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Cegos condutores e cegos seguidores

Cada geração humana tem construído condições que garantiram a sua sobrevivência e, mais importante, simultaneamente vieram favorecer a geração seguinte. Parece que a princípio esse foi um objetivo individual que, por força do gregarismo a que os humanos são obrigados por conta de sua fragilidade física diante as demais espécies, foi se tornando coletiva. É evidente que a organização do cérebro permitiu a compreensão de que o presente, embora absorva tanto, não é a única realidade para os humanos que, foram construídos com a capacidade de sonhar enquanto dormem e, principalmente enquanto estão acordados. E é a realização dos sonhos da vigília que promoveu o surgimento da cultura, seu crescimento nas diversas partes do planeta. E foram sonhados deuses, cidades, impérios. Em todos o sonho da imortalidade, o sonho de ser como os deuses que sonharam, ou o Deus que os sonhou.

Não morrer, não ser esquecido de imediato tem sido o sonho dos homens e das mulheres, conforme nos indicam as narrativas que sonharam explicar a origem da humanidade. Cada grupo que veio a formar civilização criou os remédios para seus sofrimentos e para alongar seus dias. Aos poucos esses conhecimentos, por conta de processo iniciado na península europeia no século XIV, passaram a ser trocados, comercializados e foram se tornando, ou deviam estarem sendo tornados, algo comum a todos os grupos humanos. Mas valores não são herdados biologicamente, a seleção é feita de outra maneira, é cultural e, um sonho não realizado pela humanidade é a eliminação da cobiça, do egocentrismo. Talvez seja esse o maior desafio da humanidade, pois até as religiões estão carregadas de líderes que pensam com o seu estômago e não no estômago dos demais humanos.

Por não vencer esse desafio, assistimos o crescimento dos corruptos em todos os níveis e sociedades; eles crescem, pois assumiram também os postos de comando intermediários, antes destinados a bajuladores, gente sem siso. Mas compreenderam que gente sem vergonha vende-se a quem os queira comprar, e assim esses cargos estão sendo ocupados por familiares. Vivemos um momento especial, pois assistimos o desmonte de uma das muitas redes de influência e dominação. Essa rede mais jovem está confrontar-se com seus erros, um dos quais foi a corrida rápida para o paraíso. Os mais antigos, que foram seus aliados por algum tempo, sabem que o poder é uma corrida longa, uma interminável maratona. Os seguidores desses aprendizes de senhorio. os viram como redentores e vingadores, pois tudo parecia ser o caminho da redenção, da sinecura que os manteria e aos seus netos. E por saberem dos pobres a partir dos olhares de seus automóveis, descobriram que estão a naufragar com os seus pobres, esses que puseram nesses novos senhores, esses novos ídolos, a sua esperança. Cegos conduzidos por cegos.

Esses cegos não perceberam que após 18 anos do século XXI, quase metade das escolas do Brasil estão sem saneamento básico (isso quer dizer em cagador para os alunos, alunas, professores e professoras). E se há, na maior cidade da América Latina no século XXI, drama semelhante à maior cidade do Brasil no início do século XX, uma endemia de Febre Amarela, é porque os novos senhores agem como agiam os antigos coronéis. Pouco se preocupavam com a sobreviência dos que não podem sobreviver. Os novos senhores e seus cegos seguidores estão dominados pelo mosquito transmissor da cobiça e do egocentrismo.

Nova encruzilhada: Nada será como antes

Costumamos sempre comparar a atual situação do Brasil com a de outros países, seja para nos glorificarmos seja para nos humilhar. Mas a questão mais importante é: o que eles fizeram e nós não fizemos; parece que partimos da premissa que foi apenas porque eles nos exploraram. Talvez não. Talvez eles tenham decidido sofrer um pouco para atingir algo. Talvez eles vieram a construir um ideal comum, ultrapassaram algumas divergências entre si. Nós precisamos confiar mais em nós; devemos ensinar exemplarmente como se deve agir, não em busca de vingança, mas com ações de renovação. Claro que temos uma elite política horrenda no Congresso. Segundo alguns analistas é um dos piores congressos que já tivemos. Mas ele é um retrato nosso, ele não é uma invenção externa, mas foi construída nos últimos trinta anos. Alguns membros deste congresso estão lá desde então. Claro há sempre a questão do passado escravocrata que marca a todos: a uns porque só sabem mandar, e por isso não sabem; a outros que só sabe obedecer, e por isso não sabem o que é obediência. É que os que mandam também não sabem a direção do mando; como não têm sonhos ou projeto para o futuro da nação, cuidam de evitar que haja mudança, pois não saberiam o que fazer se houvesse mudança, pois mandam como mandavam seus antepassados – os mais antigos e os ainda vivos. Os que obedecem apenas fazem o que lhe mandado, pouco interessa em saber o porquê lhe mandam: repetem sempre: “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, frases construídas nas experiências dos engenhos, fazendas, escolas (uma vez um professor me disse após ler um artigo meu: guarde-o ou queime-o, pois embora esteja certo o que diz, há pessoas que não gostarão e você será prejudicado), oficinas, igrejas, sindicatos, partidos. etc. Enveredamos pouco na direção de uma educação, tanto nas escolas quanto nas famílias, igrejas, sindicatos, etc.

Momento inquietante em sala de aula, seja nos ensino médio, seja no superior – minhas principais experiências, embora tenha tido duas anos de prática docente nas quinta e sétima séries -, é quando, professor, faço uma pergunta e, a responda é um silêncio. Necessários vários minutos para que algum aluno balbucie, de modo quase inaudível, uma resposta. Há três pavores nesses silêncios: o de cometer um erro e desagradar o professor, além de ser alvo de zombaria pelos colegas. Este é outra face do comportamento do aluno que, ao receber uma tarefa, uma prova a ser realizada, pergunta ao professor: Como o senhor que se responda. Após essas quase cinco décadas de ensino, verifico que o medo é o principal currículo de nossas escolas: o medo de perguntar por temer passar por tolo; o medo de perguntar por temor de que o professor ache sua pergunta uma bobagem; o temor de ser chacota dos colegas; tudo isso leva ao medo de pensar. Assim as palavras não fluem do pensamento, as palavras calam, o cérebro fica paralisado, nada intenta, desmonta-se pela sedutora ideia de que fazendo o que o “senhor” ou a “tradição” mandar, tudo estará resolvido. Ora, dessa forma aprende-se a escravidão, a servidão. E uma nação não é construída por servos, ela é construída por pessoas que se estimam, que se orgulham dos acertos e das vezes em que o acerto foi buscado. Quando saímos da ditadura cantamos a superação daqueles dias, e nossas ações voltaram-se para o passado (interessante a quantidade de líderes pré 64 que vieram nos salvar do presente de 1985) e não olharam como o futuro deveria ser construído, mas usufruído. Nossa Constituição nos aponta direitos e quase nenhum dever, nos aponta a prazer, como se 1988 no Brasil fosse ainda maio de 1968 na França.

Estamos em mais uma encruzilhada e, mais uma vez podemos fazer a aposta pelo passado acreditando que ele nos aponta o futuro. 2018 não 2002. “Nada será como antes, amanhã,” cantava Milton Nascimento em 1976. A frase continua a valer para os dias atuais Temos que acreditar e agir nessa crença..

Primeira quinzena do ano: problemas antigos; esperanças quase novas

Passaram-se os primeiros quinze dias de 2018, ano do cinquentenário do “ ano que não acabou” e, pelo jeito, este 18 ainda carregará até ao 19 as reformas que o país necessita. É que os deputados resolveram, após a publicação das gravações encomendadas pelo Procurador da República, com o intuito de prejudicar o já frágil governo do presidente Temer, que é bem bom para manter o seu bem bom modo de vida, evitar qualquer mudança, pois descobriram que não são apenas os militantes do poder legislativo que tem a possibilidade de barganhar com a presidência da República. Para alívio de todos os interessados em manter o status quo, ou seja, as suas posições privilegiadas, as reformas pararam e, assim os privilégios serão mantidos. Até mesmo os agricultores que já se aposentam aos 65 anos com um salário mínimo, foram fazer vigília em protesto contra o fim do “direito adquirido” de alguns a se aposentarem antes dessa idade, e terem aposentadorias acima de vinte e cinco salários mínimos. Falou-se que sindicato ligado a auditores fiscais pagaram os dias e noites passados em calçada de prédio público na capital da nação. Após os deputados não darem quórum para a votação da reforma da previdência, foram providenciados transportes para que os camponeses voltassem aos seus campos e às filas da Previdência Social. Os privillégios já estavam garantidos, o povo pode ser dispensado.

Cada vez mais frágil, o presidente Temer já percebe que cruzará a linha de chegada do 19, apesar e com o apoio do Judiciário, especialmente. O que antigamente era a maior Corte de Justiça do país, onde tinham assento os mais competentes juízes e seguros conhecedores da Constituição e dos demais códigos legais que controlam, dirigem e, presume-se, garantem a tranquilidade dos cidadãos. Esses juízes eram (ainda são) indicados pelo pela presidência da República e aprovada, após arguição, pelo Senado Federal. Ocorre que os presidentes eleitos no século XXI inovaram, e preferiram indicar para o colegiado que cuida da garantia da Constituição advogados, especialmente militantes de causas trabalhistas e ligados ao partido dos presidentes eleitos. Parece que foi uma orientação do então ministro da justiça, Thomaz Bastos, que era um criminalista (especialização do Direito voltada para o direito penal e/ou criminal. Como ministro ele indicou para Lula iindicar: Eros Grau, Aires Brito, Carmem Lúcia, Lewandoski, Francisco Barbosa, Dias Toffili.). Parece ter havido uma queda na qualidade do STF, com cada juiz defendendo a constituição dos seus sonhos, o que vem causando pesadelo à nação. Como o mote quase essencial do momento é a transparência, todos podemos assistir em tempo real, o cabo de guerra entre os juízes que, não procuram encontrar uma solução que acalme a nação, mas confrontam-se na exposição de seus egos, vocabulário, cabeleiras ou calvície. Atualmente os juízes do STF parecem advogados de porta de cadeia, sempre argumentando para que o criminoso seja libertado antes de ser preso. Exceto aqueles que afrontaram diretamente seus poderes, julgando-se superiores a eles. Talvez seja interessante lembrar que o ministro da justiça do primeiro presidente eleito no século XXI era cognominado de “Deus”.

Na segunda quinzena deste ano de 2018, assistiremos ao julgamento da sentença que condenou Luiz Inácio Lula da Silva, o que foi presidente. Será um momento tão importante quanto foi a posse do antigo e desatento torneiro mecânico. Em 2003 um brasileiro de origem pobre foi recebeu a faixa presidencial conquistada pelo voto dos que entendiam ser a oportunidade de o Brasil encontrar-se, quinze anos depois, esse operário enriquecido na direção sindical e na articulação política, está pressionando para que sua condenação por corrupção passiva seja revogada. Que falta faz Thomaz Bastos para essa gente!

1968 assinalou uma época de mudanças nos costumes. Como desejamos que 2018 abra o caminho para o fim da neo-nobreza (formada pelos políticos, juízes, setores da administração pública) com o fim do foro privilegiado e outras regalias que garantem a continuidade das desigualdades sociais! Como desejo que a fragilidade do atual executivo federal possibilite mudanças que impeçam a continuidade dessa nobreza que não conhece o povo! Desejo, especialmente, que aumente o número de escolas públicas de tempo integral e que professores gastem mais tempo em sala de aula e na companhia dos alunos e colegas que nos ônibus.

Sobre três portarias e o Patrono dos Direitos Humanos

O Ano de 2017 termina com muitas portarias, decretos e sanções presidenciais. O governo age, a sociedade reage e o governo vê-se obrigado a refazer seus atos. Mas há quem exagere nas críticas.
Recentes portarias e decretos emanados do poder executivo, a exemplo da modificação na tipificação das condições de trabalho análogo ao trabalho escravo, revoltaram a comunidade nacional e internacional, com o objetivo de satisfazer os interesses dos deputados da chamada ‘base ruralista’ (essa portaria veio ser revogada e modificada no dia 28 de dezembro); e o decreto de indulto de fim de ano que chegou a facilitar a vida dos criminosos de colarinho branco, esses que roubam o erário público, absolvendo as multas e diminuindo o tempo de permanência de afastamento da vida social, são a demonstração de que nossa sociedade, tão híbrida vem se relativizando ao relativizar seus valores e comportamentos de maneira tão rápida que não permite a absorção de que existe, sim existe, o mal e o bem. A ética da busca do bem comum vem sendo substituída pela ética do prazer e do ganho pessoal em prejuízo da comunidade. A ação do STF obrigou o executivo a rever seu decreto. Assim é a vida democrática, quando estamos atentos.

Nossa sociedade, com todos os entraves e problemas que carrega, vem sendo construída sob a ética cristã, a qual vem sendo objeto de crítica desde o início do Tempo Moderno e substituída pela ética filosófica. O processo de secularização pelo qual passou e passa a Europa sempre respinga no Brasil, uma sociedade que se faz híbrida, que ainda não se apropriou de todas as suas tradições, e as assume de modo transverso, mais para “inglês ver” que por convicção de si mesma. E, neste ressurgir dos sentimentos religiosos aplastados no percurso do processo histórico, as religiões que vivem o bem o mal se unem ao ceticismo e à crítica da razão. Vive-se o relativismo que não exige muita coerência além daquela que justifique o pensamento atual, ou seja, do momento.
Essa situação não é apenas uma característica de quem está no poder, também está presente no comportamento dos que o perderam e, dos que agem como se não os tivessem perdido.

Na mesma semana da portaria e decreto acima citados, a presidência da República sancionou um projeto que definia Dom Hélder Câmara como Patrono dos Direitos Humanos no Brasil. E, sem surpresa, leio na rede do facebook, postagem de um amigo de longa data reclamando de tal ação do atual presidente; meu amigo e amigo de Dom Hélder, renega o título que foi atribuído a Dom Hélder por iniciativa de uma proposta de um deputado do PPS do Pará e aprovado pela Câmara. A iniciativa não foi do atual presidente, portanto o título não foi dado pelo presidente Temer, mas pela Câmara dos Deputados. Mas o olhar oblíquo de meu amigo esconde isso de seus leitores. Ora, foi Dom Hélder, em 1968, que promoveu a Pressão Moral Libertadora para, entre outros objetivos, celebrar os vinte anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, não para celebrar que estavam sendo cumpridos, mas para alertar o constante hábito de não os respeitar. Assim, o nome de Dom Hélder como Patrono Nacional dos Direitos Humanos, é para nos encorajar a continuar construindo a sociedade para a plena realização desses direitos. Creio que foi essa a intenção do deputado Arnaldo Jordy ao apresentar o seu projeto e que convenceu os deputados a aprová-lo. Meu amigo quer que muitas instituições proclamem que recusem tal título ao Bispo dos Direitos Humanos. Pelo seu pensamento, deveria pedir que se retirasse o título de Patrono dos professores universitários de Santo Antonio e tantos outros títulos que são dados a tantos santos. Fico a me perguntar porque razão Dom Hélder aceitou títulos de Doutor Honoris Causa de tantas universidades norte-americanas, esse antro do capitalismo. Pergunto-me, também, a razão das universidades cubanas jamais terem dado algum título a Dom Hélder. O pedido que meu amigo faz às ONG, na citação que segue:

“Esperemos que o Instituto Dom Helder Camara (IDHEC) se manifeste, que a Escola de Fé e Política Dom Helder Camara se posicione, que a Agência de Notícias Dom Helder Camara da CNBB denuncie e que todos os movimentos sociais gritem contra essa medida e anulem qualquer tramóia que esse governo golpista e insensível aos pobres tenha planejado.”

Em outro texto de sua postagem, meu amigo parece indicar que se fosse Lula que assinasse o documento vindo da Câmara dos Deputados não haveria essa reação histérica. Esquece ele, talvez não saiba, como não o sabem a maioria dos militantes, que Zumbi dos Palmares está no Panteão da Pátria por inciativa do governo de Fernando Henrique Cardoso, e este fato deu alento às causas que ele, meu amigo, e eu defendemos. Faço como dom Hélder em suas meditações onde, segundo meu amigo, ele é citado de modo anônimo como forma de protegê-lo. Não citarei seu nome para protegê-lo de si mesmo. Conheço outros que foram citados explicitamente por Dom Hélder em suas memórias, e foram citados porque estavam necessitados de proteção no momento que tinham seus mais elementares direitos negados pela ditadura.

sobre homenagens que esse atual congresso faz, fico pensando no que meu amigo pensa do titulo que o Senado manteve, o de Paulo Freire Patrono da Educação.
É essa prática de tudo relativizar, de usar os santos apenas em seu benefício que nos está destruindo. Mas, como dizia minha mãe: os padres passam, a Igreja fica; ou como dizia um funcionário público humilhado pelo seu chefe imediato, não concursado mas senhor de um Cargo Comissionado: os chefes passam, a nação fica.

Mistério, Heróis, moedas, futebol e universidades

Quase o fim do ano, quase o fim. O fim da paciência, o fim de tentar compreender que sou insuficiente para aproximar-me do mistério. Tudo parece ser um mistério que a sociologia não alcança, que a filosofia não desconfia. O Brasil virou a Mangueira de Paulinho da Viola: “é um pouco mais que os olhos não conseguem perceber, as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar”. Parece ser esse mistério, mas não é. É uma incógnita, dessas utilizadas por professores em sala de aula com o objetivo de aproximar-se da realidade, essa que os olhos não veem.

Crescido na periferia do Recife, e conheci desde cedo a desigualdade social e a dificuldade que tínhamos para conviver com os conceitos sociais que humilham a maior parte dos brasileiros. Quando queriam nos ofender, nos chamavam de índios. Os que pensavam dominar-nos nos ensinavam a ter vergonha de nossos antepassados que com sua cultura gerou o Brasil. Os livros que eu estudava falavam de heróis formadores do Brasil: Tibiriça e Felipe Camarão eram os únicos índios que nos eram apresentados. Negros, que também me formaram, aprendi mais sobre eles: Henrique Dias, Manuel Faustino, Marcilio Dias, José do Patrocínio, Ganga Zumba e Zumbi dos Palmares. Aprendi gostar de todos. O aprendizado das aulas era complementado pelo uso da moeda. Anos depois aprendi que se dizia ser a imagem o livro dos analfabetos. E o Brasil, por opção dos portugueses e dos brasileiros, é um país de analfabetos.

As moedas ensinavam o valor dos heróis. Nelas não havia nenhum índio, nenhum negro. Eram todos brancos, portugueses e brasileiros. Alguns eram apresentados pelo título que receberam por servir à pátria ou nação, vim aprender seus nomes bem mais tarde. O valor da cédula, pensava, dizia a importância daquele personagem na história do Brasil. Houve um tempo que Getúlio Vargas valia dez e a Princesa Isabel valia cinquenta cruzeiros. Dom Pedro II valia cem cruzeiros e o Barão do Rio Branco era cinco cruzeiros. Na ditadura, a inflação iniciada com Dutra e Juscelino levou Santos Dumont ser Mil Cruzeiros enquanto Tiradentes valia Cinco Mil. No tempo do Cruzado, Villa Lobos chegou a ser Quinhentos enquanto Juscelino não ultrapassava Cem. O fim da ditadura veio acompanhado com o fim dos heróis: na história e nas cédulas. O pessoal leu muito Brecht, especialmente a frase: “infeliz o povo que necessita de heróis”. Tem gente que não gosta dos nossos, mas cita adoidado o pessoal do outro lado do Atlântico. O medo do fim da fauna levou à homenagem aos animais que poderiam desaparecer.

Tem desaparecido muita coisa no Brasil, uma delas é o bom futebol, aquele gerado nos campos de várzeas e nos fundos de quintal, como os bons sambas, entre os anos dez e setenta do século passado. Antes do acirramento do processo de globalização, o Brasil ganhou dois títulos mundiais com jogadores criados nos clubes da terra. O que havia chegado como brincadeira para gente empregada, virou xodó de desempregados ou dos operários, como era na Inglaterra. Depois de setenta começou a era das ‘escolinhas de futebol’ e a exportação de jogadores feitos, pois, como os japoneses fizeram com a tecnologia industrial, os clubes europeus queriam aprender como se faz um Pelé ou Garrincha, ou, na sua ausência um Ronaldinho, pouco importa que seja gaúcho ou carioca. Pagavam o que se pedia, ofertavam mais até. Agora não levam mais os jogadores prontos, preferem comprar, sim, comprar como se compra um animal na petshop, uma promessa de diversão em casa. Os que vão não voltam, pois um país sem heróis e que usa a moeda para mostrar que exterminou espécies animais, não pode garantir a boa vida dos gênios do futebol. Nem eles querem vir. Uma vez li que Zico disse: antigamente havia o desejo de jogar no flamengo, Santos, Fluminense. Hoje o pessoal só pensa em Barcelona, Liverpool, etc. Claro que esses rapazes que são comprados ou alugados, por terem nascido no Brasil, virão fazer parte da seleção brasileira, pois no Brasil já não há jogadores de “nível de seleção Brasileira”, como dizem os resenhadores de futebol nas rádios e televisões. Aqui agora se não se pratica futebol, mas há um esforço para termos os mesmo espetáculos dos hollingans, que eram comuns no tempo em que os times europeus não sabiam jogar futebol com os brasileiros sabiam. Agora eles sabem, aqui não mais.

Coisa semelhante acontece com as universidades. Fazemos um esforço enorme para formar alguns bons estudantes no segundo grau. Cada vez mais esses terminam indo cursar algum curso universitário no exterior. Físicos, químicos, engenheiros e assemelhados para os Estados Unidos, Alemanha e assemelhados. Para a Espanha e França seguem promessas de historiadores e sociólogos. Vivem em ponte aérea. Assim nosso futebol e nossa ciência perde a oportunidade de criar o novo em quantidade suficiente para gerar qualidade. Para tal é necessário investir nas divisões de base e, também garantir a permanência do pessoal local, superando o aristocratismo que só prejudica a todos em benefício de alguns que gostam de lustrar sapatos.

Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães – Olinda

Andar em Olinda, penso que é o mesmo em todas as cidades, é acompanhar o movimento da vida, diversos momentos de tempo e emoções em um mesmo momento. Andar em uma rua e, de repente auxiliar a recolher cédulas de dois reais que um vendedor de loterias, descuidado, não notou o vento que vinha do oceano, viu escapar de suas mãos em direção da avenida em trânsito das 10 horas da manhã. Acontecimento fugaz que fará parte de algumas conversações do dia em algumas das residências ou bares dos subúrbios da cidade, os subúrbios mais pobres, aqueles habitados por gente que anda com as importantes cédulas dois reais nos bolsos. Esse acontecimento dificilmente fará parte dos documentos que estão guardados no Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães, da cidade de Olinda.

Lugar comum dizer que o Brasil, país de fraco cultivo da sua memória, não tem uma política de Arquivo, uma política para guardar cientificamente a sua memória, a memória pública que é construída por todos. No Brasil, os arquivos são como cédulas de dois reais, são muitos os que dela necessitam, são muitos os que andam com elas nas carteiras, e são muitos que deles necessitam para comprovar que são alguém, que são possuidores disso ou daquilo, que são herdeiros de pedaços das cidades. Mas as cidades não cuidam dos arquivos. São poucas as cidade que têm organizados os documentos que interessam aos seus cidadãos.

Ir a Arquivos é uma devoção dos historiadores, ao menos deveria ser. E os devotos cuidam de seus santuários. Historiadores raramente são convidados a opinar sobre arquivos de suas cidades; quase nunca estão à frente dos arquivos existentes, pois eles, quando existem, são moedas de dois reais, de pouco valor para o mundo dos políticos, mas são usadas para acarinhar este ou aquele aliado ainda insatisfeito no butim do estado. Os arquivos públicos são moedas de troca, mas estão sempre entre as menos valorizadas, daí que não haja verbas para eles e, então, não há interesse por eles. Mas são mantidos enquanto não morrerem de inanição.

Este ano de 2017, quando comemoramos o bicentenário da revolução que pretendeu acabar com os privilégios, tornei-me frequentador do Arquivo Público de Olinda, especialmente por conta de um projeto de extensão universitária. Levei alunos para conhecer o Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães; revi amigos, fiz pesquisas e descobri que o Arquivo não está morto, mas está sendo morto. Criado a cerca de trinta anos, atualmente o arquivo conta com três funcionários de carreira, dois comissionados e um exército de cupins ameaçando as paredes rachadas e o piso carente de maiores cuidados. Embora a atual administração tenha posto um olho no arquivo, cuidou da pintura externa e encontrou um funcionário da zeladoria para limpar o jardim ( o que estava sendo feito por funcionários historiadores/arquivistas) não atentou que é necessário fazer concurso para suprir os funcionários que estão em véspera de aposentadoria pois, eles estão desejosos de transmitir aos novos funcionários as informações necessárias para que a população olindense continue a receber os benefícios que um arquivo produz.

A primeira cidade brasileira a receber o título de Patrimônio Mundial, de Patrimônio Cultural, cidade reconhecida pela nação e pela ONU através da Organização das Nações Unidas para a Ciência, Educação e Cultura não pode matar por afixia e desnutrição o Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães.

Severino Vicente da Silva – Biu Vicente, é Professor Associado do Departamento de História da UFPE