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Só queria que a geração de meus filhos valorizasse mais a si mesma

 

 

Esta publicação tomei emprestada a Reynaldo-BH, que foi publicada na coluna de Ricardo Setti, em 27 de outubro de 2014, na veja.abril.com.br Temos, embora jamais nos tenhamos visto, temos muitas experiências e sonhos em comum e, como este texto atesta, também algumas frustrações.

 

“Existem derrotas que são maiores que as vitórias. Hoje, 27 de outubro de 2014, é dia de celebrar uma destas.

Poucos – muito poucos – param para tentar entender o que seja DEMOCRACIA. Virou palavra vulgar, geralmente dita por ditadores ou por quem não tem respeito pelo conceito.

Democracia envolve o respeito ao Estado de Direito. Quem se importa em definir o que seja a raiz da cidadania (outro termo que está em desuso) e a sua importância?

Dilma Roussef está eleita. E eu, como democrata, me curvo a esta vontade popular. Pouco importa se os votos que obteve vieram de Minas, do Nordeste ou de onde for. Ela foi eleita por brasileiros.

Tenho ódio pelo resultado ou por ela? Sinceramente, não. “Ódio é um copo de veneno que você toma e se espera que o outro morra”.

Tenho medo? De novo, não. Já tenho idade para saber sobreviver. Sobrevivi a tempos em que a inflação era de 1.000% e que meu salário acabava uma semana após recebê-lo. Já visitei meu pai preso em um navio e em uma cidade – a última do Brasil – na fronteira com o Paraguai. Já vivi o exílio e a dor de perder parentes que ainda hoje estão desaparecidos. Já apostei na mudança que sonhava com o partido que hoje é um ajuntamento de bandidos, que serão – quem viver verá – presos nos próximos anos.

Qual o sentimento então? O da frustração. Como um Brasil goleado no Mineirão. Sempre acreditei que não foi o “time do Felipão” que foi goleada. Era previsível que a Seleção seria goleada. Se não fosse pela Alemanha, seria pela Holanda ou Argentina. Mas o ufanismo estéril vencia a cada jogo.

Não me julgava – nem julgo – senhor ou dono das verdades. Mas, as “verdades” de Dilma eram só delas. Acreditou-se que só ela – como uma salvadora caudilhesca – seria capaz de manter o mínimo de conquistas sociais. Que eram benesses.

O povo foi levado a crer que precisava de alguém que lhes desse o que era – sempre foi – direito de cada brasileiro. O mesmo povo que foi às ruas por R$ 0,20 no ano passado, voltou a adormecer e a acreditar mais em um partido que em si mesmo.

Esqueceu o passado. Não se lembrou de que tiramos do poder um presidente eleito, a pontapés.

Que derrubamos, nas ruas, uma ditadura.

Que exigimos que o Ministério Público não fosse amordaçado.

Que uma lei Maria da Penha existisse.

Que homofobia fosse crime.

Que os Estados e municípios gastassem somente o que arrecadassem e que no último ano de governo (prática normal desde sempre, até então) deixassem a conta para quem os sucederia (a Lei de Responsabilidade Fiscal, tão combatida – à época, pelo PT), que passamos um ano calculando quando valia uma URV (Unidade de Referência criada como estágio para a implantação definitiva do Real), que as greves não fossem criminalizadas, que as Forças Armadas fossem proibidas de se manifestarem politicamente (com a Constituição de 1988, que o PT assinou com RESSALVAS por escrito), que o primeiro embrião do Bolsa Família existente foi criado ao mesmo tempo pelo então governador do DF, Cristovão Buarque, e pelo falecido prefeito tucano de Campinas (SP), José Roberto Magalhães Teixeira, e pagava às famílias que mantinham filhos estudando, que o Vale Transporte fosse criado com a oposição dos donos e empresas de ônibus, que Bolsa Aimentação criasse a até hoje existente cesta básica, etc.

Quando Lula ganhou a eleição (a primeira), a inflação disparou de 5,6% para 12,%. O receio era que o que o PT havia prometido (congelamento de preços, fim do real recém-implantado, calote na dívida INTERNA, idem na externa, etc – que constavam do programa oficial) viesse a ser implantado.

FHC chamou os empresários e AFIRMOU que Lula JAMAIS faria nada daquilo. E pediu a Lula que ASSINASSE uma “CARTA AO POVO BRASILEIRO” onde se comprometia com as conquistas até então alcançadas.

A FIANÇA de FHC fez parar ade subir a inflação — que ele, hoje, é acusado de ter aumentado. Em uma época que se comprava um apartamento por mil alguma coisa (cruzeiro, cruzados, etc), NUNCA se sabia o valor da prestação ao fim do mês! E era comum DEVOLVER o bem comprado, pois após pagar uns 2.000 qualquer coisa, ainda – pela inflação – se devia outros 10.000!

Assim, não tenho ÓDIO nem MEDO. Eu já vivi. O que me DÓI – e sim, dói muito – foi e continuará a ser, a escolha pela ignorância. A falta de rebeldia. A preguiça em ler. O desprezo pela própria capacidade de avaliação. Dos jovens! Seria uma OFENSA a todos eles acreditar que uma leitura pudesse influenciar quem tem TODA uma vida pela frente. Que são sim – os jovens são NA essência mais puros e honestos! – o que se acostumou a dar o nome de futuro.
NADA do que se lia era levado em consideração, nunca como verdade, mas ao menos como instigação a se buscar a verdade.

A defesa do indefensável era (e é) pavorosa.

Se há um Pronatec, Prouni e Bolsa Família, são CONQUISTAS que DEVERIAM SER LEI.

Não são. SÃO DIREITOS que cabem NUNCA como dádiva, mas como reparação. As cotas raciais são somente uma PEQUENA parte da injustiça histórica de um país que foi um dos últimos a abolir a escravatura. A lei Maria da Penha, a respostas a um país em que matar mulheres (em nome abjeto da dita “honra”) foi por muito tempo, um crime impune. NADA NOS FOI DADO! TUDO CONQUISTADO!

Não é a “minha Bolsa” como Dilma afirmava! Nem pouco me importa se TODOS estes programas já existiam criados pelos TUCANOS.

O que eu EXIJO? Que no Pronatec, os cursos deixem de ser de “Lapidação de Pedras Preciosas” em pleno Piauí ou “Criação de Caprinos” no Rio de Janeiro! Que seja REGIONALIZADO para que os formandos sejam aproveitados. Que não sejam somente números em cursos de formação(?) de 160 horas! Que o PROUNI tenha a GARANTIA IMEDIATA de ao menos um estágio após a formatura! Que sejam financiados por EMPRESAS, que aproveitem a força humana formada!

Que o Bolsa-Família PARE de crescer, pois é sintoma (o crescimento) que a miséria CONTINUA AUMENTANDO: que se dê uma porta de saída! Mesmo com empregos temporários no estado!

Que a lei Maria da Penha seja considerada INAFIANÇÁVEL! Que os cotistas não tenham nomes e condições divulgados, para que não sejam “universitários” de segunda classe! Que seja definido em LEI que pagar MENOS a uma mulher nos mesmos cargos exercidos por homens, impliquem em MULTAS TRABALHISTAS.

Que os presídios sejam MINIMAMENTE humanizados, com SOMENTE higiene e garantia de não domínio por facções. Que haja um a tempo maior de INTERNAÇÂO COM VISTAS À RECUPERAÇÃO de menores infratores, entre 16 e 18 anos, e que após isto, seja deletada as anotações em fichas criminais.

Estes meus sonhos serão DADOS por salvadores de plantão? Aprendi com a vida que NÃO! A classe dominante – das quais fazem parte a imensa maioria dos petistas que recebem sem trabalhar – conseguem pagar empresas de vigilância que pululam por aí e estão isentos da aplicabilidade das leis. E – o mais importante, mostrado e demonstrado por TODOS e defendidos por MUITOS – que haja PUNIÇÃO a este nível DESENFREADO de corrupção como NUNCA vi e vivi em minha vida.

Não se trata somente do mensalão. São sentenças compradas. São juízes afastados de suas varas por suspeição. São promotores que – em nome de suas (deles) preferências ideológicas, abandonam o CPP e assumem o poder que a Constituição houve por bem lhes outorgar. É a PETROBRAS, onde NUNCA consegui apresentar um projeto, exceto se fosse apresentado por algum apadrinhado. Desisti.

O DNIT, que contratado para cobrir estradas com 4 cm de asfalto, o faz com 1 cm! E matam vidas aos montes! São ambulâncias sem macas. Postos sem médicos. Escolas inauguradas hoje e sem professores amanhã. São bilhões na PETROBRAS! Que as obras anunciadas sejam mais que placas de propaganda! São mulheres que pagam para vizinhas tomar conta dos filhos, para poderem trabalhar, por falta de creches.

São usuários de Bolsa Família que são filhos de vereadores de cidades pequenas. São “sorteados” para as casas do Bolsa Família, que por coincidência são funcionários de prefeituras. São políticos ligados ao PCC. São assassinatos não esclarecidos – como Celso Daniel – que obrigou a família a morar por 6 anos fora do Brasil. São ignorantes funcionais que são gerentes de cargos com salário mínimo de R$ 20.000,00 reais.

Não tenho ódio, medo ou gosto amargo de derrota.

O gosto que sinto hoje é de desesperança. De haver proposto o mínimo: conheçam a história! ANALISEM! E não acreditem que foram ELES que nos deram temos de bom. E sim, temos! FOMOS NÓS que conseguimos.

Não somos um povo pedinte. NENHUMA de nossas vitórias foi dada. Se assim fosse, ainda viveríamos como em Cuba (50 anos de ditadura) sob as botas dos gorilas ou sob o descaramento de Collor, que hoje ainda manda e esmanda, mas muito menos.

Só tentei que a GERAÇÃO de minha filha valorizasse mais a si mesma. Falhei!

Mas, não desisto. 2015 será o início (e este resto de 2014 já mostrará o monstro) um ano tão difícil como foram os anos da era Collor. Enquanto não se entender que o país que não conhece a própria história está fadado a repetir os erros do passado, seremos TODOS eternos pedintes de benesses oficiais! E não donos de DIREITOS que temos como cidadãos!

Não tenho ódio ou tristeza. Neste país de “nós X eles”, sinto-me fortalecido. Continuamos na luta! E agora com uma oposição que faz jus ao seu papel histórico.”

Publicado por Biu Vicente

Escolhendo o futuro

 

Faz anos que não temos um outubro como este, fervilhando de vida e de preocupação com o Brasil. Estamos a nos aproximar do final do período eleitoral, que foi quente como certos dias de verão. O calor em demasia mexe com os miolos das pessoas, parece. Alguns deram a confundir realidade com desejos e os conceitos das ciências sociais foram caindo a tal nível, que um vendedor de sabonetes, doutor em comunicação, passou a orientar o pensamento de muitos doutores.

As comunidades virtuais nos mostram com maior rapidez as mudanças que ocorrem e as confusões que se estabelecem por conta da corrida na direção do poder. Em uma delas leio uma senhora a lembrar ao seu vigário que ele está pedindo que ela vote em quem defende doutrinas contrárias ao ensinamento da sua igreja. Mas o padre está decidido em garantir que todos recebam os bens materiais. Uma vontade de fazer o reino dos céus na terra. A situação chega o ponto de a senhora lembrar que ‘nem só do pão vive o homem’ porém seu reclamo é superado pelas inúmeras postagens que lembram que o futuro sem tal candidato será ruim para os pobres. Paro de ler e vou refletir sobre uma discussão entre Jesus e o tesoureiro do grupo que ele aglutinava. A tradição diz que esse tesoureiro seria Judas, aquele que o venderia por algumas moedas aos sacerdotes de então. A discussão foi por conta de um perfume que uma mulher estava a derramar nos pés de Jesus lavando-os, como forma de pedir perdão pelos erros que havia cometido ou simplesmente agradecendo o fato de poder estar ali, junto daquele que ela admirava e via como símbolo ou o próprio Deus. O perfume era caro e provocou comentários o fato de estar sendo gasto com os pés, uma das partes mais sem importância do corpo, uma parte que entra em contato direto com a sujeira das ruas. Os comentários seguiram a direção da assistência aos mais pobres, diziam o quanto poderia ser comprado e dado aos pobres e, então minorar o sofrimento dos mais necessitados. O relato nos induz a pensar que Jesus, acompanhava de soslaio a discussão e via como o discurso em defesa dos interesses dos pobres encobria desejos outros, como a apropriação do perfume, promover a sua venda ganhando alguma vantagem a mais, etc. então chama atenção de que ela fez uso correto do perfume, pois haverá outras oportunidades e outros meios para cuidar dos pobres além. Em outra ocasião chamou atenção de que não é do pão que vive o homem, que ele tem outras necessidades, inclusive ele próprio recusou usar o seu poder para, milagrosamente, por fim às necessidades e, dessa maneira ser aclamado rei. Tomar decisões políticas  para o futuro tomando por base quase única as dores físicas, reduzir o homem apenas como ser direcionado para e pela matéria não parece ser a opção de Jesus que, em muitas outras ocasiões tomou medidas e agiu para resolver problemas das necessidades imediatas. Seu direcionamento extrapolava os objetivos imediatos, mas sem os negar.

As eleições em países democráticos deveriam ser vistas e debatidas dessa forma, cm olho nas necessidades imediatas, mas o objetivo da sociedade é bem maior do a saciedade dos interesses dos atuais membros que, ao votar neste ou naquele candidato, escolhem como será a sociedade para aqueles que ainda não estão.

Boa votação, é o que desejo a todos e que se pense mais no futuro que no imediato.

 

Todos os atos cívicos livres valem à pena

Na manhã seguinte à manifestação do povo através do voto, observo a facilidade com que se diz que o povo está enganado por ter votado certo, e votar certo teria sido votar como a pessoa que escreveu votou.

Nos anos que vivi na ditadura recente, sempre que o povo elegia majoritariamente pessoas não ligadas ao poder  que então comandava o Brasil, log em seguida  surgia uma legislação mudando a lei eleitoral.  Agarrados ao poder ficavam em desespero quando o povo dizia: ‘não estamos contentes com vocês, não queremos o seu governo’.  Hoje pela manhã  já li um democrata pedindo uma “constituinte exclusiva” para que a reforma política fosse feita. Era uma resposta que ele dava a outra insatisfeita com o resultado da urna. Para esses, o povo está errado por não ter votado em sua candidata à presidente. Tive a sensação de ler um  jovem pensando como Ernesto Geisel.

Recebi um recado de uma professora, pessoa que vi nascer e crescer juntamente com seus pais, ao longo do período ditatorial. Ele um operário e, como eu organizador do Conselho dos Moradores no nosso bairro. Lutamos juntos contra a ditadura militar, lutamos pelos nossos direitos, os Direitos humanos. Estivemos no mesmo palanque que lançou o movimento Pressão Moral Libertadora, de Dom Hélder Câmara, em ato público na matriz de Casa Amarela. Juntos nós vencemos a ditadura e continuamos a construir a democracia. Ele fez opção partidária para continuar a luta, e eu, por outro lado preferi ficar sem filiação partidária, mas sempre caminhando com pai da jovem. Preferi não ter compromisso partidário, continuar na Igreja como simples fiel da democracia. Continuei lutando, mas não por um projeto de poder. Nesta eleição, após muitas notícias de desmandos, corrupção, clientelismo, uso da máquina governamental para fortalecer o projeto de poder e não apenas a liberdade de pensamento de opções, o povo votou dizendo que os partidos devem repensar as suas ações e não os tratar como animais de estimação. Votei  com o povo e não com o partido, continuo lutando pela liberdade de pensamento e ação e, por isso o desencanto da filha de meu companheiro, que poucos dias antes de sua morte conversou comigo sobre a possibilidade de formação de um grupo de estudos sobre o comportamento ético na política. A filha de meu amigo disse que lamenta a minha posição política e cobra a minha história. Ela acha que “é uma pena”. Eu digo: Não, cara amiga, eu não considero uma pena ter lutado pelo fim de uma ditadura – inclusive com prisão -, não considero uma pena continuar lutando para nenhuma ditadura venha a escurecer o Brasil, matar a sua alegria com pão e circo. Nem mesmo considero uma pena a sua “pena”, pois é assim que é nas democracias: podemos pensar diferentes e nos respeitarmos.  E seu comentário até me deixa contente. Foi para essa abertura de pensamentos e ações que seu pai e eu lutamos juntos, em algum momento, mas nós sabíamos que não concordávamos em tudo.

Biu Vicente

Rio São Francisco: entre a Canastra e os canastrões

Setembro descamba para o seu final mais uma vez. Começou com muita chuva aqui no litoral mas deixando permanecer a secura do sertão. Neste setembro, que em nosso hemisfério é o tempo da primavera, mas que parece ser de menor tamanho que as demais estações, pois aqui em Pernambuco o verão chega rápido, e os da terra costumam festejar sua aparição já no Sete de Setembro, talvez fazendo uma referência, ainda que inconsciente entre as aquarelas que a luz solar revela e a liberdade sempre desejada, pois ela é como o amor: sua conquista é diária.

Esse tempo de verão trouxe a notícia de que a principal nascente do Rio São Francisco está secando, está seca. Cansou de chorar as águas para formar o Rio da Integração Nacional, como aprendi na escola, só compreendendo muito mais tarde refletindo sobre o traçado de seu leito que corre “do sul para o Norte”, escondendo-se, vez por outra. Interessante que a fonte da “unidade nacional” esteja secando neste tempo. Em épocas anteriores, quando se rasgava o peito das aves para descobrir o futuro, os homens buscavam entender esses sinais e os relacionavam com o seu cotidiano. Poderíamos fazer o mesmo nos dias de hoje, cheio ‘de racionalidades objetivas’?

Nesses últimos anos deu-se a querer cumprir promessas feitas no passado por quem não tinha grande noções sobre o que dizia, embora fosse pessoas interessada em buscar saber o que estava sendo pesquisado em seu tempo. Pedro II, que assistia as nações industrializadas rasgando a terra em busca de carvão, ouro e prata, que sabia dos projetos do Canal de Suez e do Panamá, em momento de poesia e perplexidade, sem perceber que para o acontecimento dos projetos é necessário mais que o discurso, informou seu sonho de transpor as águas do Rio São Francisco para dessedentar a população do sertão. Não sabia ele que os sertões sempre foram habitados e os que lá viviam conviviam com a seca em processo de transumância. A Lei da Terra, criada em meados do século XIX, começou a destruir a movimentação da população para as terras da margem do grande rio. A Lei que o povo chamava de “Lei da Cerca” gerou uma realidade que invadia São Cristóvão, no Rio de Janeiro. E a seca virou questão social.

Cem anos depois, governantes que se gabam de não estudarem, resolveram colocar em prática o sonho de Pedro II, um sonho que pretende (ou pretendia) garantir que água do São Francisco chegasse ao sertão mais distante, das margens. Muitos foram os que disseram da incúria de tal projeto, grandioso como as torres da Babilônia, torres construídas para evitar que as pessoas conversassem sobre o que lhe interessava de verdade, mas que discutissem apenas sobre: será que estou produzindo tijolos suficientes para construir a torre que o patesi e seus sacerdotes desejam?  Assim ocorreu em anos recentes, e nenhum dos auxiliares do patesi quis ouvir os clamores, de que outra poderia ser a solução, além desta que não modifica a Lei da Terra nem muda o jeito do povo viver sem respeitar as leis da natureza. Dizem as tradições que a Torre de Babel foi abandonada porque chegou um momento que seus construtores – engenheiros, líderes políticos, os trabalhadores produtores e carregadores de tijolos não mais se entendia. Quanto tempo durou entre a decisão de construir a Torre e o seu abandono porque aqueles que não entendiam o que faziam nem se entendiam entre si, não há resposta objetiva, mas a Torre foi abandonada em meio da construção, restando apenas pedaços do que ela seria. Enquanto tudo isso acontecia, engenheiros e sacerdotes continuavam seus estudos e pediam incentivos para a glória do patesi, que ouvi envaidecido declarações de amor de seus auxiliares, ansiosos para se manterem no serviço do seu patesi, evitando, para si, a fome que a seca produz.

Setembro descamba em outubro e, em sua primeira semana, há o dia dedicado ao Louvor de São Francisco, o que tece seu nome colado ao nome do rio que, de tão forte avançava léguas sobre o mar, como diz Américo Vespucci. Maltratado o Rio, o Atlântico está invadindo o seu território. Suas águas foram domadas pela indomável ânsia humana de tudo controlar e agora a Serra da Canastra informa que está faltando água para o Velho Chico.

O dia é quatro de outubro. Neste ano, no dia seguinte, engenheiros, sacerdotes, trabalhadores irão votar. Será que lembrarão da Serra Canastra? Será que os canastrões continuaram a receber loas de amor em troca da continuidade da distribuição de sopas de cebolas, como as do Egito e da Babilônia?

Biu Vicente

Três mananciais: Abelardo, Opara e Capibaribe

 

Neste 23 de setembro de 2014 algumas notícias nublam os nossos sonhos. Embora passageira, a presença do juiz/advogado dos mensaleiros na presidência da República pois a titular viajou para a reunião da ONU, e os substitutos imediatos estão impedidos de assumir por conta da legislação eleitoral, não me deixa feliz. Com o exercício da presidência por alguns dias, esse advogado é capaz de ganhar mais uma aposentadoria, afinal, as leis têm seus meandros e razões mais razoáveis que as do amor à pátria.

Mas a presidente está em Nova Iorque para participar de uma reunião sobre as mudanças climáticas no planeta. Talvez seja a oportunidade de ela explicar a obsessão por transpor águas do Rio São Francisco. Claro que o seu criador fez esse faraônico projeto para afirmar-se maior que o prometedor inicial, o Imperador Dom Pedro II, ainda no século XIX. Assim, nos albores do século XXI, sem considerar o estrago que a civilização e a ocupação desordenada dos sertões ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, foi decidido que, apesar das muitas considerações contrárias à iniciativa, o faro da reeleição levou o líder sebastianista (essa anacrônica herança lusa) a manter o projeto. Agora nos vem a notícia de que a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra secou. Hidrelétricas, ocupação das margens de modo irregular, destruição da mata que embeleza e fortalece o rio, nada disso é levado em consideração quando se trata de anunciar projetos e ilusões. Quem visitou a foz do Rio São Francisco já sabia que o Rio perdera sua força.  Técnicos alertaram, estudos de diversas universidades foram jogadas na lata do lixo. Agora já é hora de explicar os malfeitos – que são causa e efeito do atraso – e, pensar que é necessário conviver no semiárido sem tornar árido o que ainda estava molhado e regando esperanças. Sim, as notícias informam que o manancial do OPARA está sem jorrar água.

Aqui em Pernambuco estão destruindo, no município de Poção, a nascente do Rio Capibaribe, que já some em alguns de seus quilômetros em direção do Atlântico. E, nesse estancamento de mananciais, hoje o coração, a emoção, o brilho criativo dos olhos de Abelardo da Hora também parou. Todos os que amamos o homem devemos lamentar a perda que esta morte traz, mas devemos louvar o artista que soube retratar tão belamente os MENINOS DO RECIFE, e soube também colocar em pedras a beleza e a sensualidade das mulheres que sonhamos e tocamos; devemos glorificar o Abelardo que soube ver, na Hora, os VARREDORES DE RUA, os PASSISTAS e que pôs em azulejos maravilhosos a saga de Joaquim Nabuco.

Ainda podemos evitar a morte do Rio Capibaribe que banha São Lourenço da Mata e outras cidades e que alimenta a população do Recife; talvez seja possível alguma “ação emergencial” na Serra da Canastra, algum projeto de reflorestamento das margens do Opara. Ainda poderemos ter essas águas conosco. E conosco sempre teremos o espírito da militância democrática de Abelardo da Hora; Saberemos dizer às novas gerações do seu entusiasmo com a criação artística e a formação de novos sonhadores na arte de viver.

Dois Livros e um cuscuz

Manhã do sábado 13 de setembro, madrugada com pequena chuva mais forte que o orvalho molhou a grama e deixou marca no cimento frente à casa. Na cozinha, no preparo do cuscuz, os gestos de minhas mãos umedecendo o fubá, lembram as mãos de minha mãe. Os gestos corriqueiros transportam nossa alma pra as esferas mais distantes e próximas da alma.

Sábado 13 de setembro o livro Informação, Repressão e Memória, escrito por Marcília Gama da Silva, atualmente professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, publicado pela Editora da UFPE, aponta os meandros nos quais fui envolvido, como prisioneiro nos tempos da ditadura militar. Sua leitura traz o tempo de volta, os muitos tempos guardados na minha memória, inclusive os gestos de minha mãe. Estando no Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano, Marcília organizou e refletiu sobre o que foi salvo dos arquivos do DOPS em Pernambuco e, a partir desse olhar meticuloso ele refez o processo de criação e de ação dessa parte do sistema autoritário militar que foi estabelecido no Brasil desde 1964.

Como toda vez que abrimos um livro é a primeira que o abrimos, serão feitas muitas leituras da leitura posta por Marcília. Para além da organização burocrática, ali podemos intuir homens e sua formação: aquele aparato foi criado não apenas em 1964, mas antes, como está demonstrado na arqueologia que leva à criação da Escola Superior de Guerra, nem foi unicamente pelos militares, mas por toda a sociedade que moldou aqueles agentes em sua juventude, ainda quando não eram soldados ou policiais. Apesar de a tortura ter sido realizada nos porões e espaços escuros, a repressão ocorreu ao ar livre de com muita gente sendo informada. Quando estava organizando os arquivo, uma vez Marcília mostrou-me algumas fotos, lá estava eu, ora na rua, ora em alguma manisfetação, ora entrando em um cinema. Eles foram tiradas sem minha permissão: eu estava sendo acompanhado, vigiado. Assim, como eu muitos cidadãos foram marcados pela burocracia do Estado, pelas sombras. O livro de Marília nos mostra as faces sem nome desses agentes, não daqueles que estavam nas ruas bisbilhotando a vida, mas dos que liam, cruzavam as informações e decidiam quem deveria ser mais olhado. Também mostra os discursos dos justificadores da rede de informação, mas não apenas dos grandes, também do torturador comum, que se expõe naturalmente em seus depoimentos pois que acreditava na justeza de suas ações. Os estudantes e pesquisadores do período encontrarão parte do caminho já aplainado graças aos estudos de Marcília Gama da Silva. Leitura obrigatória.

Também importante o livro de Grazielle Rodrigues “Fernando de Noronha e os ventos da Guerra Fria”, resultado de seus estudos para a obtenção do grau de Mestre em História. Afastando-se da visão comum da Ilha como paraíso para as férias, Grazielle optou entender o papel-função desempenhado pelo arquipélago na trama da Segunda Guerra Mundial, nos interesses estratégicos para os aliados e das vantagens alcançadas pelo governo brasileiro no jogo internacional das guerras. Publicado pela Editora Universitária da UFPE, estudantes de história e amantes da história do Brasil e de Pernambuco em particular, devem investir seu tempo nessa leitura esclarecedora.

Essas leituras são como os gestos das mãos em preparar o cuscuz, revolve o fubá para deixa-lo úmido o suficiente, temperado com o sal, e então colocá-lo no recipiente adequado para o cozimento. Faz-se o cuscuz do conhecimento.

Biu VIcente