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Sobre a vida quando sabemos da morte de um quase amigo

Quando a notícia da morte de alguém nos chega, sem desejo objetivo, começa um processo de avaliação que nos faz verificar qual a importância daquela vida que acabou de acabar em nossa vida. É como se perguntássemos: qual o nível de aproximação que tivemos? O quanto vivemos juntos? O quanto estivemos perto e se fomos aproximados. A morte nos revela a vida que tivemos juntos ou que vivemos juntos. Às vezes nossos passos estiveram muito próximos, quase vivemos na mesma casa, mas um muro parecia sempre presente e, apesar das palavras trocadas, de parecer estarmos juntos, uma vez que caminhávamos na mesma vereda, uma imensa distância aparecia em cada sorriso. A notícia da morte expõe que, apesar de termos estado tão próximos, e termos até colaborado em algumas empreitadas, nunca fomos amigos. Então vem a enxurrada de palavras que quase sempre a morte traz, na maioria das vezes, confirmando a morte, não afirmando a vida.

E nada disso retira o valor dessa vida que passeou ao nosso lado durante algum tempo, mas que não permeou, não penetrou nossa alma. Assim, sabemos muito dessa vida, dessa pessoa que foi amada por muitos, teve nosso respeito, mas não nos cultivamos amorosamente. Nos olhávamos de modo distante, não obstante estarmos nas mesmas salas e termos em comuns alguns sonhos e muitos conhecidos, até mesmo amigos. Mas nunca trocamos confidências, nunca nos confiamos um ao outro. E, pensamos, como seria bom termos nos permitidos a aproximação, termo ultrapassado o limite da admiração! Interessante, que tivemos alguns amigos comuns que nos adivinhavam a proximidade física e a distância espiritual.

A notícia da morte escancara, no silêncio de nossa alma, a vida que não aconteceu e é essa a vida que dói. Assim, nos sentimos como querendo viver o que não foi vivido, pois ela teria sido possível, não estivéssemos tão ocupados na tarefa de melhorar o mundo. E não nos vimos por estarmos tão próximos! Mas como melhorar o mundo sem nos melhorarmos? E a morte que parecia não incomodar, aos poucos vai se tornando a vida enquanto nossos olhos enxergam os momentos e que aquele que não conseguimos fazer nosso amigo, aparece em momentos cruciais; e lembramos de seus sofrimentos suportados em silêncio enquanto sabia que nós sabíamos do que ocorria no seu íntimo, e das encruzilhadas que se meteu e de onde saiu, machucado, mas pronto para continuar a vida. E o temor de ferir não nos deixou aproximar, e apenas admiramos de longe, e nos justificando de ele não precisava que nos aproximássemos, negamos a ele e a nós mesmos alguns dos momentos mais bonitos que poderiam ter existido.

A notícia da morte nos faz encontrar o amigo que tínhamos e não notávamos.

ps. em memória de Dom Marcelo Pinto Carvalheira

Historiadores

Este mês de março já trouxe suas águas, e esperamos mais nos próximos dias. A desejamos mais para dentro do Estado, entretanto a geografia nem sempre colabora com nossos desejos. A história é feita dos desejos do homens e mulheres, mas não necessariamente dos nossos desejos pessoais. É bastante difícil aceitar essa constatação, pois ela nos impõe a humildade necessária para começar a compreender os homens e mulheres no percurso. Temos ânsias de dizer aos nossos antepassados o caminho que deveriam ter trilhado, e não resistimos de dizer como vai ser o futuro, aquele que julgamos ser o melhor para o mundo, porque nos parece ser o melhor para nós, para o nosso partido, etc. Muitos jovens assim pensam e colocam a história a serviço, não da humanidade, mas do seu grupo. Rapidamente são chamados de historiadores, e se cuida de guardar e reservar o mercado. Tem uma profissão: Historiador.

É neste mês de março teremos a criação dessa profissão e, apenas aqueles que conseguem o título em alguma academia podem exercer. É o mesmo com os jornalistas: só eles podem escrever em jornais, sobre qualquer assunto, e vivem em busca de especialistas para lhes informar o que devem escrever e, não poucas vezes ouvem uma coisa e escrevem outra. Os advogados criaram e sacramentalizaram a ideia de que apenas eles podem representar um cidadão nos tribunais, e, não pode ser uma ação gratuita e generosa, pois o Estado lhe pagam no início de suas carreiras. Os historiadores deverão criar um departamento semelhante à “defensoria pública” que dá assistência gratuita mas, pela qual o governo paga ao advogado.

Durante muito tempo não me sentia bem em dizer que era ‘historiador’, ouvia alguns dizerem isso de mim. Gosto de definir-me como professor de história. É bom tamanho para mim. Michelet é historiador; Marc Bloch é historiador; Capistrano de Abreu é historiador; Carlos Guilherme Mota é historiador; Evaldo Mello é Historiador; José Antônio Gonçalves Mello é historiador; Niall Ferguson é historiador. Há muitos historiadores, eles possuem uma visão global dos acontecimentos e, na sua escrita, nas suas aulas, não apenas repetem o que leram, mas sintetizam e apontam possibilidades de interpretação que são decorrentes de seus estudos, da leitura de documentos, da leitura dos demais historiadores. São, também, professores de história. Eu sou apenas um professor de história, que escreveu alguns livros e tem alunos que, na noite em que recebem o diploma de licenciatura ou bacharelado, começam a chamar-se de historiadores, embora não consigam afastar-se dos adjetivos e das fofocas partidárias e religiosas.

Sobre o início de março

Março, para uma bela parcela dos brasileiros, é o mês que inicia o ano real uma vez que o carnaval foi finalmente vencido e, as aulas começaram, bem como a atividade de enganar o eleitorado, peça fundamental na vida dos políticos, passa a ser o comum nos parlamentos. As notícias da Lava-jato já não lavam a alma nem parece que mudarão o Brasil, como aparentava quando começou o processo de investigações. As prospecções dos resíduos do crime exigem investigações longas, e a atuação dos advogados dão mostra do quanto a população entrega-se ao jogo do faz de conta. Tudo vai sendo esquecido, como nas sociedades passadas. O que não é esquecido é reprimido profundamente, pois a vingança sangrenta já não se apresenta como solução e os pobres de hoje são mais impotentes que os pobres de antigamente. Eles tinham mais acesso aos mais ricos, dizendo de outra maneira: a distância física entre o súdito e o rei era bem menor do que a do cidadão e seu representante. Os governantes atuais são inacessíveis, só os encontramos nas redes sociais, essas redes de pessoas que nunca se encontram, se dizem amigas e brigam e ofendem pessoas que não conhecem. E também são processadas por estranhos que um dia solicitaram sua amizade. As redes sociais servem para nos lembrar daquilo que esquecemos tão logo lembramos. A máquina a que nos entregamos pensando que iríamos nos integrar, nos isola.

Neste começo de março, depois das águas que me lembraram que os ventos tiram as telhas do lugar, tivemos a notícia de que a televisão e a câmera do aparelho telefônico que carregamos no bolso e uso para conversar com a “minha sociedade”, conta tudo de mim, a quem? não sei. E também soube que uma equipe de uma universidade norte americana fez uma pesquisa que durou cinco anos para chegar à conclusão que, o dia seguinte à uma noite de intercurso sexual é mais produtivo porque as pessoas acordam mais alegres e dispostas, independente de terem alcançado as estrelas ou não. Todos os boêmios do mundo, todos os cornos, todas as cornas de todo mundo já sabiam disso. Mas ainda bem que existem sociólogos ociosos e companhias ricas que se completam na tarefa de produzir conhecimento tão necessário e fundamental para a sobrevivência de uma sociedade que pensa que é gasto inútil de tempo, o tempo que se toma para tocar e ser tocado, como um animal para se humanizar.

Nesta semana, dia 9, mesma data do nascimento de meu pai, fiz uma palestra, apresentando algumas “Reflexões sobre a Revolução de 1817 e sua presença nesses dois séculos”, tendo como referência a cidade de Olinda e seus arrabaldes. (se Paris assim pensa, por que não nós?). É o início de um projeto educacional que se alongará até dezembro, procurando envolver a sociedade olindense. Talvez se um grupo musical participasse, e houvesse uma mesa com biscoitos, não teríamos visto tantas cadeiras vazias, ouvindo sobre a Revolução da primeira independência, a que desejava uma república com liberdade de imprensa, opinião e outras prebendas que o absolutismo negava e nega. A reflexão do mês de Abril será A SIGNIFICAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS DE OLINDA PARA A EDUCAÇÃO DA LIBERDADE NO BRASIL.

Duzentos anos de uma republica em uma monarquia.

Chegamos a março de 2017 e a Revolução Pernambucana tornar-se-á bicentenária. Necessário se faz promover a rememoração daqueles eventos tão importantes na história dos pernambucanos e dos brasileiros. Foi uma revolta contra aumentos de impostos definidos pela Corte do Reino do Brasil, sediada no Rio de Janeiro, quase todo aproveitado para melhoria da capital, em prejuízo para as províncias, especialmente as do Norte. Pernambuco em 1817 não se levantou contra o Império Colonial Português, uma vez que, desde 16 de dezembro de 1816 o Estado do Brasil foi, por decreto do príncipe regente, Dom João, posto na condição de Reino, em igual situação à Portugal e Algarves. O Brasil tornava-se Reino sob o comando de Dom João, e centro da Monarquia luso-brasileira.
Erram em muito os manuais e livros de História do Brasil em considerar o movimento iniciado em 6 de março de 1817 como sendo uma “rebelião colonial” igualando-o aos justos movimentos ocorridos em Minas Gerais (1789) e Bahia (1798). A conjuntura local e europeia havia mudado substancialmente desde os eventos franceses da Assembleia dos Estados Gerais, que se transmudou em Assembleia Constituinte que veio a pôr um final ao absolutismo dos Bourbon.
Doutra feita, a Revolução fez aparecer o general Napoleão Bonaparte que se fez Imperador dos Franceses e, com sua política de anexação dos Estados, forçou a transferência da monarquia portuguesa para sua colônia na América. O Império napoleônico não durou tanto e, o processo de Restauração das Monarquias europeias abriu possibilidades para que o Regente Dom João pusesse fim ao período colonial, tornando o Brasil um Reino que foi acolhido como tal na sociedade das nações. As celebrações comemorativas da Revolução de 1817 devem enfatizar os aspecto acima explicitado e, ao mesmo tempo, aproximar tal orientação aos brasileiros em geral e especialmente aos pernambucanos.
Este Projeto justifica-se quando propõe que futuros historiadores e professores de história debrucem-se sobre aqueles acontecimentos e, ultrapassando os limites do tempo da luta e da repressão, vejam, estudem e analisem qual foi e qual tem sido a percussão e manutenção dos ideais daquele movimento e dos seus autores, observando as maneiras de como a sociedade olindense os guardou, conservou, viveu e os vive atualmente. É para alcançar os objetivos acima mencionados que as ações desse projeto serão realizadas no seio de algumas comunidades que formam a cidade de Olinda. A realização deste projeto carece da ação da Universidade, pois ao realiza-lo estaremos em contato com a mais antiga tradição da Universidade Federal de Pernambuco, a Escola de Estudos Jurídicos de Olinda. E, nos esforçaremos a pensar como Olinda, sede do Seminário de onde brotou a liderança da Revolução que agora completa duas centúrias e mostrou, com o sangue dos Patriotas, o caminho da Independência.

Nesta Segunda feira daremos início a uma série de palestras enfatizando a permanência, ou não permanência, da Revolução de 1817 nos espaços de Olinda, ao mesmo tempo, veremos como cresceu Olinda e como reagimos à memória de tão memomrável REvolução.

Preparar e viver o carnaval

O carnaval virá oficialmente nos dias finais de fevereiro. Mas isso não impede o treinamento necessário vivê-lo intensamente, física e espiritualmente, no momento de sua realização. As gêmeas Olinda e Recife são, nos finais de semana, campo de treino, e aprendizagem para tornar batuqueiros e bebedores resistentes para o que os espera nos dias oficiais do Reinado de Momo, o rei que tudo permite, inclusive a melancolia dos Pierrots, embora esses sejam hoje em número cada vez menor. As Colombinas já não são tão recatadas e já pouco importa as lágrimas desse lastimoso personagem superado no tempo. Como já percebia Zé Keti nos ano setenta, há “mais de mil palhaços no salão” e nem mesmo é necessário o uso de máscaras. O carnaval não é uma comédia de l’arte, é uma comédia.
O mês de fevereiro começa com celebrações em homenagem a Nossa Senhora e/ou Iemanjá, e isso depende do grupo social a que se esteja atrelado por nascimento e/ou por opção. Tradicionalmente sabemos que há pessoas que costumavam gostar mais do “e”, entretanto, defensores de tradições outras, por serem multiculturais, preferem o “ou”, deixando claro que são tolerantes a todos, menos aos que sabem ser mamelucos ou outro tipo de mestiço. Claro que no carnaval nada disso conta muito. Houve um tempo que o toque dos tambores alertava a polícia que, de pronto cuidava de silenciá-los, na busca de evitar que se continuasse essa africanização do Brasil. O carnaval mostra o fracasso dessa tentativa boba. Passeando em Olinda nesse tempo de preparação para os rituais momescos, podemos observar que os tambores (hoje se prefere dizer Alfaia) estão nas mãos de jovens, mais moças que moços, que pouco lembram os bantús e nagôs que trouxeram esses batuques transoceânicos. As alfaias que desfilam nas ruas olindenses não cabem nos orçamentos familiares dos descendentes africanos, embora eles continuem na função de Ogans. O carnaval nos leva sempre ao Brasil do “e”.

Mas, as semanas que antecedem o carnaval também são de preparação para os prestadores de serviços diversos àqueles que só têm três dias para cair na brincadeira que os anjos teriam inventado, segundo uns versos de Nelson Ferreira: são fornecedores de chapéus, turbantes, fantasias, bebidas diversas, tudo que possa estimular o fervor do súdito de Momo. Alguns desses fornecedores são moradores das periferias, invisíveis durante o ano, continuam invisíveis durante o carnaval. São percebidos na medida em que entregam a mercadoria e, logo em seguida são esquecidos, como o Pierrot da Colombina.

E, contudo, o carnaval é também a constante lembrança da vida que pulsa e deseja ser menos contida, mais alegre que as obrigações diárias dos outros dias do ano. O carnaval é uma das muitas maneiras inventadas pelos homens para louvar a fertilidade da vida que vem escondida em um pedaço de tecido ou de sorriso; numa canção ou em um abraço inesperado.

Uma característica do carnaval é que ele atrai gente de fora da comunidade imediata; vem para o carnaval, em Olinda e em outras cidades do Brasil, pessoas de outros carnavais vividos em outros lugares, podem ser pessoas que em seus locais de vida já não tem um carnaval como os que são contados nas histórias de seus antepassados. Há pessoas que viajam para longe de suas casas para encontrar o País da Cocanha. É que ouviram dizer que ele existe em terras longínquas, terras onde a juventude é perene e os limites são menos densos. Essas pessoas ajudam a criar o carnaval na medida em que deixam de ser turistas, se deixam contaminar pelo ‘micróbio do frevo’ e passam a experimentar a doença da alegria, ainda que seja auxiliada pelo bate-bate de maracujá ou pela batida de limão. E, quando vier a quarta feira, ficará na lembrança os momentos vividos ao lado de Vênus, Dionísio, Rudá. E cantarão:
“tive um sonho que durou três dias,
foi um sonho lindo em sonho encantador,
eu dançava e tu me conduzias ao castelo azul onde mora o amor…”

Esquecidos

Os esquecidos
Por Biu Vicente

Janeiro de 17 quase ao seu final e tudo parece tão modificado que já se torna difícil lembrar o que ocorreu no mês passado.

Muitas mortes ocorreram no Brasil em duas semanas. Uma estatística diz que nos primeiros quinze dias foram mortos quase um policial por dia neste país pacífico. Por seu turno, em três presídios parece ter havido um esforço para superar as mortes nas guerras que estão em andamento naquela parte do mundo que os professores de história nos ensinam terem se formado as primeiras civilizações. Nos tempos de Hamurabi o código dizia que o olho perdido exigia que o outro perdesse seu olho. Nas prisões brasileiras o que está valendo nem é a Lei do Talião, mas a lei que não reconhece o direito simples de viver, se mata para não morrer, enquanto não se é morto. O que os programas de informação estão a nos mostrar é a prática de matar para não ser morto. A decapitação retorna como prática comum, tanto nas guerras do Oriente Médio que usam a religião como justificativa, quanto nos presídios nos quais a justificativa é manter-se vivo, ou explicitar qual a facção está no comando do país. Falta apenas o carnaval de cabeças espetadas, como ocorria nas ruas de Paris no Período do Terror.

O Estado Brasileiro acostumou-se a pensar em apenas 30% da população, fazia planejamento apenas para um terço dos habitantes do país, agora se vê obrigado a ampliar suas preocupações. A sociedade ampliou-se, embora sem fazer crescer proporcionalmente a produção de riquezas. Se há mais gente consumindo, tem haver um crescimento da produção e um alargamento da oferta de ocupação, de oportunidades educacionais, de possibilidades de recreação, facilidade de locomoção, ampliação de coleta de lixo e atendimento preventivo para garantir a saúde e a segurança dos novos grupos convidados a serem plenamente cidadãos, etc.; sem esses complementos cria-se uma sociedade anômica e anêmica social e culturalmente. O Estado que sempre pensou apenas em um terço da sociedade, deve aprender a pensar mais largamente. Novos tempos, novos hábitos. Mas formar novos hábitos leva algum tempo, e pode ser que nosso jovem Estado de apenas duzentos anos, ainda incompletos, já esteja bastante envelhecido; parece que perdeu a prática de sonhar e desejar mudar: ser capaz de sacrificar-se por uma causa é coisa de jovens; ser capaz de fazer os outros sacrificar-se por uma causa, é próprio dos velhos, especialmente dos velhos que venderam seus ideais ainda na segunda idade e, na terceira idade, só pensam em seus confortos. São elefantes que gostam de conforto enquanto esperam a morte. Essa parece ser uma imagem que representa bem a elite que hoje está à frente do Brasil, (talvez não apenas no Brasil, mas em outros países) homens velhos que não souberam ou não quiseram deixar brotar e crescer o novo. Preferiram as novidades, e assim somos uma sociedade que está sempre ofertando novidades a meninos crescidos que se tornam velhos sem experimentar a juventude. Levaram a sério aquela história que “a juventude é uma calça jeans azul e desbotada”.

Na mais rica nação do mundo ocorreu a posse de um novo mandatário que, parece, está disposto a mandar às favas tudo que lembre a construção de uma civilização, uma possibilidade, uma chance para a humanidade. Prefere, ele, apenas a lealdade a seu grupo pequeno. Pensar na humanidade tornou-se estranho, uma vez que vivemos em uma sociedade que cuida de agir pelo prazer do imediato, cuida do pequeno retalho, do fragmento que se escolhe para dizer que é seu. Começamos a agir como aquela galinha da fábula que, tendo caído uma jabuticaba em sua cabeça, saiu a cacarejar que havia caído um pedaço do céu. Donald Trump, em seu discurso de posse citou o “homem esquecido”, imagem utilizada por Franklin Delano Roosevelt, para referir-se aos desempregados da Grande Depressão dos anos 30 do século passado. Este novo presidente foi eleito com o voto dos esquecidos, dos desempregados, daqueles que aparecem nos livros como estatísticas, números sem história que contam a história dos anônimos, esquecidos por aqueles que dizem defendê-lo, enquanto fortalecem sistemas que os tornam mais esquecidos nas histórias. William Reich os chamava de Zé Ninguém. O Zé Ninguém pensa do pescoço para baixo.

Embora bilionário ou trilionário, Trump era um “homem esquecido” a quem não se dava crédito, mas ele falava com os outros esquecidos, com a linguagem necessária para manter a pulsão de vida, a vida não sofisticada, a mais simples. Esses esquecidos se fizeram lembrar. Agora veremos até onde iremos com ideais tão pequenos: como uma conta bancária, um prato de feijão ou lentilhas, a vitória do clube, da tribo da nação que substituem humanidade.

Na cerimônia de sua posse, Trump, que é um homem esquecido, esqueceu que estava acompanhado da esposa.