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Carnaval – Alargamento do mundo –

Interessante como nos colocamos como centro da vida. Não que o sejamos, mas devemos fazer parte desse núcleo que parece decidir tudo. A maior parte dos nossos amigos, assim como nós mesmos, são o centro do mundo que vivemos, ou do mundo que nos cabe viver e decidir, ao lado e dentro de outros mundos e outras decisões. Deve nos parecer claro que não afetamos o mundo tão fortemente como desejaríamos e julgamos. Nosso espaço de influência é bem pouco, pequeno e, quase sempre, nos vemos impotentes aos acontecimentos.

Antigamente, uma vez por ano a comunidade se reunia e celebrava o carnaval. Extrapolava-se em todas as direções. Os que dirigiam a grande sociedade escondiam-se em máscaras para dar-se o desfrute de pequenas emoções e sentirem-se vivos, para além de tomar decisões sobre guerras, quem fica vivo ou quem fica morto. Foram famosos os bailes renascentistas e todos os demais para onde afluíam os poderosos a tentar relaxar das suas “responsabilidades”. Eles também viviam e, ainda hoje, vivem em seu mundo à parte, separados dos demais mundos que sua vida afeta. Faziam seu carnaval nas salas de seus castelos, em espaços preparados para tal. Louvavam, também, a vida. Enquanto isso, fora dos muros, outros mundos faziam seus carnavais, cada um segundo as suas possibilidades e as possibilidades de suas castas.

Os tempos da indústria permitiram a um maior número de pessoas criarem seu próprio carnaval, antigamente previsto pelas religiões. A indústria precisa vender para viver e, o prazer de sentir poderoso pode ser vendido a preços variados, dependendo do poder de compra de cada um. A rua é o caminho de todos cotidianamente, mas dentro de regras, limitadas pelas calçadas, velocidades, atividades de produção e comércio. Entre nós, há muitos que não usam as ruas durante o ano para as atividades comuns da sociedade. Seus mundos geográficos são diminutos, sua vizinhança é pequena, seus contatos são repetitivos. Não podem andar muito, não pode ver muitas coisas, exceto pela caixinha mágica colocada em local central da casa.

O Carnaval é um momento especial para experimentar novas sensações e sair de casa, da sua rua, do seu bairro e, por algumas horas sentir-se senhor de espaços que dominam e determinam o comportamento. Por isso esse rapaz que observa o mundo pela janela do ônibus, juntamente com seus amigos, estão ansiosos para saber se ainda estão em Olinda ou no Recife. Descem do coletivo, que veio barulhento e alegre, e não sabem em que direção devem ir para encontrar o Galo da Madrugada. E já são onze horas. E seguem uma multidão em direção de algum ponto e encontram outros que parecem estar voltando. Finalmente vêm o Galo sobre a ponte e apressam o passo para que ele não lhes fuja. E vão pelo centro da avenida, hoje sem carro, com policiais que garantem que os automóveis não irão lhe perturbar. A polícia hoje não lhe afronta e eles seguem dominando o mundo, o seu mundo alargado nesse dia específico, este sábado em que fará parte do “maior clube de máscaras do mundo”. Sim, agora ele faz parte do grupo que decide e sorrir embriagado, ainda não do álcool que carrega em suas mãos, mas do orgulho de estar em um outro mundo, com todas as gentes seguindo os seus passos.
‘De chapéu de sol aberto pelas ruas, eu vou
A multidão me acompanha, eu vou
Eu vou e venho de onde eu não sei
Só sei que trago alegria prá dar e vender
…….”

Carnaval: o cheiro do povo e o povo dos camarotes

O Carnaval que começaria no próximo sábado, conforme uma tradição, está ocorrendo a pleno vapor, de acordo com a nova tradição iniciada na segunda metade do século XX, quando nossa sociedade buscava encontrar uma maneira de escapar da repressão política imposta pelos civis e militares a partir de 1964. O protesto musical e o deboche dos costumes foi um dos caminhos encontrados para diluir o mecanismo repressivo. O golpe interrompeu a criação da alegria, amorteceu muitas utopias, milhares de desejos. O povo parecia ter desaparecido, mas nos subúrbios continuava a existir o processo de criação do povo, de manutenção de suas alegrias. Esse processo parece ter acontecido em todo o país. Apenas nas pequenas cidades e nos subúrbios das grandes, é que o carnaval, a alegria popular mantinha-se.

“Os anos setenta foram muito duros, para os pobres que empobreciam com a politica do arrocho salarial, e para a classe média, que ainda corria atrás do “corcel cor de mel”, mas foram também o início do processo de reconstrução da alegria. O ano de 1972 trouxe o filme de Cacá Diegues Para quando o carnaval chegar que parece ter tocado na letargia. Lembrança rápida nos chega a Banda de Ipanema em 1973, o Nóis sofre mais nós goza, em 1976, o Galo da Madrugada em 1977. Em Olinda, naquele 77 ocorreu a vitória de Germano Coelho e reinvenção do carnaval de rua de Olinda, experimentado ao longo do ano com o Forró Cheiro de povo. Voltava a irreverência no carnaval. Uma explosão de criatividade foi acionada e muitos blocos foram criados e tomaram as ruas das cidades, ofuscando os bailes de clubes e os corsos dos automóveis – palanques ambulantes de exibicionismos.

Mais uma vez o povo recriou a rua, como o fizera nos primeiros anos da República Velha, o que gerou a criação de instituições para ‘organizar’ o carnaval, orientar os desfiles dos blocos e escolas de samba. Processo semelhante ocorre nesses anos finais da ditadura, com a criação de uma política de incentivo ao turismo – o que é muito bom pois leva o brasileiro a conhecer o Brasil ao menos no período do mundo de ponta cabeça – mas que foi, aos poucos, domando a alegria livre em espetáculo para os visitantes ou, o que pior, para as elites locais, que passaram a transferir os camarotes dos clubes para as ruas, estreitando o espaço para o largos movimentos da alegria que, no carnaval é a vitória contra a mesmice da exploração diária. Novas formas de controle vieram. Cordões de isolamento, passarelas que pretendem tornar o povo observador, admirador da alegria e não o fruidor de sua espontaneidade. Agora é espetáculo o carnaval. O Galo da Madrugada agora sai às dez horas da manhã e, para ele ser o espetáculo para o mundo via televisão, as ruas são fechadas para os “blocos de sujo”; as agremiações que se formam sem pretensões outras que a celebração da amizade e o conforto de zombar do desconforto das roupas europeias em clima tropical. Pelo contrário, agora, até os maracatus de baque solto, criação e caboclos, gente de origem silvícola, de índios da terra, são obrigados a desfilarem como se fossem uma corte europeia do século XVIII.

E se o carnaval continua além da Quarta Feira de Cinzas e, parece-me para recuperar o tempo que perde nos três dias tradicionais em desfiles para agradar os poderosos que só gostam do povo abaixo dos seus camarotes. Eles, como aquele general presidente, preferem o cheiro dos cavalos, não gostam do cheiro do povo.

O Mundo de Ponta Cabeça – o Carnaval

Fevereiro no início e o carnaval chegando para marcar o início do ano religioso. O Sábado Gordo do Zé Pereira e do Rei Momo põe o Mundo de Ponta Cabeça: tudo vira o contrário da medíocre vida comum. Com uma semana de antecedência, o ex e eterno presidente chamou a imprensa que conta para ele e anunciou que era a alma mais honesta do país e até mesmo do Vaticano. Assim, enquanto as Virgens de Verdade não desfilaram este ano na orla olindense, foi o dono/não dono do sítio de Atibaia e do tríplex de Guarujá que deu início à Semana Pré-carnavalesca. Claro que neste mundo invertido que é o carnaval, o Poste filha do Honesto, também chamou a imprensa e disse que é urgente combater o mosquito que expõe a sujeira em que vive cerca da metade do Brasil, e essa urgência é tal, que o combate a esse mosquito que invadiu até o lago do Palácio da Presidente, terá início depois do Carnaval, em plena Quaresma. Até lá a produção de mosquito continuará e, não ocorrerá o que disse O/A Poste: “matar o mosquito antes que ele nasça”.

Nesse processo de inversão, no Primeiro dia de fevereiro deste ano, assistimos à consagração da falta de etiqueta e atingimos o clímax da incivilidade, a falência do processo civilizador, como nos ensinou Norberto Elias, traduzido ao vernáculo e comentado por filósofo que tentou, e fracassou em decifrar dilma, a Esfinge da Nova/velha Matriz Econômica. O fracasso do ministro filósofo em sua breve passagem pelo Planalto, escancarou-se quando o Procurado Geral da República, em ato solene da Abertura do ano Judiciário, no plenário do Supremo Tribunal Federal, não menciona o presidente da Câmara dos Deputados, representantes eleito pelo povo, confundido a sua briga pessoal com as suas obrigações públicas. Surpreende pouco, uma vez que a privatização das coisas e dos dinheiros públicos tem se tornado a norma. É o carnaval que nos governa e, da mesma maneira que os foliões em suas loucuras não reconhecem e zombam das autoridades no período momesco, agora são as autoridades que, definitivamente, não respeitam mais o povo que lhes paga salário. Reis e princesas nas monarquias sempre estão a sorrir para o seu povo, pois eles sabem que esta é a sua função. No carnaval que se tornou a nossa vida, as lideranças dos poderes de nossa/deles república já não sorriem externamente. Apenas externam seu desprezo pelo povo.

Nosso carnaval põe tudo de Ponta Cabeça. Na passagem do século XIX para o XX, o povo criou o carnaval de rua, pois até então os bailes eram em recintos fechados, em clubes inacessíveis aos ‘bestializados’. Reprimidos nos primeiros anos, já na segunda década do século, as autoridades saíram dos clubes e foram às ruas ‘organizar’ o carnaval. Hoje, as ruas são grandes salões com camarotes, dos quais ‘eles’ podem observar os ‘bestializados’, agora quase abestados, dançarem para o seu gáudio. Na segunda década do século XXI está invertido o carnaval, pois já não há mais inversão. Não é o avesso, mas o avesso do avesso, como disse o poeta quando ainda era o avesso.

E se os holandeses tivessem ficado em Pernambuco? para as viúvas de Nassau.

E se os holandeses ficassem no estado?
n 26, 2016S
Há 362 anos, os holandeses confirmavam sua rendição e partiam do Recife de volta à Europa, enquanto o estado voltava à influência portuguesa.
Ed Wanderley (texto)
Há um ar de romance quando se fala no período holandês. Como se em vez da alcunha de Veneza Brasileira, o pernambucano desejasse ser mesmo a Amsterdã Canarinha. Neste 26 de janeiro, são completados 362 anos da expulsão dos holandeses do Recife, em 1654, cinco anos depois da famosa Batalha dos Guararapes – decisiva para que os mesmos batessem em retirada. Ainda assim, há, aos montes, viúvas de Nassau espalhadas aos quatro cantos de um estado que nunca atingiu o nível de desenvolvimento que almejava suas hiperbólicas expectativas. Volta e meia, recai sobre os portugueses a “culpa” de não gozarmos de indicadores sociais tais quais os padrões europeus. Mas será que estaríamos assim, tão diferentes, caso os holandeses não tivessem deixado o estado?
Conversar com alguns historiadores locais desperta alguns pontos interessantes. Primeiro, porque confunde-se o que seria uma colonização holandesa com o que, de fato, foi o governo de João Maurício de Nassau. Com ele, foram tomados para a cidade tantos títulos de primeiras vezes – da primeira ponte de grande porte ao primeiro horto zoobotânico do país (em alguns casos, das Américas, para nutrir nossa folclórica megalomania) – que talvez sua influência seja entendida como um princípio de desenvolvimento bruscamente interrompido por “revoltosos locais”. A verdade inconveniente é que pouco se fala das agressões, estupros e abusos diversos de holandeses para com um povo que poderiam considerar inferior, social e culturalmente. E a verdade incontestável é que o modelo de colonização holandês não era o de Nassau – que, aliás, era alemão.
Para o historiador e teólogo da UFPE, Severino Vicente, estaríamos em situação bem ruim caso os holandeses permanecessem em solo pernambucano. “Fizemos bem em colocá-los para fora. A questão é que não sei se foi bom aceitar Portugal de volta. O estado, ou mesmo a nação, poderia ser outra caso não tivessem aceito Dom João IV”, afirma. O doutor em história das Américas pela Universidade de Salamanca George Félix Cabral segue linha de raciocínio semelhante. “Onde os holandeses passaram, há subdesenvolvimento – a exemplo de países do sudeste asiático ou a África do Sul -, inclusive não apenas com desigualdade social de ordem econômica, mas também racial, que provoca até conflitos sangrentos”, lembra.
Ambos trazem à tona o exemplo mais próximo e gritante: o Suriname. Vizinho ao Brasil, no extremo norte, a nação tem pouco mais de 560 mil habitantes (três vezes menos que a cidade do Recife) e índice de desenvolvimento humano 5% inferior ao do Brasil e abaixo de Líbia, Colômbia e Jamaica. “Na segunda metade do século 20, a Holanda pagou para que o Suriname se declarasse independente e, na época, as Forças Armadas do país se resumiam a um helicóptero”, lembra Vicente.
Historicamente, os empecilhos para o desenvolvimento do Brasil poderiam ter menos a ver com quem o explorou, mas em como sua configuração social foi concebida. “O senso comum busca uma fuga na condenação do colonizador português, enquanto o papel das elites não é questionado. Quando o problema sempre foi essa constituição de pequenas parcelas privilegiadas da sociedade”, defende Cabral. Ele acrescenta ainda que há um movimento que chama a atenção, inclusive, dos próprios holandeses. “O colonizador holandês só é visto com simpatia aqui. Em nenhum outro lugar é encarado com bons olhos”, garante.
No final das contas, viramos escravos do “se”. Mesmo quando esse “se” é tornado frouxo. Iludidos por um sotaque tido como mais bonito por conta dos ares e erres dos neerlandeses. Enquanto se discute o quão melhor estaríamos se explorados pelas pessoas certas, continuaremos a ver bois voarem, acrescentando, claro, que tratava-se do maior gado alado em linha reta da América Latina…

http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2016/01/26/e-se-os-holandeses-ficassem-no-estado/

Amigos de Caminhada, construção da humanidade

Sempre que caminho em uma praia lembro-me de dois professores que me permitiram a sua amizade, os padres Eduardo Hoornaert e José Comblin. Dois belgas que chegaram no Brasil no início dos anos cinquenta, quando eu ainda não passara dos cinco primeiros anos de minha vida, e aqui decidiram viver o resto de suas vidas. O padre Comblin já completou seu tempo de missão no Brasil e no mundo, em uma noite enquanto dormia, em uma cidade do interior baiano. Um seguidor de Jesus Cristo de maneira integral e total. Nós todos o amávamos pela sinceridade de sua seriedade e simplicidade no trato das coisas humanas. O mais livre dos teólogos da chamada Teologia da Libertação.

Mas o que tem a praia com esses homens que atravessaram o Oceano para servir aos pobres da terra? Uma vez, Eduardo confidenciou-me que caminhou, em uma praia, durante mais hora ao lado de José Comblin sem dizerem nenhuma palavra e, Eduardo concluiu: “acho que somos amigos, não precisamos falar, nos entendemos”. Talvez seja isso, a amizade, o amor, eles nos levam a compreender a necessidade do amigo e do ser amado antes que a necessidade seja pronunciada. E a palavra, contudo, é necessária na construção da amizade, da relação amorosa, na defesa daquilo que fez brotar a amizade. Mas não as palavras excessivas, desnecessárias, apenas as verdadeiras, as que estão carregadas das fragilidades que nos fortalecem.

Foi assim que, na caminhada desta tarde, nesta Praia de Pitimbu veio-me a lembrança de Ivone Gebara, uma das mulheres extraordinárias da minha vida, também minha professora. Sua lembrança veio-me após uma conversa na rede das amizades virtuais, o facebook, com um amigo real, o Sérgio Gusmão, a respeito do capitalismo, da libertação, da opressão do capital sobre o homem. Disse-lhe que a opressão não do capital sobre o homem, mas do homem sobre o homem. Ao dizer-lhe isso, lembrei-me que, quando comprei meu primeiro automóvel, um fusca, fui celebrar essa alegria com duas mulheres amigas: Ivone Gebara e Valéria Rezende. Na época trabalhava, com Valéria, um texto para a História da Classe Operária, uma solicitação da Ação Católica Operária – ACO. Essa celebração debateu alguns parágrafos escritos para o primeiro volume, voltado a contar a luta dos trabalhadores brasileiros durante o período de dominação portuguesa e o Império dos Orleans e Bragança. Depois veio o fusca como tema. Ainda lembro as palavras de Ivone: “lembre-se sempre que você é o dono do carro, não deixe que ele lhe domine”. Essa é a lição que a vida de Ivone, Valéria, Comblin, Eduardo, Hélder e tantos outros amigos/professores deixaram em minha vida.

É quando o homem se deixa dominar por aquilo que ele construiu que o faz imaginar e justificar dominar os demais na defesa das coisas que o dominam. Se você não se deixa escravizar pelas coisas jamais poderá escravizar nenhum ser humano.

Duas tendências de inclusão

Em pequeno período de férias, após a semana de avaliação de conhecimentos adquiridos, das metodologias utilizadas, divido tempo em ouvir Elis Regina ler cartas do Beato Hélder Câmara, com quem tive a graça da convivência em alguns momentos de trabalhos e alegria. Sempre assediado por Isaac e sua prima Ana Laura.
Nos anos setenta Dom Hélder era um dos grandes líderes do movimento ecumênico, abrindo veredas de comunicação com todas as religiões, inclusive com ateus, como era o caso de Roger Garaudy, antes de seu itinerário religioso. Leio sua referência a Harvey Cox que o visitou e o bilhete que lhe foi enviado por Eric Fromm. E essa leitura coincide, no tempo e não na essência, com a leitura que fez uma jovem professora de História a respeito de uma expressão do papa Francisco. Disse o Pontífice que “todas as religiões são filhas de Deus”, e essa expressão produziu o espanto exposto na frase “o papa rasgou a Bíblia”. E nem adianta lembrar que Deus é bem maior do que a Bíblia, pois os fundamentalistas, os que se apossaram ou se empoderaram (é a palavra mais comum e politicamente correta) de Deus não percebem que vivem a diminuí-Lo. Diminuem-no à pequenez humana ao invés de expandir-se à sua grandeza. Esta tendência de diminuir a divindade, segregá-la ao seu mundo pessoal é uma das razões de muitos sofrimentos que ocorreram ao longo da história e, lamentavelmente ainda continua a existir com a construção de guetos dos possuidores da verdade.

Verdades históricas são históricas e, portanto podem ser revistas e aperfeiçoadas, inclusive as maneiras de compreender a divindade ou aqueles que julgam-se divindades. Nosso países vem sendo, desde os tempos do Império português, um local de exibição barroca de advogados, pois aqui as leis chegaram antes da população se formar, estabelecendo costumes favoráveis àqueles que possuem o conhecimento das normas e daqueles que podem pagar pela interpretação das mesmas leis, feitas por seus parentes. Assistimos e vivemos hoje uma possibilidade de revermos esses comportamento anti-povo que marcou nossa história, com as grandes bancas advocatícias, formadas no pensamento de uma época, surpresas com o comportamento de advogados e juízes novos, desejosos de tornar explícito e verdadeiro o axioma jurídico de que “todos são iguais perante a lei”. Desesperam-se os que, em nome da justiça, aplicam-se em aprimorar as maneiras de garantir impunidade de ricos e poderosos enquanto os pobres não encontram que os defendam contra as arbitrariedades de um Estado servil aos interesses dos ricos e poderosos. Que essa não seja mais uma oportunidade pelo país e pela nação brasileira.

Esses acontecimentos eu vejo como duas possibilidades de inclusão, uma que busca a unidade dos homens com as suas divindades e outra, a possibilidade de incluir os ricos criminosos na legislação e no rigor da lei. As duas nos encaminham para uma humanidade mais decente e amável.

Escrito na Praia de Pitimbu, PB.