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D de Dezembro, de Direitos Humanos,

Estudava eu no Colégio Estadual Dom Vital, localizado próximo ao Mercado de Casa Amarela, e recebi de uma colega um LP de Moacyr Franco, que guardo até hoje e, vez por outra o ponho na rodar. Entre as muitas versos de Nazareno de Brito, um deles me vem desde então: “Cada um ver dezembro no fim”, dizia eles a respeito dos conselhos que todos nos cuidam de nos oferecer em momentos de crise, mas o mês de dezembro tornou-se marcante para mim por ter-me iniciado a compreensão de uma enorme bifurcação. Dois momentos, um deles vivido com intensidade por mim, o 13 de dezembro de 1968, pois na tarde daquele dia, mandando “às favas todos os escrúpulos”, os militares e civis que estavam no poder, com exceção de Pedro Aleixo, então vice-presidente, assinaram o Ato Institucional de Número 5 que, supreendentemente, suspendeu todos os Direitos dos Cidadãos. Pois bem, sob a liderança de Dom Hélder, passamos parte daquele ano refletindo sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pela Assembleia Geral das Nações Unidas no dia 10 de Dezembro de 1948. Assim, naquele dezembro de celebração do 20º aniversário da Declaração dos Direitos Humanos, vimos cair uma situação difícil para todos os que, no Brasil estávamos lutando para a realização do projeto que reconhece, a todos os humanos, os direitos de Nascer, de Viver, de Morar, de Pensar, de Falar, de Crer, de Ir, de Vir, de Ser Cidadão, de alimentar-se a à sua Família, de ter Uma Pátria, de Trabalhar, de receber salário por seu trabalho, ter uma Família, de Associação, de ser tratdo com Dignidade e Respeito, Ter acesso ao Estudo, direito a uma Crença, todos esses direitos (outros aqui não citados) que, durante a Segunda Guerra Mundial foram negados a milhares de homens e mulheres, estabelecendo a barbárie, negando a possibilidade da civilização.

O verso de Nazareno de Brito terminava dizendo, de forma magoada e triste: “mas se um dia eu tiver que chorar, ninguém chora por mim”. E deve ter sido assim que sentiam todos os que foram levados a Campos de Concentração para servirem de cobaias a experimentos pseudocientíficos e serem mortos posteriormente, com a negação absoluta de suas humanidades. A Declaração Universal dos Direitos Humanos não é um código, é um projeto de humanidade após a instalação da Maldade em grande parte do planeta. Nenhuma lei obriga qualquer país a cumprir essa declaração, mas não a cumprindo estar a afirmar que abre mão de seu compromisso com a humanidade, encaminha-se para tornar-se inimigo dos que buscam esse ideal, afasta-se do grande colégio das nações. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é uma regra a ser inscrita no espírito, na mente, ou como dizem os românticos, no coração de cada homem e da cada mulher. E, deixando no passado o pessimismo do poeta, se for o caso, todos choraremos as dores de cada, mas evitaremos as dores de todos à medida que nos dediquemos a criar condições para que todos possam gozar de todos os Direitos explicito na Declaração de 1848, e nos demais documentos que ela gerou.

No final deste ano, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa setenta ano de vida, é momento de voltarmos a debater esta pauta, conversar sobre esses diretos cujo exercício nos faz humanos. E, se for verdade que vem a tempestade que alguns nos querem fazer crer, devemos nos lembrar de João XXIII, de Martin Luther King Jr., Camilo Torres, Zé de Galileia, Antônio Henrique Pereira Neto, Helder Câmara, Gandhi, Tereza de Calcutá, Nelson Mandela, Austregésilo de Ataíde, Malcon X, Dietrich Bonhoeffer, Chico Mendes, Herozg, e muita gente que lutou para estabelecer, manter os direitos que hoje nós usufruímos e temos o dever de continuar a sua preservação.

Avaliação em final de semestre

Estou triste neste fim de tarde, apesar do dia produtivo e alegre com meu trabalho e família. Mas como imaginar o país melhor com a capacidade de nossos principais juízes demonstrarem tanto sabe e pouco cuidado com o povo que lhes pagou a educação e, recentemente vinha sendo achincalhado por pagar auxílio moradia de seis salários mínimos a quem já recebe trinta salários mínimos. Fico triste por ser impotente diante do cinismo do ministro que, durante dois anos fingiu que não tinha tempo para rever tão estúpido “direito”, mas que prontamente definiu que era errado receber tal prebenda, após o presidente da República ceder (de bom grado, parece) à chantagem e lhes conceder um aumento um aumento maior que o ‘benefício’ que lhe foi tirado. Cinismo maior ao pedir vista a um processo para dar a impressão de que está ao lado da população e não contra os que fraudaram contas públicas, desviaram dinheiro público, sabendo que nada vai mudar o que pensam seus colegas, que é o mesmo que ele pensa. Não creio que pretenda punir bandidos, quem faz chantagem com interesses da população.

A tristeza só faz aumentar ao saber que auxiliar da Procuradora Geral da República pediu para deixar o cargo pois perdeu o “auxílio moradia”, embora venha a ser beneficiado com um aumento em seu salário, na cascata que beneficia a todos os promotores. Ah! Esses promotores deveriam promover ações em defesa do direito comum! E poderia continuar o tom de lamento, continuar dessa maneira me levaria desistir dos meus sonhos, aqueles que foram sendo desvelados à medida que conhecia pessoas, que lia livros, que os debatia, que construía a vida como profissional. Todas essas ações estavam, ainda estão, envoltas nesse desejo da humanidade.

Este ano que termina completa 70 anos da proclamação que reconhece a todos os homens direitos inalienáveis, direitos que não lhes podem ser retirados, pois se assim se fizer, deixa-se de reconhecer a sua humanidade, mas, principalmente assume-se assumir a negação da humanidade. Até pormos em papel a relação de Direitos muita água e muito sangue correram. Sabemos que historicamente eles foram construídos com muito sangue derramado, sangue tomado dos que se opunham à modificações que beneficiassem a todos, mas também sangue que, por maldades, alguns líderes fizeram derramar para seu prazer, enquanto mentiam que o faziam em benefício da humanidade. Foi fácil para gente doente usar o desejo de liberdade para destruir possibilidades de liberdade; foi fácil para gente doente, utilizar a ânsia de felicidade que todos os humanos carregamos, no intuito de cultivar a sua maldade, seu desejo de poder. E, como essas pessoas receberam apoio de tantos, doentes e sadios, para a realização de seus projetos de poder! Talvez essa seja a razão da melancolia que trago e que vejo e sinto em tantos colegas de geração. Talvez nós sintamos que fomos utilizados por alguns, e nos deixamos enganar. Mas esse talvez seja um risco que todas as gerações correm na caminhada humana para construir um mundo mais feliz.

Terminei uma das minhas aulas esta semana alegre e perplexo com alguns desses jovens que acompanhei neste semestre. Alegre porque os vi com desejos de mudar o mundo, de fazê-lo mais justo, mas perplexos pois não vi o mesmo entusiasmo em fazê-lo mais feliz. Foi bem mais fácil para eles expressarem o que entendiam por “justiça” que explicitar alguma ideia do que viesse a ser felicidade, para si e para outrem. Até se dispunham a matar e morrer para que a justiça viesse a ser realizada (o Período do Terror não os amedronta), mas foram reticente em saber dizer se eram ou não felizes. Talvez, no nosso ensino da história, sejam mais alimentador dos desejos do heroísmo sangrento e explicito que das vitórias mais fugazes que fazem parte do cotidiano.

Refletindo sobre eventos ocorridos nos séculos XVII e XVIII, esses jovens puderam debater e solidarizar-se com os esforços que pareciam encaminhar para a construção de uma “sociedade justa”, mas não perceberam que havia, também a busca da felicidade e, penso, parece que esta perspectiva é a mesma na qual estão traçando a sua caminhada: a luta pela justiça e, secundariamente, alguma felicidade. Mas, como é “difícil definir o que seja felicidade”, deixa-se essa reflexão para depois. Mas felicidade é algo excessivamente indefinido, algo que nem mesmo os dicionaristas são capazes de afirmar. E, contudo, “todos os homens têm direito à felicidade”.

Um dos livros que mais chamou a sua atenção neste semestre, dizem os seus comentários, não que os explicitassem, foi sobre o Medo, de Dulemeau, não lhes chamou atenção seu livro sobre a busca da felicidade. Talvez mais tarde, quando a justiça houver vencido o medo, haja tempo para esta reflexão.

Os juízes estão mais preocupados em serem justos, defendem como direito de justiça os seus privilégios que eles chamam de direitos, que com o cotidiano do homem comum, como o seu direito a ser feliz, comendo algum pedaço de alimento mais forte que as pipocas vendidas e consumidas nos transportes coletivos usados pelos mais pobres, e os semáforos, para alguns que acumularam algo.

Recife e os muros da democracia

Estou fazendo a leitura do livro GRITAM OS MUROS, pichações e ditadura civil-militar no Brasil, escrito por Thiago Nunes Soares e publicado pela Appris editora, da cidade de Curitiba, no Paraná. Produção recente, faz o resgate de uma das muitas maneiras que a sociedade utilizou para a contestação das ações dos que se apoderaram do Estado brasileiro em 1964 e, aliados às forças armadas, impuseram uma ditadura que agora querem negar. Assim, chegou em boa hora o trabalho deste jovem historiador que cumpre a tarefa de lembrar o que todos esquecem, os tempos ruins que foram vividos, tempos que ficaram famosos como de chumbo. O chumbo das balas que mataram alguns e assustaram a muitos. Entretanto, no escuro das noites ou no clarão do dia, os muros da cidade do Recife tornaram-se espaço da liberdade de expressão que os ditadores não permitiam.

Os muros sempre separam, é o comum dizer, enquanto as pontes unem. Catava-se assim “quando o muro separa uma ponte une” e, no Recife os muros eram a ponte que forçava o diálogo. Silenciosos eles recebiam as mensagens e, os tijolos tornavam bocas dos desejos, das denúncias, da coragem que vencia o medo.
Carregado de documentos e depoimentos, Thiago Soares nos auxilia a lembrar como a sociedade venceu a ditadura. O regime imposto por alguns setores da sociedade, o tempo de chumbo foi vencido principalmente pela palavra e pela ação contínua da prática solidária de denunciar os abusos e dividir as informações nas assembleias públicas que, embora todos soubessem que estavam vigiadas, sendo fotografadas e gravadas, eram realizadas ao arrepio dos ditadores. Este livro narra a fala silenciosa dos muros, dos sussurros criadores da liberdade, das redes de solidariedades armadas por anônimos e valentes cidadãos, animando a todos e apontando que o chumbo das balas prometidas podia ser derretida pelo calor da ação pacífica e eficaz, solidária com os que foram aprisionados por razões diversas, sendo todas resumidas como ânsia de liberdade. Assim os muros da cidade tornavam-se força corrosiva, destruidora da ordem que desordenara a vida social desde 1964.

Toda análise histórica escolhe, define o tempo objeto de estudo, e Thiago Soares escolheu o final da década de 1970, quando a ditadura já não mais conseguia impor universalmente o medo que o chumbo das balas impõe. Muitos cidadãos, nos anos anteriores já haviam sido sequestrados, torturados, algumas centenas foram mortos e muitos desaparecidos até hoje. É o que nos mostram os relatos e os documentos trazidos por Thiago. O livro Tortura Nunca mais, mostra o que e como a ditadura tentou destruir os anseios de liberdade; os relatos do que ocorreu entre 1970 e 1985, indicam a continuidade de ação social, da capacidade dos cidadãos se organizarem e criar uma nova realidade, utilizando as contradições dos sistemas de poder, das conjunturas nacionais e internacionais e, então ampliar os espaços da liberdade, a construção dos direitos civis, políticos e sociais, como bem nos diz o autor logo nas páginas iniciais do seu livro. A derrubada dos muros impostos pela ditadura civil-militar são explodidos pela construção diária dos direitos dos cidadãos, aqueles que foram negados e são recriados pela sociedade.

Hodiernamente alguns querem negar a existência da ditadura que sofremos entre 1964 e 1985; vivemos um jogo pelo domínio da memória e da história do povo brasileiro e cabe aos historiadores organizar as informações de modo a auxiliar a preservação da memória dos construtores da cidade livre. O trabalho de Thiago Soares dá continuidade ao que foi realizado por outros historiadores, como ele bem ressalta na relação de trabalhos ele consultou, aqueles que, mais velhos ou de sua geração, já contribuíram para que esse passado não seja esquecido para que não seja revivido. Essa é uma das importância dos historiadores, eles são o vínculo com o passado, o vivido e o já refletido e sistematizado. O historiador que não cita o trabalho de seus colegas, não torna conhecido o esforço de outros historiadores está negando a sua missão ao mesmo tempo que a realiza. Importante que o leitor visite a bibliografia utilizada pelo historiador e verifique que há uma continuidade desse constante refazer, reler e manter a história de um povo. Ler a bibliografia de um livro de história é fazer um pequeno curso de historiografia, de dar passos na direção de compreender que o ofício de historiador não é apenas a visita aos arquivos, não é um trabalho isolado, embora seja escrito no solitário espaço silencioso de uma sala para que se possa conversar com os muitos historiadores que já refletiram sobre a humanidade. Claro que nem todos os que pensaram e escreveram sobre o tema abordado foram lidos, pois esta é uma tarefa impossível, mas o contato com a bibliografia nos mostra que o autor conversou com os demais membros dessa comunidade que chamamos de historiadores, esses que procuram entender como são construídas as ruas – físicas e mentais – da cidade.

Mas o povo vive em ruas, bairros que formam uma cidade e, o que nos traz o trabalho de Thiago é disposição dos cidadãos da cidade do Recife em lutar para criar e manter a sua liberdade, fazendo dos muros pontes.

Arquivos: via de garantia do passado do presente e do futuro

O Colecionador de Ossos é um belo filme policial, de suspense, estrelado por Denzel Washington, lançado no Brasil em janeiro de 2000, nos apresenta um policial atarefado em descobrir um assassino em série, que tem como tema/motivação uma série de assassinatos ocorridos em Nova York no final do século XIX. Além da bela interpretação do D. Washington e Angelina Jolie, o filme marcou-me por mostrar como os arquivos da cidade de Nova York estão organizados, bem como suas bibliotecas. Os acervos dessas duas instituições são a maior joia, em minha opinião, da sociedade americana. Elas guardam as histórias que formam a história da cidade, das cidades, podemos dizer, pois o cuidado com a guarda da documentação é enorme naquela sociedade. A sociedade pode ter acesso à sua história porque os arquivos existem, funcionam, guardam os documentos de interesse de todos. O mesmo se diga das bibliotecas, sempre postas à disposição de todos e, existentes nos bairros e subúrbios. E, embora atualizadas em livros, não jogam fora o que já foi lido por gerações anteriores. É assim que se pode saber como se formou o pensamento da sociedade, pois levantando os livros lidos por cada geração, é que fazemos a sua genealogia intelectual. No filme que citei acima, ou em vários outros, nas séries recentemente mais vistas, sempre vemos pessoas recorrendo a arquivos, visitando bibliotecas, lém dos bares e ruas e bordéis, pois assim também são as cidades. Foi buscando informações nos arquivos da cidade, verificando as plantas das cidades de cem anos passados, buscando livros publicados no início do século, que a trama policial foi resolvida.

E o que isso tem com a nossa vida, nos que gostamos tanto de Cocacola e, nossa “elite” sonha com Disneylândia? Nós não temos um arquivo sério, praticamente em nenhum estado brasileiro. O de Pernambuco, uma parte está espremida em um edifício sem espaço para a realização da tarefa de um arquivo público, e outra está em prédio úmido, em região de enchentes, sem condicionadores de ar que mantenham os documentos a salvo. Sempre que chove, as duas dezenas (talvez três) de funcionários têm pesadelos, pensando em como poderão encontrar documentos de duzentos anos. E a capital do Estado, Recife, será que tem arquivo? E as cidades mantêm arquivo? Existe uma política de arquivos para preservar documentos e garantir os direitos dos cidadãos? O Arquivo Público existe para além de uma subdiretoria em algum Órgão governamental? O do Estado de Pernambuco vive uma vida de sem teto: uma administração diz que deve estar na Secretaria de Justiça, a seguinte acha melhor na Educação, mas vem uma terceira e informa que é melhor que fique ligada diretamente ao governador e mais uma pode chegar e dizer que é melhor que o arquivo seja de responsabilidade do secretário de turismo. De qualquer maneira, muito raramente um arquivista é convidado para cuidar do arquivo, quase sempre usado como solução para colocar algum amigo do governador ou de algum político que não sabe bem o que “fundo”.

O que se tornou público em São Paulo, nesta semana com umviaduto é significativo: os arquivos da prefeitura não possuem cópia do projeto do viaduto danificado, uma construção de cinquenta anos!!! Procura-se a viúva do arquiteto, será que ela tem? Mas ela se desfez da biblioteca do marido (os maiores inimigos dos livros são as traças e os herdeiros). Quem sabe a construtora? Ah! Houve um incêndio… Procura-se alguém que trabalhou na construção do viaduto, um aposentado que guarde na memória qual foi a dosagem de cimento utilizado, etc. etc. etc. e como seria em Carpina? Em Campinas? Em Petrolina? Em Fortaleza?
Tudo isso mostra que vereadores, deputados, prefeitos, governadores, e outros agentes do Estado que deveriam cuidar e zelar pela coisa pública, estão mais preocupados com o seu salário pessoal, se podem usar carro oficial, se tem verba para comprar o paletó, se se pode contratar os cabos eleitorais para ficar no seu gabinete para que possam ter a sensação de poder.

Sem cuidar de guardar a nossa memória, a memória de nossos atos, de nossos sonhos que se tornaram edifícios, ruas, facilmente nós seremos engolidos pelo tempo. Os poderosos de nossa sociedade guardam o que lhes interessa, não investem na guarda da história do povo brasileiro. Preferem comprar carros novos para passeio dos juízes e defensores públicos que investir na construção de bibliotecas e em uma política de manutenção desses bens culturais comuns. Precisamos cuidar desses equipamentos em nossas escolas, em nossos bairros, em nossas cidades. Todos nós somos a memória da cidade. Apenas os criminosos não querem guardar documentos, eles provam os seus crimes. E como não cuidam dos documentos, sempre que estão encrencados perguntam: você tem algum documento que prove? Sem documentos não há crime. Por isso eles seguem impunes, evitando que construamos nossa história emquanto eles nos impõem uma narrativa a cada governo.

Viva a República

Vivemos tempos difíceis, segundo alguns, na véspera de um tempo de censuras ao pensamento crítico, da possibilidade da perda da liberdade de expressão do pensamento, uma vez que foi vitoriosa, na disputa pela presidência da República brasileira, uma chapa que tem claro viés de direita política, anticomunista e com claros sinais de que pouco entende de política externa, além de coloração nacionalista, solicitando o retorno do patriotismo. Mas essa chapa foi eleita por mais da metade dos brasileiros, natos ou de escolha eleitores, com idade superior a 16 anos, de maneira livre e aberta para o mundo. Ao escolher esses futuros dirigentes do país, esses brasileiros rejeitaram o modelo que vinha sendo aplicado desde o final do século passado. Veremos e experimentaremos nos próximos anos a que vai nos levar a decisão do último outubro. Se não der certo, por certo que a eleição de 2022, ano do centenário da independência política do Brasil, será uma oportunidade de nova mudança.

Mas esta é a semana da Proclamação da República do Brasil, celebrada no calendário, e com direito a feriado das atividades produtivas para que os cidadãos, os mesmos que, faz um mês, votaram para escolher quem dirigirá a República nos próximos quatro anos. Mas, quando vamos à rua e perguntamos a razão do feriado, são pouquíssimos os que sabem; como este é um saber do cidadão, presume-se que é função da escola republicana refletir e ensinar sobre o tema. Claro que os pais dos alunos, por serem cidadãos devem estar aptos para ensinar, transmitir os valores cívicos da pátria. Pais e filhos passaram, de alguma forma, algum tempo em escolas onde tais valores lhes foram ensinados. Assim, surpreende que muitos não saibam o que é a República e a razão do 15 de novembro ser um feriado. Inclusive não está fácil conversar sobre assuntos dessa natureza, assuntos sobre momentos da história do Brasil, sobre o significado de ser brasileiro, de gostar de símbolos da nação. Coisa quase démodé isso de patriotismo, pois este é o tempo da sociedade global e o comum é a crítica a esses símbolos nacionais gestados no século XIX. Amar o Brasil tem ficado difícil, pois nos dizem que é um país corrupto, e que a bandeira verde e amarela não tem significado, que o certo parece ser o vermelho. Quase ensina-se que é melhor procurar outro país, seja para morar seja para procurar ser cada vez mais parecido com ele. Neste país de corrupto, de violência, um país de povo machista, racista, homofóbico, de tradição europeia, de povo sem educação, que não sabe votar, não, não vale a pena viver, é o que parecem nos dizer celebridades que fizeram e fazem fortuna iludindo a esse povo e que, daqui fogem por causa da violência para lugares onde não existem esses pecados, essas insuficiências do povo brasileiro. Tais insuficiências, estão bem explicadas pelos intelectuais que são ou que vivem em países onde tais insuficiências humanas não existem. Talvez existam, mas eles gostam de lá mesmo assim. Lá eles comemoram o 14 de Julho, o 04 de julho, o Dia da Vitória na Segunda Guerra Mundial (tem até país que celebra a bravura dos soldados brasileiros na Guerra, esses brasileiros que não respeitados aqui no Brasil – recentemente um jovem de 20 anos cuspiu no rosto de um expedicionário chamando-o de fascista). De uns tempos para hoje não parece ser “politicamente correto” assumir que ama o Brasil.

Amar o Brasil não é desamar os demais povos, mas não amar o Brasil onde você nasceu, cresce e se torna adulto, é desamar de parte da humanidade, exatamente aquela lhe é mais próxima. Não parece ser possível conhecer o mundo sem saber andar nas ruas do seu bairro, celebrar a vitória dos povos e não conseguir ver as lutas do seu povo. Quer conhecer o mundo, quer ser cidadão do mundo, conheça sua aldeia, seja cidadão da sua aldeia, parecia dizer quem pensou a palavra COSMOPOLITA. Sabemos pouco dos humanos, de sua história; nos apaixonas por esse ou aquele povo por que ouvimos as histórias deles contadas com orgulho, mesmo sabendo que foram sanguinários, que roubaram povos e nações, que mentiram, mas as suas vidas construíram o país que seus bisnetos vivem. Assim são os heróis deles, assim são os nossos. O que difere é que nós conhecemos os heróis deles e eles conhecem os seus heróis e nós, talvez não conheçamos os nossos heróis. Nossos professores também não. Sabemos pouco de Ana Nery, de Henrique Dias, de Joaquim do Amor Divino, de José Bonifácio, de Machado de Assis, de José do Patrocínio, de Pereira da Costa, de Cruz de Rebouças, de Osvaldo Cruz, de Joaquim Nabuco, de Antônio Vicente Maciel, de Bárbara de Alencar, de Aimberê, de Antônio Faustino, Manuel Balaio, de Marcílio Dias, de Maria Quitéria, Apolônio Sales, de Ulisses Pernambucano, de João Ubaldo, de Érico Veríssimo, e muitos outros.

Sabemos tão pouco de nós, e por preguiça, continuaremos a saber mais dos outros e continuaremos a ter vergonha da bravura que desconhecemos em nosso povo.

O fim de uma guerra em 1917

Quando paramos para comemorar cem anos do final da Primeira Guerra Mundial do século XX, notamos que pouco lembramos dessa guerra distante no tempo, mas que marcou o início do século XX, segundo famosos historiador britânico. Mais voltado para a América latina, o francês Olivier Campagnon entende que aquela guerra encaminhou o Brasil para definir sua identidade, mais voltada para os Estados Unidos, especialmente a Europa germânica e britânica. Aos poucos foi também afastando-se, culturalmente da França. A guerra que terminou a 11 de novembro de 1919 foi, segundo alguns continuada em silêncio durante algum tempo e, depois de 1939, ao som dos tanques e bombardeios aéreos sobre cidades inglesas, principalmente.

Para alcançar meu mestrado em história pesquisei como as lideranças da Arquidiocese de Olinda e Recife usaram as informações sobre a guerra de 1914, no jornal A Tribuna, para angariar a simpatia dos governantes e animar os católicos na direção do patriotismo. Verifiquei duas tendências entre os católicos de Olinda e Recife: uma delas, era verbalizada pelo Monsenhor Afonso Pequeno que entendia não ser do interesse do Brasil envolver-se em uma guerra que favoreceria aos Estados Unidos, recentemente entrado no conflito, após período de indecisão de Wilson. Era dos Estados Unidos de onde estavam vindo, em profusão, o protestantismo e o bicudo, “duas pragas”, dizia ele, que estavam arruinando a identidade brasileira e o algodão que era uma das forças da economia pernambucana naquele momento. Para o Monsenhor Afonso Pequeno o Brasil deveria permanecer neutro, seguindo a orientação do papa Bento XV. Outra tendência era a orientada pelo superior do Monsenhor, Dom Sebastião Leme, arcebispo que se esmerava na política de fortalecer as relações entre a Igreja e o Estado, pois entendia que o catolicismo era a argamassa que fez e une o Brasil, como escrevera em sua Carta de Saudação aos seus novos diocesanos, em 1916. As ele, durante o seu pastoreio em Olinda e Recife, fez presidente estadual da Comissão de Civismo e foi defensor do serviço militar obrigatório, auxiliando a cruzada do poeta Olavo Bilac. Dom Leme não seguia a orientação do Santo Padre, assim como fez o arcebispo de Paris que, em sermão na Notre Dame, disse que não poderia calar o seu sentimento de amor à pátria quando ela estava sendo agredida. O Brasil sentiu pouco essa agressão, tendo alguns navios mercantes, que se dirigiam à Europa, atacados por submarinos, o que favoreceu o intercâmbio comercial com os Estados Unidos, seu futuro principal parceiro comercial. Alguns soldados foram enviados, mas não travaram nenhum combate, tendo chegado à Europa no dia 10 de novembro. Mas as simpatias dos intelectuais foram sempre para os franceses, especialmente, sempre vistos como paladinos da civilização.

Após a declaração de guerra aos Países Centrais – Alemanha, Áustria, Hungria – ocorreram depredações de prédios com estabelecimentos comerciais de alemães, e também conventos que eram habitados por padres de origem alemã, sob a suspeita de estarem à serviço daquelas potências bárbaras que combatiam a civilização, ou seja, a França. Isso aconteceu em outras cidades, mas na região de imigração alemã, viu-se alguns milhares voluntariando-se para combater na defesa do Kaiser Guilherme II.

O término dessa guerra trouxe um surto de nacionalismo. Três depois vieram as festas comemorativas do Centenário da Independência, A Semana de Arte Moderna, e outros movimentos que buscavam uma identidade brasileira. Daí resultaram o Integralismo de Plínio Salgado, mas principalmente o fim da democracia nascida dom movimento de 1930, com a adoção do Estado Novo.

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SILVA, Severino Vicente da. Da Guerra à neocristandade – A Tribuna Religiosa, 1917-1919. Curitiba: Editora Prismas, 2015.