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Aula do dia 20 de novembro: Iluminismo e o dia da Consciência Negra:

O assunto da aula foi Iluminismo, então tomei alguns verbetes do Dicionário Filosófico – Igualdade, liberdade, Preconceito; juntei a bandeira da Revolução de 1817 e nos deleitamos a conversar. Que relação tem isso com a nossa vida e o que o Iluminismo importa para nós, foi o que rolou.
Quando faço esse tipo de aula noto que são poucos os alunos que expressam seus pensamentos. A sala lhes oprime, ou talvez seja eu. Mas o diálogo saiu e à medida que a aula fluía várias lembranças vieram-me, especialmente quando eu disse que esses temas estavam ligados ao que comemoramos, ou devemos refletir em um dia como o de hoje. E então veio a pergunta: que dia é hoje, saído de maneira tão verdadeira, em uma turma que está vencendo 50% do Curso de Licenciatura em História. Olhei para a turma e esperei a resposta que veio tímida e envergonhada: Dia da Consciência Negra.

Aprendi e repito sempre nas aulas que um historiador, aquele que deseja ser historiador deve ler, diariamente o jornal do dia, pois eles nos dizem os problemas do presente, o que justifica a pesquisa no passado para entender como o presente que vivemos foi construído. A pergunta da aluna me fez indagar, internamente: está a terminar o curso de história, já fez todas as disciplinas de História do Brasil; fez o ensino médio e como não sabem o que o dia da Consciência Negra! Porque foi criado tal dia e qual o seu objetivo, tudo isso estava fora da preocupação e conhecimento daqueles estudantes. Parece que certos momentos e temas são coisas de militantes, não de cidadãos. Mas também não sabiam que ontem, dia 19 de novembro foi o Dia da Bandeira Nacional.

Então lembrei que em 1988, quando a professora Edla Soares estava Secretária de Educação do Recife e eu Diretor de Projetos Especiais da mesma secretaria, fizemos ocorrer uma passeata dos estudantes da rede municipal, no dia 13 de maio, para discutir a questão dos negros no Brasil. Naquele ano, Plínio Victor e eu pensamos na possibilidade de criar um memorial Zumbi dos Palmares na Praça do Carmo. Não tem o memorial, mas lá está o busto representativo d Zumbi dos Palmares. E então era a época que começava a nascer e fortalecer o movimento negro em busca da afirmação, o que passava até pela relativização do ato da Princesa Izabel, não da desqualificação. A União dos Dirigentes de Educação Municipal promoveu debate envolvendo professores de 14 redes municipais do Estado – dois dias de estudos no Seminário Cristo Rei, em Camaragibe. E isso muito antes da lei que regulamenta a discussão da cultura afro-brasileira na escola. E meus alunos na universidade, em 2017, ficam surpresos que exista esse dia da Consciência Negra.

Agora reflito que esse desconhecimento é sinal que devemos vez por outra tocar nesse assunto, inclusive para lembrar que somos mestiços, de negros, brancos e ameríndios. Devemos nos esforçar um pouco mais para nos conhecermos, pois se não nos encararmos de verdade, jamais seremos algo além da sombra de um povo que poderia ter sido. Não somos apenas a herança europeia, como não somos apenas a herança africana. Somos as duas, sendo que as tradições europeias tornaram-se fortes, quase única, à medida que procurou impedir a continuidade das tradições africanas e, também destruíram, no puderam, a tradição dos povos que aqui encontraram. O dia 20 de Novembro é para repensar todas essas particularidades que, parece, nossos currículos – os visíveis e os invisíveis – parecem desejar esconder.

Como nos lembrou o professor Marcus Carvalho, na conversa realizada no Projeto Olinda 1817 – 2017, parece que anda estamos longe de realizarmos o projeto dos iluministas dos séculos XVII e XVIII.

O mundo não acabou: nem o de Plínio Victor, o de Murilo Mellins, nem o meu.

O domingo acordou alegre com um sol quente convidando a uma praia que, passou pela cabeça, mas passou tão rápido quanto essa brisa que vem da orla olindense, 3 quilômetros à minha frente. Começo a imaginar e planejar o meu dia, sem o camarão e a ostra que irão à praia sem mim. Outros glutões dominicais terão essa recompensa. Abro o computador e vou verificar se há algum recado, o que pensam alguns amigos e o que alguns disseram do que eu pensei e publiquei antes de hoje. Então tenho uma surpresa: Plínio Victor informa que, alguma instituição informa que o fim do mundo teria sido transferido para o dia 19 de novembro de 2017, que é hoje. É preocupante, pois isso vai estragar todo o planejamento, inclusive os planos de aula que estou pensando para o próximo semestre, e pior ainda, é que eu havia prometido ir à Praça do Carmo para que Isaac possa experimentar a bicicleta que comprei para ele. Como agora já passa das quatorze horas, parece que vão fazer um novo comunicado, nos informando o adiamento e as razões para mais esta frustração. Espero que Plínio, historiador e arqueólgo, garimpe também essa informação para que nos tranquilizemos e possammos continuar a educar nossos filhos e nos educarmos um pouco mais. Especialmente nos quesitos de ser honestos com as coisas públicas e mantermos as amizades, pois sem elas é o fim do mundo.

Enquanto o mundo não acaba, entre uma atividade e outra folheei um belo livro que Claudfranlklin enviou-me desde Lagarto, uma continuação de uma conversa que mantive, copo de uísque na mão, com Murilo Melins. Primeiro contato na Academia Sergipana de Letras. Nossa conversa foi sobre nossas memórias e a dos outros. Murilo escreveu o livro ARACAU PITORESCO E LENDÁRIO, publicado pela empresa Gráfica da Bahia, no ano de 2015. Resultado de coisas que ele viu, coisas que ouviu e coisas que leu nos jornais aracaujenses desde o inpicio do século XX até “os dias que valem a pena serem lembrados”. Uma delícia para os sergipanos e uma apresentação para quem, como eu, vai esporadicamente a Sergipe. Murilo Melins nos põe em contato com a boemia e com a seriedade, com a juventude pretérita, tão irreverente como a de hoje, com o decoro que o tempo permitia. Transcrevo a página 193.

“As mulheres, ou melhor, as esposas julgam também de seu direito de julgar: assim é que, nas mais diversas modalidades do seu vier, ellas consideram os maridos como as diversas coisas com que lidam:
A negociante julga o seu marido a uma factura paga;
A caixeira – uma caixa vazia;
A médica – um doente desenganado;
A Dentista – um dente obturado;
A bacharela – uma execução de sentença in fine;
A agricultura – um terreno que já produziu;
A operária – um salário pago;
A costureira – um vestido que não suporta mais remonte;
A professora – um Quincas;
A telegraphista – um telegrama retido;
A jornalista – um original archivado.

Bem, se vocês lerem essas brincadeiras dos anos 1930, saibam que o mundo não acabou e que aquela era um sociedade machista e sem a doutrina do politicamente correto nas redações.
E citando D. Côrtes, Murilo vem vem com esses versinhos:

Menina da saia curta – Olhe a Atalaia
Saltadeira de riacho – Olhe a atalia
Trepe naquele coqueiro
E bote dois cocos a baixo.

Obrigado Murilo Melins, pela sua memória, por sua pesquisa que mantém Aracaju viva, como Mario Sette fez com Recife de antigamente.

Uma história que descubra os brasileiros.

Uma história que descubra os brasileiros.
Temos graves problemas no ensino, na formação da ideia do que é a nação brasileira. Formamos a ideia da nação desde os primeiros anos da vida, mesmo antes da escola vir a ser parte da existência. Mas para termos conhecimento da nação precisamos saber de sua história. É assim com a família que se torna nossa à medida que as pessoas aparecem em nossa existência. Se não conhecemos os ‘primos’ eles jamais farão parte de nossa história, assim como os parentes que se tornaram distante fisicamente vão, distanciando-se com tempo, de modo a não serem nem mais uma sombra de fotografia na memória. É necessário que se apresente a história do país, da nação se desejamos que a nação exista. Mas o país, a nação, é formado por pessoas.

Fui apresentado ao Brasil de várias maneiras. A lembrança mais antiga, quase apagada, é um desfile na Semana da Pátria que minha tia Djanira, que era professora, fazia no meio do canavial, alí no Engenho Eixo, que ficava na margem do Rio Capibaribe, perto da nossa casa. Depois viemos morar na cidade do Recife, no lugar chamado Nova Descoberta. Era metade da década de 1950. Sou um desses severinos que desceram o Cão sem Pluma. No Ateneu São Tomaz de Aquino, escola mantida por Seu João Batista. Tive ali a apresentação do Brasil, os nomes das pessoas que faziam parte da História do Brasil: Pedro Álvares Cabral, Frei Henrique, Duarte Coelho, Tomé de Souza, Mém de Sá, Anchieta, Felipe dos Santos, Tiradentes, Dom Pedro I, Pedro II, Marechal Deodoro, Rui Barbosa, Getúlio Vargas. Essa foi o primeiro Brasil que conheci, e foi confirmado nas cédulas, no dinheiro que acrescentava outros nomes e ensinavam a história do Brasil mesmo àqueles que não iam à escola. Nas cédulas, além de alguns daqueles que aprendi na escola, havia Duque de Caxias, dom João VI, Almirante Barroso, Princesa Isabel, Santos Dumont. Mesma quando o Cruzeiro mudou de nome (cruzeiro novo), ele continuava a ensinar história, pois aparecia Machado de Assis, Juscelino, Vilalobos, Barão do rio Branco, Mário de Andrade, Câmara Cascudo e outros. Claro que a inflação o período auxiliava a criar cédulas novas com frequência. Depois com o controle da inflação desapareceram os personagens da história e entraram os animais em extinção. Coisas de uma nação que estaria entrando nesse processo.
Bem, um dos problemas que enfrentamos em sala de aula para apresentar uma nova história do Brasil é que sempre tivemos os mesmos heróis nacionais, e, quando os aposentamos, falamos de uma pátria que parece não ter tido gente. Os novos métodos preferem falar de processos e conflitos nos quais as pessoas são secundárias. Começamos a contar, nas salas de aulas, história sem heróis. E começamos a criar novos heróis, novas etnias, mas tudo dentro de um processo que apenas esmaga os homens. Recusamos os heróis tradicionais, aquelas pessoas que fizeram o Brasil; vivemos de achar defeitos nelas, pois só queremos heróis imaculados, esses seres que estão mais próximos dos espaços celestiais que nas vizinhanças humanas.

Examinei um livro didático dedicado aos estudantes da quinta série, era sobre Pernambuco, nele não encontrei o nome de nenhuma mulher nos quinhentos anos de história.(A MULHER NO LIVRO DIDÁTICO DA QUINTA SÉRIE, publicado no livro Marcadas a Ferro). As crianças de Pernambuco começam a aprender que não há mulheres no seu Estado. Quando estudei nessa mesma faixa de idade, aprendi sobre as Mulheres de Tejucupapo, mas elas deixaram de ser assunto escolar. Estuda-se tanto processos e teorias nos cursos de História que o professor vai para o ensino fundamental apenas com ideias. Muito raramente estudamos alguém e, definitivamente, é quase impossível ouvir nomes populares nesses cursos, exceção feita a Antonio Mendes Maciel, o Conselheiro; Antonio Virgulino, o Lampião. São exceções. O povo brasileiro é exceção nos cursos de História. Estudam-se mulheres, trabalhadores, negros, etc., estudam-se processos, conceitos.

Nestes últimos anos voltaram a aparecer biografias, a princípio de movimentos sociais (eu escrevi duas: Maracatu Estrela de Ouro de Aliança, a saga de uma tradição, e Pretinhas do Congo, uma nação africana na Jurema da mata Norte) e agora de pessoas. São produções que irão enriquecer o vocabulário dos professores. Quero citar o livro de Jorge Caldeira: 101 BRASILEIROS QUE FIZERAM HISTÓRIA, publicado em 2016 pela editora Estação Brasil. Ele começa com Afonso Ribeiro, o primeiro português a por os pés em terra brasileira, uma biografia de uma página- o mesmo para cada pessoa (Caetano Veloso, Jerônimo de Albuquerque, Brites de Albuquerque, Fernanda Moontenegr), alguns recebem meia página (Felipe Camarão, André Vidal de Negreiros, Leopoldina), poucos recebem mais que uma página (Pedro II, Rui Barbosa, Tarsila do Amaral, Getúlio Vargas). Convido os professores a comprarem esse pequeno dicionário de brasileiros que importam para a formação do povo brasileiro e do Brasil.

Nesta época que estamos em procura do futuro, é necessário olhar para o passado e verificar que há outra história além daquela que a elite imperial, reunida no IHGB, definiu a ser contada, definição mantida pelas universidades.

O que devemos a Lutero e à Reforma por ele iniciada

O QUE DEVEMOS A MARTINHO LUTERO E À REFORMA POR ELE INICIADA
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

1. Introdução

O 17 parece ser um número cabalístico, é formado pelo 1, a unidade, a que somos chamados a construir e, o 7 que um número perfeito, segundo os que entendem desses mistérios, pois é a soma de duas trindades e ainda a unidade.
Quando olhamos as datas ou anos terminados em 17, sempre encontramos alguns acontecimentos que consideramos marcantes para nossa vida nesta civilização. Só para lembrar, foi em 1817 que em Pernambuco ocorreu um movimento contra os abusos das cortes de Lisboa/Porto e do Rio de Janeiro. Apontavam os líderes daquela revolução o caminho da liberdade e da independência do Brasil. Se o desejo era grande, as forças repressoras estavam atentas e capazes de aproveitar as fissuras existentes na população e na liderança. O sonho de liberdade foi sufocado, mas o da independência continuou ativo em outubro de 1821 (Convenção de Beberibe) para, finalmente, após muitos acordos entre os que se opuseram ao sonho liderado pelos pernambucanos, ser realizado em São Paulo e Rio de Janeiro, no ano de 1822. Outra lembrança envolvendo o 17 é de um século passado na Rússia, enquanto o mundo vivia em guerra, uma guerra que apontava o final de uma época civilizacional. Em outubro de 1917, ocorreu a revolução bolchevique que veio a tomar forma e influenciar a vida do século de tal maneira que um historiador resolveu marca-la entre o seu desabrochar e o seu morrer.
Mas hoje não estamos aqui para conversar sobre revoluções que, explicitamente lutaram para tomar o poder e exercê-lo de maneira a impor um projeto de sociedade política. O 17 que nos interessa neste encontro ocorreu faz quinhentos anos, assim nosso tema está ligado ao dia 31 de outubro de 1517, véspera da festa de Todos os Santos. E hoje estou aqui por iniciativa de alunos para um evento universitário que deveria ter sido eu, como professor da disciplina História Moderna, a provoca-lo. Sentimentos vários me desestimularam a tomar tal providência. Mas, nós sabemos que a vida não espera, ela apenas acontece e nos envolve e, se formos sábios, nos envolvemos nela para que tenha sentido o que fazemos. Agradeço o convite e espero responder ao desafio que juntos nos propusemos.

2. Base da experiência de Martinho Lutero

Reunímo-nos aqui, hoje, para conversar sobre um movimento que teve início na inquietação de uma alma em busca da felicidade que, em seu pensar, não ocorreria neste mundo da política, da economia, e sim no momento após a morte, no encontro com a divindade, após tê-la vivida de acordo com a sua Palavra. Não nos encontramos aqui para conversar sobre a certeza de um homem e de um movimento, mas para conversar um pouco sobre a fé de um homem e o que ela veio a provocar no seu mundo, assombrado pela fé e pelo medo.
É muito difícil conversar sobre este tema: a certeza de um homem religioso, como o eram todos os homens e mulheres do seu tempo, o século XVI, uma época que não começava a não se animar muito com certezas; estava a chegar a compreensão de que se vive em um universo de mudanças constantes (era o tempo em que fizeram descobertas de novas terras, novas gentes, novos bichos, muita coisa nova aparecia) e, que, intuíam, poderia ser diferente, e se tornava diferente a cada momento; e a cada decisão era definitiva, pois que não havia como voltar e recompor o que já havia sido realizado. Estava sendo construído um novo mundo, o das certezas provisórias. Pois bem, esse mundo que de tudo começava a duvidar é construído em parte com a certeza que o padre Martinho Lutero encontrara.

3. Martinho Lutero e o medo do Pai

Filho de um mineiro que avançava socialmente, Martinho foi enviado a estudar Leis; seu pai o queria advogado, profissão que iniciava uma trajetória de sucesso, e hoje é tão importante; uma importância que só cresce desde que os papas e reis começaram a buscar nas leis romanas as justificativas para seus poderes. Por outro lado, a parte da sociedade que começava a constituir-se como classe para si, a burguesia, também carecia desse especialista em leis, pois eles haveriam de defendê-los das pretensões dos príncipes, pretensões às vezes, ou quase sempre, absurdas, pois que vinham de tempos passados, de outras sociedades e de outros desejos. Contudo, o medo e a religiosidade indicaram outro caminho ao jovem estudante das leis. Uma tempestade, o temor de morrer sem estar pronto para o encontro com Deus, o fez prometer a Santana (pois que assim deram a chamar a mulher que teria sido a mãe de Maria, a mãe de Jesus) que, se saísse vivo daquele instante que lhe parecia ser fatal, dedicar-se-ia à religião, entraria em um convento. Santana o atendeu, o raio não lhe atingiu, e ele, sem consultar seu pai, apresentou-se no convento dos monges agostinianos e solicitou ser aceito. Era o ano de 1505. No ano de 1507, Lutero foi ordenado padre, começou a estudar teologia e veio a ser reconhecido como doutor em teologia no ano de 1512. Fez uma viagem a Roma, o centro do mundo religioso, e decepcionou-se com o que viu, embora tenha comprado uma indulgência. A visita ao espaço onde julgava que iria encontrar a tranquilidade para a sua alma, deve ter-lhe aumentado as dúvidas que ainda não conseguia externar.
Continuou a estudar e exercitar virtudes e controle. Estudando para as aulas de teologia bíblica encontrou a solução para suas dúvidas internas sobre a sua salvação.

4. O medo construído

Essa era, e é ainda, a busca de todos os cristãos que se sabem pecadores e que buscam, através de sacrifícios e penitência, a certeza de que seus esforços são aceitos por Deus, o pai de todos. Mas esse é um pai parece ser muito rigoroso, como o pai de sua experiência terreal.
Ao longo do período que chamamos de medieval, a motivação maior dos cristãos parece ter sido o medo. O sentimento do medo do castigo eterno foi, maior que o sentimento e a certeza do amor de Deus. As pestes que assolaram os feudos e os núcleos urbanos no século XIII foram explicadas pela ira divina por conta dos pecadores que não arredavam de seus pecados. A morte era entendida como um castigo, especialmente para os que morriam em pecado. Daí as devoções populares em busca de garantia de que sempre haveria um padre na hora da morte. Nesse contexto cresce a oração da Ave Maria que termina pedindo proteção “na hora de nossa morte”. Podemos verificar esse temor na Divina Comédia escrita por Dante Alighiere, com a descrição dos sofrimentos das almas no inferno, de onde há saída, ou no purgatório, enquanto antessala do Paraíso. Encontramos esse medo de um Deus juiz impiedoso também nos contrafortes que sustentam as catedrais góticas, na canção Dies Irae (Dia de ira) ou ainda nos afrescos que Michelangelo Buonaroti colocou na Capela Sistina retratando o Juízo Final. Como disse acima, foi em um rompante do medo que ocorreu a decisão de Martinho abandonar a vida comum para entrar na vida religiosa. Não foi com alegria que o jovem estudante Martinho Lutero se entregou para o serviço de Deus. E, mesmo como religioso, como sacerdote celebrante, ele não conseguia a segurança de que estava fazendo aquilo que garantisse a sua salvação, embora se dedicasse com afinco à vida religiosa. Então, seus estudos, suas pesquisas o levaram à compreensão que sua salvação dependia não do que viesse a fazer, mas da aceitação plena da Palavra que lhe era endereçada gratuitamente por Deus. Como ensinara Santo Agostinho é necessário crer para entender. É a fé, não razão que leva à salvação; é a aceitação gratuita do que de graça se recebe.

5. Vencendo o medo – a liberdade que conquista o leva à ação

E é a compreensão, a aceitação da palavra que o faz livre do medo. E, sem o medo a tolher-lhe os pensamentos, avança a sua a exegese e a teologia bíblica na direção da base agostiniana. Livre, então, é que podemos imaginar andando, no dia 31 de outubro de 1517, segundo a tradição, caminhando em direção da igreja do castelo de Wittenberg e, em sua porta, afixar 75 teses, dispondo-se a debater alguns costumes e práticas religiosas; quer debater publicamente algumas afirmações plenamente aceitas pelas comunidades, mas agora ele as quer por em debate, em dúvida. Sente-se livre para afrontar as autoridades que dizem falar em nome de Deus, que se interpõem entre Deus e o povo, um povo amedrontado, como ele havia sido até então, um povo que acreditava em tudo que aqueles arautos da divindade diziam. E estavam sob esse domínio não apenas o povo simples, mas os senhores feudais, os que tiravam proveito do medo e da religiosidade disseminada por essa ‘pastoral do medo’, como veio a definir Jean Delemeau
Outra tradição diz que o escrito do professor padre Martinho Lutero teria sido levado por alunos para uma oficina gráfica, reproduzido e distribuído, alcançando um número maior de ouvintes e leitores. O certo é que as teses para debate foram enviadas para o Arcebispo, talvez não tivesse sido afixado na porta da igreja do castelo exatamente no dia 31, pois esta é a data da carta dirigida para Alberto da Saxônia. Mas essa é a data que marca a assumpção da verdade que o libertava. De qualquer forma, não era apenas um exercício acadêmico que o professor padre Martinho Lutero desejava; ele não está disposto apenas a fazer comentários sobre um tema, caminhar um roteiro já conhecido e repetido escolasticamente. Na carta enviada ao Arcebispo ou na folha pregada na porta da igreja e retirada por alunos para que fosse reproduzida estava a certeza de um homem que havia encontrado Deus. Ele estava a fazer uma afirmação de fé, uma fé que se apresentava diferente, capaz de desafiar as autoridades, fossem elas religiosas ou seculares. Assumindo ser possuidor de uma verdade, ou da verdade, um indivíduo se apresenta para proclamar sua crença e põe em questão todo um sistema de poder.

6. O Ato de Martinho Lutero é compreendido e aceito e rejeitado

E, como o medo da perdição eterna era comum aos contemporâneos, Lutero foi por eles entendidos. As proposições postas por ele eram a representação de suas angústias no ‘vale de lágrimas’ de suas vidas. Foi compreendida e aceita pelos mais simples camponeses, pois que diante do vendedor de indulgência, viam a sua salvação e de alguns de seus parentes queridos, lhes serem negadas porque lhes faltava algum dinheiro para retirá-las do purgatório; foi compreendida pelos nobres proprietários de pequenos feudos, endividados no choque de uma época em transformação; foi compreendido pela alta nobreza que fez dele seu porta-voz diante o papa e o imperador; foi compreendido pelos que sofriam com a obrigação do Óbolo de São Pedro, transferidor de parte da riqueza para as construções romanas, diminuindo as perspectiva do comércio nas terras alemãs.
As palavras que o monge agostiniano dizia sobre a salvação da alma foi, também a solução para muitos problemas materiais; ela libertava camponeses da obrigação do pagamento das taxas às paróquias, aos conventos e mosteiros; suas palavras aliviavam os comerciantes da maldição que a cobrança de juros implicava; os cavaleiros, nobres sem terras, perceberam que poderiam ficar com algum pedaço das terras dos conventos que estavam sendo abandonados ou esvaziados pela fúria dos camponeses; e os nobres podiam perder muitas obrigações tradicionais.
Usando linguagem comum, o professor da Universidade de Wintterberg resolveu não falar apenas para seus pares – clérigos e professores perdidos nas regras e estatutos de suas instituições -, mas falava e escrevia para seus contemporâneos na linguagem que eles entendiam. As Teses, escritas inicialmente em latim, foram rapidamente postas em língua comum. Assim seus escritos, sua carta para o arcebispo Alberto da Mogúncia tornaram-se, na expressão de Cazuza, um “segredo de liquidificador”, e seus temas tornaram-se razão de muitas conversas, entre os membros das elites, mas também no povo comum, os artesões, os comerciantes, os camponeses. A liberdade do padre agostiniano contagiava os alemães. Seus sermões esclareciam que todos eram sacerdotes e todos eram livres e capazes de compreender ou viver o Mistério. Os sermões por ele proferidos eram reproduzidos e espalhavam-se por todos os recantos da Alemanha.
Lutero foi o primeiro grande sucesso da mídia moderna, o livro, o panfleto. Essas são as marcas do novo mundo que se forma, um mundo que a palavra é ouvida e lida. Os sermões, os discursos agora podiam alcançar mais que os ouvintes que a nave de uma igreja pode receber: o mundo tornava-se um grande auditório, uma sala de leitura. Sem afastar-se de sua cidade, Lutero alcançou o mundo, e em pouco tempo veio a ter seguidores em vários países e continentes. A liberdade de dizer o pensar, apesar de sua crítica ao Livre Arbítrio de Erasmo, o humanista reformador cerebral sem as vísceras luteranas. A liberdade erasmiana era reacional, a liberdade luterana era emocional. Erasmo quis e fez uma reforma, Lutero quis uma reforma, fez uma revolução.

7. Afirmação do indivíduo e das nações
O gesto de Martinho Lutero, quase perdido na periférica Wintterberg, veio afirmar, embora não fosse esse o seu objetivo, o poder que um indivíduo pode assumir no processo histórico desde que esteja concatenado com os anseios de seu tempo. Essa relação íntima entre o indivíduo e a sociedade que tornou histórico e revolucionário o seu gesto. Lutero quis propor algumas reformas, alguns ajustamentos de conduta, algumas modificações no que era ensinado de modo que a pregação não se afastasse tanto da realidade que viviam os cristãos até então. Entretanto, o que foi produzido foi uma verdadeira revolução nos conceitos de vida social. Ninguém é dono do seu gesto se o gesto é público. Afirmando como sacerdote todos os batizados, ainda que não houvesse recebido as ordens sacras, ele elevou todo o povo ao sacerdócio, ou melhor, ele retirou o odor divino que os padres, os monges, os frades, os religiosos carregavam; assim foi quebrada a estrutura que mantinha parte da sociedade afastada dos bens sagrados. Os gestos ‘sagrados’ são de todos. Na busca do divino Lutero aponta para a dessacralização do mundo. Buscando explicar que a aceitação da graça concedida por Deus a todos os homens escolhidos, Lutero aprofunda a Devotio Moderna, a oração do fiel diretamente com Deus, uma conversa amigável entre dois indivíduos, um deles desejando ser parte do Ser. Esse indivíduo não mais recua na defesa de sua fé, ainda que isso possa causar-lhe aborrecimentos. Mas esses aborrecimentos sentem os nobres alemães, conclamados por Lutero, não para defender-lhe, mas para defender a Igreja, para defender a fé.
Essa liberdade de Lutero diante dos poderes e poderosos da religião e da Igreja põe a perder uma tradição milenar (1522) da nobreza e põe em risco a autoridade da grande nobreza e do próprio imperador que junta soldados e domina a rebelião da nobreza alemã. Em seguida (1524) os camponeses levantam-se em busca de reconhecimento, e são acompanhados por presbíteros que seguiram Lutero, mas que foram além do que era possível ao monge agostiniano. Foram muitos os que morreram em busca da igualdade, sem o esperado apoio de Lutero. A grande Revolta dos Camponeses e sua repressão fizeram surgir o zelo luterano pela autoridade, veio a necessidade de polir o exercício da liberdade. Lutero abrira um caixa que servia a essa entidade perigosa chamada “todo mundo”, esse que ninguém sabe quem é ou onde mora. ‘Todo Mundo’ escapa do poder, pois ‘todo mundo’ é um indivíduo coletivo. As esperanças apontadas por Lutero abriram o que era desejado e reprimido, e uma das heranças luteranas é o fim da grande cristandade para a formação de pequenas cristandades, cristandades nacionais, pois as nações e seus soberanos foram reconhecidos no tratado que garantiu, a cada rei a sua religião em seus territórios (Dieta de Augsburg de 1555). Tem-se a religião do Estado, uma característica do absolutismo.
Aqui começa explicitar-se uma sociedade plural religiosamente, o reconhecimento da liberdade de escolha da religião pelos monarcas e ou pelas municipalidades, a Europa não é mais um continente de uma só tradição religiosa. Haverá disputas e guerras, mas foi o caminho encontrado para o reconhecimento do outro. Começa a construção da tolerância, tem início a rota da liberdade religiosa.
8. É função de a nobreza alemã proteger a religião, diz Lutero. Começamos a viver o tempo da religião do Estado, pois que o Estado garante a religião e esta sustenta o Estado. Mas foi o princípio da liberdade religiosa, essa que vem não da convicção firme como a de Lutero, mas a que faz experimentar a liberdade em relação a uma ordem exterior sob a proteção do príncipe. Os passos dados por Lutero e por alguns de seus seguidores criaram a avenida que levou à formação de sociedades democráticas, após a superação da fase absolutista na qual Estado e Religião formavam pequenas cristandades. Mas, essa relação com o Estado não foi um traçado único, pois que colaborou bastante, segundo alguns, para a aceitação do Nazismo, pois que o sentimento de pertença e pureza parece ter favorecido o amadurecimento do Ovo da Serpente. Mas um seguidor de luterano, Banhoffer, redescobre o caminho da liberdade, com o custo de sua própria vida.
9. Aspecto interessante ocorreu com a arte nos países que adotaram as novas religiões e mesmo naquelas que permaneceram católicas. Foram variados os caminhos buscados pelos artistas da forma, da palavra, do movimento. Houve o esmagamento de tradições populares, o disciplinamento social. Mas vamos deixar esses temas para outro encontro.

BIBLIOGRAFIA:
BRAUDEL, Fernand – Gramática das civilizações. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
BURKE, Peter. A Cultura Popular na Idade Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
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DELEMEAU, Jean – História do medo no Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
DELEMEAU, Jean. – O pecado e o medo. A culpabilização no Ocidente (séculos 13-18). Bauru, SP_: EDUSC, 2003.
DELEMEAU, jean. A história do medo no Ocidente. São Paulo: companhia das Letras.
FALCON, Francisco & Antonio Edmilson RODRIGUES. A formação do mundo moderno. A construção do Ocidente dos séculos XIV ao XVIII. 2ª edição – rio de Janeiro: Elservier, 2006.
LESSA, Vicente Themudo. Lutero. 5ª edição. Rio de Janeiro: Pallas, 1976.
LUTERO e CALVINO. Sobre a autoridade secular. São Paulo: Martins Fontes, 1995.
RODRIGUES, Antonio Edmilson / FALCON, Francisco J. Calazans. Tempos Modernos: Ensaios de História Cultural. Rio de Janeiro: Cicilização Brasileira,2000.

Papa Francisco e Professor Bruno Gomes

E então a semana que acabou nos trouxe interessantes informações sobre a nossa espécie, o homo sapiens. Na linha do tempo que o Facebook mantém para mim, com informações vinda das pessoas que ele define como amigas minha, ou grande público, apareceram alguns destaques, pois que me chamaram atenção.
Quando o cardeal de Buenos Aires assumiu a tarefa de ser o Papa Francisco, escrevi que esse jesuíta escolhera o santo de Assis como sinal de pobreza; mas também ele lembrava o Francisco Xavier, que saiu da Europa para cristianizar – ou ao menos levar a ideia do cristianismo para o Oriente – o sinal para definir-se como missionário; mas ainda havia outro Francisco, o Sales, o educador e organizador de uma parte daquele continente. Nesta semana, jornais repercutiram matéria de jornal britânico que encontrou um papa como o mais odiado dos atuais líderes em ação neste momento. Claro que ele também é muito amado. E este amor e ódio são consequência de suas ações como Pastor Missionário, Educador que não teme ensinar e apontar caminhos (ele sabe que as pessoas estão constantemente ensinando umas às outras) que ele considera certos e parte inerente de suas convicções e de sua Fé. Mas o interessante é que na matéria do jornal ouve-se o murmúrio de alguns a dizer que estão esperando a sua morte para que tudo volte a ser como antes. Essa gente é que jamais aprenderá que o tempo, essa invenção judaica assumida pelos cristãos, jamais será de novo, jamais ocorrerá novamente. Mas pudemos ver que há ódio na corte papal. E é um ódio militante contra a renovação de estruturas; ódio que milita contra a renovação da cúria, pois o papa está a colocar fora do núcleo do poder os que entendem-se com o direito de lesar a fé dos seguidores do cristianismo católico; E esses mesmos não gostam da orientação que o papa vive e ensina: não devemos acumular bens, deve-se viver na sobriedade da pobreza, sem apegos aos bens e cargos. Há sempre uma carga de ódio e rancor contra quem pretende agir e age para que a vida seja vivida com dignidade, sem ofensa aos demais membros da sociedade.
Outra situação que nos toca mais diretamente foi a tentativa de cercear o direito de a liberdade de assistir a um filme, nos espaços da Universidade Federal de Pernambuco. Um grupo de jovens estudantes da UFPE, dizendo que querem nos garantir o direito de sermos livres, resolve nos adotar como crianças indefesas, decidiram agir para nos proteger contra o fascismo. Nesse esforço fecharam o corredor de saída do prédio por onde passariam os que foram assistir ao filme. Claro que houve choque, troca de insultos e pancadas. Os dois grupos bateram e os dois grupos receberam pancadas. Na rede social também apareceram expressões como ‘vocês vão morrer’, ‘é necessário forma uma brigada contra esses fascistas’, ‘vão morrer todos’ e outras expressões com a mesma intenção: usar a violência e a morte como caminhos para garantir a liberdade. A violência que cala que diverge e a morte do divergente, o que trará paz para o sobrevivente: a paz dos cemitérios.
E se cito esses dois casos, é que, para mim, eles estão relacionados com as guerras – as declaradas e as que são vividas à surdina – que são nossas contemporâneas. O discurso de morte, o desejo de matar como solução dos problemas tem crescido, dizem alguns para quem a morte é um acontecimento distante em sua vida diária. A morte sempre ocorrerá com os outros, por isso eles a desejam tanto, como se essas mortes fossem a certeza de sua imortalidade.
Também chamou minha atenção a postagem do professor Bruno Severo Gomes que conta a sua luta pela vida na UFPE, desde o dia em que assinou contrato. Ele plantou semente naquele dia de sua entrada no quadro docente. E nos conta que desde 2009, no dia 29 de outubro, essa semente conseguiu sobreviver a ações diversas, do jardineiro, dos animais, do caminhão de lixo e mesmo das forças da natureza (um raio), mas ela está viva, como está o seu compromisso com a educação, com a vida. O papa Francisco e o professor Bruno Gomes, cada um a seu modo, cuidam para que a vida viva.

Atos terroristas e nossas escolhas

As manhãs chegam como todos os dias. Não precisam de adjetivos e, o poeta de várias faces nos diz que os adjetivos são inúteis, as coisas são o que são. E, parece, às vezes, as pessoas, o mundo no qual estamos. Atentados terroristas, movimentos feitos para causar terror, aumentar o medo à enésima potência, estão a cada dia ao longo da história, ou das histórias. Fenômenos atmosféricos também aterrorizam: enchem de temor as chuvas que não param; os ventos acima dos sessenta quilômetros horários; os trovões que acompanham de muito perto os raios, e os tufões, e os furacões; tudo atemoriza, pois destroem as certezas e nos põem diante do término desta nossa precária e amada existência. Mas o terror maior vem do confronto com o outro que faz lembrar a mim de mim. Vive-se no terror de pegar uma condução, pois poderá ocorrer um assalto, um tiro. Corre-se o risco de morrer quando se vai ao trabalho ou quando dele se retorna. Ficamos à disposição da maldade do outro e, a impotência pode fazer nascer em nós o desejo da morte do outro, assim como ele desejou a nossa, como ele nos colocou diante da morte, da nossa morte. Um terror. E apenas supomos que em nome de alguma causa ou de alguém.

Gostamos de pensar que estamos sempre no caminho correto. Esse pensamento pode nos fazer odiar alguns atos de terror, silenciarmos sobre outros, acariciar alguns. Depende de nossa formação social e cultural; do lugar de nosso nascimento, do deus que nos ensinaram a acreditar juntamente com o idioma que aprendemos enquanto iniciávamos nossa trajetória bípede, ou das crenças que adotamos como boas ao longo de nossa pequena existência. Nos surpreendemos que alguns de nossos vizinhos parecem sorrir em momentos que vivemos alguma dor por conta de algum atentado politico/civilizacional. Como é possível que eles não estejam a sofrer essa dor que sofremos, ficamos imaginando e, na quadra escura do cérebro que não permito acesso a ninguém (lugar que poucas vezes visitamos), desejamos a mesma dor para eles. Vez em quando também eles devem ter essa mesma sensação e desejo.

Após as guerras do século XIX, quando as nações pareciam ter se acalmado com a paz que os cemitérios carregam, os Anarquistas ocuparam as manchetes dos jornais com atos de terror até à eclosão da Guerra de 14. Após a paz concluída em 1946, os nacionalismos africanos e asiáticos abrem, com terror o caminho para suas autonomias políticas e redesenham os mapas tão geometricamente montados na passagem dos séculos XIX e XX. Os humanos estão sempre a descobrir que outros caminhos são possíveis e outras realidades podem ser construídas. A tensão parece ser parte vital da vida, e sua explosão nos atinge de muitas maneiras e, em nossa defesa, reagimos da forma que nos permita viver. Reagimos fisicamente quando a bomba, o assalto é bem próximo do nosso local; reagimos ideologicamente quando o assalto é sobre o nosso modo de viver, a nossa civilização, ou daquela que desejamos viver. Às vezes medo exposto, às vezes alegria contida; às vezes tristeza quase infinita às vezes alegria similar. Cada ato terrorista nos confronta com nossos sonhos, com nossos desejos.

Sim, somos todos seletivos. Negar isso pode nos tranquilizar, mas não nos torna, nem nos tornará, seres universais, ainda que usemos palavras escolhidas para nos esconder de nossa humanidade atual.