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MARIANO TELES, Mestre de um Povo Novo

Políticas públicas que auxiliem a promoção de pessoas ou grupos de pessoas, comunidade são necessárias em sociedades como a nossa, caso haja o desejo de diminuir as desigualdades e afirmar a liberdade republicana para todos os que formam a nação. Somos uma nação resultante da chamada Revolução Mercantil, promotora das Grandes Navegações realizadas por Espanha, Portugal, seguidos por Holanda, França e Inglaterra. Tal Revolução tecnológica está ancorada no Livro e na pólvora como arma eficaz de dominação. Mas, apesar de nos voltarmos tanto para os feitos dos generais e seus exércitos conquistadores, foi a imprensa que garantiu o domínio cultural sobre os povos americanos, e mesmo sobre outras civilizações melhor apetrechadas nas criações espirituais, mais sofisticadas que as mantidas pelos Povos Coletores e Caçadores. A escrita, sobre a qual os europeus estavam aperfeiçoando o domínio com a tipografia, e a decisão de evitar que os povos submetidos a ela tivessem acesso, foi o que estabeleceu e manteve a dominação nas terras que receberam o nome do empregado dos banqueiros italianos. Além da conquista territorial, consequência das vitórias militares, foi a conquista espiritual que garantiu aos povos da pequena Europa estabelecer seus padrões básicos de hábitos, costumes, religião, leis aos povos que eles encontraram em seu périplo. Darcy Ribeiro ensinou que esta Revolução Tecnológica resultou Povos Testemunhos, Povos Transplantados e um Povo Novo, o Brasil.

O Povo Novo, surgido no processo da Revolução Mercantil, não teve acesso direto à tecnologia, recebendo-a à conta gotas, sempre que interessava aos conquistadores. Ora, é a leitura o instrumental básico para a transmissão e recriação do mundo moderno e, como sabemos, não houve qualquer interesse em construir escolas que tornasse comum a leitura, a escrita e o estímulo à criação de bibliotecas. Os portugueses não tomaram iniciativa de popularizar a tecnologia da escrita e da leitura; os espanhóis criaram, de imediato universidades em algumas de suas colônias, mas não escolas para o vulgo, o índio, o meztizo; as universidades estava para atender os Creoulos, para a formação de quadros administrativos garantidores da dominação. Assim os espanhóis, segundo Darcy Ribeiro, fizeram das civilizações Inca, Maia e Azteca, povos Testemunhos.

Nesta semana que passou, dia 14, ocorreu a morte de Mariano Teles, pessoa que conheci no início do século, mas que nasceu na primeira metade do século XX. Foi em um dos engenhos da cidade de Aliança e, em sua adolescência assistiu o desmanche dos engenhos de fogo morto, tornados em fornecedores de cana para as usinas que se estabeleciam na região desde o início do século XX. Mas enquanto a cana chegava vagarosamente, os sítios eram os locais de moradia dos trabalhadores da cana, e nesses sítios, descendentes de escravos que se caldeavam com descendentes de índios, criavam suas brincadeiras, ou davam novo sentido a essas brincadeiras. Quando Severino Lourenço da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, estabeleceu-se no sítio Chã de Camará e começou a fazer “samba” nos finais de semana, Mariano Teles começou a frequentar o lugar e, um dia, tomado de muita coragem, pediu para entrar na brincadeira do Cavalo Marinho. Nunca mais deixou de brincar e aprendeu tudo que podia aprender com o Mestre Batista, de tal maneira que, cm a morte de Batista, Mariano passa a mestrar, e o fez até que sua saúde permitiu. Na universidade do Mestre Batista, foram formados os Mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Biu Roque, Mané Salustiano, Gumercindo, Grimário, Mané Deodato, Antônio Teles, Zé Duda, Mariano Teles e muitos outros, inclusive o jovem Siba.

Mestre Mariano Teles conviveu com todos esses nomes famosos no mundo que fica distante daquele que está mais próximo da tradição europeia, mas que, recentemente, vive a conversar com esses mestres da cultura que o povo recriou, a despeito das imposições ou, talvez, por causa das imposições. Assim, o Cavalo Marinho, que o padre Lopes Gama, o Carapuceiro do Recife da segunda metade do XIX, dizia não conhecer algo “ tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi, um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se cavalo marinho; outro, alapardado sob lençóis, chama-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo , outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama caipora. Há além disso outro capadócio que se chama pai Mateus.(…)”. (O Carapuceiro, n.2 (11/1/1840) citado por Evaldo Cabral de Melo).

A descrição da brincadeira que o padre assistiu – a contragosto, diga- se, continuou a existir em alguns bairros do Recife, mas escondeu-se na Mata Norte do estado, recriando-se e se mantendo, com a inteligência e a memória dos que não tiveram acesso às tecnologias, mas viam e ouviam e, desse vir e ouvir, guardaram, cultivaram as experiências que hoje são buscadas pelos doutores diplomados que, às vezes com falsa humildade, sentam-se aos pés de mestre como Mariano Teles, para saber como é e que era o passado de seus (nossos) avós. Mariano Teles pode ter sido o último Mestre da Cultura Popular que não foi afetado pela escala de espetáculo que vem dominando o conhecimento da cultura popular; não se tornou “artista”, continuou Mestre, em Chã de Camará, assistindo, de longe os brilhos de seus colegas em plagas distantes, dançando sob os olhares dos novos carapuceiros que, parecem saber mais que todos, e assumem a tarefa de dizer o que vale ou não vale a pena ser cultivado.

Mestre Mariano Teles, a quem ouvi, sentado no banco de seu quarto, ou debaixo de frondosa jaqueira no sítio Chã de Camará, continuou cantando e dançando os Arcos de São Gonçalo no chão de terra batida, mas cheio de barroca; ali onde ele aprendeu os versos da Estrela de Belém, continuava ensinado às crianças; no mesmo terreiro ensinava a Toada do Vaqueiro e o drama de suas filhas. Todas as Figuras ele sabia cantar e dançar, como ensinou ao jovem Mestre Zé Mário.

Jamais esquecerei a singeleza e a elegância da resposta que, uma noite deu ao seu amigo Mestre Salustiano, em um dos primeiros Encontro de Cavalo Marinho. Mestre Salustiano Perguntou: “Mariano, qual a figura mais bonita do Cavalo Marinho” Ele disse: “não sei, se eu disser que é esta você vai dizer que é aquela, seu disse que é aquela, você vai dizer que é esta. Cada tem a sua preferia e a preferida é a mais bonita para quem acha.”

Saudade de Mestre Mariano Teles, mestre de um povo novo, que se tornou novidadeiro. Ele não, foi para outra Chã, foi dançar com Mestre Batista, conversar com Salustiano e, com Biu Roque, cantar.

As chuvas e os crimes sociais do verão

Mesmo quando apresenta-se com 29 dias, fevereiro é um mês pequeno, o menor de todos, e muito esperado por alguns por conta do grande festival que conhecemos e vivemos como Carnaval. Este ano o carnaval ocorrerá em março, mas em algumas cidades, ou em partes de algumas cidades, as pessoas treinam, preparam-se, para viver plenamente a loucura que se diz existir nos três dias dedicados aos prazeres da carne.

Fevereiro começou ainda com o rescaldo do recente acidente em Brumadinho, MG. Restos do minério retirado da terra e vendido, principalmente aos chineses, guardado em barragem situada metros de altitude acima de uma cidade, desceu montanha abaixo, tudo matando, tudo destruindo, tudo contaminando. Muitas pessoas morreram e a cidade foi sensivelmente afetada, pois perderá a atividade que a fez surgir. Pode ser que venha a Tornar-se uma cidade-zumbi, quase morta. Sua longa história não permite tal afirmação. Originária da atuação de bandeirantes no final do século XVII, esta cidade cresce com a mineração do ferro, após a criação da Companhia Vale do Rio Doce, durante a ditadura de Getúli0 Vargas, e faz parte do esforço de criação da uma indústria nacional. Situada no vale do Rio Paraopeba, suas madrugadas e manhãs são famosas pelas brumas que cobrem o povoado/cidade, de onde lhe vem o nome. Espanta a possibilidade de sua morte, a lembrança de que no século XIX, um inglês, o Senhor Thimoty, ou o Senhor Tim, que foi sendo chamado de Nhô Tim e, Inhotim. Nas terras de Nhô Tim, em 2004, o empresário de mineração siderurgia e arte, Bernardo Paz, guarda no local sua bela coleção de arte, e em 2006 a torna de acesso ao público, e recentemente, em 2014 foi tornado museu a céu aberto da Arte Contemporânea. Inhotim, tem origem na ação predadora da caça ao silvícola e ao ouro, cresce da retirada do ferro de suas entranhas, cujo rejeito agora mata o Rio e suas margens, mas pode ter seu futuro garantido pela arte e pela reconstrução da natureza, que vai tomar algum tempo.

Este desastre anunciado, o rompimento da barragem de rejeito de ferro sobre Inhotim, não tem sido um caso isolado na trajetória de Minas Gerais. Faz menos de uma década que, a cidade de Mariana sofreu o rompimento de uma barragem de rejeito que, parece tem matado o Rio Doce, que alimentava a região. Agora, a morte do Rio Paraopeba, pode vir a atingir o Rio São Francisco. Desastres que ocorrem após a ação descuidada dos empresários em diversas épocas, são comuns na construção do Brasil, pois os que orientam os caminhos do “progresso” parece acreditar que a natureza é capaz de se recuperar eternamente. Em decorrência desse entendimento, os projetos de “progresso” do Brasil têm sido realizados em função do apetite pantagruélico dos seus dirigentes, por isso não deixam espaços para que os menos poderosos, os índios, os trabalhadores de suas empresas possam se acomodar decentemente: os poderosos apossaram-se de tudo, e o resultado são favelas, vilas operárias que amontoam em pouco espaço centenas ou milhares de pessoas; numerosos são os que constroem em morros que estão sempre ameaçados pelas forças da natureza, como assistimos anualmente durante as chuvas de verão que iniciam cada ano, no Sul do Brasil e, em junho/julho no Nordeste. E quando ocorrem os donos dos meios de comunicação, junto com os governantes que foram financiados pelos poderosos, ordenam que as palavras constantemente repetidas seja, “tragédia”, “acidente”, “fatalidade”, de maneira que seja esquecido que o que ocorre a cada ano são atos criminosos.

A cada ano o Rio de Janeiro oferece a visão dos crimes que são cometidos ao forçar parte de sua população a viver em condições infames, nos morros que circundam a cidade. A cada ano casas caem e pessoas são feridas ou mortas por viverem em “locais de riscos”, como dizem os que construíram seus condomínio locais sem riscos. Este ano aconteceu de novo, e as chuvas, como fizeram a trinta, cinquenta e setenta anos, ocuparam a cidade que foi sendo construída sobre riachos e rios. É maravilhoso o panorama da natureza, é maravilhosa a sua ação sistemática de lembrar que os homens precisam encontrar um limite para as suas ações e cometam menos atos criminosos contra a natureza. Sim, os humanos são parte da natureza.

Ato criminoso é que ocorreu também nas acomodações que do Clube Regatas Flamengo, simplesmente flamengo, do Rio de Janeiro, chama de Centro de Treinamento, CT. Nesta semana 10 jovens foram surpreendidos na madrugada por um incêndio no dormitório. Jovens entre 14 e 16 anos foram machucados, seis deles morreram. Nos primeiros momentos as palavras “tragédia” , “fatalidade” provocaram ondas de simpatia ao clube e seus dirigentes, pois este “terrível acidente” é muito doloroso para “os esportes e o futebol brasileiros”, disse famoso atleta. Aos poucos chegam notícias de que a construção onde dormiam os jovens atletas não estava no projeto inicial; depois o Corpo de Bombeiros não havia dado permissão para funcionamento daquele “dormitório”; em seguida se sabe que a Prefeitura da cidade já havia embargado diversas vezes aquela instalação. E o que era um “acidente”, uma “tragédia’, uma “fatalidade” que colheu a vida de seis jovens e os sonhos de dez famílias, finalmente é visto como o que é: um crime. Os dirigentes do Flamengo (talvez outros clubes tenham comportamento semelhante) usam os sonhos de jovens adolescentes pobres, nascidos nas periferias amontoadas em torno das grandes cidades, e dos sonhos de seus pais para aumentar suas ganâncias, seus ganhos. Os dirigentes dos clubes de futebol, como os pais dos adolescentes, sabem que o estudo não garantirá aos jovens condições de vida que a televisão e os meios de comunicação em geral promovem e fazem os jovens desejarem. Mas o futebol pode ser um caminho de esperança para os que nasceram em desvantagem social, como é sempre lembrado nos programas esportivos dedicados a promover os sonhos de alguns, de serem atletas e poderem comprar uma casa para seus avós, sua mãe, seus irmãos. Em um mundo gerado pela ganância dos bandeirantes, os pais estão quase sempre ausentes na maioria dos relatos.

As águas de Janeiro e fevereiro deste ano de 2019 promoveram lama, sofrimentos, mas podem ajudar a tirar parte da sujeira dos olhos sociais que não permitem perceber a luz da realidade histórica de nossa sociedade.

Olinda, 08 de fevereiro de 19

A partir de Brumadinho, lições possíveis.

O mês de janeiro nos trouxe muitas surpresas, o que não surpreende, pois é próprio de cada dia ter as suas específicas novidades e propostas de vida e à vida. Pela primeira vez experimentei ir ao oceano, e o fiz em uma barca de pescador, para além de duas horas de navegação. Foram experiências incríveis, maravilhosas. No mesmo dia, enquanto eu desfrutava da beleza do mar, ocorria o desastre da barragem de Brumadinho, MG. A velocidade das notícias solapa paraísos individuais. A simultaneidade parece nos levar a vencer os espaços físicos, as informações nos chegam a velocidades espantosas, e nos colocam em ciclones, nos fazendo girar e viver tempos diversos e distantes como vizinhos. Desde os anos sessenta experimentos momentos como esse e sempre fico parado, tentando compreender o que se passa ou se passou.

A primeira vez que me senti nesse ciclone está relacionada com a Guerra dos Sete Dias, da qual tive conhecimento quando retornava de uma viagem ao interior alagoano, e o rádio de pilha informava que estava havendo mudanças territoriais e políticas no Oriente Médio, tão distante, mas que invadiu aquele coletivo, e me recordo de uma frase mais ou menos assim: “poxa, a gente não pode se afastar e o pessoal faz uma guerra sem nos avisar”. Era ironia, era surpresa, era a descoberta da impotência e da nossa aparente insignificância no drama da humanidade. Não, não era aparente, somos insignificantes, mesmo. Em muitas outras ocasiões essa experiência se repetiu, cada vez com novos equipamentos de comunicação, cada vez mais aperfeiçoados e, atualmente, caso se deseje, pode-se saber de tudo que ocorre no mundo, ao preço de ficar ausente do que acontece na sua vizinhança, na escola de seu filho, na reunião do Departamento da empresa em que trabalha, no quintal de sua casa, e mesmo na sala onde você está conectado com o mundo exterior.

Uma das minhas catequistas, essas pessoas que nos educam na religião (seja ela qual for), na preparação para a minha primeira comunhão me alertou: “devemos amar todo o mundo, mas lembre-se que é mais fácil amar os chineses que você não conhece do que o seu colega ao lado. Procure amar o seu colega e, quando encontrar um chinês de verdade, continue amando a ele”. Pois bem, muitas das informações agora nos chegam pelo Facebook, essa comunidade que nos envolve e nos faz amigos de pessoas distantes (algumas parecem estar tão próximas!) e, até mesmo algumas que encontramos nos corredores da vida cotidiana, da vida física, mas que pouco sabemos delas. O Facebook nos faz querer bem a elas, mas podem nos mostrar que elas são as mais difíceis de serem amadas, porque agora estão duplamente próximas, sendo que, na distância que a comunidade virtual permite, elas expressam mais naturalmente o que tenderiam a dissimular nos encontros imediatos, aqueles que Spielberg chamou de “Terceiro grau”. O criminoso desastre de Brumadinho (a cada hora sabemos mais que foi criminoso) gerou situações que expuseram o pensamento insuspeito de amigos.

Todos os atos são simbólicos e dizem o que desejam e o que se deseja ver neles. Quando o Estado de Israel prontificou-se em enviar uma turma com equipamentos capazes de rastrear pessoas vivas, ocultadas em escombros, um político logo disse que seria uma parada para Israel invadir a Venezuela. Li que muitos dos meus amigos do Facebook acolheram essa bobagem como verdade. Em seguida li que vieram para pesquisar e explorar certo tipo específico de minério, que era mais uma ação de um país imperialista. E li outras sandices semelhantes que eram aplaudidas por amigos daqueles que postavam, sendo que alguns também são meus amigos. E a eles pouco interessava o fato de que Israel foi o único Estado que enviou uma força tarefa para auxiliar os moradores de Brumadinho a encontrar seus parentes, caso eles ainda estivessem vivos. Claro que chegou um momento que tais equipamentos não mais teriam utilidade e a força tarefa retornou. Os comentários de meus amigos lembravam as conversas ocorridas na Alemanha, em 1933, quando começou o boicote às lojas dos comerciantes judeus. Foi o primeiro passo. Os passos seguintes, os professores de história que publicaram e aplaudiram (curtiram) essas insinuações maldosas no Facebook sabem e ensinam aos seus alunos. Contudo, o que ensinam parece seguir uma irônica definição de aula: aula é um processo pelo qual o apontamento que estava no caderno do professor passa para o quadro e, em uma seguida para o caderno do aluno sem passar pela cabeça de nenhum dos dois. É dessa forma que a escola forma ignorantes.

Um dos ensinamentos colhidos por conta do desastre criminoso de Brumadinho é que o Facebook revelou a face nazista de alguns amigos. E, devo seguir o ensinamento de minha catequista, se desejo ajudar a superar o mal que nos circunda.

Anos 10 ou anos 70

Na segunda metade dos anos setenta ministrava aulas, juntamente com os professores Rubem Franca, Reginaldo Fontenelle, para onde fui levado pela indicação da professora Sônia Medeiros no Colégio e Curso Radier. Foi um tempo muito interessante, pois tinha que manter em segredo que, pouco meses antes havia sido hóspede do DOI-CODI, no que fui bem sucedido por algum tempo. Nesse período ocorreu um invasão de seres extraterrestres para infernizar as aulas de história. Foi tempo da glória de um rapaz alemão Erich Von Danniken, que preencheu a imaginação de gerações com explicações sobre a construção das pirâmides egípcias, maias e astecas; dos canais da Babilônia e de todas as maravilhas do mundo antigo, fruto do trabalho, das mãos e da capacidade humanas. Sua explicação era que “deuses astronautas” teriam vindo à terra e “ensinado” alguns homens e retornaram para seus mundos para além das galáxias. Havia um guru para essas extravagâncias, um senhor versado em leis que morava em São Lourenço da Mata e, em diversas ocasiões foram promovidos debates entre os professores e esses ‘sábios’. Também os professores das Ciências Biológicas tiveram que participar desses debates, que terminavam por contrapor as teorias da Evolução e o Criacionismo (ou creacionismo). Eram tempos árduos e interessantes, quase divertidos, confronto de mundos, de intenções religiosas em todos os casos, luta contra o pensamento científico. Esses debates provocavam estudos e debates inflamados, com alunos confrontando professores e seus colegas.

A disputa pelo saber, pelo poder. Pelo poder de dizer que só seres de ouyto mundo poderiam ter feito as ‘Maravilhas do mundo antigo”. Se conseguissem isso, também provariam que tudo virá dos deuses. Todos debatiam enquanto a caravana da história continuavam a passar. Ibrahim Sued, cronista social bem sucedido no Rio de Janeiro, todos os dias publicava o que ele dizia ser provérbio árabe: Os cães ladram e a caravana passa. Uri Geller entortava talheres e padre Quevedo vivia a discutir a a Parapsicologia e o ET de Varjinha, em Minas Gerais, era mais uma comprovação da vida extra terrestre. Ainda era o tempo que se anunciava a Era de Aquarius, embora Leila Diniz tivesse morrido;

Brasília foi construída em local previsto pelo místico Dom João Bosco. Vales do Amanhecer traziam novas esperanças, Zé Arigó – Dr. Fritz, cuidava da saúde do povo sem hospitais, médicos e enfermeiros. A caridade cristã de católicos e espíritas era criticada pelos grupos de esquerdas ateias pois entendiam que essa ajuda inviabilizaria a revolução que venceria a ditadura. Vieram novos tempos, esses que vivemos.

Pois bem, não é que estamos debatendo a sério, de novo, essas questões, agora com o auxílio de canais de televisão que, com efeitos especiais estão a demonstrar que tanto as profecias de Nostradamus como os Deuses Astronautas estão vivos. O Mais recente “Arigó” está rico e na prisão, denunciado por abusos sexuais, o que jamais ocorreu com o primeiro.

Nesses tempos novos há muitos cultivadores de deuses, não astronautas, mas que parecem negar a possibilidade criativa dos homens e mulheres de nossos tempos. Sérgio Porto – Stanislaw Ponte Preta – morreu três messes antes da proclamação da escravidão do AI 5, mas notou que havia um Festival de Besteira que Assolava o País – o FEBEAPA. Ele continua existindo, sempre auxiliado de maneira difusa por um Plano Nacional de Burrificação, um PNB, agora mais ou menos detectado nos Ministérios da Educação e da Cidadania.

Educação sexual – nas escolas e nas famílias

Sempre está em debate se a escola deve auxiliar a educação sexual dos jovens. A Base Nacional Comum Curricular, de 2017 diz que sim, e devemos fazer isto. São muitos os motivos para tal. Um deles é que a maior parte dos pais pouco entende o que ocorre no seu corpo e pouco sabem como dizer a seus filhos o que ocorre no interior dos seus corpos, além de terem dificuldades em conversar sobre as questões que afligem os sentimentos das meninas, dos meninos, dos rapazes, das moças, nas diversas etapas da vida. É lamentável dizer, mas, nesse caso, a maioria dos brasileiros e brasileiras, crescem como batatas. A natureza cuida das batatas e a natureza social cuida dos meninos, das meninas, das moças e dos rapazes. Um dos problemas é que os professores, em sua maioria, também cresceram assim. Também os advogados, os padres, as freiras, os pastores, as delegadas, os delegados, os médicos, os enfermeiros, as atendentes dos postos de saúde, os motoristas de ônibus e todos de todas as profissões, inclusive os deputados, os juízes e senadores, escritores e produtores de novelas e filmes. E claro, os educadores. Creio que reconhecer tal situação é o caminho para começar a resolver tal questão.

Outro dia, li em uma rede social, uma jovem professora defendendo que a educação sexual deve chegar às escolas quando houver gente preparada para tal tarefa. Se for assim, vai demorar muito, pois a maioria das pessoas casam-se sem saber muito bem o que acontece depois do feliz intercâmbio amoroso. Temos que aprender fazer isso enquanto fazemos. Os professores são parte dessa grande massa que desconhece e pouco reflete sobre o assunto, não podemos ficar eternamente esperando Godot.

Uma das minhas primeiras experiência como professor, ocorrida ainda em 1970, foi em um colégio católico que ainda hoje atende parte da elite daquela cidade. Fui chamado a ser professor de Religião, após o fracasso de três padres (um deles era diretor) nessa tarefa, em turmas da quinta e sexta séries. Era a primeira vez que, naquele colégio, formava-se turmas mistas. Eram cinco meninas e vinte e cinco meninos. A recepção dos alunos não foi das melhores e, durante duas semanas fui vaiado ao tentar fazer a chamada. O diretor de disciplina reclamava, mas eu era a última esperança deles, parece. Finalmente, quando consegui terminar a chamada, perguntei o que desejavam estudar, o que eles desejariam aprender, eles gritaram uníssonos: SEXO. Logo pedi que eles escrevessem perguntas para serem respondidas, debatidas nas aulas. Assim fomos conversando sobre os assuntos que eles desejavam, as questões de suas vidas naquele momento. Não foi fácil. Na primeira reunião de pais e mestres, fui acusado de estar “ensinando safadeza” a filhos de advogados, professoras, médicos e outros assemelhados. Eles não tinham intimidade com os filhos para conversar sobre os temas que eram a angústia deles. Continuo achando que eles não sabiam do que se tratava. Foi difícil, mas terminamos o ano e vários problemas foram resolvidos por conta de nossas conversas. Aprendi que deveria estudar o assunto que era interesse dos meus alunos. Meus pais não haviam me dado orientação nesse afair, não sabiam; também as escolas que frequentei nada me ofereceram nessa parte de minha formação, pois esse era um tema proibido em todos os espaços sociais, exceto nos espaços escondidos e proibidos, onde os que nada sabiam iam falando e se auto-formando. Os professores temos que aprender ensinando e ensinar aprendendo. Não carece ter medo dessa conversa por questões religiosas, pois a religião é o cuidado da alma e do corpo, pois o ser humano é assim, corpo e alma, dizem os religiosos.

Há que se superar o século XIX, vitoriano, e o século XX no que ele manteve do século anterior. Uma vez um religioso contou-me a seguinte imagem: “a mulher é a fonte da vida, a água límpida e pura; o homem é o barro forte que constrói e mantém a firmeza; são belos até que se tocam, pois então surge a lama.” São pensamentos como esses que tornam desgraçada a existência de milhares de homens e mulheres, vindos de sociedades montadas pelo medo, o medo de viver, de achar bonito o encontro de homens e mulheres, o encontro dos sexos de maneira consciente e responsável.

Vez por outra encontro aqueles meus alunos, com os quais pude conversar sem medo sobre as suas vidas, e eles estão felizes e deles recebo carinho e respeito. Mas isso é apenas resultado de tê-los tratados como seres que precisavam de conhecimento, de compreensão, pois o conhecimento sem a compreensão gera monstros, como os descritos em tantas novelas do século XIX e vividos nas guerras do século XX que nos chegam ainda hoje, pois, como dizia um certo alemão “ainda estamos no alvorecer da humanidade”, ainda não nos conhecemos, não nos amamos, somos estranhos em nossos corpos. E é isso, lamentavelmente, que contemplamos nas religiões, – sacras ou civis – com padres, freiras, pastoras, pastores, babalorixás, yaralorixás, monges, xamãs, pais de santos e outros que utilizam a religião para escravizar, quando deviam auxiliar a trilhar na direção da felicidade.

Somos chamados a superar os medos, e apontar para os futuros pais como auxiliar seus filhos a viver com alegria a totalidade de suas vidas.

Promessas e expectativas no primeiro dia de uma nova tentativa republicana

Parte dos anos que vivi está ligada à assessoria à Igreja Católica, com um hiato na formação de padres. Aprendi muito naquele período pois, embora leigo, estive na borda do mundo clerical. Somos muitos com essa experiência de fronteira. Hoje, dia em que Jair Bolsonaro toma posse, vem-me à memória alguns comentários que ouvi de Dom Augusto Carvalho, bispo de Caruaru, cidade do Agreste de Pernambuco. Nascido no ao de 1917, no município de Floresta, Sertão pernambucano, Dom Augusto vivia com simplicidade, cuidava da educação; comprou o Colégio Caruaru e o tornou colégio diocesano, fundou a Faculdade de Filosofia de Caruaru. É apontado como o bispo que mais ordenou padres no Nordeste. Recordo que, em uma de nossas conversas sobre seus seminaristas, disse com um riso sério a um deles, que veio a ser ordenado: quando nós perguntamos se vocês prometem que vão ser obedientes a quem os ordena e aos sucessores, sempre dizem que sim, mas, com o tempo. alguns esquecem que prometeram.

Desde que nasci o Brasil foi governado por duas dezenas de presidentes, entre os provisórios, os ditadores, além de uma Trinca que, segundo Carlos Imperial, se revezava até à posse do general Médici. Todos eles seguiram o ritual de jurar respeitar e fazer cumprir a Constituição. Alguns tentaram golpes (Carlos Luz, Jânio Quadros); Raniere Mazilli bisou a presidência sem ter sido eleito, pois a assumiu antes da posse de João Goulart e depois de sua deposição; todos os generais ditadores, que se autodenominaram presidentes, juraram ser fiéis à Constituição enquanto namoravam com Atos Institucionais, nos fazendo lembrar famosa canção do Rei do Brega, Reginaldo Rossi, em que mencionava uma noiva que “vai trair o marido em plena Lua de Mel”. José Sarney, como Castelo Branco, assumiu o cargo com uma Constituição,mas com o compromisso de promover a feitura de outra, e quando foi jurar que iria respeitá-la, sua mão tremia, e era um tempo em que era bem mais saudável. Seu sucessor, Collor de Mello, estuprou a Constituição, realizando o que dizia que seu oponente faria: tomou a poupança da população fazendo o oposto do juramento. Itamar Franco acordou com seu Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, promover algumas modificações na Constituição de 1988 (longa e ainda não regulamentada) com o objetivo de diminuir o Estado para fazer crescer a sociedade, como se dizia então. Desde o fim da Ditadura que assistimos a utilização das Medidas Provisórias, muito além do que é permitida pela Constituição. Normas constitucionais parece que foram criadas para favorecer alguns grupos e, tendo sido assim, aqueles que auxiliaram fazer a Constituição, mas que só a assinaram por exigência protocolar (não assinaram por convicção) não titubearam em promover pequenas alterações para implementar programas que não havia´m sido debatido por toda a sociedade. O caso da manutenção dos direitos políticos de um presidente afastado legalmente é emblemático. Assim vem sendo a prática: promete-se para não cumprir, como dizia o bispo de Caruaru.

Assistimos hoje mais uma posse, mais juramentos, mais explosão de esperanças por uma parte da população, enquanto outras estão desejosas do fracasso da administração que hoje começa e, um terceiro grupo cultiva expectativas que sempre chegam acompanhadas de desconfianças. Sou desses últimos que não conseguem ver militares (grupo treinado para mandar e cumprir ordens), tipo especial de clero, de gente separada para ser protetora de um povo, mas que não vive a vida do povo que diz proteger. Vivi o tempo de sua dominação, dos seus “presidentes”, mas também conheci e sofri a ação de outros “cleros” menores, mas parte daquilo que um marxista chamava de Aparelhos Ideológicos do Estado. O clero quase sempre se transforma em uma Nomenklatura. Por isso sempre estaremos atentos aos que escolhemos para jurarem que vão nos defender. Quase sempre querem nos controlar.