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A respeito de Fidel Castro

Nesta manhã de 26 de novembro a primeira notícia que sei é a morte de Fidel Castro. É uma tamanha figura que acompanha quase todo o século XX, especialmente a segunda parte. Podemos dizer que o segundo terço do século foi seu período de formação, com significativa passagem por colégios jesuítas que lhes transmitiram a disciplina pensada por Inácio de Loyola, e que lhe foi tão necessária desde 1950. Um reformador do século XVI forma um revolucionário do século XX.

Historiadores há que definem a História da América latina em Antes e depois de Fidel, pois que, desde o fracassado ataque a Moncada que lhe valeu a prisão e, posterior exílio nos Estados Unidos, nenhum país da América ficou isento de sua influência. Provavelmente o Sargento Batista, quando decidiu libertar o jovem revolucionário para celebrar a sua vitória eleitoral, não imaginava que aquele jovem fosse capaz de seduzir a tantos e que, com um pequeno grupo guerrilheiro, pudesses avançar sobre Havana desde a Sierra Maestra e expulsá-lo de Cuba em uma festa de Reveillon, inventada pela monarquia francesa.

A paixão de Fidel Castro pelos brinquedos que a sociedade capitalista (relógio Rolex, iates, produtos da Adidas, etc.) produz não impediu que desenvolvesse uma paixão pela mudança, pela libertação de seu povo. E ele o fez. E, se no início de sua trajetória revolucionária parecia não atentar contra a ordem capitalista, dois anos depois assumiu a opção pelo seguimento da União Soviética. Desvencilhou-se dos possíveis inimigos em julgamentos sumários e execuções imediatas. Pouco tempo depois caminhou os passos de Stalin, mesmo após o mundo tomar conhecimento de suas façanhas expostas pelo Relatório de Nikita Kuschev. Aliás, foi essa sua aliança com Nikita, no auge da Guerra Fria, que permitiu o enfrentamento com os Estados Unidos da América, com a tentativa de estabelecer bases de misseis a poucos quilômetros daquela potência que comandava o mundo Ocidental, enfrentando a crescente potência socialista do Oriente. Em 1962 assistiu-se, pela televisão, a possibilidade de um embate entre as potências nucleares. Acordos entre as lideranças, Kennedy e Kruschev, distenderam os ânimos. Desde então a Cuba de Fidel foi excluída da OEA e o embargo econômico da ilha pretendeu dominá-la, só não o conseguindo por conta do apoio econômico e financeiro chegada da URSS, além do fato de que alguns países continuaram a comerciar com Cuba
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A chegada de Fidel ao poder coincide com a adolescência de uma geração que começava a cansar-se da ‘felicidade do american way of life’, e de uma juventude europeia que via o processo de descolonização, e alimentava esperanças de ser possível criar um novo mundo sem as mazelas do ‘terceiro mundo’ criado pelas potências colonialistas do século XIX, aquelas que estavam definhando no pós-guerra. Assim, Fidel, ao mesmo tempo em que modificava algumas estruturas do seu país, promovendo a educação das populações, criando caminhos novos para os jovens cubanos, também incentivava a exportação revolucionária, um pouco para se livrar do incômodo argentino que o auxiliara no extermínio dos inimigos dos primeiros anos, era amado por sua coragem de levantar-se contra o Império. Guevara foi morto na Bolívia, sonhando um levante continental (um fracasso de novo, do novo Bolívar) enquanto tropas da socialista Cuba protegiam os campos petrolíferos de Angola. Esses campos que fazem a fortuna dos revolucionários que tomaram o poder após a descolonização.

O temor de uma expansão da revolução cubana na América Latina fez o papa João XXIII incentivar bispos europeus a enviar padres para suprir o histórico déficit de padres; enquanto isso John Kennedy criava o Peace Corps e a Aliança para o Progresso, especialmente pensado para os países abaixo do Rio Grande. Esses movimentos fortaleceram a boa imagem de Fidel como o vingador dos oprimidos da América Latina. O temor de uma possível expansão do comunismo na América do Sul promoveu a fase de ditaduras militares financiadas pelos capitalistas locais em comunhão com as administrações Kennedy, Johnson, Nixon, mas que começaram a decair com a administração de Jimmy Carter. Entretanto, os projetos americanos perderam os corações e as mentes dos seus jovens e dos jovens universitários latino-americanos. Esses, influenciados por Sartre, não consideraram o Relatório do Secretário Geral do Partido Comunista da União soviética e, da mesma maneira, talvez por costume e não por reflexão, anos depois não perceberam a Queda do Muro de Berlim. Convenceram-se que apenas ocorrera a traição de Gorbachov. E Fidel continuou a reinar como o líder da grande revolução. Afinal, os índices de miséria da maioria dos países da América Latina fazem um grande contraste com o que a economia cubana conseguiu, financiada pela URSS, na educação e na medicina. Após a Queda do Muro, manifestação simbólica do fracasso da chamada “pátria dos trabalhadores” que decidiu dar “adeus a Lenin”, Cuba só não ruiu por conta das doações do petróleo venezuelano e do Foro de São Paulo, o que permitiu que a sua chegada ao terceiro milênio se tornasse num momento midiático, e apresentar os Estados Unidos como que vergados com Barac Obama, após a interferência do Papa Francisco.

Além dos erros cometidos pelos líderes americanos no trato com a Ilha, ela foi beneficiada pela ação de uma juventude que se mantém com os ideais dos anos sessenta. Cuba é um Woodstock interminável, pois a revolução prometida naqueles anos foi mantida, no Brasil, com livros como A Ilha, de Fernando Moraes e Fidel e a Religião, conversas editadas por Frei Beto. Para alguns setores do catolicismo latino americano a emergência da Revolução Cubana é mais significativa que o Concílio Vaticano II. Pode-se até mesmo dizer que, ao tempo em que ocorreu a dessacralização do catolicismo, foram sendo sacralizadas as figuras representativas da Revolução Cubana.

Em seu depoimento, após o fracasso de Moncada, Fidel Castro emitiu uma palavra que é repetida como sendo uma verdade: ‘ a história me absolverá’. Historiadores sabem que a história não absolve ninguém. Todos os homens que por sua atuação influenciaram a trajetória da humanidade continuam, a cada geração, sendo julgados. E o veredicto nunca é unânime.

Apenas as ditaduras tentam ser unânimes, mas, como sabemos e me disse um dia o compadre Zé Nivaldo, “as ditaduras não são eternas”. Nem os julgamentos da história.

O Domingo é republicano e as praias nos pertencem

O DOMINGO É REPUBLICANO

Meados de novembro. Despreocupado piso na areia da praia de Pitimbu. A algazarra e os sons mais diversos são acompanhados por meus olhos embebendo as cores. Todos os matizes brasileiros, todos os mestiços.

A memória me carrega ao passado. Faço parte desse povo que aproveita os domingos, seus feriados permanentes ao longo do ano, para sair de seus lugares e viver o sonho de expandir seu mundo. Sempre sonhamos com o mar, sempre fomos à sua procura. Foi lá que os portugueses nos encontraram na busca da Terra Sem Males.

Hoje esse sonho parece ser é ofertado pela televisão que tem o programa “estou de folga”, e eles sempre mostram praias. Quem vive pendurado em morros de periferias das capitais ou em cidades distantes do litoral, ir à praia é sonho paradisíaco. Horas de viagem em ônibus fretados, são segundos em direção do sonho, das águas salgadas, ao menos, uma vez no ano, às vezes na vida. É o sonho do adolescente que juntou algum dinheiro e, talvez com os pais, pagará uma viagem até o litoral. Será um dia radiante. Ônibus vai lotado, nele há grande quantidade de ansiedade escondida e exposta nas vozes altas e anedotas nervosas. Sempre há um grupo de rapazes com violão, tambor, pandeiro para que a viagem fique menos cansativa. Duas ou três horas de viagem. Quando a praia é vista grande gritaria. Depois é encontrar um lugar na areia. Enquanto os mais velhos conversam em torno de um litro de Rum Montila e muita Coca-Cola, as crianças cavam piscinas com suas mães e os rapazes jogam bola, exibindo-se para as meninas moças do bairro.

Andando na areia da Praia de Pitimbu, PB, lembro que foi assim que, crescendo na periferia do Recife, eu, ainda menino de 12 anos conheci Tambaú, também na Paraíba. Era um passeio promovido pela Cruzada Eucarística da Paróquia de Nova Descoberta. Em passeio de ônibus semelhante fui à distante praia de São José da Coroa Grande, quase vizinha à antiga Comarca de Alagoas. Outro passeio levou-me à Suape, embora fosse mais comum ir até Gaibú, essas praias do litoral sul de Pernambuco. Foi também em excursões semelhantes que conheci as então distantes praias de Conceição e Janga, em Paulista, além da famosa Ilha de Itamaracá, Ponta de Pedras, em Goiana e Rio Doce, esta última em Olinda.

Como se pode perceber, fui farofeiro e gosto de ver meu povo farofeiro feliz. Claro que nesses domingos, nesses feriados nacionais os moradores dessas praias não saem de suas casas. Não se misturam com esse povo. Esses farofeiros, que trazem de casa suas panelas com o que comerão.

Uma vez, já com filhos, em um belo 7 de setembro, dia comemorativo da Independência do Brasil e simbólico dia da Abertura do Verão, em Pernambuco, me encaminhava para a Praia de Maria Farinha e parei na casa de um amigo. Era uma passada rápida e ele me perguntou para onde eu iria. Ao saber que eu estava com a família indo à praia, ele disse: “vá não, hoje esses negros de Nova Descoberta e Casa Amarela estão descendo dos morros”. Sorri e disse à minha esposa: vamos logo.

Quase não gosto de brasileiros que não gostam de brasileiros. Não me agrada essa gente mesquinha, que quer a praia e o mar só para si. Uma vez, em Copacabana, esperando um ônibus para retornar a Zona Norte, uma senhora me disse: “esse ônibus não, espere o próximo. Depois que abriram esse túnel a nossa vida ficou muito difícil”. Ela parecia com o meu amigo do Janga, apesar de ela ser branca.

Gosto muito dos feriados de verão. Eles são republicanos. O povo toma as praias, ruas e as praças enquanto a pretensa nobreza se esconde nos alpendres de suas casas de praia, esperando a praia no dia seguinte ao feriado, pois o povo brasileiro voltará a trabalhar enquanto ela irá à praia. Você sabe como é: ‘segunda feira é dia de branco”. O domingo é republicano, e o povo não o vive como besta, embora assim o vejam.

Adolescência, história e historiadores

Os recentes acontecimentos da República mostram crescimento do protagonismo de novos grupos sociais, cada vez mais jovens assume-se a responsabilidade para apontar soluções para os graves problemas da humanidade. Nesses últimos cem anos nós saímos da ‘descoberta’ da adolescência para uma situação em que os adolescentes passam à posição de influenciar decisivamente os caminhos que a sociedade deve cumprir.

A princípio a adolescência parecia ser uma fase na qual os jovens adultos ‘treinariam’ e aperfeiçoariam as suas habilidades para a vida social e para assumi-la posteriormente. Vivemos, em nossa sociedade brasileira, uma ascensão do poder jovem que coloca em segundo plano o protagonismo da geração que, por pouco anos, não é sua companheira de adolescência. Os anos sessenta do século passado foram a ponte dessa travessia que, de acordo com a sociedade observada, pode ser uma ponte mais larga ou mais estreita. Mas parece que as diferenças entre as sociedades dependem de como foram forjadas as suas juventudes.

Montesquieu, analisando os comentários da sua geração que reclamava que os jovens estavam destruindo os valores da sociedade, lembrava que os jovens são formados pelos mais velhos, ou seja, eles são a realização, o resultado do processo educativo e formativo que os adultos ofereceram aos jovens. Alguns adultos felicitam-se constantemente pelas ações juvenis, desde que elas concordem com o que eles desejam. E muitos adultos ficam mais felizes porque observam que os jovens são suas cópias, reproduzem os seus sonhos e, por isso não têm tempo, ou possibilidade de sonhar os sonhos de sua juventude.

Lembro que uma vez disse a um jovem padre que animava grupos de jovens que algumas decisões os jovens não têm condições de tomar, mas aquelas que são próprias de sua idade, eles devem assumir a responsabilidade. Claro que eu era, e ainda sou sete anos mais jovens que aquele padre. Então ele disse: quero ver você repetir isso daqui a cinco anos. Minha resposta foi: quando eu tiver 25 anos não mais estarei à frente desse grupo, não mais estarei liderando grupos de jovens. Assim o fiz, embora continue ouvindo e debatendo com os jovens até hoje, ajudando, quando me solicitam a que eles descubram e realizem a sua caminhada. Quanto ao padre, não sei o que fez daquela discussão que tivemos quando éramos jovens.

A vida que temos são os riscos que corremos. Uma vez eu ouvi do professor Potiguar Matos que a História é uma ciência de velhos Os historiadores fazem muitas pesquisas para entender como a história aconteceu. Depois eles refletem e procuram, a partir dos traços e evidências do passado que lhes chegaram, organizam um relato que faça sentido e dizem que o que ocorreu pode ter sido de tal forma. O risco é, depois de algum tempo eles acreditarem que as pessoas do passado agiram exatamente como eles entenderam. E quanto mais jovens, com menos pesquisas, mais os que contam histórias assenhoram-se do passado, e cultivam a certeza do passado. Claro que alguns mais velhos fazem o mesmo, e servem de modelo aos mais jovens. Como cientista o historiador sabe que o seu conhecimento é o conhecimento possível naquele momento vivido por ele; o historiador sabe que a sua explicação do passado é uma possível dentro da corrente que chegou até ele, é uma aproximação. Mas sempre uma aproximação relativa por conta do parco conhecimento que temos e da impossibilidade de voltarmos no tempo. Mas esse exercício da dúvida é sempre considerando os vestígios do passado que chegaram até o historiador. Pensar além dos vestígios é possível, mas então, parece-me, não será mais história. Poderia ser um sonho bonito, ou o seguimento de um sonho ou quimera, o desejo de fazer, hoje, mudanças que os homens e mulheres do passado recusaram no seu tempo. Depois que o leito do rio se forma na longa duração, talvez só a morte do rio, com a construção de uma grande barragem, daria a impressão que poderíamos voltar ao paraíso ou ter alcançado a Parusia. Mas será que ainda seria história?

Outro professor disse que até os trinta anos repetimos o que ouvimos dos professores, depois repetimos o que lemos deles e, só após os quarenta começamos a ter nossa opinião historiográfica. Alguns de meus alunos, ao receber o certificado de conclusão do curso de bacharelado ou licenciatura em história, colocam em seu cartão de visita: historiador.

FREI HUGO FRAGOSO , ofm. Historiador da Igreja no Brasil no final do século XIX

Todos nós recebemos bençãos por amizades e companheirismo, e essas bençãos são maiores quando as recebemos de algum mais velho que, sabiamente, nos ensina a sua grandeza por sua humildade. Li hoje que meu amigo e professor Frei Hugo Fragoso, ofm, foi chamado ao céu. abaixo transcrevo palavras de outro mestre e amigo, Eduardo Hoornaert, que nos fala da amizade e da grandeza do historiador que foi o Frei Hugo.

“Frei Hugo é uma pessoa marcante por sua capacidade de historiador crítico e por suas posturas nada conformistas em termos de análise historiográfica. Não era ‘profeta’ no sentido do irmão Antônio, bispo de Crateús, mas era não menos profético por meio de suas pacientes pesquisas e pela elaboração de uma das melhores análises existentes do catolicismo nordestino, no século XIX e primeira parte do século XX. Seus trabalhos estão espalhados em diversas publicações, entre elas as da Cehila. Deles realço o originalíssimo ‘O vigário Bernardo, reflexo da face do povo teixeirense’ (A Igreja e a Questão agrária no Nordeste, Paulinas, 1986, 81-114) e o não menos original ‘O apaziguamento do povo rebelado mediante as missões populares no Nordeste do Segundo Império’ (A Igreja e o Controle Social nos sertões nordestinos, Paulinas, 1988, 10-53). Realço ainda o capítulo ‘A era missionária 1686-1759’, dentro da ‘História da Igreja na Amazônia’ (Vozes, 1992, 139-209), uma síntese admirável, assim como ‘A Igreja na formação do Estado Liberal 1840-1875’ na ‘História da Igreja no Brasil, século XIX, Vozes, 2008, 4ª edição, 2008, 144-253. Deve haver outros trabalhos que esqueço aqui. São trabalhos de fôlego, que exigem muita pesquisa além de uma boa capacidade interpretativa e criatividade na comunicação.
Hugo Fragoso é um canteiro aberto, um desafio, uma provocação aos que se contentam com trabalhos superficiais, uma semente lançada no chão dos futuros pesquisadores, um religioso exemplar, cujo brilho é interno: ‘omnis pulchritudo eius ab intra’ (toda sua beleza está por dentro), um fiel amigo, um franciscano eterno, ‘além do tempo e do espaço’. Hugo é ‘gente’. Que sua memória nos alimente e fortaleça e nos dê alento para continuar no caminho por ele trilhado.

Eduardo Hoornaert.

Um trabalho pouco conhecido,mas de grande importância para a História da Igreja na passagem do século XIX para o XX, são os 12 Cadernos da Restauração, nos quais estão postas observações de como eram, quem eram, o que fizeram aqueles franciscanos que chegaram para restaurar a obra e congregação franciscana no NOrdeste do Brasil.

Arquivo, biblioteca e prefeitos de Olinda

Arquivos, bibliotecas e prefeitos de Olinda
Últimos dias para o encerramento do tempo eleitoral, em menos de 90 horas a cidade de Olinda definirá quem cuidará dos seus interesses nos próximos quatro anos. Escolher é uma ação difícil para quem nasceu, cresceu e vive em uma sociedade que se fundou na prática da não escolha. É que os escolhidos sempre o foram a partir de apenas um grupo social, uma vez que a maior parte da sociedade não era compreendida, e ainda não se compreendeu, como parte efetiva da sociedade. Os atuais movimentos de cidadania mais parecem agir como estando em uma guerra para construir outra cidade, e não ser parte da atual. Por outro lado, os que criaram a sociedade como local de exclusão, aceitam com dificuldades, ou se recusam a aceitar, a chegada desses novos cidadãos que um historiador chamou de “bestializados”. O tempo chama para a convergência, embora o sentimento mais fácil de seguir seja o de manter as separações, cultivar as indisposições.

No início do século XX havia certo “otimismo escolar e educacional”. Talvez fossem poucos os que, tendo sido beneficiados pelo nascimento e pela possibilidade de receber a civilização iniciada no século XVI, assumiram seriamente que a educação e a escolarização fossem caminhos adequados para a formação de uma nação; talvez por isso, após cem anos do Manifesto dos Pioneiros, ainda temos parte significativa da população do Brasil com dificuldade de entender o que lê, quando o consegue. Mas,também sabemos que os donos do poder sempre encontraram e encontrarão uma maneira de ali manter-se. E na civilização iniciada na Europa do século XVI, a capacidade de ler e escrever são fundamentais para viver, integrar-se e escrever a sua história. Escrever a história implica em fazer decisões, assumir a liberdade, construir-se. E, contudo, quem sempre recebeu tudo, em quantidades, pequenas ou grandes, nunca escolhe o que recebe e tem dificuldade de escolher o que quer. Uma sociedade que nunca conversou, debateu sua vida, quando conversa, por falta de treino, chega rapidamente ao final da conversa. E, como dizia aquele politico, exímio na arte de conversar: quando acabam as palavras as armas aparecem. Alguns continuam pensando que gritar é conversar, que agredir é debater. Mas isso é decorrência da falta de prática, da ausência do conhecimento histórico da sua formação e da formação gente. Apaixonados não se conhecem, apaixonados sentem paixão. E as paixões podem levar a amores quando refluem, mas também levam aos ódios, especialmente aos ódios sociais.

Nos primeiros tempos da vida humana o conhecimento era guardado no próprio homem e a transmissão só podia ser realizada pessoalmente. E quando morria um detentor do conhecimento desaparecia uma biblioteca. Por isso, desde as tabuinhas de argila que as sociedades entenderam que para se ter o conhecimento é necessário local para guarda, é necessário algum arquivo, e foi o que fizeram todas as civilizações, cada um utilizando o suporte que lhe era possível no seu momento histórico. O conhecimento cresce em tal velocidade que é impossível para uma só pessoa guardar e proteger as tradições. Bibliotecas e arquivos foram criados pelas sociedades e, no mundo ocidental as bibliotecas e arquivos, pessoais ou coletivas, cresceram em número desde a invenção e aperfeiçoamento do livro. Arquivos e bibliotecas são sinônimos de civilidade, civilização.

Vivo em Olinda, uma cidade que a UNESCO reconheceu como sendo parte do Patrimônio da civilização, por representar em sua arquitetura e maneira característica de organizar-se com o físico ao seu redor. Até possui um Arquivo Público para guardar a história e sua memória. Entretanto, seu Arquivo histórico não é levado em consideração pelos que se oferecem para gerir a cidade. Seus governantes,os prefeitos, não conseguem, nem parecem querer compreender o todo, governam apenas para o seu grupo e seu momento, sem preocupar-se com a guarda do que foi criado e organizado pelas gerações anteriores, desconsiderando que foi o seu viver que permitiram tornar Olinda Patrimônio de toda a Humanidade.E talvez esses grupos nem mesmo guardem a sua memória própria, talvez por não desejarem que outros tenham acesso à tolicies que fizeram. O Arquivo Público de Olinda vive abandonado pelas administrações que não conhecem, não desejam que se mantenha a história, enquanto enchem os pulmões para dizer que são patrimônio, mas não sabem quem foram os pais que criaram e construíram os monumentos que lhe causam algum orgulho. O Arquivo Público de Olinda precisa que sejam realizados concursos para novos funcionários para continuar a sua tarefas civilizadora.

O Mesmo se diga da Biblioteca Pública de Olinda, local onde a literatura, a ciência, a poesia, a arte e a alma da cidade e da humanidade, devem estar acessíveis para a população. Mas, como o Arquivo Público, a Biblioteca Pública tem sido esquecida dos governantes da cidade. Atualmente só tem um funcionário efetivo. Importante que se diga que essas instituições são bastante amadas pelos poucos funcionários que ali estão a trabalhar, alguns já próximos do tempo da aposentadoria; e sofrem porque não há concursos para novos funcionários especializados, e não sabem para quem irão transmitir o conhecimento e as habilidades necessárias para o funcionamento dessas instituições.
Talvez o que digo sobre Olinda, Cidade Patrimônio da Cultura Universal, possa ser dito, lamentavelmente, para muitas cidades brasileiras. Brasil que sabe tão pouco de si mesmo, que guarda de forma tão precária a sua cultura e história, que quase nos faz pensar que os que chegam ao governo, não querem que nós pensemos, que saibamos de seus atos.

Continuarei na expectativa de que o novo prefeito e vereadores prestem atenção à instituições que preservam a história, a cultura e as tradições de Olinda e da Humanidade, se assim o fizerem, garantirão a criatividade que sempre tem marcado a nossa participação na história.

Quando um povo perde a criatividade ele é presa fácil para os povos criativos.

Professor não é revolucionário

Leio, em blog de uma amiga/conhecida do Facebook, a surpresa de que nas salas de professores se encontram tantos conservadores. Ora, essa é uma profissão que tem como principal função conservar e transmitir os conhecimentos que a humanidade produz. É para isso que as escolas foram criadas e celebradas nos países que deram a arrancada para a civilização industrial. Essa é a função da escola básica. Transmitir o mínimo de informações necessárias à integração na sociedade. Caso ela faça isso, a vida social e a inteligência, se não tiver sido sufocada por professores “cabelereiros”, poderá fazer desse escolarizado um criativo membro e produtor de ideias para a sociedade. Se o que ele criar for aceito, tudo bem, se não ele vai continuar usando a inteligência.

Rigorosamente, o professor não é um produtor de conhecimento, ele pode vir a ser um indutor. Ocorre que, no afã de manter a sociedade em permanente efusão revolucionária (o que a levará à morte, tanto quanto a que é permanentemente conservadora), ideia da Era das Revoluções – era que já passou, por isso interessa tanto aos historiadores – que um grupo de seguidores de um ideólogo dos anos vinte do século passado tenta impor, desde a última década do mesmo século, ao sistema de ensino brasileiro. Buscam formar um intelectual orgânico, um intelectual que retroalimente a ‘classe revolucionária’.

Mas a escola não forma intelectuais, que são pessoas eruditas e dedicadas a pensar e explicar a sociedade, essa não é a função da escola básica. Talvez a universidade. A escola fornece os instrumentos básicos para esse mister. O intelectual é criação da sociedade e de si mesmo; ele é que busca a erudição necessária para a realização do projeto que ele escolhe ou assume na sociedade. Muito raramente uma erudição, uma grande invenção surgiu na escola, com o seu tempo limitado pelas necessidades da sociedade que a mantém. Uma escola “revolucionária” pode formar muitos ‘reacionários’ exatamente por criticarem a imposição do professor à medida que acumulem erudição da mesma maneira que um garoto ou garota de 13 anos se insurgem contra a autoridade paterna.

Claro que precisamos mudar para melhor a sociedade, talvez até mesmo fazendo uma revolução – seja o que essa palavra queira dizer -, mas o mundo não criado nas escolas, e quando professores resolvem ser líderes revolucionários, deveriam sair da sala de aula, pois eles devem ser líderes no sentido de indicar, não fazer nem impor a sociedade. Da mesma forma que Che Guevara abandonou a medicina para fuzilar os reacionários, Aristóteles foi descartado por Alexandre, para que hoje possamos dizer que ele foi Grande. E são muitos os professores revolucionários que não gostam de dar esse título a um dos que mais revolucionou o mundo.