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Todos os atos cívicos livres valem à pena

Na manhã seguinte à manifestação do povo através do voto, observo a facilidade com que se diz que o povo está enganado por ter votado certo, e votar certo teria sido votar como a pessoa que escreveu votou.

Nos anos que vivi na ditadura recente, sempre que o povo elegia majoritariamente pessoas não ligadas ao poder  que então comandava o Brasil, log em seguida  surgia uma legislação mudando a lei eleitoral.  Agarrados ao poder ficavam em desespero quando o povo dizia: ‘não estamos contentes com vocês, não queremos o seu governo’.  Hoje pela manhã  já li um democrata pedindo uma “constituinte exclusiva” para que a reforma política fosse feita. Era uma resposta que ele dava a outra insatisfeita com o resultado da urna. Para esses, o povo está errado por não ter votado em sua candidata à presidente. Tive a sensação de ler um  jovem pensando como Ernesto Geisel.

Recebi um recado de uma professora, pessoa que vi nascer e crescer juntamente com seus pais, ao longo do período ditatorial. Ele um operário e, como eu organizador do Conselho dos Moradores no nosso bairro. Lutamos juntos contra a ditadura militar, lutamos pelos nossos direitos, os Direitos humanos. Estivemos no mesmo palanque que lançou o movimento Pressão Moral Libertadora, de Dom Hélder Câmara, em ato público na matriz de Casa Amarela. Juntos nós vencemos a ditadura e continuamos a construir a democracia. Ele fez opção partidária para continuar a luta, e eu, por outro lado preferi ficar sem filiação partidária, mas sempre caminhando com pai da jovem. Preferi não ter compromisso partidário, continuar na Igreja como simples fiel da democracia. Continuei lutando, mas não por um projeto de poder. Nesta eleição, após muitas notícias de desmandos, corrupção, clientelismo, uso da máquina governamental para fortalecer o projeto de poder e não apenas a liberdade de pensamento de opções, o povo votou dizendo que os partidos devem repensar as suas ações e não os tratar como animais de estimação. Votei  com o povo e não com o partido, continuo lutando pela liberdade de pensamento e ação e, por isso o desencanto da filha de meu companheiro, que poucos dias antes de sua morte conversou comigo sobre a possibilidade de formação de um grupo de estudos sobre o comportamento ético na política. A filha de meu amigo disse que lamenta a minha posição política e cobra a minha história. Ela acha que “é uma pena”. Eu digo: Não, cara amiga, eu não considero uma pena ter lutado pelo fim de uma ditadura – inclusive com prisão -, não considero uma pena continuar lutando para nenhuma ditadura venha a escurecer o Brasil, matar a sua alegria com pão e circo. Nem mesmo considero uma pena a sua “pena”, pois é assim que é nas democracias: podemos pensar diferentes e nos respeitarmos.  E seu comentário até me deixa contente. Foi para essa abertura de pensamentos e ações que seu pai e eu lutamos juntos, em algum momento, mas nós sabíamos que não concordávamos em tudo.

Biu Vicente

Rio São Francisco: entre a Canastra e os canastrões

Setembro descamba para o seu final mais uma vez. Começou com muita chuva aqui no litoral mas deixando permanecer a secura do sertão. Neste setembro, que em nosso hemisfério é o tempo da primavera, mas que parece ser de menor tamanho que as demais estações, pois aqui em Pernambuco o verão chega rápido, e os da terra costumam festejar sua aparição já no Sete de Setembro, talvez fazendo uma referência, ainda que inconsciente entre as aquarelas que a luz solar revela e a liberdade sempre desejada, pois ela é como o amor: sua conquista é diária.

Esse tempo de verão trouxe a notícia de que a principal nascente do Rio São Francisco está secando, está seca. Cansou de chorar as águas para formar o Rio da Integração Nacional, como aprendi na escola, só compreendendo muito mais tarde refletindo sobre o traçado de seu leito que corre “do sul para o Norte”, escondendo-se, vez por outra. Interessante que a fonte da “unidade nacional” esteja secando neste tempo. Em épocas anteriores, quando se rasgava o peito das aves para descobrir o futuro, os homens buscavam entender esses sinais e os relacionavam com o seu cotidiano. Poderíamos fazer o mesmo nos dias de hoje, cheio ‘de racionalidades objetivas’?

Nesses últimos anos deu-se a querer cumprir promessas feitas no passado por quem não tinha grande noções sobre o que dizia, embora fosse pessoas interessada em buscar saber o que estava sendo pesquisado em seu tempo. Pedro II, que assistia as nações industrializadas rasgando a terra em busca de carvão, ouro e prata, que sabia dos projetos do Canal de Suez e do Panamá, em momento de poesia e perplexidade, sem perceber que para o acontecimento dos projetos é necessário mais que o discurso, informou seu sonho de transpor as águas do Rio São Francisco para dessedentar a população do sertão. Não sabia ele que os sertões sempre foram habitados e os que lá viviam conviviam com a seca em processo de transumância. A Lei da Terra, criada em meados do século XIX, começou a destruir a movimentação da população para as terras da margem do grande rio. A Lei que o povo chamava de “Lei da Cerca” gerou uma realidade que invadia São Cristóvão, no Rio de Janeiro. E a seca virou questão social.

Cem anos depois, governantes que se gabam de não estudarem, resolveram colocar em prática o sonho de Pedro II, um sonho que pretende (ou pretendia) garantir que água do São Francisco chegasse ao sertão mais distante, das margens. Muitos foram os que disseram da incúria de tal projeto, grandioso como as torres da Babilônia, torres construídas para evitar que as pessoas conversassem sobre o que lhe interessava de verdade, mas que discutissem apenas sobre: será que estou produzindo tijolos suficientes para construir a torre que o patesi e seus sacerdotes desejam?  Assim ocorreu em anos recentes, e nenhum dos auxiliares do patesi quis ouvir os clamores, de que outra poderia ser a solução, além desta que não modifica a Lei da Terra nem muda o jeito do povo viver sem respeitar as leis da natureza. Dizem as tradições que a Torre de Babel foi abandonada porque chegou um momento que seus construtores – engenheiros, líderes políticos, os trabalhadores produtores e carregadores de tijolos não mais se entendia. Quanto tempo durou entre a decisão de construir a Torre e o seu abandono porque aqueles que não entendiam o que faziam nem se entendiam entre si, não há resposta objetiva, mas a Torre foi abandonada em meio da construção, restando apenas pedaços do que ela seria. Enquanto tudo isso acontecia, engenheiros e sacerdotes continuavam seus estudos e pediam incentivos para a glória do patesi, que ouvi envaidecido declarações de amor de seus auxiliares, ansiosos para se manterem no serviço do seu patesi, evitando, para si, a fome que a seca produz.

Setembro descamba em outubro e, em sua primeira semana, há o dia dedicado ao Louvor de São Francisco, o que tece seu nome colado ao nome do rio que, de tão forte avançava léguas sobre o mar, como diz Américo Vespucci. Maltratado o Rio, o Atlântico está invadindo o seu território. Suas águas foram domadas pela indomável ânsia humana de tudo controlar e agora a Serra da Canastra informa que está faltando água para o Velho Chico.

O dia é quatro de outubro. Neste ano, no dia seguinte, engenheiros, sacerdotes, trabalhadores irão votar. Será que lembrarão da Serra Canastra? Será que os canastrões continuaram a receber loas de amor em troca da continuidade da distribuição de sopas de cebolas, como as do Egito e da Babilônia?

Biu Vicente

Três mananciais: Abelardo, Opara e Capibaribe

 

Neste 23 de setembro de 2014 algumas notícias nublam os nossos sonhos. Embora passageira, a presença do juiz/advogado dos mensaleiros na presidência da República pois a titular viajou para a reunião da ONU, e os substitutos imediatos estão impedidos de assumir por conta da legislação eleitoral, não me deixa feliz. Com o exercício da presidência por alguns dias, esse advogado é capaz de ganhar mais uma aposentadoria, afinal, as leis têm seus meandros e razões mais razoáveis que as do amor à pátria.

Mas a presidente está em Nova Iorque para participar de uma reunião sobre as mudanças climáticas no planeta. Talvez seja a oportunidade de ela explicar a obsessão por transpor águas do Rio São Francisco. Claro que o seu criador fez esse faraônico projeto para afirmar-se maior que o prometedor inicial, o Imperador Dom Pedro II, ainda no século XIX. Assim, nos albores do século XXI, sem considerar o estrago que a civilização e a ocupação desordenada dos sertões ao longo dos últimos cento e cinquenta anos, foi decidido que, apesar das muitas considerações contrárias à iniciativa, o faro da reeleição levou o líder sebastianista (essa anacrônica herança lusa) a manter o projeto. Agora nos vem a notícia de que a nascente do Rio São Francisco, na Serra da Canastra secou. Hidrelétricas, ocupação das margens de modo irregular, destruição da mata que embeleza e fortalece o rio, nada disso é levado em consideração quando se trata de anunciar projetos e ilusões. Quem visitou a foz do Rio São Francisco já sabia que o Rio perdera sua força.  Técnicos alertaram, estudos de diversas universidades foram jogadas na lata do lixo. Agora já é hora de explicar os malfeitos – que são causa e efeito do atraso – e, pensar que é necessário conviver no semiárido sem tornar árido o que ainda estava molhado e regando esperanças. Sim, as notícias informam que o manancial do OPARA está sem jorrar água.

Aqui em Pernambuco estão destruindo, no município de Poção, a nascente do Rio Capibaribe, que já some em alguns de seus quilômetros em direção do Atlântico. E, nesse estancamento de mananciais, hoje o coração, a emoção, o brilho criativo dos olhos de Abelardo da Hora também parou. Todos os que amamos o homem devemos lamentar a perda que esta morte traz, mas devemos louvar o artista que soube retratar tão belamente os MENINOS DO RECIFE, e soube também colocar em pedras a beleza e a sensualidade das mulheres que sonhamos e tocamos; devemos glorificar o Abelardo que soube ver, na Hora, os VARREDORES DE RUA, os PASSISTAS e que pôs em azulejos maravilhosos a saga de Joaquim Nabuco.

Ainda podemos evitar a morte do Rio Capibaribe que banha São Lourenço da Mata e outras cidades e que alimenta a população do Recife; talvez seja possível alguma “ação emergencial” na Serra da Canastra, algum projeto de reflorestamento das margens do Opara. Ainda poderemos ter essas águas conosco. E conosco sempre teremos o espírito da militância democrática de Abelardo da Hora; Saberemos dizer às novas gerações do seu entusiasmo com a criação artística e a formação de novos sonhadores na arte de viver.

Dois Livros e um cuscuz

Manhã do sábado 13 de setembro, madrugada com pequena chuva mais forte que o orvalho molhou a grama e deixou marca no cimento frente à casa. Na cozinha, no preparo do cuscuz, os gestos de minhas mãos umedecendo o fubá, lembram as mãos de minha mãe. Os gestos corriqueiros transportam nossa alma pra as esferas mais distantes e próximas da alma.

Sábado 13 de setembro o livro Informação, Repressão e Memória, escrito por Marcília Gama da Silva, atualmente professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco, publicado pela Editora da UFPE, aponta os meandros nos quais fui envolvido, como prisioneiro nos tempos da ditadura militar. Sua leitura traz o tempo de volta, os muitos tempos guardados na minha memória, inclusive os gestos de minha mãe. Estando no Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano, Marcília organizou e refletiu sobre o que foi salvo dos arquivos do DOPS em Pernambuco e, a partir desse olhar meticuloso ele refez o processo de criação e de ação dessa parte do sistema autoritário militar que foi estabelecido no Brasil desde 1964.

Como toda vez que abrimos um livro é a primeira que o abrimos, serão feitas muitas leituras da leitura posta por Marcília. Para além da organização burocrática, ali podemos intuir homens e sua formação: aquele aparato foi criado não apenas em 1964, mas antes, como está demonstrado na arqueologia que leva à criação da Escola Superior de Guerra, nem foi unicamente pelos militares, mas por toda a sociedade que moldou aqueles agentes em sua juventude, ainda quando não eram soldados ou policiais. Apesar de a tortura ter sido realizada nos porões e espaços escuros, a repressão ocorreu ao ar livre de com muita gente sendo informada. Quando estava organizando os arquivo, uma vez Marcília mostrou-me algumas fotos, lá estava eu, ora na rua, ora em alguma manisfetação, ora entrando em um cinema. Eles foram tiradas sem minha permissão: eu estava sendo acompanhado, vigiado. Assim, como eu muitos cidadãos foram marcados pela burocracia do Estado, pelas sombras. O livro de Marília nos mostra as faces sem nome desses agentes, não daqueles que estavam nas ruas bisbilhotando a vida, mas dos que liam, cruzavam as informações e decidiam quem deveria ser mais olhado. Também mostra os discursos dos justificadores da rede de informação, mas não apenas dos grandes, também do torturador comum, que se expõe naturalmente em seus depoimentos pois que acreditava na justeza de suas ações. Os estudantes e pesquisadores do período encontrarão parte do caminho já aplainado graças aos estudos de Marcília Gama da Silva. Leitura obrigatória.

Também importante o livro de Grazielle Rodrigues “Fernando de Noronha e os ventos da Guerra Fria”, resultado de seus estudos para a obtenção do grau de Mestre em História. Afastando-se da visão comum da Ilha como paraíso para as férias, Grazielle optou entender o papel-função desempenhado pelo arquipélago na trama da Segunda Guerra Mundial, nos interesses estratégicos para os aliados e das vantagens alcançadas pelo governo brasileiro no jogo internacional das guerras. Publicado pela Editora Universitária da UFPE, estudantes de história e amantes da história do Brasil e de Pernambuco em particular, devem investir seu tempo nessa leitura esclarecedora.

Essas leituras são como os gestos das mãos em preparar o cuscuz, revolve o fubá para deixa-lo úmido o suficiente, temperado com o sal, e então colocá-lo no recipiente adequado para o cozimento. Faz-se o cuscuz do conhecimento.

Biu VIcente

Memórias do ITER e de um prédio

 Algumas memórias de um tempo quente

Severino Vicente da Silva

 

O que ocorre com agosto? A cada ano o mês parece trazer novidades para o que parece ser sua sina: tempo de acontecimentos e experiências pouco agradáveis à lembrança. Desde a fatídica Noite de São Bartolomeu, no século XVII, massacre físico de um grupo que intendia dominar a França e foi interceptado pela força astuciosa de Catarina de Médicis na defesa do trono francês para seus filhos, até o início de agosto de 1945, na explosão das bombas atômicas que puseram fim a uma época que insiste em permanecer: a época das modernas e permanentes verdades, sejam elas religiosas ou científicas. O mês que Augusto criou para sua exaltação como a realização da felicidade da Paz Romana vem se tornando a época dos desastres promovidos pelos aprendizes de feiticeiros, que desejam ser senhores da história. Mas esse peso que carrega agosto pode ser mais uma maneira religiosa de ler os acontecimentos, mas de tão repetida pelas gerações, talvez desde tempos imemoriais.

No mesmo dia, 25 de agosto, que recebi informação sobre missa que “celebra os 15 anos da páscoa definitiva de Dom Hélder Câmara” ocorreu o incêndio em prédio que pertence à Arquidiocese de Olinda e Recife, onde estava funcionando  o Pró-Criança, atividade da mesma arquidiocese, criada pelo arcebispo emérito Dom José Cardoso, sucessor de Dom Hélder.  O mês de agosto não pode ser descrito de maneira negativa na vida de Dom Hélder pois nele ocorreu a sua ordenação sacerdotal e, como disse a correspondência de Normandia, foi a sua Páscoa. Mas o prédio que sofreu incêndio neste 25 de agosto, como o Pavão Misterioso “tem muitas histórias prá contar”. As casas, os edifícios são carregados de história e de significados. Foram imaginados pelos homens, construídos intencionalmente para algumas atividades. E eles cumprem essa tarefa de maneira a cada tempo de sua existência. Vamos conversar um pouco sobre o que eu sei da história do prédio situado na Rua dos Coelhos, que durante algum tempo ficou conhecido como o prédio do ITER.

No início do século XX os comerciantes do Recife, especialmente os das Ruas Barão de São Borja e da Imperatriz sentiam-se pressionados pelo número de pedintes que “atrapalhavam” a sua atividade. A modernização trazia consigo o crescimento desordenado da cidade e um dos caminhos para socorrer os que não são incluídos positivamente, mas apenas enquanto forem saudáveis trabalhadores, é a caridade, entendida como adjutório. Nesse contexto surgem padres que procuram atender as demandas sociais e espirituais da sociedade, como o Padre Machado, o Padre Félix e o Padre José Venâncio de Melo. O padre Machado dedicou-se no serviço educacional dos jovens, especialmente os que viviam na área portuária. O padre Félix na organização de escolas de ensino secundário e médio. Já o padre Venâncio estava mais voltado à assistência dos que viviam em torno do Hospital Pedro II e da rodoviária que então estava na propriedade dos Coelhos. Era presidente Companhia de Caridade. Conseguiu terreno e construiu prédio inaugurado, em 1918, que servia de hospício aos que iam ao hospital ou estavam de passagem na capital. Também organizou uma cozinha que preparava almoço para os pobres, usando as esmolas conseguidas no comércio. Assim, quando um desses pobres chegavam no comércio em busca de dinheiro para alimentação, os comerciantes os mandavam para a casa do Padre Venâncio, esta que o fogo derrubou parte de suas estruturas no dia 25 de agosto deste 2014. Nos anos cinquenta a cidade cresceu e renovou-se em torno da Avenida Guararapes e da Avenida Conde da Boa Vista, a rodoviária é levada para a proximidade da Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José e o Hospital Pedro II inicia o processo de declínio que levará aos encerramento de suas atividades. O bairro dos Coelhos é esquecido dos grandes acontecimentos sociais.

Entretanto o prédio passou a ter outras ocupações. Era um tempo de renovação da pastoral de igreja, de nova Ação Católica e o hospício, casa de refrigério para os viajantes passou a receber jovens da Juventude Operária Católica – JOC e dos outros ramos da Ação Católica. A casa do padre Venâncio já esquecera seu fundador, pois cada geração, parece querer ser a primeira. Duas décadas a casa acolheu jovens de todo o Brasil e, talvez devamos pesquisar para lembrar quais os Assistentes eclesiásticos da JAC, JEC. JUC que mantiveram encontros de oração e trabalho naquela casa. Mas então veio 1964 e o choque entre os jovens católicos e a hierarquia. Aos poucos o prédio foi esvaziando, mantendo-se vivo porque antigos jocistas e jucistas estabeleceram no térreo um Centro de Trabalho e Educação. O século XX assistiu e foi tempo de grandes transformações que tomam seu quase exato tamanho com o passar do tempo que engole as experiências como que para melhor entender o que esteve acontecendo. Faltamos uma reflexão do padre Sena, talvez um descrição daquele tempo, ou de Almery. Esses silêncios é que fazem os mais novos pensarem que estão a iniciar a história.

E foi em 1968, quando ocorreu um desquite entre a Juventude Católica e a Igreja Católica, que foi fundado o Instituto de Teologia do Recife – ITER, o quase ainda não estudado ano de 1968, nas dioceses e paróquias católicas. Inicialmente funcionando no primeiro andar da Universidade Católica de Pernambuco, no ano seguinte já na Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE; em 1971 mudou para o Juvenato Dom Vital, na Rua do Giriquiti, mesmo prédio onde funcionavam a Chancelaria da Arquidiocese e o Secretariado da CNBB – NE, finalmente, em 1978 o ITER foi para o prédio construído pelo padre Venâncio. É quando comecei a ministrar aulas de História Geral da Igreja. Os jovens estudantes de filosofia e teologia passaram a ser parte da dinâmica do velho bairro. Um quase rejuvenescimento, com esses jovens chegando a cada manhã. A biblioteca ocupou o térreo, uma rica biblioteca que teve Eduardo Hoornaert como guardião quando o Seminário Regional do Nordeste esteve em Olinda e Camaragibe. Muitas tardes fiquei naquele espaço lendo e estudando para entender o percurso da Igreja Militante. O ITER foi local de muitas experiências e reflexões. Instituto de formação para de presbíteros e agentes pastorais leigos, Aos sábados o prédio continuava recebendo estudantes em um curso de teologia mais voltado para agentes pastorais que atuavam nas paróquias e não podiam assistir as aulas durante a semana. E havia mulheres consagradas ensinando teologia e teólogos cristãos não católicos ministrando e recebendo aulas. E vieram estudantes e professores do Rio Grande do Sul, dos estados do Nordeste e do Norte do Brasil, do Sudeste. E vieram da Alemanha, da Holanda, da França, dos Estados Unidos. E havia muitos debates. E muitas contradições. Recebemos pesquisadores da Europa e dos Estados Unidos. Foi de uma riqueza enorme para os que participaram do ITER. E, claro, os ventos que sopraram no imediato pós Vaticano II foram sendo dispersos no pontificado de João Paulo II, como a fazer cumprir a profecia de Paulo VI ao comparar as vagas da história com as ondas do mar.

Várias visitas apostólicas indicavam que o tempo da experiência estava sendo esgotado e, como disse um sábio jesuíta, voltava a “velha disciplina”. Na sala da Diretoria do ITER compreendi o que significa essa expressão em uma reunião com o Conselho Superior do Centro Nordestino de Pastoral – CENEPAL, para a escolha da diretoria do ITER após a aposentadoria de Dom Hélder Câmara, no comportamento de submissão ao novo Arcebispo e, foi graças ao apego à letra da lei que o padre Cláudio Sartori e eu fomos mantidos na direção do ITER.

Em 1989 veio a resposta a perguntas saídas das reuniões episcopais; eram perguntas que não seriam feitas, e não foram, em outros tempos. A resposta foi o encerramento das atividades do Instituto de Teologia do Recife que prestou grande serviço à Igreja formando 21 anos quase duzentos presbíteros para servir nas dioceses do Norte e Nordeste, além de fornecer pessoas qualificadas para as diversas pastorais e instituições da sociedade. Foram momentos difíceis, especialmente para os diretores naquele momento. Dói demasiado, para quem vive do magistério, fechar uma escola. Dói muito ter que controlar a dor de jovens insatisfeitos e desejosos de mudanças verem ruir seus sonhos, bater na parede do tempo, envelhecer em minutos sem compreender o que está ocorrendo. Ainda hoje carrego a dor de juntar professores e alunos para convencê-los que nada adiantaria lutar, fazer protestos, caminhadas. Roma havia falado, e a obediência era pedida. Como doeu aquela manhã, aquele vento frio que queimava as nossas entranhas. Foi um sofrimento que durou anos e ainda dói.

Depois foi arrumar o final do semestre enquanto as dioceses e congregações encontravam um meio de diminuir as perdas. No final do ano a celebração de despedida no auditório que havia sido reconstruído poucos meses antes. Vários bispos lamentando a resposta às suas perguntas à Santa Sé. Depois que todos falaram os alunos pediram que eu dissesse algo. Talvez fosse melhor não dizer o que todos ali sabiam. Eu vivi o ITER desde 1969, de aluno a Vice-diretor. Não esqueço as palavras que disse, mas não as repetirei aqui, como dizia Dom Hélder, fica como um segredo entre nós, nós os que estavam naquela última missa do ITER.

A biblioteca foi partida: uma parte para Seminário de João Pessoa e outra para o Seminário de Olinda. Não fui convidado a participar de nenhuma dessa nova etapa na formação de sacerdotes, por isso chego a ter remorso de não ter ficado com nada como espólio, só a saudade e a fé que independe do ordinário que esteja à frente da diocese, paróquia ou capela. Padre Diomar Lopes uma vez disse que ‘invejava’ a fé de sua mãe, pois ela o ensinara que Deus é maior que a Igreja. Assim também aprendi com minha mãe, com padre José Comblin, com padre René Guerre, Com Irmã Ivone Gebara, com Irmã Valéria Rezende, com o padre Eduardo Hoornaert, com padre Lourenço Mullemberg, com o irmão Michel Bergman, com o padre Yves Morpeaux, e muitos outros que dedicaram-se aos estudantes do ITER.

As chamas que neste mês de agosto de 2014 destruíram os objetos do Pró-Criança, programa criado por Dom José Cardoso que encontrou novos modos de dar continuidade ao uso do prédio criado pelo Padre Venâncio. Estive naquele prédio para atender vários organismo não governamentais que queriam saber como foi a história antes deles se organizarem. Hoje vi parte do prédio interditado pois uma parte dele deverá ser derrubada, exatamente o lado onde estava a biblioteca do ITER, no térreo e as salas de aulas nos andares superiores.

O ITER está presente no Acre, onde alguns de nós estão envolvidos na administração pública, na política e também na Igreja; o ITER está presente em Santarém, PA; o ITER está presente no episcopado nacional; está presente no CIMI; em várias dioceses na Bahia, em Sergipe, em Alagoas, na Paraíba, na Câmara dos Deputados, o ITER está presente em comunidades luteranas no Rio Grande do Sul e em muitas universidades e faculdades em cidades de porte médio e grande.  Como disse Dom Hélder uma vez quando de sua visita em 1983: iter é caminho.

Sobre o mundo virtual

Colocamos alguns números em um dos espaços que ocupamos na rede internacional e, esses dados são recebidos de maneira diferente pelos diversos atores sociais que frequentam o nosso espaço. Alguns curtem, outros leem sem deixar sinais de sua presença; tem aqueles que não curtem explicitamente mas compartilham com sua rede social. O que chama atenção é a existência dos que curtem e posicionam com risos. Na vida normal o riso vem sonoro e, se estamos face a face, o riso vem em movimentos do rosto. Esse conjunto é que nos informa se o riso  é de consentimento, de ironia, de contentamento, de reprovação, de maledicência, se é elogioso ou o riso envergonhado de dizer o que realmente pensa. Essa é apenas uma reflexão sobre a pobreza que pode ser a expressão nesse rico espaço de comunicação que é o mundo virtual. Se as comunicações humanas face a face podem iludir o receptor da mensagem, imagine o que existe de desencontros nesse universo virtual que frequentamos na perspectiva de que o que ali está escrito é a expressãoda verdade daquele que se pôs na conversa.

Em minha lista de amigos/conhecidos/virtuais já tive alguns que não admitem comentários em suas intervenções. Assim ocorreu no período eleitoral de 2012: era uma dessas pessoas que recebem para fazer campanha de um candidato enxovalhando o adversário. Uma vez fiz um comentário a esse respeito, essa pessoa respondeu com “KKKKKK” e desapareceu do meu universo virtual por sua própria iniciativa. Mas creio que continuo encontrando com ela no mundo real.

Ainda, nesse espaço conhecido como facebook – o livro dos rostos – há um número grande daqueles que se inscrevem sem que seu rosto seja posto. Mas, se ele for uma “miragem” que diferença faz um rosto cuja personalidade quer se manter oculta?

Mas chama atenção mais ainda os que se surpreendem com tabelas e números, inclusive aquelas que são acompanhadas das fontes originárias. Parece que esses números discordam tanto de suas crenças que eles ficam abismados, acham estranhos tais números, etc. Nesses dias em que a ciência – matemática, engenharia, filosofia – uniu-se para criar novas expressões da verdade, os que mais duvidam dos seus resultados são os cientistas ligados à Ciências Humanas. Como elas têm sido encaminhadas para assumirem papéis de doutrinas com dogmas claramente definidos por setores da ortodoxia, alguns desses cientistas, enredados com o poder ou com os atuais ‘donos do poder’ ficam se esforçando em colocar a realidade em suas doutrinas, pois não podem recusar o que lhes foi dito nas catequeses formadoras de catequistas.

Esse universo virtual, é quase real.