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Brasília Teimosa e Normandia: Uma Ekédi e um padre os une

No dia 26 de julho deste ano de 2016 ocorreram muitas mortes matadas, como se dizia em alguns lugares, ou homicídios, assassinatos, como se diz em outras. Duas chamaram a minha atenção, sendo que uma delas chamou a atenção do mundo todo e a imprensa de muitos países a noticiara; outra, foi, apenas, uma notícia local. Uma ocorrida no interior de uma igreja católica em cidade francesa, outra em bairro da cidade do Recife; uma foi a morte de um homem, outra a morte de uma mulher. Ambos eram septuagenários e ambos dedicados à religião.

Inesperadamente dois homens que não costumavam frequentar a igreja de Santo Estevão de Ruvray, (Sait-Etiene-du-Ruvray) na região a Normandia, entraram e fizeram reféns aos que ali estavam em oração. Uma das pessoas conseguiu fugir e chamar a polícia, mas os homens mataram o padre Jacques Hamel. Foi um crime que se quer político, que quer ser feito em nome de uma religião contra outra. Talvez seja.

Tanto os criminosos que cortaram a garganta do padre como alguns conhecidos meus e outros que não conheço não irão gostar do ‘talvez’ desta frase. Os assassinos têm certeza dos seus atos e querem que o medo aterrorize os amigos do padre Jacques Hamel, que os amigos de padre se escondam e abandonem suas certezas pois, isso será a a vitória do chamado estado islâmico, que se apegou à parte mais obscura do Islamismo e a que impor a todas as pessoas. Os sectários aceitam apenas a escolha que fizeram, são Narcisos. Entre os amigos do padre Jacques Hemel também há os que pensam sectariamente e desejam que em nome de suas crenças, a liberdade de sair a matar quem não pensa do se modo. Mas é sempre bom lembrar que os antepassados da fé do padre Jacques Hamel conseguiram sobreviver sendo mortos, como Estevão, o Santo que nomeia o templo onde ele foi assassinado. Somente alguns séculos após o assassinato o martírio de Estevão é que pensaram ser bons cristãos começaram a matar para expandir a sua fé. Cometem o mesmo erro dos assassinos do padre Jacques Hamel.

Menos famoso ficou o assassinato da Ekédi Maria José Quirino, assassinada em sua casa no Bairro de Brasília Teimosa. Não se sabe quem ou porque assassinou Maria José Quirino que, no seu terreiro, ajudava os que têm seus corpos usados pelos Encantados que visitam a terra. Essa a função da Ekédi, um trabalho de consolação e apoio. A palavra yorubá significa ‘mãe de todos. Sua morte pode ter sido por abuso sexual, uma vez que foi encontrada despida e esfaqueada em sua casa. Este foi o trigésimo assassinato de idoso em Pernambuco este ano. A fragilidade daqueles que, após uma vida de trabalho e doação parece ser o espaço encontrado para que covardes, em pleno vigor físico, exponham sua adesão à morte.
Maria José Quirino não estava no exercício de sua função sacerdotal quando foi morta por arma branca, como o padre Jacques Hamel. Entretanto, esses dois idosos sacerdotes, morreram como resultado da falência de nossas civilizações por não terem, ainda, assumido plenamente o respeito à vida, e muitos escondem o ódio no nome de alguma religião.

Que Santo Estevão, Proto-Mártir do cristianismo, acolha esses sacerdotes sacrificados pelo ódio à vida.

Nossa violência diária, nosso fracasso civilizacional

Esses dias de julho têm sido atribulados. A vida corre e sua seiva é de sangue, mas a ideia básica da civilização é o controle do sangue derramado. A cultura e a civilização são essa organização da vida, esse cuidado para se evitar o derramamento desnecessário da seiva que mantém o homem. Todos os dias lemos sobre algum ato terrorista, esse que é realizado para matar qualquer pessoas com o simples intuito de manter um clima de medo e tensão. Mas há outros sangramentos.

Desde o século XVI que a civilização europeia vem construindo maneiras de controlar essa violência, procurando inibir comportamentos que coloquem em risco a vida social. Parte desse esforço foi a retirada das armas das mãos da gente comum, centralizando a violência no Estado. As penas foram sendo ‘humanizadas’ e nos últimos trezentos anos a pena de morte vem sendo posta de lado. Assim foram sendo criados lugares onde guardar por algum tempo os que estavam com problemas de adaptação na vida social. Cáceres passaram a ter função de readaptadores sociais. É isso que se espera das prisões neste início do século XX. Mas é isso que não se observa no sistema prisional brasileiro, como vem atestando as muitas rebeliões nesses lugares que, lembra o historiador da Casa de Detenção do Recife, Flávio de Sá Neto, são como sepulturas de homens vivos. A violência das ruas vem sendo combatidas desde que foram proibidos os duelos de honra, pois eles subtraiam o melhor da sociedade e seus futuros: os jovens aristocratas. E o que assistimos hoje?

Grande parte da população sente-se prisioneira, elevando os muros de suas casas, isolando-se da sociedade, mantendo guarda-costas e guaritas em frente as suas residências, temendo o ataque de indivíduos que, apesar do controle estatal, apoderaram-se das armas e das ruas. Nas ruas, ainda que a maior parte da sociedade não consiga perceber, está a ocorrer uma matança de jovens que combatem entre si, às vezes em nome de um grêmio esportivo, às vezes pelo controle de locais onde vendem drogas, matando lentamente uma outra parte da juventude. Alguns que escapam dessa matança, às vezes não conseguem escapar da ação descontrolada de alguns agentes do Estado. Os sobreviventes morrem aos poucos cada dia em trabalhos estafantes e mal pagos, com salários que não lhes permitem uma saudável recreação e, então, dedicam-se ao álcool e outras drogas. Não poucos terminam por terem seus passos encaminhados a alguma penitenciária que deveria abrigar duzentas ou trezentas pessoas, mas abrigam quase sempre três ou quatro vezes mais. E nesses espaços, também o Estado perdeu o controle. E assistimos, ouvimos e, às vezes vemos, o relato das violências e mortes que ocorrem nesses lugares. A violência está guiando a sociedade. Os valores que poderiam organizar a sociedade foram mal apreendidos e, mesmo esses, passaram a ser relativizados de maneira constante.
Para entender o tempo passado, cuidávamos da imaginação, acompanhando os romances históricos, fitas de cinema. Agora, no caso da violência descontrolada, realizada em nome de alguma divindade ou mesmo para a satisfação de algum magnata, basta sabermos olhar o que nos envolve, o ambiente.

Por não sabermos cuidar de nossos espaços sociais, não sabemos, também, cuidar dos espaços onde colocamos os que rejeitaram ou foram rejeitados pela sociedade. Quem disso duvidar, que faça uma pequena comparação entre o nosso transporte público e as penitenciárias; compare o cuidado com as calçadas e ruas com as celas carcerárias; observe nossas escolas sem bibliotecas, áreas de lazer e laboratórios e as prisões sem oficinas e atendimento reparador.

E, infelizmente, essa não é uma situação própria de nosso Estado. É uma situação semelhante encontrada, até mesmo, em alguns ditos países desenvolvidos. E não apenas nos países de nossa experiência civilizacional, mas verificamos que esse possível fracasso ocorre, também, naquelas civilizações que se tem como modelo para demonizar esse modelo que se organizou nos últimos seis séculos.

A encruzilhada

Primeira quinzena de julho deste décimo sexto ano do século XXI foi vendaval com mortes espalhadas pelo mundo. Das mais vulgares, como as que ocorrem diariamente nos morros do Recife, Rio de Janeiro, São Paulo ou Terezina, até as famosas, como os assassinatos de policiais em algumas capitais de estados nos Estados Unidos e as que ocorreram nas ruas de Nice, cidade da Orla Azul do Mediterrâneo, jovem cidade francesa. A segunda quinzena fez sua entrada com a pompa de um golpe de Estado na Turquia, um autogolpe, quase, garantidor do poder do atual presidente, um golpe que inicia com duas centenas de mortes, muitas prisões de juízes, militares e professores. Vem o retorno da pena de morte no país da Ásia que se deseja europeu e, nada impede o retorno ao estado religioso anterior à Revolução dos Jovens Turcos. Assanham-se os grupos religiosos, louvadores da morte que dizem amar profetas e cultuar a paz.
Também, entre nós, caminha célere grupos que pretendem tornar o Estado cada vez mais religioso, com a aprovação de uma lei que pretende amordaçar as salas de aulas, querendo proibir que sejam tangenciados os conhecimentos básicos da ciência que o mundo, pós-queda de Constantinopla, em 1453, vem sendo acumulados nos laboratórios e nas cidades do mundo. Entre as possíveis mortes que as mortes de julho anunciam, pode vir a morte da liberdade de pensamento e de pesquisa. Ainda que seja evitada a expressão ‘conflito de civilizações’, parece ser o que se anuncia, aos poucos. Esse esforço que alguns grupos autoproclamados cristãos estão a fazer propondo a chamada “escola sem partido”, parece ser decorrente de um mal entendido forçado, de uma resposta errada ao que se pretendeu reduzir o Brasil a um partido único, a uma religião civil. Estava sendo feito de modo sorrateiro, usando aspectos formais da democracia para esvaziá-la de sentido. Confundiram o seu partido com Estado e, agora, outros querem confundir suas religiões do século XVI com o Estado. A Encruzilhada do Mundo, a Turquia, parece querer retornar, ao início do século XX, recriando aspectos do Império Turco nascido do cansaço da Europa Medieval. Os dois movimentos colocam em xeque o processo civilizador que se organizou das agonias da morte do Medievo e nascimento do mundo Moderno.
O final de Julho trará a candidatura de Donald Trump à presidência dos Esados Unidos da América. Ele propõe um enfrentamento que pode levar a guerras, além do isolamento americano. Analistas acreditam que ele perderá a eleição, mas analistas haviam dito que ele não seria escolhido para candidato dos republicanos. A Loucura pode ter criado condições para o surgimento da cultura, conforme sábio que viveu na época do conquista da transformação de Constantinopla em Istambul; e se a Loucura pode marcha, conforme historiadora contemporânea, de maneira inexorável, fazendo os governantes tomarem decisões paroquiais, cegos aos fatos, as dores do parto da nova sociedade trará mais sangue enquanto nasce. Cientes dos interesses das suas paróquias, os governantes da Europa Renascentista deixaram ao papa, então chefe guerreiro, a defesa da Europa para criar a Europa. Com a proteção de Nossa Senhora do Rosário, na Batalha de Lepanto, reza a tradição católica, criou-se parte do ambiente para a formação da moderna Europa. A religião, embora sem consciência disso, loucamente cedeu espaço para o surgimento da sociedade laica. Será que o estado laico vai permitir o retorno do estado religioso?

Provocações em torno de um bicentenário

Dois séculos se passaram desde que pernambucanos levantaram-se contra o governo do Rio de Janeiro que se habituara a aumentar impostos das Províncias e, com ele promover o embelezamento da capital do Reino do Brasil. Havia apenas dois anos que, objetivando ter alguma participação no Congresso de Viena, o Príncipe Regente de Portugal criou o Reino do Brasil, associando-o aos Reinos de Portugal e Algarves. Foi mais uma jogada esperta de Dom João, esperto filho de Dona Maria I, que regenciava Portugal desde que sua mãe demenciou. Graças a essa demência, o Regente negociou simultaneamente com a França de Napoleão e a Inglaterra de George Canning e Jorge III, escapando de tornar-se prisioneiro do Corso.

Um erro comum que veio a cristalizar-se nos livros, nas salas de aulas e, em consequência nas mentes e mentalidade dos brasileiros, foi considerar o movimento que ocorreu em Pernambuco em 1817 no mesmo diapasão da Conjuração Mineira ( os colonialistas continuam dizendo Inconfidência, pois sentem-se traídos por Tiradentes e seus companheiros que, no seu entendimento traíram a confiança que Portugal lhes dava) de 1789 e a Revolução dos Alfaiates, ocorrida na Bahia 1798. Ora, esses movimentos, de importância local, quase natimortos, eram contrários ao Império Colonial português na América, de quem eram súditos involuntários e desejosos de romper os laços coloniais. É uma conjuntura bem diferente da que levou os Pernambucanos, recebendo o apoio de lideranças das províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Notório é que a Bahia e a Comarca de Alagoas cerraram fileiras com o governo do Rio de Janeiro, prolongando a presença das tropas e da coroa portuguesa no Brasil.

Em 1817 o Brasil já não era mais colônia portuguesa, embora estivesse ligado à Portugal por uma união de reinos reconhecidos pelas nações europeias desde 1815. Estávamos dando os primeiros passos como nação e a revolta das províncias do Norte era o fato de que os brasileiros do Rio de Janeiro também experimentavam os primeiros passos para o estabelecimento do colonialismo interno, a dominância de uma região sobre as outras. Pernambuco recusava ser colônia do Rio de Janeiro, província onde estava alojada a corte que viera de Portugal e, à exceção do Rei Dom João I, parecia preferir cultivar fidelidade à antiga metrópole. Claro que se vivia uma situação dúbia, uma vez que a União das Coroas dava-se na pessoal de João I, especialmente após 1816 quando ocorreu a morte de sua mãe e ele passa a ser, também, Dom João VI de Portugal. Mas não havia dúvida de que o Brasil era uma nação, um estado reconhecido internacionalmente, daí não ser tolerável ser tratado como uma colônia. Esse sentimento só veio alcançar as províncias mais próximas do Rio de Janeiro e beneficiadas com a política que drenava impostos das demais províncias para as obras de embelezamento do Rio de Janeiro após os portugueses retomarem o poder em Lisboa com a famosa e colonialista Revolução do Porto.

Outro fator que separa os movimentos de Minas Gerais e Bahia do que ocorreu em Pernambuco em 1817, é que já vivia-se a plena descolonização das Américas Hispânica e Francesa. Desde o Haiti o espírito dos latinos mudara nas Américas, o que não é percebido quando se faz uma historiografia que se faz a partir da Inglaterra e da França, a historiografia definida pelo Visconde de Porto Seguro e do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro. E tem sido essa historiografia a responsável por sermos tão pouco latino-americanos, e é por isso que ainda hoje, o General Abreu e Lima está exilado em território inglês em pleno Recife.

pode ser que seja por isso que apenas Dom João I, a quem a historiografia desenhou uma figura caricata, compreendeu primeiro que os líderes das Províncias do Sul a impossibilidade de fazer o Brasil retornar ao que era antes de 1815. Aliás, parece ter sido feito um esforço para esquecer 1815, como demonstra a explicação dada pela história econômica com face paulista-carioca, daí esse chamamento de atenção para 1808. A ênfase econômica justifica e favorece o esquecimento do ocorreu em março de 1817 e o após maio desse ilustre e glorioso ano. E, após essa data, ocorreram julgamentos sumários, fuzilamentos sem quaisquer julgamentos; e tem ainda o esforço para aniquilar a lembrança de toda uma geração de patriotas que foram mortos física e historicamente. Pondo o foco em 1808, dá-se um salto para 1822, promovendo o esquecimento do levante de Goiana que vem em socorro de Olinda e Recife, derrota o exército fiel à Portugal e ao Rio de Janeiro em novembro de 1821, e celebra a Convenção de Beberibe que expulsa o último governo português em Pernambuco. É um esquecimento tão profundo que nem mesmo as escolas do bairro celebram o monumento que foi erguido a 500 metros de seus muros. Enquanto isso, a Bahia que assessorou as tropas do Rio de Janeiro para o cerco da Província celebra com galhardia ser a última província liberta do jugo português.

Este ano que se aproxima marca duzentos anos da Revolução Pernambucana, e é uma oportunidade para apresentar uma visão menos colonialista da nossa história, é uma oportunidade para que sejam apresentados aos pernambucanos os seus heróis. Este pode ser um ano para celebrar o José Inácio de Abreu e Lima, o Padre Roma; o padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro; Padre Pedro de Souza Tenório, o Vigário Tenório; Antônio Gonçalves Cruz, o Cruz Cabugá; Domingos Teotônio Jorge; João Barros Lima, o Leão Coroado; Gervásio Pires Ferreira e muitos outros, além do Frei Joaquim do Amor Divino Caneca e muitos outros.

Nesses tempos de políticos desonestos que fazem tornam infame a prática política, será muito interessante que sejam apresentados os que fizeram tomaram o governo e, derrotados pela conjugação das forças portuguesas, baianas e cariocas, devolveram as arcas da província mais ricas do que a encontraram. Preferiram a prisão, a morte e a glória de morrer pela pátria que fugir com o dinheiro do povo.

Primeiros em corrupção a caminho de ser primeiro na reconstrução de si

Inicia Julho, o mês de Santana e vem cheio de novidades e de esperança. De tanto verificar que houve muito roubo de verba pública sendo descoberto e gente de colarinho bem branco e moradores de coberturas sendo presos, começa a ter início nova fase de reflexão sobre o Brasil e o que fazer a partir de então. Claro que ficou evidenciado que, se já não somos os primeiros do mundo em futebol, o somos em ‘bola’, propina’, o ‘por fora’, etc. Mas, entre os países com os quais estamos emparelhados – os ditos emergentes, os que estão colocando o pescoço fora da linha d’água da miséria ou pobreza- somos os que estamos enfrentando com soberania e tranquilidade a descoberta e o estabelecimento de novos patamares na coisa pública. Hoje já não apenas um juiz no STF, como foi a odisseia de Joaquim Barbosa fustigado pelo lamentável Lewandowski, atual presidente do STF, colocado na linha da navalha sob a observação cada vez mais cuidadosa da sociedade; já não é a isolada ação do juiz Moro e as equipes do Ministério Público e Polícia Federal de uma Vara da Justiça do Paraná, mas seu exemplar comportamento já pode ser visto em setores do Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

Jovens promotores, jovens juízes, jovens policiais – jovens em idade e jovens na prática de suas tarefas – estão a indicar que velhos hábitos podem e devem ser mudados. Esses setenta juízes que estão ‘perseguindo’ jornalistas no Paraná já receberam o primeiro travamento no STF, dado pela juíza Weber.

Com a prisão desses enriquecidos nas maracutaias ocorridas principalmente no governo do inventor da expressão, podem ser um bom início. Como também o foi a prisão de um senador, em exercício do mandato, que confundiu o público com o privado. Aquela primeira cúpula do PT que foi levada à prisão sob o grito de ‘guerreiro do povo brasileiro’ está cada vez mais lembrada como a de ‘traidores do povo brasileiro’. Talvez outros do mesmo time venham a ser condenados. Ao mesmo tempo devemos cuidar para suprimir privilégios que magistrados e políticos do passado, com mentalidade de casta, criando uma nobreza espúria e vergonhosa, mutilando a Constituição Cidadã, negociando – legislativo e judiciário – vantagens para si, afastando-se do comum dos cidadãos.

Estamos aprendendo a castigar os que nos castigam com seus crimes. Esse é um bom passo em direção de formarmos uma nação. Ainda não o somos, pois deixamos que cultivassem muitas divisões em nossa alma. Estamos superando feridas podres, apostemadas, expulsando do corpo social o que nos faz mal e permitiu e favoreceu o esmorecimento das instituições. Mas estamos avançando e vamos derrotar os que queriam dominar o nosso futuro.

São Pedro: o que assumiu a inovação na tradição

As festas em homenagem aos santos da tradição católica continuam ainda por mais uma semana. É que vem a menos famosa das semanas, a Semana de São Pedro. Primeiro dos escolhidos por Jesus para discípulo, este santo carrega o sofrimento dos que não foram corajosos na primeira hora, seja por duvidar, seja porque negou conhecer a quem seguia; mas eis que veio a ser o símbolo de uma unidade na Igreja que veio em seguida. Por ser o líder dos pescadores de peixes foi convidado para ser pescadores de homens, liderar um grupo que viria a ultrapassar e perpassar todas as culturas. Pedro, definitivamente é o casado no grupo dos escolhidos, mas bem que poderia não ter sido o único, porém dele se lhe aponta que tem sogra, embora não se saiba quem foi sua esposa ou se teve filhos. E foi um genro dedicado, preocupado com a saúde da sogra, para quem pede a gentileza de um milagre, a sua cura, no que é assistido. Além da mãe de Jesus, Maria, ele é único do grupo que ousa pedir um favor pessoal e para gente de sua parentela. E é atendido, o que denota uma relação muito próxima com Jesus. É esta intimidade e confiança mútua que o faz receber a indicação da liderança, superando até mesmo o ótimo relacionamento que havia entre Jesus e João, de quem se diz que Jesus o amava, e outro primo, Tiago.

A liderança de Pedro foi testada muitas vezes. Parece que a Igreja de Jerusalém esperou a morte de Tiago para reconhecer, de verdade, a primazia de Pedro, após ter ele sido tirado milagrosamente da prisão. Depois veio o debate acirrado com Paulo que, sem jamais ter visto Jesus, inclusive perseguira os seguidores de Jesus. Deve ter sido tenso o encontro desses dois homens de caracteres fortes, cônscio da missão que havia recebido: Pedro recebera diretamente e via-se como guardião da tradição da comunidade de Jerusalém, uma comunidade que se fechava em sua tradição e que estava em dificuldade para garantir a sua manutenção. Como estavam esperando a imediata realização da chegada do Reino, não cuidaram de produzir o que consumiam. Apenas consumiam. E, contudo,havia outras comunidades, outras tradições.

Paulo, veio de longe com auxílio das comunidades que organizara. Comunidades diferentes da de Jerusalém, formadas por não Judeus, que parecia não serem filhos de Abraão. E esse foi um grande dilema de Pedro e de sua comunidade: Seria possível aceitar esses estrangeiros não circuncisos, comedores de carne de porco? É bastante fácil liderar para a manutenção do status quo, bater o pé e defender a tradição recebida até o último instante, desde que não haja crise. Pedro enfrentava uma situação muito difícil, pois sua comunidade queria manter a sua integridade mantendo fortes laços como a tradição judaica, aquela na qual nascera e pretendia manter. Contudo, esse Paulo chega e aponta outras direções, outras possibilidades, ultrapassando as tradições meramente físicas, como a ingestão ou não de certos alimentos, a retirada de uma película e outros senões semelhantes. Pedro, diz livro escrito por um desses convertidos após ouvir a pregação de Paulo, depois de muito ouvir e sonhar decidiu abrir a Igreja que lhe foi confiada a todos que a desejassem seriamente comprometer-se com o seu ideário, sem discriminação de raça, cor, cultura. Por abrir caminhos, um dos simbolismos que marcam a ação de Pedro são as chaves. Elas não foram usadas por ele para fechar-se na tradição cultivada por sua comunidade local, mas as utilizou abrir-se para que o mundo pudesse escolher entrar, navegar com ele na barca para navegar o tempo. E Paulo, seu companheiro, confirmou a aceitação de sua liderança, mantendo a autonomia e a comunhão nos mesmo sentimentos e certezas.

Uma vez Fernando Sabino disse que escrevia para saber o que seus personagens iriam fazer, o que as palavras o levariam a dizer. Quando comecei a escrever o que está acima escrito não era o que eu esperava escrever. Escrever, viver é ser como esse Pedro, aberto às possibilidades sem perder o essencial.

Ps. Todos perceberam que esses comentários surgiram da leitura do Atos do Apóstolos, do Evangelho de São João e de outros livros, além de minhas angústias.