Patrimônios Vivos

dezembro 4th, 2020

Notícia auspiciosa recebo agora. O Conselho de cultura de Pernambuco acabou de escolher dois novos Patrimônios Vivos: As Pretinhas do Congo de Goiana e o grupos de São Gonçalo de Itacuruba. Embora não tenha tido participação direta no encaminhamento do pedido, satisfaço-me por ter, em 2006, publicado o artigo UMA DEVOÇÃO DOS POBRES: A DANÇA DE SÃO GONÇALO, ( História das Religiões no Brasil, Vol. 4, [331-346], org. por Sylvana Brandão, Editora Universitária, UFPE) a partir de minhas pesquisas na região do Médio São Francisco, e ter convivido alguns bons Momentos com Seu Jerônimo e participado de muitas rodas com o seu grupo. Na ocasião também conheci a IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO DOS HOMENS PRETOS, de Floresta, e soube que artigo meu, publicado em uma jornal experimental dos estudantes de comunicação da UFPE, no qual comentava na única festa dos Reis do Congo que se mantém e mantém sem a carnavalização, foi utilizado para o reconhecimento daquela instituição como Patrimônio Vivo da Cultura de Pernambuco. Tive, também o prazer de escrever e publicar pela Editora da Associação Reviva, com o patrocínio da FUNDARPE, o livro UMA NAÇÃO AFRICANA NA JUREMA DA MATA NORTE: AS PRETINHAS DO CONGO DE GOIANA, no ano de 2011. Ainda feliz por lembrar que acompanhei as Pretinhas do Congo do Baldo, sob a liderança do Mestre Val, em visita que fizemos à Irmandade de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Floresta; ajudei a promover o seu encontro e agora as duas são reconhecidas como Patrimônio Vivo da Cultura Pernambucana. Muito feliz por ter promovido esses encontros e, ajudado a revelar, para além dos seus espaços, a importância que esses mestres e pontos de renovação e permanência da cultura para nós que entendemos e amamos o Brasil para além das praias, dos lugares elegantes e eurocentrados.  VIVA O POVO BRASILEIRO, viva a nossa cultura.

O 20 de novembro que sonho

novembro 20th, 2020

Semana da Consciência Negra, período do ano no qual se deve pensar um pouco mais no quanto somos negros, no Brasil. Claro que os que perambulam pelos Centros de Compra (diz-se Shoping Center)  em busca de liquidação (agora se diz Black Friday – uma sexta-feira negra), só rapidamente percebe gente de cor nos corredores. Historicamente fomos nos formando assim: vendo o mundo de pessoas brancas com alguns manchas negras e pardas perambulando com seus uniformes que os diferenciam dos não uniformizadas e entre si, de acordo com sua ocupação, sua tarefa, naquele lugar. Os uniformes são visíveis e passam com desenvoltura silenciosa e prestativa. Vez por outra aparece alguém de cor não branca sem uniforme e, dependendo do humor de quem o ver, pode ser parado para um pequeno inquérito que desvende sua presença. Caso seja jovem  e desacompanhado, problemas podem vir à tona, sim, os problemas criados pela nossa formação, como povo e como pessoa. Esta é uma semana para refletir um pouco nesse descompasso.

Meu filho mais jovem, oito anos, veio perguntar-me: Biu, é verdade que maltratavam muito os negros no Brasil? Disse que sim, que os maltratavam bem mais do que hoje; que seu trisavô havia sido escravo, escravizado, pois deve ter nascido alguns anos antes da Lei do Ventre Livre (1871), bem como seu tetravô, que possivelmente nasceu após a Lei Eusébio de Queiroz (1850) que proibia o comércio internacional de escravos. Esses dois antepassados sofreram bem mais que o seu bisavô (José), pois este já nasceu livre, nos primeiros anos da República.

Meu filho vez por outra pergunta, porque alguns de seus irmãos e tios têm a pele mais branca que a dele, a do seu irmão e a minha. São esses segredos da genética que expõem a intensa troca de informações realizadas pelas gerações anteriores e nos fazem um país multicolorido e, também multicultural. Essa troca genética ocorreu mais, e é mais notada, nas regiões de Pindorama que foram ocupadas primeiro pelos europeus, especialmente o português. Afirmar que houve essa troca genética para a criação do brasileiro, não significa dizer que ela foi realizada de maneira consensual, pois o intercâmbio genético tem, como principal fator o homem branco, não a mulher branca, que era em pequena quantidade nos anos iniciais da colonização portuguesa. Somente nos século XIX, com a chegada de uma grande quantidade de emigrantes vindos da Itália, Alemanha, Suíça, Polônia e outros países, que aqui chegaram com suas mulheres e filhos é que ocorreu um aumento substancial das pessoas de pele branca. E eles ficaram isolados em suas colônias, reproduzindo a mesma sociedade vivida na Europa. Foi pequena e pobre a troca genética e cultural. Eram poucos os negros entre eles, e quase sempre em condição de escravidão. O Brasil mestiço, mulato, é encontrado no Recife, em Salvador, São Luiz, e outras cidades do Nordeste, também no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, mas sempre em condições periféricas.

A mestiçagem biológica não significou uma adesão à cultura dos índios e dos africanos que foram trazidos para o trabalho escravo. Sempre houve um muro sociocultural que nos separa de alguns ancestrais, os ancestrais dos primeiros habitantes e os ancestrais dos africanos. Durante anos, em nossas escolas, os padres católicos, os pastores protestantes, os legisladores, não cuidaram de nossas ancestralidades, cuidaram de nos mostrar apenas aquela que veio da Europa. Embora sempre houvesse havido pessoas que chamaram atenção à presença e contribuição de índios e negros na nossa formação, é apenas na segunda metade do século que este movimento é fortalecido socialmente. A quebra das cancelas culturais garantidas pelo isolamento geográfico das populações, desanuviaram muitas mentes e corações. As migrações internas, os boias-frias, esses trabalhadores transportados em caminhões para atender os interesses de fazendeiros, foram dando nova visibilidade aos brasileiros mais coloridos, morenos, pardos, cafuzos, negros. Seus costumes, suas tradições passaram a ser estudadas a partir e para eles mesmo, e foi sendo assumida a ideia de que o Brasil tem muitas culturas e muitas tradições que foram submersas pelo projeto de fazer o Brasil, país de uma só cultura e, apesar do que sempre disseram os olhos, tentaram fazer-nos o país de um cor única.

A movimentação geográfica foi acompanhada de movimentos culturais e, os grupos foram surgindo no processo de descolonização interna, ao mesmo tempo que estava sendo realizada da Descolonização da Ásia e da África.

Com processo de Descolonização em andamento tivemos, como consequência, a exposição dos conflitos “invisíveis”, dos choques que existiam mas não eram comentados, apurados. Famoso foi o caso de uma senhora de fina estampa que colocou em colégio para a alta burguesia fluminese, o filho de sua empregada, logo expulso, por ser negro. Uma situação que gerou o primeiro caso de racismo julgado no Brasil, em 1955. Os donos do colégio foram presos, segundo a Lei Afonso Arinos, criada anos antes, que definia o racismo como crime.

O caminho das artes foi uma das rotas seguida para a apresentação das cores e sofrimentos sociais dos coloridos brasileiros. A música, o cinema, o teatro, a poesia, a dança, entre outros, foram espaços sócio-culturiais galgados pelos negros e mestiços brasileiros. Os esportes foram desde o mais antigo passado, uma atividade das elites, mas é o futebol, esporte que foi tomado pelos operários, tornou-se o espaço onde mais brilharam os negros, em uma época de terrenos baldios, próprios para o divertimento dos pobres que aprimoravam o modo de jogar e, em 1958, a seleção de negros, mestiços e brancos derrotou o modo europeu de jogar. São tantos os negros que tornaram o Brasil visível, para si e para o exterior.

E, então, vieram os tempos das conquistas educacionais, a ocupação dos bancos escolares, uma vez que os novos tempos forçaram os donos do poder a colocar escolas na favelas e periferias que o progresso e o enriquecimento de alguns. Sim, no início do século XX tivemos um presidente negro, mas o poder não está na presidência, está no Parlamento; este é um espaço que deve ser conquistado pelos brasileiros de todas as cores. Temos alguns deputados e vereadores negros, mas alguns deles ainda pensam como se o país fosse de apenas uma tradição, aquela que foi apontada pelos primeiros criadores da história do Brasil, uma história da tradição branca, como a proclamada por um cidadão “preto de alma branca” que foi posto na presidência da Fundação Palmares.

Quando olho para meus filhos e netos coloridos, meus sobrinhos brancos mestiços, penso que não desejo um Brasil Preto no Branco, nem Branco no Preto; tampouco desejo um Brasil bicolor, pois isso é falso, é um “brasil/colônia”. Desejo um Brasil ecumênico nas suas cores, nos seus ritmos, nas suas danças, nos seus sotaques, nos seus deuses. Desejo um Brasil conciliado com suas tradições, com a consciência de que é negro, que é branco, que é índio e que é muito mais e maior do que esse triângulo básico indica. E para isso é necessário, mais que lembrar o passado de sofrimento, afirmar que neste passado sofrido, os nossos ancestrais negros foram criadores de uma nação que ainda não tem consciência de sua beleza.  

Pandemia, humanidade, Tomaz de Aquino

novembro 15th, 2020

Ainda não vencemos o pecado social, a fome que estrutura o nosso mundo, nossos relacionamentos. Ela é a principal distinção visível entre os humanos, mas ela não é a causa das diferenças, ela é a consequência mais visível. A maioria de nós, inclusive os que a sofrem de modo mais aguda, não percebe. Vivemos um desses momentos especiais da história, quando todos os grupos sociais são obrigados a enfrentar a fragilidade da vida, com a morte batendo à porta, na do vizinho que desconhecemos e na nossa. As epidemias sempre fazem com que as doenças deixem de ser algo privado, tornam a morte um assunto diário. Nos nosso dias há muitos meios de tergiversação e a morte raramente ocorre em casa. Em casa a vemos pelo frio das ondas concentradas em aparelhos de televisão. Em nossa época a morte que nos chega é aquela distante, as próximas atinge a poucos. A epidemia do Cólera, que atingiu o Nordeste do Brasil na segunda parte do século XIX, gerou grandes mortes e a ação do Padre Mestre Ibiapina criando as Casas de Caridade, amenizadora de muitas dores naquele momento, e na grande seca de 1877. Provocou o estabelecimento externo dos cemitérios, que nos sertões foram criados por missionários e devotos como o Antonio Conselheiro. Um ataque do Cólera em finais do século XX gerou, em Pernambuco, um banho de mar pelo então governador, para garantir que havia segurança na diversão. O que nos diz essa pandemia do Coronavirus 19, o que ela nos deixará, além da enorme mortandade, ainda nos é desconhecido. Talvez o entulho gerado por hospitais pressurosamente construídos e, rapidamente desmontados quando, aparentemente já não tenham utilidade. Estamos a viver uma epidemia, talvez com maior ciência, mas nosso comportamento não difere muito do comportamento dos não pobres dos século XVII. Talvez tenhamos algum Deccameron escrito em algum desses iates que serviram de refúgio para os herdeiros do comportamento de Carlos II, o rei alegre e moderno, que recriou sua cidade. Mas, nossas cidades e comportamentos serão recriados?

A pandemia tem sido uma oportunidade de expor as vísceras morais dos governantes do mundo. Os jornais apontam que os ditadores, enclausurados nos palácios que mandaram construir ou que a eles foram levados por votos, pouca preocupação tiveram com a população, e até mesmo negaram a existência da doença e suas consequência. Houve até quem pusesse a culpa dos problemas naqueles que morreram, que não souberam lutar e vencer.

Dizem que Nero tocava flauta enquanto a cidade ardia em chamas. Se esse comportamento houvesse ocorrido apenas no lado ocidental do planeta e da cultura, como alguns gostariam, haveria mais uma razão para promover o fim da Civilização Ocidental. Parece que é uma questão da demência dos seres humanos que se recusam aprender novas lições. Por isso nesse processo de mortandade, algumas fortunas pessoais cresceram e cresceu a acumulação. Santo Tomaz de Aquino lembrava que sempre que há algo sobrando para alguém é porque está faltando algo para outro. Alguém rouba, alguém está sendo roubado. Aliás, lê-se nos jornais do dia da eleição para vereadores, que mais de 10 mil candidatos estão recebendo auxílio emergencial para os que perderam empregos por conta da pandemia. Que mudanças advirão das ações desses futuros vereadores?

Nesta semana que passou, o presidente do Brasil reagiu negativamente à sugestão de desapropriar as terras florestais que sofreram os incêndios, ao grito de que “em nosso país a propriedade privada é sagrada”. Faz questão de esquecer que as terras queimadas são propriedade coletiva e, no fundo ele as quer privatizar, matando os animais, as árvores e destruindo os espaços das comunidades indígenas. O presidente nem percebe que a legislação brasileira já permite essa ação, nas terras usadas para o cultivo de drogas e que, neste país, a propriedade deve ter uma função social, seguindo a sabedoria de Tomaz de Aquino.

Hoje é dia de Santo Alberto Magno, professor de Tomaz de Aquino, Doutor da Igreja e Protetor da Ciência. Estudou Ciências Naturais em Pádua e, renunciou um episcopado para fazer o que mais gostava: lecionar.

Todos Irmãos: esperança, cansaço e renovação

outubro 28th, 2020

Viver em paz é diferente de não fazer nada. Há quem diga que se deve treinar para viver o nada, perceber tudo sem envolver-se no que é visto e experimentado. Experimentar o nada. Eis algo difícil nos dias que vivo, desde o amanhecer até o momento que o cérebro não me permite observar. O cérebro observa-me, o tempo passa e ele, observando-me, refazendo as experiências enquanto durmo. No sono vêm as imagens descritas por Loyola Brandão em Não verás país. Não vejo mais o país. Vejo a impossibilidade de um país sendo criada, não na ficção que Loyola previu três décadas atrás. Não Verás País algum. Vivo a perda do país que imaginava estar criando com os meus contemporâneos, e temo entender que não verei o país que imaginava com alguns de meus contemporâneos.

Em momento tão perdido, que parece ser de descanso, para não perder a sensibilidade vem uma carta do Vaticano, assinada por Francisco a nos dizer que somos Todos irmãos. É sempre escandalosa essa afirmação de sermos todos irmãos. Nem todos percebem que mudanças essas três palavras carregam. Quase ninguém deseja que sejamos todos irmãos. Até mesmo alguns familiares.  Ser irmão no abstrato é aceitável, e a leitura do que o papa escreveu é animadora para muitos, até para os que não leram e, creio, não lerão, essa bela correspondência que foi endereçada aos cristãos, aos que carregam alguma fé e, mesmo aos que vivem sem carregar qualquer fé. Mas é aceitável essa ideia de quem somos todos irmãos.

Não há novidade neste discurso que, mutatis mutantis,  é dito em quase todos os púlpitos erguidos em cada esquina do mundo, dentro ou fora das igrejas e dos parlamentos. Somos todos irmãos, dirão os políticos, os pastores, os padres, os chefes e as chefes (será chefa?) de família, os líderes estudantis, os candidatos a vereadores e prefeitos ao lerem ou ouvirem essas palavras do papa.

Uma semana depois, quando se tornou público um documentário no qual o papa Francisco diz que se deve admitir a união civil de casais do mesmo sexo, logo já se percebeu que nem todos somos irmãos; que se corre o risco de um cisma no mundo católico, pois se diz que o papa é um herege, que o Espírito Santo enganou-se e a Igreja está sendo dirigida por um seguidor do demônio. E alguns cristãos, católicos ou não católicos, passam a agredir os católicos, querendo saber se vão seguir o papa e outras coisas semelhantes.

A ficção de Inácio Loyola Brandão usa um verso de outro poeta, Olavo Bilac. Criança, não verás país algum como esse. Referia-se, o poeta do civismo, ao Brasil que, no início do século XX, incitava as gerações jovens a amar com orgulho o país em que nascera. O país mudava de regime sem conversar com os que formavam a nação, mas os que dirigiam a mudança desejavam po amor de quem amava a monarquia e o amor dos que não a conheceram. O poeta estava otimista quanto ao futuro.  

A passagem do século XIX para o XX era de otimismo para os bem nascidos e, até para os que nasceram sem berço, pois a República parecia criar condições para todos; mas esse “todo” não envolvia a todos, perceberam, bem mais tarde, os mal nascidos e os bem nascidos. Estes, os que se apossaram das terras do país, continuaram a insuflar os que jamais teriam acesso à terra, a cultivarem o amor à nação. Queriam o amor mas não dariam a terra.

Ao longo do século, os que formavam a nação, mas não tinham terra, foram compreendendo que jamais veriam “país como esse”; o preço das passagens aéreas não permitiam ir conhecer outras terras. Era uma promessa que os bem nascidos faziam questão de cumprir: não permitir que outros países fossem conhecidos pelos que não possuíam terras. Não poderiam fazer comparação, poderiam amar o que viam ou o que se permitia que fosse visto.

Outubro está ao término, mas não as bobagens que fizeram enquanto ele dura. Outubro é um mês duro, de muitos dias. Nele, como em todos os meses nasceram muitas pessoas, algumas no início do mês, outras quase em seu término. No início do mês, dois aniversários, o de Francisco de Assis, no dia quatro, sempre me lembra um amigo que nem sei se ainda lembra de mim. Não importa sua lembrança, importa que eu não o esqueço. Todos os anos lhe envio festas no dia 4.  No dia 6 é o aniversário de uma de minhas filhas. Quando ela nasceu lembrei que ela me veio no mês da Revolução que prometia unir os operários e criar um mundo novo. Quando minha filha nasceu a Revolução já se dera por vencida, embora a esperança de que veríamos dias melhores permanecesse. A Esperança é um animal bravio, que se camufla perfeitamente com as folhas. A Esperança, como o bicho-folha, é muito antiga, vem acompanhando os homens desde que se entenderam como tal e, desde então, esperam o paraíso enquanto constroem e destroem a Esperança. Este inseto da alma que se esconde em cada uma das gerações humanas, confundindo-se com elas. Cada uma que morre traz a esperança de que outra virá.

O final de outubro, carregado de aniversários de esperanças perdidas, também carrega, para mim, lembranças de esperanças de vida que não se realizaram. Mas foram belas e vitoriosas como as revoluções em seus processos iniciais quando, a morte da antiga civilização ou antigos amores oferece combustível para o novo que constrói, então. Depois a Revolução cansa e morre, como amores de paixão.

Mas então, vem a Esperança, de novo, com novas caras a repetir que somos Tutti Fratelli.

Severino Vicente da Silva (Biu Vicente)   

12 de Outubro: um feriado de desafios

outubro 12th, 2020

O 12 de outubro é um feriado que pode ter muitas explicações e desentendimentos, pois nele confluem três tradições. Uma delas, a que parece mais simpática é que celebra a infância. Quando eu era infante aprendi e cantei canções que celebravam as “crianças do meu Brasil”, que lembravam ter jesus dito “vinde a mim as criancinhas”. Meus pais não tinham o hábito de nos dar presentes neste dia, como hoje eu faço, juntamente com meus filhos. Mas era um tempo que lembro com nostalgia e, claro não percebia o que chamamos hoje de Direitos da Infância e da adolescência. Embora eu saiba que o trabalho infantil afasta crianças da escola, impede que elas brinquem, em meados do século passado, entre nós brasileiros, o trabalho infantil era visto como meio educacional para o trabalho. Muito comum era a violência contra as crianças, também visto como atividade educativa, pois que se seguia, sem ter lido a Bíblia, a máxima de que o pai que ama não poupa o marmelo. Ainda hoje leio nas postagens do Facebook algumas lembranças, ao mesmo tempo em que se discute o papel da psicologia na formação das novas gerações: Apresentam-se cinturões, palmatórias, chinelos seguidos da pergunta: qual desses psicólogos lhe atendeu. Mas, um dos efeitos colaterais da luta contra a ditadura foi o estabelecimento, em nossa sociedade, do debate sobre os Direitos Universais da Pessoa Humana, logo seguido pelo debate sobre os direitos da criança, o que veio protege-la do violência familiar, do uso da trabalho infantil para a manutenção da família, etc. Vivemos hoje uma possibilidade de melhoria de alguns aspectos da vida humana se, verdadeiramente, cuidarmos das crianças. Mas aprendi, lendo os livros de história, ouvindo-a e refletindo sobre as ações humanas, que sempre quando precisamos de leis para nos dizer que devemos ser bons, é porque bons não somos. Ainda temos muitas crianças fora da escola, sem a possibilidade de aprender os códigos necessários para viver nesta sociedade com dignidade; ainda são muitas as crianças obrigadas a buscar o sustento para sua famílias, pois seus pais não conseguiram encontrar emprego que lhes garantisse a manutenção da família, ou foram desempregados, ficaram obsoletos para serem “úteis” à sociedade, e são tolerados. Vez por outra eliminados. Aliás, este ano, só no Rio de Janeiro, mais de 20 crianças foram baleadas este ano e 10 delas também o foram no Recife.  Mas o 12 de outubro é o dia da criança, vamos celebrá-las e protege-las.

Outra tradição refere-se à tradição cristã católica de nossa sociedade. Um acontecimento, ainda no período português de nossa história, um grupo de pescadores no Rio Paraíba, em Guaratinguetá, pescou, em duas etapas, o corpo de uma imagem e, em torno dela cresceu uma devoção popular em suas casas. Posteriormente a devoção foi encampada pelas autoridades eclesiásticas, com a construção de uma igreja, estabelecimento de paróquia e, crescente adesão das populações próximas à devoção à santinha que foi sendo enegrecida pelo contínuo usa das velas junto à lama fluvial que a envolvia. Milagres se contavam, e muitos os negros escravizados foram recebedores da atenção da Nossa Senhora, negra em uma colônia de brancos escravizadores. No século XX, o Cardeal Leme solicitou que o papa Pio XI proclamasse a Aparecida como padroeira do Brasil. Durante anos, essa festa católica foi dia santificado, mas deixou de ser feriado religioso. Em 1980 que o ditador presidente João Batista de Figueiredo decretou a data como feriado nacional. A Constituição de 1988 manteve o feriado nacional. Nossa Senhora da Conceição Aparecida do Brasil tem um visitado santuário por milhões de peregrinos: em 2018 contou-se mais de 15 milhões. O crescimento do número de cristãos não católicos tem provocado reações contra a devoção à Aparecida, com manifestações de intolerância, especialmente por religiosos de novas igrejas que têm surgido e crescido desde o final do século passado. A existência do vírus Covid 19, neste ano de 2020, parece ter diminuído as explosões dessa intolerância, ou elas não receberam a ressonância jornalística dos anos anteriores.   

A terceira tradição do dia 12 de outubro é a chegada do italiano, a serviço dos reis espanhóis, Cristóvão Colombo no continente americano, o Novo Mundo, como se dizia então. O Paraíso, na descrição do próprio Colombo, diante da exuberância da natureza e da inocência dos seus habitantes. Na minha infância fui ensinado que Colombo descobrira a América. Essa verdade que aprendi sem discutir, pois a ouvi de professores e via como os livros falavam desse genovês que morreu pobre, em um convento, após abrir caminhos para que a recém nascida Espanha viesse a tornar-se a grande potência do século XVI e parte do século XVII. Cresci, li outros livros, como os escrito por Bartolomé de Las Casas, um dos primeiros espanhóis que vieram estabelecer-se na isla de Hispaniola. Ao ver como o paraíso tornava-se inferno por ordem de Colombo e seus seguidores, e também de seus inimigos, Bartolomeu se fez padre de verdade e passou a defender os nativos, descrevendo o que via. Em 1992, aprendi que no México já não se falava de ‘descobrimento da América”, mas de Invasão. Mas nem todos aprendemos nem tomamos novas atitudes a partir desse conhecimento. A releitura de documentos, com novos paradigmas, deu-nos uma nova visão da ação de Colombo, do que se seguiu  desde então. Muitos já lemos As Veias Abertas da América Latina, mas há muito que se compreender as ocorrências desses cinco séculos. Neste ano de 2020, após o assassinato público de um cidadão negro, nos Estados Unidos, a revolta contra o racismo sistemático alcançou, também Cristóvão Colombo que teve algumas das estátuas erguidas em sua homenagem derrubadas, posteriormente recolhidas. De certa forma, descobre-se que o genovês que provou a esfericidade da terra foi, também, patrono do racismo, da imposição de um modo europeu de ser no Novo Mundo.

Este ano de 2020 nos põe em uma encruzilhada e, em um encontro de caminhos sempre há que se tomar decisão sobre que caminho seguir. Neste caso, o 12 de outubro nos põe a debater sobre as crianças, que dizemos ser o futuro, mas precisamos entender o que o futuro delas nós é que criamos; o 12 de outubro nos põe a debater sobre a liberdade religiosa e a apropriação das devoções populares pelos sistemas religiosos estabelecidos, quase sempre em detrimento dos populares; o 12 de outubro nos põe diante da decisão de continuar a construir o Paraíso, ou destruí-lo, como fizeram Colombo, Cortez, Pizarro, Bufallo Bill, David Cockett, Tomé de Souza, Mem de Sá e assemelhados.

Álbuns de família e jornais da família

outubro 9th, 2020

Ler os jornais diários é como folhear um álbum antigo de fotografias de família, observamos como o tempo tem passado e como não o percebemos. Claro que a fotografia de meu avô, parado, com seu terno branco e chapéu criando condições para que vejamos o quão grossas eram suas sobrancelhas, é antiga, tomada antes do meu nascimento, pois que ele já havia morrido quando nasci, entretanto ele está vivo e carrego comigo o seu nome e quase tenho o sobreolho tão espesso quanto o dele. E quando olho a foto de Vó Alexandrina, quase sinto o balançar da cadeira, no fim da tarde, na calçada de sua casa em Serraria. Eu era tão pequeno, tão menino, faz tanto tempo, mas ela está viva. Claro que faltam algumas pessoas neste álbum, pois que elas quiseram sair e suas imagens e lembranças se apagam lentamente. Exigem até um esforço para lembrá-las no tempo em que me aceitaram como parte de sua família. Assim, são os jornais. Procuramos neles o que podem nos dizer de nossa família social, mas vemos apenas sombras.

Ler os jornais, do dia ou dos anos imediatamente passados, nos impedem de lembrar algumas passeatas, algumas listas coloridas nos rostos, alguns sorrisos que anunciavam uma possibilidade de Brasil. Mas as cores desbotaram muito rapidamente. Mais vivas estão as imagens da passeata dos Cem Mil, ali, no Rio de Janeiro. Eram rostos sérios, carregavam o peso da morte de um estudante, e ela simbolizava a morte de uma etapa da vida política brasileira. Na foto, que foi capa de revista, não aparecem negros. “O ano que não acabou” ainda não percebera, ao menos os jornais, que o estudante assassinado não era branco. Ali, naquele ano morria os Anos Dourados, começavam os anos em o chumbo começou a ceifar a vida de jovens filhos de “gente de bem”. Lembro de um padre, vigário geral, escandalizado porque haviam prendido, talvez matado o filho de uma ilustre família católica mineira (Mota Machado?), gente de estirpe. Ainda não haviam percebido que em 1964 houvera uma luta pelos direitos civis nos Estados Unidos e, nos bailes se cantava “as viuvinhas do artista James Dean”. O Brasil via morrer uma juventude que, segundo os governantes, deveria estar nas academias militares e nos bailes de formatura, ainda não percebera mudanças na sociedade. A morte dos universitários provocou a indignação e começou o declínio do poder que tudo podia. Não por considerar os brasileiros, mas porque tinham que salvar esses jovens da morte e do comunismo, mesmo que tivessem que matar alguns. Também pensaram assim em relação aos indígenas, e construíram a Transamazônica, escavaram a Serra Pelada, destruíram a Carajá enquanto o poeta melancólico dizia que “Itabira era um retrato na parede”. 

Os jornais diários dizem isso, hoje: Jovens oficiais dos anos setenta, hoje  generais, vingam-se, chamando de heróis os que mataram os jovens da elite que apressavam o fim da ditadura. Eles voltaram com o apoio dos que não entenderam que a vida em  liberdade está sempre em risco. Na época em que os atuais generais eram capitães costumava-se repetir que ‘o preço da liberdade é a eterna vigilância’. Os que deviam vigiar, viajaram no que parecia o poder, finalmente. Os jornais de hoje mostram que a sociedade não foi vigilante. Entre solipsismos e relativismos, com as drogas, as novelas, os filmes, as graças, as viagens internacionais, o degustar as belezas turísticas do país sem olhar o povo que vivia por ali; tudo virou um culto do prazer individual, da riqueza para si, de uma divindade que só agrada.

 Os jornais de hoje mostram que os poderosos do dia cultivam o temor de forças externas ao mundo que querem construir. Agora retomam os discurso de que forças estão sempre a conspirar contra os ideais dos capitães que foram impedidos de serem torturadores, como Ustra. De certa forma eles têm razão, pois com as torturas perderam o apoio externo que recebiam. A ditadura que permitiu Ustra começou a desmoronar quando franceses começaram a envergonhar-se do que fizeram na Argélia e quando os norte-americanos sucumbiram no Vietnam e passaram a acossar os antigos aliados, exigindo que deveriam mudar. Não mudaram, mudaram-se, mas parece que retornaram com maior cinismo e prepotência, de novo com o apoio da ignorância externa e da ganância interna. Bem que podemos

Os jornais de hoje mostram que esse passado está vivo. Morto, parece estar o presente, com os zumbis afogados em filmes que cultuam a vitória do mal, pastores estupradores, pastoras assassinas, padres pedófilos, médicos doentes, espiritualistas acumuladores, juízes venais, tudo facilitando a ditadura disfarçada. Sim, aprenderam que o pão distribuído pode parecer justiça social enquanto se produz famintos. E, contudo e por isso, aprova-se o governo, como se aprovava o governo Medici.

O ano que não acabou, só acaba se houver mudanças de objetivos, para além dos limites aos quis nos acostumamos usufruir envolvidos em questiúnculas que não permitem atentar aos perigos a que estamos levando a sociedade a natureza. Famílias que não se cuidam, desaparecem porque permitiram seus membros desaparecessem. Uma família deixa de existir quando coloca-se o interesse de um membro acima daqueles valores que construíram e mantiveram a família unida. Cada geração toma a decisão de continuar ou não a família, a tradição forjada pelos antepassados. É evidente que nem todos os valores vividos pelos antigos merecem ser cultivados e, talvez, na escolha dos valores, os que levariam o desaparecimento familiar devem ser abandonados. Esses devem ser chamados de desvalores. Em nossa sociedade são muitos os desvalores a serem esquecidos: o racismo e seus corolários: a mentira, a falsidade, a inescrupulosidade, entre outros. Mas essas são as cores mais vivas do jornais do dia, essas têm sido as notícias mais comuns em nossos dias. Nossa sociedade está murchando e as cores que alegravam a face de uma geração desbotou, foi esquecida ou vendida e tornada sem esperança.  

O poeta nos ensinou que Raimundo, para o mundo era só uma rima. Agora devemos entender que mourão embora pareça, nunca rimou com solução. Exceto para prender a boiada e matar os bois.