 quase ao seu final e tudo parece tão modificado que já se torna difícil lembrar o que ocorreu no mês passado.

Muitas mortes ocorreram no Brasil em duas semanas. Uma estatística diz que nos primeiros quinze dias foram mortos quase um policial por dia neste país pacífico. Por seu turno, em três presídios parece ter havido um esforço para superar as mortes nas guerras que estão em andamento naquela parte do mundo que os professores de história nos ensinam terem se formado as primeiras civilizações. Nos tempos de Hamurabi o código dizia que o olho perdido exigia que o outro perdesse seu olho. Nas prisões brasileiras o que está valendo nem é a Lei do Talião, mas a lei que não reconhece o direito simples de viver, se mata para não morrer, enquanto não se é morto. O que os programas de informação estão a nos mostrar é a prática de matar para não ser morto. A decapitação retorna como prática comum, tanto nas guerras do Oriente Médio que usam a religião como justificativa, quanto nos presídios nos quais a justificativa é manter-se vivo, ou explicitar qual a facção está no comando do país. Falta apenas o carnaval de cabeças espetadas, como ocorria nas ruas de Paris no Período do Terror.

O Estado Brasileiro acostumou-se a pensar em apenas 30% da população, fazia planejamento apenas para um terço dos habitantes do país, agora se vê obrigado a ampliar suas preocupações. A sociedade ampliou-se, embora sem fazer crescer proporcionalmente a produção de riquezas. Se há mais gente consumindo, tem haver um crescimento da produção e um alargamento da oferta de ocupação, de oportunidades educacionais, de possibilidades de recreação, facilidade de locomoção, ampliação de coleta de lixo e atendimento preventivo para garantir a saúde e a segurança dos novos grupos convidados a serem plenamente cidadãos, etc.; sem esses complementos cria-se uma sociedade anômica e anêmica social e culturalmente. O Estado que sempre pensou apenas em um terço da sociedade, deve aprender a pensar mais largamente. Novos tempos, novos hábitos. Mas formar novos hábitos leva algum tempo, e pode ser que nosso jovem Estado de apenas duzentos anos, ainda incompletos, já esteja bastante envelhecido; parece que perdeu a prática de sonhar e desejar mudar: ser capaz de sacrificar-se por uma causa é coisa de jovens; ser capaz de fazer os outros sacrificar-se por uma causa, é próprio dos velhos, especialmente dos velhos que venderam seus ideais ainda na segunda idade e, na terceira idade, só pensam em seus confortos. São elefantes que gostam de conforto enquanto esperam a morte. Essa parece ser uma imagem que representa bem a elite que hoje está à frente do Brasil, (talvez não apenas no Brasil, mas em outros países) homens velhos que não souberam ou não quiseram deixar brotar e crescer o novo. Preferiram as novidades, e assim somos uma sociedade que está sempre ofertando novidades a meninos crescidos que se tornam velhos sem experimentar a juventude. Levaram a sério aquela história que “a juventude é uma calça jeans azul e desbotada”.

Na mais rica nação do mundo ocorreu a posse de um novo mandatário que, parece, está disposto a mandar às favas tudo que lembre a construção de uma civilização, uma possibilidade, uma chance para a humanidade. Prefere, ele, apenas a lealdade a seu grupo pequeno. Pensar na humanidade tornou-se estranho, uma vez que vivemos em uma sociedade que cuida de agir pelo prazer do imediato, cuida do pequeno retalho, do fragmento que se escolhe para dizer que é seu. Começamos a agir como aquela galinha da fábula que, tendo caído uma jabuticaba em sua cabeça, saiu a cacarejar que havia caído um pedaço do céu. Donald Trump, em seu discurso de posse citou o “homem esquecido”, imagem utilizada por Franklin Delano Roosevelt, para referir-se aos desempregados da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Este novo presidente foi eleito com o voto dos esquecidos, dos desempregados, daqueles que aparecem nos livros como estatísticas, números sem história que contam a história dos anônimos, esquecidos por aqueles que dizem defendê-lo, enquanto fortalecem sistemas que os tornam mais esquecidos nas histórias. William Reich os chamava de Zé Ninguém. O Zé Ninguém pensa do pescoço para baixo.

Embora bilionário ou trilionário, Trump era um “homem esquecido” a quem não se dava crédito, mas ele falava com os outros esquecidos, com a linguagem necessária para manter a pulsão de vida, a vida não sofisticada, a mais simples. Esses esquecidos se fizeram lembrar. Agora veremos até onde iremos com ideais tão pequenos: como uma conta bancária, um prato de feijão ou lentilhas, a vitória do clube, da tribo da nação que substituem humanidade.

Na cerimônia de sua posse, Trump, que é um homem esquecido, esqueceu que estava acompanhado da esposa.

Pátio de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda

Terminei a leitura de ADROS, PÁTIOS E PRAÇAS PÚBLICAS, de autoria de Fernando Guerra de Souza, professor de História da Arte no Departamento de Arqueologia da UFPE, uma publicação do Centro de Estudos de História Municipal – CEHM, desta cidade do Recife. Sua leitura nos convida a percorrer os muitos espaços de sociabilidade criados ao longo da trajetória humana, mais especificamente a tradição greco-romana e europeia, matriz dominante de nossas cidades. É um percurso que nos apresenta, com elegância, os pontos básicos para a compreensão das transformações dos espaços de acordo com as necessidades sociais, e assim fazemos uma pequena arqueologia dos Adros, Praças e Pátios que encontramos no Estado de Pernambuco, mas sempre relacionando-os com a grande tradição que nos envolve. Belas fotos relacionadas com o texto e aos espaços mencionados, sejam eles espaços nascidos no atendimento de necessidades religiosas sejam aqueles espaços crescido a partir das atividades seculares.

No livro do professor Fernando Guerra de Souza não poderia deixar de ter papel de protagonismo a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda, caminhando para o quarto centenário, a primeira igreja dedicada à Senhora do Rosário no Brasil. Nós sabemos que o Brasil é formado desse amalgama ameríndio-afro-europeu, não apenas na composição biogenética da população, mas, principalmente cultural. Ao dizer cultural, sabemos o quanto as religiões foram importantes na organização das múltiplas culturas e civilizações geradas no constante processo de mudanças da vida humana, e no caso brasileiro, isso parece tão óbvio! Mas, o que é interessante é que, no Brasil as religiões inicialmente se afirmaram sem o concurso dos sacerdotes. Certo que ocorreu a matança física e cultural dos pajés e lideranças religiosas das selvas, mas a religiosidade se manteve e também se firmou no Brasil inventando novos sacerdotes que, sabiamente juntaram valores e símbolos das religiões que vieram da Europa e da África. E essas religiões chegaram aqui e se organizaram antes que seus respectivos sacerdotes estabelecessem.

As religiões, os deuses, estão no coração dos homens e se despejam nos lugares onde eles vivem. Foram os mercadores e marinheiros os primeiros evangelizadores cristãos. Tomemos o caso dos franciscanos, foi uma terceira que deu as terras para os frades quando eles chegaram; no Recife, os pescadores criaram a Igreja de SanTelmo antes da criação da paróquia de Pedro Gonçalves. Para usar um termo da teologia cristã protestante, eles estavam exercendo o sacerdócio universal. Assim foi o caminho percorrido pelo catolicismo: primeiro o católico comum, depois vem o padre para organizar. Podemos dizer o mesmo das religiões que vieram da África, não foram os babalorixás e as Orixalás que criaram os cultos, os cultos os criaram para atender a necessidade. E como não havia uma autoridade explícita que definisse a ‘ortodoxia’, ocorreu a mestiçagem também nas religiões, o sincretismo ameríndio-afro-europeu que pode ser visto em qualquer templo das muitas religiões que são praticadas no Brasil. Evidentemente que a religião dos europeus teve uma dominância sobre as demais, entretanto, jamais as outras deixaram de estar presentes e influentes na vida social. Mesmo os escravos, acolhidos no mundo católico, puderam organizar seu espaço nesse novo universo que lhe foi dado, pois, segundo a doutrina, todos são livres no amor de Deus, organizaram-se em confraria, tiveram a permissão para construírem seus templos e cultuarem a Virgem do Rosário, São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e todos os santos. Assim, os seus senhores evitavam de os encontrar em seus momentos de liberdade, quando estavam aos pés da Senhora do Rosário. Assim entendemos o porquê de serem tantos os afilhados de Nossa Senhora da Conceição.

Construtores das igrejas das outras irmandades, construíram a sua, resultado de seu labor e dos irmãos libertos que, reunidos conseguiam a alforria, a liberdade dos irmãos escravizados pelos homens. As irmandades dos Homens Pretos são a afirmação do trabalho, do sonho e da sua realização. O momento do culto, seja o culto interno na Igreja, seja o culto público nas procissões. A honra de carregar o andor de nossa Senhora do Rosário, ou o andor de São Benedito ou de Santa Efigênia nos ombros cansados do corte da da cana ou do calor das caldeiras, é afirmação da liberdade, ainda que no campo espiritual. Como ouvimos dizer, às vezes dizemos nós, “estar aos pés de Nossa Senhora é o céu na terra”.

Por tudo isso é que nos custa a acreditar que, na arquidiocese que recentemente foi pastoreada por Dom Helder Câmara, já considerada um Herói da Fé, a Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos esteja sendo ameaçada pelo bispo que deveria cuidar dos direitos daqueles que, faz quatrocentos anos, cuidam do orago dedicado à Mãe de Cristo, ali, onde nenhum homem branco quis morar, pois era fora da cidade, mas hoje é considerado centro histórico de Olinda. E, no entanto é lugar dos pobres e os pobres são a preferência de Jesus, o Filho de Maria.

Massacre de Manaus e a civilização

Uma vista rápida no facebook e logo vejo uma postagem a informar que mais de 80% dos suecos não acredita em Deus e lá estão fechando presídios por falta de usuários; o mesmo post, também em foto, informa que mais de 80% da população brasileira acredita em Deus e aqui os presídios estão lotados. Termina com a pergunta: para que serve a religião? Claro está que quem posta não fez qualquer comentário. Aliás, grande parte das postagens é apenas o famoso esforço/método de estudo que tem feito grande sucesso nas escolas – secundárias e universitárias – o Copiar e Colar, antigamente conhecido como “tesoura e cola” . Talvez essa publicação na rede social seja uma referência ao massacre ocorrido no sistema prisional do Estado do Amazonas, logo no alvorecer deste novo ano, o décimo sexto do terceiro milênio da Era Cristã. Atrevo-me a comentar, não o massacre, que é uma mostra de nossa incapacidade coletiva de nos proteger contra a barbárie, mas sobre a postagem. Mas uma reflexão está ligada à outra.
Quem posta foto sem as comentar compra a ideia que lhe venderam. Nesse caso, a postagem apresenta-se fora da história, como um dado caído de algum planeta. Essas informações chegam sem refletir que a Suécia e os demais países do Norte da Europa veem modificando seus comportamentos desde o século XVI. Não ocorreu informar que naquelas sociedades o padre foi substituído pelo promotor e o inferno pelas prisões. O famoso Leviatã se fez presente ao tempo que ocorria o processo civilizador e o fortalecimento da ética do trabalho. E isso vinha ocorrendo antes de Freud e das diversas psicologias. Bem, o processo civilizador, apontado por Norbert Elias, não conseguiu terminar seus passos no Brasil. Os mais radicais podem dizer que nem começou.

Como nos ensinou Darcy Ribeiro, um apaixonado pelo Brasil e pelo povo brasileiro, o Brasil, além de ser um “povo Novo” é, também, um povo que não fez nenhuma Revolução Técnico-científica, sendo condenado a fazer constantes Atualizações Históricas, sempre a acompanhar o que outros inventam. o porquê disso fica para outra oportunidade. Por ora ficaremos com a ideia de que, no Brasil o padre foi substituído não pelo Promotor, mas pelo psicólogo; em lugar da ética do trabalho foi criado o sistema de tolerância ao jeitinho; e o Leviatã aqui tomou a forma de um Senhor de Fazenda (não vou dizer engenho para que se pense que isso é coisa do Nordeste açucareiro, apenas, e não se refere ao sudeste do café), sempre cordial, um compadre para todas as horas, e o Inferno é coisa que acontece nas favelas ou Assentamentos Urbanos Não Estruturados.

Os presídios estão vazios em países em que a honestidade nas relações sociais é mais importante que os compadrios; os presídios estão vazios nos países em que as autoridades não sobrecarregam o erários com leis garantidoras de privilégios e regalias próprias dos séculos anteriores às Revoluções Francesa e Industrial. No Brasil, ainda teremos, por algum tempo, levantes contra prisões de figurões da política que cometem crimes contra o patrimônio público. Assim ocorre porque a prisão desses criminosos da política põe em risco as sinecuras de muitos que levantam contra reformas, mas, dizem, estão prontos a fazer revoluções para impor sistemas que já se mostraram falidos, com ou sem religião.

Começamos o ano com um massacre, segundo o noticiário, anunciado. Na verdade poderia ser definido como um “homicídio coletivo culposo”, para que ouvidos mais sensíveis de almas insensíveis não sofram com a ideia de um assassinato previsto pelo ‘leviatã’ caseiro.

O que se podia aprender em 2016

Aproxima-se o novo ano e vem carregado de “contas a pagar”. Contas antigas, muito antigas, acrescidas por novas, quase do mesmo teor das antigas, agora realizadas por novos personagens. Como o comportamento dos que dirigem o Brasil republicano segue o comportamento dos que dirigiam as fazendas de café, açúcar, algodão, gado e outras criações da natureza dominada pelos homens, há pouco a diferençar, exceto algumas novas atualizações em relação ao aperfeiçoamento das tecnologias. Roubos, comportamentos antissociais sempre foram recorrentes em nossa história, bem como ocorre em todos os povos e nações. Entretanto, neste ano que está a findar, tivemos a revelação da capacidade de superação de nossos dirigentes. Não que tivéssemos a ilusão de que não nos roubavam, mesmo porque “roubar e fazer” e expressões semelhantes apareciam em depoimentos de políticos antes de 1988. Nem os militantes de certo partido de viés comunista, aqueles que roubaram a fortuna de Ademar de Barros durante a ditadura, em uma casa em Santa Tereza, imaginavam que eles poderiam superar o político paulista. Pois bem, as revelações de 2016 nos permitiram conhecer que nossos dirigentes estão no topo da gatunagem nos cofres públicos. E, como no passado, contaram com o auxílio do “empresariado burguês”, também atualizado na contabilidade, de modo a não permitir que político que desejasse algum jamais deixasse de receber o dinheiro e alcunha, apelido ou codinome. Finalmente o Ministério Público e a Polícia federal do Brasil forneceram provas de que os políticos são o rosto do capitalista que permanece oculto. Sempre houve uma desconfiança da relação dos Kennedy com a marginal da sociedade; sempre houve desconfiança de que os mafiosos influenciaram na política e nas artes, mas isso jamais ficou tão esclarecido como nos relatórios emitidos por setores da justiça brasileira no ano de 2016.

Enquanto as guerras dominavam o cenário internacional, neste ano que o Papa Francisco clamou ser o da Misericórdia, aqui no Brasil continuava a matança indiscriminada e insaciável, nas periferias das cidades e em suas ruas, de modo a superar os que morriam em guerras noutros espaços e entre outros povos. E enquanto mudávamos de presidente na esperança de alguma mudança real, pudemos verificar que seis é sempre igual a meia dúzia, embora possam ser vistos em cores diversas. E, entretanto podemos estar na construção de novos tempos, pagando o tempo que foi gasto em ilusionismos. Como teremos que buscar o que foi perdido, sabemos desde agora, que quando o obtivermos já não será o poderia ter sido. Mas iremos buscar uma nova maneira de nos construirmos, com a Misericórdia, mais do que justiça, pois que ela pode nos ser adversa por nossa insensibilidade diante do sofrimento que provocamos com nossa tibieza diante dos que escolhemos para orientar os passos da nação: são tíbios em nos perceber, são tíbios em assumir a responsabilidade do comando, mas lépidos em favorecer a criação de leis e atalhos em seu benefício e dos amigos ao tempo em estão a organizar atalaias contra os que os escolheram. E enquanto fazem assim, sem intencionar, nos permitem entender as bordas das piscinas onde se assentam para tramar a permanência no poder. Neste final de ano soubemos que a quebra de cláusula pétrea da Constituição para a facilitação da vida política de dilma Roussef foi definida de modo a garantir a presidência do Senado para um senador do PMDB. Aprendemos muita coisa sobre nossos costumes políticos sem termos que esperar pelas explicações de sociólogos e historiadores do futuro, como até então tem acontecido; policiais, jornalistas, imagens postas nas salas de todas as residências substituíram, temporariamente, esses intelectuais, pois com as informações dadas atualmente estão confundindo-os.

O mesmo aconteceu na compreensão dos movimentos da política internacional. Poucos foram os intelectuais, aqui ou além fronteiras, que percebiam o que significava Donald Trump para parte dos americanos. Assim pudemos aprender que sempre há algo a surpreender, especialmente quando se mantém firmemente atados a modelos já vencidos pelo tempo. Tivemos a oportunidade de compreender que a compreensão e conhecimento do mundo é um permanente aprendizado, que não há como evitar o futuro utilizando o passado como armadura; melhor dizer que não há como evitar o futuro e, principalmente que não há como controlá-lo. Mais fácil controlar o passado, como tentaram, com relativo sucesso, alguns governos. Mas o sucesso desse empreendimento é sempre relativo.

Finalmente, creio que alguns professores universitários tiveram a oportunidade de aprender que nem mesmo podem controlar os movimentos dos poucos jovens com os quais mantêm contato mais aproximados.

Quase fim de ano, não fim do mundo

Então 2016 está a terminar com muitas esperanças destruídas e com muitas promessas a serem cumpridas nos próximos anos. Ano algum jamais termina, pois há sempre “restos a pagar”. Mas este de 2016 fez terminar o mandato de uma presidente e, com ele quase terminava uma era, a de um partido político que teve, neste ano de 2016, suas vísceras expostas. O que foi exposto não foi realizado em 2016, eram “restos a pagar”; o que foi exposto faz lembrar título de filme famoso: o passado te condena. Muitos estão zangados com as pessoas que expuseram as bobagens e as ‘sabidurias’ de uma turma que se propunha a mudar o mundo. Mudaram eles, e o que foi exposto foram as mudanças que eles promoveram: foi exposto o que desejavam em seu íntimo. Esqueceram que em algum momento tudo é revelado.

Assim a eleição norte-americana expôs um paradoxo: um país que se formou com a aceitação da diversidade religiosa, que se fez com a aceitação de grupos provenientes de várias regiões, concedeu vitória a quem se levanta contra os novos migrantes e as novas diversidades. Entretanto, esse paradoxo expôs a falsidade dessa ‘verdade histórica’ da aceitação do diverso e do diferente. Historicamente o diverso foi, na verdade, o mesmo; desde começo aquela nação só aceitava cristãos, e estes reformados; aceitava todos os povos, desde que viessem da Europa, preferencialmente setentrional e central. Os africanos que para lá foram levados, logo tiveram de despir-se de todas as tradições culturais que carregavam, ao mesmo tempo em que foram obrigados a assumir as tradições europeias e aceitassem não serem vistas socialmente. Foi isso que a eleição de Trump revelou: a farsa do multiculturalismo e do politicamente correto. Terrível esse ano de 2016.

Se ampliarmos nosso olhar e procurar entender o que fazem as instituições que devem apontar o futuro – ONU, OEA,- e outras similares, ficamos sem compreender como o mundo parece pior hoje do que quando foram elas constituídas. Aparentemente não há guerras no mundo, desde que o conceito de mundo não considere o continente africano e a maior parte da Ásia, e também podemos considerar que favelas nas periferias das grandes cidades não fazem parte do ‘mundo’. No máximo elas serão percebidas como números estatísticos, não pessoas. As mortes que são anunciadas como parte de atentados no Oriente ou África não nos chegam como pessoas, assim como “essas almas sebosas” que constam dos noticiários policiais de nossas cidades. As guerras civis dos Estados distantes são tão distantes como a guerra civil que nos faz fechar nossa casa com muitos ferrolhos e fechaduras. Não as percebemos, pois elas não são humanas como nós. Assim pensamos. Conheço alguns que até se fantasiam como solidariedade, mas são tão excludentes como aqueles a quem julgam excludentes. Este ano que termina nos deu mais uma oportunidade de entender que o discurso excludente é falso. Dizer “nós e eles” como escutamos faz tanto tempo, é falso: “nós e eles” na verdade é “nós contra eles” e, mais seriamente, deveríamos entender como “eu contra eles”, pois este nós é o tal de “plural majestático. Esse discurso é falso, e é mantenedor da desigualdade ideológica, pois naturalmente somos desiguais, mas ser desigual não significa ser inimigos, como os oradores inimigos da humanidade nos querem fazer entender.

E enquanto escrevo sei que os bombardeios continuam sobre Alepo e um caminhão é dirigido sobre alemães que estão em compras ou passeando suas vidas em uma feira, talvez cumprindo ordens para eliminar aqueles seres viventes, sem a consideração de suas humanidades. A barbárie que nega a humanidade do outro não é exclusividade dos que são ocidentais, também os mão ocidentais agem dessa forma. Também esses são “restos a pagar”. Enquanto o massacre continuar, enquanto continuarmos a lógica do Cavalo de Tróia, enquanto nos aproximarmos dos outros com o objetivo de negar a sua vida, estaremos evitando a beleza da expressão humana, a assumpção da vida.

Tenho certeza que 2017 vai receber muitos “restos a pagar” de 2016, mas tenho a esperança que este ano novo vai se dar muito bem, embora nem todos nos saiamos muito bem, especialmente os mais pobres, esses que os poderosos estão sempre querendo ajudar. Como disse o Mestre da Galileia, “pobres sempre os tereis”. Ele sabia que é uma questão de metanóia, além da economia, “estúpido”.