No domingo 22 de janeiro participei de mais um ato comemorativo dos quarenta anos de atividade do Quinteto Violado, grupo musical criativo que tem participação exemplar na cena musical e artística pernambucana e brasileira. Ouvi falar daqueles rapazes nas conversas com alguns padres e seminaristas que viviam em pequenas comunidades na periferia do centro histórico de Olinda, no início da década de setenta. Não os vi tocar, nem mesmo estava na cidade em 1972, quando eles se lançaram oficialmente na praça. Mas estive na abertura da Exposição de suas décadas na música brasileira.
Neste ano, o primeiro contato que mantive com Marcelo Melo foi, a pedido do Memorial Luiz Gonzaga, passamos o final da tarde e início da noite, conversando com o pessoal da Escola de Samba Unidos da Tijuca, em torno do samba enredo da Escola para este ano. O QV violado e Luiz Gonzaga são amigos de infância, da infância do QV, e possivelmente, os artistas que mais rodaram as terras brasileiras, por solo. Outro andarilho é Dominguinhos.
A convite de “Anjinho” Filizola, fui ver pedaços de minha juventude e pedaços que perdi da trajetória do Quinteto Violado, em trabalho bem produzido e montado no Espaço Cultural Correios, no Recife Antigo. Depois encontrei os Violados em Vicência, cidade situada a 80 quilômetros ao norte do Recife. Participavam do Festival Canavial e mataram a saudade de fãs que lembraram de sua presença na cidade três décadas vencidas. Um terceiro momento foi na cidade de Tracunhaém onde, a convite da produção local, fiz, glorioso, orgulhoso e feliz, o anúncio da sua apresentação no II Encontro de Cirandeiros da Mata Norte. A apresentação foi um contínuo de alegria com a praça dançando ao dos Violados.
E então, o jornal do dia 22 me comunicava que o Quinteto Violado iria fazer uma apresentação no Salão Nobre do Teatro Santa Isabel, acompanhando o lançamento do mais recente livro de José Teles, que recebe o título “lá vem os violados: 40 anos do Quinteto Violado”, uma citação da nomeação do grupo, após uma apresentação no Teatro de Nova Jerusalém. fui ver a apresentação e comprar o livro que é publicado pela Edições Bagago, com 239 páginas bem escritas, e palavras bem colocadas por aquele que diz ter cerca de 25 leitores.
Enquanto estava na fila dos autógrafos, Marcelo Melo disse que o livro é bem mais que uma biografia do Quinteto, pois ali tudo está contextualizado. A leitura confirmou o que disse Marcelo, e, com certeza, o leitor poderá refazer o trajeto do Quinteto, mas entenderá os meandros da criação e da criatividade da música brasileira e do papel que músicos pernambucanos sempre ocuparam nesse processo. Ainda que sofram a resistência da “elite” local em aceitar o novo, embora o aceite quando a novidade já tenha sido absorvida, os artistas dessa terra esbanjam criatividade e coragem no processo de reformulação das linguagens e das mensagens que cada geração produz. Parece-me que José Teles foi bastante feliz no seu garimpo, facilitado segundo ele próprio, pela organização do QV, que inclusive tem uma fundação. A leitura nos traz, aos que não convivem com o QV, informações curiosas como o fato de Marcelo ter sido, por algum tempo, professor de violão de Françoise Hardy, além de outros bastidores que envolvem o melhor da arte nacional.
A leitura deste livro, LA VEM OS VIOLADOS: 40 ANOS DO QUINTETO VIOLADO, escrito por José Teles é um bom roteiro, um nicho de informações para os que querem conhecer algumas sendas da criatividade do QV e de nossa gente.
é Dominguinhos.
Este ano de 2012 não é o fim do mundo, Mas depois da experiência dos estudantes com a polícia por conta do aumento das passagens, pode ser que, para alguns, certos amores foram enfraquecidos e algumas esperanças tenham sido queimadas. Houve um tempo em que o avô do atual governador de Estado foi chamado de “Pinochet de Pernambuco” por professores que lutavam por aumento de salário, agora é a vez do neto de Arraes ser lembrado como fascista. Enquanto isso os legisladores da cidade se autoconcedem aumentos, como em Câmaras e Assembléias em diversos pontos do país. Está tudo dentro da lei que foi criada em 1988. E como os legisladores as criaram não se sentem na obrigação de modificá-las com o intuito de tornarem-se mais parecidos com o eleitor-pagador de impostos – consumidor e, finalmente, cidadão.
Li alguns comentários nas redes sociais de pessoas surpresas por seus deputados, senadores, vereadores não saírem em defesa dos estudantes em passeata contra o aumento das tarifas dos ônibus urbanos. Mas esses mesmos comentaristas lembraram que muitos desses senhores que foram eleitos para representar o povo, tiveram suas campanhas financiadas pelos plutocratas, esses os que realmente governam; dado reconhecido pelo mais recente ex-presidente ao afirmar que “os usineiros eram os verdadeiros heróis do povo brasileiro”. Esses confrontos entre estudantes e as forças policiais auxiliam-nos a compreender que as palavras não são a realidade e, mesmo a porrada recebida por estudantes é apenas a representação do poder e do real.
E choveu bastante nesses últimos dias. Aprendemos que o Brasil está em último lugar na lista de países que devolvem em serviços aquilo que recolhe em impostos. Até mesmo já está divulgado que um secretário do Ministério do Planejamento morreu na portaria de um hospital, em Brasília, pois não estava com a prestação de seu plano privado de saúde com o pagamento atualizado. Houve um grita porque os hospitais têm que aceitar o paciente, mas ninguém perguntou por o secretário não foi buscar auxílio em um hospital público, esses que atendem pelo Sistema Único de Saúde – SUS? É talvez porque a família do secretário do ministério do planejamento soubesse que esse sistema não está tão planejado! Assim, os que podem, e também os que não podem, devem pagar duas vezes pelo atendimento médico, mas sempre com a consciência de que na hora em que precisarem desse atendimento, há o risco de faltar algo. Mas tem chovido bastante!
Pesquisa realizada nos Estados Unidos mostrou que ter um bom professor amplia os horizontes da pessoa que estuda, além de simultaneamente ampliar as melhorias salariais do estudante quando deixar de sê-lo. Mas atualmente a profissão de professor não é estimulante e os resultados nos vestibulares mostram que não são os melhores alunos que desejam se tornar professores, entretanto, eles serão os que deverão formar os melhores. Como trabalhar essa equação? Ser um bom professor é o anseio de todos, há um esforço pessoal para Alcançar o aluno, apontar o caminho, mas nem sempre os professores conseguem as ferramentas adequadas para cumprir seu anelo, seu objetivo, sua obrigação. Ser o melhor para poder auxiliar na formação dos melhores. Seria tão melhor se mais pessoas que assumissem o ministério da educação carregassem em sua alma mais que o desejo de ampliar o poder político de seu grupo!
Que Mercadante não mercadeje com o que não é de mercadejar; esqueça a arrogância dos mercadejadores do poder e exercite a humildade.
Recebo notícias de um antigo amigo, uma carta que fala de um guerreiro que está de partida. Cristina conta que o professor Biu Oliveira, colega de trabalho nos tempos áureos dos cursinhos, essa máquina que a modernidade inventou para substituir a educação dos colégios tradicionais resistentes às mudanças e a aceitação dos novos tempos. Lástima que os cursinhos adequaram-se por demais aos modelos autoritários introduzidos na segunda metade dos anos sessenta e auxiliaram a cristalizar o modo skineriano em detrimento dos caminhos rogerianos. Hoje, continuamos sem o domínio da técnica e perdemos a beleza criativa e afetiva de que tanto se repete, sem entender, o significado da educação como prática da liberdade. Tão dominados que fomos pelo jeito skineriano que, de Paulo Freire são dizem de um método, método que ele nem mesmo dava crédito. A liberdade não é alcançada por método.
Biu Oliveira foi meu colega no Colégio e Curso 2001 e dividíamos as aulas de História. Seu humor era tão grande quanto o seu corpo que balançava ao andar, marcado por uma labirintite que crescia, soubemos alguns anos depois, à medida que a sua coluna pressionava o cerebelo. Mas esse inconveniente jamais impediu que nos ríssimos de nossas bobagens quando nos dedicávamos a esvaziar garrafas de cervejas, que nos tornou barrigudos.
Negro orgulhoso de sua origem, de sua cor, Biu Oliveira sempre se ofendia quando alguém, pensando em não ofendê-lo, chamava-o de moreno. Mas jamais o vi com certas posturas politicamente corretas que alguns segmentos da luta pela igualdade vivem a prescrever. Professor de História, sempre foi atento ao seu tempo e desejava a liberdade. Isso nos levou à luta sindical, ao reavivamento do sindicato dos professores, e caminhamos juntos na primeira greve ao tempo da ditadura, em abril, junto com a dos motoristas de ônnibus. Claro que a história oficial prefere dizer que a primeira greve foi a de São Bernardo, a que revelou Luiz Inácio da Silva, conhecido como Lula. O tempo e a política levaram Biu Oliveira à presidência do Sindicato e, naquela diretoria eu fiquei como segundo secretário. Com a conquista do sindicato vieram outras vitórias com o partido dos trabalhadores crescendo. Em uma das muitas greves que preparamos e fizemos, em uma pichação na Academia Santa Gertrudes, Biu Oliveira foi atingido por um tiro de um vigilante. Sua saúde sofreu desde então. Depois, Biu Oliveira formou uma cooperativa de professores, montou um colégio. Seguiu certa tendência da época em que os primeiros cursinhos foram sendo substituídos por novos colégios e, alguns de nossos alunos e colegas tornavam-se proprietários. A política e o tempo nos afastou.
Biu Oliveira foi para o Agreste, onde o encontrei, após a minha aventura no Rio de Janeiro, quando fui procurar lá as salas de aulas que me negavam aqui na metade da década de noventa. A cooperativa frutificou em Caruaru, mas Biu Oliveira não usufruiu de tudo. Tivesse ele conhecido Seu Rosendo, um dos muitos operários do Cotonifício Bezerra de Mello, a famigerada Fábrica da Macaxeira, teria ouvido o que ouvi: “não é possível ser socialista se a sociedade é capitalista.” São muitos os que discursam sobre o socialismo e, quando sentem o sabor do capitalismo, esquecem de viver o que diziam, embora continuem dizendo o que já não mais vivem.
Biu Oliveira “está em coma irreversível” diz a carta de Cristina. Avisa-me que ele está morrendo, agora mais que todos nós que vivemos enquanto caminhamos para cumprir o destino dos que estão vivos, como dizia o João Grilo de Ariano Suassuna. A categoria, e não classe dos professores como dizem os analfabetos sociológicos de hoje, deve homenagem à Severino Oliveira – professor Biu Oliveira – pela sua luta, pela coragem e pela coragem demonstrada na tarefa de, coletivamente, procurar organizar os professores. Um guerreiro que lutou contra o sindicalismo amarelo está morrendo, diz Cristina. Tomara que o SIMPRO não esqueça que não deve amarelar diante dos governos, mesmo daqueles que parecem ser dos trabalhadores.
Assistimos um crescente interesse por obras, atividades capazes de explicitar o que é capaz de identificar o grupo a que se pertence. Os momentos de festejos parecem ser adequados para a exibição coletiva de pertenças. Em Pernambuco, que se formou em torno da produção do açúcar de cana, desde o final da escravidão como maneira de organizar o trabalho, os homens e mulheres descendentes daqueles trabalhadores dos engenhos estão criando, re-inventando o universo em que estão envoltos, estabelecendo as suas individualidades e, as tornando públicas em festas.
Inicialmente essa inventividade foi pouco notada, ou mesmo negada, pelos que estavam no topo da pirâmide social, estabelecendo o que deveria ser a identidade pernambucana. É muito interessante notar que vem do tempo da escravidão, ou dos anos imediatamente posteriores, a alcunha de algumas cidades pernambucanas, conhecidas como “a Suissa”, “a Milão”, “a Veneza”, em uma demonstração clara da ausência de referências e ligações locais. Ao longo do século, em um movimento subterrâneo, os descendentes de escravos africanos, de índios sobreviventes, grupos de europeus e de outros povos postos à margem da “boa sociedade” foram estabelecendo costumes, hábitos, conceitos artísticos e maneiras religiosas de viver, que aos poucos vão sendo assimilados, consumidos e se tornam a referência cultural, mesmo para os que não fazem desse grupo e seguem os andores sem entender o porquê.
A primeira semana do ano é uma clara demonstração desse processo, como nos diz a celebração da Queima da Lapinha, uma tradição que parecia sumida, juntamente com o Pastoril de origem européia, muito celebrado nos adros das igrejas e capelas até os anos cinqüenta, quando ocorreu a explosão urbana da sociedade e os moradores dos engenhos espalharam-se por todo o território nacional. Recentemente tem voltado à tona e à cena, acompanhado por trabalho de pesquisa e recuperação da memória de meninas que foram pastoras nos anos acima mencionados. E aqui devemos mencionar o trabalho de Ronaldo Brito, que juntou as muitas tradições de sua infância no belíssimo Baile do Menino Deus, uma recriação do Pastoril, pondo lado a lado o presépio inventado por São Francisco e Assis e os mitos indígenas e mamelucos das Matas e dos Cariris. Sem dúvida, assistimos ao renascer e à recriação do Cavalo Marinho, festa de gosto popular na Região da Mata, brincado inicialmente nos terreiros dos sítios, povoados e nas pontas de ruas das cidades emancipadas após os anos quarenta, e quase desaparecido no final do século, mantido pela insistência da alegria de viver que têm os mais pobres. O interesse de jovens pelo som da rabeca, pelos movimentos bruscos e espontâneos do “marguio” e a beleza plástica da Dança dos Arcos de São Gonçalo, além de pesquisa de música étnica, tem realçado essa criação que vem de baixo e Mestre Ambrósio vem se impondo como distribuidor de figuras e alegrias, às vezes sendo assumido momentaneamente por algum artista de criatividade, como Siba Veloso.
No dia de Reis, enquanto se fazia a queima da Lapinha no Pátio de São Pedro, no Recife, Em Olinda, na Casa da Rabeca, aproximadamente cinco centenas de jovens e velhos, acompanharam a apresentação dos quatro grupos de Cavalo Marinho, celebrando a fundação da Associação de Cavalo Marinho de Pernambuco. O que era feito isoladamente, continuará a manter a individualidade, mas assumindo um padrão de organização mais moderna, seguindo o exemplo que os Maracatus de Baque Solto estabeleceram na quarta parte do século XX.
Ainda nessa direção, assistimos a Lavagem da escadaria da Igreja do Senhor BonFim, como uma afirmação da religiosidade da população descendentes dos africanos, a mesma igreja onde os jovens dançavam em homenagem a São Gonçalo do Amarante, santo português presente no Cavalo Marinho e padroeiro de muitas cidades cuja urbanização remonta os tempos do império português.
E tudo isso ocorreu nesta semana, coroada pela exposição da arte de Manuelzinho Salustiano, o artesão de estandartes que dançam à frente das tribos de caboclos, dos maracatus que embelezam as cidades da Zona da Mata Norte, elas que assumem ser Terra do Maracatu, Terra do Caboclinho, Terra do Cavalo Marinho, etc.
São as novas identidades, essas que nós criamos, não importamos.
O ano de 2012 completa o Calendário Inca e vem a previsão de que o mundo está prestes a terminar. Apesar dos desgastes da economia européia, nem mesmo a velha Europa terminará, ainda que venha sendo aguçado o conflito com outras tradições mais antigas que foram renovadas com a imaginação fermentada no caldo da península euro-asiática. Essas tradições mais antigas, as do Oriente mais próximo e aqueloutro mais distante, renovaram-se na exploração que os povos da Europa os explorava e lançava ali as sementes que criava com aquilo que explorava. Foi sendo criado o mundo moderno, nem sempre com as objetividades que esperavam os seus construtores. E isso aparece em todos os lugares.
Neste momento a grande discussão, no jornalismo visual, ocorre em torno do orçamento e a aplicação dos recursos do Ministério da Integração Nacional, entregue pela presidente Dilma aos seus aliados pernambucanos do Partido Socialista Brasileiro. Doeu em muitos a quantidade de recursos enviados para Pernambuco por conta das enchentes ocorridas em 2010 e 2011. Foram apresentados projetos e eles estão sendo executados em parceria dos governos Federal e Estadual. Barragens estão sendo construídas para evitar novoas enchentes nas cidades da Mata Sul.
Ocorreram também desastres na região serrana do Rio de Janeiro e para lá foram enviados recursos e afastaram prefeitos que não aplicaram os recursos na prevenção de quedas de barreiras; prefeitos aplicaram os recursos em suas contas bancárias. Os comentaristas esqueceram esse dcado. Em Alagoas, onde também ocorreram enchentes, a crise permanente de governo parece que não ofereceu condições para a apresentação de projetos. Essas questões da modernidade nem sempre são seguidas em nossa república.
Durante muitos anos a república era a do “café com leite”, o que favoreceu bastante o Sudeste e algumas famílias das outras regiões. Parece ser muito preocupante que a não republicanidade do atual ministro tenha afetado interesses que tradicionalmente utilizavam esses atalhos que a falsa modernidade sempre lhe fora favorável. Comentaristas da maior rede de televisão do país não usaram a expressão “apresentação de projetos” para entender o que está acontecendo neste momento. Nem mesmo deram espaço para a fala do governador de Pernambuco que reproduziu um diálogo com a presidente em uma das emissoras de rádio no Estado.
Claro que se a presidente não demitiu os ministros com indícios de corrupção, é bem capaz de, para agradar os aliados do Sudeste, venha a afastar o ministro da Integração Nacional, como já pediu um comentarista da Revista Veja. Ora vejam só! Usar verbas para construir barragens no agreste pernambucano? Isso, sim, é motivo para mudança de ministro. Esse barulho todo é comparável ao silêncio em torno das trapalhadas do ministro da educação, candidato petista ao governo da cidade de São Paulo.
Quase terminando o ano e eis que mais uma notícia boa nos chega. O Conselho Estadual de Cultura do Estado de Pernambuco definiu os novos Patrimônios Vivos da cultura pernambucana. A cerâmica de Tracunhaém, o Coco de Olinda e o Maracatu foram os escolhidos pelos doutos por serem produtores do saber, da alegria, da vivência e existência do povo pernambucano, especialmente esses da Mata Norte.
Sempre fico contente com o reconhecimento da importância de grupos culturais como fator de identidade local. Somos pequenos diante das grandes produções que nos são impostas e, que nos tomam o que produzimos para depois devolver-nos como se jamais tivéssemos relação com o objeto, a expressão, a emoção que nos transmitem. Os interessados especialmente em poder e riqueza possuem a capacidade de não ver, de não perceber a criatividade dos outros, negando-lhes muito. Depois discursam e dizem que “temos uma dívida para com esse povo”, ora os povos indígenas, ora os descendentes dos povos trazidos da África. Mas querem que os mestiços desses povos que vieram da África, da Europa, e dos que aqui sempre viveram, paguem a dívida que eles construíram.
Não, os povos mestiços que formamos a maior parte da população brasileira, não devemos, mas continuamos a construir com orgulho contido, o Brasil. Assim, ficamos orgulhosos de termos participado do processo que levou ao reconhecimento do MATACATU ESTRELA DE OURO DE ALIANÇA como Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana.
O terreiro da casa do Mestre Batista – Mestre de Cavalo Marinho, Mestre Caboclo – foi local de formação de muitos mestres da cultura que hoje brilham em espaços dedicados à mostra da arte em diversos pontos do Brasil. No terreiro onde, sob a liderança do Mestre Batista, havia Baile de Rabeca, havia Cavalo Marinho, foi criado o Maracatu Estrela de Ouro que sofreu muito quando de sua morte. Hoje, todos os mestres que sentaram no Banco do Cavalo Marinho da Chã de Camará, os caboclos que vestem e continuaram vestindo os surrões, levantarão as lanças em homenagem ao grande Mestre que soube, no seu tempo, passar o seu saber e aprender com os seus amigos: o saudoso Biu Roque, o saudoso Manuel Salustiano, Biu Alexandre, Mariano Teles, Antonio Teles, Grimário, Zé Duda, Mané do Boi, Ivo, que hoje estão a repassar o que viveram no terreiro da casa grande de Chã de Camará, a sede do Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana, o Maracatu Estrela de Ouro de Aliança.
Leio neste final de semana que o espírito natalino atingiu, em cheio, a conta dos pobres deputados estaduais de Pernambuco, alguns são atualmente deputados federais, um senador e até mesmo um presidente – uma presidente – do Tribunal de Contas do Estado.
O Ex-deputado estadual, ex-prefeito e atual deputado federal, que foi celebrar o natal em Paris, França, já nem se lembrava que recebera este dinheiro que serviu para pagar as despesas de moradia. O atual senador petista ficou irritado com as perguntas dos repórteres a respeito desse privilégio que os deputados pernambucanos se autoconcedem.
É lamentável que a safra de políticos que vem assumindo cargos eletivos desde o término da ditadura contra a qual lutaram, parecem querer demonstrar, a cada dia, que o fizeram não por amor ao povo, mas visando benefícios pessoais. Como são capazes de legislar em causa própria! Eles deveriam cuidar para que houvesse uma melhor distribuição de renda, e o fazem criando leis que aumentam as suas.
Lamentável saber que entre esses está um antigo presidente da primeira Comissão de Justiça e Paz criada durante a ditadura. Ele que tanto elevou a voz, talvez confiando na batina de Dom Hélder Câmara, contra os abusos dos militares e civis hoje se cala, pois seus bolsos recebem esse suborno. Ao longo do tempo o profeta da justiça evoluiu para o acolitado da exploração do povo, aceitando o discurso de que o que se faz é legal; ele esqueceu que costumava dizer, no tempo da presidência da CJP da Arquidiocese de Olinda e Recife, que as leis injustas não devem ser seguidas.
Mas, como dizia antes, o espírito natalino atual é aquele que garante o consumo com as cores de famoso xarope americano. Semelhante ao comportamento do palácio de Herodes que não percebeu a estrela que anunciava o nascimento da criança em Belém ouviu-se o silêncio das Princesas. Seria possível cotejar esse aumento natalino dos deputados com o Massacre dos Inocentes?
Coisas estranhas andam a acontecer ao nosso redor, e temos dificuldade de entender tantas informações, transformá-las em conhecimento e nos ajudar a compreender nosso lugar no mundo. Recebo email informando que uma das experiências mais bem sucedidas no combate à miséria, ao sofrimento das pessoas que vivem no Semi-parido nordestino, capitaneado por uma entidade que recebeu láurea do então presidente Lula, foi informada de que seus convênios com o governo federal foram cancelados pela atual administração. A ASA tem promovido a utilização de cisternas nas casas para que as populações possam superar os períodos de estiagem. Pouco investimento, bons resultados. Mas a ASA é uma entidade da sociedade que não está conseguindo conviver com o “centralismo democrático”, como está dito em um email que convida a todos a uma mea culpa por estar tão ligado aos governos. Outro email diz que “Temos que ter a coragem de ser o que sempre fomos: movimentos sociais autônomos (sic) frente a governos.” Esses recados chegam quando nos informam que a atual presidente tem uma aprovação estupenda, maior que a do seu mentor.
Como entender tudo isso? Um dos jornais de Pernambuco, na página 9, de tão laudatário que tem sido, chega a confundir a palavra “luta” pela palavra “lula” na principal manchete do caderno dito de “política”. Claro que o revisor jamais iria a pagar a primeira palavra da manchete, retirando o nome do ex-presidente em uma matéria que não tem nada a ver com ele. É o jeito que a boca toma com o uso constante do cachimbo.
Mas é bom saber que nós estamos melhores e mais animados. Precisamos melhorar muito, especialmente nos quesitos educação, educação política, além da segurança, saúde, saneamento. Claro que precisamos construir Comissões da verdade para sabermos o máximo do que ocorreu e ocorre nos bastidores da política, das relações que permitem aumentos salariais absurdos para deputados e funcionários do legislativo, enquanto se míngua as verbas para os setores fundamentais para a melhoria do povo.
Nesta semana costumava celebrar o nascimento de Jesus, continuamos a fazê-lo, embora mais estejamos mais preocupados em fazer compras. Somos cada vez mais burgueses, mais capitalistas embora continuemos com fraseados socialistas que servem para enganar nossa consciência. Assim, desejo a todos, além de boas compras, um feliz natal. Ou como se dizia antigamente: Paz na terra aos homens de Boa Vontade.
Acontecem coisas, nos surpreendemos com elas. Manuel Bandeira sonhava em ir para Passárgada, onde mantinha amizade com rei e, por isso estaria apto a realizar as maiores estripulias, inclusive andar de bicicleta e consumir drogas. Esta semana aprendemos que ser amigo ou genro do rei não implica em tanta liberalidade. Eis que o Duque de Parma, genro do rei de Espanha foi afastado do convívio real porque seu comportamento não condiz com a sua posição social. É que o esposo da princesa andou metendo a mão no dinheiro público espanhol objetivando o seu enriquecimento pessoal. Isso não é tolerável na Espanha. Então aprendemos que Passárgada não está no reino espanhol.
Passárgada era uma das cidades de repouso do rei Dario da Pérsia. Os reis persas eram muito poderosos e eram poucos que recebiam a permissão de aproximar-se de seu corpo. Era vistos através de cortinas e, os que chegavam a tal distância deviam ajoelhar-se e não levantar os olhos. Mas, os amigos do rei, esses mais íntimos podiam acompanhar a majestosa caçada de leões. Aos amigos tudo é permitido.
A Pérsia é local do Irã, a terra dos amigos do ex-presidente do Brasil. Talvez por isso Brasília, que já teve a Casa da Dinda (nos tempos colloridos), a Casa da República do ABC, agora está cada vez mais semelhante a Passárgada, paraíso dos amigos da Soberana. Os amigos da Soberana podem ser soberbos, não explicar as suas ações. O segundo semestre deste ano foi pródigo em nos mostrar que os amigos da rainha não precisam dar qualquer explicação ao congresso. Isso é coisa de república, não de estados teocráticos. Nestes, basta que o soberano aceite as explicações, como disse a vestal Salvati. Foi assim na Passárgada dos amigos de Dario. Quase sempre, quando havia algum problema, o jardineiro era culpado. Os amigos do rei são sempre inocentes e podem escrever a história a seu modo.
Dario foi derrotado pelos gregos, que foram vencidos pelos romanos. E Cronos se alimenta dos seus filhos, até que um que lhe escapa, parece vencê-lo. Os gregos e romanos acreditavam que seus deuses alimentavam-se da ambrósia, fruto que não era permitido aos humanos. Quando algum humano tomava desse alimento ele se tornava imortal como os deuses. Há quem sonhe com isso. Ser imortal, ser divino. Todos desejam a segurança para além das calendas, e confundiram champagne com ambrósia. O excesso da champagne leva à embriaguês e certa alegria, do mesmo modo, a ambrósia, além da conta pode levar o consumidor a explodir em chamas.
Os deuses vivem o tempo da vida dos seus crentes, quais vampiros, alimentam-se de seu sangue e de suas ilusões.
O Duque de Parma envergonhou a realeza espanhola por ter usado erroneamente os recursos públicos, fez um “mal feito”; no Brasil, os amigos da soberana de Passárgada não precisam fazer nada, amigos da soberana têm alcalóides a vontade e a tia salvati lhes contará histórias para eles dormirem.
Neste final de semana participei do II Encontro de Cirandeiros da Mata Norte, ocorrido na cidade de Tracunhaém. A iniciativa é de um morador da cidade conhecido como Gilson Turismo, decorrente de sua permanente preocupação de tornar a sua cidade mais que um lugar de passagem, espremido entre Carpina e Nazaré da Mata. Os grandes artesões que trabalham com o barro, carecem de visibilidade permanente e, essa tem sido a preocupação de Gilson. Não apenas com o que já se conhece, mas com o que vem florescendo. Depois de participar de um curso de formação de Produtor Cultural voltado para a cultura popular ministrado por Afonso Oliveira, Gilson ampliou seus horizontes e habilidades. Trouxe ao conhecimento atual o que foi uma grande manifestação da cultura nas décadas de quarenta a setenta do século passado, os Blocos de Carnaval, que foram marca identitário da região, auxiliando a reavivar o Bloco Andaluza, do antigo Engenho Abreu; neste ano conseguiu o reconhecimento do Maracatu Estrela de Tracunháem, inscrevendo-o para receber, como de fato recebeu a Medalha do Mérito Cultural, da Presidência da República.
O Encontro de Cirandeiros é um momento importante para a cidade e toda a região, pois nela é que viveu o Mestre Antonio Baracho, que fazia ciranda, carreava Carro de Boi e era Mestre de Açúcar e de Cachaça no Engenho Santa Fé, de Nazaré da Mata. Na manhã da sexta feira, 09/12, sob a coordenação da turismóloga Tâmisa Vicente, ouvi depoimentos de vida ditos por João Limoeiro – Ciranda Brasileira – (Carpina); Edmilson de Tracunhaém – Minha Ciranda – (Tracunháem); Moisés Lins – Ciranda Alinhando as Palavras (Glória do Goitá); José Edvaldo – Zuza – Cirandeiro e artesão do barro – (Tracunhaém) Dino (Araçoiaba). Orgulho, alegria, saber-se que está cantando para o povo e as histórias do povo também para outros grupos sociais é o que ouvi, além dos lamentos por conta do pouco caso que parece ser dedicado aas tradições brasileiras, ditas normalmente como populares.
Esse distanciamento que se tem para com a cultura do povo foi ensinada nas escolas, pois é bem mais fácil encontrar paredes escolares cobertas com desenhos motivados pelo folclore anglo-germano-russo-americano que com os motivos de nossa cultura.
A bela nota do final de semana foi dada pela população do Estado do Pará que recusou entregar dividir-se, impedindo que empresários e políticos criasse, novas estruturas para apoderar-se das riquezas de Carajás e Tapajós. Como o povo não é besta derrotou a campanha publicitária de Dudu Mendonça, o publicitário baiano (que foi preso quando apostava em uma rinha de galos, mas foi solto porque era amigo do “dono do poder”) que foi contratado para convencer os paraenses a suicidar-se políticamente. Se essa história de que estado pequeno é estado rico fosse verdade, Sergipe e Alagoas seriam os mais ricos do Brasil. E são???!!!
Parabéns a Tracunhaém, Parabéns às cidades que fizeram o Festival Canavial, Parabéns a Gilson do Turismo e Parabéns ao Povo do Pará.