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Uma compreensão da Copa do Mundo da FIFA

A partida final da Copa do Mundo promovida pela Federação Internacional de Futebol Associado – FIFA – na Rússia,mostrou, em seu resultado, algumas tendências que podem auxiliar a entender se há relações entre a prática de um esporte – ou vários – e as nações. Há muitas interpretações sobre os campeões vitoriosos e os campeões que retornaram antes que se formasse o grupo dos oito melhores. E agora que sabemos quais os quatro melhores e sua sequência, bem que podemos imaginar algumas das razões que fizeram França, Croácia, Bélgica e Inglaterra os quatro melhores grupos de pebolistas do globo.

Um dos eixos dos debates foi a questão do neonazismo em luta contra a democracia, a Bélgica e a França representando essas duas tendências políticas em um embate que ocorreu no solo da extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, também derrotada pela aliança das forças dos países democráticos, na tradição das revoluções burguesas ocorridas na Inglaterra (1668) e França (1879). A enunciação das frases acima poderia resultar em horas e livros de debate político, embora haja quem diga que não se deve fazer relações entre política e futebol.

Outro eixo poderia ser apontado no confronto continental, Europa versus América, pelo domínio pebolístico mundial,
mas esse resolveu-se nas Quartas de Final, uma vez que nenhuma seleção americana estabeleceu residência entre os quatro melhores, aos europeus o modelo atual, o melhor futebol praticado atualmente. França, Croácia, Bélgica e Inglaterra são as seleções que chegaram às finais. Não há americanos entre os atletas dos quatro vitoriosos. As Américas foram participantes da competição, mas sem o protagonismo anterior. Uma grave crise no futebol das Américas que vivem diversas crises.

Foi aparecendo um eixo africano, um pouco para esconder o fato de que as seleções dos países da Europa Central e Ocidental foram as que apresentaram melhores resultados. Disputaram o terceiro lugar Inglaterra e Bélgica, com a vitória da Bélgica, uma nação que exerceu um imperialismo sobre parte do continente africano, como ocorreu com a Inglaterra, inclusive exibindo e explorando pessoas com algumas características africanas em circos e feiras, mas que tem-se mostrado mais aberta para a aceitação de pessoas provenientes de seu antigo império nas ocupações da atual Bélgica, onde pessoas se definem mais como valões flamengos que belgas no seu falar e viver. A seleção belga apresenta o resultado dessa pra´tica de abertura e aceitação do outro para a formação atual de sua sociedade. O expoente da seleção belga é um belga de origem africana, mostrando-se mais diversa do que era no até a segunda metade do século XX. Por outro lado, o selecionado inglês continua na Ilha; nenhum dos seus jogadores joga em campeonato de outros países europeus, embora muitos jogadores de outras nacionalidades atuem nos clubes ingleses, onde atuam alguns do selecionado belga. Assim parece que a vitória da Bélgica aponta para uma aceitação do diferente para o sucesso. A disputa pelo primeiro lugar do certame apresenta situação semelhante, pois enquanto a Croácia apresenta um selecionado formado apenas por jogadores autóctones, o selecionado francês apresenta em mosaico decorrente de sua atuação histórica: seu selecionado é formado por pessoas de origem africana, de países que, no século XIX foram submetidos ao jugo francês mas agora são países independentes. Croatas, é um país novo, formado após a dissolução da Iugoslávia, embora seja um nação multicentenária que se formou na encruzilhada de vários impérios, com suas instituições diversas. Sua seleção apresentou-se como um grupo de guerreiros para afirmar-se como nação em uma Europa que se quer uma e diversa. A luta nos gramados pareceu ser mais uma afirmação de sua nacionalidade que a exibição do seu futebol. Estar na final da Copa do Mundo da FIFA foi vencer mais uma etapa na formação de sua nacionalidade, e como não foi um povo de expansão militar sobre outros povos, como a Bélgica, Inglaterra e França, não apresentou diversidade que não possuía. Já a Inglaterra não apresentou a multiplicidade cultural que possui, multiplicidade decorrente de sua história, como comprova a prefeitura londrina que tem à frente um britânico de ascendência indiana. A resistência dos clubes ingleses denota a pouca aderência de Albion a uma das tendências do século XXI, a convivência na diversidade.
O pequeno sucesso dos americanos, do Norte (México), Central (Costa Rica) e do Sul (Perú, Colômbia, Argentina, Uruguai e Brasil) pode ser explicado pela situação de permanentes crises por eles vivenciadas; sejam elas econômicas, políticas, culturais, educacionais, etc.. As situações econômicas desses países não permitem que eles possa manter alguns se seus melhores atletas em seus campeonatos, pois os salários pagos pelos clubres europeus atraem esses jogadores, impedindo que suas experiências e habilidades sejam transmitidas em seus estádios, aos mais jovens e iniciantes. Este também é um problemas para alguns países africanos que terminam por ceder aos clubes europeus seus melhores atletas, com alguns cambiando a relação cidadã. Até antes da Copa, dois dos três melhores jogadores do mundo eram da América do Sul.

A Copa do Mundo da FIFA apresenta um retrato do mundo atual, seus limtes, suas tendências.

Setenta anos da Declaração dos Direitos Humanos

Os noticiários às vezes querem nos trazer boas notícias, mas, como ensinavam os primeiros donos de jornais, a melhor notícia é aquela que parece absurda, pois o ato comum, corriqueiro não convida o leitor, não atiça curiosidade. Uma visita aos jornais mostra o mundo diverso, com boas notícias rotineiras em declínio e boas notícias, as excêntricas, exóticas, extraordinárias, que vendem jornais. Mas o que vi neste dia 21 de junho, o solstício de inverno especial dia que divide o ano, este dia frio que anuncia a nova estação que chega, quase esfria a esperança de uma nova humanidade, o novo tempo que se celebra nas festas dedicadas a São João, aquecida pelo calor das fogueiras. Mas o frio parece congelar os bons sentimentos, neste ano do septuagésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada pelos países que fundaram a Organização das Nações Unidas. Aquele 10 de dezembro de 1948 foi um alento, um aquecimento nos sonhos da humanidade após a desastrada experiência da Segunda Grande Guerra do século XX. Essa Declaração é um projeto de humanidade.

Em conversa com os alunos neste solstício, vimos como a dedicação à defesa dos Direitos Humanos assumida pela Igreja Católica no Brasil na segunda metade do século XX, provocou o rompimento da Neocristandade, um arranjo que vinha sendo construído e mantido pelas igrejas desde os anos de 1930, um acordo tácito entre a religião e a política que garantia um estado que considerava apenas um terço da população como merecedora dos benefícios civilizacionais resultante do trabalho de todos. A República do Brasil queria ser moderna/contemporânea sem reconhecer que, mais que a propriedade, é o homem que importa, e que, mesmo sendo privada, a propriedade e o Estado devem estar à serviço do todo.

A luta para garantir os Direitos Humanos – liberdade (pensamento, fala, crença), Igualdade, Vida (o direito de viver e o dever de proteger a vida), Moradia, Alimentação, Mobilidade, Segurança no lar, Lazer, Estudo, Trabalho, Nacionalidade, formar uma família, proteção contra a perseguição política, ter acesso à uma cidadania, entre outros – foi o que uniu a sociedade brasileira para por fim à ditadura que defendia o privilégio de alguns, assim como a luta para superar os estados totalitários levou à proclamação dos referidos Direitos Humanos que deu continuidade às ações dos que fizeram as revoluções dos séculos XVII e XVIII, quando as maiorias começaram a ser vistas e ouvidas, embora que a começo apenas como consumidoras, coadjuvantes, mas vieram a assumir protagonismo nessa sociedade das multidões, às vezes conformadas e às vezes ameaçadoras.

E neste ano de 2018, assistimos a nação que pareceu orientar o mundo para a realização dos Direitos, inclusive o da Felicidade, afastar-se da Comissão dos Direitos Humanos da ONU ao mesmo tempo que lidera uma campanha contra a imigração, fechando as suas fronteiras aos que buscam, em seu território, os direitos que lhe são negados em seus países de origem. Está aquela nação a negar o que ela um dia considerou ser o seu “destino manifesto”. Neste septuagésimo ano da Declaração dos Direitos Humanos, temos a sensação que nos falta muito para aceitar que todos são detentores desses Direitos e todos temos o Dever de garantir os direitos dos outros para que possamos usufruir desses mesmos direitos; ainda precisamos entender que lutar e viver para que todos tenham acesso a esses direitos é diferente de querer unificar os todas as culturas, reduzir o outro ao que somos.

Nesse aniversário precisamos estar atentos para não desistirmos por compreender que há tantas crianças famintas, tantas pessoas impedidas de formar e estar com suas famílias, tantas pessoas que não estão vivendo o direito de saber ler e escrever, o direito de receber uma educação, de receber uma atenção à sua saúde. Mas também devemos celebrar essa data assumindo que tais direitos não serão dados por algum Estado, partido ou agremiações semelhantes: os Direitos Humanos só serão plenamente vividos à medida em que cada um assuma o dever de viver o seu direito, e viver o dever de garantir o direito do outro. O direito de ter uma reputação e respeitar a reputação do outro ou da outra. É desumano tratar uma pessoa como objeto: objeto de satisfação, objeto de desejo, objeto produção, objeto de reprodução, objeto de manipulação ideológica.

Não é fácil, mas é nessa equação colaborativa em busca da felicidade que a humanidade se constrói.

Família, infância, Capibaribe: meu rio

As manhãs têm as suas manhas. São essas pequenas passagens do tempo, o tempo do sonho em direção ao tempo da azáfama, do repouso para o movimento traduzido em sons e suores. O início da manhã carrega o fim da noite, o sonho que parece não ter acabado. Nesta manhã comecei com a paisagem distante da pequena propriedade que meu pai tinha, ali na beira, em uma das margens do rio Capibaribe, onde passei meus primeiros anos que ainda lembro. Imagens fugazes, fugidias, como a de um ladrão que escapava pela janela, no início da noite, enquanto nós tomávamos o “café da noite” que hoje chamo de jantar. Aquele vulto pulando para fora de nossa casa ainda está pregado na minha memória, ou imaginação, de menino de quatro anos. Não sei, nem posso mais confirmar isso com minha mãe ou meu pai, ele que me vem na lembrança a sair, com uma arma na mão, em direção da escuridão. Na volta teria dito que foi até a casa de meu tio Sérgio, irmão de mamãe, que marava para as bandas do lado esquerdo, em direção de Apuá. Na manhã seguinte, esse foi o assunto na bodega que ficava na parte da frontal da casa.

A lembrança daquele fim de dia, vem sempre acompanhada com outras, a de ficarmos comendo pimentões ou chupando laranjas na calçada da casa. Outras lembranças chegam, e quando seguimos para o lado direito em direção do Engenho Eixo Grande, onde moravam minha tia Djanira e seu esposo Luiz Cavalcanti, Tio Lulu e suas filhas: Inês, Graça e Fátima. Sempre gostei muito de Graça. Depois de uma viuvez precoce, Tio Lulu casou mais uma vez, com Julinha, irmã de Djanira e teve mais filhos. Marcelo, Isabel, Lulinha. Muitas férias escolares ali passei, depois que já o Recife nos abraçara, em nossa fuga em direção do futuro.

Daquele mundo tenho muitas lembranças, sendo uma delas o que talvez seja a minha mais antiga ligação com África, a existência de Zé de Mina, um negro esbelto e sorridente que era sempre o sucesso nas festas, porque era um exímio cozinheiro, além de lavrador da terra seca, mais distante da margem do Capibaribe.

Do outro lado do rio moravam meu padrinho Cazuza, que era irmão de Lulu, e Odete, sua esposa e minha madrinha. Esse Capibaribe de minha primeiríssima infância, na beira do canavial sempre volta; nostálgico daquelas primeiras alegrias que é cada vez só meu, pois o tempo já engoliu alguns dos personagens que viram meus primeiros assombros na vida. Nem sei o nome deles, apenas alguns gestos que ficaram a me ensinar que é assim o curso da vida: fazemos algumas barragens, como a que fizeram em Apuá, guardaram o Capibaribe para que ele chegasse manso no Recife, e não caudaloso, como sempre foi desde Carpina.

Sou agora, como esse Capibaribe quase morto que tranquilizou, na capital, os filhos dos migrantes da Mata Norte: Eles nem imaginam como era forte meu Capibaribe!

Especialmente para meus primos,os filhos de Tio Lulu.

sobre caminhões, óleo e governo

Quando se governa um povo acostumado ao comando paternal/autoritário, julga-se que tudo pode ser feito e nada será contestado seriamente, assim o poder é mantido. Ocorre que o poder que é fonte de prazer é, também objeto de desejo. Os gulosos quando estão à mesa querem tudo para si. Esta é a surpresa dos governantes desses povos: os amigos estão sempre querendo o lugar do assento de comando. Os dois últimos governantes do Brasil agora sabem disso. Os que pode alcançar o poder usam o medo, o pavor, a raiva, o desejo de vingança daqueles que sofrem o poder e surpreendem o poderoso de plantão. Então passa-se à troca de comando, com promessas de paraísos. Para melhorar a percepção do paraíso prometido, põe-se “um bode na sala” para aumentar o incômodo. E os que calaram sempre continuaram calados pelo conforto que o silêncio oferece aos dominados e satisfeitos com a perspectiva do paraíso; os que falavam pela metade, passam a procurar palavras par continuar a meia conversa, buscarão novas metáforas, atualizarão o léxico, continuarão reclamando e exercendo o “poder de crítica (como este), ao tempo que apresenta possibilidades ‘caso o comando estivesse poder deste grupo que nuca consegue o poder, mas nele sempre está. Nada muda, exceto o grupo de comando.

O Brasil está parando por orientação de alguns setores de poder que não foram levados à sério pelos que cuidavam dos seus interesses; alguns grupos que servem de pelegos à ideologias, passaram a ver a revolução chegando; agora, os combativos e “empoderados” petroleiros vão à greve, após os condutores de crianças à escola (pedagogos no sentido literal e romano) via kombis. Será uma semana interessante e, possivelmente, com maiores restrições aos consumo, a troca de comando na Petrobrás, poderá vir uma renúncia (algo incomum em nossa história presidencial que registra apenas dois alagoanos exercendo esse direito – um por honestidade outro por oportunismo) e, quem sabe, o filho do prefeito da ex-capital, com seu jeito e corpanzil apropriado, como na distopia de 1984, venha realizar o sonho.

Mas tudo isso que escrevi é falta do que fazer nesta manhã de domingo,quando os católicos celebram a Trindade, a Perfeita Comunidade.

Processo histórico ou milagre de Macunaíma

Talvez eu não devesse começar essa escrita em hora tão difícil e com uma nação sem norte, sem uma liderança mas com chacais incentivadores do caos, desejosos de produzir o alimento das hienas. Comove ler, nas redes sociais os apologistas do caos, alguns defendendo o atual desnorteado que está no poder e outros pugnando por desorientados que anteriormente comandavam o país. Nem de longe vejo a percepção histórica, a compreensão de que à história, diferente da sociologia, importa mais os movimentos de média e longa duração. Evidentemente que o instante provoca a chama, e faz conhecer o que, embora ainda encoberto, começa a ter dissipadas as nuvens que se põem entre o observador e o observado. O processo de compreensão não é uma iluminação instantânea, não é um milagre, uma teofania. Provavelmente tais fenômenos existem quando se aceita e se vive a partir de uma opção religiosa, essa que admite que há uma graça que nada exige para ocorrer, e que lhe chega por decisão externa a você que a recebe. O conhecimento, por outro lado, exige disciplina e humildade constante. Os grandes da razão sabem que o seu saber vem do seu esforço, da aceitação de que outros homens antes de si, criaram as escadas para sua subida, para pudessem ver melhor e mais longe. “Somos anões sobre os ombros de gigantes”, disse um deles.

A situação do Brasil não está fácil. Quando saímos da ditadura civil militar sonhamos com um país com todos os direitos que eram garantidos aos europeus que viviam na social democracia, mas não tomamos conhecimento de eles construíram aquilo com seus trabalhos e, não há como negar, com a exploração colonial de outros povos. Fizemos uma Constituição que garante tudo a todos, mas não modificamos em nada as estruturas sociais nem nossa mentalidade. Alimentamos o poço do desejo com o descompromisso com a sua construção. Não aprendemos o que o Padre Mestre Ibiapina ensinava, no século XIX, em suas Casas de Caridade. “Pouco adianta ir dormir com fome e sonhar estar comendo cuscuz com leite, carne e melancia, pois se acordará com fome.” Mas, quem se importa com esse padre desconhecido se já temos os intelectuais que nos chegam do outro lado do oceano: loiros, bonitos e falando as línguas da filosofia?

Um desses europeus, Norbert Elias, estudou a formação da sociedade europeia e chegou à conclusão ela levou cerca de trezentos a quatrocentos anos para chegar à civilização que alcançou no início do século XX. E, claro, ela exportou esse modelo de civilização para os povos com os quais manteve contato ou ajudou a formar. Um brasileiro, Darcy Ribeiro, estudou a relação das Américas, o Brasil incluso, com a civilização europeia moderna. O Brasil e o processo civilizador europeu têm a mesma idade.

Em seus estudos, Darcy Ribeiro definiu o Brasil como um Povo Novo, gestado na Revolução Mercantil e crescido nas Revoluções Industrial e Termonuclear. Ele chama atenção ao fato de o Brasil não ter realizado nenhuma revolução tecnológica, não ter criado uma tecnologia, tornando-se, basicamente um consumidor das tecnologias advindas das revoluções externas a si, sendo obrigado, constantemente a realizar Atualizações Históricas para usufruir, pagando as vantagens que cada nova tecnologia lhe é apresentada. Seja dizer, aprendemos a não fazer, apenas a consumir. E, penso, sem fazer não temos noção do que é necessário para dar um salto qualitativo e deixar de fazer Atualização Histórica para promover a sua Aceleração Evolutiva. Então, quando isso acontecer, seremos autônomos e senhores de nossos destinos. Mas isso implica em trabalho, disciplina, organização, planejamento, vontade objetiva em direção do objetivo. Poder-se-ia começar pela superação do analfabetismo.

Outra alternativa é realizar outro tipo de Atualização Histórica: fazer, aos fórcipes, a revolução política, como as da Rússia, China, Cuba, Líbia, Coréia do Norte, Nicarágua, Venezuela. Revolução sem construção de conhecimento científico autônomo e com povo dominado pelo fascínio de personalidades e algumas vantagens para alguns grupos.

A terceira alternativa é assumir ser Macunaíma, esse herói sem caráter que deveria ter uma estátua na Praça dos Três Poderes, além de substituir Zé Pereira neste imenso carnaval. Milagre é a esperança de Macunaíma.

Severino Vicente da Silva

O fim da escravidão não é o mesmo que a conquista da liberdade

Estamos sempre em tempo de comemoração, uma vez que sempre estamos a lembrar um passado, e todos os dias que vivemos nos remetem a acontecimentos, dos quais escolhemos alguns para lembrar e celebrar. Assim as celebrações, as efemérides são um passado, não o passado. Sempre lembramos um passado que nossa memória pessoal, ou coletiva escolhe como rota para o presente. Jornais nos lembram que 8 de maio é dia de comemoração, pois em 1945, general alemão depôs as armas e os aliados – ingleses, franceses e americanos – puderam afirmar que venceram uma guerra contra a Alemanha Nazista. As nações democráticas venceram a guerra, começaria o período de paz. é o Dia da Vitória. Os que viveram os rigores e horrores daquela guerra e a ela sobreviveram sabem o que devem comemorar e ao assim fazerem, ensinam aos que nasceram depois desse período a importância daquele momento na formação da sociedade na qual vivemos. E, perguntamos se as gerações atuais estão compreendendo o significado desta data.

É o mesmo com todas as efemérides que fazem parte do nosso calendário cívico, seja o do bairro (será que isso tem importância?), da cidade do país, do mundo. O mesmo para, no país, os diversos grupos que formam essa grande sociedade. Tomemos o próximo domingo, dia 13 de maio e assistimos a luta entre o mercantil dia das Mães (alguns colégios já falam ‘dia da família, como no Dia dos Pais está a tornar-se dia do amigo) e o Dia da Abolição da Escravidão, imposta a africanos e seus descendentes no Brasil.

Conversamos pouco a respeito dessas duas celebrações, mas nos dedicamos menos ainda à questão da Liberdade limitada que a Lei Áurea garantiu aos que ela libertara. Entretanto devemos comentar sempre sobre essas duas datas, e muitas outras assemelhadas na lembrança de passos positivos em direção a civilização. Ainda que o mundo que veio após 1945 não tenha sido de paz ou de plena vitória da liberdade, uma vez que essas são condições sempre da formação da humanidade, sabemos que, por algum tempo, em muitos lugares, certos sonhos perversos de dominação foram contidos, o que nos oferece mais oportunidades de aperfeiçoar as veredas em direção da paz e da liberdade humana. Também devemos agir dessa maneira e ter essa compreensão sobre o 13 de maio de 1888, pois ele foi incompleto e nos foi transmitido de modo a ocultar os medos que a Liberdade causava aos grupos que levaram a Princesas Isabel, e ainda causa a muitos. Sim, a Liberdade causa medo até mesmo aos que saíram da escravidão, pois que agora, como livres, estavam condenados a serem livres e, por isso, responsáveis por sua vida.

Como diz a música de Dorival Caymi, se pode ir só à Maracangalha, de chapéu de palha até mesmo sem a Nalha, celebrar o fim da escravidão, mas celebrar a liberdade é construí-la cotidianamente, pois a cada dia e época ela nos sorri diferentemente.