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A solidão dos prédios e a dor da identidade

Converso com amigos historiadores e urbanistas sobre o descaso a que estão submetidas as igrejas da arquidiocese de Olinda e Recife, algumas construídas no século XVII outras no XIX e outras no XX. No dia seguinte, o Jornal a Folha de São Paulo vem com uma matéria que radiografa o estado e serviços prestados por esses prédios, hoje quase esquecidos pelos principais interessados, aqueles que os construíram. Entretanto, não apenas em Olinda e no Recife tais prédios encontram-se fechados a maior parte de todos os dias da semana. Os católicos não os frequentam nem deles cuidam. Se hoje eles ainda estão de pé, e não tombados em sentido físico, é porque foram tombados pela sociedade que os vê como parte de sua história, formadores de sua identidade. Uma casa que não é habitada, que não recebe atenção de seus proprietários ou moradores, definha e morre. E sua morte é pública, ela expõe o abandono a que está sendo submetida. Os templos católicos fechados estão definhando porque os católicos não cuidam deles e não permitem que outros cuidem.
Uma das igrejas antigas mais bem cuidadas de Olinda é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Ali tem uma família que cuida dela, uma Irmandade que varre o chão, limpa os bancos, verifica se as luzes estão acesas. Essa família deve ser mantida ali e o Arcebispo deve garantir que a comunidade que usa e cuida do templo possa ficar ali. Se retirar a família que cuida daquele espaço que cultiva o catolicismo e vive como nenhuma outra comunidade o sincretismo religioso que marca a nossa cultura, aquele prédio ficará triste, como a Igreja de São João e a Igreja do Bonfim, fechadas; sendo que uma delas está ainda mais triste, pois parte de seu mobiliário parece que foi retirado. Uma imagem, um retrato posto na parede de uma casa denota afeição e vida, se essa imagem ou retrato for exposto em outro local, eles poderão até parecer belos, mas que os virem jamais perceberão ou saberão dos amores que eles causaram no local onde estavam. Por isso é que é tão difícil organizar um museu.
A Irmandade Nossa Senhora dos Homens Pretos de Olinda é considerada Patrimônio do Município de Olinda, Patrimônio Imaterial que está umbilicalmente ligada à Igreja construída por seus antepassados, quando eram escravos e, ao mesmo tempo católicos devotos e seus descendentes continuam sendo. A Igreja cabe pastorear, e pastorear não é retirar as ovelhas do aprisco, do jardim no qual o Altíssimo construiu uma mesa para o banquete bem à face do inimigo.
A prefeitura de Olinda, ao reconhecer a importância da Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Olinda tem a obrigação de proteger a representação material do espírito que reconheceu como base da identidade olindense. Por isso deve promover ações junto à Arquidiocese para que nada de mal aconteça à comunidade dos Homens Pretos de Olinda.
Quanto às demais igrejas que permanecem fechadas todo o tempo porque, parece, que não há católicos interessados em mantê-las, a Arquidiocese poderia pensar um maneira de entregar, sob contrato de responsabilidade, a alguma instituição para que o cuidado seja feito, e, dessa maneira, os prédios que contam a história do povo olindense, pernambucano e brasileiro possam ser preservados e referenciados, se não como parte da maneira como os católicos viveram sua religiosidade nos dois séculos de dominação portuguesa e no período Imperial, que o sejam como parte da identidade nacional.
E, agora lembro, que ontem à tarde, 24 de agosto, enquanto passeava no final da tarde na cidade do Cabo de Santo Agostinho, duas das três igrejas católicas que existem no centro comercial e Histórico da cidade estavam fechadas, ao que duas igrejas neopentecostais estavam abertas. Cena semelhante eu vi na cidade de Vitória de Santo Antão e, possivelmente está sendo assim em outras cidades.

Jimmy Carter é o “cara”, não aquele outro

Jimmy Carter é o ‘cara’

Ao deixar a Presidência dos Estados Unidos, ele foi ser cidadão. Um cidadão melhor do que ele foi presidente

Pobre juiz Sérgio Moro. Basta ele adentrar algum evento público e um inevitável “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas…” brota de algum canto, rapidamente encorpado pela maioria mais desinibida dos presentes. Nada que o magistrado possa fazer senão aguardar resignado o final da cantoria.

Graças aos 17 meses de descida aos porões da alma humana da Operação Lava-Jato, Moro sabe melhor do que ninguém o quanto a raça dos bípedes é gelatinosa. Ele sabe sobretudo que não é de clamor por um salvador de pátria que o Brasil precisa. Até porque o posto não existe. Ou quando parece existir é porque o índice nacional de cidadania já baixou do volume morto. Nas poucas vezes em que fala em público, Moro procura sinalizar que a solução deve ser procurada na sociedade como um todo.

Por coincidência, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter reapareceu no noticiário esta semana para servir de colírio cívico aos desesperançados com a remela política em Brasília. O anúncio que Carter tinha para fazer não era alvissareiro — aos 90 anos de idade, ele está com tumores no cérebro e “a vida nas mãos de Deus”. Ainda assim, foi um bálsamo ouvir o relato cândido e sem firulas de um dos líderes mundiais menos midiáticos e mais coerentes dos tempos modernos.

Carter tinha tudo para dar errado em Washington, e deu. Primeiro ocupante da Casa Branca vindo de um estado sulista (seu avô serviu no Exército Confederado), era de família profundamente batista e fora plantador de amendoim na Geórgia até entrar para a política.

Tinha jeito de caipira, sotaque imperdoável e introduziu um estilo de governança que a elite de Washington pensou ser passageiro: ele dispensava a saudação “Hail to the Chief”, tradicional em cerimônias públicas, vendeu o iate presidencial, carregava a própria bagagem de mão, cortou o uso de carros oficiais para o primeiro escalão do governo.

Não desencadeou nenhuma guerra, não bombardeou civis em país algum, não violentou a Constituição, devolveu ao Canadá o seu Canal e embicou a política externa dos Estados Unidos para uma América Latina mais democrática. Também o histórico acordo de paz entre um país árabe (Egito) e Israel, válido até hoje, levou a assinatura de Carter.

Nada disso teve relevância para o eleitor que o enxotou de volta para o Sul e lhe negou a reeleição em 1980. Foi a fracassada tentativa de resgatar 52 reféns americanos espetaculosamente aprisionados no Irã por quase 444 dias que jamais lhe foi perdoada.

Um presidente incapaz de impedir a humilhação dos Estados Unidos em praça pública não merece assento na Casa Branca. Em seu último discurso à nação, Carter despediu-se com as seguintes palavras: “Entrego as responsabilidades oficiais que assumi neste cargo e reassumo o único título da nossa democracia que tem valor maior do que o de presidente — o título de cidadão”.

Uma das singularidades de Carter é dizer o que pensa e fazer o que diz. Assim, ao invés de curar a nostalgia do poder num campo de golfe, ele foi ser cidadão. Um cidadão melhor do que ele foi presidente.

Durante a campanha para a Casa Branca, ele pronunciara sem qualquer constrangimento um dos discursos mais ridicularizados nos salões da capital. Prometera promover “um governo tão bom e honesto, decente, compassivo, competente e caloroso quanto o povo americano”. Desprovido do cinismo prevalente em sobreviventes na política, Carter acreditava serem essas qualidades também esperadas de um governo.

Como presidente, falhou. Como cidadão, está feliz e bombando. Único homem público americano a receber (e merecer) o Nobel da Paz após deixar o poder, ele ganha seu sustento não com palestras, mas como autor prolifico — já publicou 21 livros, nenhum dos quais é irrelevante.

Habitat for Humanity, o programa mundial de construção de habitações populares ao qual é vinculado, ocupa um naco substantivo do seu tempo até hoje, junto com o monitoramento de eleições em países de democracia vulnerável.

Carter não hesita em jogar o peso de sua voz para condenar violações de direitos e fazer denúncias. Sabe que uma das obrigações primeiras do cidadão é ser persistente nas cobranças.

Com o passar dos anos, veteranos que sentiam urticária à simples lembrança do seu nome já conseguem reconhecer nele alguns dos atributos mais citados — respeito, coerência, integridade pessoal, credibilidade.

De todo modo, não custa guardar na memória a advertência feita por George Orwell no ensaio sobre Gandhi de que “santos devem ser sempre julgados culpados até prova em contrário”. O juiz Moro talvez concorde.

Dorrit Harazim é jornalista

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/opiniao/jimmy-carter-o-cara-17272199#ixzz3jeVgK9UG
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TEMAS DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CATÓLICA EM SERGIPE

Quando escreveu a memória de suas viagens, Heródoto o fez para que os feitos dos grandes jamais fossem esquecidos. Embora o fizesse a partir do seu lugar, homem grego que olhava os bárbaros, seu legado acabou por mostrar a diversidade do mundo que conhecera e julgara. Então relatou e explicou o que entendeu e, embora não duvidasse da justeza de seus julgamentos e daquilo que seus sentidos lhe mostrara, seu julgamento exposto em seu escrito, deixa entrever que o mundo era maior que a sua visão e seu entendimento. Assim ocorre na prática da escrita da História. Todos os que se dedicam a relatar os fatos por eles vistos e a comentar aqueles que outros viram e relataram devem guardar o cuidado de saberem que estão a revisar visões vistas por outros. É assim que o que no passado foi relatado como virtude e santidade pode ser entendido, hoje, como uma intencionalidade diversa daqueles que fizeram os atos agora comentados. A glória de um tempo pode ser o opróbrio em outro. Ao educar o educador transfere os valores de seu tempo aos seus aprendizes ou educandos, e esses valores eram, ou são, aceitos por seus contemporâneos. Revisitando o passado quase que somos levados a re-inventá-lo, e podemos nos aproximar perigosamente do anacronismo. Este é o risco que sempre corremos pois nossa memória concorre para que lembremos aquilo que é aceitável no presente e torna o presente aceitável. Cada geração refaz a história com os instrumentos que lhe são dados pelo seu tempo e suas circunstâncias, assim como os homens e mulheres, nós mesmos, fazemos a história como nos possibilitam as condições nas quais estamos envoltos.
Pois, creio, foi considerando todos esses perigos e limites de nosso ofício, ancorados no saber adquirido na leitura e nos conselhos dos antigos, que jovens historiadores sergipanos decidiram verificar quais os caminhos percorridos pelos primeiros educadores/catequistas que abriram sendas físicas nas terras capitania de Cristóvão Barros e, mais importante, foram capazes de organizar suas atividades pondo-as à disposição de maior número de pessoas, utilizando a mais moderna tecnologia de então, o livro, nas limitações dadas pelo reino onde viviam e pela crença que os movia. É disto que trata este volume que está em suas mãos, caro leitor: boas reflexões sobre algumas ações civilizatórias utilizadas pelos europeus para dominar uma terra e seus povo, mas que, por isso e apesar disso provocou a formação de um novo povo: o povo de Sergipe, parte do povo brasileiro. A mim coube a honra de ler e de apresentar cada um dos escritos desta coletânea, o que faço prazerosamente a partir de agora.
A série de capítulos que formam esta coletânea é iniciada pelo escrito de Raylane Andreza, no qual procura evidenciar os “Indícios da educação jesuítica na capitania d de Sergipe” e, para tal nos brinda com algumas notas sobre a formação da última grande ordem criada no mundo católico, em plena efervescência da Reforma Luterana. Nesta época em que um jesuíta foi escolhido para assumir a direção do mundo católico, não é demasiado lembrar o especial voto de obediência ao pontífice romano, além do compromisso com a disciplina e o trabalho intelectual e missionário. Assim é que os padres da Companhia tem uma atuação discreta e marcante na construção do viria a ser Sergipe; uma atuação realizada na formação de aldeamentos e colégios que deram origem a cidades, nos quais exerceram o múnus e o carisma definidos em sua origem: a catequese e o ensino. Em verdade toda a sua ação resume-se na educação entendida como formação do homem, de maneira integral e não apenas a que ocorre nas escolas. Na leitura que nos oferece a professora Raylane Andreza, Podemos entrever que as ações dos padres nem sempre foram bem aceitas pelos colonos e não foram poucos os problemas por eles enfrentados ao longo dos quase trezentos anos de atividade no império português até a sua expulsão. Resta, além das ruínas físicas de seus colégios, as lendas das riquezas de um imaginário Eldorado, ponto de atração de muitos aventureiros do passado e sonhadores do presente que ainda buscam o tesouro dos jesuítas, não percebendo que é o trabalho e o uso disciplinado da inteligência o grande tesouro criado e deixado pelos inacianos.
E se podemos inferir pelas construções físicas deixadas pelas edificações de colégios, capelas e conventos, os espaços físicos da colonização portuguesa nas terras americanas pela ação de padres missionários, devemos entender que esses são representações de um processo de mais profundo que teria sido a conquista das almas. Ane Luise Silva Mecenas Santos ao debruçar-se sobre a obra que Luiz Vincêncio Mamiani, SJ, construiu a partir de sua experiência missionária, para favorecer seus companheiros de fé e de Companhia, nos convida a penetrar no difícil mundo da tradução de tradições, Como explicar dogmas gerados em experiências ocorridas no complexo mundo cultural helenístico a povos que estavam vivendo os tempos da primeira dominação da terra – a agricultura – para a sua sobrevivência? O artigo de Ane Luise, apoiado na reflexão de obras diversas, cuida de nos apresentar a ampla cultura de Mamiani aliada à sua capacidade de observação das ações humanas, à disponibilidade de ouvir e entender vocábulos e sentidos, de modo a reorganizá-los em uma nova gramática cultural, é uma demonstração da dedicação disciplinada dos seguidores de Ignácio de Loyola.
Roberto Souza Santos nos convida a entender como uma igreja notadamente clerical viu-se administrada, em suas ações práticas por leigos. Assim, santos e devoções trazidas e alimentadas por clérigos foram sendo carreados para os cuidados de leigos organizados em irmandades e terceiros naquilo que significou o atendimento das necessidades físicas aos fiéis da Igreja e súditos do Império, aliados na tarefa de conquista das terras e redução dos seus habitantes à civilização cristã europeia que, embora em formação, exercia a expansão econômica e cultural naqueles séculos iniciais dos tempos modernos.
Bastante interessante e revelador é o que nos traz o professor Magno Francisco da Cruz na sua reflexão sobre as Irmandades de Sergipe oitocentista, ao nos apresentar vários vieses sobre o mesmo tema. Uma crítica historiográfica que nos revela a pouca atenção que tem sido dada ao estudo dessas agremiações importantes na formação do Brasil, notadamente no que se refere às províncias acima da Bahia. Contudo, a riqueza que os novos estudos nos mostram é que a quantidade e diversidade de irmandades, confrarias e terceiros também desvela uma riqueza econômica e a diversidade de grupos, talvez por ter o Sergipe escapado do domínio absurdo da monocultura da cana de açúcar. O quadro de distribuição das agremiações religiosas na província sugere a disputa por espaços sociais, indica a sua complexidade social, quase a forçar uma releitura dessas instituições movidas pela fé, mas também pela quase imposição de apresentar espetacularmente a sua fé na sociedade. Por outro lado, a lista de monografias que nos é apresentada pelo professor Magno Francisco, exige uma atenção especial dos centros de estudo no sentido de promover a sua guarda e disponibilidade para a pesquisa e leitura, nossa das novas gerações de historiadores a serem formadas em leituras como essas.
O processo de educação ou civilizacional porque passa uma região colonizada apresenta muitos polos e, não é o processo formal o que mais importa e influencia. Kátia Maria A. de Souza chama atenção de que o missionário da fé religiosa é, ele também um educado, civilizador e que não possue a autonomia que análises críticas hoje cobram de sua ação devem ser minimizadas no que tange a responsabilidade do missionário. Ele é parte de acordos maiores entre estado político e a a religião que ele representa e esses acordos são datados, típicos de uma época. As limitações impostas aos missionários são enormes e começam desde a exigência de que deve comunicar-se, não língua materna do evangelizando, mas no idioma da autoridade colonial. Capuchinhos franceses não podem expressar-se em Kiriri nem na sua língua materna, no Baixo São Francisco sergipano.
A sociedade brasileira teve como seu “cimento social” o conjunto de práticas notadamente religiosas, uma vez que a colonização portuguesa esteve envolvida pelo ideário cristão católico, e este com heranças medievais, entre as quais as Irmandades religiosas. No estudo aqui apresentado, o professor Péricles de Andrade apresenta uma pesquisa e reflexão sobre como essas irmandades geraram um catolicismo no qual foram erguidas práticas que utilizavam os espaços religiosos para destacar socialmente os membros da Irmandade, tornando-os mais visíveis socialmente. A riqueza de documentação apresentada nos indica tanto um bom pesquisador como alerta para a riqueza documental que ainda temos a estudar para esclarecer e conhecer o Brasil. Claro que não prerrogativa da colonização portuguesa o uso das manifestações e vivências religiosas como expressões do poderio econômico nem dos processos de exclusão social, o que leva à formação de outros espaços aglutinatórios daqueles excluídos, mas este estudo, focado nas irmandades estabelecidas na vila de Estância, nos ajuda a compreender as dificuldades que, ainda nos dias de hoje, temos a superar.
Tomando por base três dos escritos de Silvio Romero e Melo Moraes filho, o professor ClaudeFranklin Monteiro nos auxilia refletir as relações entre a cultura popular, ou seja aquela vivida pelos estratos marginais no usufruto dos melhores bens produzidos pela sociedade, ou seja por eles próprios, e as práticas religiosas da sociedade sergipana do século XIX que foi observada por aqueles autores. O texto de Claudefranklin O catolicismo popular em Sergipe no século XIX : de Sílvio Romero a Melo Moraes filho vem apoiado na leitura de teóricos de todos conhecidos, ele nos aponta os limites das observações realizadas e também os enganos que podem vitimar os historiadores da cultura ao não perceber que, no mundo profano está embutido o divino, embora ao da maneira definida pelas autoridades que definem as ortodoxias. Boa lembrança, inclusive para que se esteja atento de não ser seduzido pelo fácil caminho já trafegado por outros e, auxiliá-lo na direção da dogmática do verniz científico.
O professor Antonio Lindvaldo Sousa dedicou-se a compreender a atuação de Dom Jerônimo Tomás Silva, que foi Arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil em um período árduo e fascinante para o catolicismo no mundo e no Brasil, o final do século XIX. Naquele momento a Igreja confrontava-se com vários inimigos: o liberalismo, o ateísmo, o socialismo, inclusive o nacionalismo italiano. NO Brasil, os últimos anos do Império dos Bragança foram difíceis para o catolicismo que viu dois de seus bispos aprisionados e condenados. Ocorre, então a romanização. O professor Lindvaldo dedica seu texto a compreender as ações do Arcebispo Primaz e a sua atuação. A promoção à devoção ao Salvador, e também a pregação à obediência o seu vigário, foram parte das visitas pastorais que buscava animar sacerdotes e fiéis.
Reler o passado, com respeito, critérios e coragem é o esperado na atividade historiográfica, uma vez que o historiador tem como único compromisso a sua sujeição à verdade. Contudo, nós sabemos quão difícil, quase impossível, é alcançar a verdade. É por tal razão que, mais que qualquer outro cientista social, um dos principais atributos do historiador, senão o principal, é a humildade; a humildade diante das ações humanas, pois todas são dignas de admiração e compreensão. Não julgamos o passado, apenas queremos entender como ele nos influencia e nos torna, também, o que somos.
Boa leitura.
Severino Vicente da Silva
No dia dedicado a Albertina Berkenbrock, em Olinda.

Apresentação para o TEMAS DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO CATÓLICA EM SERGIPE, organizado por Raylane Andreza Dias Navarro Barreto e Claudefranklin Monteiro Santos, publicado pela Editora da Universidade Federal de Pernambuco, em 2013

José Murilo de Carvalho – Dilma não tem grandeza para renunciar.

‘Vão arrumar uma saída para esta crise, mas outras vão aparecer’
17.agosto.2015 | 12:20

Para o historiador José Murilo de Carvalho, o País tem hoje um Executivo paralisado por incompetência, Congresso irresponsável, PT desmoralizado, oposição oportunista. E, apesar dos protestos nas ruas , há no ar “um cheiro de pizza”.

Atento às vozes que ontem bradavam “Fora Dilma” e “Fora PT” e aplaudiam a Polícia Federal e o juiz Sérgio Moro em manifestações por todo o País, mas ciente dos recentes acertos entre governo, tribunais e o Senado para garantir no cargo a presidente Dilma Rousseff, o historiador José Murilo de Carvalho diz sentir um “cheiro de pizza indo ao forno”. Isso , porém, não muda o cenário da crise brasileira, afirma. “Vão arrumar uma saída para esta, mas outras crises vão aparecer”.

Do alto de seus 50 anos de janela – de idade, são 75 – ele recorre à ironia para comparar a crise de hoje com outras mais antigas e famosas. Em1954, “tudo terminou em tragédia (o suicídio de Getúlio Vargas)”. Em 1964, só não foi pior por causa da “pequena disposição de luta do presidente (João Goulart)”. Em 1992, “tivemos uma opereta (a saída de Fernando Collor)”. Hoje, “temos um drama sem nenhuma grandeza”.
Por que sem grandeza? Porque “em tese, a melhor saída seria a renúncia da presidente e sua substituição pelo vice”. Mas ele não se ilude: “Nada sugere que ela possa ter a grandeza cívica de colocar o interesse nacional acima de sua vaidade”.

Imortal na Academia Brasileira de Letras, integrante da de Ciências, Zé Murilo, como o chamam os amigos, é titular de História da UFRJ e escreveu clássicos como Os Bestializados e Cidadania no Brasil. Neste balanço sobre o País, ele resume: “Se estivéssemos no parlamentarismo, já teríamos outro primeiro-ministro. Mas o que se vê é que estamos longe, ainda, de ser uma república democrática sustentável”. A seguir, a entrevista.

Acha que as manifestações de ontem alteraram alguma coisa no cenário político?
Tudo indica que levaram menos gente às ruas, mas continuam sendo um fenômeno nacional – foram 25 Estados – e desta vez com foco mais definido: em Dilma, no PT e na corrupção. Não reforçaram, nem reduziram, o movimento por impeachment. Com isso, as instituições – TCU, STF, Senado — e organizações empresariais – podem sentir-se encorajadas a levar a pizza ao forno. Mas o curso dos acontecimentos continua a depender das investigações do Ministério Público e da Polícia Federal e do novo herói nacional, Sérgio Moro.

Que comparação o sr. faz entre essa crise e outras famosas da nossa História?
Se caracterizarmos crise como coincidência de corrupção, estagnação econômica, chefe de Estado impopular e acuado politicamente, é possível sim, até onde alcança minha memória, lembrar as crises de 1954, 1964 e 1992. Em 1954, pela têmpera moral do presidente (Getúlio Vargas), tudo terminou em tragédia. Em 1964, poderia também ter terminado em tragédia pessoal e nacional, com guerra civil, não fosse pela pequena disposição de luta do presidente (João Goulart). Em 1992, tivemos uma opereta (com Fernando Collor). Hoje, por enquanto, temos um drama sem nenhuma grandeza, sem que se possa adivinhar o desenlace. A importante diferença entre as duas primeiras crises e as duas últimas é que nestas está ausente o pretorianismo, cabendo às forças civis se responsabilizarem totalmente pelo resultado.

Que elementos se juntaram para chegar ao que temos hoje?
Generalizando, pode-se dizer que a combinação de presidencialismo e voto proporcional, que facilita a multiplicação de partidos, em países de recente expansão do eleitorado e sem partidos consolidados, constitui receita segura para crises. O início da democratização do voto data de 1945 – e os partidos mais antigos, do governo militar. A expansão do eleitorado e a falta de barreiras ao aumento do número de partidos transformaram a criação dos últimos em bom negócio. Chegamos ao que se chamou de presidencialismo de coalizão, depois de cooptação, hoje mais adequadamente descrito como de mensalão, ou petrolão, todos instáveis. Daí me parecer que, passada a crise atual, virão outras. É maldição que afeta quase toda a América ibérica.

As instituições estão funcionando bem, os militares nos quartéis, a imprensa atua sem restrições. O que foi que não funcionou? É um sinal de que a democracia tem seus limites e só ir às urnas votar não basta?
É verdade, e eu acrescentaria que também estão funcionando bem o Ministério Público, graças à independência que lhe deu a Constituição de 1988 e à nova geração de procuradores que se formou depois, o Judiciário, após a sacudidela que lhe deu Joaquim Barbosa, e a Polícia Federal, que parece estar deixando de ser pau mandado do ministro da Justiça. E mais ainda: a punição dos responsáveis pelo mensalão, acoplada aos resultados até agora exibidos pela Operação Lava Jato, representa pequena revolução em nossa tradição de impunidade dos poderosos. Mas o Legislativo e o Executivo, e junto os partidos políticos, estão longe de um funcionamento satisfatório. Temos um Executivo paralisado por incompetência e arrogância de sua chefe, um Congresso irresponsável, um partido do governo desmoralizado pelas denúncias de corrupção e uma oposição oportunista. Não é bom. Estamos ainda longe de uma república democrática sustentável.

Grandes manifestações do passado contra a ditadura, como a Passeata dos 100 Mil no Rio ou as Diretas Já, tinham um país inteiro unido contra o governo. Hoje não há ligação dos protestos com as instituições políticas. Como resolver isso?
As manifestações de junho de 2013 foram sintoma da corrosão da legitimidade do sistema representativo. É uma ironia, se nos lembrarmos de que nunca houve tantos brasileiros votando como agora. Passados dois anos das manifestações de 2013, nada foi feito para responder ao que pediam as ruas – essa interlocução não avançou além da retórica. Os partidos mantiveram suas práticas, as eleições continuaram a ser financiadas por dinheiro suspeito, as campanhas se mantiveram sob o comando dos marqueteiros. O resultado da última eleição foi adequadamente considerado estelionato eleitoral, o que lhe tira a legitimidade, embora não a legalidade. A natureza fragmentada e antipolítica do movimento de 2013 também não ajudou. O problema da representatividade do sistema político continua a ser uma pedra no caminho.

Além da crise existencial que abalou o PT, temos hoje uma sociedade complexa, globalizada, com desafios para os quais a esquerda, de modo geral, não tem conseguido dar respostas – veja-se a Grécia e a Espanha. Quanto do enfraquecimento do PT é fruto de erros e abusos de seus líderes e quanto de uma crise de identidade das esquerdas?
As esquerdas antigas, categoria em que se enquadra a nossa, sempre foram marcadas pelo estatismo, pela alergia ao mercado e à iniciativa individual. Entre nós, ela acoplou ao estatismo a tradição clientelista e patrimonialista. São traços presentes no PT, em convivência com a preocupação tradicional das esquerdas com a promoção da igualdade social, mesmo com arranhões à liberdade. No governo Lula, o estatismo não pôs em risco conquistas importantes da política econômica e concentrou-se na promoção da política social, não sem, ao mesmo tempo, patrocinar práticas clientelistas e antirrepublicanas já devidamente punidas. Creio que a crise do PT tem mais a ver com atraso ideológico, falta de criatividade e mau diagnóstico da realidade brasileira – sem esquecer, naturalmente, os malfeitos – do que com o exemplo das esquerdas europeias que, pelo menos, estão tentando renovar-se. A esquerda do PT ainda apoia o bolivarianismo e o castrismo. É patético. Lembra a frase do Millôr (Fernandes, jornalista carioca falecido): as ideologias, quando ficam velhinhas, vêm morar no Brasil.

Como outras vozes, o sr. acha que a melhor saída é a renúncia da presidente e sua substituição pelo vice. Por quê?
Porque pouparia à nação os traumas de um eventual processo de impeachment e de uma eventual nova eleição – que, tão próxima da última, se faria em clima de guerra e dificultaria o governo do vencedor, adiando as medidas de recuperação da economia. Dos peemedebistas, pode-se dizer tudo, menos que não sabem fazer política. O vice, como já revelou em ato falho, poderia costurar um arranjo político que destravasse o governo, apaziguasse o Congresso, facilitasse a aprovação das medidas econômicas corretivas e arrastasse o país até 2018. O PSDB não precisaria enfrentar outra guerra eleitoral e, se vencedor, descascar o abacaxi plantado pelo governo Dilma. O PT se livraria do imbróglio criado por Dilma, poderia lamber as feridas em paz e se reinventar, como propôs o próprio Lula.

E continuaria em cena o presidencialismo de coalizão.
Sim, o problema com esta solução é que o presidencialismo valoriza excessivamente a personalidade dos presidentes, como em 1954, 1961, 1964, 1992. Getúlio reagiu à crise matando-se, Jânio montou a farsa da renúncia, João Goulart fugiu, Collor tentou uma bravata ridícula. No parlamentarismo, já teríamos outro primeiro ministro. A recusa da atual presidente de admitir os erros elementares que cometeu, sua inapetência para o diálogo, sua fixação na imagem de guerrilheira, nada disso sugere que possa ter a grandeza cívica de colocar o interesse nacional acima de sua vaidade. Daí que, realisticamente, pode-se esperar uma saída de acomodação, de arreglo. O TCU já ensaia uma pedalada legal. O Senado já está pedalando. Só falta o STF entrar na dança. Em vez de drama ou tragédia, podemos ter outra opereta barata.

Como historiador experimentado, que já viu tantos altos e baixos, pensando no futuro o sr. está mais para esperançoso ou para desalentado?
Guardo algumas lembranças desde a crise de 1954, depois revistas em parte pelo estudo. Não há como não reconhecer que o País mudou radicalmente nos últimos 70 anos. Mudou, sobretudo, devido à entrada do povo na política, pelo voto e pelas ruas. Mas a sensação principal que guardo, talvez muito influenciada pelo momento atual, é a de ter vivido um processo de ciclotimia nacional, de idas e vindas, de avanços e recuos, de esperança e desalento. O País parece ter grande capacidade de se auto-sabotar. Parecemos incapazes de um esforço concentrado e persistente em torno de objetivos comuns que nos poderiam colocar entre os países capazes de combinar liberdade política e igualdade social. Lembro-me aqui de uma frase de Euclides da Cunha: “Estamos condenados à civilização: ou progredimos ou desaparecemos”. O risco é que não aconteça nenhuma das duas coisas. / GABRIEL MANZANO

fonte: blog de Sonia Racy Estado de São Paulo

Setenta anos depois :Humanos, não deuses

São sete décadas do momento em que o homem testou, efetivamente, o seu potencial de destruição. A brincadeira de ser como uma divindade grega que, de sua residência olímpica, observa os humanos a moverem-se, a angustiarem-se nos afazeres cotidianos para juntar pedaços de vida e ofertar a quem os domina. Sete décadas do acontecimento duplo, Hiroxima e Nagasaqui, o teste e sua confirmação de poder sobre a vida e talvez sua inutilidade.

Após milhões mortos em campos de batalhas, nas cidades bombardeadas, nos campos de concentração de gente juntada para experiências e finalizações, a brincadeira de endeusar-se, de fazer-se deus continuou. O que ocorreu no arquipélago japonês não foi o final da guerra, mas uma nova etapa da autodivinização do homem, mais uma etapa na superação dos escrúpulos. O que antes era prerrogativa dos que se diziam, e foi reconhecido, como filhos de alguma divindade, o poder de terminar a vida de outrem, agora e cada vez tornar-se-á mais comum. Comum no sentido de que qualquer um passa a ter o direito de vida e de morte.

No intuito de estancar essa correnteza, alguns anos depois, foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos dos Homens. Busca-se, naquela declaração, evitar que os estados, seus gestores, ajam voluntariosamente e destruam o conjunto dos seres humanos. A Organização das Nações Unidas, apesar de nascerem com o germe da separação, da discriminação, compreenderam estar-se em novo momento da humanidade e se tornava necessário impor limites ao que parece ilimitado. Se na tradição judaica foram necessários 10 mandamentos, a ONU consagrou três dezenas. A explosão das bombas aliadas em Hiroxima e Nagasaqui e a declaração Universal dos Direitos Humanos são dois momentos de um só drama, de uma tragédia: como ser criatura e criador simultaneamente? Como dar-se a liberdade de matar, destruir e, ao mesmo tempo, ser guardião da vida? Como preservar a vida e cultivar o bem quando, sem cerimônia se aceita a banalização do mal?

Aprendizes na arte de usar os instrumentos que criou, e sabendo do perigo que é disseminação do conhecimento que leva à destruição da vida, cuida-se de evitar seu uso, mas não de evitar a morte controlada. Como nos tempos de outras civilizações, os Estados e seus controladores, continuam a decidir como deve ocorrer o curso da vida. Aos comuns são permitidas brincadeiras de pequenos poderes.

Quase sempre colocamos a nós mesmos no Olimpo, cuidamos de assistir ao passar dos tempos e observar as mudanças conjunturais, uma vez que mudanças estruturais pouquíssimas gerações tiveram esta oportunidade e pagaram com muito sangue tal privilégio. Mas fazemos a crônica dos acontecimentos e, cultivamos a ideia de nossa divinização. E parece ser este nossa situação, a situação dos Hércules e semelhantes: não mais seres humanos e jamais, como eles, seremos deuses.

A bênção Vô! A bênção Vó!

Hoje, dia 26 de julho, os católicos celebram e honram a lembrança de um casal, Ana e Joaquim. Eles foram os pais de Maria, a moça que veio a casar com José e aceitou ser a mãe de Jesus. Assim, se celebra os avós maternos de Jesus. Quanto aos pais de José, dos avós paternos, nada se sabe sobre eles e, creio ninguém jamais se interessou em saber. Afinal foi ‘pequena’ a sua contribuição na Economia da Salvação: José apenas protegeu a criança, cuidou da sua infância, transmitiu os valores sociais, foi a figura de homem para o adolescente, ensinou as habilidades próprias de uma profissão, cuidou do adolescente e depois sumiu. Mas como se sabe pouco de José, é Joaquim, o Avô materno que se tem como referência familiar e, sabemos pouco sobre ele e sua esposa. Maria teria sido um fruto da idade mais que madura, como ocorreu com Abraão e Sara no nascimento de Isaac. Apenas a partir do século II é que começa a tradição a respeito dos avós de Jesus, mas há pouco além de lembrar que “é pelos frutos que conhecereis a planta”. Maria parece ter sido bem educada, informada e formada, como se depreende da conversa que manteve com o Anjo Gabriel. Ela recebeu orientação para a vida sexual e conversa sem os traumas que foram criados após as Reformas Religiosas do século XVI. Santana e Joaquim não falaram de ‘cegonhas e sementinhas’ para Maria.

Ana, que a tradição foi transformando de Santa Ana, Sant’Ana para chegar a Santana é representada ensinando algo a sua filha. A iconografia a faz uma nobre apresentando um livro para a filha. É uma iconografia da Idade Moderna, dos tempos de Gutemberg. Na maior parte do tempo suas festas eram separadas, Ana era reverenciada em 25 de julho e Joaquim a 20 de Março. Apenas em 1913 é que o casal passou a ser referenciado conjuntamente no dia 26 de julho. Mas ainda assim, pouco se diz de Joaquim.
Aqui na região açucareira do Nordeste, Santana esteve entre as devoções preferidas pelas senhoras das casas grandes. Na Capela da Luz, onde São Severino é honrado, no Engenho dos Ramos há uma imagem do Casal, mas o comum é Santana está só, na sua tarefa de transmitir conhecimento à sua filha. São José, e não São Joaquim é que foi feito quase à imagem do Senhor de Engenho, calçado com botas, conforme pode ser visto em diversos templos da região, desde Igarassu até São José da Coroa Grande. Entretanto, Santana também tem presença fora dos alpendres da grande casa e foi viver, como sua filha: nas senzalas, nos mocambos, favelas, alagada. Ali ela está vestida nas cores azul e branca, com uma criança no colo, cuidando e acariciando o futuro.

Neste dia dos avós, eu lembro-me de Alexandrina e Severino Cota, de Florinda e José Vicente. Foram da mesma classe social, embora de níveis diferentes, pois os primeiros são mais ligados às tradições europeias e indígenas e os paternos carregam a Europa e África.

As avós eu conheci, lembro-me do colo de Alexandrina e do rosto forte e moreno de Florinda nos dias que antecederam a sua morte. Tenho um retrato delas duas juntas. Não nasci a tempo de conhecer Severino Cota e José Vicente. Carrego seus nomes e soube de histórias de suas vidas. Ser avô é uma benção: ver os filhos dos seus filhos, hoje tão comum por causa da longevidade que a ciência ocidental produziu, era incomum em um tempo em que se morria “ de velhice antes dos trinta, de bala antes dos vinte e de fome um pouco por dia”. Severino Cota morreu de bala, José Vicente morreu da faina diária. Não viram seus netos, não puderam ver a continuidade de suas vidas. De Severino tenho as sobrancelhas grossas e de José o corpo pequeno. Eles são desconhecidos, como ocorreu com Joaquim e com os pais de José. Mas cuidaram de meus pais, foram bons exemplos, transmitiram os valores típicos de sua época: a honestidade, o gosto pelo trabalho, o respeito pelos mais velhos.

Avós são, para os netos, o afago, o carinho, a desculpa e a proteção contra as exigências dos pais, a que eles usaram quando eram apenas pais. Mas, nós o avós, não devemos tomar o lugar de nossos filhos, apenas cuidar para eles continuem sendo boas árvores, produzindo bons frutos, saudáveis e fortes para que se tornem avós.