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São Pedro: o que assumiu a inovação na tradição

As festas em homenagem aos santos da tradição católica continuam ainda por mais uma semana. É que vem a menos famosa das semanas, a Semana de São Pedro. Primeiro dos escolhidos por Jesus para discípulo, este santo carrega o sofrimento dos que não foram corajosos na primeira hora, seja por duvidar, seja porque negou conhecer a quem seguia; mas eis que veio a ser o símbolo de uma unidade na Igreja que veio em seguida. Por ser o líder dos pescadores de peixes foi convidado para ser pescadores de homens, liderar um grupo que viria a ultrapassar e perpassar todas as culturas. Pedro, definitivamente é o casado no grupo dos escolhidos, mas bem que poderia não ter sido o único, porém dele se lhe aponta que tem sogra, embora não se saiba quem foi sua esposa ou se teve filhos. E foi um genro dedicado, preocupado com a saúde da sogra, para quem pede a gentileza de um milagre, a sua cura, no que é assistido. Além da mãe de Jesus, Maria, ele é único do grupo que ousa pedir um favor pessoal e para gente de sua parentela. E é atendido, o que denota uma relação muito próxima com Jesus. É esta intimidade e confiança mútua que o faz receber a indicação da liderança, superando até mesmo o ótimo relacionamento que havia entre Jesus e João, de quem se diz que Jesus o amava, e outro primo, Tiago.

A liderança de Pedro foi testada muitas vezes. Parece que a Igreja de Jerusalém esperou a morte de Tiago para reconhecer, de verdade, a primazia de Pedro, após ter ele sido tirado milagrosamente da prisão. Depois veio o debate acirrado com Paulo que, sem jamais ter visto Jesus, inclusive perseguira os seguidores de Jesus. Deve ter sido tenso o encontro desses dois homens de caracteres fortes, cônscio da missão que havia recebido: Pedro recebera diretamente e via-se como guardião da tradição da comunidade de Jerusalém, uma comunidade que se fechava em sua tradição e que estava em dificuldade para garantir a sua manutenção. Como estavam esperando a imediata realização da chegada do Reino, não cuidaram de produzir o que consumiam. Apenas consumiam. E, contudo,havia outras comunidades, outras tradições.

Paulo, veio de longe com auxílio das comunidades que organizara. Comunidades diferentes da de Jerusalém, formadas por não Judeus, que parecia não serem filhos de Abraão. E esse foi um grande dilema de Pedro e de sua comunidade: Seria possível aceitar esses estrangeiros não circuncisos, comedores de carne de porco? É bastante fácil liderar para a manutenção do status quo, bater o pé e defender a tradição recebida até o último instante, desde que não haja crise. Pedro enfrentava uma situação muito difícil, pois sua comunidade queria manter a sua integridade mantendo fortes laços como a tradição judaica, aquela na qual nascera e pretendia manter. Contudo, esse Paulo chega e aponta outras direções, outras possibilidades, ultrapassando as tradições meramente físicas, como a ingestão ou não de certos alimentos, a retirada de uma película e outros senões semelhantes. Pedro, diz livro escrito por um desses convertidos após ouvir a pregação de Paulo, depois de muito ouvir e sonhar decidiu abrir a Igreja que lhe foi confiada a todos que a desejassem seriamente comprometer-se com o seu ideário, sem discriminação de raça, cor, cultura. Por abrir caminhos, um dos simbolismos que marcam a ação de Pedro são as chaves. Elas não foram usadas por ele para fechar-se na tradição cultivada por sua comunidade local, mas as utilizou abrir-se para que o mundo pudesse escolher entrar, navegar com ele na barca para navegar o tempo. E Paulo, seu companheiro, confirmou a aceitação de sua liderança, mantendo a autonomia e a comunhão nos mesmo sentimentos e certezas.

Uma vez Fernando Sabino disse que escrevia para saber o que seus personagens iriam fazer, o que as palavras o levariam a dizer. Quando comecei a escrever o que está acima escrito não era o que eu esperava escrever. Escrever, viver é ser como esse Pedro, aberto às possibilidades sem perder o essencial.

Ps. Todos perceberam que esses comentários surgiram da leitura do Atos do Apóstolos, do Evangelho de São João e de outros livros, além de minhas angústias.

Cultura durante a ditadura iniciada em 1964

CULTURA DURANTE A DITADURA iniciada em 1964
(Texto para palestra proferida na celebração do 35º ano da Associação dos Docentes da UFEPE, ADUFEPE, no dia 29 de abril de 2014)

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

Agora é o tempo de tudo, de tudo fazer, de tudo lembrar, de tudo esquecer e, porque não? de tudo refazer. Alguns estão a celebrar, outros dizem que apenas querem lembrar, mas há quem queira refazer os acontecimentos de 1964 e dos anos seguintes. O tempo foi passado, alguns dos personagens já morreram; os vivos, especialmente os mais vivos, apressam-se a reviver o que não viveram. A cada dia uma nova história é contada para explicar como nós chegamos até aqui. Foram muitos passos realizados naquele período, nem todos estão registrados, e mesmo os que foram registrados e guardados em malas, caixas de famílias ou arquivos de acordo com os padrões estabelecidos pela ciência, grande parte deles está intacta, esperando serem destruídos ou lidos e analisados. E a parte da parte já tocada e conhecida, é a história contada pela boca de quem tocou nos documentos e pensou, a seu modo, os segredos que julga ter desvendado. Só com o conhecimento desses segredos, junto com outros segredos guardados em muitas memórias, é que poderemos saber o que aconteceu conosco, enquanto indivíduos, enquanto grupo social, enquanto sociedade que construiu, viveu e superou a ditadura.

Essa reunião que fazemos agora é uma tradição antiga: sentar em torno de uma fogueira para aquecer os corpos e fortalecer a memória. É para isso que, ao longo da história de nossa humanidade, nos sentamos em torno do fogo para ouvir a memória dos mais velhos, para atiçar as brasas de suas lembranças retirando as cinzas que as encobre, cinzas que fazem esquecer. Os mais jovens, com suas perguntas, auxiliam os mais velhos a aprender com a vida que viveram.

Esse encontro que objetiva celebrar o 35º aniversário da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco – ADUFEPE coincide com 50º aniversário do Golpe de estado protagonizado por civis e militares. É em 1979, quando a ditadura já começava a esboçar cansaço que foi criada a ADUFEPE, uma entidade de intelectuais formadores de intelectuais.

Lendo o que hoje se escreve sobre 1964 notamos que estão dando importância maior apenas aos que fizeram atos heroicos que foram amplamente registrados por amigos, partidos políticos e familiares dos heróis, aqueles que foram contemporâneos dos fatos ou herdeiros deles. Nos tempos de hoje há os que ainda estão vivos e há os que já morreram; entre os vivos e os mortos há os que deixaram herdeiros, e esses são muito falados; e há os que não deixaram herdeiros e pouco deles se fala, e se escreve sobre eles. E há alguns que morreram e seus herdeiros não sabiam ler, escrever, guardar documentos, desses, talvez, saberemos seus nomes e mais nada. Saberemos menos daqueles que não herdaram o poder do estado que combatiam, sabemos mais dos que herdaram o estado que combatiam. Embora se queira negar, a sociedade brasileira quis o golpe de estado ocorrido em 1964. Poucos se opuseram ao golpe e os mais prejudicados por ele não podem reclamar, nunca puderam. Eles nem tinham ciência do mal que estava atingindo a todos.

Os intelectuais tinham essa consciência de que algo havia mudado nas relações do Estado com os setores da cultura e tomaram atitudes naqueles anos de medo e de chumbo: alguns atuaram para garantir o retorno do tempo do silêncio que vinha sendo rompido desde o início dos anos cinquenta – eram os saudosistas do Estado Novo, outros estados e estamentos; outros agiram para resistir e recriar, é melhor dizer, criar em uma nova situação, pois, se na natureza tudo se transforma, na sociedade nada se recria.

O ambiente cultural vivido após abril de 1964 tem várias marcas, e uma delas é o “terrorismo cultural”. Embora Nelson Werneck Sodré, em 1965, tenha escrito na Revista da Civilização Brasileira artigo intitulado Terrorismo cultural , a expressão foi cunhada pelo pensador católico Alceu de Amoroso Lima indignado com as perseguições no meio universitário e como as demissões de Celso Furtado, Anísio Teixeira e Josué de Castro dos seus postos públicos, quem forjou a senha inicial para resistência intelectual ao regime… . Desde os primeiros dias daquele regime a sensibilidade daquele intelectual sentiu que era necessário dizer o que estava ocorrendo, correr o risco de pensar sobre a sociedade e a ela dizer o que ela estava a fazer, auxiliar a esclarecer o momento que ela vivia. A cultura é a reflexão sobre os atos humanos. “Intelectual” é conceito decorrente da conduta de Emile Zola (1840-1820), em acusar a sociedade de seus erros correndo risco ao defendê-la.

Como sabemos, nos primeiros dias da ditadura, esta afirmava que foi feita para evitar a comunização do Brasil. Aqui em Pernambuco foram presos poucos comunistas, como nos relata Fernando Coelho:
Dos líderes comunistas de expressão, após o golpe, em Pernambuco, além de intelectuais como Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora, somente Gregório Bezerra foi preso. A repressão inicial atingiu, principalmente, as lideranças dos movimentos populares e sindicais, a universidade e a chamada esquerda católica, além de políticos ligados ao governo deposto. (…) a falta de comunistas, os sindicalistas, os intelectuais ou assim considerados e os “cristãos progressistas”, entre os quais um número relativamente grande de eclesiásticos, pagaram as custas da febre policial dos primeiros dias”

Veja que o autor que nos socorre não diz que Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora são comunistas, ele prefere, escolhe, defini-los como “intelectuais”. Ali já está mencionada a presença de intelectuais aprisionados pelo regime que está iniciando. Outros foram encarcerados nas semanas seguintes. Assim foi sendo montado o cenário que a sociedade escolheu, talvez por engano, imaginavam que os militares voltariam para os quartéis, como sempre haviam feito; talvez por medo de um modelo de sociedade que permitiria pensamento diverso daquele enunciado pelos novos donos do poder. Vivia-se o tempo da Guerra Fria e eram muitos os que formavam o grupo dos que cultivavam o temor de que os acontecimentos cubanos e a república sindicalista argentina viessem a se repetir nos demais países da América Latina; talvez por isso, as igrejas se uniram aos empresários. Poderíamos continuar a buscar as razões para explicar os acontecimentos de 1964 até encontrarmos uma resposta que caiba em nossa ansiedade e nos acalme. Mas, nesta conversa em torno do fogo, é importante lembrar que os líderes da dita Revolução, tiveram medo dos intelectuais.

É a cultura que nos envolve e nos molda, e as nossas ações reforçam os padrões ou indicam caminhos para novos padrões. Os intelectuais, esses homens e mulheres que cuidam de refletir sobre essa cultura que nos envolve podem nos ajudar a compreender o fazemos de nós mesmo, e parece ter sido este o grande temor daqueles que, pelas armas, ajudaram a manter no poder os grupos que de lá não queriam sair, tangidos pelo avanço de novos grupos sociais na direção do saber e da cultura que sempre foi mantida ao serviço e prazer dos poderosos de sempre. Mas, se eles temiam os intelectuais, não temiam a todos, pois alguns intelectuais estão sempre ao serviço do poder de então.

A cultura pode ser definida amplamente como tudo que os homens criam com suas mentes, com suas mãos e todo o seu corpo no contato com a natureza. Mas esse conceito antropológico é tão amplo que pode empobrecer nosso debate. Podemos ampliar nossa conversa ao dizer que a cultura é o resultado da reflexão e ação dos humanos sobre a natureza e a reflexão sobre os resultados. A cultura é a reflexão sobre si mesmo e sobre as ações humanas, e isso toma muito tempo. Do aparecimento do homem até a invenção do fogo e dos códigos mínimos de comunicação correram alguns milênios. Alguns milênios foram necessários para a invenção dos símbolos, das mitologias, da arquitetura, da engenharia de controle das águas, da engenharia social na organização das crenças, dos grupos sociais familiares até o estado. Leva tempo, também, criar novas expressões culturais após um cataclismo social, como o o que ocorreu conosco em meados do século passado.

Os tempos da ditadura militar foram momentos de esmagamento de algumas manifestações culturais, especialmente aquelas que eram mais representativas das mudanças sociais ocorridas na década de cinquenta que, em Pernambuco, ganharam espaço no Movimento de Cultura Popular . Desde os anos quarenta que aqui vinha ocorrendo a confluência de uma população carente de comida para o corpo e alimento para o seu espírito (desculpem mencionar essa palavra atualmente não politicamente correta ou conveniente) com uma sociedade que tradicionalmente cultivava um conceito de cultura e de vida discriminante e excludente. Essa população carente buscava aprender a ler, escrever e contar o salário e a sua história. Essa era uma grande novidade nos anos sessenta, pois a industrialização agitada por Juscelino Kubistchek precisava de gente que soubesse ler as orientações para o uso das máquinas e escrever as notas de balcão nas casas comerciais. Quando a população brasileira era mais dependente da atividade agrícola tradicional, a leitura do mundo que era exigida era bem menos complexa do que se exige na sociedade industrial.

Ler, Escrever e Contar são instrumentos de multiuso e de ampliação dos espaços e interesses. E se há uma ampliação do mundo, também há uma ampliação das linguagens e de seus usos. Os intelectuais dos anos quarenta e cinquenta souberam ver, registrar e recriar as danças dramáticas do povo que vivia nas áreas rurais, mas, a partir dos anos sessenta os que formam o povo já estavam de mudança para esse outro lugar mais moderno que é o lugar das cidades. E não estou dizendo apenas a capital, mas cidades de médio e pequeno porte. E esse acontecimento implica novas criações, e novos sujeitos criadores.
Eles foram surgindo aos poucos, agindo sobre as novidades e criando novas novidades.
Temos que tomar um ponto inicial para conversar sobre o universo cultural em Pernambuco na época de poder dos generais. Poderia começar pensando nas atividades culturais que começaram em torno da personalidade e da obra de dom Hélder Câmara. A sua presença foi incômoda para muitos políticos e homens da cultura “varandística”, essa que cresceu nas varandas das casas grandes e dos sobrados. Consta que nos primeiros meses após sua chegada, em abril de 1964, o novo arcebispo promoveu vários saraus em sua casa, ainda no Palácio do Manguinhos, para conhecer os artistas pernambucanos. Era um caminho possível para conhecer o espaço cultural no qual ele foi metido abruptamente, retirado do Rio de Janeiro para cuidar do Rio Capibaribe. E para um Príncipe da Igreja, um trajeto possível era o trato com os bardos e artistas, pois eles são de conhecer a alma do povo que os rodeia. Esses encontros com a “juventude dourada”, além de assegurar alguns jovens que vieram a auxiliá-lo em suas obras sociais, também valeram a crítica da sociedade mais conservadora que não entendia o que fazia um bispo sentado nos batentes do palácio madrugada adentro conversando com jovens artistas e intelectuais. Outra senda aberta pelo bispo que chegava foi a criação da Operação Esperança e dos Conselhos de Moradores nos bairros periféricos, com ela Dom Hélder atingia outro público que normalmente não tinha acesso à cultura promovida pelos artistas que participaram dos “Saraus do Manguinhos”. Mas a Operação Esperança foi o caminho para que jovens universitários, das famílias melhor aquinhoadas pela história e pela economia entrassem em contato com o mundo da periferia, ensejando trocas culturais bastante vivas e fecundas com jovens que viviam no fio da navalha social.

Outro meio de iniciar nossa conversa sobre a vida cultural, artística e política na Ditadura Militar, é olhar os poetas da “geração 65”, da qual citaremos os nomes de Alberto da Cunha Melo, Marcos Cordeiro, José Mário Rodrigues, Celina de Holanda, Roberto Aguiar, Luiz Pessoa, Jaci Bezerra, Almir Castro Barros, Montez Magno, Sérgio Bernardo, Domingos Alexandre, que cultivam uma boa relação com a Livraria Livro 7 que, por mais de duas décadas serviu de local de resistência cultural à ditadura. Para aquele espaço da Rua Sete de Setembro, sonhado e criado por Tarcísio Pereira, convergiam poetas, escritores, professores e estudantes em constante troca de informações ou, no mínimo, um contato visual entre o leitor e o autor.

A sociedade foi inventando lugares e formas de formar-se e expressar-se. Na década de sessenta um caminho possível foi o cinema: a arte de assistir, discutir e fazer. Salas de exibições eram poucas, mas o cine clubismo foi um espaço de formação que atingiu muitas localidades, além da capital. Colégios do Recife, do Agreste (Limoeiro) e da Zona da Mata Norte (Vicência) promoveram sessões , e algumas delas foram incentivadas por Jomard Muniz Brito, cuja alma não se aquietou após a prisão ocorrida em 1964. Ele participou ativamente do ciclo do Super 8, nos anos 70, um período que produziu cerca de 200 filmes , documentários sobre a vida rural, injustiças sociais, filmes experimentais abordando temas culturais urbanos. Foram realizados três festivais de Super 8 (1977, 78, 79). É nesse período que as sessões de Arte nos cines São Luiz, Coliseu, Trianon, AIP eram o consolo e o local de formação, para as novas gerações, do hábito de degustação de filmes. Para muitos jovens estudantes as manhãs de sábado eram próximas dos cinemas. O cinema foi, pois, outro caminho para que jovens da classe média discutissem o mundo ao seu redor em pleno regime ditatorial. E foram muitos os resultados e vocações que se formaram a partir desses cineclubes, e também o sentimento de que havia a possibilidade de compreender o mundo a partir da utilização de uma câmera que, apesar da pouca sofisticação técnica, produziu trabalhos de referência. Relacionada ao cinema, devemos lembrar a participação dos jornais no debate dessas criações, especialmente a atuação de Celso Marconi que fez a crítica de cinema no Jornal do Commercio nos anos sessenta e setenta.

A dança foi um insuspeito caminho utilizado para a criação de novas possibilidades de educação, compreensão dos sentimentos de dores e alegrias que vivia a sociedade, e o interesse pela dança pode ter acompanhado a fundação da TV Jornal do Comércio em junho de 1960. Talvez devamos chamar atenção à existência de um corpo de balé que a TV Jornal do Commercio mantinha para os programas de auditório. Mas, nessa conversa, quero tomar por base, nos aos 70, a prática do aprendizado de dança no Recife, e podemos apontar Flávia Barros com a Escola de Ballet do Recife, fundado em 1972, formando pessoas em danças clássicas, e Flávia Barros teve entre seus alunos o Fred Salim.

Valdi Coutinho, ator e crítico de arte, publicou, no livro Palco da memória, os artigos de sua coluna “Cena Aberta” no Diário de Pernambuco e se dá conta de que abriu espaço para grupos de dança que nasciam nos anos 70 e 80, gente como Mônica Japiassu, que coreografou Morte Vida Severina, e O Capataz de Salema; Rubem Rocha Filho, que foi o diretor de Tempos perdidos… nossos tempos e Morte e vida Severina; Zdenek Hampl foi o coreógrafo de O capataz de Salema, que teve a direção musical de José Madureira, e também coreografou Lua Cambará, um texto de Ronaldo Lima Brito, também o e criador de A toda Prova; Zumbi Bahia e Ubiracy Ferreira fundaram o Balé Primitivo de Arte Negra; Carol Lemos, Lúcia Helena, André Madureira, este o fundador do Balé Popular do Recife. A dança foi um caminho que não ficou restrito aos jovens da classe média, mas que abria espaços para a participação de jovens das periferias da cidade, estas que fizeram o crescimento populacional da cidade nas décadas de quarenta e cinquenta com a migração e que, nos setenta e oitenta já exibia jovens nascidos na capital. Cabe destacar atuação do amazonense Nascimento Filho, rebatizado Nascimento do Passo pela atuação como difusor do Passo.

Nos anos setenta, algumas novidades que vinham sendo gestadas há algum tempo, tomam forma no Movimento Armorial pensado por Ariano Suassuna e outros intelectuais/artistas como Francisco Brenand (recentemente ele negou essa aderência), Raimundo Carrero, Samico que também disse “não aderi ao movimento armorial, fui colocado nele”, Ângelo Monteiro, entre outros , pretendendo criar uma arte erudita própria da região a partir da criatividade cultural nordestina, utilizando a música, a literatura, dança, teatro. Tendo sido iniciado na Pró-Reitoria para assuntos Comunitários da UFPE, logo o Movimento Armorial recebeu a adesão oficial dos governos do município do Recife e do estado de Pernambuco. Desse momento inicial vieram o Balé Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial, Quinteto Armorial. Aqui devemos recordar que Ariano Suassuna foi, em 1967, membro fundador do Conselho Federal de Cultura.

Voltemos ao depoimento de Valdi Coutinho:
“Nos anos 80 era muito difícil fazer um espetáculo de dança atraente para o público, que perdurasse muito tempo em cartaz, que retirasse da bilheteria o investimento financeiro. As escolas e academias lotavam as casas de espetáculo no final do ano, com familiares e amigos das garotas que se apresentavam preocupadas quase sempre em busca da perfeição técnica, mas sem qualquer expressividade dramática no rosto, sem dramaticidade na dança. Era um tabu para o homem estudar dança, enfrentando o preconceito do machismo, que era gritante especialmente no Nordeste. Mas isso ficou para trás, graças ao destemor de alguns que enfrentaram a discriminação mostrando que dançar era uma arte para ser exercida por ambos os sexos.”

E, sem dúvida, a arte teatral encontrou modos de sair do amadorismo histórico do Teatro de Amadores de Pernambuco para a profissionalização buscada por Hermilo Borba Filho desde o Teatro do Estudante até o Teatro Popular do Nordeste. O teatro foi sempre uma tradição e um local de exibição do bom gosto senhorial que, na segunda metade do século XIX fez construir o Teatro de Santa Isabel. Mas aqui estamos conversando como se viveu a arte nos anos da Ditadura Militar e, mantendo a ideia de que podemos iniciar nossa conversa tomando por base a presença de Dom Hélder Câmara, quero destacar que em 1974, Guilherme Coelho, postulante ao monacato beneditino e envolvido na Pastoral da Juventude, para comemorar os dez anos da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo, ARMA, montou o espetáculo Vivencial I, com improvisações sobre vários textos de dramaturgos e filósofos e jornalistas. Abordando assuntos polêmicos como homossexualidade, violência, drogas, política, tecnologia e massificação. A estreia ocorreu no colégio São Bento e o público recebeu o espetáculo com estranheza e encantamento. Desalojado do São Bento, o grupo peregrinou por diversos teatros e montou várias outros espetáculos como MADALENA EM LINHA RETA, JOÃO ANDRADE EM CONVERSA DE BOTEQUIM E UM AUTO DE NATAL ainda em 1974. O PÁSSARO ENCANTADO DE UBAJABA (1975) e, no mesmo ano, montou NOS ABISMOS DA PERNAMBUCÁLIA, de Jomar Muniz Brito. Em 1976, Jomard Muniz escreveu 7 FÔLEGOS especialmente para Pernalonga. O grupo também fez a montagem de SOBRADOS E MOCAMBOS de Hermilo Borba Filho, em 1977. O grupo atuou até 1983.

Várias outras experiências teatrais ocorreram no período, como a encenação da Paixão de Cristo, dirigida pelo professor Isaac Gondin Filho, em espaços ligados à diocese, mas sempre em áreas periféricas. Nesse espetáculo Jesus Cristo foi interpretado por um ator negro. Interessante notar no período o interesse pelo drama vivido por Jesus, seu projeto, prisão, tortura e morte, realidade que ocorria nos porões da ditadura. Em 1968 Plínio Pacheco, com texto escrito por ele em 1956, iniciou a encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no município de Brejo da Madre de Deus.

O caminho da profissionalização do teatro no estado parece ter início no sucesso de montagens realizadas na segunda metade da década de 70. Em 1975 foi montada CANÇÃO DE FOGO, de Jairo Lima que lotou o teatro; em 1976, Antônio Cadengue dirigiu A LIÇÃO de Eugene Ionesco. Essas experiências estão na origem da Praxis Dramática. A Companhia Praxis Dramática, realização de José Mário Austregésilo e Paulo Fernando Goes, foi fundada em 1976, e representou importante passo para a profissionalização do teatro em Pernambuco, iniciando com a montagem de ESSA NOITE SE IMPROVISA de Luigi Pirandello. Esta foi seguida por GALILEU GALILEI de Bertold Brecht e direção de Milton Bacarelli. Uma sequencia de grandes espetáculos como EQUUS garante a chegada dos anos 80 com TAL & QUAL NADA IGUAL, texto de Jomard Muniz Brito e direção de Guilherme Coelho; e na comemoração de 10 anos de sua primeira apresentação, encena VIVA O CORDÃO ENCARNADO, peça de Luiz Marinho.
Podemos ainda mencionar o quanto a poesia e a música foram espaços para a criatividade dos novos. Como não podemos citar a todos, pois o tempo não permite, lembremos de Don Tronxo, Ave Sangria, Marconi Notaro, Alceu Valença, Laíson, Lula Cortez e os festivais de música.

Quero não deixar passar a oportunidade de lembrar os festivais de Ciranda, iniciados no Bar Cobiçado, no Janga e que serviram de motivo para tornar essa dança coletiva e popular a dança da moda e, que durante anos embelezou o Pátio de São Pedro, local secular tornado, por um tempo, o espaço do turismo em Pernambuco nos anos de 1973 a 1980.

Poucos dias antes de meu sequestro ocorrido em agosto de 1973 escrevi um poema que assim diz: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo te ver hoje!

Como essa conversa procurou demonstrar, o amargor da ditadura não impediu a criação artística, o surgimento de expressões do belo, o belo que é a busca de toda a vida humana

BIBLIOGRAFIA
COELHO, Fernando. COELHO, Fernando. Direita, Volver: O Golpe de 1964 em Pernambuco. Recife: Editora Bagaço, 2004.
Dossiê dos Mortos e Desaparecidos políticos desde 1964. Amparo Caridade (Organizadora). Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.
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http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm

FIGUEREDO, Haroldo Morais. Vigilante Cura: uma educação cinematográfica nos colégios católicos de Pernambuco, 1950-1960. Doutorado em Educação. Recife: Centro de Educação, UFPE, 2012.
INTERPOÉTICA – http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=703&catid=0
NAPOLITANO, Marcos. 1964, História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.
NOGUEIRA, Armanda Mansur Custódio. O novo ciclo do cinema em Pernambuco, a questão do estilo. Dissertação de mestrado, Programa de Pós Graduação em Comunicação, Centro de Arte e Comunicação. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Mimeo.
RECORDANÇA – http://www.recordanca.com.br/?page_id=3732
COMO PROMETEU- Natanael SARMENTO, Luiz MAGALHÃES, Biu VICENTE. Recife: Edições do autor.
VICENTE, Tâmisa Ramos. Vamos Cirandar. Recife: Editora Universitária; Olinda: Associação Reviva. 2001.

Mortes, vidas, História

O que os olhos não veem o coração não sente, diz o saber comum, o que é comprovado diariamente no transporte coletivo lotado; e nas avenidas engarrafadas. Quem está no conforto não desvia seu olhar em direção do sofrer do outro, assim seu coração, sua mente não sente o impulso de tornar-se humano. O olhar provoca na gente vários sentimentos. Pode provocar o desejo sexual ao perceber o movimento do indivíduo do sexo oposto, fazendo as narinas arfarem provocadas pelo perfume atrativo; mas o olhar pode trazer a ternura que se ocupa do velho, da criança, e fortalece o humano.

Nesta manhã recebi várias mensagens que informavam a morte de pessoas. Algumas conheci pessoalmente; outras soube de sua existência por conta das ondas da vida que provoca cruzamentos estranhos, alguns dolorosos e todos com possibilidades de criação e, finalmente, outras foram pessoas de quem jamais soube, mas que pertenciam ao grupo de amizade e querência de algum amigo comum, mas que só a sua morte fez chegar a mim a sua vida. Pois bem, essas notícias vieram pelo facebook, um espaço onde as pessoas põem a cara e desnudam-se nessa praça pública virtual.

A notícia da morte de alguém vem sempre com um elogio, um comentário nem sempre elogioso. Embora diga-se que ‘todos os mortos são bons’ nem sempre os que comunicam a morte ressaltam os aspectos positivos do morto. Como diz outro dito popular ‘quem é ruim não morre’, para ressaltar a bondade do defunto ao tempo que deseja a morte de algum desafeto. Nessa praça podemos observar o caráter de quem escreve. Aliás, é essa uma das virtudes da escrita: expõe aquele que escreve. Pois bem, recebi a notícia da morte do ex-senador, ex-ministro (trabalho, educação), Coronel Jarbas Passarinho. Ele foi um dos que puseram a assinatura no Ato Institucional de número cinco e, mais ainda, motivou os demais ministros a assinar, com a famosa frase: danem-se os escrúpulos. As notícias de sua morte me chegaram, umas com o esquecimento sobre o AI5, coisa d Anistia Ampla Geral e Irrestrita, que foi acordada pelo general Figueiredo, e outras com bastante ódio, celebrando a sua chegada ao inferno.
Assim a gente vê como reagirm o ex-combatentes da ditadura (o primeiro caso) e quem nasceu durante a ditadura e só tomou conhecimento dela através de relatos orais ou escritos.

De qualquer modo Jarbas Passarinho eu o conheci quando lecionava no Colégio Radier, quando o ministro da Educação foi fazer uma palestra. Havia poucos anos desde a minha prisão/seequestro e vi-me diante de quem assinou aquela destruição da Constituição que já estava maculada. Vi o homem elegante e de bons tratos e, também vi o coronel que, quando jovem, em 1964, a pedido do Arcebispo de Belém do Pará, entrou na residência episcopal para prender o o jovem sacerdote Diomar Lopes, um dos pioneiros da introdução do pensamento de Theilhard de Chardin no Brasil, além de ter sido um dos assessores da CNBB na área teológica. Padre Diomar Lopes veio para o Recife onde lecionou no Instituto de Teologia do Recife e fez parte da equipe do Seminário Regional do Nordeste. Fui seu aluno e sou devoto de sua memória. Quanto àqueles que, por sua ideologia ou crença viveram de modo diferente do meu, o tempo dos homens, não a minha geração nem as que vieram em seguida, podem, isoladamente, definir o que há de perdurar na memória da Pátria nem como se dará essa lembrança. Anás, Caifás, Pilatos, Tiago, Pedro, João, César, Gregório, De Gaulle, Churchill, Stalin, Trotski, Roosevelt, Buda, Confúncio, Lao Tsé, Maomé, Mao tze tung, Ho Chin Min, Jesus, Lampião, Mussoline, Machado de Assis, Olavo Bilac e tantos outros estão na História e na memória de muitos, cada qual com o seu cada qual.

A morte é um evento biológico, não uma condenação; Para o humano é a consciência da vida, também não é uma condenação pelos atos cometidos.

Uma visão sobre livros e bibliotecas desde a Antiguidade ao início da Idade Moderna

UMA VISÃO SOBRE LIVROS E BIBLIOTECAS DESDE A ANTIGUIDADE AO INÍCIO DA IDADE MODERNA
Prof. Dr. Severino Vicente da Silva
Departamento de História – UFPE

Reunimo-nos, neste espaço, por algum tempo, com o objetivo de pensar um pouco sobre o hábito de recolher informações, organizá-las e pô-las à serviço de muitas pessoas. São essas informações conhecimentos que o homem, socialmente, vem produzindo por sua observação e transmitindo de maneira aberta, quer dizer, informações organizadas, aptas para serem modificadas e aperfeiçoadas por quem interessar-se por elas.

CÉREBRO
Armado de um dispositivo complexo que lhe permite ver, sentir, tocar, cheirar saborear a natureza que o envolve, o homem dela se separa nesse processo de recolher informações, analisá-las e dar-lhes sentidos. O Cérebro humano mais que acumulador de informações físicas, tem a possibilidade de dar-lhes sentido. Assim, diferentemente dos demais animais, pode afastar-se do mundo natural e criar um novo mundo, o mundo cultural. E, se o corpo humano, como o s corpos dos demais seres vivos, carregam diversos espaços de acumulação de informações em suas células, o que lhe permite a vivência e sobrevivência, o cérebro humano ultrapassa esse patamar, além de acumular as informações criadas ao longo do processo de formação do planeta e dos seres que nele habitam. E na ultrapassagem desses limites, forma e faz crescer sua segunda natureza, a sua natureza cultural. O cérebro parece ser o local especial para acumular as experiências a que cada homem é exposto, mas não é apenas um lugar de guarda, mas um local de reorganização dessas experiências dentro de um sentido, utilizando as múltiplas possibilidades do cérebro, como a capacidade de planejar, assim guarda o conhecimento adquirido, não o usa de imediato, mas o agrupa para um uso posterior.
1. Nascemos com pouco saber, melhor nascemos sem saberes, somos neotênicos, Embora o cérebro de homem e de uma mulher adulta esteja entre 1200 e 1400 gramas, ao nascer ele tem apenas 300 gramas e não vem com muitas informações. O cérebro de um bebê está organizado apenas para dormir, chorar, comer. O cérebro é uma possibilidade e dependerá dos estímulos para que cresça suas potencialidades. Isto quer dizer que nós guardamos características embrionárias ao nascer, e continuamos a nascer após o nascimento, ficamos crianças muito tempo e brincamos, e quanto mais brincamos mais estimulamos o nosso cérebro, mais aprendemos e ampliamos o nosso suporte primeiro de conhecimento. E muito do que aprendemos pode ser esquecido e, então é necessário planejar o não esquecimento. Vem a necessidade de guardar o conhecimento já produzido. Assim é que os homens criaram e criam lugares onde podem guardar materialmente esse conhecimento que é do interesse do grupo. É esse interesse por guardar o conhecimento que interessa que levou à construção das bibliotecas.

2. A guarda dos conhecimentos exige o suporte, o recipiente que receberá o conhecimento codificado em alguma linguagem. Esses suportes têm mudado ao longo do tempo. Os suportes eram de início, mineral, usavam-se pedras, pequenos tijolos fabricados especialmente para essa função. Eram guardados para uso de algumas poucas pessoas e esse conhecimento assim posto, estava fora do alcance da maioria dos homens. Mas o conhecimento não era guardado para uso de toda sociedade, não era visado o uso público, a sua guarda visava mais proteger dos olhos dos estranhos e era muito difícil, quase impossível, entrar em contato com essas tábuas, ou tabletes. Apenas os iniciados tinham acesso a esses conhecimentos. O conhecimento sempre foi fonte do poder. Algo sagrado, que os deuses permitiam a alguns mortais. Durante séculos foram os sacerdotes das mais diversas culturas e civilizações os guardiães do saber e da arte de escrever.

3. Embora não tivessem criado os tabletes de argila para a escrita, os assírios montaram uma imensa biblioteca, da qual o Museu Britânico possui mais de 25.000 fragmentos. Foi Assurbanipal II que mandou organizar tal acervo, que tem sido apontado como a primeira biblioteca indexada. Entretanto, Nínive não foi a única cidade assíria a possuir esse equipamento que também foi instalado em Assur e Nippur. Fragmentos que hoje possuímos dessas bibliotecas ficaram soterradas desde a destruição do Império Assírio, ocorrida em 612 aC até 1845, quando foram encontrados por Sir Henry Layard.

4. Em seguida veio o papiro. Ainda guardando documentos apenas para alguns pequenos grupos, o suporte criado com argila foi superado por um suporte de origem vegetal, o Papiro, feito a partir das folhas de uma planta (papiro) que amassadas e postas a secar passavam a receber tinta negra, guardando traços ideográficos e hieróglifos.

Esses papiros eram guardados em forma de rolo e foram muito utilizados até a invenção do Pergaminho.

GRÉCIA e MUNDO HELENÍSTICO
5. Interessante lembrar a cultura grega foi, em sua maior parte, uma cultura oral e a Paidéia era transmitida oralmente pelos responsáveis pela educação do jovem, o que permitiu a permanência dos poemas homéricos até que fossem postos em escrita. Os debates na Ágora não eram registrados. Fala-se muito da biblioteca de Psístrato, tirano que governou Atenas por dezenove anos, a partir de 527 ac.. Foi nesse período que ele mandou construir uma biblioteca pública e fazer a compilação dos poemas de Homero. Mas, de maneira geral as bibliotecas gregas eram particulares e talvez por isso tenham pouco espaço nas pesquisas e na produção historiográfica.
Os volumes dessas bibliotecas particulares, aqueles que não foram destruídos, terminaram por fazer parte do acervo da Biblioteca de Alexandria.

PÉRGAMO

6. Uma das características da humanidade parece ser a sua constante insatisfação com o já criado e a consequência disso é a avalanche de inovações e novas criações vindas da constante reorganização dos conhecimentos acumulados. Ao mesmo tempo, a natureza física e a natureza cultural estão sempre impondo novos desafios aos grupos humanos, e é o enfretamento desses desafios que fazem a sociedade avançar, estabelecendo novos limites a serem superados. A necessidade de superar as necessidades geradas pelos desafios e questões novas. Assim ocorreu também como suporte das informações. Questões políticas levaram à invenção do Pergaminho, um suporte que veio a ser alternativa ao papiro.
O Pergaminho foi criado, ou inventado, na cidade de Pérgamo, na Ásia Menor, região hoje conhecida como Turquia. À época que estamos nos referindo, a cidade tinha uma população estimada em 200.000 habitantes. Pérgamo se viu obrigada a abandonar o papiro como suporte, por conta de guerras que impediam a chegada do material necessário para a escrita dos documentos.

No século III aC. Os governantes de Pérgamo – Átamo I e seu filho Eumenes II, eram colecionadores de livros e pretendiam rivalizar com a famosa biblioteca de Alexandria. E mandou encontrar uma maneira de substituir a folha de papiro como suporte. Com essa invenção, o suporte da escrita passa a ser de origem animal, uma vez que o pergaminho era produzido a partir da pele de carneiro. Fala-se que esta biblioteca chegou a possuir cerca de duzentos mil pergaminhos. A cidade perdeu sua autonomia, primeiro para os gregos e, depois, para os romanos. A sucessão dos impérios e os sentimentos apaixonados marcam a evolução do conhecimento, seja para a sua guarda seja para a sua destruição. O Triúnviro romano Marco Antônio, que dividia o poder com Pompeu e Júlio César, apaixonado por Cleopatra, presenteou-lhe os livros da biblioteca de Pérgamo que foram levados para Alexandria. Teria sido a paixão amorosa que levou à destruição da biblioteca de Pérgamo, para o engrandecimento de sua rival.

ALEXANDRIA

7. Importante centro econômico na Antiguidade Clássica, a cidade de Alexandria tem sua fama mantida no tempo pela grandiosidade de sua biblioteca, cuja fundação deve remontar ao séc. III aC, sob o governo de Ptolomeu II. O objetivo de sua existência era a guarda do conhecimento que havia sido produzido pela experiência egípcia. Parece que inicialmente estaria focada no que foi invenção da experiência egípcia, mas veio a receber obras atenienses, e também foi enriquecida com obras das regiões mais ao Oriente, conquistadas por Alexandre da Macedônia.
Como temos poucos dos milhares de rolos de papiros que formavam seu acervo, é mais comum falarmos dos incêndios que marcaram a sua existência. Diz-se que Júlio César foi responsável por um dos incêndios, pois que, para evitar a fuga de um dos assassinos de Pompeu, mandou por fogo em todos os navios do Porto de Alexandria e, por destino, o fogo atingiu parte da biblioteca que ficava próximo ao porto. Mas a destruição final deve ter ocorrido quando o imperador Aureliano manteve guerra contra a rainha Zenóbia, no ano de 272. A mais famosa e popular história sobre a destruição da biblioteca de Alexandria é a que fala de um governante de religião muçulmana Amr Ibn al-As que a mandou destruir por ser desnecessária, uma vez que tudo que é digno de conhecimento já está posto no Alcorão e o que ali não estiver não vale ser conhecido. Correria o ano de 642.
Tudo indica que foi nessa biblioteca que os setenta sábios reuniram-se para definir o Cânon bíblico, que veio a ser a base da Bíblia oficial dos cristãos.

8. Ao longo de sua existência, a Biblioteca de Alexandria teve famosos responsáveis por ela, deles citamos Euclides (C 300), (considerado o Pai da Geometria; Aristarco de Samos (310 aC-230aC), astrólogo que primeiro fez estudos sobre os movimentos dos planetas em torno do sol; Calimaco (ca 305 -240 aC) que fez organizou o primeiro catálogo da biblioteca, marcando dessa forma o início do controle bibliográfico; Erastóstenes, que calculou a circunferência da terra; Galeno (129-217), que organizou o conhecimento médico e influenciou sua prática por centenas de anos; Hipátia , matemática e que sofreu a intransigência dos cristãos no século IV. Foi o último suspiro da filosofia pagã, até então estudada na academia.

ROMA
9. Influenciados pelos gregos, os romanos mantinham suas bibliotecas privadas, algumas formadas em espólio de guerra, como é o caso da de Paulo Emílio quem, após a conquista da Macedônia, tomou para si a biblioteca do rei Perseu e a deu a seus filhos. Cornélia, esposa de Júlio César mantinha um “salão de literatura aberto a tudo que a Grécia” contava, o que pressupõe a existência de livros que eram usados nas reuniões. Importante ressaltar aqui que foi iniciativa de Júlio César a criação de bibliotecas públicas, em Roma talvez, influenciado por sua experiência em Alexandria. Em todas essas bibliotecas, eram as obras gregas que forneciam a substância intelectual para os aristocratas romanos. Mas, quem realizou as pretensões de Júlio César é Asínio Pólio e Públio Terencio Varrão, ao construir a primeira biblioteca pública em Roma, no Atrium LIbertatis, local dedicado à crítica literária. Dois séculos depois, especialmente após o limite da expansão romana sob o império de Trajano, Adriano (76-138), da família Nerva-Antonina, criou o Athenaeum e o proveu de uma biblioteca atinente aos estudos do direito, filosofia, geografia, medicina, cálculo, geometria.

IGREJA CRISTÃ

10. Mais do que conquistar os homens simples com a sua mensagem, o cristianismo também seduziu aristocratas e “intelectuais” romanos que defenderam e explicaram a sua doutrina. Interessante notar que duas grandes cidades helenísticas – Alexandria, no Egito e Antióquia, na Ásia Menor tornaram-se centros de conhecimento e de especulação religiosa para os cristãos. Eram duas das três maiores cidades do Império e os cristãos ali se estabeleceram, com seus bispos e sábios (Clemente, Orígenes, Tertuliano, Cirilo, Cipriano em Alexandria; Gregório, o taumaturgo, Luciano.) tornando-se referência para a doutrina que se organizava. As Escolas Catequéticas pressupunham bibliotecas, espaços para o debate das ideias.
O cristianismo foi uma das religiões de mistério que seduziam os pobres de Roma no período da passagem da República para o Império. Diferentemente do Mitraísmo, e dos Mistérios de Isis, o cristianismo não ficou apenas nas cidades, mas logo passou a fazer proselitismo no campo, o que lhe garantiu vigor que fez, no século IV, Constantino abandonar o culto a Mitra e assumir uma das vertentes do cristianismo, o nestorianismo , embora fortalecesse a linha que veio a tornar-se a ortodoxia ocidental.

11. Ora, sendo o Cristianismo uma religião que se propaga pela palavra, e não apenas pelas palavras ditas, pela tradição oral, desde cedo entendeu que era necessário colocar em letras as verdades em que acredita, essa palavra há de ser escrita; e ela o foi desde o princípio. Assim temos as cartas de Paulo, de Pedro, as cartas e o Evangelho de João, o Evangelho de Mateus, o Evangelho de Lucas e o seu relato dos Atos dos Apóstolos, o Evangelho de Marcos, a carta de Tiago, a carta de Judas. Os livros escritos por esses homens e todo o Antigo Testamento foram posto em latim por Eusébio Jerônimo, ou simplesmente São Jerônimo (347 – 420). O livro garantiu a manutenção da ortodoxia e a força social do cristianismo.

12. Esses escritos foram definidos como básicos e canônicos. E tudo havia de ser guardado, conservado para ser transmitido fielmente. E assim foram estabelecidas escolas nos mosteiros desde a orientação de São Martinho de Tours, na Gália e de São Patrício, na Irlanda . Os monges com suas palavras e o livro, conquistaram a Europa, construindo mosteiros que se tornaram centros das comunidades aldeãs.

O MEDIEVO

13. O declínio das cidades romanas levou parte da população para o campo. Isso ocorreu também entre os nobres romanos convertidos ao cristianismo. Alguns desses recusavam a adesão ao barulho das cidades e a certo laxismo que tomava espaço nos ambientes cristãos. Nessa época já havia chegado à Itália, originária do norte da África, uma tendência de isolamento, de afastamento das coisas seculares. Antão ou Antônio viveu como anacoreta, dedicado ao estudo e ao aconselhamento. Seu exemplo cativou a muitos.

14. No século seguinte, o aristocrata romano convertido ao cristianismo, Bento de Núrsia com sua vida, inicialmente anacoreta e depois cenobita, e a Regra com a qual organizou a vida das comunidades que criara, abriu caminhos e as veredas para a formação do chamamos hoje de Europa. Os mosteiros que nasceram a partir de Monte Cassino, além de abrir espaços para a oração e para a organização do trabalho agrícola que alimentou os povos medievais, também realizaram trabalhos em seus escritórios de copistas e as bibliotecas dos mosteiros foram a guarda de muitos saberes. Em uma época de medo e terror pelas guerras entre os senhores ou invasões dos povos nórdicos, os mosteiros se tornaram espaços de tranquilidade e estudos. E o manuseio do livro era incentivado, como está escrito no capítulo 48 da sua regra:

“Depois da refeição, entreguem-se às suas leituras ou aos salmos. 14. Nos dias da Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira, entreguem-se às suas leituras, e até o fim da décima hora trabalhem no que lhes for designado. 15. Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e leiam-nos pela ordem e por inteiro; 16. esses livros são distribuídos no início da Quaresma. 17. Antes de tudo, porém, designem-se um ou dois dos mais velhos, os quais circulem no mosteiro nas horas em que os irmãos se entregam à leitura.

15. Livros que são organizados nos escritórios e que são entregues aos monges para leitura. Incentivo à leitura, cuidado com o silêncio necessário à reflexão e aprendizagem. Assim forma-se e se molda o espírito europeu. Mais tarde, outra renovação ocorre com os beneditinos de Cluny (sec. X) que, ainda que mantivessem a tradição de trabalho, dedicam-se mais ao Opus Dei, na celebração da missa, agora com os monges recebendo a ordenação sacerdotal para que possam, eles mesmos, celebrarem os atos litúrgicos. Entretanto continuam com o trabalho de copiar livros para suas bibliotecas. Ora, Labora et legere, eis o lema formador.

16. Essas bibliotecas dos mosteiros, não apenas os beneditinos, mas os de outras ordens, como a de São Patrício, promoveram a formação de muitos monges eruditos, como é o caso de São Beda, o Venerável (672-735) autor de muitos livros e proclamado Doutor da Igreja. E quando o feudalismo como sistema começa a soçobrar e as cidades episcopais crescem, foram elas que deram continuidade aos estudos. As Escolas das catedrais, ou Episcopais, foram base para a formação das universidades, que nasceram sob o manto dos bispos e do papa. E novas ordens religiosas são criadas nas cidades, formadas pelos jovens sedentos de ação e de conhecimento, como é o caso dos Franciscanos, dos Dominicanos e outras.

17. Mas devemos olhar ainda para o mundo cristão oriental, que Bizâncio como centro. Bibliotecas particulares, pertencentes a imperadores e/ou nobres guardaram os textos gregos que foram de grande valia para fundamentar e auxiliar a refletir os anseios do europeu à vésperas e no Renascimento do início da Idade Moderna. A pressão dos Otomanos provocou uma migração de sábios que chegaram às cidades italianas com seus livros e sua erudição que em muito enriqueceram o conhecimento e a imaginação dos florentinos, genoveses, romanos. Além disso, trouxera novos alentos aos estudos universitários no momento em que o livro de papel estava sendo inaugurado. 1440 foi ano que deu início à sociedade gutembergiana.

18. Esses novos estudantes, vindos das muitas nações, unem-se para receber o conhecimento que transborda dos mosteiros e dos conventos e formam universidades. além das sebáceas que os acompanhavam, tinham, os mais ricos, seus próprios livros, mas os tinham os professores e a própria universidade que não pode existir sem esses livros.

19. O novo suporte de informações veio a facilitar o seu transporte, bem como a sua organização, tanto em grandes bibliotecas, como nas pequenas, essas coleções residenciais que começam a ser comuns. Assim, os que podem, criam espaço em casa para acomodar os volumes que adquirem. No século X VI o livro já era comum, o que nos demonstrado por pinturas da época.

20. Nos tempos modernos uma das ocupações é escrever e guardar livros, tê-los em casa ou nas constantes viagens que faziam. Se Dante escreveu a (Divina) Comédia tomando muito tempo e em casa, Erasmo escreveu O Elogio da Loucura enquanto viajava. Cresce o número de livros editados e muitos o podem ter em casa. Durante e após o Renascimento as novas construções para moradia reservavam espaço para a leitura e crescia o número de bibliotecas residenciais. As academias fizeram surgir uma República das Letras.

21. Em 1450, o papa Nicolau V determinou a organização dos livros dos papas anteriores e seus manuscritos, dando início à Biblioteca do Vaticano, a mais antiga das bibliotecas modernas. A biblioteca possui 8 300 incunábulo, 150 milhares de códices manuscritos, 100 milhares de gravuras, além de milhares de objetos artísticos e moedas.

22. Grande colecionador de livros Mazarino promoveu a criação da Academia Francesa, doando seus livros e animando homens e mulheres de seu tempo a cultivarem o prazer de ter, ler e debater as ideias postas nos0-´ livros, colocados à disposição dos interessados.

Bibliografia

BALARD, Michel e outros. A Idade Média no Ocidente: dos bárbaros ao Renascimento. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1994.
BRONOWSKI, J. A escalada do Homem. São Paulo: Martins Fontes; Brasília: Editora Universitária de Brasília, 1979
GIORDANI, Mário Curtis. Roma. Petrópolis: Vozes, 1972.
SANTOS, José Machado. O processo evolutivo das Bibliotecas da Antiguidade ao Renascimento. Revista Brasileira de Biblioteca e Documentação. Volume 8, n. 2 , 2012.
TREVOR-ROPER, Hugh. A Formação da Europa Cristã. Lisboa: Editorial Verbo, s/d
TUCHMAN, Barbara W. The march of folly, from troy to Vietnam. Nova York: Ballantine Books, 1985.

13 de Maio – celebrar a liberdade

Amiga de longas datas, cuidadora das tradições que lhe chegaram pelo leite materno e pela carícia paterna, além daquela que a história cotidiana lhe pôs na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, fincada em uma colina menor, fora da cidade Duartina, mas no centro de um cultura relegada ao esquecimento e negada por revisores da história que, julgando encontrar luzes em corrente iluminista do século XIX, revigorada pela poeira que a queda de um muro levantou, pergunta: por que o esquecimento deste belo dia 13 de maio?

Pesquisadores das tradições do Recôncavo Baiano fizeram uma pergunta interessante. O que levou o mulato Dorival Caymmi escrever a bela e simples canção Maracangalha? Aquele lugar que as pessoas de dispunham a ir sem Anália, mas de chapéu palha e uniforme branco? Que evocações estão nessas palavras que tanto sucesso fizeram e garantiram fama a esse baiano brasileiro?
Maracangalha é, hoje, um distrito da cidade de São Sebastião de Passé e, parece, ali havia uma fazenda onde, desde 1888 havia um grande festa no dia 13 de maio, e esta festa ficou na tradição e, quando Dorival Caymmi nasceu em 1914, e na sua juventude ouvia falar nesse lugar maravilhoso onde ex escravos e seus filhos dançavam em louvor à liberdade. E muitos de nós ainda sonhamos com esse lugar tão bonito, Maracangalha, lugar de nossos antepassados. Mas vieram os novos tempos e as novas interpretações históricas, novas escolhas e, como coadunar a tradição de gente tão simples com as complexas equações iluministas da luta de classes? E como manter essa tradição se se deseja que todos sejam Zumbi, guerreiros sem jamais imaginar que seja possível além da equação “matar ou morrer”? Assim, desde algum tempo luta-se para esquecer o Rosário dos Pretos, as Irmandades de São Benedito, as Irmandades de São Cristóvão, Luiz Gama, José do Patrocínio, Cruz de Rebouças, Marcílio Dias, Antônio Faustino, Henrique Dias, e tantos outros, negando a bravura desses nossos antepassados e sua bravura, definindo o acontecimento de 13 de maio de 1888 como sendo um “golpe dos brancos”. Mas ela foi mais que isso, foi uma luta de homens e mulheres negros livres, que compraram sua liberdade, que auxiliaram outros a serem livres, unidos a homens e mulheres brancos comprometidos com a vitória da humanidade contra a barbárie. Como nos lembra José Murilo de Carvalho:
“A batalha da abolição, como perceberam alguns abolicionistas, era uma batalha nacional. Esta batalha continua hoje e é tarefa da nação. A luta dos negros, as vítimas mais diretas da escravidão, pela plenitude da cidadania, deve ser vista como parte desta luta maior. Hoje, como no século XIX, não há possibilidade de fugir para fora do sistema. Não há quilombo possível, nem mesmo cultural. A luta é de todos e é dentro do monstro.”

SALVE 13 DE MAIO

Biu Vicente em Homenagem à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de Olinda.

Fertilidade, chuvas e modernidade rarefeita

O mês de maio tem recebido muitos significados ao longo do tempo, representando muitos sonhos primaveris. Assim tem sido lembrado pelos que vivem no hemisfério norte da terra, costume que foi seguido pelos grupos humanos que foram afetados pela expansão da civilização europeia. Assim é que, para lembrar a fertilidade da terra festivais eram realizados e deram origem às grandes religiões, coisa séria que, apesar do ar festivo, o Maio era o momento de celebrar núpcias e dar início ao processo de renovação da vida.

No Recife e no litoral pernambucano, o mês de maio parece ser um momento especial para as grandes chuvas, ao menos a cada trinta anos. No passado, quando os pântanos ocupavam as várzeas do Rio Capibaribe, era coisa sem maior importância, pois as águas do rio também traziam o enriquecimento do solo para a agricultura. Mas ao final do século XX, após o processo que transformou áreas de agricultura em áreas residenciais, as chuvas de maio trazem graves problemas. Em 1975, a enchente do Capibaribe e as chuvas tornaram explícito que o processo de urbanização não considerou o espaço para o rio, da mesma forma que lembrou a necessidade de cuidar melhor da parte da população que foi levada a morar nos morros. Daquela chuva de três dias surgiram novos bairros na cidade que foi se aproximando de Jaboatão. Situação semelhante, dez anos antes, fez nascer a Operação Esperança, liderada por Dom Hélder Câmara para animar a solidariedade dos mais pobres e com os mais pobres. Era uma tradução prática do sonho do Irmão Roger, de Taizé. Além disso, para cuidar dos homens, os governantes da época tomaram a decisão de domar o rio e cuidaram de construir uma barragem. Mas o cuidado com os homens foi menor, e neste ano de 2015, sem a enchente, as chuvas mostraram que a cidade não se organizou culturalmente para a nova sociedade, e os hábitos rurais da população que foi escorraçada para a expansão da agricultura, permanecem na cidade. Educados para viver de forma quase natural, a população – pobre ou rica – do Recife e suas vizinhas, não se habituou, ou não aprendeu, as novas exigências da guarda dos resíduos que produz, pois, nesta nova sociedade, eles não são absorvidos naturalmente.

E maio vai sendo marcado pelas invasões das águas sobre as ruas e as casas, pois foi próximo aos rios e a antigos riachos que novos conjuntos habitacionais foram construídos sem considerar a natureza. Esse fenômeno pode ser encontrado em quase todas as capitais brasileiras que, desejando muito serem reconhecidas como modernas, fazem rápido curso de Atualização Histórica, como ensinou Darcy Ribeiro, e vivem uma modernidade superficial, uma modernidade de consumo, mas sem entender o que e porque consome tanto. Maio, que era o mês da fertilidade, agora vai se tornando o mês do temor das chuvas. Mas essa situação vale apenas para os que cultivam a memória, como os festivais antigamente faziam.

No mais, é como canta o poeta quase moderno: “deixa a vida me levar, vida leva …”
E esse desleixo vale também para outra parte da vida política, como comprova o comportamento de um deputado, crescido nas férteis áreas da corrupção da Ilha do Maranhão. Mas isso é outra história.