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João Ubaldo e Astrogilda Andrade – dois modelos

Há dias em que a vida toma iniciativas de nos surpreender, impor a sua a sua força, deixando-nos claro que há um limite em nossa vida, indicando que as oportunidades oferecidas no tempo não podem ser desperdiçadas. Em nosso tempo temos a possibilidade de aprender com muita gente, essa gente que encontramos a cada dia. Na maior parte das vezes nem notamos a importância que as pessoas dão à nossa vida por nos deixarem ficar algum tempo ao seu lado.

Hoje soube da morte de duas pessoas que as fiz amigas, que escolhi para modelo a ser seguido. Interessante é que convivi pouco com elas, jamais vi de perto uma delas, ela jamais soube de minha existência embora sempre a apresentasse a muitos. Na verdade, eu o tinha para encontrar outros amigos. Ele tornava-se motivo de conversas e aprofundamento das novas amizades. Para alguns ele era o entusiasta pelo Sargento Getúlio, personagem que povoou muitas noites regadas cervejas. Mas João Ubaldo Ribeiro tem seu lugar em meu coração e mente pela bela história da Alma Brasileira em Viva o Povo Brasileiro, um romance belo e apaixonante do qual comprei muitos exemplares para presentear amigos que desejavam entender o Brasil, as contradições de suas paixões e seu imensurável amor pela vida. João Ubaldo também auxiliou-me a suspender o hábito de fumar com as suas reflexões nas caminhadas que relatava nas páginas dos jornais. Vou continuar conversando com ele relendo essa obra prima que deveria ser leitura nos anos de formação. Ótimo livro de história.

A outra pessoa quem soube a morte hoje, eu conheci quando tinha 19 anos. Foi em sala de aula, no Instituto de Teologia do Recife, ITER, quando ele estava no seu segundo ano e havia sido transferido da UNICAP para a FAFIRE. O ITER foi uma experiência de formação de padres em contato direto com a população, diferente do que era feito desde as determinações do Concílio de Trento em meados do século XVI. Nesse experimento de educação, aos alunos, seminaristas e não seminaristas, estando eu nesta última situação, podíamos escolher algumas disciplinas para formar o currículo. Umas das mais concorrida naquele ano foi a oferecida por uma professora irrequieta disposta a ensinar a ler e interpretar textos com a rapidez que o mundo que se criava exigia. Era Astrogilda Carvalho Paes de Andrade. O dinamismo dela era impressionante, sua juventude e alegria de viver entusiasmavam os estudantes. Na verdade quase todos os alunos estiveram naquela sala enorme para ouvir suas orientações e sorrir com o seu humor. Auxiliando-a estava outra pessoa maravilhosa, Jomard Muniz. Eles me ensinaram a ler, mais uma vez. Depois passei muito tempo sem saber daquela professora. Vim encontra-la nos últimos semestre da minha licenciatura em História, nas aulas de Didática e Técnica de Ensino.

Quero expressar minha profunda dívida para com a professora Astrogilda que tanto influiu em minha preocupação nas salas de aula. O pouco que sei dela é o sentimento que ela tinha pelo Povo Brasileiro.

Seu Crispim

 

Seu Crispim.

Para os netos que ele não conheceu

Os dias começam de modo semelhante: quando não está a chover os galos dos vizinhos anunciam que o sol já pode brilhar sobre a terra, logo em seguida alguns pássaros começam a chilrear. Em dias chuvosos o silêncio pode nos manter debaixo do cobertor por mais tempo. Mas se esse é o ritmo que a natureza parece querer repetir, ele tem o adicional da preguiça humana, ou esse lado animal da humanidade que se recusa a aceitar as obrigações culturais criadas de forma a garantir a sobrevivência pessoal e coletiva. Temos que nos levantar para trabalhar, não tanto pelo alimento imediato, mas pelo futuro que nosso cérebro concebe. E o mundo cultural, esse no qual nasci, herdou uma ideia de que devemos manter, ao menos, o rosto o rosto livre dos pelos. Claro que há, em ambientes que frequento, aqueles que cultivam a plena depilação, que deixa o corpo aparentemente com a juventude de um recém-nascido. E é no cumprimento desta pequena exigência da higiene diária que algumas pessoas que passaram em minha vida, no tempo de minha segunda formação, chegam à memória.

Uma dessas lembranças é Edwaldo  Gomes, vigário colado da paróquia de Casa Forte, no Recife. Eu o conheci aos dez anos de idade quando entrei no Seminário Menor da Várzea e ele era o Vice-Reitor, do reitorado do padre Zeferino Rocha. Uma vez presenciei uma conversa dele com um colega mais adiantado na idade que queria manter a barba e o padre Edwaldo o proibia, de modo simpático, dizendo que “os padres teriam um acordo com a gilete, por isso eles não usavam barba”. E realmente, nenhum dos padres que eu conhecia usava barba, exceto os capuchinhos, e por isso eram conhecidos como “barbudinhos”. Mas quando faço a barba a primeira e constante lembrança é de “seu” Crispim. Nos primeiros movimentos para trazer a espuma ao rosto, é Seu Crispim que eu vejo de várias maneiras.

Seu Crispim era o barbeiro que alugou um espaço, ao lado da mercearia de papai, em Nova Descoberta e, atendia a muitas pessoas, homens, jovens e crianças na sua barbearia. Ele sempre estava ocupado, tinha boa freguesia. Além de cortar seus poucos cabelos, papai sempre fazia a barba com seu Crispim. Sobre a mesa do barbeiro, à direita e sob o espelho, havia uma pequena taça com água e, nela, um caroço de macaíba. A macaíba é uma palmeira que dá um coco pequeno e redondo, hoje quase em extinção. O caroço da macaíba era usado para fazer a barba daqueles homens já envelhecidos e desdentados, para diminuir os sulcos, rugas da bochecha e facilitar o trabalho de seu Crispim.

Em 1957 tive meu fêmur quebrado em uma partida de futebol, que jogávamos, meu irmão Doutô, Burú, Tão e eu, em um terreno ensombrado por um pé de Barriguda, que fornece um tipo de algodão, outra árvore quase em extinção nos dias de hoje. Minha irmã Lia estava em um dos seus galhos, escorregou e caiu sobre mim, o que ocasionou todas as dores que sentimos após a sua queda. Mas essa é outra história, história anterior à “Lei da Palmada”.

Atletas daquele jogo: Burú era um vizinho que a vida nos separou e essa é a lembrança mais viva que tenho dele, formava dupla com meu irmão Doutô. Tão, com quem eu fazia a dupla, era Sebastião Tavares, que veio a casar com minha irmã Zefinha, era filho de Seu Crispim. A fratura de meu fêmur marcou parte de minha infância, pois fui levado ao Hospital Infantil Maria Lucinda, onde permaneci internado durante alguns dias. Saí de lá com gesso que protegia toda a perna e envolvia até o abdômen. Durante dois meses minha vida social ficou sendo acompanhar o movimento da mercearia de meu pai e a barbearia de Seu Crispim. Então foi que aprendi a jogar Damas, pois Seu Crispim mantinha um tabuleiro para seus fregueses ocuparem-se enquanto esperavam a vez de cortar o cabelo ou fazer a barba. Nesse período fui acometido pela “febre asiática” da qual escapei com doses diárias de penicilina. Seu Crispim, homem que me parecia brusco, sempre estava preocupado com o minha saúde, acompanhava meu pai na tarefa de aplicar-me injeção. As  conversas na barbearia giravam em torno da vida comum, do desempenho dos times de futebol. Seu Crispim era torcedor do Esporte Clube e meu primo, Manuel Lopes do Santa Cruz Futebol Clube. E eu acompanhava as discursões e me aperfeiçoava na arte de jogar Damas. Desse período veio o meu gostar do Tricolor do Arruda que erguia o Tri-Supercampeonato e, no ano seguinte, acompanhar a seleção Brasileira de Futebol, a seleção de Didi, Djalma, Vavá, Pelé, Garrincha.

Depois, não lembro quando seu Crispim morreu. Deve ter sido no tempo em que eu vivi no Seminário da Várzea. Anos depois, como passo de minha autonomia, aluguei o quarto da barbearia para ser o meu quarto de estudos. Hoje, lembro que só uma vez paguei para alguém tirar minha barba. Mas todas as manhãs eu lembro de Seu Crispim., que reclamava das caretas que fazia olhando o espelho enquanto ele cortava o meu cabelo.

Nova Vida,Valores que devem continuar

Primeira semana de junho, não consegui  que as operadoras de telefonia me pusessem em contato com as minhas irmãs aniversariantes, Lia e Teca, que nasceram no mesmo dia, mas separadas em anos. Lia deixou de comemorar seu aniversário desde  a morte de João XXIII, ocorrida no dia 4 de junho.  Agora creio que ela deve retornar a fazer alguma festa, pois o papa de nossa juventude agora pode ser louvado publicamente como Santo da Igreja Católica Apostólica  Romana.  Teca está exuberante de felicidade, pois agora tem um neto, João Miguel, filho de Cristiano e Andréa, que logo será batizado na fé cristã, para a Glória de Deus.

Esta semana a minha mãe, dona Maria Ferreira, receberá uma homenagem na igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, a mesma matriz que ela ajudou a construir e fundar como paróquia no distante ano de 1959. Homenagem justa de seus irmãos de fé, muitos que viveram com ela a vida paroquial e alguns que só a conheceram nos últimos dias de suja vida na terra. Ela e meu pai, João Vicente, ensinaram-me a ser irmão de todos, de respeitar e amar as diferenças. Jamais discriminar por ser pobre, feio, rico, preto, branco, amarelo: todos somos filhos do mesmo pai.   Ensinaram-me a respeitar os mais velhos, ainda que julguemos que eles estejam errados; se eles nos indiquem que devemos seguir os caminhos  que nos afastem de Deus, não os seguimos, mas os respeitemos. Graças à minha mãe, que é a avó dos meus filhos e sobrinhos, sei que não podemos rejeitar alguém por ser branco, ou preto. E não foi necessária nenhuma lei além do segundo mandamento que está na Bíblia, a mesma que eu leio, a que é lida nos Encontro de Casais com Cristo, nos acampamentos de jovens cristãos, sejam eles promovidos por paróquias pobres ou por colégios ricos. O livro de Tobias nos ensina a cuidar dos mortos, e a respeitar os mais velhos. Foi por respeito ao seu velho pai Isaac que Esaú não se levantou contras seu irmão Jacó por ele ter se apropriado da benção que seria sua. Respeitar os mais velhos, defende-los contra a agressão de jovens irresolutos,  às vezes parentes que se deixaram guiar pelos não-valores, anteriores ao que chamamos de civilização. Pois aquele ou aquela que não respeita ou ataca  o outro por ser de estrutura débil, ter a pele diferente ou não pertencer ao seu grupo social é alguém que ainda está no mais inferior patamar da civilização.  Minha mãe, avó dos meus filhos e sobrinhos, é um exemplar humano que estava muito próximo do que chamamos santidade.

Sempre que nasce alguém na família, é bom lembrarmos dos valores que nossos antepassados nos legaram, a marca da família que quiseram construir e, então assumirmos,  mais  uma vez, o compromisso de fazer este mundo menos mesquinho, que a nossa mesa seja sempre como a mesa de Vovô João e Vovó Maria, sempre com espaço para quem nos encontra.

Os pendões do estresse

 

As rodovias que nos servem para transitar na Mata Norte de Pernambuco nos permitem observar o canavial e este, por sua vez, permite  que as estradas ainda existam. O canavial parece avançar sobre o asfalto, ele quase entra nas janelas das casas, como a dizer a seus moradores: saiam daqui, preciso desse espaço para enviar mais capim doce para as máquinas das usinas e tornar-me doce açúcar, amargo vinagre, ardente água. E olhamos para esse canavial e vemos que ele apresenta pendões, quase uma coroa branca que o embeleza, que nos permite pensar alguma poesia ao juntar o verde das folhas ao branco cinzento dos pendões. Os que não vivemos da cana, mas nos alimentamos do seu açúcar, que usamos o vinagre nos alimentos e bebemos a cachaça para abrir o apetite, aquecer no frio ou esfriar no calor, louvamos essa beleza, sem saber que estamos a glorificar o rosto da Bela Adormecida, tão bela na sua morte. O pendão das canas é a exposição do seu estresse, da falta de água, a visualização da “seca verde”. Sem as águas necessárias o canavial envelhece sem alcançar a maturidade. A infância ou juventude passaram tão rapidamente que não produziram o que é esperado da planta.

Aquele que passa apressado na poltrona de seu automóvel apenas vê a aparência sem perceber quanta vida não foi vivida em sua inteireza. O canavial, ao expandir-se, está pondo fim aos sítios, expulsando a população que ali vivia com seus costumes e suas tradições. Saindo dos sítios, esse povo foi viver nas pontas de ruas, parecendo ser mais rico porque agora pode, a qualquer momento, comprar pacotes de batata frita e similares, ter acesso a todos os refrigerantes e cervejas e, eventualmente ser atendido no Posto de Saúde, no dia em que o médico estiver. As pontas de rua parecem felizes, repletas de bares com suas músicas chamativas, sinucas a espera  de ases e azarados, a cana ardente que alegra a quem já não mais está no eito do canavial e, às vezes, sem nenhum eito de trabalho onde possa produzir mais que a paciência de esperar o dia de morrer, seja de “susto, de bala ou de vício”. Os pendões dos canaviais nem sempre são de esperanças, como dizem os versos de Olavo Bilac saudando o auriverde nacional.

Essas meditações anunciam o final de maio.  Com junho costumava vir as festas dedicadas aos santos das colheitas: Santo Antonio, São João e São Pedro. Um colhe amores que casam e reproduz a vida, outro colhe gafanhotos para alimentar-se e assim proteger as plantações, enquanto o terceiro colhe e guarda homens e mulheres para a Igreja. Mas esses santos também cederam espaços ao canavial em expansão e, suas festas foram perdendo o significado sagrado para a simples diversão, a dispersão dos sentimentos, a perda do foco na vida para a dedicação do prazer imediato. Este prazer cansa e não frutifica, apenas retira o suco vital dos homens como as prensas retiram o caldo das canas.

Nas pontas de ruas não há mais filas, não há apresentações de Cavalo Marinho, não são vistas as Rodas de Coco, nem Rodas de Ciranda. Os caboclos e espíritos das matas foram expulsos e a jurema é árvore mais rara que as mangueiras e jaqueiras que forneciam sombra refrigerante e alimentos recuperadores e reconfortantes.  Tudo é cana na região:

a gente planta cana, limpa cana, corta cana, transporta a cana;

a gente esmaga a cana, faz a cana virar líquido, faz a cana virar açúcar, faz a cana ser água ardente,

faz a cana que bebe; a gente bebe a cana, enche a cara de cana por a vida ser vazia, e vai em cana porque bebeu cana.

E, em cana, pensamos:

É só sacar que é saCANAgem.

Meu pai

Meu pai

Severino Vicente da Silva

 

Dezoito anos da morte de meu pai, o agricultor João Vicente da Silva. Começou sua vida em 1913, menino de engenho em Nazaré da Mata. Vivia no engenho e cedo aprendeu a cuidar da cana que não era dele, juntamente com seu pai e seus dezoito irmãos, todos eles filhos da mesma mulher, Maria Florinda. Não conheci o pai dele, José Vicente da Silva, que dizem ter sido um negro trabalhador, mas que teve a vida terminada antes de iniciar a minha. Meu pai tinha vocação para o comércio e conseguiu plantar no sítio além da macaxeira, o algodão e, comprava, dos vizinhos, algodão para levar até Timbaúba ou Limoeiro. O comércio é um mistério que se revela aos que dele cuida e a ele se dedica. Assim são os mistérios. Exigem dedicação aos que pretendem se iniciar e neles viver. Meu pai vivia no mistério da vida: cuidava das canas, foi ao comércio, bom na conversa e respeitador com quem convivia ampliou o terreiro do engenho e seu gênio o libertou da canga do trabalho alugado. Constituiu família com Maria Ferreira, jovem prendada e trabalhadora que vivia no sítio Serraria, perto de Campo Alegre, em Limoeiro. Fez família crescer  e sem abandonar a agricultura, tornou-se pequeno proprietário e pequeno comerciante. A seca de 1952 quase o levou à morte, enquanto via o sangue na urina. Curado sem saber a doença, migrou para o Recife, morador de Nova Descoberta, sonhou e cuidou para que seus filhos virassem “doutores”. Um foi para a marinha de guerra, uma filha começou a dar aulas no início da Fundação Guararapes, da prefeitura do Recife;  a administração da PCR ficou outra filha e outro filho. Recebeu a bênção bíblica de conhecer os filhos de seus filhos. Morreu, em meus braços, quatro dias depois que eu lhe disse que assinara contrato como professor mestre na UFPE. Vivo com ele em meu pensamento cada dia, agradecido por ter tido a bênção de ser seu filho. Seu trato com as pessoas, a honestidade de seus propósitos, a crença de que mais importante que os bens materiais eram os valores: honestidade, falar a verdade, sinceridade, trabalho constante, humildade sem submissão; ele sempre esteve aberto para ajudar e, tantas vezes enganado por aqueles que o procuraram, e sempre garantiu a liberdade de escolha de seus filhos, ainda que isso não fosse o exato sonho que ele sonhara. Meu pai continua sendo o meu herói, a mais próxima aproximação de Deus, junto com minha mãe.

A bênção papai!

Festas marianas e as festas das mulheres

Festas marianas e as festas das mulheres

Severino Vicente da Silva

Maio de 2014 já superou o dia dedicado às mães, nesse mundo de amores de datas marcadas no calendário das associações de comércio varejista. Tem-se uma medida dos amores relacionada com os relatórios de vendas. Vejamos como será o dia dos namorados, logo ali, no mês que segue a maio. Ao menos aqui nesta parte do mundo em que Santo Antonio cuida de substituir São Valentin. Mas os nomes dos santos tendem a desaparecer, quase são apenas vestígios; assim maio já não é mais mencionado como “mês das noivas”, tempo em que eram celebrados os casamentos, tempo próprio na primavera do Hemisfério Norte. Hoje os casamentos são mais comuns nos meses do recebimento dos salários extras, dos dividendos. As festas são caras. Mas os mais pobres continuam a colecionar dádivas de suas patroas para a formação do enxoval. Casamento continua sendo, para os mais pobres, a possibilidade de vencer as dificuldades das suas vidas, obrigados a seguirem os conceitos morais e sociais sem, contudo, terem condições de promover a festa que socializa o compromisso. Mas esse compromisso, como escreveu o poeta, tem a eternidade do tempo possível para quem possui pouco controle sobre a sua existência.

O mês de maio começa com o dia de louvação ao trabalhador. Não parece ser mais o mês de Maria, que ao final do mês costumava ser coroada rainha. Não mais se vive no tempo das monarquias. Maria, embora continue Rainha, é mais a Companheira das caminhadas, é a Maria que carrega as marcas de ser mulher: às vezes enaltecida por sua obediência e, também por sua capacidade de colaborar com os planos divinos e humanos. A extensão e o significado dessa colaboração também têm sido entendidos de novas maneiras. Ao final do mês de Maio, quando ocorre a coroação da Rainha dos Anjos, é também a festa da mulher que visita a prima Isabel, também grávida. A Rainha vai servir à prima, trabalhar com e para prima, com o objetivo de diminuir as preocupações que acompanham o processo de renovação da vida. Essas visões que faziam de Maio o mês das mulheres, celebrações de uma época de hegemonia religiosa cristã (foi no século XIV que os franciscanos começaram a celebrar a Festa da Visitação), agora a mulher é homenageada, na sociedade que quer negar relações com a religião, no mês de Março. Inversão das festas, criação de novos significados para os símbolos permanentes, ou sua destruição pelo esquecimento. Poucos se lembram de que a “pomba da paz” é a redução dos dons do Espírito Santo.

O mês de maio é uma oportunidade para refletir sobre as novas interpretações que são feitas das tradições; vivemos em uma sociedade que parece pretender tornar vestígio tradições religiosas que moldaram o nosso mundo cultural. Uma questão que se põe é se ainda seremos depois de destruir o que nos forma.

Cultura durante a ditadura

 

Esta semana pronunciei esta palestra na ADUFEPE.  Estou ampliando a socialização

CULTURA DURANTE A DITADURA iniciada em 1964[1]

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva[2]

 

 

Agora é o tempo de tudo, de tudo fazer, de tudo lembrar, de tudo esquecer e, porque não? de tudo refazer. Alguns estão a celebrar, outros dizem que apenas querem lembrar, mas há quem queira refazer os acontecimentos de 1964 e dos anos seguintes. O tempo foi passado, alguns dos personagens já morreram; os vivos, especialmente os mais vivos, apressam-se a reviver o que não viveram. A cada dia uma nova história é contada para explicar como nós chegamos até aqui. Foram muitos passos realizados naquele período, nem todos estão registrados, e mesmo os que foram registrados e guardados em malas, caixas de famílias ou arquivos de acordo com os padrões estabelecidos pela ciência, grande parte deles está intacta, esperando serem destruídos ou lidos e analisados. E a parte da parte já tocada e conhecida, é a história contada pela boca de quem tocou nos documentos e pensou, a seu modo, os segredos que julga ter desvendado.  Só com o conhecimento desses segredos, junto com outros segredos guardados em muitas memórias, é que poderemos saber o que aconteceu conosco, enquanto indivíduos, enquanto grupo social, enquanto sociedade que construiu, viveu e superou a ditadura.

Essa reunião que fazemos agora é uma tradição antiga: sentar em torno de uma fogueira para aquecer os corpos e fortalecer a memória.  É para isso que, ao longo da história de nossa humanidade, nos sentamos em torno do fogo para ouvir a memória dos mais velhos, para atiçar as brasas de suas lembranças retirando as cinzas que as encobre, cinzas que fazem esquecer. Os mais jovens, com suas perguntas, auxiliam os mais velhos a aprender com a vida que viveram.

Esse encontro que objetiva celebrar o 35º aniversário da Associação dos Docentes da Universidade Federal de Pernambuco – ADUFEPE coincide com 50º aniversário do Golpe de estado protagonizado por civis e militares. É em 1979, quando a ditadura já começava a esboçar cansaço que foi criada a ADUFEPE, uma entidade de intelectuais formadores de intelectuais.

Lendo o que hoje se escreve sobre 1964 notamos que estão dando importância maior apenas aos que fizeram atos heroicos que foram amplamente registrados por amigos, partidos políticos e familiares dos heróis, aqueles que foram contemporâneos dos fatos ou herdeiros deles. Nos tempos de hoje há os que ainda estão vivos e há os que já morreram; entre os vivos e os mortos há os que deixaram herdeiros, e esses são muito falados; e há os que não deixaram herdeiros e pouco deles se fala, e se escreve sobre eles. E há alguns que morreram e seus herdeiros não sabiam ler, escrever, guardar documentos, desses, talvez, saberemos seus nomes e mais nada. Saberemos menos daqueles que não herdaram o poder do estado que combatiam, sabemos mais dos que herdaram o estado que combatiam. Embora se queira negar, a sociedade brasileira quis o golpe de estado ocorrido em 1964. Poucos se opuseram ao golpe e os mais prejudicados por ele não podem reclamar, nunca puderam. Eles nem tinham ciência do mal que estava atingindo a todos. Os intelectuais tinham essa consciência de que algo havia mudado nas relações do Estado com os setores da cultura e tomaram atitudes naqueles anos de medo e de chumbo: alguns atuaram para garantir o retorno do tempo do silêncio que vinha sendo rompido desde o início dos anos cinquenta – eram os saudosistas do Estado Novo, outros estados e estamentos; outros agiram para resistir e recriar, é melhor dizer, criar em uma nova situação, pois, se na natureza tudo se  transforma, na sociedade nada se recria.

O ambiente cultural vivido após abril de 1964 tem várias marcas, e uma delas é o “terrorismo cultural”. Embora Nelson Werneck Sodré, em 1965, tenha escrito na Revista da Civilização Brasileira artigo intitulado Terrorismo cultural[3], a expressão foi cunhada pelo pensador católico Alceu de Amoroso Lima indignado com as perseguições no meio universitário e como as demissões de Celso Furtado, Anísio Teixeira e Josué de Castro dos seus postos públicos, quem forjou a senha inicial para resistência intelectual ao regime… [4]. Desde os primeiros dias daquele regime a sensibilidade daquele intelectual sentiu que era necessário dizer o que estava ocorrendo, correr o risco de pensar sobre a sociedade e a ela dizer o que ela estava a fazer, auxiliar a esclarecer o momento que ela vivia. A cultura é a reflexão sobre os atos humanos. “Intelectual” é conceito decorrente da conduta de Emile Zola (1840-1820), em acusar a sociedade de seus erros correndo risco ao defendê-la.

Como sabemos, nos primeiros dias da ditadura, esta afirmava que foi feita para evitar a comunização do Brasil. Aqui em Pernambuco foram presos poucos comunistas, como nos relata Fernando Coelho:

Dos líderes comunistas de expressão, após o golpe, em Pernambuco, além de intelectuais como Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora, somente Gregório Bezerra foi preso. A repressão inicial atingiu, principalmente, as lideranças dos movimentos populares e sindicais, a universidade e a chamada esquerda católica, além de políticos ligados ao governo deposto. (…) a falta de comunistas, os sindicalistas, os intelectuais ou assim considerados e os “cristãos progressistas”, entre os quais um número relativamente grande de eclesiásticos, pagaram as custas da febre policial dos primeiros dias”[5]

Veja que o autor que nos socorre não diz que Paulo Cavalcanti e Abelardo da Hora são comunistas, ele prefere, escolhe, defini-los como “intelectuais”.  Ali já está mencionada a presença de intelectuais aprisionados pelo regime que está iniciando. Outros foram encarcerados nas semanas seguintes. Assim foi sendo montado o cenário que a sociedade escolheu, talvez por engano, imaginavam que os militares voltariam para os quartéis, como sempre haviam feito; talvez por medo de um modelo de sociedade que permitiria pensamento diverso daquele enunciado pelos novos donos do poder. Vivia-se o tempo da Guerra Fria e eram muitos os que formavam o grupo dos que cultivavam o temor de que os acontecimentos cubanos[6] e a república sindicalista argentina viessem a se repetir nos demais países da América Latina; talvez por isso, as igrejas se uniram aos empresários. Poderíamos continuar a buscar as razões para explicar os acontecimentos de 1964 até encontrarmos uma resposta que caiba em nossa ansiedade e nos acalme. Mas, nesta conversa em torno do fogo,  é importante lembrar que os líderes da dita Revolução, tiveram medo dos intelectuais. ]

É a cultura que nos envolve e nos molda, e as nossas ações reforçam os padrões ou indicam caminhos para novos padrões. Os intelectuais, esses homens e mulheres que cuidam de refletir sobre essa cultura que nos envolve podem nos ajudar a compreender o fazemos de nós mesmo, e parece ter sido este o grande temor daqueles que, pelas armas, ajudaram a manter no poder os grupos que de lá não queriam sair, tangidos pelo avanço de novos grupos sociais na direção do saber e da cultura que sempre foi mantida ao  serviço e prazer dos poderosos de sempre. Mas, se eles temiam os intelectuais, não temiam a todos, pois alguns estão sempre ao serviço do poder de então.

A cultura pode ser definida amplamente como tudo que os homens criam com suas mentes, com suas mãos e todo o seu corpo no contato com a natureza. Mas esse conceito antropológico é tão amplo que pode empobrecer nosso debate. Podemos ampliar nossa conversa ao dizer que a cultura é o resultado da reflexão e ação dos humanos sobre a natureza e a reflexão sobre os resultados. A cultura é a reflexão sobre si mesmo e sobre as ações humanas, e isso toma muito tempo. Do aparecimento do homem até a invenção do fogo e dos códigos mínimos de comunicação correram alguns milênios. Alguns milênios foram necessários para a invenção dos símbolos, das mitologias, da arquitetura, da engenharia de controle das águas, da engenharia social na organização das crenças, dos grupos sociais familiares até o estado. Leva tempo, também, criar novas expressões culturais após um cataclismo social, como o o que ocorreu conosco em meados do século passado.

Os tempos da ditadura militar foram momentos de esmagamento de algumas manifestações culturais, especialmente aquelas que eram mais representativas das mudanças sociais ocorridas na década de cinquenta que, em Pernambuco, ganharam espaço no Movimento de Cultura Popular[7]. Desde os anos quarenta que aqui vinha ocorrendo a confluência de uma população carente de comida para o corpo e alimento para o seu espírito (desculpem mencionar essa palavra atualmente não politicamente correta ou conveniente) com uma sociedade que tradicionalmente cultivava um conceito de cultura e de vida discriminante e excludente. Essa população carente buscava aprender a ler, escrever e contar o salário e a sua história. Essa era uma grande novidade nos anos sessenta, pois a industrialização agitada por Juscelino Kubistchek precisava de gente que soubesse ler as orientações para o uso das máquinas e escrever as notas de balcão nas casas comerciais. Mas Ler, Escrever e Contar são instrumentos de multiuso e de ampliação dos espaços e interesses. E se há uma ampliação do mundo, também há uma ampliação das linguagens e de seus usos. Os intelectuais[8] dos anos quarenta e cinquenta souberam ver, registrar e recriar as danças dramáticas do povo que vivia nas áreas rurais, mas, a partir dos anos sessenta os que formam o povo já estavam de mudança para esse outro lugar mais moderno que é o lugar das cidades. E não estou dizendo apenas a capital, mas cidades de médio e pequeno porte. E esse acontecimento implica novas criações, e novos sujeitos criadores.

Eles foram surgindo aos poucos, agindo sobre as novidades e criando novas novidades.

Temos que tomar um ponto inicial para conversar sobre o universo cultural em Pernambuco na época de poder dos generais. Poderia começar pensando nas atividades culturais que começaram em torno da personalidade e da obra de dom Hélder Câmara. A sua presença foi incômoda para muitos políticos e homens da cultura “varandística”, essa que cresceu nas varandas das casas grandes e dos sobrados. Consta que nos primeiros meses após sua chegada, em abril de 1964, o novo arcebispo promoveu vários saraus em sua casa, ainda no Palácio do Manguinhos, para conhecer os artistas pernambucanos. Era um caminho possível para conhecer o espaço cultural no qual ele foi metido abruptamente, retirado do Rio de Janeiro para cuidar do Rio Capibaribe. E para um Príncipe da Igreja, um trajeto possível era o trato com os bardos e artistas, pois eles são de conhecer a alma do povo que os rodeia. Esses encontros com a “juventude dourada”, além de assegurar alguns jovens que vieram a auxiliá-lo em suas obras sociais, também valeram a crítica da sociedade mais conservadora que não entendia o que fazia um bispo sentado nos batentes do palácio madrugada adentro conversando com jovens artistas e intelectuais.  Outra senda aberta pelo bispo que chegava foi a criação da Operação Esperança e dos Conselhos de Moradores nos bairros periféricos, com ela Dom Hélder atingia outro público que normalmente não tinha acesso à cultura promovida pelos artistas que participaram dos “Saraus do Manguinhos”. Mas a Operação Esperança foi o caminho para que jovens universitários, das famílias melhor aquinhoadas pela história e pela economia entrassem em contato com o mundo da periferia, ensejando trocas culturais bastante vivas e fecundas com jovens que viviam no fio da navalha social.

Outro meio de iniciar nossa conversa sobre a vida cultural, artística e política na Ditadura Militar, é olhar os poetas da “geração 65”, da qual citaremos os nomes de Alberto da Cunha Melo, Marcos Cordeiro, José Mário Rodrigues, Celina de Holanda, Roberto Aguiar, Luiz Pessoa, Jaci Bezerra, Almir Castro Barros, Montez Magno, Sérgio Bernardo, Domingos Alexandre, que cultivam uma boa relação com a Livraria Livro 7 que, por mais de duas décadas serviu de local de resistência cultural à ditadura. Para aquele espaço da Rua Sete de Setembro convergiam poetas, escritores, professores e estudantes em constante troca de informações ou, no mínimo, um contato visual entre o leitor e o autor.

A sociedade foi inventando lugares e formas de formar-se e expressar-se. Na década de sessenta um caminho possível foi o cinema: a arte de assistir, discutir e fazer. Salas de exibições eram poucas, mas o cine clubismo foi um espaço de formação que atingiu muitas localidades, além da capital. Colégios do Recife, do Agreste (Limoeiro) e da Zona da Mata Norte (Vicência) promoveram sessões[9], e algumas delas foram incentivadas por Jomard Muniz Brito, cuja alma não se aquietou após a prisão ocorrida em 1964. Ele participou ativamente do ciclo do Super 8, nos anos 70, um período que produziu cerca de 200 filmes[10], documentários sobre a vida rural, injustiças sociais, filmes experimentais abordando temas culturais urbanos. Foram realizados três festivais de Super 8 (1977, 78, 79). É nesse período que as sessões de Arte nos cines São Luiz, Coliseu, Trianon, AIP eram o consolo e o local de formação, para as novas gerações, do hábito de degustação de filmes. As manhãs de sábado eram próximas dos cinemas.   O cinema foi, pois, um caminho para que jovens da classe média discutissem o mundo ao seu redor em pleno regime ditatorial. E foram muitos os resultados e vocações que se formaram a partir desses cineclubes, e também o sentimento que havia a possibilidade de compreender o mundo a partir da utilização de uma câmera que, apesar da pouca sofisticação técnica, produziu trabalhos de referência. Relacionada ao cinema, devemos lembrar a participação dos jornais no debate dessas criações, especialmente a atuação de Celso Marconi que fez a crítica de cinema no Jornal do Commercio nos anos sessenta e setenta.

A dança foi um insuspeito caminho utilizado para a criação de novas possibilidades de educação, compreensão dos sentimentos de dores e alegrias que vivia a sociedade, e o interesse pela dança pode ter acompanhado a fundação da TV Jornal do Comércio em junho de 1960. Talvez devamos chamar atenção à existência de um corpo de balé que a TV Jornal do Commercio mantinha para os programas de auditório. Mas, nessa conversa,  quero tomar por base, nos aos 70, a prática do aprendizado de dança no Recife, e podemos apontar Flávia Barros com a Escola de Ballet do Recife, fundado em 1972, formando pessoas em danças clássicas, e Flávia Barros teve entre seus alunos o Fred Salim.

Valdi Coutinho, ator e crítico de arte, publicou, no livro Palco da memória, os artigos de sua coluna “Cena Aberta” no Diário de Pernambuco e se dá conta de que abriu espaço para grupos de dança que nasciam nos anos 70 e 80, gente como Mônica Japiassu, que coreografou Morte Vida Severina, e O Capataz de Salema; Rubem Rocha Filho, que foi o diretor de Tempos perdidos… nossos tempos e Morte e vida Severina; Zdenek  Hampl foi o coreógrafo de O capataz de Salema, que teve a direção musical de José Madureira, e também coreografou  Lua Cambará,  um texto de Ronaldo Lima Brito, também o e criador  de A toda Prova; Zumbi Bahia e Ubiracy Ferreira fundaram o Balé Primitivo de Arte Negra; Carol Lemos, Lúcia Helena, André Madureira, este o fundador do Balé Popular do Recife. A dança foi um caminho que não ficou restrito aos jovens da classe média, mas que abria espaços para a participação de jovens das periferias da cidade, estas que fizeram o crescimento populacional da cidade nas décadas de quarenta e cinquenta com a migração e que, nos setenta e oitenta já exibia jovens nascidos na capital.  Cabe destacar atuação do amazonense Nascimento Filho, rebatizado Nascimento do Passo pela atuação como difusor do Passo.

Nos anos setenta, algumas novidades que vinham sendo gestadas há algum tempo, tomam forma no Movimento Armorial pensado por Ariano Suassuna e outros intelectuais/artistas como Francisco Brenand (recentemente ele negou essa aderência), Raimundo Carrero, Samico que também disse “não aderi ao movimento armorial, fui colocado nele”, Ângelo Monteiro, entre outros[11], pretendendo criar uma arte erudita própria da região a partir da criatividade cultural nordestina, utilizando-se da música, da literatura, dança, teatro. Tendo sido iniciado na Pró Reitoria para assuntos Comunitários da UFPE, logo o Movimento Armorial recebeu a adesão oficial dos governos do município do Recife e do estado de Pernambuco. Desse momento inicial vieram o Balé Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial do Nordeste, Orquestra Armorial, Quinteto Armorial. Aqui devemos recordar que Ariano Suassuna foi, em 1967, membro fundador do Conselho Federal de Cultura.

Voltemos ao depoimento de Valdi Coutinho:

Nos anos 80 era muito difícil fazer um espetáculo de dança atraente para o público, que perdurasse muito tempo em cartaz, que retirasse da bilheteria o investimento financeiro. As escolas e academias lotavam as casas de espetáculo no final do ano, com familiares e amigos das garotas que se apresentavam preocupadas quase sempre em busca da perfeição técnica, mas sem qualquer expressividade dramática no rosto, sem dramaticidade na dança. Era um tabu para o homem estudar dança, enfrentando o preconceito do machismo, que era gritante especialmente no Nordeste. Mas isso ficou para trás, graças ao destemor de alguns que enfrentaram a discriminação mostrando que dançar era uma arte para ser exercida por ambos os sexos.”[12]

E, sem dúvida, a arte teatral encontrou modos de sair do amadorismo histórico do Teatro de Amadores de Pernambuco para a profissionalização buscada por Hermilo Borba Filho desde o Teatro do Estudante até o Teatro Popular do Nordeste. O teatro foi sempre uma tradição e um local de exibição do bom gosto senhorial que, na segunda metade do século XIX fez construir o Teatro de Santa Isabel. Mas aqui estamos conversando como se viveu a arte nos anos da Ditadura Militar e, mantendo a ideia de que podemos iniciar nossa conversa tomando por base a presença de Dom Hélder Câmara, quero destacar que em 1974, Guilherme Coelho, postulante ao monacato beneditino e envolvido na Pastoral da Juventude, para comemorar os dez anos da Associação dos Rapazes e Moças do Amparo, ARMA, montou o espetáculo Vivencial I, com improvisações sobre vários textos de dramaturgos e filósofos e jornalistas. Abordando assuntos polêmicos como homossexualidade, violência, drogas, política, tecnologia e massificação. A estreia ocorreu no colégio São Bento e o público recebeu o espetáculo com estranheza e encantamento. Desalojado do São Bento, o grupo peregrinou por diversos teatros e montou várias outros espetáculos como MADALENA EM LINHA RETA,  JOÃO ANDRADE EM CONVERSA DE BOTEQUIM E UM AUTO DE NATAL ainda em 1974.  O PÁSSARO ENCANTADO DE UBAJABA (1975) e, no mesmo ano, montou NOS ABISMOS DA PERNAMBUCÁLIA, de Jomar Muniz Brito. Em 1976, Jomard Muniz escreveu 7 FÔLEGOS  especialmente para Pernalonga. O grupo também fez a montagem de SOBRADOS E MOCAMBOS de Hermilo Borba Filho, em 1977. O grupo atuou até 1983. [13]

Várias outras experiências teatrais ocorreram no período, como a encenação da Paixão de Cristo, dirigida pelo professor Isaac Gondin Filho, em espaços ligados à diocese, mas sempre em áreas periféricas. Nesse espetáculo Jesus Cristo foi interpretado por um ator negro. Interessante notar no período o interesse pelo drama vivido por Jesus, seu projeto, prisão, tortura e morte, realidade que ocorria nos porões da ditadura. Em 1968 Plínio Pacheco, com texto escrito por ele em 1956, iniciou a encenação da Paixão de Cristo em Nova Jerusalém, no município de Brejo da Madre de Deus.

O caminho da profissionalização do teatro no estado parece ter início no sucesso de montagens realizadas na segunda metade da década de 70. Em 1975 foi montada CANÇÃO DE FOGO, de Jairo Lima que lotou o teatro; em 1976, Antônio Cadengue dirigiu A LIÇÃO de Eugene Ionesco.  Essas experiências estão na origem da Praxis Dramática. A Companhia Praxis Dramática, realização de José Mário Austregésilo e Paulo Fernando Goes, foi fundada em 1976 é representou importante passo para a profissionalização do teatro em Pernambuco, iniciando com a montagem de ESSA NOITE SE IMPROVISA de Luigi Pirandello. Esta foi seguida por GALILEU GALILEI de Bertold Brecht e direção de Milton Bacarelli. Uma sequencia de grandes espetáculos como EQUUS garante a chegada dos anos 80 com TAL & QUAL NADA IGUAL, texto de Jomard Muniz Brito e direção de Guilherme Coelho e na comemoração de 10 anos encena VIVA O CORDÃO  ENCARNADO de Luiz Marinho.

Podemos ainda mencionar o quanto a poesia e a música foram espaços para a criatividade dos novos. Como não podemos citar a todos, pois o tempo não permite, lembremos de Don Tronxo,  Ave Sangria, Marconi Notaro, Alceu Valença, Laíson, Lula Cortez e os festivais de música.

Quero não deixar passar a oportunidade de lembrar os festivais de Ciranda, iniciados no Bar Cobiçado, no Janga e que serviram de motivo para tornar essa dança coletiva e popular a dança da moda e, que durante anos embelezou o Pátio de São Pedro, local secular tornado, por um tempo, o espaço do turismo em Pernambuco nos anos de 1973 a 1980.

Poucos dias antes de sua prisão, ocorrida em agosto de 1973 escrevi um poema que assim diz: Recife, minha ilha de água doce, está ficando amargo te ver hoje! Como essa conversa demonstrou, o amargor da ditadura não impediu a criação artística, o surgimento de expressões do belo, o belo que é a busca de toda a vida humana

 

BIBLIOGRAFIA

COELHO, Fernando.  COELHO, Fernando. Direita, Volver: O Golpe de 1964 em Pernambuco. Recife: Editora Bagaço, 2004.

Dossiê dos Mortos e Desaparecidos políticos desde 1964. Amparo Caridade (Organizadora). Recife: Companhia Editora de Pernambuco, 1995.

ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE TEATRO.

http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_teatro/index.cfm

FIGUEREDO, Haroldo Morais. Vigilante Cura: uma educação cinematográfica nos colégios católicos de Pernambuco, 1950-1960. Doutorado em Educação. Recife: Centro de Educação, UFPE, 2012.

INTERPOÉTICA – http://interpoetica.com/site/index.php?option=com_content&view=article&id=703&catid=0

NAPOLITANO, Marcos. 1964, História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

NOGUEIRA, Armanda Mansur Custódio. O novo ciclo do cinema em Pernambuco, a questão do estilo. Dissertação de mestrado, Programa de Pós Graduação em Comunicação, Centro de Arte e Comunicação. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Mimeo.

RECORDANÇA – http://www.recordanca.com.br/?page_id=3732

COMO PROMETEU-  Natanael SARMENTO, Luiz MAGALHÃES, Biu VICENTE. Recife: Edições do autor.

VICENTE, Tâmisa Ramos. Vamos Cirandar. Recife: Editora Universitária; Olinda: Associação Reviva. 2001.

 

 

 

 



[1] Texto para palestra  proferida na celebração do 35º ano da Associação dos Docentes da UFEPE, ADUFEPE, no dia 29 de abril de 2014

[2] Professor Adjunto do Departamento de História da UFPE, Sócio da Comissão de Estudos da História da Igreja na América Latina –CEHILA, membro do Colegiado doo Mestrado de História da Universidade Federal de Sergipe, UFS

[3] Revista da Civilização Brasileira, maio de 1965, apud NAPOLITANO, Marcos. 1964,  História do Regime Militar Brasileiro. São Paulo: Editora Contexto, 2014.

[4] NAPOLITANO, Marcos. opus cit. P 206.

[5] Coelho, Fernando.  COELHO, Fernando. Direita, Volver: O Golpe de 1964 em Pernambuco. Recife: Editora Bagaço, 2004.  P189, nota 2

[6] A Revolução Cubana definiu-se como sendo de caráter comunista e, promoveu a reforma agrária, muitas prisões e foram muitos os mortos pelos revolucionários.

[7] Movimento que envolveu intelectuais e jovens entusiasmados pela possibilidade de atualizar o Brasil. Movimento teve em Germano Coelho seu fundador, ele influenciado pelo pensamento social cristão/católico francês.

[8] Cícero Dias, Gilberto Freyre, Hermilo Borba Filho, Joaquim Cardozo, Abelardo da Hora,

[9] FIGUEREDO, Haroldo Morais. Vigilante Cura: uma educação cinematográfica nos colégios católicos de Pernambuco, 1950-1960. Doutorado em Educação. Recife: Centro de Educação, UFPE, 2012.

[10] NOGUEIRA, Armanda Mansur Custódio. O novo ciclo do cinema em Pernambuco, a questão do estilo. Dissertação de mestrado, Programa de Pós Graduação em Comunicação, Centro de Arte e Comunicação. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 2009. Mimeo.

[12] Valdi Coutinho, depoimento ao RECORDANÇA. http://www.recordanca.com.br/?page_id=3732 acessado em 20/04/2014,20:18h.

Recusando a inércia e o aprendizado ordenado

Os mais recentes dias nos encorajam para muitas diversões do pensamento. Noticias variadas nos confirmam a diversidade cultural da humanidade. É certo que alguns peleam pela diversidade na esperança, escondida, de que todos venham a se reunir sobre a “sua diversidade”. A natureza é diversa nos seus frutos, embora todas essa diversidade parece ter originado de um momento, um átimo,m algo que carregava em si a possibilidade de tão belo caleidoscópio, sempre o mesmo e sempre com novas formas e possibilidades.

Mas somos a possibilidade de sermos e, por sermos diversos, colhemos da multiplicidade das criações da natureza e da inteligência que a natureza concedeu aos seres e, parece que os animais humanos foram beneficiados pela ausência de uma regra única na natureza.   Os professores, nós encontramos essa diversidade em nossas salas de aulas. É claro que nas salas de aulas supomos encontrar pessoas de diversas origens sociais e com interesses diversos. Mas, como deslocaram-se de suas casas para um ponto  comum que os atraiu, tomamos a liberdade de presumir que esses seres diversos, de origens diversas, de grupos sociais diversos, ao sentarem em bancos de uma sala estejam interessados no que vai ser dito naquela sala. Como chegaram ali por sua escolha e iniciativa, acreditamos que devemos ficar surpresos por esses seres não esboçarem qualquer reação ao objeto do estudo.  Surpreende que a maioria chegue atrasada; lamenta-se a forma de como espalham seus corpos nas cadeiras e ofende o olhar vago sobre o nada que parece existir em sua frente, mas que se expande do seu espírito, ou que resta dele naquela massa. Quase nenhum tem um livro ou caderno à sua frente ou lápis próximo a si. Dizem que a burguesia inventou camisas com bolso para que ali pusessem os instrumentos de trabalho. Os operários levam suas ferramentas em caixa, se são autônomos, ou usam as caixas nas fábricas para guardar os instrumentos após o trabalho. Em uma escola de ensino superior que está a preparar pessoas para a atividade de ensinar, espera-se que esses operários que não sujam a mão de graxa, tenham algum instrumento e lugar para guardá-los. A maioria dos aprendizes chega como aristocratas em campo de férias: em seus vestuários nenhum bolso, em suas mãos nenhum instrumento. Claro que eles devem ter um cérebro onde estão armazenando de maneira definitiva, julgam, aquilo que acham necessário.

Boa parte desses jovens produz seus corpos com exercícios físicos, apresentam músculos bem definidos sob a camiseta esportiva que os protege e expõe. Mas seus cérebros não aprecem exercitados na arte do desenvolvimento da curiosidade. Perguntas novas não parecem aflorar das elipses elétricas. Quase supomos, pelo olhar, que o cérebro está em repouso esperando o momento de responder, pavlovamente, a palavras como “time de futebol”, “copa do mundo”, “reacionário”, “show de …”, e e outras palavras de ordem. Então a vida surge como a baba do cachorro do cientista, e essa reação chamam de vida.

Quem foi educado dessa maneira, no falso diálogo, não tem a resistência para a leitura de um texto, para a comparação. A comparação implica a perceber, se não a diversidade, ao menos a existência de duas realidades diferentes. Entretanto é melhor continuar a brincadeira, essa que brincam sem saber da sua existência, como o peixe não se distingue da água, a brincadeira de Boca de Forno, essa na qual há o compromisso de se fazer tudo que o Senhor Rei mandar. Nessa brincadeira corre-se de um lado para outro, apenas com o objetivo de “fazer o que o senhor rei mandar”. Para tal só é necessário o exercício físico, a resistência física. Não se deve argumentar com rei. Apenas seguir as suas ordens, elas a todos confortam por proporcionarem um momento de exaltação e êxtase por cumprir a tarefa, desde que essa tarefa não implique o uso da massa para além de indicar qual membro do corpo deve ser utilizado para o gáudio majestático.

E como ensinamos usar o mínimo possível o cérebro, é que uma Popozuda passa a ser considerada por um professor de uma escola brasiliense, uma importante pensadora da atualidade. Afinal a ausência de estrias ou celulite é o ideal das moças para o gáudio ocular dos rapazes. Nada de rugas, e o cérebro é rugoso. E os movimentos que fazem as informações que a ele chegam, podem ter as mais diversas consequências. cada pensamento é uma miríade de possibilidades, caso haja a prática de exercício, o interesse de desenvolver a curiosidade e que esse interesse  seja mais remunerado que os apetites que exigem cérebros menos rugosos.

BV

O dente de leite de meu neto e os dentes das ditaduras

 

Meu neto expõe sorriso sem um dente de leite que lhe caiu. Está a se aproximar do que costumava ser a “idade da razão”. Dizia-se que, aos sete anos esse menino já podia entender o que ocorria ao seu redor e estava em processo de empoderamento dos valores sociais, como se diz nos dias atuais.  Isso significava que “esse menino” já sabia o que fazia, e podia até ficar cuidando dos irmãos menores. Mas, como cresce enormemente os saberes coletivos necessários para a sobrevivência, os indivíduos sabem cada vez menos desse total e, apesar de os sete anos de idade continuar sendo visto como o início da idade da razão e, espera-se que a criança já saiba ler e escrever, mas podemos observar que estamos a criar leis que tornam “esse menino” irresponsável sobre seus atos, especialmente aqueles que ferem e matam.  Para alguns casos, a idade da razão nunca chega, apesar da queda dos dentes de leite e o crescimento das presas do animal caçador.

Bem, tive um dos meus dentes extraídos após um acidente que envolveu uma pedra servida no feijão. Embora não fosse esse ocaso, os dentes caem com a idade ganha, esse processo faz parte das perdas que acompanham a conquista do tempo que nos conquista à medida que o vivemos. Em sociedades que já não existem, lá nas regiões mais frias, quando os mais velhos perdiam os dentes e quando já não podiam mastigar as peles dos animais para amaciá-las, eles se retiravam para morrer. Eram vistos como incapazes de continuar a auxiliar o grupo a viver e, podiam causar problemas à sociedade. Como desde cedo eles eram educados vendo desaparecerem alguns velhos, e ouvindo a explicação desse comportamento ao longo de suas vidas, quando chegava a sua vez, eles seguiam normalmente a razão da sociedade, razão que aprenderam ao longo do tempo usando seus dentes.

Cavalos são analisados pela qualidade de seus dentes, assim eram, também, avaliados os que prisioneiros levados aos mercados para serem vendidos como  escravos. As sociedades dos tempos modernos criaram meios para proteger-se contra o envelhecimento, claramente expostos no sorriso que deixa à mostra os dentes ou a sua ausência. Uma nação moderna previne a queda dos dentes, pela higiene bucal, pela educação alimentar, etc. Mesmo sem os dentes naturais, com os dentes artificiais, os mais velhos podem continuar a contribuir na sobrevivência do seu grupo social, da sua sociedade se, além dos dentes, mantidos ou repostos pela tecnologia, mantém também seus cérebros funcionando e os pondo ao serviço do meio onde vivem. Quando isso acontece é um ganho para todos.

Disse ao meu neto que a perda dos dentes mostra que estamos envelhecendo, ele e eu; ele por aproximar-se da Idade da Razão e eu por aproximar-me à idade na qual, além dos dentes, também podemos perder a o uso da razão.

Nessa semana de avaliação do movimento ocorrido em 31 de março e primeiro de abril de 1964, entre os depoimentos que li, uma professora do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco diz que “ os atores políticos que serviram à ditadura desapareceram de cena porque não tem como participar da construção da democracia. Foram impostores de um tempo sombrio, de medo e violência” [1]; outro depoimento, de José Sarney, que foi um auxiliar do regime militar desde os primeiros dias e o presidente involuntário do Brasil no processo de transição iniciado por Tancredo Neves diz que “A transição democrática brasileira se deve ao meu temperamento, também, esse jeito nordestino de dialogar. Cometi um erro ao voltar à política quando encerrei meu mandato presidencial. De novo, deveria ter ido para casa, mas daí veio o Collor, com todos aqueles problemas, e me chamaram de volta, isso, antes do impeachment. Saí então senador pelo Amapá, porque o PMDB não me deu legenda no Maranhão. Mas, enfim, olhando para esse meu retorno, vejo-o com arrependimento. Já havia encerrado a missão maior, que foi a transição democrática. E é só o que o País deve a este presidente improvisado, que assumiu para ser deposto.”[2]

Como se vê, a perda dos dentes atualmente não é visível e nem sempre ela é acompanhada com a sabedoria que ouso dos dentes daria.

Neste semana e neste mês que serão preenchidas com debates sobre o que ocorreu nos últimos cinquenta anos, devemos uma homenagem, não tanto aos que desejaram apenas vencer a ditadura ocorrida entre 1964 e 1985, mas, principalmente, a todos que lutaram pelo retorno e construção da  democracia. Aos Anônimos da história, aos que não podem e nem querem receber remuneração pela sua participação na reconstrução permanente da democracia, nossa homenagem.



[1] Diário de Pernambuco, em caderno especial sobre AS MARCAS DO GOLPE. 31 de março de 14.

[2] Estado de São Paulo, 28 de março de 14.

M de Magistério, M de Menorah

A corrente da vida continua sempre na direção que não desejamos enquanto fazemos aquilo que nos agrada. O estímulo para continuar na imensa maratona é que a vida deseja ser vivida. Como uma vela ela ilumina e se consome. O importante é o brilho que produz o aquecimento, a possibilidade de promover a visão para além de si mesma. E nem sempre a vela brilha com o vento leve, uma pequena brisa que auxilia a combustão produtora da luz e do calor. Nem sempre a vela queima recebendo a exata dose de oxigênio, às vezes o vento que lhe toca está bravio e faz a chama dobrar-se, quase apagar. Algumas velas não resistem e param de fornecer o brilho antes que todo o pavio e a sua cera sejam consumidas. Todos os dias eu fico pensando nas velas que não queimaram até o final. É triste.

Entendo que não somos apenas uma vela, somos um castiçal de sete velas, um Menorah que é posto no Santo dos Santos, sinal dos dons divinos: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, conhecimento, temor do Senhor e prazer no Senhor. Nas tribulações da vida necessitamos de todos esses para que possamos nos queimar na construção do mundo, na continuação da obra na qual chegamos já em curso. Cada um desses dons que temos nos auxiliam a não desistir.

Leio, de alguns amigos, palavras que falam de um possível fracasso em sua tarefa de magistério porque muitos foram à rua protestar contra o que eles estão vivendo e, por engano, voltam-se para o passado, querem o retorno da ditadura civil militar que machucou a pátria brasileira durante um quarto de século. Oito meses são passados quando outras pessoas também saíram à rua para protestar contra o que elas estão vivendo. Não saíram pedindo a volta do passado, mas tampouco apontaram para algum futuro. Oito meses atrás as aulas de história pareciam ter tido um bom resultado, uma vez que os saíram às ruas estavam mais próximos das ideias que esses meus colegas professores – e eu também – professam; agora parece que as nossas aulas de história não serviram, pois os que agora saíram às ruas professam ideias diferentes desses professores. Como precisamos de entendimento para aconselhar!

De qualquer modo, a função do professor de história é professar, é ensinar, indicar o caminho ou caminhos possíveis e, para isso, como me ensinou um professor: um livro é bom, um livro só não presta. Se apenas indicamos uma leitura, uma explicação sobre os acontecimentos não estamos ensinando as mentes a pensar, estamos amestrando as mentes e, se os amestramos criamos em nós mesmos a expectativa de que eles pensarão como nós pensamos. Se for assim, ficaremos desiludidos quando eles não agirem como nós os treinamos. Se uma pessoa recebe muito de um só alimento, isso o levará ao desgosto desse alimento e, sem o gosto, ele, o alimento, será rejeitado. A variedade de possibilidades das análises da realidade trará muito mais possibilidade de fazer surgir o novo. A oferta de uma só explicação terá duas consequências vergonhosas para um professor: fará um clone de si mesmo – e os clones sempre trazem consigo algum defeito, sendo o principal deles o cultivo da mediocridade para ser aceito; ou fará um reagente que negará aquele que o quis enfeitiçar – não ensinar possíveis caminhos – e então aprenderá a gostar de fazer aquilo que desgosta a quem o quer medíocre.

Um professor não é, não pode ser, um agente de propaganda, um professor deve ter a coragem de formar alguém que poderá pensar diferente de si. Um professor não é um replicador deste ou daquele ‘pensador’, ‘projeto politico’ ou coisas semelhantes. Um professor nem mesmo é um formador, pois ele não deve dar forma a ninguém, – deve cuidar da sua própria forma -, um professor é um orientador, um gerador de possibilidades. Essa deve ser a sua consumação: iluminar as possibilidades, os seus alunos escolherão o futuro deles. Nele estaremos na medida em que os auxiliarmos a tomar as suas decisões. Não as nossas. Esse é o Prazer.