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O fim da escravidão não é o mesmo que a conquista da liberdade

Estamos sempre em tempo de comemoração, uma vez que sempre estamos a lembrar um passado, e todos os dias que vivemos nos remetem a acontecimentos, dos quais escolhemos alguns para lembrar e celebrar. Assim as celebrações, as efemérides são um passado, não o passado. Sempre lembramos um passado que nossa memória pessoal, ou coletiva escolhe como rota para o presente. Jornais nos lembram que 8 de maio é dia de comemoração, pois em 1945, general alemão depôs as armas e os aliados – ingleses, franceses e americanos – puderam afirmar que venceram uma guerra contra a Alemanha Nazista. As nações democráticas venceram a guerra, começaria o período de paz. é o Dia da Vitória. Os que viveram os rigores e horrores daquela guerra e a ela sobreviveram sabem o que devem comemorar e ao assim fazerem, ensinam aos que nasceram depois desse período a importância daquele momento na formação da sociedade na qual vivemos. E, perguntamos se as gerações atuais estão compreendendo o significado desta data.

É o mesmo com todas as efemérides que fazem parte do nosso calendário cívico, seja o do bairro (será que isso tem importância?), da cidade do país, do mundo. O mesmo para, no país, os diversos grupos que formam essa grande sociedade. Tomemos o próximo domingo, dia 13 de maio e assistimos a luta entre o mercantil dia das Mães (alguns colégios já falam ‘dia da família, como no Dia dos Pais está a tornar-se dia do amigo) e o Dia da Abolição da Escravidão, imposta a africanos e seus descendentes no Brasil.

Conversamos pouco a respeito dessas duas celebrações, mas nos dedicamos menos ainda à questão da Liberdade limitada que a Lei Áurea garantiu aos que ela libertara. Entretanto devemos comentar sempre sobre essas duas datas, e muitas outras assemelhadas na lembrança de passos positivos em direção a civilização. Ainda que o mundo que veio após 1945 não tenha sido de paz ou de plena vitória da liberdade, uma vez que essas são condições sempre da formação da humanidade, sabemos que, por algum tempo, em muitos lugares, certos sonhos perversos de dominação foram contidos, o que nos oferece mais oportunidades de aperfeiçoar as veredas em direção da paz e da liberdade humana. Também devemos agir dessa maneira e ter essa compreensão sobre o 13 de maio de 1888, pois ele foi incompleto e nos foi transmitido de modo a ocultar os medos que a Liberdade causava aos grupos que levaram a Princesas Isabel, e ainda causa a muitos. Sim, a Liberdade causa medo até mesmo aos que saíram da escravidão, pois que agora, como livres, estavam condenados a serem livres e, por isso, responsáveis por sua vida.

Como diz a música de Dorival Caymi, se pode ir só à Maracangalha, de chapéu de palha até mesmo sem a Nalha, celebrar o fim da escravidão, mas celebrar a liberdade é construí-la cotidianamente, pois a cada dia e época ela nos sorri diferentemente.

Relatório Projeto OLINDA 1817 2017

UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO
CENTRO DE FILSOSFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

RELATÓRIO DO PROJETO DE EXTENSÃO OLINDA 1817 2017

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva

O projeto OLINDA 1817 – 2017 foi apresentado e aprovado pelo Pleno do Departamento de História da UFPE na reunião em novembro de 2016, com os seguintes objetivos:
• Acompanhar alguns aspectos do processo urbano-sócio-cultural do burgo olindense desde o ano de 1817 até 2017, como parte da rememoração de acontecimentos relacionados à chamada Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como a Revolução dos Padres, no dizer de Manuel de Oliveira Lima;
• Promover o intercâmbio de informações entre os estudantes do curso de História da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE e partes da população da cidade de Olinda;
• Promover encontros de estudos e troca de experiências entre os alunos do curso de História da UFPE com setores da cidade de Olinda, em reuniões de estudos em diferentes locais de socialização, tais como, instituições culturais, instituições religiosas, clubes sociais, agremiações carnavalescas, etc.;
• Promover ações conjuntas de alunos do curso de História da UFPE e o Arquivo Histórico de Olinda, para localização, organização e seleção de material gráfico – fotos, mapas, plantas, etc. – da cidade de Olinda;
• Confecção de material didático – banners, diapositivos – a serem utilizados nas ações que formarão a realização efetiva do projeto;

O Projeto OLINDA 1817 – 2017 foi realizado em parceria com diversas instituições da cidade de Olinda, citadas a seguir: Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco; Prefeitura Municipal de Olinda; Secretaria de Patrimônio e Cultura de Olinda; Instituto Histórico de Olinda; Confraria de Nossa Senhora dos Homens Pretos de Olinda. Convento de São Francisco de Olinda; Sociedade de Defesa da Cidade Alta – SODECA; Associação Carnavalesca Cariri; Mosteiro de São Bento; Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães – APMAG; Museu Regional de Olinda; Paróquia Nossa Senhora de Guadalupe.

1. Preparação:
a) Convidamos alunos do curso de História para participar do projeto e recebemos a adesão de oito, e fizemos três reuniões, fomos visitar o Arquivo de Olinda, mas a impossibilidade de conseguirmos bolsas arrefeceu o entusiasmo;
b) Entretanto fizemos uma página no Facebook, https://www.facebook.com/olinda1817/ e nelas nos comunicamos e trocamos algumas informações em torno do tema. A página foi utilizada para informar os eventos realizados.
c) Inicialmente entramos em contato com as entidades para saber de suas disponibilidades e aceitação do projeto, o que ocorreu nos meses de novembro e dezembro de 2016;
d) Discutimos com a equipe do Arquivo Público Municipal Antonino Guimarães sobre os temas e quais os professores convidaríamos para as palestras;
e) Entramos em contato com a Secretaria de Educação de Olinda para que viesse a se tornar uma parceira, mas não conseguimos ser recebidos pelo secretário de educação e fomos enviados para conversar com a Diretoria de Ensino que nos fez muitas exigências, como fazer várias capacitações para os professores em troca de liberar os alunos para as palestras. Não conseguimos firmar essa parceria;
f) Simultaneamente apresentamos o projeto a professores e especialistas e convidamos professores e especialistas para, graciosamente, palestrassem nos eventos.
2. A abertura do Projeto foi realizada no auditório da Prefeitura Municipal de Olinda, tendo sido proferidas palestras: de Aneide Santana, do Arquivo Municipal Antonino Guimarães; Luiz Beltrão, presidente do Instituto Histórico de Olinda, o Secretário de Patrimônio e Cultura da Prefeitura de Olinda e o professor Severino Vicente da Silva.
3. As palestras foram realizadas mensalmente nos espaços viabilizados por nossos parceiros na seguinte ordem:
MARÇO: OS ACONTECIMENTOS DA REVOLUÇÃO (Solenidade de abertura) Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, UFPE. (Departamento de História) Realizada no Auditório da Prefeitura Municipal de Olinda.
ABRIL: O SIGNIFICADO DOS ESTUDOS JURÍDICOS, EM OLINDA SÉC. XIX. Prof. Ms. Luiz Delgado, UFPE. (Curso Jurídico) Local: Colégio de São Bento. Realizada no Auditório do Colégio São Bento.
MAIO: RELAÇÕES COM OS SERTÕES – Olinda e os Cariri: Sertões, seminaristas, comércio e carnaval. Prof. Ms. Plínio Victor (Secretaria de Cultura de Olinda) Local: Associação Carnavalesca Cariri.
JUNHO: O SEMINÁRIO E SUA HERANÇA CULTURAL – Pensamento de Liberdade em Pernambuco desde 1817. Prof. Dr. Caesar sobreira, UFRPE. Local: Instituto Histórico de Olinda
JULHO: AS ARTES EM OLINDA. Prof. Dr. Fernando Guerra, UFPE. (Departamento de Arqueologia). Local: Instituto Histórico de Olinda.
AGOSTO: O COTIDIANO E A TRADIÇÃO – O Cotidiano em Olinda no século XIX. Prof. Dr. Severino Vicente da Silva, UFPE. (Departamento de História). Local: Igreja de São João dos Militares
SETEMBRO: A CONVENÇÃO DE BEBERIBE. Mestre Plinio Victor, (secretaria de Cultura de Olinda), Mestre Aneide Santana (Arquivo Municipal Antonino Guimarães), Prof. Dr. Severino Vicente da Silva (UFPE). Local: Auditória da Prefeitura Municipal de Olinda.
Outubro: EVOLUÇÃO URBANA DA CIDADE. Mestre Alexandre Alves Dias (Arquivo Municipal Antonino Guimarães) e Prof. Flávio Dionísio (Museu Regional de Olinda) Local: Museu Regional de Olinda.
Novembro: A REVOLUÇÃO DA LIBERDADE E OS ESCRAVOS – Escravidão e Liberdade em 1817. Prof. Dr. Marcus Carvalho, UFPE (Departamento de História) Local: Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
4. Para cada um desses encontros foi produzido Powerpoint referente aos temas das palestras, os quais foram expostos com equipamento cedido pelo Arquivo Público Antonino Guimarães.
5. As palestras foram gravadas, e foram decupadas pelo aluno Márcio Nascimento da Silva. As transcrições foram entregues aos palestrantes para que eles reorganizem e as disponham para uma possível publicação.
6. O Projeto foi encerrado com a palestra na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos.
7. Devemos mencionar que alguns problemas, como viagem de palestrantes, e incompatibilidade de horários, fizeram com que as palestras tivessem ocorridas em horários diferentes, o que impediu a formação de um público permanente; por isso tivemos uma audiência flutuante numericamente, mas pudemos notar que, quando os encontros ocorriam em lugares mais próximos do comum, distante dos ambientes mais tradicionais, a frequência do público foi maior. Assim, as palestras ocorridas em ambientes mais populares, como clubes de carnaval e igrejas, foram as mais concorridas.
8. Chamou atenção o fato de que o comprometimento que ocorre na rede social não se converte em presença física efetiva, o que pode ser explicado pelo fato de muitos que acompanham pela internet estão, fisicamente distantes e impossibilitados de comparecer.
9. A página continua sendo visitada após o término do ciclo de palestras.
10. Foram realizadas fotografias que estão publicadas na página https://www.facebook.com/olinda1817/

Prof. Dr. Severino Vicente da Silva
Olinda, 11 de abril de 2018.

Águas de Março e Rosas de Abril

Águas de Março e Rosas de Abril

O que escrever neste mês de abril, tão cheio de história, de acontecimentos que marcaram o percurso do povo brasileiro? Claro que se pode dizer o mesmo de quase todos os meses do ano, mas o início do outono parece ter sido muito marcante. Foi neste mês que nossos antepassados nativos desta parte geográfica da terra viram a chegada dos antepassados europeus. Foi momento de surpresa para ambos, e o tempo encarregou-se de mostrar a desigualdade nas relações entre eles. Uns ingênuos, outros controladores de alguns saberes construídos por séculos de experiências de muitos povos e culturas; uns abertos para a aceitação das novidades, outros interessados em tomar para si tudo de novo que encontravam.

Anos mais tarde, quando outros povos chegaram trazidos à força para aqui viverem como bestas, já restavam poucos nativos nas terras que lhes tomaram os europeus. As novas tecnologias mudaram os ritmos dos tempos e dos movimentos, e criam novos povos. Que se fazem em lutas, como a de abril de 1645 na Batalha dos Guararapes, outono da presença holandesa em Pernambuco e primavera da possibilidade de novos tempos, ainda sonhados de cooperação e igualdade entre as nações fundadoras.

Outro momento que foi escolhido para marcar a nação é o enforcamento do Alferes Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, atividade que o tornava conhecido nas serras das Gerais. Embora Capistrano de Abreu não veja grande consequência naqueles acontecimentos, desde a ascendência do exército na vida política, que o Alferes vem sendo cultivado como herói. Assim, o outono de 1789, fica como marca fundante da nação. Alguns anos depois, em 1817, o outono foi marcado pela Revolução de 1817 que, embora tenha sido iniciada no mês de março, é ao longo de abril que se vive plenamente, pela vez primeira, o sentimento de República, representado pela supressão de tratamento que de note superioridade social entre os pernambucanos: todos são cidadãos.~

Abril de 1831 marca o fim do governo daquele que esmagou, com ódio, a Confederação do Equador, república nascida em Pernambuco, filha de 1817. Festas tomaram as ruas do Rio de Janeiro para celebrar a saída do último português que governava o Brasil. Durante anos o 7 de abril foi celebrado como a festa da Independência, pois é uma data que nos lembra a queda do tirano, dessa festa é que veio o Hino Nacional Brasileiro.

Abril de 1964 trouxe uma sequência de ditadores militares, mas a este abril parte da sociedade resistiu enquanto outra parte queria sua continuação. Venceu os que queríamos a República de volta. Com seu retorno vieram a assumir o poder os que desejavam continuar a ditadura e alguns que queriam outra ditadura. Precisamos estar atentos e recusar qualquer proposta de poder pessoal (em alguns casos esses indivíduos não permitem a emergência de nenhuma outra liderança). O Sete de Abril continua sendo uma data a ser celebrada.

Com as Águas de Março que fecham o verão, cultivemos As Rosas de Abril, com suas auroras de Liberdade.
Biu Vicente

Quarta Feira no STF – igualdade para todos ou manutenção das castas

Poucos dos cidadãos que vivemos intensamente os momentos desta semana que culminou com a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República, percebemos que a sua prisão é uma vitória contra uma prática jurídica, criada durante a ditadura civil-militar iniciada em 64 e terminada em 85. Hábitos criados naquele período ainda nos governam até hoje e, como temos pouca memória e, a pouca que temos é seletiva, esquecemos que essa prisão apenas após Trânsito em Julgado, ou apenas na Segunda Instância, é filho bastardo, posto na Constituição de 1988. Essa prática de não prender o condenado logo que a sentença é proclamada, foi inaugurada na ditadura quando foi criado o dispositivo que permitiu, a partir de então, ao réu primário, ou seja àquele que está sendo julgado pela primeira vez, recorrer em liberdade. É a LEI FLEURY.

Essa lei foi criada para beneficiar o maior símbolo do submundo da ditadura, o temível e terrível Delegado Fleury, que cruzava o país em todas as direções para garantir a manutenção da ordem espúria, a ordem da tortura. Fleury é o símbolo da tortura. Foi assim que nasceu essa eterna presunção de inocência que se aliou à tradicional impunidade para os senhores donos das portas, porteiras, portelas e com assento nas bolsas de valores, bancos universitários, salas reservadas, etc. E então, constituintes desavisados seguiram o constituinte que criou e santificou esse privilégio, deixando a Constituição dúbia a esse respeito.

Nesta semana aprendemos que as duas últimas décadas são a mãe dessa tradição da Segunda Instância. Começou em 2009 o entendimento que s[o após a segunda instância haveria o aprisionamento. Esse entendimento parou de ser praticado em 2016 e agora, temos essa insurreição contra a prisão em segunda instância e o grito pela eterna presunção da inocência. Eles querem a impunidade permanente, enquanto puderem pagar advogados. Estes, por seu turno, são muito interessados na manutenção da eterna presunção da inocência do réu, pois isto os torna mais ricos, enquanto fingem defender a liberdade. E defendem basicamente a liberdade dos clientes ricos, pois creio ser difícil encontrar Sepúlveda Pertence, Kakay ou outros semelhantes, agirem na defesa gratuita (não pode pois a OAB estipula um pagamento mínimo) de um apenado pobre, ainda nem julgado, mas encarcerado.

Esta semana que começa hoje será fundamental na carreira em direção da igualdade de direitos. O estabelecimento da prisão apenas após o trânsito em julgado, após todos os recursos, manterá o sistema de castas entre nós. Esse sistema que vem recebendo o apoio de políticos e juristas que já tiveram assento no STF; um deles foi constituinte e foi revisor da Constituição que não se envergonha de dizer que, enquanto fazia o trabalho de revisão, introduziu algumas de suas ideias sem debate no plenário, uma vez que o texto já havia sido aprovado.

Mais uma vez o centro de nosso futuro está nas mãos da ministra Rosa Weber, pois ela terá que escolher entre seguir a tradição que se iniciou em 2009, o que promoverá a possibilidade de processos intermináveis, além de possibilitar a libertação de centenas de condenados (sem colarinho e de colarinhos brancos), ou irá manter o entendimento de que o réu, uma vez condenado na segunda instância, deve ser encaminhado ao encarceramento, em defesa da sociedade, de onde continuará, através de seus advogados, a fazer as recorrências possíveis. Qual o interesse que vai prevalecer? O da sociedade ou o dos abonados financeira e economicamente?

Mais uma vez, vamos esperar a quarta feira

FELIZ PÁSCOA

Feliz Páscoa! Disse, na quinta feira desta semana, nesta última semana do mês de março de 18, a Semana Santa, para os católicos. A frase foi em direção de um velho colega que passava no corredor. Dois minutos depois ele retorna e diz: feliz Páscoa. E comenta: estamos todos ficando ateus, parece. Antigamente esta era a primeira frase que dizíamos, mas agora ela começa a parecer estranha, não mais a usamos e ficamos surpresos quando ela nos é dirigida.

Na rede de comunicação virtual que frequento, são raras essas expressões de desejo de uma Páscoa feliz. Mais fácil encontrar comentários de teor crítico, relativizando a história do memorial ou da pessoa central do memorial. Até mesmo a referência o hábito do consumo de peixe nesse período é banalizado. Uma postagem de diversos corte de carne bovina ridiculariza o costume que obrigava, por religião, os nobres a comer a comida dos pobres na Idade Média, quando a carne e a caça era privilégio da nobreza.

Vi e ouvi uma postagem de um amigo, bom católico, leigo ativo e criativo, que nos desejava uma feliz páscoa, uma renovação do espírito, enquanto lembrava que a Páscoa é uma festividade de celebração do início da primavera, estação que alegra após o período invernal. A sua observação nos dá a oportunidade de notar que a páscoa é uma festividade originária dos povos do Hemisfério Norte que nós, do Hemisfério Sul a celebramos na chegada do Outono, quando o Verão nos deixa e as chuvas de março nos deixam vislumbrar o tempo de plantio e cultivo.

Outros cingem este festival primaveril à tradição judaica, pois que se lembra do Anjo de Deus que passou sobre o Egito, promovendo condições para que o faraó liberasse o povo que então se dirigiu ao deserto em busca de uma Terra Prometida, na qual, além de rios onde o leite e mel corriam, era também local de liberdade para um povo que, até então, vivia em escravidão.

Todos esses sentidos, e muitos outros, fazem desta festa um momento de revigorar as esperanças de que é possível construir outra vida, na qual a alegria seja o alimento diário, a riqueza seja comum a todos. E este é o desejo que guardo no meu íntimo e dele sai para cada pessoa que casualmente leia essa coluna.
Neste ano, o último dia da Quaresma cristã coincide com aniversário pouco celebrado, o dia no qual, faz cinquenta e quatro anos, o exército nacional brasileiro, liderado por generais carregados de medo e ressentimentos, saía dos quarteis, derrubaram um governo legítimo e reformista para iniciar um período de suspensão das liberdades de pensamento, de locomoção, de expressão. Contudo, aproveitamos a data da Ressureição, da Páscoa, para celebrar a vitória que conquistamos sobre aquela ditadura civil-militar, retomando o percurso da liberdade, que nos cabe conquistar e cultivar diariamente, recusando sempre a dominação do mal, do desentendimento em nossas vidas pessoal e social.

FELIZ PÁSCOA.

Algozes de Marielle

Quando Marielle Franco, assassinada no dia 14 de março de 18, completava cinco anos de idade, os que hoje estão além dos sessenta anos de idade, estavam, naquele ano, pondo fim à ditadura que se implantara em 1964. E então, proibidos de participação política durante duas décadas, os brasileiros começaram a eleger alguns dos proibidos para as funções de vereadores, prefeitos, governadores de estado, deputados estaduais e federais, senadores e presidentes da República. Aos poucos essa geração desejosa de democracia e que lutou contra a ditadura (alguns porque desejavam outro tipo de ditadura e outros por quererem uma democracia liberal) foi tomando os destinos do Brasil em suas mãos. Além daqueles que assumiram os poderes mais explícitos, muitos foram feitos secretários de educação, saúde, transportes, segurança, e tantas outras; outros assumiram cargos nas procuradorias, tribunais, reitores de universidades, etc. Isso quer dizer, nas últimas quatro décadas, essa geração decidiu sobre política econômica, política educacional, política de saúde, política de segurança, política ambiental e mudou o Brasil. Mas, o assassinato de Marielle, após uma reunião em defesa dos brasileiros de cor negra, mostra que essa geração fracassou em seu projeto, embora alguns tenham tido sucesso quase absoluto em suas vidas privadas.

Fracassaram as tentativas de na educação, pois parecia que a cada quinze dias se queria provar uma nova metodologia, um novo teórico; a pressa de mudar permitia a perenização de costumes antigos e, que bobagem, oferecia condições para os novos professores aprendessem a prática de não aprender o novo. Fracassaram as tentativas de política de segurança, talvez por se ter definido o policial, o militar como inimigo permanente, mesmo que esse policial tivesse apenas vinte anos. Viveu-se um período de desejo de vindita, pois os principais líderes chegaram com o discurso de guerra, de uma guerra que havia sido vencida pelos que negociaram o novo pacto social, mas, aos poucos o pacto foi sendo esquecido, menosprezado e, parece que havia sido definido fazer uma revolução permanente. E tudo que havia antes tinha que ser esquecido, inclusive as coisas boas. Simultaneamente foi assumida uma ideia de que a contravenção, a subversão era positiva (afinal quem chegava ao poder depois de 1985 havia sido subversivo nos anos anteriores). Por alguma razão não se percebeu que a nova subversão era não permitir a sociedade liberal. Fracassaram as políticas de saúde, como comprovam os hospitais mal administrados por quem parece jamais haver estudado ética médica, ou desenvolvera qualquer atividade de cunho social. Houve um fracasso na construção de uma sociedade participativa e cooperativa. Fracassou-se pois, ou invés de viver o presente e construir o futuro, preferiu-se o passado: parte dele para ser imitado e parte para ser odiado.

Nessas quatro décadas, retirando o período de Sarney, todos os titulares do governo federal eram jovens e discursavam contra os desmandos dos ditadores e a corrupção que nela existiu, como os 10% de Delfin Neto (este veio a ser conselheiro dos recentes presidentes) e suas aulas aos estrangeiros de como burlar as leis de compra de terras no Brasil. Mas os novos governantes pegaram atalhos e, neles, enriqueceram, enquanto pequenas melhorias eram realizadas, tornaram-se corruptos. E verificando a idade de Marcelo Odebrecht – 49 anos – e dos que estavam no poder (o mais novo tem 62 anos), podemos perguntar quem foi o líder de quem.
Eis algumas razões para avaliar uma geração que esteve no poder, enquanto continuarmos a tarefa de construir uma sociedade mais justa, mesmo sabendo que estamos lutando contra um sistema forte, mas não será repetindo os atos que tornaram o Brasil um país com um povo deseducado, um povo doente, um povo cultivador de esperança enquanto observa que ela lhe escorre pelos dedos, com a rapidez de um Trem Bala que lhe foi prometido e nunca entregue. O assassinato de Marielle denuncia que houve leniência e que se abandonou os moradores das periferias das cidades a grupos de marginais, no Rio de Janeiro e, creio que se pode dizer em todas as capitais e cidades de pequeno porte; o assassinato de Marielle Franco denuncia os discursos vagos e sem compromisso real com a educação básica, média e superior, e com o ensino público de boa qualidade, pois apenas se continuou com a má qualidade da época da ditadura; a ânsia pelo reconhecimento internacional fez com que as prioridades fossem invertidas. E nessa inversão, alguns levaram as suas vidas para as privadas e lupanares da corrupção, enquanto continuavam com um discurso em que dava aparência de que não estavam no poder. Essas são algumas das razões do assassinato de Marielle. É terrível que Marielle tenha sido morta dessa maneira, um modo que nos leva a lembrar a morte de tantos que morreram para que nem ela nem ninguém mais fosse emboscado por suas ideias. Marielle era parte de uma geração que já foi cuidada pelos que chegaram ao poder em 1985. o assassinato dela nos acusa a todos, especialmente os que estiveram à frente das instituições e que fraquejaram seduzidos pelos conforto do poder. Cada vez que alguém é morto por sua cor, sua crença, suas ideias, seu gênero, todos temos responsabilidades pelo acontecimento.

Enquanto continuarmos colocando a culpa nos outros, continuaremos favorecendo os assassinatos de centenas de Marieles, e faremos muitas vigílias. Só haverá um começo quando os que estiveram no poder nas últimas décadas do século XX e nas primeiras do XXI admitirem que erraram, talvez sem intenção, em não priorizar os verdadeiros anseios do povo brasileiro. Nossos líderes Quiseram ser líderes no mundo e não soubemos ser líderes de si mesmos.
Biu Vicente