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Os supremos e Nossa Senhora de Paris

A segunda semana deste mês de abril nos trouxe possibilidades várias para nossa compreensão como parte do Ocidente, da cultura ou civilização ocidental. No Brasil tivemos o insólito comportamento de dois ministros do Supremo Tribunal Federal em protagonizar a tentativa de retorno à censura prévia às informações. Em defesa de interesses particulares, e mantendo uma tradição patrimonialistas do Estado, confundiram o juiz com o tribunal. Se nos primeiros dias seus colegas ficaram silentes, ao longo da semana, ao sentirem a reação dos cidadãos e da imprensa, ao menos dois juízes saíram, publicamente, na defesa da liberdade de expressão. Os demais, dizem, cochichavam nos corredores, mas não vieram a público apresentar sua discordância com seus companheiros aloprados. Depois de ter recusado a orientação da Procuradoria Geral da República, o juiz relator, mais vocacionado para delegado, suspendeu a censura que havia imposto à revista semana, digital, Crusoé. Mas ficou evidente que existem pessoas que desejam retornar ao período anterior ao Iluminismo, às revoluções democráticas que tornaram o Ocidente esse espaço de debate e, em consequência, de criatividade e liberdade. Mas também esclareceu-se que há quem deseje a liberdade com mais entusiasmo.

Mas o Ocidente, a Civilização Ocidental, não é apenas uma criação dos filósofos dos séculos XVII e XVIII; como nos ensinaram os mais antigos, “somos como pigmeus assentados em ombros de gigantes”. A cultura é acumulativa, cada geração posterior criando a partir da criatividade e resolução dos mais antigos. Livro sagrado dos cristãos nos lembra que ‘o homem sábio tira de seu baú coisas novas e velhas”. Apesar da feroz crítica iluminista, dos séculos XVIII a XX, o cristianismo não pode ser descartado nesse processo de construção da civilização ocidental. A má consciência europeia quase a faz jogar fora a criança com a água suja. Desde a Guerra de 1914, quando a “Europa perdeu a sua inocência”, vem se fortalecendo a tendência de negar a herança cristã europeia, como se tivesse sido possível tantas criações e indústria sem o esclarecimento do livre arbítrio que povos europeus universalizaram, embora ainda não de todo. As mortes geradas pelas guerras cientificamente dirigidas para alcançar objetivos definidos do sistema industrial, parece terem servido para esquecer que toda história, não apenas a do Ocidente, é feita de sangue humano, além do de animais e plantas sacrificados para a vida humana. A crítica constante às instituições europeias relativizaram o que a Europa gerou. “Tudo que é sólido desmancha no ar” reza famoso opúsculo do século XIX, profetizando o fim da sociedade baseado no indivíduo; “Deus está morto” avisou aquele outro ou não sentir-se confortável em um templo cristão onde ainda se cultuava como no século XIV, e sacerdotes discursavam sobre uma simbologia que pouco dizia ao homem envolvido em conviver com maquinário e com os novos saberes da sociedade resultante da junção do matemático com o engenheiro; enquanto alguns morriam do trabalho outros começavam a morrer de tédio por nada fazer, o filósofo gritava a morte de Deus, teólogos dizia que as igrejas eram o túmulo desse deus; o romancista previu o fim da catedral sob fogo, agora quase concretizado. E, o monumento mais visitado, fez-se vivo, renasceram sentimentos múltiplos, inclusive com jovens e velhos de terços nas mãos, rezando publicamente na cidadela do processo laicizador ocidental. A queima da Notre Dame de Paris dá-nos ver o sólido de oito séculos desvanecer-se no ar e, ao mesmo tempo ver, nas ruas parisienses, solidificar-se uma tradição que parecia morta.

Notre Dame de Paris é a Nossa Senhora de todos os lugares para onde fora, enviados cristãos com mensagens que, em seu tempo julgavam ser o melhor. De Paris, onde foi um dia entronizada uma deusa da razão, saíram outras razões para a fortalecimento da Europa, com muitos enganos e muita confusão entre o que seria o desejo dos homens e a vontade do Deus que cultivavam. Em uma sociedade que tem dificuldade de assumir seu passado, sabendo-o causador de dores a tantos povos, seria mais simples aproveitar a oportunidade e cobrir as cinzas desse passado nos escombros de uma velha catedral, mas, tais cinzas são dos corpos que geraram a Europa, sua cultura, seu pensamento, sua alma. As chamas que queimaram a Catedral de Nossa Senhora de Paris, reaqueceram o amor pela tradição europeia, até mesmo naqueles que desejam, ou anteveem o seu final. Daí o desejo de reconstruí-la, restabelecer fisicamente o símbolo da Europa, cristã em sua base formadora. Uma pena que este desejo não se apresente também na reconstrução da base amorosa do cristianismo que, em suas diversas tendências, poderiam fazer nascer os momentos mais radiantes da vida humana.

E tão pouco que se precisa, apenas ganhar um pouco menos, abrir mão das riquezas e deixar que as graças, como as da Senhora de Paris, sejam derramadas sobre o mundo

Patrono dos Direitos Humanos

“Quanto mais escura for a noite, mais bonita será a madrugada.”

Fui dormir com essa ideia, essa lembrança após saber que deputados escolheram Dom Hélder Câmara como patrono dos Direitos Humanos, no Brasil. Todos os que vivemos seu tempo, os que tivemos o privilégio de o ter conhecido e, mais ainda, de ter estado ao seu lado, sabemos que esta foi uma justa escolha, ainda que outros brasileiros poderiam ser escolhidos. Neste momento lembro Heráclito Sobral Pinto (1893-1991), advogado que, utilizou as leis que defendem os animais para obrigar a ditadura do Estado Novo, a ditadura de Getúlio Vargas, permitir a defesa de Luiz Carlos Prestes, permitir que o prisioneiro fosse ouvido e levado a um julgamento honesto; e fez isto não porque o prisioneiro houvesse pedido (afinal um comunista ser defendido por um “papa hóstia”!!!), mas porque o senso que deve orientar a vida de um homem, especialmente se houver tido a oportunidade de ter estudado as leis, a vida de um advogado deve ser orientada pelo senso da justiça. Mas ainda hoje homenageiam o ditador, a que cognominaram de “pai dos pobres”, ao mesmo tempo que escondiam dos pobres as maldades cometidas por “seu pai” e seus auxiliares, esses que receberam benefícios da ditadura pelos serviços gentilmente prestados. Muitas foram as mãos e muitos desejos do mundo ficaram imobilizadas para que a ditadura de Vargas fosse mantida e ainda hoje festejada. Heráclito Sobral Pinto poderia ter sido o escolhido para ser o patrono dos Direitos Humanos, pois ele defendeu a dignidade humana antes mesmo que a Organização das Nações Unidas fosse criada e viesse a consagrar o direito de defesa, o direito de que cada pessoa possa ter uma voz que a represente nos tribunais. E ele fez isso gratuitamente.

Outra personalidade que poderia ter sido escolhida é o cardeal Dom Evaristo Arns (1921 -2016), o Dom que o povo de São Paulo recebeu e que chamava de “tio” o Dom que Pernambuco ganhou. Dom Evaristo afrontou a ditadura civil-militar, à época dirigida pelo general Ernesto Geisel, abrindo as portas da catedral de São Paulo, no intuito de ser o espaço para cultivar a memória de Vladmir Herzog, jornalista assassinado em uma das dependências do exército, tornando pública a responsabilidade do Estado pelo crime, pelo assassinato de Herzorg, e o fez ainda que o assassino fosse o poderoso Estado. E sua catedral se tornou o local dos crentes de todas as crenças. Dom Evaristo alimentou a esperança que gerou a compilação dos crimes da ditatura civil-militar que prendeu, torturou e matou, em livro Tortura Nunca Mais. A tortura que foi denunciada internacionalmente por Dom Hélder Câmara em palestra pública na França, o que lhe valeu o ódio de todos os torturadores; de todos os falsos patriotas que sujam, com o sangue de seus compatriotas, a bandeira que dizem defender; Dom Hélder ganhou o ódio de todos que sabiam do que estava acontecendo, mas, por questões de governabilidade’ silenciaram e assistiram silenciosamente a pena de morte social que a ditadura civil-militar impôs ao arcebispo de Olinda e Recife. Sim, Dom Evaristo Arns poderia ter sido o escolhido, pois com o silenciamento imposto a Dom Hélder, tornou-se a Voz dos que não têm voz, levantou, terna e fortemente a sua voz contra setores poderosos do Estado brasileiro e de grupos de sua própria Igreja. E manteve-se firme na defesa dos Direitos humanos

Vivemos agora um novo tempo, um tempo que deseja emular as ditaduras pretéritas, a quem rendem glórias e afagos; vivemos um tempo no qual os dirigentes eleitos escolheram como heróis os torturadores, um tempo de um governo que tem uma ministra, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias, que, penso, imagina-se ser Maria Antonieta por terem lhe dado o nome da Imperatriz do Brasil e confunde a brasileira com a Austríaca que foi feita rainha da França. Maria Antonieta, ao saber que a população de Paris estava revoltada por conta da falta de pão, o alimento diário dos pobres de Paris e toda França e Europa, teria dito que o povo, na falta de pão, comesse brioches. Esta a arrogância do, agora antiquíssimo Regime. A arrogante ministra da agricultura do atual govermo disse, em sessão na Câmara dos Deputados que “nós (o Brasil) não passamos muita fome, porque nós temos manga nas nossas cidades, nós temos um clima tropical”, sugerindo que a população saia às ruas, jardins, plantações e busque tal fruto para garantir a sua sobrevivência. Esquece, tal senhora, que caso o povo siga seu conselho bobo, será vítima da lei que protege a propriedade. Tal é a arrogância dos poderosos, dos que jamais viram o povo, (quando o encontra não percebem além do que dele pode ser retirado para sua conta bancária). As palavras dessa ministram mostra a sua mente oligarca, de uma oligarquia nojenta e, caso houvesse uma pessoa decente na cadeira de presidente da República, esta senhora com mentalidade do século XVIII já estaria demitida. Mas, talvez que ali hoje se senta, pareça ser como Luiz XVI, que, embora tivesse inteligência dos acontecimentos, preferiu seguir como os antigos. Se for assim, precisaremos muito de olhar como agiria o nosso Patrono Nacional dos Direitos Humano para evitar tragédia.

Mas foi um imensa felicidade, neste início de ano, a publicação dessa homenagem a Dom Hélder, pois ela nos alerta que devemos continuar nesta caminho da defesa dos direitos dos homens diante da maldade.

Rescritas da história – muitas e diversas maneiras

14 Anos

Tinha eu 14 anos de idade
Quando meu pai me chamou (quando meu pai me chamou)
Perguntou se eu não queria
Estudar filosofia
Medicina ou engenharia
Tinha eu que ser doutor
(Paulinho da Viola)

Eu tinha quase 14 anos quando meu pai me pôs a estudar no Colégio Técnico Professor Agamenon Magalhães, sim, o mesmo que foi interventor em Pernambuco durante a ditadura do Estado Novo, após ser Ministro da Justiça e do Trabalho. Foi assim que no dia Primeiro de abril, o diretor do CTPAM (prof. Abelardo, talvez), suspendeu as aulas por que soube estar ocorrendo movimentação militar na cidade e o melhor era todos irem para casa. Saímos do CTPAM e descobrimos que não havia transporte coletivo. Eu estava na Encruzilhada e tinha que ir para Nova Descoberta. Sem ônibus, peguei um bigú que me deixou em Casa Forte. Outra carona deixou-me na entrada de Nova Descoberta. Mais 1500 metros e cheguei em casa, e tudo parecia calmo.

Com quase 14 anos pouco entendia do que estava acontecendo. O que se dizia era que tinham prendido o governador Arrais e o presidente não estava em Brasília.
Depois foi ouvir as notícias as notícias pelo rádio. Falava-se de prisões de deputados vereadores, sindicalistas. Muitos dos moradores de Nova Descoberta trabalhavam na Fábrica da Macaxeira, e as famílias estavam assustadas. Alguns dos provedores ficaram desaparecidos por uns tempos, e quando voltaram estavam desempregados. A memória traz a campanha “Dê ouro para o bem do Brasil”. É que os comunistas haviam deixaram o Brasil na miséria. Vi muitas pessoas levarem alianças, anéis, brincos para a Praça da Independência, com o intuito de salvar o Brasil. Ao mesmo tempo os rádios e jornais informavam sobre Inquérito Policial Militar – IPM, para demonstrar o crime de políticos e sindicalistas. Parece que fiquei uma semana sem aula, tempo para que tudo se acalmasse.

Sempre tive um carinho especial por Felipe dos Santos. Ele havia liderado, em Vila Rica, Minas Gerais, uma revolta para expulsar o portugueses do Brasil, livrar o Brasil de pagar o Quinto a Portugal. Aprendi, ante de chegar ao Ginásio, hoje quinta série, que Felipe dos Santos foi o Protomártir da Independência do Brasil. Aprendi a amar o Brasil e Felipe dos Santos sempre foi, e continua sendo, o meu herói. Ele foi esquartejado, sua casa foi demolida, sua terra salgada para que nada mais nascesse ali. Foi a ordem do Conde de Assumar, meu primeiro vilão. Nos anos seguintes os livros não mais mencionavam Felipe dos Santos, começava o tempo de Tiradentes. Esse personagem foi ficando cada vez mais falado e bonito, a cara dele era bem parecida com a de Jesus Cristo. Até mesmo os poetas e cantores da oposição ao regime cantavam esse Mártir da independência. Estanislau Ponte Preta escreveu uma Exaltação a Tiradentes, com conotação jocosa, mas ele era o homem que “foi traído mas não traiu jamais a inconfidência de Minas Gerias. Ary Toledo cantava assim, “Foi no ano de 1789, em Minas Gerais que o fato se deu // E havia derrame do ouro (…) Esse ouro ia longe distante passava o mar, ia para Portugal para rei gastar (…) o mineiro garrou a pensar: se esse ouro que é ouro da terra e de nossa terra porque é que se vai (…) se juntaram numa reunião e resolveram fazer uma conspiração (…) Manoel da Costa, Antonio Gonzaga e Oliveira Rolim e tem mais um nome, o nome do homem que foi mais herói esse fica pro fim. E o nome do homem que foi mais herói, aprenda quem quiser, Joaquim José da Silva Xavier”.

As escolas de samba do Rio de janeiro se esmeraram em produzir sambas sobre o herói de Minas Gerais (a bem da verdade A Império serrano, em 1949 exaltou Tiradentes). Tudo isso ajudava muito a aceitar o esquecimento de Felipe dos Santos, que carregava dois sérios problemas: era português e civil, não podia ser herói de um movimento nacionalista liderado por militares.

Bem tudo isso veio vindo em meus pensamentos nesta semana quando se escancarou o projeto revanchista de revisar ou reescrever a história da Brasil, negando a existência de uma ditadura iniciada em abril de 1964, mudando os livros didáticos, como disse o brasileño com assento no ministério da educação. Historiadores estão atentos para iniciativas tortuosas como a do atual governo que, carente de um Golbery do Couto e Silva, foi pescar com Olavo de Carvalho. Assumindo o bom humor, Golbery de Couto e Silva teve Elis Regina, Chico Buarque, a Portela (1967) como propagandistas de seu herói. Mas precisamos lembrar que dizia Capistrano de Abreu sobre a Inconfidência de Minas Gerais.

Celebrar é diferente de rememorar

Março de 2019 está quase a findar e, segundo alguns, o Brasil ainda está com um presidente que não conseguiu entender a importância do cargo na totalidade. Embora esteja exercendo alegremente a tarefa de viajar em visita aos seus colegas, dirigentes de países amigos (EUA, Chile, Paraguai) enquanto se prepara para outras viagens, vai ao cinema no horário de expediente. Também continua aficionado pelo uso do tele móvel, como dizem os nossos membros de uma de nossas matrizes de cultura, e nela fica trocando farpas com jornalistas, e com o presidente da Câmara, de quem é aliado, mas está a esforçar-se para torna-lo adversário, ou inimigo.

O século XXI, em nosso país, está tomando uma característica interessante: todos os que tomam posse querem dar início à contagem do tempo, sugerindo um momento mágico, tomando a sua posse como o início de um novo calendário. Daqui a alguns anos iremos contar o tempo como os evangelistas: “no segundo ano do império de ……. Augusto, ocorreu a matança das esperanças guardadas, etc.”. Mas como dizia, além de consultar constantemente o seu tele móvel, o atual presidente gosta de viajar e aprontar alguns vexames, como, ao lado de presidente dos EUA, dizer implicitamente que, pelo seu gosto, apoiaria uma intervenção militar na Venezuela; no Paraguai fez um discurso elogiado um ditador daquele país, e o presidente do Paraguai ouviu calado por razões protocolares, mas, tão logo percebeu que seu visitante saiu do espaço paraguaio, lamentou ter tido de ouvir certas sandices. Semelhante situação ocorreu no Chile. Pelo que estamos a observar, um dos principais prazeres do presidente do Brasil é causar constrangimento à maior parte dos brasileiros. Seu amor por ditadores parece ser tão ardoroso que, penso, ele deverá visitar os amigos do ex-presidente Luiz Inácio nas terras africanas. Mas isso dependerá do que dirão os seus filhos. Veremos o que nos espera em Israel e na China.

Causou espanto ter o atual presidente emulado as Forças Armadas a celebrarem o golpe de 1964, pois, diz seu porta voz, ele não entende que houve erro ou excesso dos militares naquele evento, agora parte da história brasileira. Creio que o nos causa essa irritação e espanto, não é tanto a rememoração do fato, mas a intenção que está implícita. O atual presidente fez carreira militar e, tem como herói pessoa que foi torturador durante os momentos mais dolorosos da ditadura civil-militar iniciada em 1964. Como eles são muitos os brasileiros que sentem saudades do tempo em que direitos humanos não eram respeitados e, com o sacrifício de muitas vidas, fortunas foram construídas nas especulações financeira e imobiliária daquele tempo que, não há como negar, veio a criar estruturas que permitiram crescimento econômico e uma certa integração nacional. Entretanto, a sociedade busca a criação de um sentimento de regeneração das dores daquele período e, essa ação do presidente os faz temer o pior. Temos que reagir sempre que algo semelhante venha ocorrer; não podemos ficar na expectativa de que o pior jamais virá a ocorrer.

A reação da sociedade, ainda que não a elite econômica, fez o presidente buscar outros verbos para substituir “comemorar” e ‘celebrar’. Ouvi-o dizer rememorar. E sempre podemos rememorar, até para que não se repita o que se rememora.

Mas um presidente deve lembrar que, embora continue o mesmo homem, suas palavras carregam a responsabilidade da função que ele buscou e lhe foi confiada: governar pensando em todos os brasileiros, não apenas para o grupos de seus amigos e familiares.

Professor James Beltrão, sempre presente.

Acordo, e uma das primeiras notícias do início da manhã é que o Professor James Beltrão faleceu. Pouco antes da leitura dessa notícia estava a pensar sobre as minhas ações do passado e o que eu iria faze neste dia, que aulas eu daria e como conversar sobre o tempo como participante de nossa criação cultural. Então a notícia da morte de James Beltrão, do professor James Beltrão, empurra-me para o início da década de setenta, tempo em que estávamos completando o nosso primeiro quinquênio de magistério e nos conhecemos, ele ensinando Geografia, eu aprendendo a ensinar história. É que James era muito bom em nos encantar em seus comentários sociais a partir da ciência que ensinava e que, com imensa razão ensinou-me a não dissocia-la da história. Não é possível a vida humana sem o espaço físico e, como se pode compreender o espaço físico sem a história dos Homens?
Nossa aproximação cresceu quando fizemos a primeira greve em pleno ano de 1979, no mês de abril. Juntamente com a dos motoristas dos coletivos do Recife, foi a primeira greve em plena ditadura. Depois vieram os canavieiros de Pernambuco e os metalúrgicos de Santo André. Mas o que sai nos livros – (didáticos para os primeiros anos de vida, ou universitários, escrito pelos e para os mais velhos, que influenciam os mais jovens) nem sempre corresponde à cronologia que, vez por outra cede espaço para o ideológico. A Greve do SIMPRO deveria encontrar um escritor, alguém que nos lembre de alguns momentos. Enquanto isso não acontece, atrevo-me a lembrar que fizemos das slas do Colégio Marista, na Conde da Boa Vista, o Comando da Greve. Foi então que assisti o professor James Beltrão mostrar a cidade, onde estavam os colégios, como chegar a eles, quais os professores que deveriam ir. Cuidando da logística da greve James Beltrão mostrou-se um grande organizador. Vi isso porque fui escalado para ouvir as notícias e escrever relatórios diários a serem apresentados na assemnléia do final do dia. Pena que esses papéis não foram guardados. Nem poderia ser, naqueles momentos em que começávamos a cavar a sepultura dos pelegos que não desejavam a greve e foram surpreendidos por uma nova geração de professores que estava chegando ao magistério e, também ao sindicalismo. Sério, alegre, mas sempre tendo em mente o grande objetivo, James Beltrão nos comandava e era por todos comandado. As conquistas daquele greve levaram anos para serem descaracterizadas, mas foram intensos e profundos os momentos de temor e de alegria que vivámos. Éramos Costa Natemática), Janildo Chaves Geografia), João Alberto (Geografia), Mário Medeiros (História), Fernandão (Educação Física), Edmilson (Física), Zélia (História), Biu Oliveira (História), Natanel (OSPB) Da Mata (História), Jorge Alves (português), Gabriel (Física), Vera Gomes (Matemática), e muitos outros, alguns já mortos, outros vivos, mantendo a lembrança e a memória dos amigos entusiasmados com a vida e sedentos de liberdade.
Outra lembrança que veio de rápido está relacionada com a morte de Chico Science. Razões de difícil entendimento levaram-me para fora de Pernambuco e, no Rio de Janeiro fui procurar emprego qe aqui estava senod negado em 1994. Fiquei dois anos ensinando em escola de Ensino Básico e em universidades: Universidade Veiga de Almeida, Universidade do Rio de Janeiro. Embora aprovado em concurso público na UNIRIO, vim fazer concurso na UFPE, onde estou, agora como Professor Associado. Seis meses após o meu retorno, descobri Chico Science por quem meus filhos choravam de tristeza por sua morte. Então fui buscar a razão do sentimento de orfandade, pesquisei, li e escrevi um texto que o amigo Mário Hélio publicou em seu espaço no Jornal do Commércio. Algum tempo depois, James Beltrão entrou em minha sala no CFCH, dizendo-me que leu o que escrevi sobre o artista símbolo de uma geração, uma nova geração, novas maneiras de expor os sonhos, ele gostava de Chico, tinha muito material guardado e falamos, quase duas horas, sobre o que nos acontecia, o que estava acontecendo. Rimos. Falamos. Deixamos nossos espíritos viverem, de novo, de maneira nova, os sonhos e realizações.
Gostei muito de conhecer o Professor James Beltrão. Gostei muito do tempo que construímos o tempo e sonhamos com uma cidade mais bonita. Gosto muito dessas lembranças.

MARIANO TELES, Mestre de um Povo Novo

Políticas públicas que auxiliem a promoção de pessoas ou grupos de pessoas, comunidade são necessárias em sociedades como a nossa, caso haja o desejo de diminuir as desigualdades e afirmar a liberdade republicana para todos os que formam a nação. Somos uma nação resultante da chamada Revolução Mercantil, promotora das Grandes Navegações realizadas por Espanha, Portugal, seguidos por Holanda, França e Inglaterra. Tal Revolução tecnológica está ancorada no Livro e na pólvora como arma eficaz de dominação. Mas, apesar de nos voltarmos tanto para os feitos dos generais e seus exércitos conquistadores, foi a imprensa que garantiu o domínio cultural sobre os povos americanos, e mesmo sobre outras civilizações melhor apetrechadas nas criações espirituais, mais sofisticadas que as mantidas pelos Povos Coletores e Caçadores. A escrita, sobre a qual os europeus estavam aperfeiçoando o domínio com a tipografia, e a decisão de evitar que os povos submetidos a ela tivessem acesso, foi o que estabeleceu e manteve a dominação nas terras que receberam o nome do empregado dos banqueiros italianos. Além da conquista territorial, consequência das vitórias militares, foi a conquista espiritual que garantiu aos povos da pequena Europa estabelecer seus padrões básicos de hábitos, costumes, religião, leis aos povos que eles encontraram em seu périplo. Darcy Ribeiro ensinou que esta Revolução Tecnológica resultou Povos Testemunhos, Povos Transplantados e um Povo Novo, o Brasil.

O Povo Novo, surgido no processo da Revolução Mercantil, não teve acesso direto à tecnologia, recebendo-a à conta gotas, sempre que interessava aos conquistadores. Ora, é a leitura o instrumental básico para a transmissão e recriação do mundo moderno e, como sabemos, não houve qualquer interesse em construir escolas que tornasse comum a leitura, a escrita e o estímulo à criação de bibliotecas. Os portugueses não tomaram iniciativa de popularizar a tecnologia da escrita e da leitura; os espanhóis criaram, de imediato universidades em algumas de suas colônias, mas não escolas para o vulgo, o índio, o meztizo; as universidades estava para atender os Creoulos, para a formação de quadros administrativos garantidores da dominação. Assim os espanhóis, segundo Darcy Ribeiro, fizeram das civilizações Inca, Maia e Azteca, povos Testemunhos.

Nesta semana que passou, dia 14, ocorreu a morte de Mariano Teles, pessoa que conheci no início do século, mas que nasceu na primeira metade do século XX. Foi em um dos engenhos da cidade de Aliança e, em sua adolescência assistiu o desmanche dos engenhos de fogo morto, tornados em fornecedores de cana para as usinas que se estabeleciam na região desde o início do século XX. Mas enquanto a cana chegava vagarosamente, os sítios eram os locais de moradia dos trabalhadores da cana, e nesses sítios, descendentes de escravos que se caldeavam com descendentes de índios, criavam suas brincadeiras, ou davam novo sentido a essas brincadeiras. Quando Severino Lourenço da Silva, que ficou conhecido como Mestre Batista, estabeleceu-se no sítio Chã de Camará e começou a fazer “samba” nos finais de semana, Mariano Teles começou a frequentar o lugar e, um dia, tomado de muita coragem, pediu para entrar na brincadeira do Cavalo Marinho. Nunca mais deixou de brincar e aprendeu tudo que podia aprender com o Mestre Batista, de tal maneira que, cm a morte de Batista, Mariano passa a mestrar, e o fez até que sua saúde permitiu. Na universidade do Mestre Batista, foram formados os Mestres Biu Alexandre, Luiz Paixão, Biu Roque, Mané Salustiano, Gumercindo, Grimário, Mané Deodato, Antônio Teles, Zé Duda, Mariano Teles e muitos outros, inclusive o jovem Siba.

Mestre Mariano Teles conviveu com todos esses nomes famosos no mundo que fica distante daquele que está mais próximo da tradição europeia, mas que, recentemente, vive a conversar com esses mestres da cultura que o povo recriou, a despeito das imposições ou, talvez, por causa das imposições. Assim, o Cavalo Marinho, que o padre Lopes Gama, o Carapuceiro do Recife da segunda metade do XIX, dizia não conhecer algo “ tão tolo, tão estúpido e destituído de graça, como o aliás bem conhecido bumba-meu-boi. Em tal brinco não se encontra nem enredo, nem verossimilhança, nem ligação: é um agregado de disparates. Um negro metido debaixo de uma baeta é o boi, um capadócio, enfiado pelo fundo de um panacu velho, chama-se cavalo marinho; outro, alapardado sob lençóis, chama-se burrinha; um menino com duas saias, uma da cintura para baixo , outra da cintura para cima, terminando para a cabeça com uma urupema, é o que se chama caipora. Há além disso outro capadócio que se chama pai Mateus.(…)”. (O Carapuceiro, n.2 (11/1/1840) citado por Evaldo Cabral de Melo).

A descrição da brincadeira que o padre assistiu – a contragosto, diga- se, continuou a existir em alguns bairros do Recife, mas escondeu-se na Mata Norte do estado, recriando-se e se mantendo, com a inteligência e a memória dos que não tiveram acesso às tecnologias, mas viam e ouviam e, desse vir e ouvir, guardaram, cultivaram as experiências que hoje são buscadas pelos doutores diplomados que, às vezes com falsa humildade, sentam-se aos pés de mestre como Mariano Teles, para saber como é e que era o passado de seus (nossos) avós. Mariano Teles pode ter sido o último Mestre da Cultura Popular que não foi afetado pela escala de espetáculo que vem dominando o conhecimento da cultura popular; não se tornou “artista”, continuou Mestre, em Chã de Camará, assistindo, de longe os brilhos de seus colegas em plagas distantes, dançando sob os olhares dos novos carapuceiros que, parecem saber mais que todos, e assumem a tarefa de dizer o que vale ou não vale a pena ser cultivado.

Mestre Mariano Teles, a quem ouvi, sentado no banco de seu quarto, ou debaixo de frondosa jaqueira no sítio Chã de Camará, continuou cantando e dançando os Arcos de São Gonçalo no chão de terra batida, mas cheio de barroca; ali onde ele aprendeu os versos da Estrela de Belém, continuava ensinado às crianças; no mesmo terreiro ensinava a Toada do Vaqueiro e o drama de suas filhas. Todas as Figuras ele sabia cantar e dançar, como ensinou ao jovem Mestre Zé Mário.

Jamais esquecerei a singeleza e a elegância da resposta que, uma noite deu ao seu amigo Mestre Salustiano, em um dos primeiros Encontro de Cavalo Marinho. Mestre Salustiano Perguntou: “Mariano, qual a figura mais bonita do Cavalo Marinho” Ele disse: “não sei, se eu disser que é esta você vai dizer que é aquela, seu disse que é aquela, você vai dizer que é esta. Cada tem a sua preferia e a preferida é a mais bonita para quem acha.”

Saudade de Mestre Mariano Teles, mestre de um povo novo, que se tornou novidadeiro. Ele não, foi para outra Chã, foi dançar com Mestre Batista, conversar com Salustiano e, com Biu Roque, cantar.