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A que nos leva uma educação não sintonizada com o século.

Esta foi uma semana que passou marcada por fortes emoções que envolveram religião, política, arte, ética, ou seja foi semana extremamente humana. A humanidade é consequência desse diálogo profundo que se tem a partir das relações mais primeiras, que são as relações que nos mantém fisicamente vivos pois, para tal tivemos que inventar valores que nos permitissem a vida diferente dos outros animais. Afinal, nosso corpo, embora pareça muito com os corpos de muitos animais – somos todos filhos da mesma terra com suas leis e seu magnetismo – temos pequenas diferenças que nos permitiram criar modificar o ambiente e criar cultura: objetos e ideias. Mas, como desde cedo nossos antepassados mais distantes se afastaram, dividiram-se para sobreviver com os poucos recursos culturais que possuíam e, nesse afastamento, foram criando novas ideias de explicavam a sua existência (religião), a sua organização de poder (política), o que valia para tornar agradável os espaços em que viviam, belos e atraentes os seus corpos (arte), e os comportamentos que permitiam a convivência do grupo (ética). Assim foram sendo criadas culturas diferentes no espaço comum de todos: a terra. Nos últimos quinhentos anos tem acontecido movimento inverso: os grupos humanos estão de novo se encontrando e, cada vez mais de forma pacífica, pois nos dois últimos séculos tem diminuído confrontos mortais entre as nações. Claro que as notícias sobre os pequenos conflitos locais que dominam as ruas das cidades (luta por controle de território para venda de drogas e outras atividades por questões semelhantes) podem nos dar impressão diferente.

O que vivemos nesta semana foram debates em torno das culturas que se encontram depois de muitos séculos, e também por valores que estão sendo abandonados por alguns e recepcionados por outros. A partir de uma exposição de arte, ou seja a apresentação estética de um grupo sobre situações diversas, experiências de convivência, maneiras de organização para apresentar seus propósitos e dizer seus sentimentos, outros grupos sentiram-se ofendidos em suas crenças, em suas definições e experiências estéticas, nas valores que regem seus comportamentos sociais e familiares. Então acionaram os caminhos da organização jurídica do Estado em defesa desses valores que o Estado se compromete defender. Ocorre que o Estado também protege o outro grupo e todos os grupos que o formam, o Estado deve dirimir o conflito e dizer que ele não é o Estado de um só grupo.

São muitas as razões desse debate de equívocos. Por termos um sistema educacional que discute as questões de estética (lembremos que nem a gramática básica da língua tem sido ensinada nas escolas, e a gramática é que embasa e garante a beleza do idioma), confundimos a arte com os sentimentos e, se atentarmos que os sentimentos básicos da formação de nossa cultura é a religião, caminharíamos para entender porque grande parte do debate teve os valores religiosos como catalizadores da discussão. Houvéssemos cuidado melhor de nossa educação debatendo os valores estéticos com base em uma ética não religiosa, certos confrontos com face interna e externa do século XVII não teriam medrado entre nós, e os juízes não dariam sentenças baseadas em valores religiosos, mas chamariam atenção aos valores cívicos. Mas atualmente há lobbies lutando para que o Estado, que se define como laico, assuma responsabilidade de ensinar religião. Ora, religião deve ser ensinada nas igrejas, nos templos, nos terreiros, nos locais da religião e nas famílias.

Nas escolas, mantidas pelo Estado, com professores pagos pelos impostos, devem ser ensinado, aos cidadãos, as ciências da História, da Arte e da Sociologia. Não é obrigação do Estado ministrar aula de religião. Esses religiosos, como os partidos políticos, devem saber que os impostos são para ser usados preferencial e primeiramente para a saúde, a segurança e a educação dos cidadãos.

Jerimum com leite e minha Pátria

Faz cinco anos da morte de minha mãe, e na manhã de 5 de setembro lembrei do jerimum com leite e açúcar que, algumas manhãs ela nos servia como primeira refeição do dia. Veio a lembrança enquanto eu cortava e descascava o São Tomé para a minha primeira refeição. Mamãe não entendia de política, mas sabia o que era bom para a saúde de seus filhos e nos ensinou o que é ser uma pessoa humana, alguém que, embora sabendo-se imperfeita e tendente ao egoísmo, é capaz de superar esses pequenos e grandes limites. Ela nos ensinou que há o bem e o mal, e que devemos optar pelo bem. E o bem é que queremos para nós e o que queremos para nós só é bem mesmo, se for bom para os outros. É uma senda para a vida.

Nos últimos dias temos aprendido que a geração que chegou ao poder no início deste século, embora convencesse a muitos com seu discurso de desprendimento e de doação aos pobres, de compromisso com a Pátria Mãe gentil brasileira, garantindo que iria mudar o Brasil, não cumpriu a promessa. Fez reformas cosméticas, exteriores, “dourando a pílula”, mas aprofundou a prática de apropriar-se das riquezas produzidas pelo povo brasileiro.

Agora, quando o século completa 17 anos e o Brasil 195, notamos que a pouca atenção que é dada a esta data. Na segunda metade do século XX, o Brasil viveu uma ditadura, essa maneira de governar que nega ao povo o direito de sua fala, o direito de debater e participar da vida política; foi um período em que militares e civis governaram, conjuminadamente, sem considerar o desejo dos brasileiros, cuidando apenas de seus interesses. Quando conseguimos afastar os ditadores, talvez tenhamos cometido o erro de confundir a ditadura com o Brasil e, parece que, como se conta em uma história, “jogou-se a água suja com o menino na bacia”. O segundo ano do século XXI seria o início de um novo tempo, um tempo como “nunca antes houve neste país”.

Por razões múltiplas, quisemos e fizemos o esquecimento do Brasil. Começamos achar ridículo considerar-se brasileiro, amar a pátria passou a ser sinônimo de gente do passado, ou de “direita”, enquanto ser gente atual era amar a “pátria grande”. Perdemos o amor da pátria. Acreditamos, de verdade, no que disse um poeta um poeta durante a ditadura: “melhor seria ser filho da outra”. E cuidamos, como fizeram os portugueses à Felipe dos Santos e Joaqim José da Silva Xavier, Manoel Justino, João de Deus et alli, no tempo em que dominavam esse pedaço da América, esquartejamos nossa realidade e passamos a conversar e refletir a partir dos pedaços, confundindo-os com o todo. De tanto não querer nosso passado, Imperial e Republicano, passamos a nos ver como se vê a potência a que se diz recusar. E começamos a apartar os pedaços e, com a justificativa de que estávamos buscando a identidade, libertar os inconscientemente dominados, fomos largando o que nos unia, aprofundando o fosso econômico e social, como nos mostram os bairros/cidades afastados, esses condomínios de luxo, bem como os muros altos das cidades, externação da distopia em que nos metemos seguindo quem prometia a utopia do paraíso. Perdemos a identidade que tínhamos.

Depois que tanto nos roubaram aliando-se aos que sempre nos roubaram (parece que com mais parcimônia), ajudaram a roubar a riqueza que produzimos. E depois que nos ensinaram a não amar a Pátria, depois de nos ensinarem a não respeitar nossas tradições, transformando-as em mercadorias e razões de espetáculos, será que só nos resta “ser filho da outra”?

Embora a mim tenha mais sabor de liberdade celebrar o 5 de outubro de 1821, neste Sete de Setembro, quando o Brasil completa 195 anos de existência, vou cantar o verso que aprendi antes dos dez anos, no tempo em que comer jerimum machucado com leite e açúcar fazia parte da refeição matinal de muitos brasileiros da área rural: Houve mãos mais poderosas, zombou deles o Brasil.

algumas lembranças da Fábrica da Macaxeira e da Igreja de Nossa Mãe de Deus

Hoje completa 50 anos da criação da Paróquia de Nossa Senhora Rainha do Mundo, localizada na Macaxeira. Tinha eu sete anos de idade. Foi no mesmo período da criação da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta. As duas novas paróquias eram desmembramento da Paróquia de São Sebastião do Vasco da Gama que por sua vez já havia sido desmembrada da Paróquia do Bom Jesus do Arraial, de Casa Amarela.

O metropolita era Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, bispo conservador que pôs sua assinatura na ata da criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Dom Antônio era conservador, autor de vários artigos na Revista Eclesiástica Brasileira – REB, todos seguindo a linha da Quanta Cura e do Sylabus de Pio IX. Mas Dom Antônio percebeu o crescimento populacional e geográfico da cidade e, cuidou de estabelecer a presença da Igreja naquela região norte do Recife, que vinha num crescendo desde os anos quarenta. E esse crescimento estava ligado a dois fenômenos: 1. a descida da população desde a Mata Norte, pois as usinas levaram ao fechamento dos engenhos e ao processo de substituição dos sítios por canaviais sempre mais sedentos de terra; 2. a transformação desses antigos cortadores de cana moradores de engenhos em operários nas fábricas têxteis, especialmente da Fábrica da Macaxeira. O crescimento populacional, é incrementada nos anos quarenta e cinquenta e levou à ocupação dos morros; essa população operária chamava atenção pela situação precária que vivia, sendo que os operários das fábricas de tecidos eram os que tinham melhor padrão de vida, no que pese a constante renovação da mão de obra nas unidades fabris. E o Arcebispo preocupava-se em não perder suas ovelhas para os sindicatos que saíram em defesa dos operários. Dom Antônio percebeu que era necessário aproximar-se e dar um apoio maior aos que formavam a Juventude Operária Católica – JOC, e era ativos cristãos no meio operário, bastante disputado também pelos partidos, especialmente o Partido Trabalhista Brasileiro – PTB e o Partido Comunista do Brasil – PCB.

A indústria têxtil de Pernambuco foi instalada em momento de forte presença da Igreja Católica na sociedade, ainda que estivesse sendo vivenciado o processo de secularização, cujo emblema mais explícito é a separação republicana da Igreja com o Estado. Os industriais eram católicos e pretenderam seguir os ensinamentos da encíclica Rerum Navarum, e criaram vilas operárias, com atendimento religioso, educacional e social para os seus operários. Assim, além da igreja e da casa paroquial, as fábricas ofereciam atendimento à saúde, centro de lazer, com cinema e salão de festas para os operários, quase sempre conhecidos como recreios. Evidentemente os industriais também forneciam as instalações para a delegacia de polícia.

Esse fenômeno pode ser visto no Bairro da Torre, em Camaragibe, na cidade de Goiana, ainda agora depois que as fábricas fecharam as suas portas por não terem tido a audácia de renovarem-se parra acompanhar o processo nacional, ou, por os sucessores de seus fundadores terem optado por acompanhar o processo de fortalecimento do capitalismo centralizado na região Sudeste do Brasil, assumindo ações nos setores de serviço, especialmente a hotelaria. Os operários foram abandonados e, simultaneamente os bairros incharam com o capitalismo e suas sequelas se estabeleceram com a nova ordem ou desordem, com a ausência do Estado que, quando chega vem com um atraso irremediável.

Nesta manhã, uma aluna de jornalismo da UNICAP fez-me perguntas sobre a fábrica, lembrando-me do tempo em que saía de Nova Descoberta para, atravessando a mata de eucalipto às seis horas da manhã, apanhar o ônibus elétrico que me levava até a Encruzilhada, onde terminei o curso ginasial. Mas também lembrei que, nas festas de Natal, ia com meus irmãos e amigos para a frente da Igreja de Nossa Senhora Mãe de Deus, brincar no parque e assistir a apresentação do Pastoril. Ao longo do ano, na venda de papai, vendia fiado a muitos operários. Com fechamento da fábrica, aos poucos o comércio de papai também faliu, impulsionado pela chegada dos modernos supermercados.

Afogado em números e viagens

Então chego em casa após duas horas de palestras para senhoras donas de casa, algumas mulheres comerciantes, jovens estudantes que estão no final do ensino médio, alguns universitários, alguns agentes de turismo, aposentados e aposentadas, e gente que acabara de descer do ônibus e entrou na Igreja de São João dos Militares, na periferia do sítio histórico de Olinda, com o objetivo de ouvir e debater o Cotidiano em Olinda no século XIX e início do século XX. O padre que cedeu o espaço para a palestra ficou surpreso com o número de pessoas que atenderam ao convite que ele fez na missa do domingo. Nenhuma autoridade, apenas uma representação da periferia Após a palestra várias pessoas fizeram comentários e uma ofereceu a sua coleção de fotografias para que sejam escaneadas. Coração alegre.

E ao chegar em casa, leio que um professor titular da Universidade Federal de Pernambuco, em entrevista a jornal da cidade do Recife, propõe o fim do ensino da história e da geografia para que os alunos tenham mais tempo para aprender a pagar boletos,; a vida, segundo o doutor, é a arte de pagar boletos. O doutor, professor emérito do Centro de Informática da UFPE não quer que se perca tempo estudando história, refletindo sobre os modos de apropriação e usufruto da natureza, pois, para o ilustre matemático, o importante é saber como fazer códigos de barra e os pagar prazerosamente nas agências dos bancos que financiam suas viagens ao Japão e à Austrália, povos que pararam de ensinar história e geografia aos seus jovens, aquele em algumas universidades e, esta, no Ensino Fundamental 2. Sílvio Meira, professor emérito da UFPE, e associado da Fundação Getúlio Vargas, é capaz de entender o mundo sem essa tentativa de compreender as razões que levaram as sociedades a dominar e escravizar a natureza. Compreender esse processo pode levar os humanos a pensar, novamente, que o caminho poderia ser outro, que o salto quântico pode ser um salto não quantitativo dominante, mas de outra qualidade, e não a continuação de repetir sempre os mesmos passos na mesma direção. Na natureza não há retas e, quando se impõe uma regra (régua) na sociedade, o desastre é garantido. Historicamente os japoneses já sabem disso, e, talvez por isso a história deva de ser dispensada? A história não se ensina, conta-se enquanto se vive. Evita-se o estudo da história pelo interesse de esconder a terrível fragilidade que é o ser humano, histórico e sem a impessoalidade de um código de barras.

Não há como negar que vivemos envoltos em uma trama que parece desmerecer o ser humano que criou esse mundo de máquinas que comandam, já agora a existência. Mas será que devemos também entregar a essência que somos? Historiador, Harari nos mostra o dilema que estamos a viver desde a mais recente das revoluções do conhecimento, mas ele entende que a sociedade deve debater suas possibilidades. E como fazer esse debate tão sério abandonando a experiência (história) e negando o mundo que nos envolve e que recriamos (geografia)?

Lamentável que há quem julgue que usar roupas berrantes é ser o suprassumo da inteligência. O professor emérito deveria ler (não se reler o que não se leu) “O que penso do mundo”, de um cientista apaixonado pela história (não pela repetição do algoritmo), Albert Einstein. Ele pôs a língua para fora não porque era inteligente, mas porque estava irritado pelas inúmeras repetições dos seus entrevistadores.

Povo Novo ou Povo Perdido

Não está sendo fácil, pois a situação é de mudanças em uma constância raramente prevista. Tudo parece mudar e, considerando o pequeno período que nos é permitido compreender, realmente as mudanças ocorrem. Ontem recebi uma foto na qual a frase de famoso escrito apaixonado pelo Brasil, tão apaixonado e crente em seu futuro, que resolveu matar-se na bela paisagem do Estado do Rio de Janeiro. Na foto que me foi enviada a frase parece mais real: Brasil pais sem futuro. Na mesma semana escutei famoso cineasta brasileiro, em seu comentário diário em uma emissora de rádio, citar frase de renomado economista a respeito do Brasil: O Brasil jamais perde a oportunidade de perder uma oportunidade. Lembra-me frase de um político baiano que, ao ser perguntado a razão de mudar tanto de partido, apenas responde: eu não mudo, meus posicionamentos são os mesmos, os partidos é que estão mudando, ora na oposição ora no governo. Mas eu não mudo, estou sempre com o governo.

Neste mutável universo que é o Brasil e sua política, tudo parece acomodar-se nas mais variadas formas: o caráter Macunaíma cada vez mais fica mais Malandro, na casa ou na rua. E não importa se é uma Casa Grande ou Senzala, um Cortiço, um Sobrado ou Mocambo; as aparentes mudanças garantem a alguns que nada mudará e, por isso, a sociedade acostumou-se a pintar anualmente as paredes das casas, mudar a posição dos móveis e garantir que estamos sempre em um país novo, embora envelhecido, governado por velhos que mantém seus privilégios e jovens que agarram-se a ensinamentos seculares, para criar o novo mundo. Enquanto parte da humanidade está preocupada sobre se haverá cursos universitários suficientes e atentos às combinações possíveis no mundo quântico e suas veredas recentemente descobertas, o malandro procura salvar comunidades para fiquem permanentemente em seu estágio de testemunhas de um tempo passado.

O que Darcy Ribeiro deslindou sobre o Povo Novo, mas que não fez uma Revolução Tecnológica, é que ele é obrigado a realizar constante Atualização Histórica para acompanhar o que a criatividade que o conhecimento acumulado é capaz de produzir; entretanto, resolvemos apenas investir nessas reciclagens, ou seja, procuramos ainda utilizar o que já foi descartado. Desde 1949 que há campanhas para acabar com o analfabetismo no Brasil, temos especialistas em Alfabetização de Adultos, que sempre terão emprego garantido, porque as escolas não alfabetizam corretamente as crianças. Vamos nos tornando uma sociedade de reciclados, em reciclagem permanente. A disciplina do comportamento passou a ser encarada como algo fascista, embora os malandros ricos –alguns pensam que são- fiquem sempre deslumbrados com as sociedades organizadas e disciplinadas que encontram sempre que saem do Brasil, com ruas limpas e seguras.

Neste início do século XXI, a indisciplina de Macunaíma parece estar vencendo, e os brasileiros não estão perdendo a oportunidade de perder mais uma oportunidade.

Fernandão e Edwaldo Gomes – amigos

Nesta semana, em um dia, a vida mostrou-se em sua face mais esperada e mais surpreendente para mim: a morte. Ela já apresentou-sê-me de muitas maneiras, desde que alcancei o que chamam – chamavam – de Idade da Razão. Um pouco antes veio a morte de tia Djanira, mas logo depois veio a morte de Vó Alexandrina. Veio um tempo de descanso dessas visitas, embora tenha ficado na memória a ambientação da morte de Pio XI e, com mais clareza as mortes de John Kennedy e João XXIII. Em uma visita inesperada, levou um sobrinho, Eduardo, quando ainda não fizera cinco anos de vida. Fui aprendendo que a morte vem no seu tempo, não no nosso desejo. Depois o luto pessoal veio na morte de meu pai. Depois ela apareceu buscando minha primeira esposa, Tereza, de meu amigo Sebastião Tavares – Tão, meu irmão José e minha mãe Maria.

Mas esta semana, veio em dose dupla. Duas pessoas que participaram de minha vida e que permanecem sempre que reflito sobre os passos que tenho dado, desde os 10 anos de idade. Foi nessa idade que conheci o padre Edwaldo Gomes, no dia em que pisei no Seminário Menor Nossa Senhora da Conceição, na Várzea. Meus pais, a meu pedido, me entregaram a ele, que então era vice-reitor daquela casa de formação. Desde então, outra pessoa além de meu pai chamava-me de Biuzinho. Meu amigo Eutrópio Édipo ainda me chama dessa maneira. Nunca crescemos para certas pessoas.

Vivi três anos no Seminário da Várzea e tive Edwaldo Gomes como meu professor de língua Portuguesa, muito preocupado com o enriquecimento de nosso vocabulário e o uso correto das flexões verbais. Em várias ocasiões fui chamado à sua sala para uma reprimenda, pois ele cuidava da disciplina geral dos alunos. No início de 1964 não retornei ao Seminário e veio a Redentora, como a chamava Stanislaw Ponte Preta.

Pouco antes de completar dezenove anos principiei a exercer profissionalmente o magistério. Então conheci Fernandão, professor de língua portuguesa em cursinhos preparatórios para o vestibular. Sempre o chamei de Fernandão pois ele era enorme e eu sempre fui pequeno. Eram tempos difíceis, e terminei sequestrado com outro amigo, José Nivaldo Junior, também professor de cursinho, à época. Fernandão seguiu os estudos, andou no mundo físico e amava com profundidade os escritores que amaram profundamente os homens e fizeram deles a fonte de suas vidas e escrita. Logo depois que os sequestradores me liberaram reencontrei padre Edwaldo na celebração Eucarística no Morro da Conceição. Disse-me que tinha orgulho de ter sido meu professor, no momento da Eucaristia. Eu disse que jamais o esqueci e sempre que nos encontrávamos vivíamos essas carícias da amizade. Padre Edwaldo foi se tornando referência no Recife desde que assumiu como vigário a Paróquia de Casa Forte, seja por sua postura diante o estado autoritário, seja por seu posicionamento respeitoso, coerente, em relação ao arcebispo que substituiu Dom Hélder Câmara. ma das últimas vezes que estive com ele foi no stúdio de uma emissora de Rádio para conversar sobre o papa Francisco. Depois foi em uma missa lembrando Dom Hélder.

Enquanto isso Fernandão que conheceu o padre Daniel Lima bem mais que eu, brilhava com simplicidade nas aulas de literatura, formando gerações. Após 1996 voltamos a trabalhar na mesma instituição, agora UFPE. Trabalhávamos em prédios vizinhos, mas quase não nos víamos. Os corredores foram os locais de nossos encontros rápidos. Mais duradouro foi a noite em que, Flávio Brayner, ele e eu, quase varamos a noite em um bar/restaurante próximo à Praça do Carmo, em um carnaval com piano, canções e bolerões.

Acompanhei Fernando Mota em seus artigos no facebook. Conversávamos e chegamos a marcar almoço em casa de uma amiga comum, Sylvana Brandão. Disse que desejava ouvir mais sobre o sequestro de 1973, queria conversar sobre os temas atuais que eram de nossa preocupação comum. Entretanto ele não foi. Mas a conversa continuou, especialmente quando descobrimos nossa amizade com Montaigne que, disse, era seu companheiro de travesseiro. Em uma de suas últimas conversas no Facebook disse que havia encontrado a morte e sentiu-se calmo. Poucos dias depois, seguiu em sua companhia.

Fernandão e Edwaldo Gomes foram colhidos na mesma safra. Dois homens importantes em minha formação, no caráter e na ilustração.