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Memórias do ITER e de um prédio

 Algumas memórias de um tempo quente

Severino Vicente da Silva

 

O que ocorre com agosto? A cada ano o mês parece trazer novidades para o que parece ser sua sina: tempo de acontecimentos e experiências pouco agradáveis à lembrança. Desde a fatídica Noite de São Bartolomeu, no século XVII, massacre físico de um grupo que intendia dominar a França e foi interceptado pela força astuciosa de Catarina de Médicis na defesa do trono francês para seus filhos, até o início de agosto de 1945, na explosão das bombas atômicas que puseram fim a uma época que insiste em permanecer: a época das modernas e permanentes verdades, sejam elas religiosas ou científicas. O mês que Augusto criou para sua exaltação como a realização da felicidade da Paz Romana vem se tornando a época dos desastres promovidos pelos aprendizes de feiticeiros, que desejam ser senhores da história. Mas esse peso que carrega agosto pode ser mais uma maneira religiosa de ler os acontecimentos, mas de tão repetida pelas gerações, talvez desde tempos imemoriais.

No mesmo dia, 25 de agosto, que recebi informação sobre missa que “celebra os 15 anos da páscoa definitiva de Dom Hélder Câmara” ocorreu o incêndio em prédio que pertence à Arquidiocese de Olinda e Recife, onde estava funcionando  o Pró-Criança, atividade da mesma arquidiocese, criada pelo arcebispo emérito Dom José Cardoso, sucessor de Dom Hélder.  O mês de agosto não pode ser descrito de maneira negativa na vida de Dom Hélder pois nele ocorreu a sua ordenação sacerdotal e, como disse a correspondência de Normandia, foi a sua Páscoa. Mas o prédio que sofreu incêndio neste 25 de agosto, como o Pavão Misterioso “tem muitas histórias prá contar”. As casas, os edifícios são carregados de história e de significados. Foram imaginados pelos homens, construídos intencionalmente para algumas atividades. E eles cumprem essa tarefa de maneira a cada tempo de sua existência. Vamos conversar um pouco sobre o que eu sei da história do prédio situado na Rua dos Coelhos, que durante algum tempo ficou conhecido como o prédio do ITER.

No início do século XX os comerciantes do Recife, especialmente os das Ruas Barão de São Borja e da Imperatriz sentiam-se pressionados pelo número de pedintes que “atrapalhavam” a sua atividade. A modernização trazia consigo o crescimento desordenado da cidade e um dos caminhos para socorrer os que não são incluídos positivamente, mas apenas enquanto forem saudáveis trabalhadores, é a caridade, entendida como adjutório. Nesse contexto surgem padres que procuram atender as demandas sociais e espirituais da sociedade, como o Padre Machado, o Padre Félix e o Padre José Venâncio de Melo. O padre Machado dedicou-se no serviço educacional dos jovens, especialmente os que viviam na área portuária. O padre Félix na organização de escolas de ensino secundário e médio. Já o padre Venâncio estava mais voltado à assistência dos que viviam em torno do Hospital Pedro II e da rodoviária que então estava na propriedade dos Coelhos. Era presidente Companhia de Caridade. Conseguiu terreno e construiu prédio inaugurado, em 1918, que servia de hospício aos que iam ao hospital ou estavam de passagem na capital. Também organizou uma cozinha que preparava almoço para os pobres, usando as esmolas conseguidas no comércio. Assim, quando um desses pobres chegavam no comércio em busca de dinheiro para alimentação, os comerciantes os mandavam para a casa do Padre Venâncio, esta que o fogo derrubou parte de suas estruturas no dia 25 de agosto deste 2014. Nos anos cinquenta a cidade cresceu e renovou-se em torno da Avenida Guararapes e da Avenida Conde da Boa Vista, a rodoviária é levada para a proximidade da Forte das Cinco Pontas, no bairro de São José e o Hospital Pedro II inicia o processo de declínio que levará aos encerramento de suas atividades. O bairro dos Coelhos é esquecido dos grandes acontecimentos sociais.

Entretanto o prédio passou a ter outras ocupações. Era um tempo de renovação da pastoral de igreja, de nova Ação Católica e o hospício, casa de refrigério para os viajantes passou a receber jovens da Juventude Operária Católica – JOC e dos outros ramos da Ação Católica. A casa do padre Venâncio já esquecera seu fundador, pois cada geração, parece querer ser a primeira. Duas décadas a casa acolheu jovens de todo o Brasil e, talvez devamos pesquisar para lembrar quais os Assistentes eclesiásticos da JAC, JEC. JUC que mantiveram encontros de oração e trabalho naquela casa. Mas então veio 1964 e o choque entre os jovens católicos e a hierarquia. Aos poucos o prédio foi esvaziando, mantendo-se vivo porque antigos jocistas e jucistas estabeleceram no térreo um Centro de Trabalho e Educação. O século XX assistiu e foi tempo de grandes transformações que tomam seu quase exato tamanho com o passar do tempo que engole as experiências como que para melhor entender o que esteve acontecendo. Faltamos uma reflexão do padre Sena, talvez um descrição daquele tempo, ou de Almery. Esses silêncios é que fazem os mais novos pensarem que estão a iniciar a história.

E foi em 1968, quando ocorreu um desquite entre a Juventude Católica e a Igreja Católica, que foi fundado o Instituto de Teologia do Recife – ITER, o quase ainda não estudado ano de 1968, nas dioceses e paróquias católicas. Inicialmente funcionando no primeiro andar da Universidade Católica de Pernambuco, no ano seguinte já na Faculdade de Filosofia do Recife – FAFIRE; em 1971 mudou para o Juvenato Dom Vital, na Rua do Giriquiti, mesmo prédio onde funcionavam a Chancelaria da Arquidiocese e o Secretariado da CNBB – NE, finalmente, em 1978 o ITER foi para o prédio construído pelo padre Venâncio. É quando comecei a ministrar aulas de História Geral da Igreja. Os jovens estudantes de filosofia e teologia passaram a ser parte da dinâmica do velho bairro. Um quase rejuvenescimento, com esses jovens chegando a cada manhã. A biblioteca ocupou o térreo, uma rica biblioteca que teve Eduardo Hoornaert como guardião quando o Seminário Regional do Nordeste esteve em Olinda e Camaragibe. Muitas tardes fiquei naquele espaço lendo e estudando para entender o percurso da Igreja Militante. O ITER foi local de muitas experiências e reflexões. Instituto de formação para de presbíteros e agentes pastorais leigos, Aos sábados o prédio continuava recebendo estudantes em um curso de teologia mais voltado para agentes pastorais que atuavam nas paróquias e não podiam assistir as aulas durante a semana. E havia mulheres consagradas ensinando teologia e teólogos cristãos não católicos ministrando e recebendo aulas. E vieram estudantes e professores do Rio Grande do Sul, dos estados do Nordeste e do Norte do Brasil, do Sudeste. E vieram da Alemanha, da Holanda, da França, dos Estados Unidos. E havia muitos debates. E muitas contradições. Recebemos pesquisadores da Europa e dos Estados Unidos. Foi de uma riqueza enorme para os que participaram do ITER. E, claro, os ventos que sopraram no imediato pós Vaticano II foram sendo dispersos no pontificado de João Paulo II, como a fazer cumprir a profecia de Paulo VI ao comparar as vagas da história com as ondas do mar.

Várias visitas apostólicas indicavam que o tempo da experiência estava sendo esgotado e, como disse um sábio jesuíta, voltava a “velha disciplina”. Na sala da Diretoria do ITER compreendi o que significa essa expressão em uma reunião com o Conselho Superior do Centro Nordestino de Pastoral – CENEPAL, para a escolha da diretoria do ITER após a aposentadoria de Dom Hélder Câmara, no comportamento de submissão ao novo Arcebispo e, foi graças ao apego à letra da lei que o padre Cláudio Sartori e eu fomos mantidos na direção do ITER.

Em 1989 veio a resposta a perguntas saídas das reuniões episcopais; eram perguntas que não seriam feitas, e não foram, em outros tempos. A resposta foi o encerramento das atividades do Instituto de Teologia do Recife que prestou grande serviço à Igreja formando 21 anos quase duzentos presbíteros para servir nas dioceses do Norte e Nordeste, além de fornecer pessoas qualificadas para as diversas pastorais e instituições da sociedade. Foram momentos difíceis, especialmente para os diretores naquele momento. Dói demasiado, para quem vive do magistério, fechar uma escola. Dói muito ter que controlar a dor de jovens insatisfeitos e desejosos de mudanças verem ruir seus sonhos, bater na parede do tempo, envelhecer em minutos sem compreender o que está ocorrendo. Ainda hoje carrego a dor de juntar professores e alunos para convencê-los que nada adiantaria lutar, fazer protestos, caminhadas. Roma havia falado, e a obediência era pedida. Como doeu aquela manhã, aquele vento frio que queimava as nossas entranhas. Foi um sofrimento que durou anos e ainda dói.

Depois foi arrumar o final do semestre enquanto as dioceses e congregações encontravam um meio de diminuir as perdas. No final do ano a celebração de despedida no auditório que havia sido reconstruído poucos meses antes. Vários bispos lamentando a resposta às suas perguntas à Santa Sé. Depois que todos falaram os alunos pediram que eu dissesse algo. Talvez fosse melhor não dizer o que todos ali sabiam. Eu vivi o ITER desde 1969, de aluno a Vice-diretor. Não esqueço as palavras que disse, mas não as repetirei aqui, como dizia Dom Hélder, fica como um segredo entre nós, nós os que estavam naquela última missa do ITER.

A biblioteca foi partida: uma parte para Seminário de João Pessoa e outra para o Seminário de Olinda. Não fui convidado a participar de nenhuma dessa nova etapa na formação de sacerdotes, por isso chego a ter remorso de não ter ficado com nada como espólio, só a saudade e a fé que independe do ordinário que esteja à frente da diocese, paróquia ou capela. Padre Diomar Lopes uma vez disse que ‘invejava’ a fé de sua mãe, pois ela o ensinara que Deus é maior que a Igreja. Assim também aprendi com minha mãe, com padre José Comblin, com padre René Guerre, Com Irmã Ivone Gebara, com Irmã Valéria Rezende, com o padre Eduardo Hoornaert, com padre Lourenço Mullemberg, com o irmão Michel Bergman, com o padre Yves Morpeaux, e muitos outros que dedicaram-se aos estudantes do ITER.

As chamas que neste mês de agosto de 2014 destruíram os objetos do Pró-Criança, programa criado por Dom José Cardoso que encontrou novos modos de dar continuidade ao uso do prédio criado pelo Padre Venâncio. Estive naquele prédio para atender vários organismo não governamentais que queriam saber como foi a história antes deles se organizarem. Hoje vi parte do prédio interditado pois uma parte dele deverá ser derrubada, exatamente o lado onde estava a biblioteca do ITER, no térreo e as salas de aulas nos andares superiores.

O ITER está presente no Acre, onde alguns de nós estão envolvidos na administração pública, na política e também na Igreja; o ITER está presente em Santarém, PA; o ITER está presente no episcopado nacional; está presente no CIMI; em várias dioceses na Bahia, em Sergipe, em Alagoas, na Paraíba, na Câmara dos Deputados, o ITER está presente em comunidades luteranas no Rio Grande do Sul e em muitas universidades e faculdades em cidades de porte médio e grande.  Como disse Dom Hélder uma vez quando de sua visita em 1983: iter é caminho.

Sobre o mundo virtual

Colocamos alguns números em um dos espaços que ocupamos na rede internacional e, esses dados são recebidos de maneira diferente pelos diversos atores sociais que frequentam o nosso espaço. Alguns curtem, outros leem sem deixar sinais de sua presença; tem aqueles que não curtem explicitamente mas compartilham com sua rede social. O que chama atenção é a existência dos que curtem e posicionam com risos. Na vida normal o riso vem sonoro e, se estamos face a face, o riso vem em movimentos do rosto. Esse conjunto é que nos informa se o riso  é de consentimento, de ironia, de contentamento, de reprovação, de maledicência, se é elogioso ou o riso envergonhado de dizer o que realmente pensa. Essa é apenas uma reflexão sobre a pobreza que pode ser a expressão nesse rico espaço de comunicação que é o mundo virtual. Se as comunicações humanas face a face podem iludir o receptor da mensagem, imagine o que existe de desencontros nesse universo virtual que frequentamos na perspectiva de que o que ali está escrito é a expressãoda verdade daquele que se pôs na conversa.

Em minha lista de amigos/conhecidos/virtuais já tive alguns que não admitem comentários em suas intervenções. Assim ocorreu no período eleitoral de 2012: era uma dessas pessoas que recebem para fazer campanha de um candidato enxovalhando o adversário. Uma vez fiz um comentário a esse respeito, essa pessoa respondeu com “KKKKKK” e desapareceu do meu universo virtual por sua própria iniciativa. Mas creio que continuo encontrando com ela no mundo real.

Ainda, nesse espaço conhecido como facebook – o livro dos rostos – há um número grande daqueles que se inscrevem sem que seu rosto seja posto. Mas, se ele for uma “miragem” que diferença faz um rosto cuja personalidade quer se manter oculta?

Mas chama atenção mais ainda os que se surpreendem com tabelas e números, inclusive aquelas que são acompanhadas das fontes originárias. Parece que esses números discordam tanto de suas crenças que eles ficam abismados, acham estranhos tais números, etc. Nesses dias em que a ciência – matemática, engenharia, filosofia – uniu-se para criar novas expressões da verdade, os que mais duvidam dos seus resultados são os cientistas ligados à Ciências Humanas. Como elas têm sido encaminhadas para assumirem papéis de doutrinas com dogmas claramente definidos por setores da ortodoxia, alguns desses cientistas, enredados com o poder ou com os atuais ‘donos do poder’ ficam se esforçando em colocar a realidade em suas doutrinas, pois não podem recusar o que lhes foi dito nas catequeses formadoras de catequistas.

Esse universo virtual, é quase real.

Domingos Sávio e a Cehila-Popular

Hoje, aos dezenove de agosto, leio email no qual Eduardo Hoornaert faz-me a comunicação do falecimento de frei Domingos Sávio, ou simplesmente Mingo, como o chamávamos em nossas reuniões e nos momentos de intimidade, comuns em amizades fraternas de cristãos que trabalham juntos em alguma tarefa. Embora datado do dia 15, o bilhete de Eduardo não menciona o dia do falecimento, mas deu-me a impressão que já fazia alguns dias, pois ele supunha que eu já houvesse recebido a informação.

Domingos Sávio era um dessas figuras abençoadas pela graça de colocar em desenho e tintas os seus sonhos e também captar o que era desejo dos seus amigos. Quando eu o conheci ele fazia atividade missionária no alto da Bondade, em Olinda. Era um irmão franciscano, e embora estivesse tomando aulas de teologia do ITER, não carregou o desejo do presbiterato.  A sua presença foi marcante em várias reuniões das Comunidades Eclesiais de Base, ali ele exercia o seu múnus ao resumir, pictoriamente, o que captava dos relatos e das propostas dos grupos. Foi assim no Canidé, em São Paulo e na cidade do México. Juntamente com a salesiana Irmã Adélia, Sávio formava o núcleo de artistas dos traços e das cores nas reuniões e trabalhos da Cehila-Popular, uma parte criada aqui no Nordeste pela criatividade de Eduardo Hoornaert, e reunia frei Hugo Fragoso, padre Paulo Tonnuci (já falecido), Cândido silva, e também eu. Eduardo vivia em Fortaleza, CE; Hugo Fragoso morava em Salvador, BA; Paulo Tannucci era vigário de Camaçari, BA, Cândido em Salvador, BA; Adélia, Domingos e eu morávamos entre Recife e Olinda.

A Comissão de Estudos de História da Igreja na América Latina deveria ser uma instituição ligada ao CELAM com o objetivo de pensar e fazer uma história a partir do povo e não da instituição; projeto belo que envolveu todo o continente e todas as vertentes cristãs. Foi criada em Quito, fora dos controles  eclesiásticos. De fora das academias, começamos a contar a história a partir do povo, sob a inspiração do Documento de Medellin.  Era um grupo pequeno com o desejo do mundo, sem as seguranças e entraves acadêmicos. Garantindo o rigor científico, os espaços foram sendo conquistados. A História da Igreja passava a ter novos protagonistas e novos enfoques nos anos setenta. Então veio a necessidade de popularizar essa história, colocá-la no lugar de onde ela veio e com a linguagem comum.

A Cehila–Popular reuniu violeiros, improvisadores das margens do Rio São Francisco (Porto da Folha, Penedo) que se encontraram com seus colegas do Ceará, Paraíba, Pernambuco para estudar histórias da história do Brasil e colocá-las em versos para animar as comunidades. E Domingos Sávio nessas reuniões, escutando, sonhando e pondo tintas nos versos, nos folhetos e nas capas dos livros da Cehila-Popular. Uma dos trabalhos mais interessantes foi as gravuras e os mapas desenhados para a Coleção Homens e Mulheres do Nordeste, que foi publicada pela Edições Paulinas, uma coleção que Eduardo Hoornaert e eu coordenamos. Todos os autores cederam seus direitos autorais e a encadernação foi simples para que os exemplares fossem vendidos ao preço de, no máximo C$5.00 (cinco cruzeiros). Padre Cícero, Beata Mocinha, Joaquim Nabuco, Bárbara de Alencar, Zumbi dos Palmares, Beato Lourenço, Ulisses Pernambucano, Padre Ibiapina, foram alguns dos biografados. Domingos Sávio participou de quase todos, mais especialmente doe Zumbi dos Palmares, que escrevi para celebrar o centenário da Abolição.

Aquelas duas décadas, de 1970 a 1990) sob a ditadura militar e inspirados pelo martírio dos povos latinos, foram anos de criatividade porque cheios de esperança na luta contra os ídolos. Esses pensamentos me chegaram com a notícia de que Domingos Sávio está na casa do Pai.

 

ps.  recebi este email de Eduardo Hoornaert que corrigiu-me acerca do local de criação da Cehila: foi em Quito em não em Sucre, como escrevi e fui corrido e corrigi o texto. Mais uma vez, agradeço ao meu professor.

Eduardo Campos e dois livros de história do Brasil

 

O tempo de agosto continua nublado, informando o término do tempo das chuvas. As nuvens não físicas continuam se movimentando, pois tudo é movimento. Em frente ao Palácio das Princesas, aqui no Recife, pessoas acorrem para despedir-se de Eduardo Campos e dizer à Renata Campos e à sua família que o alpendre dessa família é mais largo que todos imaginavam.

Eduardo Campos governou Pernambuco e foi amado e odiado por sua maneira de governar. Introduziu novos hábitos na política pernambucana e, como é culturalmente natural, usou alguns métodos infelizmente ainda não ultrapassados, mas ultrapassáveis. Ele parecia caminhar na direção da ultrapassagem das práticas populistas e messiânicas, mas esta não é uma caminhada individual de um político, é de toda sociedade, são os sócios que garantem a mudança que eles indicam. Existem aqueles que querem manter vantagens, para esses  é mais fácil esconder-se em discursos aparentemente comprometidos com as mudanças, por isso Eduardo tem seu grupo de opositores/inimigos, esses de cujas práticas e domínios ele teve que afastar-se para não desistir do Brasil. Diferentemente de alguns populistas, Eduardo não pretendeu confundir o Brasil com expressões do tipo: “nós e eles”, “nós ou eles”, querendo dizer que só é brasileiro que pensa com o populista. Esses populistas não desistiram de se apoderar do Brasil e para isso já ameaçam lembrando que os que não concordam como eles  “não sabem o que agente é capaz de fazer para garantir….”, até disseram que podem “fazer o diabo”.

Enquanto ocorre o funeral de Eduardo Campos, termino de ler a dissertação de mestrado de Paulo Henrique Fontes Cadena , recentemente publicado pela Editora Universitária da UFPE sob o título Ou há de de ser Cavalcanti ou há de ser Cavalgado: trajetórias políticas dos Cavalcanti de Albuquerque (Pernambuco, 1801 – 1844). Trata exatamente de acompanhar o percurso de três irmãos que dominaram a Província, administrando  suas relações mais em proveito de si e dos grupos políticos imediatamente ligados que  visando o benefício da Província. Caso típico de privatização dos interesses públicos, prática que tem sido seguida por várias outras famílias e grupos que chegaram ao poder, sempre criando obstáculos para um efetivo estabelecimento da democracia nesta terra “descoberta por Cabral”, mas explorada por seus inimigos internos e externos. Talvez mais pelos internos.

Recebi, também, exemplar do livro Entre Vaqueiros e Fidalgos: sociedade, política e educação no Piauí (1820 -1830), resultado da tese doutoral de Marcelo de Souza Neto, tese defendida na UFPE, em banca da qual fiz parte,  e publicada pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves. Ao ler essa biografia histórica do padre Marcos de Araújo Costa temos a possibilidade de entender as disputas que ocorreram nos espaços internos do Brasil enquanto a sociedade piauiense se organizava tendo como um dos vetores a ação sacerdotal de um padre vocacionado para o magistério, cônscio da responsabilidade de seu clã na formação de um ideário próprio dentro na nação que se estava a construir. E educação necessária para a formação de uma elite que não sucumbisse aos interesses de seus vizinhos poderosos.

Enquanto escrevo, vejo duas faces de Pernambuco iluminadas pela morte e velório do ex-governador Eduardo Campos: de um lado o reconhecimento popular a um político que agregando muitos adversários, conseguiu administrar  o Estado de forma a coloca-lo de novo no cenário nacional. Na segunda metade do século XX dois políticos visaram à presidência da República: Etelvino Lins Cavalcanti, quando era presidente nacional do PSD, e Miguel Arraes de Alencar, quando governador de Pernambuco pela primeira vez. Eram postulações políticas baseadas no “passado de glórias; neste início do século XXI Eduardo Campos apresentou-se como opção política para dirigir a nação e o estado brasileiro, lastreado principalmente em argumentos técnicos e administrativos e também políticos. A repercussão de sua morte realça as possibilidades de sua vida.  Agora que ele está morto, cabe à sociedade pernambucana e brasileira investir na possibilidade de superar as práticas antigas ou continuar no populismo garantidor da refeição seguinte e do passado. A outra face vem da inexistência de uma cobertura do fato pelo jornalismo televisivo local: não temos autonomia para tal, nossa economia deteriorou-se tanto nos últimos cem anos que aqueles que decidem o que vemos e assistimos estão em outros estados da Federação. Eduardo Campos dizia que Pernambuco  pode ser um centro de decisões, disse não às promessas vazias que lhe acenavam com um futuro ‘desde que, prostrando-te, me adores.”  Vai ver que foi por perceber que ele não se curvou ao falso messias, que o povo acorreu para tocar em seu caixão. É pena que não seja apenas o povo que lá esteja.

 

 

Os Pais

Agosto segue seu caminho no tempo. Aos poucos a sociedade vai animando-se com a perspectiva das eleições gerais. O Brasil continua sendo apresentado semanalmente a novos escândalos político financeiros envolvendo setores governamentais e, como de praxe ouvimos negativas do governante do momento. A grande certeza é que a vergonha de certas pessoas pode ser explicada como um velho índio ensinava ser a consciência. Na sua explicação ele dizia que a consciência era como um círculo com um triângulo dentro; cada vez que uma ação fora dos padrões éticos era realizada, um dos vértices tocava a circunferência e provocava uma dor, mas com o tempo, o uso constante deste triângulo de advertência, leva à perda dos vértices e eles tornam-se ovais e, já não mais incomodam. Começo a ver alguns amigos ou conhecidos – já não mais serem incomodados pelos escândalos realizados por seus colegas partidários: admitem os furtos, as mentiras, as dissimulações como naturais. Arredondam-se moralmente a cada semana. O que os irrita é que ainda existam pessoas que não compreendem “que o mundo é assim mesmo”, que “sempre foi assim!”. E dizem essa tautologia conservadoras em nome de revoluções que dizem estar a preparar. Mas preparam-se para que a revolução nunca venha. Eles são semelhantes a Mulher de Lot: sempre olhando saudosos para o passado, não conseguem enxergar o futuro, não confiam, não amam. São prisioneiros do futuro do pretérito.

Tempo dos ventos, agosto não consegue soprar para distante os comportamentos e conceitos que arruínam a convivência humana e política. O Saci sai fazendo travessuras e distribuindo carapuças. Elas parecem ser invisíveis, para os que as têm na cabeça elas são: afinal ninguém quem consegue ver o que está em sua cabeça ou cara.

Agosto é também o mês dos padres, os padres espirituais e os padres carnais. No mundo católico romano, alguns homens sacrificam seu desejo de paternidade física para dedicar-se a ter filhos espirituais, tornam-se presbíteros, sacerdotes do altar. Creio ser necessária muita humildade para assumir tal função na sociedade e cumpri-la fiel e santamente. Os padres carnais devem ser, também, padres espirituais na condução da vida dos filhos que desejaram ter.  Lamentável que muitos tornaram-se pais sem o desejarem, sem preparem-se para tal missão divina: cuidar da formação de um ser, auxiliar um animal desenvolver suas potencialidades para se tornar um humano, um ser atento à vida e sua construção. Pais cuidam da materialidade necessária para desabrochar do espírito, do caráter do filho que ele buscou com a sua companheira. A paternidade é a divina expressão da humanidade. Muito do que sofremos ao longo da construção da humanidade é que ainda não aprendemos a ser pais. Abraão tornou-se pai de muitos quando rompeu com os valores e crenças nas quais foi criado ao não sacrificar seu filho Isaac  aos deuses que se alimentam do sangue e da vaidade que zomba da vida verdadeira. Abraão tornou-se pai de todos quando optou pela manutenção da vida. Sofremos, pois ainda não temos, porque nós não cultivamos a bondade, a misericórdia, a fidelidade de Abraão à vida. Neste dia dos pais, veio-me certo pensamento em torno das últimas palavras ditas por Jesus pouco antes de sua morte. Quando se sente quase desiludido ele clama, “Meu Deus, porque me abandonastes?”; depois, dominado pela compaixão diz: “Pai, perdoai-lhes porque eles não sabem o que fazem” e, finalmente, o último suspiro não é para Deus, ele diz: “Pai, eu tuas mãos entrego o meu espírito”. Esse grande paradoxo: sente-se abandonado pelo Deus que lhe pede o sacrifício da vida e, livremente, é ao Pai que se entrega confiante.

Que belo é ser filho e ser pai!

Cultura brasileira – mês de agosto

Começa o tempo das tradições mais incríveis: o mês de agosto.

Este mês desde o Estado Novo tem sido apontado para que nos dediquemos a pensar sobre a nossa cultura. Aquele foi um período, não era o primeiro nem foi o último, de busca de definir a identidade brasileira. Na verdade o período já começara antes mesmo da Semana de Arte Moderna que recusava a ideia de termos consideração apenas com a tradição europeia. Havia que se buscar os mamelucos, personagens marcantes no início da dominação portuguesa nessas terras à oeste da Europa e da África. Enquanto alguns intelectuais faziam pesquisas para condensar em livros as “histórias ou estórias que o povo conta” e outros buscavam definir cientificamente razões possíveis de nosso “atraso cultural” e atraso científico, o povo comum, aquele que é chamado de besta ou foi bestializado, criava jeitos de mostrar a si mesmo o que ele era e o que se construía, usando as tradições comuns. Foram construindo sambas, frevos, maracatus, maxixes, rancheiras, quadrilhas, xotes, baiões, empinações de papagaios ou pipas, garrafões, jogo de pega, pega bandeira, “escolas de samba”, clubes de máscaras e tantas coisas compiladas por outros Jovens como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Câmara Cascudo, Ascenso Ferreira, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Mário Filho, Mário Melo, Érico Verísimo, Hermílo Borba Filho, Ariano Suassuna, e tantos outros. Assim é que estamos sempre a nos construir e nos conhecer.

 

Ultimamente, como reação a tradições autoritárias e elitistas da definição de cultura herdada Europa do século XX, utilizando algumas ferramentas intelectuais que também herdamos da Europa do século XX, agora já definitivamente  influenciada pela experiência colonial e sua reflexão feita por ex-colonos, temos tido a tentação de querer negar o mestiço cultural que somos, com alguns querendo equilibrar-se em populismos de origens e raízes. Mas raízes crescem em solos diversos e se alimentam das riquezas múltiplas existentes nos diferentes solos. O mês da cultura brasileira é a oportunidade de refletir sobre essa cultura que nos faz ser o que somos, diferentes de todos os outros. Estamos enraizados no Brasil.

 

Em Olinda, faz seis anos que o mês de agosto inicia com desfiles dos maracatus de baque virado existentes na cidade, pois a Assembleia Legislativa definiu o primeiro de agosto como Dia do Maracatu, homenageando Luiz de França, que durante anos carregou e manteve o Maracatu Leão Coroado, que este ano, reza a tradição, completa 150 anos. Olinda tem mostrado outros aspectos da criação cultural brasileira, foi lá que, durante a ditadura militar os artistas plásticos encontraram espaço para a montagem de seus ateliers e rejuvenesceram as artes plásticas pernambucanas e também alguns caminhos do teatro. Essa convivência permanente com a arte que nos é propiciada pelas igrejas, casarios e espaços em Olinda durante todo o ano nos lembra que a cultura é de todos.

 

Desertos

A madrugada é sempre momento de surpresa. Nela podemos tocar o corpo de quem amamos sem que o toquemos no seu todo. A mão corre suave no corpo, mas nossa alma que que toca no seu corpo não tem a certeza de que encontra a alma que procura. No descanso, a alma que amamos não sabe que a procuramos.  Na madrugada as outras almas povoam a nossa e elas nem sabem. a memória tem espaço na madrugada.

Sempre soube que um amigo acordava na madrugada, rezava, meditava, escrevia. Lembro dele nas minhas madrugadas e lembro que nos amamos muito e o trago em diversas imagens, nem sempre festivas, mas parte de nossas vidas. Mas eu tenho as minhas lembranças, não as que ele organizou. Quando o encontro nas madrugadas eu encontro o que dele sei, não que ele foi. Só sei o que ele foi para mim, às vezes decepção outras a completude que eu sempre busquei e busco. Na madrugada vejo que ele andava em busca da perfeição, como eu.  Mas cada um tem sua perfeição.

Quando mais jovem li Kalil Gibran. Foi meu primeiro contato sério com a tradição árabe, uma cultura de deserto, uma fertilidade diferente. Sempre fomos marcados pelo deserto. Minha cultura, minhas culturas, começa no deserto distante de Abrão e Abraão. Sou filho de Agá e de Sara. Talvez mais Agá, embora a foto da Primeira comunhão ligue-me mais a Sara. Meu filho mais novo chamei Isaac, o que demostra essa relação.

Kalil Gibran é, para mim o profeta que me ensinou a lição de ser pai quando eu era apenas um filho que saia da casa de meu pai. “vossos filhos não são vossos filhos, são a ânsia da vida por si mesma”. Foi assim que aprendi a viver no deserto.

Meu amigo dizia que o Deserto é Fértil. A vida pública começa no deserto. Melhor  dizendo, ele antecede a vida pública e, nesta, os desertos são refúgios para manter a clareza. Só no deserto João pregou, pois só no deserto os ouvidos da alma podem ser atingidos. Entretanto nem todos os ouvidos e olhos podem perceber e conversar com serpentes e carneiros, pois desertos abrem as possibilidades dos impérios. Os desertos são possibilidades. Nas madrugadas refletimos sobre as possibilidades que somos e as que não fomos; nelas observamos os amigos que tivemos, os que deixamos para traz, os que nos deixaram. Nas madrugadas temos a possibilidade de nos vermos, de nos tocarmos.

João Ubaldo e Astrogilda Andrade – dois modelos

Há dias em que a vida toma iniciativas de nos surpreender, impor a sua a sua força, deixando-nos claro que há um limite em nossa vida, indicando que as oportunidades oferecidas no tempo não podem ser desperdiçadas. Em nosso tempo temos a possibilidade de aprender com muita gente, essa gente que encontramos a cada dia. Na maior parte das vezes nem notamos a importância que as pessoas dão à nossa vida por nos deixarem ficar algum tempo ao seu lado.

Hoje soube da morte de duas pessoas que as fiz amigas, que escolhi para modelo a ser seguido. Interessante é que convivi pouco com elas, jamais vi de perto uma delas, ela jamais soube de minha existência embora sempre a apresentasse a muitos. Na verdade, eu o tinha para encontrar outros amigos. Ele tornava-se motivo de conversas e aprofundamento das novas amizades. Para alguns ele era o entusiasta pelo Sargento Getúlio, personagem que povoou muitas noites regadas cervejas. Mas João Ubaldo Ribeiro tem seu lugar em meu coração e mente pela bela história da Alma Brasileira em Viva o Povo Brasileiro, um romance belo e apaixonante do qual comprei muitos exemplares para presentear amigos que desejavam entender o Brasil, as contradições de suas paixões e seu imensurável amor pela vida. João Ubaldo também auxiliou-me a suspender o hábito de fumar com as suas reflexões nas caminhadas que relatava nas páginas dos jornais. Vou continuar conversando com ele relendo essa obra prima que deveria ser leitura nos anos de formação. Ótimo livro de história.

A outra pessoa quem soube a morte hoje, eu conheci quando tinha 19 anos. Foi em sala de aula, no Instituto de Teologia do Recife, ITER, quando ele estava no seu segundo ano e havia sido transferido da UNICAP para a FAFIRE. O ITER foi uma experiência de formação de padres em contato direto com a população, diferente do que era feito desde as determinações do Concílio de Trento em meados do século XVI. Nesse experimento de educação, aos alunos, seminaristas e não seminaristas, estando eu nesta última situação, podíamos escolher algumas disciplinas para formar o currículo. Umas das mais concorrida naquele ano foi a oferecida por uma professora irrequieta disposta a ensinar a ler e interpretar textos com a rapidez que o mundo que se criava exigia. Era Astrogilda Carvalho Paes de Andrade. O dinamismo dela era impressionante, sua juventude e alegria de viver entusiasmavam os estudantes. Na verdade quase todos os alunos estiveram naquela sala enorme para ouvir suas orientações e sorrir com o seu humor. Auxiliando-a estava outra pessoa maravilhosa, Jomard Muniz. Eles me ensinaram a ler, mais uma vez. Depois passei muito tempo sem saber daquela professora. Vim encontra-la nos últimos semestre da minha licenciatura em História, nas aulas de Didática e Técnica de Ensino.

Quero expressar minha profunda dívida para com a professora Astrogilda que tanto influiu em minha preocupação nas salas de aula. O pouco que sei dela é o sentimento que ela tinha pelo Povo Brasileiro.

Seu Crispim

 

Seu Crispim.

Para os netos que ele não conheceu

Os dias começam de modo semelhante: quando não está a chover os galos dos vizinhos anunciam que o sol já pode brilhar sobre a terra, logo em seguida alguns pássaros começam a chilrear. Em dias chuvosos o silêncio pode nos manter debaixo do cobertor por mais tempo. Mas se esse é o ritmo que a natureza parece querer repetir, ele tem o adicional da preguiça humana, ou esse lado animal da humanidade que se recusa a aceitar as obrigações culturais criadas de forma a garantir a sobrevivência pessoal e coletiva. Temos que nos levantar para trabalhar, não tanto pelo alimento imediato, mas pelo futuro que nosso cérebro concebe. E o mundo cultural, esse no qual nasci, herdou uma ideia de que devemos manter, ao menos, o rosto o rosto livre dos pelos. Claro que há, em ambientes que frequento, aqueles que cultivam a plena depilação, que deixa o corpo aparentemente com a juventude de um recém-nascido. E é no cumprimento desta pequena exigência da higiene diária que algumas pessoas que passaram em minha vida, no tempo de minha segunda formação, chegam à memória.

Uma dessas lembranças é Edwaldo  Gomes, vigário colado da paróquia de Casa Forte, no Recife. Eu o conheci aos dez anos de idade quando entrei no Seminário Menor da Várzea e ele era o Vice-Reitor, do reitorado do padre Zeferino Rocha. Uma vez presenciei uma conversa dele com um colega mais adiantado na idade que queria manter a barba e o padre Edwaldo o proibia, de modo simpático, dizendo que “os padres teriam um acordo com a gilete, por isso eles não usavam barba”. E realmente, nenhum dos padres que eu conhecia usava barba, exceto os capuchinhos, e por isso eram conhecidos como “barbudinhos”. Mas quando faço a barba a primeira e constante lembrança é de “seu” Crispim. Nos primeiros movimentos para trazer a espuma ao rosto, é Seu Crispim que eu vejo de várias maneiras.

Seu Crispim era o barbeiro que alugou um espaço, ao lado da mercearia de papai, em Nova Descoberta e, atendia a muitas pessoas, homens, jovens e crianças na sua barbearia. Ele sempre estava ocupado, tinha boa freguesia. Além de cortar seus poucos cabelos, papai sempre fazia a barba com seu Crispim. Sobre a mesa do barbeiro, à direita e sob o espelho, havia uma pequena taça com água e, nela, um caroço de macaíba. A macaíba é uma palmeira que dá um coco pequeno e redondo, hoje quase em extinção. O caroço da macaíba era usado para fazer a barba daqueles homens já envelhecidos e desdentados, para diminuir os sulcos, rugas da bochecha e facilitar o trabalho de seu Crispim.

Em 1957 tive meu fêmur quebrado em uma partida de futebol, que jogávamos, meu irmão Doutô, Burú, Tão e eu, em um terreno ensombrado por um pé de Barriguda, que fornece um tipo de algodão, outra árvore quase em extinção nos dias de hoje. Minha irmã Lia estava em um dos seus galhos, escorregou e caiu sobre mim, o que ocasionou todas as dores que sentimos após a sua queda. Mas essa é outra história, história anterior à “Lei da Palmada”.

Atletas daquele jogo: Burú era um vizinho que a vida nos separou e essa é a lembrança mais viva que tenho dele, formava dupla com meu irmão Doutô. Tão, com quem eu fazia a dupla, era Sebastião Tavares, que veio a casar com minha irmã Zefinha, era filho de Seu Crispim. A fratura de meu fêmur marcou parte de minha infância, pois fui levado ao Hospital Infantil Maria Lucinda, onde permaneci internado durante alguns dias. Saí de lá com gesso que protegia toda a perna e envolvia até o abdômen. Durante dois meses minha vida social ficou sendo acompanhar o movimento da mercearia de meu pai e a barbearia de Seu Crispim. Então foi que aprendi a jogar Damas, pois Seu Crispim mantinha um tabuleiro para seus fregueses ocuparem-se enquanto esperavam a vez de cortar o cabelo ou fazer a barba. Nesse período fui acometido pela “febre asiática” da qual escapei com doses diárias de penicilina. Seu Crispim, homem que me parecia brusco, sempre estava preocupado com o minha saúde, acompanhava meu pai na tarefa de aplicar-me injeção. As  conversas na barbearia giravam em torno da vida comum, do desempenho dos times de futebol. Seu Crispim era torcedor do Esporte Clube e meu primo, Manuel Lopes do Santa Cruz Futebol Clube. E eu acompanhava as discursões e me aperfeiçoava na arte de jogar Damas. Desse período veio o meu gostar do Tricolor do Arruda que erguia o Tri-Supercampeonato e, no ano seguinte, acompanhar a seleção Brasileira de Futebol, a seleção de Didi, Djalma, Vavá, Pelé, Garrincha.

Depois, não lembro quando seu Crispim morreu. Deve ter sido no tempo em que eu vivi no Seminário da Várzea. Anos depois, como passo de minha autonomia, aluguei o quarto da barbearia para ser o meu quarto de estudos. Hoje, lembro que só uma vez paguei para alguém tirar minha barba. Mas todas as manhãs eu lembro de Seu Crispim., que reclamava das caretas que fazia olhando o espelho enquanto ele cortava o meu cabelo.

Nova Vida,Valores que devem continuar

Primeira semana de junho, não consegui  que as operadoras de telefonia me pusessem em contato com as minhas irmãs aniversariantes, Lia e Teca, que nasceram no mesmo dia, mas separadas em anos. Lia deixou de comemorar seu aniversário desde  a morte de João XXIII, ocorrida no dia 4 de junho.  Agora creio que ela deve retornar a fazer alguma festa, pois o papa de nossa juventude agora pode ser louvado publicamente como Santo da Igreja Católica Apostólica  Romana.  Teca está exuberante de felicidade, pois agora tem um neto, João Miguel, filho de Cristiano e Andréa, que logo será batizado na fé cristã, para a Glória de Deus.

Esta semana a minha mãe, dona Maria Ferreira, receberá uma homenagem na igreja Matriz da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Nova Descoberta, a mesma matriz que ela ajudou a construir e fundar como paróquia no distante ano de 1959. Homenagem justa de seus irmãos de fé, muitos que viveram com ela a vida paroquial e alguns que só a conheceram nos últimos dias de suja vida na terra. Ela e meu pai, João Vicente, ensinaram-me a ser irmão de todos, de respeitar e amar as diferenças. Jamais discriminar por ser pobre, feio, rico, preto, branco, amarelo: todos somos filhos do mesmo pai.   Ensinaram-me a respeitar os mais velhos, ainda que julguemos que eles estejam errados; se eles nos indiquem que devemos seguir os caminhos  que nos afastem de Deus, não os seguimos, mas os respeitemos. Graças à minha mãe, que é a avó dos meus filhos e sobrinhos, sei que não podemos rejeitar alguém por ser branco, ou preto. E não foi necessária nenhuma lei além do segundo mandamento que está na Bíblia, a mesma que eu leio, a que é lida nos Encontro de Casais com Cristo, nos acampamentos de jovens cristãos, sejam eles promovidos por paróquias pobres ou por colégios ricos. O livro de Tobias nos ensina a cuidar dos mortos, e a respeitar os mais velhos. Foi por respeito ao seu velho pai Isaac que Esaú não se levantou contras seu irmão Jacó por ele ter se apropriado da benção que seria sua. Respeitar os mais velhos, defende-los contra a agressão de jovens irresolutos,  às vezes parentes que se deixaram guiar pelos não-valores, anteriores ao que chamamos de civilização. Pois aquele ou aquela que não respeita ou ataca  o outro por ser de estrutura débil, ter a pele diferente ou não pertencer ao seu grupo social é alguém que ainda está no mais inferior patamar da civilização.  Minha mãe, avó dos meus filhos e sobrinhos, é um exemplar humano que estava muito próximo do que chamamos santidade.

Sempre que nasce alguém na família, é bom lembrarmos dos valores que nossos antepassados nos legaram, a marca da família que quiseram construir e, então assumirmos,  mais  uma vez, o compromisso de fazer este mundo menos mesquinho, que a nossa mesa seja sempre como a mesa de Vovô João e Vovó Maria, sempre com espaço para quem nos encontra.